Cuidado com Aparições e Revelações Particulares Não Reconhecidas pela Igreja:o Caso de El Palmar de Troya em 1968 como Advertência Teológica e Pastoral
Ao longo da história do cristianismo, relatos de aparições, visões e revelações privadas exerceram forte impacto sobre a piedade popular. Embora a Igreja Católica reconheça a possibilidade de revelações privadas autênticas, ela sempre insistiu na necessidade de um rigoroso discernimento teológico, pastoral e psicológico, justamente para proteger os fiéis de abusos, fraudes e manipulações da fé. O caso de El Palmar de Troya, surgido na Espanha em 1968, constitui um dos exemplos mais emblemáticos e trágicos de como supostas aparições não reconhecidas podem dar origem a cisma, heresia, exploração econômica e crimes graves, quando desconectadas da autoridade legítima da Igreja.
A recente minissérie O Palmar de Troya reacendeu o debate ao expor, com documentos e testemunhos inéditos, como a devoção sincera de milhares de fiéis foi instrumentalizada ao longo de quase cinquenta anos por líderes que se autoproclamaram papas, criaram doutrinas próprias e estabeleceram um sistema religioso fechado, autoritário e abusivo.
Este estudo analisa o fenômeno à luz da teologia católica, do magistério da Igreja e da história religiosa contemporânea, oferecendo critérios objetivos de discernimento.
1. Revelações privadas na doutrina católica
A Igreja Católica ensina que a Revelação pública — encerrada com a morte do último apóstolo — contém tudo o que é necessário para a salvação. Revelações privadas, mesmo quando reconhecidas, não pertencem ao depósito da fé e jamais podem contradizer a Escritura, a Tradição e o Magistério.
O Catecismo da Igreja Católica afirma:
“A função das revelações privadas não é ‘completar’ a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a vivê-la mais plenamente numa determinada época da história” (CIC, n. 67).
Por isso, nenhuma revelação privada pode:
-Criar novos dogmas
-Anular concílios ecumênicos
-Invalidar o Papa legítimo
-Fundar uma “nova Igreja”
2. O surgimento das supostas aparições em El Palmar de Troya (1968)
Em 30 de março de 1968, quatro meninas afirmaram ter visto “uma senhora muito bonita” em uma propriedade rural chamada La Alcaparrosa, nos arredores de El Palmar de Troya, na Andaluzia. O fenômeno rapidamente atraiu peregrinos e curiosos, dando início a um ambiente de forte emotividade religiosa.
Nos anos
seguintes, diversos “visionários” passaram a relatar mensagens atribuídas à
Virgem Maria, sempre com forte tom apocalíptico, condenatório e
anti-hierárquico.
Em 1968 e 1972, o então arcebispo de Sevilha, Cardeal José Bueno y Monreal, após investigação canônica, declarou oficialmente as aparições como “supersticiosas e fruto de histeria coletiva”, proibindo qualquer culto público no local.
3.
Clemente Domínguez y Gómez e a construção de um mito fundante
A figura central do movimento foi Clemente Domínguez y Gómez, um ex-contador que passou a afirmar visões frequentes de Jesus, da Virgem Maria e de santos, incluindo Padre Pio. Segundo ele, o Concílio Vaticano II seria inválido, a Missa promulgada por Paulo VI uma blasfêmia, e Roma teria sido tomada por maçons e comunistas.
Em 1978, após a morte de Paulo VI, Clemente declarou-se Papa Gregório XVII, alegando ter sido coroado diretamente por Cristo.
Esse gesto marcou o rompimento definitivo com a Igreja Católica e a fundação da chamada Igreja Cristã Palmariana, um grupo cismático que se autodeclarou o verdadeiro sucessor da Sé de Roma.
4. Estrutura sectária, controle e abusos - A Igreja Palmariana passou a impor regras rigorosas:
-Uso obrigatório do latim (mas sem a Missa Tridentina autêntica)
-Proibição de filmes, eleições e contato com não membros
-Dízimo obrigatório
-Vestimentas rígidas para mulheres
-Excomunhões arbitrárias
Criou-se uma estrutura fechada, autorreferente, onde qualquer crítica era interpretada como perseguição demoníaca. Ao longo das décadas, vieram à tona denúncias de:
-Falsas relíquias
-Canonizações absurdas
-Manipulação psicológica
A Relação do Cardeal espanhol José María Bueno Monreal com o Caso de Palmar de Troya
O fenômeno religioso ocorrido em Palmar de Troya, na Espanha, a partir do final da década de 1960, foi desde o início objeto de forte oposição e condenação oficial por parte da Igreja Católica Romana. A principal autoridade eclesiástica responsável por essa intervenção foi o Cardeal José María Bueno Monreal, Arcebispo de Sevilha entre 1957 e 1982, em cuja jurisdição se encontrava o local das supostas aparições.
Longe de qualquer ambiguidade, a posição de Dom Bueno Monreal foi clara, pública e reiterada, classificando o movimento como não sobrenatural, supersticioso e cismático.
Oposição e Intervenção Oficial (1970–1972)
Em 18 de maio de 1970, diante da crescente repercussão das alegadas visões marianas atribuídas a Clemente Domínguez y Gómez e outros seguidores, o Cardeal denunciou publicamente o fenômeno de Palmar de Troya como um caso de “histeria coletiva e supersticiosa”, rejeitando qualquer possibilidade de origem sobrenatural. Mesmo após essa advertência, o fluxo de peregrinos continuou a aumentar. Diante da persistência do culto irregular, Dom Bueno Monreal publicou um novo pronunciamento em 18 de março de 1972, no qual proibiu oficialmente a devoção a “Nossa Senhora do Palmar”, reforçando a condenação já expressa anteriormente.
Proibição de Culto e Interdição ao Clero
O decreto do Arcebispo foi particularmente rigoroso ao proibir expressamente que sacerdotes católicos romanos celebrassem missas, participassem de cultos ou mesmo estivessem presentes no local das supostas aparições, conhecido como campo de Alcaparrosa. Essa medida visava impedir que o movimento adquirisse qualquer aparência de legitimidade canônica ou apoio institucional da Igreja.
Ausência de Reconhecimento e Deriva Cismática
Como consequência direta dessa postura firme, os líderes do movimento de Palmar de Troya não contaram com qualquer apoio ou reconhecimento da Arquidiocese de Sevilha. Isolados da hierarquia legítima da Igreja, acabaram buscando ordenações episcopais fora da jurisdição canônica, dando início a uma estrutura paralela que culminaria na formação da chamada "Igreja Palmariana", considerada pela Igreja Católica Romana como uma "seita cismática".
Em síntese, o Cardeal José María Bueno Monreal foi a principal autoridade da Igreja Católica que tentou conter, desde o início, o surgimento e a expansão do movimento de Palmar de Troya, classificando-o de forma inequívoca como não sobrenatural, supersticioso e cismático. Sua atuação representa um exemplo claro de intervenção episcopal contra fenômenos religiosos irregulares que se afastam da doutrina e da disciplina da Igreja.
5. A falsa teologia sacramental e eucarística
Segundo estudos acadêmicos, como os do historiador Pedro Luiz Câmara, a Igreja Palmariana abandonou tanto o rito romano tradicional quanto o reformado, criando um ritual próprio extremamente reduzido.
Além disso, desenvolveu uma doutrina estranha à fé católica, como a crença na presença real da Virgem Maria na Eucaristia, algo absolutamente incompatível com a teologia sacramental católica.
6. O posicionamento definitivo da Igreja Católica
A Santa Sé, por meio da Congregação para a Doutrina da Fé, declarou todos os clérigos palmarianos *"excomungados ipso iure". As ordenações e consagrações foram consideradas ilícitas, e o culto proibido.
*Excomungados ipso iure significa excomungados automaticamente, pelo próprio fato cometido, sem necessidade de julgamento ou declaração prévia da autoridade eclesiástica.Na linguagem do Direito Canônico, ipso iure (expressão latina) quer dizer “pela própria lei”. Ou seja: a pessoa incorre em excomunhão no exato momento em que pratica determinado ato gravemente contrário à fé ou à disciplina da Igreja, quando esse ato já está previsto no Código de Direito Canônico como passível dessa pena.
Exemplos clássicos de atos que geram excomunhão ipso iure:
-Consagrar bispos sem mandato do Papa;
-Fundar ou aderir a uma igreja cismática;
-Usurpar o título ou a autoridade do Papa;
-Profanar a Eucaristia.
No caso de El Palmar de Troya, Clemente Domínguez y Gómez e seus seguidores foram considerados excomungados ipso iure porque romperam publicamente a comunhão com a Igreja Católica, criaram uma hierarquia paralela e se autoproclamaram legítima autoridade eclesial — o que caracteriza cisma formal, uma das causas mais graves de excomunhão automática.
O caso de El Palmar de Troya tornou-se referência negativa nos estudos sobre seitas de origem cristã, demonstrando como o afastamento da autoridade legítima da Igreja abre espaço para graves distorções doutrinárias e morais.
Conclusão
O caso de El Palmar de Troya não é apenas uma curiosidade histórica ou um escândalo religioso; trata-se de uma advertência permanente.
Ele revela como a fé, quando desligada do discernimento racional, da obediência e da comunhão eclesial, pode ser instrumentalizada por líderes carismáticos e transformada em ferramenta de dominação e abuso.
A Igreja, longe de sufocar a espiritualidade, exerce seu papel materno ao submeter supostas revelações a um exame rigoroso, protegendo os fiéis e preservando a integridade da fé. Como recorda São João da Cruz, “o desejo de visões e revelações já é sinal de imperfeição espiritual”. O verdadeiro caminho cristão permanece sendo aquele que passa pela fé, pela razão, pela caridade e pela obediência, não pela curiosidade sensacionalista nem por líderes autoproclamados.
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-AVENTURAS NA HISTÓRIA. Minissérie revela esquema que por mais de 40 anos teve igreja espanhola como fachada.
-WIKIPÉDIA. Igreja Cristã Palmariana.
-WIKIPÉDIA. Nossa Senhora do Palmar.
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