Por *Francisco José Barros
Araújo
Em tempos de grande efervescência espiritual, torna-se cada vez mais urgente reafirmar o lugar único e insubstituível do Magistério da Igreja como critério seguro e definitivo para a fé. A proliferação de mensagens particulares, visões subjetivas, interpretações privadas e manifestações supostamente sobrenaturais pode facilmente seduzir os fiéis, sobretudo quando revestidas de aparência piedosa, tom profético ou linguagem apocalíptica.
Entretanto, a Igreja ensina com firmeza que a Revelação divina foi plenamente concluída em Cristo e que sua correta interpretação foi confiada unicamente ao Magistério autêntico. Nenhuma revelação — mesmo as reconhecidas oficialmente — tem autoridade para completar, corrigir ou rivalizar com a Palavra definitiva de Deus. Nesse contexto, é essencial recordar que nenhuma revelação privada é obrigatória à fé; sua aceitação nunca constitui critério de ortodoxia. A fé católica não se apoia em fenômenos extraordinários, mas na Palavra revelada por Deus, transmitida pela Tradição viva da Igreja e iluminada pelo Magistério infalível.
Por isso, antes de buscar “mensagens novas”, cabe ao fiel conhecer profundamente aquilo que Deus já nos deu de maneira segura: a doutrina da Igreja, especialmente sintetizada no Catecismo. Somente a partir dessa base sólida é possível discernir, com maturidade e prudência, o valor espiritual de qualquer manifestação privada, evitando os perigos — sempre reais — de criar um “magistério paralelo”, movido mais por emoções e expectativas do que pela verdade de Cristo.
É nesse cenário que surgem fenômenos como o das chamadas “Profecias do Padre Oliveira”. Quem não já se deparou com postagens, vídeos e comentários nas redes sociais sobre esse suposto sacerdote gaúcho que, segundo dizem, teria previsto o falecimento de Bento XVI? O caso tomou os holofotes dos ambientes católicos porque, até pouco tempo, essas revelações eram inteiramente desconhecidas. O que realmente impulsionou sua difusão foi a afirmação de que Nossa Senhora revelara a esse padre que, após um período de conflitos e provações, o Brasil seria salvo do comunismo por intervenção divina (um plágio de Cimbres no Recife). Trata-se de uma ideia bonita, profundamente desejada por muitos, e justamente por isso tão facilmente acolhida sem o devido discernimento.
É verdade que a Igreja reconhece a importância de algumas revelações privadas ao longo da história. Exemplo disso são as visões de Santa Margarida Maria Alacoque, que difundiram a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, e a mensagem de Nossa Senhora de Fátima, que gerou um movimento mundial de conversão e penitência.
Contudo, o que muitas vezes é esquecido é que mesmo essas revelações aprovadas não pertencem ao depósito da fé; elas podem ajudar a vivê-la melhor, mas jamais substituem ou ampliam a Revelação já completa. Por isso, os critérios da Igreja sempre foram claros: prudência, discernimento, investigação rigorosa e jamais aceitação apressada. É exatamente aí que se torna necessário aplicar essa sabedoria ao caso do Padre Oliveira.
O principal motivo que levou tais visões ao estrelato — a profecia sobre a restauração miraculosa do Brasil — ainda não se cumpriu e, como toda revelação privada, não pode nem deve orientar a vida de fé dos católicos. O fato de uma previsão parecer “bonita” ou “consoladora” não lhe confere autenticidade. Na verdade, justamente por despertar fortes emoções, a Igreja recomenda ainda maior cautela. Assim, diante de qualquer suposta revelação privada, o ensino constante da Igreja permanece válido: duvide, investigue, submeta tudo ao Magistério e jamais trate tais mensagens como verdades de fé. A revelação pública — aquela dada por Cristo e guardada pela Igreja — é suficiente, segura e plenamente capaz de conduzir o cristão à salvação. Tudo o que ultrapassa isso deve ser acolhido com extrema prudência e jamais com ingenuidade espiritual. Se o fiel permanecer ancorado no Magistério, jamais será enganado. Mas se permitir que revelações não autenticadas — ou mesmo aprovadas — ocupem o lugar da doutrina, corre o sério risco de substituir a fé de sempre por expectativas humanas. E esse é o caminho mais rápido para o erro, a confusão e a perda da verdadeira fé.