Em um tempo em que muitos ainda acreditavam que a santidade era um chamado reservado apenas aos sacerdotes, religiosos ou a almas extraordinárias afastadas do mundo, São Josemaria Escrivá surge como uma das grandes vozes espirituais do século XX para recordar uma verdade esquecida desde os primeiros séculos do cristianismo: todos os batizados são chamados à santidade, não apesar da vida comum, mas precisamente dentro dela.
Décadas
antes mesmo do Concílio Vaticano II proclamar solenemente na Lumen Gentium a
doutrina da vocação universal à santidade, São Josemaria já pregava com clareza
profética que Deus chama cada pessoa a ser santa no meio do mundo, nas
realidades mais simples e aparentemente comuns da existência humana: no
trabalho, na família, nas responsabilidades sociais e nas pequenas fidelidades
diárias.
Fundador da Opus Dei em 2 de outubro de 1928, ele pode ser considerado um dos grandes precursores espirituais daquilo que o Concílio depois apresentaria de forma doutrinal:
A redescoberta da dignidade da vocação laical e do valor
santificador da vida cotidiana. Se o Concílio apresentou a teologia dessa
verdade, São Josemaria foi um dos que mais profundamente ajudou a traduzi-la em
espiritualidade concreta e prática, mostrando como essa santidade pode ser
vivida no ritmo normal da existência.
Nesse sentido, pode-se dizer que ele foi um dos santos que mais ajudaram a “encarnar” o espírito do Concílio na vida real, mostrando que a santidade não é uma fuga do mundo, mas uma transformação do mundo a partir de dentro.
Ele mostrou
que o escritório, a sala de aula, o comércio, o campo, a política, a cultura e
o lar podem se tornar verdadeiros altares onde a vida oferecida a Deus se
transforma em oração viva.
Sua famosa síntese espiritual expressa isso de forma genial:
“Santificar o trabalho, santificar-se no trabalho e santificar os
outros através do trabalho.”
Essa frase resume não apenas um método espiritual, mas uma verdadeira revolução silenciosa na compreensão da santidade cristã: não se trata apenas de rezar mais, mas de transformar toda a vida em oração.
O Papa João Paulo II, que o canonizou em 2002, reconheceu
justamente essa atualidade de seu carisma, vendo nele uma resposta providencial
para o cristão inserido no mundo moderno. Contudo, já em 1950, o Papa Pio XII
havia reconhecido oficialmente esse carisma como um verdadeiro dom do Espírito
Santo para a Igreja, confirmando que essa espiritualidade correspondia
profundamente à tradição cristã.
São Josemaria meditou, rezou e escreveu inúmeras vezes sobre a santificação do trabalho humano, não como teoria, mas como caminho concreto de transformação pessoal e apostólica. Ele insistia que o cristão deve ser presença de Deus no ambiente em que vive. Por isso afirmava:
“Tens de comportar-te como uma brasa incandescente, que pega fogo
onde quer que esteja. Ou, pelo menos, procura elevar a temperatura espiritual
dos que te rodeiam, levando-os a viver uma intensa vida cristã” (Forja, 570).
Essa imagem da “brasa incandescente” revela bem sua visão: o cristão não deve simplesmente adaptar-se ao ambiente, mas transformá-lo pela coerência de vida, pela caridade, pela competência profissional e pelo testemunho silencioso das virtudes. Não por imposição, mas por irradiação.O homem cheio de Deus transborda naturalmente essa presença. Seus pensamentos, suas palavras e suas atitudes tornam-se reflexo daquilo que carrega no coração. Por isso, onde existe desonestidade, mediocridade moral, ambientes tóxicos ou desesperança, o cristão é chamado não a fugir simplesmente, mas a ser fermento, sal e luz, elevando o nível humano e espiritual desses ambientes pela sua própria vida.
Mas isso levanta uma pergunta fundamental: por onde começa essa
transformação?
São Josemaria sempre foi muito realista: a santidade no trabalho não começa tentando mudar os outros, mas mudando a si mesmo. Começa na competência profissional, no dever bem feito, na honestidade invisível, na paciência nas contrariedades, na caridade nas relações difíceis, na humildade em reconhecer erros e na retidão de intenção que transforma tarefas comuns em oferta espiritual.
O primeiro apostolado é o exemplo.O primeiro passo não é falar de
Deus, mas viver de tal forma que Deus se torne crível através da própria vida.
É exatamente esse despertar que este despretensioso texto deseja provocar: redescobrir, à luz dos ensinamentos desse grande santo do cotidiano, que a santidade não é algo extraordinário reservado a poucos, mas uma possibilidade real para qualquer pessoa que deseje viver com profundidade a graça do seu batismo.Porque talvez uma das maiores contribuições de São Josemaria para a espiritualidade moderna tenha sido justamente esta: mostrar que o lugar mais comum do mundo pode se tornar o lugar mais santo do mundo, quando ali existe uma alma que decidiu amar a Deus nas pequenas coisas.