O ícone ortodoxo da “descida de Jesus à mansão dos mortos” é muito mais que uma simples representação artística: trata-se de uma verdadeira catequese visual, uma teologia pintada que comunica, por meio de símbolos, aquilo que as Escrituras e a Tradição ensinam sobre o mistério da redenção. Na espiritualidade cristã oriental, os ícones não são apenas obras decorativas, mas janelas para o transcendente, instrumentos de contemplação e oração que ajudam o fiel a penetrar nos mistérios da fé. Como explica o padre Richard Cannuli, a própria confecção de um ícone já é, em si, um caminho espiritual.
Cada material possui um significado teológico: a madeira recorda a árvore do paraíso, a arca de Noé e, sobretudo, a cruz de Cristo; o ouro simboliza a luz divina e a presença do Espírito Santo; o longo e paciente processo de produção recorda que a vida espiritual não pode ser apressada, mas exige silêncio, oração e perseverança. Assim, o ícone nasce não apenas das mãos do artista, mas também de sua oração.
Dentro dessa tradição, o ícone da descida de Cristo à mansão dos mortos apresenta uma profunda leitura mística da Ressurreição. Diferente da iconografia ocidental, que muitas vezes mostra apenas Jesus saindo do túmulo, a tradição oriental destaca o significado espiritual desse evento: Cristo desce às profundezas da morte para libertar a humanidade. No centro da imagem está Cristo glorioso, vencedor da morte, quebrando as portas do inferno e resgatando Adão e Eva, representando assim toda a humanidade redimida.
Essa representação encontra fundamento nas Sagradas Escrituras, especialmente nas cartas de São Pedro e em outras passagens do Novo Testamento que falam da pregação de Cristo aos mortos e de sua vitória sobre a morte. Também é um ensinamento presente desde os primeiros séculos do cristianismo, testemunhado por diversos Padres da Igreja, mostrando que esta não é uma ideia tardia, mas parte da fé cristã primitiva.
O ícone, portanto, sintetiza de forma visual aquilo que a teologia desenvolveu ao longo dos séculos: a vitória de Cristo não foi apenas um evento histórico, mas um acontecimento cósmico e espiritual que atingiu todas as dimensões da existência humana, inclusive a própria morte. Ele revela que a Ressurreição não é apenas um triunfo pessoal de Jesus, mas o início da restauração de toda a humanidade.
O ícone ortodoxo da "descida de Jesus a mansão dos mortos" e sua leitura mística
O Padre Richard Cannuli nos atualiza essa antiga tradição da elaboração de ícones e mosaicos, ensinando a seus alunos universitários da Universidade de Villanovam, na Pensilvânia (E.U.A). Em uma entrevista concedida a CNS durante um seminário realizado em Roma, o religioso agostiniano e artista sacro falou sobre o significado espiritual desta antiga arte:
"O processo de fazer um ícone é como uma viagem espiritual e uma reflexão sobre a vida cristã", afirmou: "O ícone é pintado em madeira, que representa a árvore do jardim do paraíso, a Arca de Noé e a madeira da árvore na qual Cristo foi crucificado", explicou.
Os materiais naturais correspondem a uma tradição milenar que permaneceu inalterada. "É como representar a criação", expôs o artista enquanto umidecia com seu sopro a madeira, "quando Deus exalou a vida sobre Adão, um nome que vem do árabe "adeem", "pele da terra", ou argila. Sobre esta argila umidecia é estendida a fina lâmina de ouro que se adere ao material. "O ouro representa o Espírito de Deus que entra no ícone", acrescentou o Padre Cannuli, explicando que são necessários 22 passos e muito tempo para completar a obra."Uma coisa que se aprende é a paciência. (...) Os estudantes perguntam, "que posso fazer agora?". Normalmente lhes respondo que podem rezar ou ler". O processo não pode ser acelerado e requer esperar que certos materiais sequem apropriadamente. Um ícone pequeno pode requerer umas 40 horas de trabalho distribuídas em 15 dias.
O ícone Ortodoxo da "descida de Jesus a mansão dos mortos" e sua leitura mística
1 Pedro
3,18-20: “Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos
injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na
verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito; No qual também foi, e pregou
aos espíritos em prisão; Os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a
longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca;
na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram pela água...”
1Pd
4,6: “Porque por isto foi pregado o evangelho também
aos mortos, para que, na verdade, fossem julgados segundo os homens na
carne, mas vivessem segundo Deus em espírito”
Na tradição oriental, o
ícone da Ressurreição é representada pela descida aos infernos, à mansão dos
mortos. Ricos em símbolos, os ícones são “IMAGENS que visualizam a palavra bíblica em seus santos mistérios, e
levam aos olhos o que a palavra transmite ao ouvido”.
O centro da
composição mística do ícone, é Cristo glorioso e luminoso! Tendo arrombado as portas dos infernos,
Cristo as pisa, esmaga, e agarra o punho de Adão e Eva, que Ele arranca com vigor das trevas
da morte! Com Adão, toda a humanidade que é arrancada por Cristo do Sheol, o qual por primeiro e e seu amor misericordioso, tomou a
iniciativa de oferecer a Salvação!
Ainda no primeiro plano, saindo do túmulo,
Eva levanta as mãos cobertas pelo seu manto (não é igual em Adão), que pode ser em sinal de
reverência, ou o cumprimento da promessa de Cristo em Mateus 18,7-8:
“Ai do mundo, por causa das suas
ciladas! É inevitável que tais ofensas ocorram, mas infeliz da pessoa por meio
da qual elas acontecem! Sendo assim, se
a tua mão ou o teu pé te fizerem cair em pecado, corta-os e lança-os fora de
ti; pois melhor é entrares na vida, mutilado ou aleijado, do que, tendo as duas
mãos ou os dois pés, seres atirado no fogo eterno...” - Atrás dela (Eva), os justos e
os profetas do Antigo Testamento.
É significativo que a
ênfase em Adão dada em ícones anteriores é dispensada aqui. Tanto Adão e Eva
são puxados igualmente à mandorla de Cristo, sublinhando que esta divinização é
o destino de toda a humanidade – em verdade, de toda a criação! À esquerda, os reis
David e Salomão. Perto deles, João Batista, o precursor, aponta para Cristo. Em cima de Cristo, os
anjos, com as mãos cobertas em sinal de reverência, trazem a cruz e o
cálice do sangue oferecido pela humanidade.

Ganchos e correntes
rompidas jazem no buraco negro dos infernos, cujas altas encostas sublinham a
profundeza e a distância (intransponível, conforme Lucas 16,26) com o céu. No seu corpo transfigurado, Cristo escapa
às leis do mundo, a gravidade da corrupção e da morte. Ele está suspenso no
espaço. Vencedor da morte, Ele é transparência, abertura, libertação e Salvação, está em posição de resgate e imediata saída, em alusão a Jeremias 51, 6: "Babilônia não é o teu lugar, livrai cada um a sua alma, e não vos destruais na sua maldade..."
“Tendo
descido ao túmulo, ó Imortal!
Tu
destruíste o poderio dos infernos!
E Levantaste-te
como vencedor, ó Cristo Deus!
Tu,
que disseste às mulheres atemorizadas: rejubilai!
E
aos apóstolos, dás a paz!
Tu
que ressuscitas aqueles que sucumbiram...”
(Da Liturgia ortodoxa)
A
descida de Jesus a Mansão dos Mortos nas Escrituras:
Diversas passagens do
Novo Testamento já foram utilizadas para provar que Cristo teria descido ao
inferno ou ao reino dos mortos antes de sua ascensão. Duas passagens da
Primeira Epístola de Pedro são as principais bases para a fundamentação desta doutrina:
I
Pedro 3,19-20:
“no qual também foi [Jesus] pregar aos
espíritos em prisão, os quais noutro tempo foram desobedientes, quando a
longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé...”
I
Pedro 4,6: “Pois por isto foi o Evangelho pregado até aos mortos...”
A
passagem de Efésios 4,8-10 também, já foi proposto como sugerindo a doutrina da
descida ao inferno:
"Por isso diz: Quando Ele
subiu ao alto, levou cativo o cativeiro, Deu dons aos homens. Ora, que quer dizer isto: Ele subiu, senão
que também desceu aos lugares mais baixos da terra? Aquele que desceu é
também o que subiu muito acima de todos os céus, para encher todas as coisas.”
A
passagem de Zacarias 9,11 faz referência profética a "prisioneiros" numa "cova que não
há água"
Em Isaías 24,21-22 também profeticamente, faz
referência a “espíritos prisioneiros”!
"Naquele
dia Javé castigará o exército dos altos nas alturas, e os reis da terra sobre a
terra. Serão ajuntados, como presos são ajuntados na cova, serão encarcerados
na prisão, e depois de muitos dias serão visitados."
A doutrina
da descida de Jesus a Mansão dos mortos no cristianismo primitivo:
A descida de Jesus ao inferno era ensinada por teólogos na
igreja antiga primitiva, e o ensino aparece em diversas obras Cristãs:
1)- "Homilia sobre
a Paixão" de Melito de Sardis († c. 180).
2)- "Um Tratado
sobre a Alma", 55, de Tertuliano († c. 220).
3)- "Tratado sobre
Cristo e o Anticristo" de Hipólito († c. 236).
4)- "Contra
Celso", 2:43, de Orígenes († c. 253).
5)- E finalmente, os
sermões de Ambrósio de Milão († c. 397).
O Evangelho de Mateus
relata que: "imediatamente após a morte de Jesus, a terra tremeu, houve uma
escuridão e um eclipse, o véu no Templo se partiu em dois e muitas pessoas se
levantaram dos mortos e vagaram por Jerusalém, sendo vistas pela população." De
acordo com o apócrifo Evangelho de Nicodemos, a descida ao inferno foi
antecedida pela ressurreição de Lázaro dos mortos antes da crucificação. Nos
"Atos de Pilatos" - geralmente incorporado no texto medieval
"Evangelho de Nicodemos", amplamente lido - a narrativa foi
construída à volta de um original que pode remontar ao século III, com muitas
melhorias e interpolações. Os capítulos 17 a 27 da obra chamam-se "Decensus
Christi ad Inferos" e contém um dramático diálogo entre Hades e o príncipe Satã,
além da entrada do "Rei da Glória", visto como ocorrendo dentro do
Tártaro.
Conceitos
evolutivos na compreensão sobre a vida após a morte no Antigo e Novo Testamento:
-A visão do Antigo
Testamento sobre a vida após a morte, era a de que "todas as pessoas, justas ou
não, iam para o Sheol quando morriam. Nenhum hebreu jamais
desceu até lá e retornou, exceto uma visão do recém-falecido Samuel apareceu
para Saul quando invocada pela bruxa de Endor (I Samuel 28,7-25)." Diversas obras do período do Segundo Templo elaboram
sobre o conceito de Sheol, dividindo-o em seções baseadas na justiça e piedade
dos que morreram.
-O Novo Testamento defende uma distinção mais evoluída entre o Sheol, a
"mansão dos mortos", e o destino eterno dos que forem condenados no
Juízo Final, que é chamado de diversas formas: geena (por exemplo, em Mateus
5:22), "trevas exteriores" (como em Mateus 8,12) ou lago do fogo
eterno (ex. em Apocalipse 19,20). Esta distinção pode não ser aparente
dependendo da tradução utilizada, com algumas utilizando-se do termo
"inferno" indistintamente, ao contrário do original grego.
Interpretações
da doutrina dentro das quatro principais ramificações Cristãs:
1)- Na doutrina Católica (clássica e tradicional):
A doutrina da descida de Cristo à mansão dos mortos deve ser compreendida à luz do ensinamento constante do Magistério da Igreja e da síntese teológica de São Tomás de Aquino, evitando tanto interpretações simplistas quanto confusões sobre o significado da palavra “inferno” neste contexto. Uma antiga homilia do Sábado Santo, presente na Liturgia das Horas, expressa de forma profundamente teológica esse mistério ao descrever Cristo indo ao encontro de Adão como o pastor que busca a ovelha perdida.
Essa tradição é confirmada pelo Catecismo da Igreja Católica (§633-636), que ensina que a expressão “Jesus desceu à mansão dos mortos” significa que Cristo experimentou verdadeiramente a morte e que sua alma, unida à sua divindade, desceu ao estado dos mortos para manifestar sua vitória sobre a morte e o demônio (cf. Hb 2,14).
É fundamental compreender, como ensina a teologia tomista, que o termo “inferno” (do latim inferi, os lugares inferiores) não significa apenas o lugar dos condenados (Geena), mas de modo geral o estado das almas após a morte antes da redenção plena realizada por Cristo.
São Tomás de Aquino, na Suma Teológica (III, q. 52), explica que havia uma distinção entre os estados dessas almas:
-O inferno dos condenados, onde estavam os que morreram em pecado mortal;
-O purgatório, onde as almas eram purificadas;
-O limbo dos patriarcas ou Seio de Abraão, onde estavam os justos do Antigo Testamento aguardando a redenção;
-E o limbo das crianças (hipótese teológica tradicional).
Essa distinção aparece de forma simbólica na parábola do rico e do pobre Lázaro (Lucas 16,19-31), onde Jesus mostra claramente que havia uma separação entre o lugar dos justos (o Seio de Abraão) e o lugar dos ímpios, separados por um “grande abismo”.
Isso confirma que nem todos os que estavam na “mansão dos mortos” estavam na mesma condição espiritual.
Segundo São Tomás, Cristo desceu a esses “infernos” não da mesma forma nem com o mesmo efeito!
Ele não desceu para libertar os condenados, pois estes já haviam feito sua escolha definitiva contra Deus, nem para abolir a realidade da condenação eterna.
Sua descida teve quatro efeitos distintos conforme o estado das almas:
1º)- Aos condenados, manifestou sua vitória, causando confusão pela demonstração de sua justiça;
2º)-Às almas do purgatório, comunicou esperança;
3º)-Aos justos do Antigo Testamento, concedeu a libertação e a entrada na glória;
4º)-E a todos manifestou seu senhorio sobre a morte.
Assim, Cristo libertou precisamente aqueles que estavam no chamado Seio de Abraão, ou seja, os justos que morreram na amizade de Deus, mas que ainda não podiam entrar no céu porque as portas da redenção ainda não haviam sido plenamente abertas pelo sacrifício da Cruz.
O Magistério deixa claro que Cristo não desceu para sofrer novamente ou para ser atormentado, pois sua Paixão redentora foi consumada na Cruz quando Ele disse: “Tudo está consumado” (Jo 19,30). A descida à mansão dos mortos deve ser entendida principalmente como a manifestação triunfante da sua vitória redentora, conforme a interpretação clássica dos Padres da Igreja e da teologia escolástica.
Embora existam reflexões teológicas posteriores, como algumas propostas por Hans Urs von Balthasar, a posição mais segura dentro da tradição magisterial e tomista permanece aquela que vê a descida como a aplicação dos frutos da redenção, e não como uma continuação do sofrimento expiatório.
Portanto, dentro da reta doutrina católica, pode-se afirmar com segurança:
Cristo desceu à mansão dos mortos não para mudar o destino dos condenados, mas para libertar os justos que esperavam a redenção, confirmando assim que Ele é verdadeiramente Senhor dos vivos e dos mortos (Rm 14,9).
Esse mistério manifesta que a salvação não é fruto do esforço humano, mas da iniciativa da graça divina, que veio buscar até mesmo aqueles que estavam nas profundezas da morte para conduzi-los à vida eterna.
A "Homilia
Pascal" de João Crisóstomo trata do tema da descida ao inferno e é lida tipicamente
durante a Vigília Pascal, o maior dos serviços litúrgicos da Igreja Ortodoxa durante
a celebração da Pascha.
-A descida ao inferno
é geralmente mais comum e tem uma importância maior na iconografia ortodoxa do
que na tradição ocidental. É o ícone tradicional do Sábado de
Aleluia e é utilizado durante a temporada da Páscoa e nos domingos durante o
ano todo.
-O ícone tradicional para a ressurreição de Jesus não representa
simplesmente o ato físico de Jesus saindo do santo sepulcro, mas também mostra
o que a fé ortodoxa acredita ser a realidade espiritual do que a morte e
ressurreição representam.
-O ícone mostra Jesus, vestido de branco e
dourado para simbolizar sua majestade divina, de pé às portas dos insolentes
portões de Hades (também chamados de "Portões da Morte"), que estão
quebrados e caíram na forma da cruz, ilustrando a crença de que, através de sua
morte na cruz, Jesus venceu a morte.
-Ele está segurando Adão e Eva e puxando-os
para fora de Hades. Tradicionalmente, Ele não aparece segurando-os pelas mãos e sim pelos pulsos, ilustrando o
ensinamento teológico de que a humanidade não consegue se livrar sozinha do
pecado original, algo que só pode ser obtido por obra da força da Graça imerecida de Deus.
-Jesus está rodeado por
várias figuras do Antigo Testamento (Abraão, David, Moisés entre outros); a
parte de baixo do ícone mostra o Hades como um fosso de trevas, geralmente com
vários pedações de correntes e cadeados quebrados jogados.
-Frequentemente, uma
ou duas figuras aparecem nas trevas, ainda presas nas correntes, geralmente
identificadas como personificações da morte e/ou do Diabo.
Martinho Lutero, num
sermão realizado em Torgau em 1533, afirmou que Cristo desceu ao inferno.
A Fórmula da Concórdia (a confissão de fé luterana) afirma: "Acreditamos
simplesmente que a pessoa inteira, Deus e ser humano, desceu ao inferno após
seu sepultamento, conquistou o diabo, destruiu o poder do inferno e tomou do
diabo todo o seu poder (art. XI)."
Muitas tentativas se
fizeram após a morte de Lutero para sistematizar sua teologia sobre a descida
ao inferno, se ele desceu vitorioso ou humilhado, por exemplo....
Para Lutero,
porém, a derrota ou "humilhação de Cristo" não pode ser jamais
completamente separada de sua glorificação vitoriosa.
João Calvino expressou
sua preocupação de que muitos cristãos jamais consideraram seriamente o que é, ou o que significa ter sido redimido do julgamento de Deus.
Ainda assim, esta é nossa
crença:
“obedientemente sentir o quanto a nossa salvação custou ao Filho de
Deus."
A conclusão de Calvino foi que:
"A
descida de Cristo ao inferno foi necessária para a redenção dos cristãos, pois
Cristo de fato sofreu as consequências dos pecados que Ele redimiu."
Conclusão
A contemplação do ícone da descida de Cristo à mansão dos mortos nos faz compreender a profundidade do amor redentor de Deus. Cristo não apenas venceu a morte, mas entrou até as profundezas da condição humana para resgatar aqueles que não podiam salvar-se por si mesmos. Como ensina São Tomás de Aquino, Ele desceu especialmente para libertar os justos que estavam no Seio de Abraão, enquanto os condenados permaneceram separados, como já indicava claramente a parábola do rico e do pobre Lázaro (Lc 16,19-31), onde existe um grande abismo entre os destinos eternos.
O gesto de Cristo segurando Adão e Eva pelos pulsos, tão presente na iconografia oriental, revela uma verdade central da teologia católica: o homem não se salva sozinho, é Deus quem toma a iniciativa.
A graça precede, acompanha e aperfeiçoa a resposta humana. É a aplicação visível da doutrina tomista de que a salvação é primariamente obra de Deus e não conquista humana.
Essa verdade foi expressa de forma espiritual em um cântico inspirado na antiga homilia do Sábado Santo:
“Aqui não é o teu lugar!
Segura a minha mão
Eu vim te levantar!
Seguro a tua mão
Eu te levo comigo
E onde eu estiver
Lá comigo estarás...”
À luz da doutrina católica, esse trecho deve ser entendido como Cristo falando aos justos que aguardavam a redenção, especialmente os que estavam no chamado Seio de Abraão. A frase “aqui não é o teu lugar” possui um profundo significado teológico: Deus não criou o homem para a morte, mas para a vida; não para a condenação, mas para a comunhão com Ele.
O homem estava ali não como destino definitivo, mas como consequência do pecado original que fechou as portas do Céu até a redenção ser realizada por Cristo. Por isso, quando Cristo desce à mansão dos mortos, Ele não vai como prisioneiro, mas como libertador. Não vai sofrer, mas manifestar sua vitória. Não vai negociar com o demônio, mas proclamar que a redenção foi consumada.
O “segura a minha mão” expressa exatamente aquilo que a iconografia tradicional mostra quando Cristo puxa Adão: a salvação não começa na mão do homem que busca Deus, mas na mão de Deus que busca o homem. Isso reflete perfeitamente a doutrina de São Tomás: a graça é sempre a primeira iniciativa de Deus.
O trecho “eu te levo comigo” recorda a verdade ensinada pelo Catecismo: Cristo abriu as portas do Céu para os justos que o precederam. E “onde eu estiver lá comigo estarás” ecoa as próprias palavras de Jesus em João 14,3: “voltarei e vos levarei comigo, para que onde eu estiver, estejais vós também.”
Esse mistério também fala diretamente à nossa vida espiritual hoje. Muitas vezes também nós nos encontramos em nossas próprias “mansões dos mortos”: no pecado, no desânimo, na mediocridade espiritual ou na falta de esperança.
E é exatamente aí que Cristo entra para nos dizer aquilo que disse misticamente a Adão:
Aqui não é o teu lugar!
O teu lugar é comigo.!
O teu destino não é a queda, mas a graça.
Não é a morte, mas a vida.
Não é a escuridão, mas a luz!
Assim, o ícone não fala apenas de um acontecimento do passado, mas de uma realidade permanente: Cristo continua descendo às profundezas das misérias humanas para levantar aqueles que aceitam sua graça. Sua Ressurreição prova que nenhuma queda é definitiva para quem se deixa segurar pela mão de Deus.A grande mensagem final desse mistério pascal é esta:
Se pertencemos a Cristo, então a morte não é nossa morada, o pecado não é nossa identidade e o inferno não é nosso destino. Fomos criados para o Céu.
Por isso, o Ressuscitado continua a repetir a cada alma fiel:
“Levanta-te! Aqui não é o teu lugar!”
*Francisco José Barros
Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma
Nº 31.636 do Processo Nº 003/17
BIBLIOGRAFIA:
- Eclesia: Biblioteca Iconográfica
- Alyssa Lyra Pitstick, Light in Darkness: Hans Urs von Balthasar and
the Catholic Doctrine of Christ's Descent into Hell (Grand Rapids (MI),
Eerdmanns, 2007). (em inglês)
-Trumbower, J. A., "Jesus' Descent to the Underworld," in
Idem, Rescue for the Dead: The Posthumous Salvation of Non-Christians in Early
Christianity (Oxford, 2001) (Oxford Studies in Historical Theology), 91-108. (em
inglês)
“Tende coragem! Eu
venci o mundo!” - Jo 16,29-33
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Muito obrigada pelas explicações! Não sabia nada disso! Que coisa lindaa!
Isabel Santana - Quiterionópoles
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