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São Tomás de Aquino responde: "Por que ao contrário de nós, os anjos não sentem a dor do remorso e arrependimento?"

Written By Beraká - o blog da família on quinta-feira, 8 de junho de 2023 | 11:23




por *Francisco José Barros Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº  003/17



São Tomás de Aquino nos ajuda a compreender uma questão que inquieta muitos cristãos: 


-Por que os anjos, sejam os fiéis a Deus ou os caídos, não sentem remorso e arrependimento como nós? 

-Por que o anjo exterminador não hesita diante do juízo divino, mas executa prontamente aquilo que Deus ordena?


As Escrituras mostram isso de forma impressionante quando Deus envia o anjo para ferir o Egito:


“Naquela mesma noite passarei pela terra do Egito, ferirei todos os primogênitos...” (Êxodo 12,12)


E também:


“O Senhor enviou a peste a Israel... e o anjo estendeu a mão sobre Jerusalém para destruí-la” (2 Samuel 24,15-16).


O anjo ao contrário de Abraão, não questiona, não hesita e não negocia. Ele executa perfeitamente aquilo que lhe foi determinado. Mas por quê? Seriam os anjos “insensíveis”? 



Não! A resposta de São Tomás é muito mais profunda: diferentemente do homem, os anjos não conhecem a verdade de maneira gradual, discursiva e limitada. Eles conhecem por intuição intelectual plena e direta. Quando fazem uma escolha, fazem-na com plena consciência e total clareza.


Por isso, segundo São Tomás de Aquino, a decisão angélica possui um caráter definitivo. Os anjos bons aderiram plenamente a Deus e permanecem eternamente nessa fidelidade; os anjos maus rejeitaram a Deus de forma consciente e irrevogável. 


Não há arrependimento porque não porque sejam marionetes, sem vontade e livre arbítrio, mas porque não houve ignorância, e sim, completo e pleno entendimento da vontade de Deus, não existe paixão desordenada ou fraqueza como acontece conosco. O homem cai muitas vezes por impulso, medo, desejo ou confusão; já o anjo escolhe com clareza total.


Essa compreensão também ajuda a iluminar o episódio da destruição de Sodoma e Gomorra. Em Gênesis 18,17-33, vemos Abraão intercedendo pelos justos. Deus chega a afirmar que, se encontrasse ali apenas dez justos, pouparia a cidade. Isso revela algo fundamental: Deus não destrói arbitrariamente. Seu juízo vem quando a corrupção atingiu um grau tão profundo que contaminou completamente a estrutura moral daquela sociedade.Por isso apenas a família de Ló foi preservada. Não porque Deus tivesse prazer na destruição, mas porque o mal havia se tornado dominante e infeccioso. 





 


A Escritura usa repetidamente a imagem do “fermento” para explicar como a corrupção se espalha:


-Marcos 8,15: Cristo adverte: “Tomai cuidado com o fermento dos fariseus e o fermento de Herodes.”


-Gálatas 5,9: São Paulo afirma: “Um pouco de fermento leveda toda a massa.”


-1 Coríntios 5,6-8: o apóstolo ordena lançar fora o velho fermento do pecado para que a comunidade não seja corrompida.


-1 Coríntios 15,33: “As más companhias corrompem os bons costumes.”



A destruição de Sodoma e Gomorra não foi apenas punição; foi também manifestação da justiça divina diante de uma corrupção coletiva que havia se tornado estrutural. Deus mostrou misericórdia até o último momento, aceitando a intercessão de Abraão e disposto a preservar toda a cidade por causa de poucos justos. Mas quando nem isso mais existia, o juízo veio.


São Tomás explica que os anjos compreendem perfeitamente a ordem da justiça divina. Por isso o anjo fiel não sente remorso ao executar o juízo de Deus, porque sabe com absoluta clareza que a justiça divina jamais é cruel, arbitrária ou injusta. O remorso nasce da dúvida, da ignorância ou da percepção de um erro cometido. Mas os anjos santos contemplam diretamente a perfeição da vontade divina.


Enquanto nós caminhamos na fé, entre quedas, arrependimentos e conversões, os anjos já estão fixados definitivamente na escolha que fizeram diante de Deus. É precisamente por isso que os demônios não se arrependem e os anjos fiéis jamais se rebelam.



Há pessoas, inclusive teólogos, que se perguntam: “os demônios podem se arrepender dos seus pecados e alcançar a salvação?”


Essa dúvida geralmente nasce de uma visão sentimental da misericórdia divina, como se o amor de Deus anulasse necessariamente Sua justiça. A partir disso, alguns passam a defender a chamada teoria da “salvação universal”, segundo a qual, no fim dos tempos, absolutamente todas as criaturas — inclusive Satanás e os anjos caídos — acabariam reconciliadas com Deus, talvez depois de longos períodos de sofrimento no inferno.


Essa ideia, embora pareça piedosa à primeira vista, entra em choque tanto com as Escrituras quanto com a tradição teológica cristã. O próprio Cristo fala do inferno como uma realidade definitiva ao afirmar:


“Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos.” (Mateus 25,41)


Note-se que Jesus não fala de uma punição temporária ou pedagógica destinada a converter os demônios, mas de um estado definitivo ligado à escolha irrevogável que fizeram contra Deus. É precisamente aqui que São Tomás de Aquino oferece uma das explicações mais profundas da teologia cristã. Segundo ele, os anjos diferem radicalmente dos homens na forma de conhecer e escolher. 



O ser humano aprende gradualmente, raciocina passo a passo, sofre influência das paixões, da ignorância, do medo e das circunstâncias. Muitas vezes pecamos por fraqueza, impulso ou confusão.Os anjos, porém, possuem um conhecimento intelectual muito superior ao nosso. Quando fizeram sua escolha diante de Deus, fizeram-na com plena consciência, clareza e lucidez. Os anjos fiéis aderiram perfeitamente ao bem; os anjos caídos rejeitaram a Deus de maneira deliberada e definitiva.


Por isso os demônios não se arrependem. Não porque Deus lhes negue arbitrariamente a misericórdia, mas porque sua própria vontade ficou fixada no mal que escolheram livremente. Eles não pecaram por ignorância; pecaram com total clareza daquilo que faziam.


São Tomás explica que o arrependimento pressupõe certa mudança interior diante de um bem anteriormente mal compreendido. Mas o demônio não possui essa “descoberta tardia” da verdade, porque já conhecia claramente aquilo que rejeitou. Sua revolta foi plenamente consciente.


Essa é também a razão pela qual as Escrituras mostram os demônios não como seres arrependidos, mas como criaturas persistentemente rebeldes, odiosas e endurecidas contra Deus e contra o homem. Eles reconhecem o poder divino, mas não O amam. Sabem quem é Cristo, mas não se convertem:


“Tu crês que há um só Deus? Fazes bem. Também os demônios creem… e tremem.” (Tiago 2,19)


Portanto, a ideia de uma futura reconciliação de Satanás com Deus não encontra fundamento na doutrina cristã tradicional. A misericórdia divina é infinita, mas não destrói a liberdade da criatura. Os anjos caídos fizeram uma escolha definitiva e permaneceram eternamente presos àquilo que escolheram.


Enquanto nesta vida ainda caminhamos no tempo da misericórdia e da conversão, os demônios já se encontram fixados eternamente na rejeição consciente de Deus.

 



“Os demônios podem arrepender-se e alcançar a salvação, considerando que, após sua queda, encontram-se na eternidade — onde já não há sucessão temporal nem mudança de estado —, mas uma decisão definitiva e imutável?

 


 

A resposta, baseada na Bíblia, no ensinamento comum dos Padres da Igreja e no testemunho dos seus Doutores, é um claro e contundente “NÃO”. As razões são as seguintes:



 

1. Os demônios são anjos caídos que mantêm sua natureza angélica intacta, ainda que deformada pelo pecado. Ao serem seres espirituais, não percebem a natureza das coisas de maneira “gradual”, como os seres humanos. Os anjos entendem as coisas de maneira intuitiva, direta e plena, ou seja, como as coisas são em si. E isso vale tanto para os anjos bons quanto para os que caíram, ou seja, os demônios.

 



2. Ao perceberem as coisas como elas são, os anjos não correm o risco de “entendê-las mal”; e, ao terem sido criados bons em um princípio, eles não têm esse conjunto de circunstâncias lamentáveis que muitas vezes ofusca o entendimento humano e o faz pecar ou cometer erros com maior ou menor imputação moral. Os anjos caídos não podem alegar que “foram educados inadequadamente” ou que “tiveram uma infância repleta de abusos, sofrimentos, carências e privações”. Não foi assim; sua infância espiritual foi perfeita, e nela eles percebiam a presença de Deus de uma maneira muito mais elevada que os seres humanos, mas ainda privada da visão sobrenatural do Senhor enquanto não passassem por uma provação.

 



3. A série de escolhas e decisões que levaram os anjos a se rebelar foi de natureza espiritual. Cada passo e cada decisão que tomaram contra Deus foi aumentando neles o ódio, a raiva, o orgulho, e a soberba.



 

4. Deus enviou a cada anjo que estava em processo de queda uma quantidade astronômica de graças de arrependimento – graças que os mais obstinados rejeitaram repetidamente, de maneira proporcional e crescente.

 



5. Chegou o momento em que Deus deixou de enviar estas graças aos anjos rebeldes, pois, se continuasse enviando, a maldade dos anjos caídos teria continuado crescendo, fazendo-os cometer muitos outros pecados. Nesse momento, os anjos caídos foram confirmados em sua maldade, ficaram atados ao objeto da sua predileção, que era (e ainda é) seu ódio a Deus e às suas criaturas, a tudo o que é santo e puro, a tudo o que é nobre e bom.

 



6. Já que, sem a graça do arrependimento, os demônios não podem se arrepender, jamais pedirão perdão e, por isso, nunca mais serão reconciliados com Deus.



 





7. Não foi Deus quem criou o inferno, foram suas criaturas caídas. E o inferno não é tanto um “espaço físico”, e sim um estado. Não é que os demônios estejam no inferno; é mais correto dizer que eles carregam o inferno (seu estado de separação completa de Deus) com eles, porque já não podem se arrepender. Portanto, os demônios sempre viverão no inferno durante toda a sua existência – e esta existência é, como a nossa, infinita.




Fonte: Aleteia




 

Padre Paulo Ricardo: "Nós podemos mudar, os demônios não, e existe uma explicação lógica pra isto"

 









O estado de convicção dos demônios é eterno, definitivo e irreversível. Seu pecado foi fria e resolutamente calculado e cometido de forma consciente e convicta, ou seja, “de olhos abertos”. Não há portanto, esperança alguma de salvação no Inferno. No ser humano, porém, Deus quis uma criatura a quem pudesse perdoar — como fez Jesus com São Pedro, a mulher adúltera, o filho pródigo,  e tantos outros.

 



SÃO TOMÁS DE AQUINO RESPONDE: "Os demônios sentem dor?" 


(Primeira parte, questão 64, artigo 3 DA SÚMULA TEOLÓGICA)

 

 




Nossa redenção aconteceu de uma vez por todas na Cruz. No Calvário, Satanás e seus demônios foram derrotados, e nós fomos verdadeiramente salvos. Acontece que essa salvação objetiva precisa ser aplicada em nossa vida: é a salvação subjetiva. Noutras palavras: os méritos de Cristo em sua Paixão, Morte e Ressurreição foram suficientes para redimir todos os homens, de todos os tempos e lugares — na verdade, uma só gota de seu Sangue seria suficiente para nos remir a todos (tuo sanguine, cuius una stilla salvum facere totum mundum quit ab omni scelere, “o teu sangue, do qual uma gota é capaz de salvar de todo crime o mundo inteiro”), como diz Santo Tomás de Aquino no Adoro te devote —, mas Deus quis que não pairasse dúvida alguma de seu amor por nós, quis oferecer-nos uma verdade incontestável, que pudesse ser prontamente aceita pelos homens e mudar-lhes a vida. É para nos levar a isso — evidentemente com o auxílio da graça divina — que a Igreja propõe no seu Santo e Sagrado Magistério.





Nós precisamos disso, pois assim funciona a inteligência humana. Diferentemente dos anjos, que são dotados de um intelecto superior, pronto, pleno e acabado, nós humanos, só conseguimos enxergar e entender as coisas com um certo trabalho intelectual, e evolutivo no tempo.






Quando Deus criou os anjos, Ele os criou com as ideias já inatas. Os espíritos angélicos sabiam tudo o que lhes era necessário saber a respeito da natureza das coisas criadas. Antes mesmo de “terem visto”, por assim dizer, uma árvore, um cachorro e um ser humano, eles sabiam o que eles eram. Um anjo não confunde, por exemplo, um embrião e um tumor. Nós, porém, se nos deparamos com um aglomerado qualquer de células, só depois de uma análise empírica podemos chegar a uma conclusão a respeito de sua substância: se crescer, nascer e disser “mamãe”, evidentemente é uma criança; se matar a pessoa, é um câncer. É só “cavoucando” em seu interior, “ruminando” as passagens do Evangelho, discorrendo a respeito do que Jesus fez por nós, que vamos cair em nós mesmos, “acordar” o nosso espírito, fazer um ato de fé e dizer, por exemplo: “Senhor, pequei, tende piedade e compaixão de mim”; “Meu Deus, eu me arrependo de meus pecados, não quero mais vos ofender”. Assim aconteceu com o filho pródigo da famosa parábola: enquanto ele desejava a comida dos porcos, sofrendo nas mãos de um patrão cruel, pôs-se a refletir em como seu pai tratava os próprios empregados, e então decidiu voltar para casa e pedir para ser aceito de volta. 








No caminho — podemos imaginar —, quantas coisas ele também não foi pensando, quantas vezes não foi ensaiando a prece que depois faria a seu pai: “Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho” (Lc 15, 21)! É esse fenômeno de abrir os olhos da alma que nós chamamos de conversão. Dessa forma age a graça de Deus nos corações humanos. Nós porém, somos diferentes dos anjos. Eles veem de imediato o que são as coisas, sem erros ou equívoco algum, não têm dúvidas sobre o que é certo e errado, e daquilo que agrada e desagrada a Deus. Quando Nosso Senhor curou o cego de nascença e ressuscitou Lázaro dos mortos, os indivíduos a seu redor podiam discorrer a respeito daquele fato e investigá-los para descobrir se eram ou não milagrosos. Os anjos, porém, não precisavam disso. A Carta de São Tiago chega a dizer: “Tu crês que há um só Deus? Fazes bem! Mas também os demônios creem isso, e estremecem de medo” (2, 19). Ou seja, não há demônios ateus. Eles conhecem as coisas, sabem que Deus as criou. Mas saber não é o suficiente. (Se fosse, não haveria anjos maus!) Além da inteligência, nós temos a vontade. E é com ela que aderimos a Deus e dizemos: “Sim Pai, sei que não é fácil, mas se Tu queres eu também quero, eu desejo, e com a tua graça eu vou!" Foi sempre assim que agiram os santos e a virgem Maria: "Senhor, faça-se em mim segundo a vossa vontade, e não a minha" - Miseravelmente, foi com a vontade que  também, nossos primeiros pais disseram “sim” à serpente e se colocaram sob o seu domínio. Como o filho pródigo que, deixando a casa de seu pai, acabou na casa de um mau patrão, a humanidade quis ser autônoma e independente, disse a Deus: “Não servirei” e… terminou escrava, nas mãos de um déspota malvado, que oprime, humilha, e castiga os filhos de Deus, não para agradar a Deus, mas para seu próprio deleite, que se compraz no mal. (Esse mesmo fenômeno se repete hoje na juventude: os filhos adolescentes pensam que, “livrando-se” dos pais, rebelando-se contra eles, serão “livres”, mas o fato é que se tornam “vítimas” da peer pressure, fazem-se “escravos” do grupo a que passam a pertencer — por isso, têm de usar drogas como todo o mundo, têm de fazer tatuagem como todo o mundo, pôr piercing como todo o mundo, vestir-se imodestamente como todo o mundo. E ai de quem ouse destoar da corja animalesca! É de pronto reprimido pelos pares, excluído da turma, punido pela sua “desobediência”). Assim Satanás age conosco: cativa-nos com uma mentira: “Sereis como deuses”, e depois nos oprime. 








A libertação disso, somente da verdade (Jesus Cristo, conforme João 14,6) pode advir. Daí Nosso Senhor dizer que “a verdade vos libertará” (Jo 8, 32). Essa frase é dita no contexto das discussões de Jesus com os fariseus, que precedem a sua Paixão. Na ocasião, Ele chama os chefes dos judeus de “filhos do diabo”. Por quê? Porque, pela mentira, nós nos tornamos “reféns” dos demônios. Como sair disso? Meditando na verdade! Sem meditação, sem abrir os olhos da sua alma para a verdade aprazível de Deus, você não dará o primeiro passo para sair do cativeiro em que seus pecados o colocaram!










Essa luta entre verdade e mentira é muito importante. Em seu ministério, uma das armas de que os exorcistas se servem, e que é uma tortura para os espíritos maus, é recordar-lhes a alegria que tinham, o gozo de que eles desfrutavam, antes de decaírem e recusarem o auxilio da graça...







Não é que os demônios vissem a Deus face a face (se o tivessem visto, jamais teriam pecado). É que o simples fato de conhecer a verdade era muito agradável para eles. Há um prazer em conhecer a verdade. Afinal, Deus nos criou para isso — tanto aos anjos, com seus intelectos elevados, quanto a nós, com nossas inteligências inferiores!Também existem muitas pessoas que já viram a beleza da verdade católica, mas se recusam a dizer “sim” a Deus, estão com a vontade “emperrada”. A recusa dos anjos foi grave, porque definitiva e irreversível. Quando os demônios disseram: “Não servirei”, sua decisão foi tomada de uma vez e para sempre. Nós, porém, podemos (e devemos) mudar. Santo Ambrósio, refletindo a esse respeito, se perguntava por que, mesmo após a queda dos anjos, Deus criou os homens, se sabia que eles pecariam. Sua resposta é belíssima: porque o Criador queria criaturas a quem pudesse perdoar. Eis aí! Por nossa natureza, nós podemos voltar atrás! Talvez você já tenha assistido a vários vídeos catequéticos, tenha ouvido várias pregações, tenha lido vários livros e tenha ficado “mexido” com as verdades católicas. Não obstante isso, sente-se incapaz de dar o passo da fé, sem forças para tanto… Mas acredite: a graça divina está à sua disposição! Ela não lhe falta jamais! Tome posse dessa força poderosa de Deus e creia! Os demônios, vendo sua busca por Deus, vendo seu esforço por crer, criarão todos os subterfúgios possíveis para demovê-lo de seus bons propósitos! Eles criarão distrações para que você não reze, sugerirão mil e uma “prioridades” para você colocar no lugar de Deus; enfim, não o deixarão em paz. A Sequência de Páscoa, Victimæ paschali laudes, fala justamente de um duelo admirável que travaram a vida e a morte: Mors et vita duello conflixerunt mirando. Essa luta é por sua alma. Ela foi vencida no Calvário, por Cristo, mas também você precisa vencê-la pessoalmente, colher para si próprio os frutos da Redenção. Para isso existe o sacramento da Confissão. Saia à procura do nosso bondoso Pai celeste e procure a remissão dos seus pecados. Possivelmente, eles estão se apresentando a você agora, como se apresentaram a Santo Agostinho, e dizendo: “Vais mesmo viver sem nós? Vais mesmo nos abandonar?” Mas você não deve dar ouvidos às fantasias mentirosas de Satanás. Abra os olhos de sua alma à verdade. Peça a ajuda de seu anjo da guarda, de Nossa Senhora, dos santos de sua devoção. Tome os textos da Paixão do Senhor como guia neste caminho. E, como Jesus olhou para São Pedro — ah! aquele olhar tudo mudou —, deixe-se olhar por Ele também. Pedro o havia negado três vezes. E você? Qual foi a “cachorrada” que “aprontou” com Nosso Senhor? Faça seu exame de consciência. Arrependa-se de seus pecados.

 



*Adaptado de padre Paulo Ricardo





TOMÁS DE AQUINO EXPLICA "PORQUE OS DEMÔNIO NÃO TEM A DOR DO ARREPENDIMENTO?"









Nesta questão, temos debatido a propósito da pena reservada aos anjos caídos, quer dizer, aos demônios. Vimos que sua vontade fixou-se irremediavelmente no mal, eternamente, e que eles perderam a contemplação de Deus, mas não o primoroso intelecto que possuem naturalmente, com o conhecimento amplo das coisas criadas. Ou seja, mesmo na queda eles são muito mais poderosos intelectualmente do que nós, humanos.





Mas, afinal, não sofrem eles por terem caído? Continuam inteligentes, inclinados ao mal, repugnaram o amor de Deus, e nada sofrem? Onde está, propriamente, a dor que deveriam sentir por sua queda?




Ora, Neste ponto chegamos onde estamos agora. Como poderiam os demônios sentir dor? De fato, são seres puramente espirituais, inteligências espirituais. Não possuem sensibilidade; não têm um corpo, não têm órgãos do sentido, não têm reações fisiológicas nem alguma química cerebral que reagisse a estímulos. Como poderiam sofrer? Seriam eles algo como "psicopatas incorpóreos" e inalcançáveis? Será que sua queda, afinal, compensou?





Esta é a hipótese controvertida, agora, para provocar o debate: "parece que os demônios não sentem nenhuma dor". 


São três os argumentos no sentido desta hipótese inicial




1)-O primeiro argumento lembra, mais uma vez, os escritos de Santo Agostinho neste assunto. O nosso majestoso santo dizia que o Diabo tem poder sobre todos os seres humanos que desprezam os ensinamentos de Deus, e ele se alegra com este poder maldito. O argumento prossegue, afirmando que a alegria e a dor não podem conviver no mesmo indivíduo ao mesmo tempo; assim, se o Diabo tem convicção e satisfação por sua condição de réprobo, sem nenhum tipo de arrependimento, ele logicamente, não poderia simultaneamente, sentir dor, conclui o argumento.




2)-O segundo argumento inicia lembrando a relação entre a dor e o medo. O medo é a dor quanto ao futuro, ou seja, é a reação contrária a uma situação que, embora ainda não esteja presente, vai causar dor quando acontecer. A dor é a reação a uma situação penosa presente, e o medo, a antecipação de uma situação penosa futura. São, portanto, alega o argumento, duas faces da mesma moeda, apenas com uma diferença cronológica. Mas as Escrituras, em Jó 1, 24, num versículo que descreve Leviatã (e sempre foi lido como referindo-se ao Diabo), diz que “Não há nada igual a ele na terra, pois foi feito para não ter medo de nada.” Portanto, conclui o argumento, se ele não sente medo, tampouco sente dor.




3)-Por fim, o terceiro argumento lembra que a culpa é como um verme que rói a consciência de quem faz o mal, conduzindo-o de volta ao bem. Logo, sentir dor pelo mal praticado é algo bom. Mas, como foi visto em outros artigos deste apostolado (você os encontra no "índice temático" por ordem alfabética: "DEMONOLOGIA"). Assim, aduz o argumento, neles não pode existir algo como uma consciência de culpa, que possa lhes roer em dor pelo mal que praticam; são, neste sentido, verdadeiros psicopatas, que não assumem o mal da culpa. Portanto, conclui, eles não sentem dor!





O argumento "sed contra" busca a autoridade das Escrituras: 





Em Apocalipse 18, 7, falando sobre o pecado da Babilônia, diz-se: “Na mesma proporção em que fez ostentação de luxo, dá-lhe em tormentos e prantos.” isto diz respeito ao pecado humano, que traz um deleite, mas tem como consequência a dor e o tormento. Ora, prossegue o argumento, o Diabo cometeu estes pecados num grau muito mais intenso do que os humanos, glorificando-se maximamente em seu orgulho. Logo, conclui o argumento, deve sofrer esta dor e este tormento num grau ainda maior do que os humanos. Em sua resposta sintetizadora, Tomás já inicia deixando muito claro que a dor, como também o temor, a alegria e outras emoções que sentimos, não podem existir nos demônios como existem em nós. Em nós, estas emoções são passionais, vale dizer, envolvem nossa sensibilidade, nossa corporeidade, e portanto não podem estar presentes em anjos e demônios do mesmo modo que estão em nós.





Mas há uma espécie de dor que é puramente espiritual: "a dor de uma vontade contrariada". Esta, diz Tomás, pode existir (e existe maximamente, como veremos) nos demônios!









A dor, associada ao ato simples da vontade, ensina Tomás, acontece quando esta vontade se depara com a resistência da realidade, que não se dobra ao seu querer. A dor surge, nos demônios, quando as coisas que eles queriam que acontecessem não acontecem, ou quando as coisas que eles não queriam que acontecessem, acontecem. Assim, esta dor pode existir por inveja, por exemplo. Quando alguém se salva, frustrando os planos de perdição que os demônios têm para ela, isto lhes é doloroso, porque atinge seu orgulho e a sua inveja. Assim, como crianças malcriadas que não conseguem lidar com a frustração, é próprio da pena limitar-lhes o poder da vontade, causando-lhes intensa dor por não poderem exercer seu poder plenamente, como gostariam. E é esta a natureza de sua pena: sentir a dor da frustração, da inveja, do orgulho ferido, e principalmente, sentir a dor espiritual da eterna privação da bem-aventurança – que eles, conscientemente, desprezaram, mas que sua natureza criatural foi criada e inclinada para alcançar.




Colocados, assim, os princípios que resolvem o debate, Tomás passa a revisitar as "objeções iniciais":




-A primeira objeção lembra a alegria que, segundo Santo Agostinho, os demônios sentem ao adquirir poder sobre aqueles que vivem no pecado, e conclui que, uma vez que a alegria e a tristeza não podem conviver simultaneamente no mesmo ser, os demônios não sentiriam dor, mas alegria em sua situaçãoTomás vai responder que, de fato, a dor e a alegria excluem-se com relação ao mesmo objeto; ninguém pode simultaneamente alegrar-se e entristecer-se pelo mesmo motivo. Mas nada impede que a alegria conviva, no mesmo ser, com a tristeza causada por outro motivo. Alguém pode, perfeitamente, alegrar-se com uma coisa e entristecer-se com outra, ou mesmo alegrar-se e entristecer-se com aspectos diversos da mesma coisa, como no caso da morte de uma pessoa muito má, mas muito próxima. Neste caso, diz Tomás, a alegria e a tristeza, para os demônios, são realidades espirituais relacionadas com o sucesso ou o insucesso que eles têm em fazer prevalecer sua vontade maléfica, com relação aos atos simples que desejam ou que pretendem impedir.




-O segundo argumento diz que o medo é a previsão de dor no futuro, e a dor é o sofrimento presente. Assim, quem não sente medo é porque não sente dor, e vice-versa. Mas as Escrituras dizem que os demônios não tem medo; logo, conclui o argumento, tampouco têm dor Tomás não concorda! De fato, o que esta passagem de Jó quer nos mostrar é que "falta ao Diabo o santo temor de Deus", que consiste no receio de desagradá-lo, de perder a amizade divina por proceder mal, e que é uma virtude própria dos que se salvam. Os demônios sentem dor, pelos motivos já expostos. Também sentem medo, como atesta Tiago 2, 19, e tremem sob o poder de Deus, que eles veem como poderoso adversário, o único e capaz de subjugá-los.




-Por fim, o último argumento fala da dor da culpa, de uma consciência pesada pelo mal. Ora, diz o argumento, os demônios vivem no mal e se comprazem nele, logo não devem sentir remorso. Disso, o argumento conclui que não sentem dorPara sentir remorso, diz Tomás em sua resposta, é preciso que haja uma oposição entre uma má conduta e uma vontade inclinada, na devida ordem, para o bem. Ora, os demônios não têm uma vontade ordenada para o bem; mas sua vontade está fixada no mal. Assim, não existe, neles a tensão entre o fazer o mal e querer o bem que caracteriza o remorso. Eles, de fato, não têm esta dor. São verdadeiros psicopatas espirituais, desconhecendo o remorso.




Salmos DE EXORCISMO









Salmos 67 

 

 


“Levanta-se Deus; eis que se dispersam seus inimigos e fogem diante dele os que o odeiam. 

Eles se dissipam como a fumaça, como a cera que se derrete ao fogo. Assim perecem os maus diante de Deus.

Os justos, porém, exultam e se rejubilam em sua presença e transbordam de alegria.


Cantai à glória de Deus, cantai um cântico ao seu nome, abri caminho para o que em seu carro avança pelo deserto.


Javé é o seu nome, exultai em sua presença!


É o pai dos órfãos e o protetor das viúvas, esse Deus que habita num templo santo.


Aos abandonados Deus preparou uma casa, conduz os cativos à liberdade e ao bem estar; só os rebeldes ficam num deserto ardente!


Ó Deus, quando saíeis à frente de vosso povo, quando avançáveis pelo deserto, a terra tremia, os próprios céus gotejavam diante de vós, o monte Sinai estremecia na presença do Deus de Israel.”




 

Salmo 90 





1 SENHOR, tu tens sido o nosso refúgio, de geração em geração.

2 Antes que os montes nascessem, ou que tu formasses a terra e o mundo, mesmo de eternidade a eternidade, Tu és Deus!

3 Tu reduzes o homem à destruição; e dizes: Tornai-vos, filhos dos homens.

4 Porque mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem que passou, e como a vigília da noite.

5 Tu os levas como uma corrente de água; são como um sono; de manhã são como a erva que cresce.

6 De madrugada floresce e cresce; à tarde corta-se e seca.

7 Pois somos consumidos pela tua ira, e pelo teu furor somos angustiados.

8 Diante de Ti puseste as nossas iniqüidades, os nossos pecados ocultos, à luz do teu rosto.

9 Pois todos os nossos dias vão passando na tua indignação; passamos os nossos anos como um conto que se conta.

10 Os dias da nossa vida chegam a setenta anos, e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos, o orgulho deles é canseira e enfado, pois cedo se corta e vamos voando.

11 Quem conhece o poder da tua ira? Segundo és tremendo, assim é o teu furor.

12 Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios.

13 Volta-te para nós, Senhor; até quando? Aplaca-te para com os teus servos.

14 Farta-nos de madrugada com a tua benignidade, para que nos regozijemos, e nos alegremos todos os nossos dias.

15 Alegra-nos pelos dias em que nos afligiste, e pelos anos em que vimos o mal.

16 Apareça a tua obra aos teus servos, e a tua glória sobre seus filhos.

17 E seja sobre nós a formosura do Senhor nosso Deus, e confirma sobre nós a obra das nossas mãos; sim, confirma a obra das nossas mãos.

 

 


Salmo 91 




1 Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.

2 Direi do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei.

3 Porque Ele te livrará do laço do passarinheiro, e da peste perniciosa.

4 Ele te cobrirá com as suas penas, e debaixo das suas asas te confiarás; a sua verdade será o teu escudo e broquel.

5 Não terás medo do terror de noite nem da seta que voa de dia,.

6 Nem da peste que anda na escuridão, nem da mortandade que assola ao meio-dia.

7 Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas não chegará a ti.

8 Somente com os teus olhos contemplarás, e verás a recompensa dos ímpios!

9 Porque tu, ó Senhor, és o meu refúgio. No Altíssimo fizeste a tua habitação.

10 Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda.

11 Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos.

12 Eles te sustentarão nas suas mãos, para que não tropeces com o teu pé em pedra.

13 Pisarás o leão e a cobra; calcarás aos pés o filho do leão e a serpente!

14 Porquanto tão encarecidamente me amou, também eu o livrarei; pô-lo-ei em retiro alto, porque conheceu o meu nome.

15 Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei.

16 Fartá-lo-ei com longura de dias, e lhe mostrarei a minha salvação!

 



arrependimento é diferente de remorso



Muita gente confunde remorso com arrependimento. Mas não são a mesma coisa!






O remorso é o incômodo da consciência. É sentir o peso do pecado, a vergonha, o vazio, a perda da paz. O arrependimento verdadeiro, porém, vai além: ele leva à conversão, à decisão sincera de abandonar o pecado e voltar-se para Deus.Numa perspectiva de São Tomás de Aquino, é possível sentir remorso sem se arrepender de verdade. E aqui existe um alerta espiritual muito sério: podemos sofrer por causa do pecado e, ao mesmo tempo, continuar apegados a ele.É por isso que muitas vezes a pessoa:


-sente culpa,

-sabe que está errada,

-se incomoda interiormente, mas continua justificando o próprio pecado.


A desculpa ou justificativa é:


-“Todo mundo faz.”

-“Não é tão grave.”

-“Deus entende.”

-“Eu sou assim.”

-“Depois eu mudo.”


O coração começa a negociar e justificar aquilo que deveria abandonar.


Até os demônios reconhecem sua derrota e sofrem por sua condição, mas jamais se arrependem, porque continuam obstinados contra Deus. E isso serve de alerta para nós: sofrer pelo pecado não basta. O verdadeiro arrependimento exige humildade, renúncia e conversão.


A moral Cristã não nos chama apenas a sentir culpa, mas a mudar de vida. Porque o maior perigo espiritual não é cair no pecado, é aprender a conviver com ele sem desejar realmente abandoná-lo.



CONCLUSÃO



A grande lição de toda essa reflexão é que existe uma diferença profunda entre a condição humana e a condição angélica. Nós, homens, vivemos no tempo, aprendemos lentamente, erramos por ignorância, paixão, medo, fraqueza e confusão. 



Nossa inteligência é limitada, gradual e discursiva. Por isso Deus, em sua infinita misericórdia, nos concede continuamente a possibilidade da conversão, do arrependimento e do retorno à graça.Os anjos, porém, não foram criados assim. Eles conhecem com clareza muito superior à nossa. Sua escolha foi feita com plena lucidez, sem engano, sem ilusão e sem obscuridade. Os anjos fiéis disseram “sim” a Deus de modo definitivo; os anjos caídos disseram “não” de forma igualmente definitiva. É precisamente por isso que os demônios não se arrependem: não porque lhes falte inteligência, mas porque sua vontade ficou eternamente fixada naquilo que escolheram conscientemente.








Isso também revela algo muito importante sobre a natureza do inferno. O inferno não é simplesmente um “lugar de tortura” criado arbitrariamente por um Deus cruel. O inferno é, antes de tudo, o estado definitivo de separação voluntária de Deus. Os demônios não querem amar a Deus. Eles O odeiam conscientemente. Sofrem não pela dor do arrependimento, mas pela dor da frustração, da inveja, do orgulho ferido e da eterna privação da bem-aventurança para a qual também foram criados.


São Tomás de Aquino explica magistralmente que os demônios não possuem remorso, porque o remorso exige uma vontade ainda inclinada ao bem. O homem, mesmo pecador, muitas vezes conserva dentro de si essa tensão interior entre o mal cometido e o bem desejado. Por isso ainda pode chorar seus pecados, como São Pedro chorou após negar Cristo. Já os demônios não querem voltar para Deus. Sua vontade está endurecida e obstinada no mal.


E aqui está um ponto profundamente consolador para nós: Deus quis criar uma criatura capaz de voltar atrás. Santo Ambrósio dizia que, mesmo após a queda dos anjos, Deus criou o homem porque desejava criaturas a quem pudesse perdoar. Que mistério extraordinário! Enquanto os demônios permanecem fixados eternamente na própria revolta, nós ainda estamos no tempo da misericórdia.


É por isso que nunca devemos brincar com o pecado. A Escritura insiste repetidamente que “um pouco de fermento leveda toda a massa”. O mal possui força contaminadora. Foi assim em Sodoma e Gomorra; foi assim com os anjos caídos; e continua sendo assim no mundo atual, onde tantas ideologias, vícios e mentiras tentam normalizar aquilo que afasta o homem de Deus.


Ao mesmo tempo, porém, esta reflexão também deve nos encher de esperança. Diferentemente dos demônios, nós ainda podemos mudar. Podemos nos arrepender. Podemos voltar para a casa do Pai. Podemos ouvir novamente a voz da verdade. Podemos cair aos pés de Cristo e dizer: “Senhor, tende misericórdia de mim, pecador.”


Os demônios creem em Deus e tremem, mas não amam. O cristão verdadeiro, porém, não é chamado apenas a reconhecer intelectualmente a existência de Deus, mas a aderir livremente à Sua vontade, mesmo nas lutas e fraquezas da vida. Foi isso que fizeram os santos. Foi isso que fez a Virgem Maria ao dizer: “Faça-se em mim segundo a tua palavra.”


No fim, toda essa questão nos conduz a uma realidade central do Evangelho: a batalha espiritual entre verdade e mentira, entre submissão a Deus e orgulho rebelde. Satanás continua repetindo a antiga promessa do Éden: “Sereis como deuses.” Cristo, porém, nos mostra o caminho oposto: humildade, obediência e amor.


Enquanto houver vida, haverá possibilidade de conversão. Enquanto estivermos neste mundo, a graça ainda nos chama. Por isso a pior tragédia não é cair, mas endurecer o coração a ponto de não querer mais levantar-se.Os demônios já fizeram sua escolha eterna. Nós ainda podemos escolher. E é exatamente nisso que se manifesta a grandeza da misericórdia divina para conosco.



No entanto, o sofrimento dos demônios não nasce do arrependimento, mas da própria condição miserável em que se colocaram ao rejeitar a Deus. São Tomás de Aquino explica que existe uma diferença profunda entre a dor do remorso e a dor da pena. O remorso pertence à consciência que reconhece o mal cometido e deseja retornar ao bem; já a pena é o sofrimento causado pela privação de um bem que naturalmente deveria possuir-se.


Os demônios continuam possuindo uma natureza angélica grandiosa. Permanecem inteligentes, espirituais e dotados de vontade — dons que receberam do próprio Deus e que, em si mesmos, são bons. O mal não destruiu sua natureza; corrompeu sua orientação. Sua inteligência permanece poderosa, mas sua vontade tornou-se obstinadamente inclinada ao mal.


Ao rebelarem-se contra Deus, os anjos caídos romperam voluntariamente com a ordem divina. E é exatamente aí que nasce sua condenação: eles querem, odeiam, desejam e invejam, mas jamais conseguem possuir aquilo para o qual foram originalmente criados — a visão e a comunhão com Deus.


Por isso sua dor não é a dor humilde de quem diz: “Pequei, perdoa-me Senhor.” Não existe neles contrição, nem vergonha santa, nem desejo de reconciliação. Sua consciência não os acusa como acontece conosco, porque sua vontade está definitivamente endurecida no mal. Eles não sentem culpa; sentem frustração.


É a dor do orgulho derrotado. A dor da vontade contrariada. A dor da inveja ao ver almas sendo salvas. A dor do ódio impotente diante da glória de Deus que não conseguem destruir. Quanto mais odeiam o bem, mais sofrem ao vê-lo triunfar.


São Tomás mostra que esta é precisamente a natureza da pena demoníaca: uma vontade eternamente fixada no mal, mas eternamente incapaz de encontrar satisfação nele. O inferno torna-se, assim, a prisão da própria revolta. O demônio quer opor-se a Deus, mas jamais poderá vencer; quer arrastar almas para a perdição, mas continuamente vê a graça triunfar nos santos, nos mártires, nos convertidos e nos humildes.


O castigo, portanto, fere sua natureza; o remorso feriria sua consciência. Mas como sua consciência está pervertida e sua vontade permanece obstinada, eles não possuem a dor purificadora do arrependimento. Possuem apenas a dor estéril da frustração eterna.


E nisso também se manifesta a justiça divina: os demônios escolheram livremente viver sem Deus, mas descobriram tarde demais que toda criatura foi feita precisamente para Ele. Tentaram encontrar plenitude na exaltação do próprio orgulho e acabaram aprisionados numa eterna miséria interior.


Graças a Deus, porém, a condição humana ainda não é essa. Enquanto vivemos, ainda podemos nos arrepender, voltar atrás, pedir perdão e sermos restaurados pela graça. O que nos diferencia dos demônios não é sermos menos pecadores, mas ainda estarmos no tempo da misericórdia.


*Francisco José Barros Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº  003/17



BIBLIOGRAFIA



-AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Tradução para o português. São Paulo: Loyola, vários volumes. (Principal obra teológica da tradição católica; aborda a natureza dos anjos, a queda dos demônios, vontade, intelecto angélico, inferno e providência divina).

-FORTEA, José Antonio. Summa Daemoniaca: tratado de demonologia e manual de exorcística. Campinas: Ecclesiae, 2012. (Uma das obras contemporâneas mais conhecidas sobre demonologia católica, ação extraordinária do demônio e ministério do exorcismo).

-FORTEA, José Antonio. Exorcística. Campinas: Ecclesiae, 2013. (Aprofunda os critérios espirituais, pastorais e teológicos ligados ao exorcismo na tradição católica).

-FORTEA, José Antonio. História do Mundo Angélico. Campinas: Ecclesiae, 2014. (Estudo sobre a criação dos anjos, hierarquias angélicas e queda dos espíritos rebeldes).

-KREEFT, Peter. Anjos e Demônios: o que realmente sabemos sobre eles? São Paulo: Cultor de Livros, 2020. (Explicação filosófica e teológica acessível sobre a existência, ação e natureza dos anjos e demônios).

-RIPPERGER, Chad. Introdução à Ciência Mental. Tradução para o português. Campinas: Ecclesiae, 2021. (Embora centrada na filosofia da mente e da alma, possui importantes aplicações na compreensão da ação preternatural e da influência demoníaca).

-RIPPERGER, Chad. Dominion: o poder da libertação espiritual. Tradução para o português. São Paulo: Missão Regina Pacis, 2022. (Aborda autoridade espiritual, combate espiritual e princípios tradicionais de libertação).

-AMORTH, Gabriele. Memórias de um Exorcista. São Paulo: Palavra & Prece, 2013. (Relato pastoral e doutrinário do exorcista oficial da Diocese de Roma sobre ação demoníaca e discernimento espiritual).

-AMORTH, Gabriele. Um Exorcista Conta-nos. São Paulo: Loyola, 1998. (Clássico contemporâneo da demonologia pastoral católica, explicando obsessão, possessão e ação ordinária do demônio).

-AMORTH, Gabriele. O Exorcista: mais histórias. São Paulo: Palavra & Prece, 2018. (Complementa suas experiências pastorais e reforça o ensinamento tradicional da Igreja sobre Satanás).

-LEWIS, C. S. Cartas de um Diabo a seu Aprendiz. São Paulo: Martins Fontes, 2007. (Obra literária e apologética que explora, de forma simbólica, as estratégias espirituais da tentação demoníaca).

-LEWIS, C. S. O Problema do Sofrimento. São Paulo: Vida, 2006. (Discute a relação entre liberdade, mal moral, queda angélica e justiça divina).

-SCHEEBEN, Matthias Joseph. Os Mistérios do Cristianismo. Petrópolis: Vozes, 1955. (Importante obra teológica sobre graça, natureza espiritual e ordem sobrenatural).

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-SANTA TERESA D’ÁVILA. Castelo Interior. São Paulo: Paulus, 2007. (Embora mística, a obra contém profundas observações sobre discernimento espiritual e ataques demoníacos).

-SÃO JOÃO DA CRUZ. Noite Escura. Petrópolis: Vozes, 2002. (Análise espiritual da purificação da alma, tentações e combate interior).

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-GREGÓRIO MAGNO, São. Morais sobre Jó. Tradução para o português. São Paulo: Ecclesiae, 2016. (Comentários patrísticos sobre Satanás, sofrimento, provação e justiça divina).

-DIONÍSIO AREOPAGITA, Pseudo-. A Hierarquia Celeste. São Paulo: Polar, 2004. (Texto clássico da patrística sobre a ordem e natureza das hierarquias angélicas).

-SUÁREZ, Francisco. Tratado dos Anjos. Tradução para o português. Campinas: Ecclesiae, 2020. (Desenvolvimento escolástico aprofundado sobre intelecto, vontade e natureza angélica).



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