por*Francisco José Barros de Araújo
A recente Profissão de Fé publicada pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) apresenta-se como uma síntese da Tradição Católica e como uma reafirmação da fé de sempre.
À primeira vista, o documento impressiona pela abundância de citações de Concílios, Padres da Igreja e documentos pontifícios anteriores ao Concílio Vaticano II.
Entretanto, uma leitura criteriosa revela que sua metodologia consiste em selecionar apenas os textos da Tradição que confirmam sua própria interpretação, enquanto silencia outros ensinamentos igualmente magisteriais que relativizam ou mesmo contradizem algumas de suas conclusões.
A Tradição da Igreja não é uma coleção de frases das quais cada grupo pode retirar apenas aquilo que lhe convém. Ela constitui um patrimônio vivo, orgânico e indivisível, transmitido ao longo dos séculos pela Sagrada Escritura, pela Sagrada Tradição e pelo Magistério vivo da Igreja. Nenhum instituto, movimento, escola teológica ou fiel possui autoridade para escolher quais ensinamentos permanecerão vinculantes e quais poderão ser simplesmente ignorados por serem considerados inconvenientes.
Ao confrontar a profissão de fé da FSSPX com o conjunto do Magistério anterior ao Vaticano II, percebe-se exatamente esse problema: textos são frequentemente destacados de seu contexto histórico, doutrinal e magisterial para servirem de fundamento a uma interpretação própria da Tradição.
-Enquanto isso, numerosos ensinamentos igualmente autorizados — sobre a obediência ao Romano Pontífice, a submissão ao Magistério autêntico, a autoridade da Igreja para legislar em matéria disciplinar e litúrgica, o papel indispensável do Magistério na interpretação da Revelação, a legítima busca da unidade dos cristãos e outros temas — são simplesmente omitidos.
-Em outras palavras, a profissão de fé não apresenta toda a Tradição da Igreja, mas uma leitura particular da Tradição.
Em vez de deixar que a Tradição interprete a si mesma por meio do Magistério vivo, acaba submetendo a própria Tradição a um critério previamente estabelecido pela Fraternidade. Dessa forma, textos retirados do seu contexto passam a servir de pretexto para justificar uma tradição interpretativa própria.
Se os reformadores protestantes romperam com a fé católica ao defenderem o princípio da sola Scriptura, reduzindo a Revelação à interpretação privada das Escrituras, corre-se o risco de incorrer em um erro metodológico semelhante quando se absolutiza uma determinada leitura da Tradição, desvinculada do Magistério vivo da Igreja. A Tradição nunca existiu separada da autoridade docente instituída por Cristo. Ela sempre foi transmitida, conservada e interpretada pela Igreja, sob a assistência do Espírito Santo.
É justamente sob essa perspectiva que esta análise examinará a profissão de fé da FSSPX, confrontando cada um de seus principais pontos com o Magistério anterior ao Concílio Vaticano II. O objetivo não é negar as numerosas verdades católicas presentes no documento, mas demonstrar que uma profissão de fé verdadeiramente católica deve acolher a totalidade do ensinamento da Igreja, e não apenas os textos que corroboram uma determinada corrente de interpretação.