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Sobre os ritos litúrgicos, os Sacramentos, e a diferença entre Memorial e Presença Real

Written By Beraká - o blog da família on terça-feira, 24 de agosto de 2021 | 13:31

 


 

"A Missa é memorial, mas a presença de Cristo na Eucaristia é real"



Essas duas verdades não se opõem; ao contrário, se completam. Um dos equívocos mais comuns é imaginar que, por ser chamada de memorial, a celebração eucarística seria apenas uma recordação simbólica da Última Ceia ou um simples ato de recordar Jesus. 


No entanto, na linguagem bíblica e litúrgica da Igreja, memorial não significa mera lembrança psicológica, mas a atualização sacramental do acontecimento salvífico realizado por Cristo.


Assim, a Santa Missa torna presente o único sacrifício de Cristo na Cruz, sem repeti-lo, permitindo que os fiéis participem dos frutos da redenção. Por isso, a Igreja sempre ensinou que os sacramentos não são símbolos vazios, mas sinais eficazes da graça divina. Na Eucaristia, de modo singular, Jesus Cristo está presente verdadeira, real e substancialmente sob as espécies do pão e do vinho.


Compreender essa distinção é fundamental para evitar falsas oposições. A Missa é memorial porque faz memória da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor; e a presença é real porque, pela ação do Espírito Santo e pelas palavras da consagração, o próprio Cristo se faz presente no Sacramento do Altar. 



Portanto, para a fé católica, memorial e Presença Real não são conceitos contraditórios, mas duas dimensões inseparáveis do mesmo mistério eucarístico.


FUNDAMENTAÇÃO MAGISTERIAL (CIC): Definição, significação, e fins dos sacramentos

 

 

§774 A palavra grega "mysterion" foi traduzida para o latim por dois termos: "mysterium" e "sacramentum". Na interpretação ulterior, o termo "sacramentum" exprime mais o sinal visível da realidade escondida da salvação, indicada pelo termo "mysterium". Neste sentido, Cristo mesmo é o mistério da salvação: "Non est enim aliud Dei mysterium, Christus - Pois não existe outro mistério de Deus a não ser Cristo". A obra salvífica de sua humanidade santa e santificante é o sacramento da salvação que se manifesta e age nos sacramentos da Igreja (que as Igrejas do Oriente denominam também "os santos mistérios"). Os sete sacramentos são os sinais e os instrumentos pelos quais o Espírito Santo difunde a graça de Cristo, que é a Cabeça, na Igreja, que é seu Corpo. A Igreja contém, portanto, e comunica a graça invisível que ela significa. É neste sentido analógico que ela é chamada de (como que)"sacramento".


 

Eucaristia "sacramento dos sacramentos"

 

 

§1374 O modo de presença de Cristo sob as espécies eucarísticas é único. Ele eleva a Eucaristia acima de todos os sacramentos e faz com que seja "como que o coroamento da vida espiritual e o fim ao qual tendem todos os sacramentos". No santíssimo sacramento da Eucaristia estão "contidos verdadeiramente, realmente e substancialmente o Corpo e o Sangue juntamente com a alma e a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo e, por conseguinte, o Cristo todo". "Esta presença chama-se 'real' não por exclusão, como se as outras não fossem 'reais', mas por antonomásia, porque é substancial e porque por ela Cristo, Deus e homem, se toma presente completo."

 

 



Fins dos sacramentos

 

 

§1123 "Os sacramentos destinam-se à santificação dos homens, à edificação do Corpo de Cristo e ainda ao culto a ser prestado a Deus. Sendo sinais, destinam-se também à instrução. Não só supõem a fé, mas por palavras e coisas também a alimentam, a fortalecem e a exprimem. Por esta razão são chamados sacramentos da fé."

 

 




Fundamentos dos sacramentos na vida de Cristo

 

 

§1115 As palavras e as ações de Jesus durante sua vida oculta e durante seu ministério público já eram salvíficas. Antecipavam o poder de seu mistério pascal. Anunciavam e preparavam O que iria dar à Igreja quando tudo fosse realizado. Os mistérios da vida de Cristo são os fundamentos daquilo que agora, por meio dos ministros de sua Igreja, Cristo dispensa nos sacramentos, pois "aquilo que era visível em nosso Salvador passou para seus mistérios".

 

 



 

Igreja “como que” (analogamente) sacramento universal de Salvação (não se instituiu o oitavo sacramento)!

 

 

§775 "A Igreja é, em Cristo, como que o sacramento ou o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano." Ser o sacramento da união íntima dos homens com Deus é o primeiro objetivo da Igreja. Visto que a comunhão entre os homens está enraizada na união com Deus, a Igreja é também o sacramento da unidade do gênero humano. Nela, esta unidade já começou, pois ela congrega homens "de toda nação, raça, povo e língua" (Ap 7,9); ao mesmo tempo, a Igreja é "sinal e instrumento" da plena realização desta unidade que ainda deve vir.

 

 

§776 Como sacramento, a Igreja é instrumento de Cristo. "Nas mãos dele, ela é o instrumento da Redenção de todos os homens" o sacramento universal da salvação" pelo qual Cristo "manifesta e atualiza o amor de Deus pelos homens". Ela "é o projeto visível do amor de Deus pela humanidade" que quer que o "gênero humano inteiro constitua o único povo de Deus, se congregue no único Corpo de Cristo, seja construído no único templo do Espírito Santo".

 

 

§780 A Igreja é no mundo presente o sacramento da salvação, o sinal e o instrumento da comunhão de Deus e dos homens.

 

 

Presença de Cristo nos 7 sacramentos

 

 

§1088 - ESTA PRESENTE NA LITURGIA TERRESTRE -  "Para levar a efeito tão grande obra" a saber, a dispensação ou comunicação de sua obra de salvação" Cristo está sempre presente em sua Igreja, sobretudo nas ações litúrgicas. Presente está no sacrifício da missa, tanto na pessoa do ministro, pois 'aquele que agora oferece pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que outrora se ofereceu na cruz', quanto sobretudo sob as espécies eucarísticas. Presente está por sua força nos sacramentos, a tal ponto que, quando alguém batiza, é Cristo mesmo que batiza. Presente está por sua palavra, pois é ele mesmo quem fala quando se lêem as Sagradas Escrituras na Igreja. Presente está, finalmente, quando a Igreja reza e salmodia, ele que prometeu: 'Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, aí estarei no meio deles' (Mt 18,20)."

 

 

Presença “real” de Cristo no Santíssimo Sacramento

 

 

 

§1374 O modo de presença de Cristo sob as espécies eucarísticas é único. Ele eleva a Eucaristia acima de todos os sacramentos e faz com que seja "como que o coroamento da vida espiritual e o fim ao qual tendem todos os sacramentos". No santíssimo sacramento da Eucaristia estão "contidos verdadeiramente, realmente e substancialmente o Corpo e o Sangue juntamente com a alma e a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo e, por conseguinte, o Cristo todo" . "Esta presença chama-se 'real' não por exclusão, como se as outras não fossem 'reais', mas por antonomásia, porque é substancial e porque por ela Cristo, Deus e homem, se toma presente completo."

 

 

 

§1127 Sacramentos da salvação Celebrados dignamente na fé, os sacramentos conferem a graça que significam. São eficazes porque neles age o próprio Cristo; é ele quem batiza, é ele quem atua em seus sacramentos, a fim de comunicar a graça significada pelo sacramento. O Pai sempre atende à oração da Igreja de seu Filho, a qual, na epiclese de cada sacramento, exprime sua fé no poder do Espírito. Assim como o fogo transforma nele mesmo tudo o que toca, o Espírito Santo transforma em vida divina o que é submetido ao seu poder.

 

 

§1509 "Curai os enfermos!" (Mt 10,8). A Igreja recebeu esta missão do Senhor e esforça-se por cumpri-la tanto pelos cuidados aos doentes como pela oração de intercessão com que os acompanha. Ela crê na presença vivificante de Cristo, médico da alma e do corpo. Esta presença age particularmente por intermédio dos sacramentos e, de modo especial, pela Eucaristia, pão que dá vida eterna a cujo liame com a saúde corporal São Paulo alude.

 

 


 



Os Sacramentos não renováveis

 

 

§698 O selo é um símbolo próximo ao da unção. Com efeito, é Cristo que "Deus marcou com seu selo" (Jo 6,27) e é nele que também o Pai nos marca com seu selo. Por indicar o efeito indelével da unção do Espírito Santo nos sacramentos do batismo, da confirmação e da ordem, a imagem do selo ("sphragis") tem sido utilizada em certas tradições teológicas para exprimir o "caráter" indelével impresso por estes três sacramentos que não podem ser reiterados.

 





 


Importância dos sacramentos na catequese litúrgica

 

 

§1074 "A liturgia é o ápice para o qual tende a ação da Igreja, e ao mesmo tempo é a fonte donde emana toda a sua força." Ela é, portanto, o lugar privilegiado da catequese do povo de Deus. "A catequese está intrinsecamente ligada a toda ação litúrgica e sacramental, pois é nos sacramentos, e sobretudo na Eucaristia, que Cristo Jesus age em plenitude para a transformação dos homens."

 

 

 

§1075 A catequese litúrgica tem em vista introduzir no mistério de Cristo (ela é "mistagogia"), procedendo do visível para o invisível, do significaste para o significado, dos "sacramentos" para os "mistérios". Tal catequese é da competência dos catecismos locais e regionais. O presente Catecismo, que pretende servir para a Igreja inteira, na diversidade de seus ritos e de suas culturas, apresentará o que é fundamental e comum a toda a Igreja no tocante à liturgia como mistério e como celebração (Seção I), e em seguida os sete sacramentos e os sacramentais (Seção II.).

 

 

 

Sacramentos não são vacinas, mas remédio que proporcionam crescimento e cura aos membros de Cristo

 

 

 

§798 O Espírito Santo é "o Princípio de toda ação vital e verdadeiramente salutar em cada uma das diversas partes do Corpo". Ele opera de múltiplas maneiras a edificação do Corpo inteiro na caridade: pela Palavra de Deus, "que tem o poder de edificar" (At 20,32); pelo Batismo, por meio do qual forma o Corpo de Cristo; pelos sacramentos, que proporcionam crescimento e cura aos membros de Cristo; pela "graça concedida aos apóstolos, que ocupa o primeiro lugar entre seus dons"; pelas virtudes, que fazem agir segundo o bem; e, enfim, pelas múltiplas graças especiais (chamadas de "carismas"), por meio das quais "torna os fiéis aptos e prontos a tomarem sobre si os vários trabalhos e ofícios que contribuem para a renovação e maior incremento da Igreja".

 

 

Sacramentos caminho da iniciação cristã

 

 

 

§1212 Pelos sacramentos da iniciação cristã; Batismo, Confirmação e Eucaristia são lançados os fundamentos de toda vida cristã. "A participação na natureza divina, que os homens recebem como dom mediante a graça de Cristo, apresenta certa analogia com a origem, o desenvolvimento e a sustentação da vida natural. Os fiéis, de fato, renascidos no Batismo, são fortalecidos pelo sacramento da Confirmação e, depois, nutridos com o alimento da vida eterna na Eucaristia. Assim, por efeito destes sacramentos da iniciação cristã, estão em condições de saborear cada vez mais os tesouros da vida divina e de progredir até alcançar a perfeição da caridade."

 

 

 

§1275 A iniciação cristã realiza-se pelo conjunto de três sacramentos: o Batismo, que é o início da vida nova; a Confirmação, que é sua consolidação e a Eucaristia, que alimenta o discípulo com o Corpo e o Sangue de Cristo em vista de sua transformação nele.

 

 

 

§1425 Por que um sacramento da Reconciliação após o Batismo? "Vós os lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de nosso Deus" (1 Cor 6,11). É preciso tomar consciência da grandeza do dom de Deus que nos é oferecido nos sacramentos da iniciação cristã para compreender até que ponto o pecado é algo que deve ser excluído daquele que se "vestiu de Cristo". Mas o apóstolo São João também diz: "Se dissermos: "Não temos pecado", enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós" (1Jo 1,8). E o próprio Senhor nos ensinou a rezar: "Perdoa-nos os nossos pecados" (Lc 11,4), vinculando o perdão de nossas ofensas ao perdão que Deus nos conceder de nossos pecados.

 

 

 

§1533 - OS SACRAMENTOS DO SERVIÇO DA COMUNHÃO - O batismo, a Confirmação e a Eucaristia são os sacramentos da iniciação cristã. São a base da vocação comum de todos os discípulos de Cristo, vocação à santidade e à missão de evangelizar o mundo. Conferem as graças necessárias à vida segundo Espírito nesta vida de peregrinos a caminho da Pátria.

 

 

 

Sacramentos comunicam a graça da salvação por eles significada – OS FRUTOS!

 

 

 

§1127 Sacramentos da salvação Celebrados dignamente na fé, os sacramentos conferem a graça que significam. São eficazes porque neles age o próprio Cristo; é ele quem batiza, é ele quem atua em seus sacramentos, a fim de comunicar a graça significada pelo sacramento. O Pai sempre atende à oração da Igreja de seu Filho, a qual, na epiclese de cada sacramento, exprime sua fé no poder do Espírito. Assim como o fogo transforma nele mesmo tudo o que toca, o Espírito Santo transforma em vida divina o que é submetido ao seu poder.

 

 

 

§1128 Este o sentido da afirmação da Igreja: os sacramentos atuam ex opere operato (literalmente: "pelo próprio fato de a ação ser realizada"), isto é, em virtude da obra salvífica de Cristo, realizada uma vez por todas. Daí segue-se que "o sacramento não é realizado pela justiça do homem que o confere ou o recebe, mas pelo poder de Deus". A partir de momento em que um sacramento é celebrado em conformidade com a intenção da Igreja, o poder de Cristo e de seu Espírito agem nele e por ele, independentemente da santidade pessoal do ministro. Contudo, os frutos dos sacramentos dependem também das disposições de quem os recebe. (ATENÇÃO!!!)

 

 

 

§1129 A Igreja afirma que para os crentes os sacramentos da nova aliança são necessários à salvação. A "graça sacramental" é a graça do Espírito Santo dada por Cristo e peculiar a cada sacramento. O Espírito cura e transforma os que o recebem, conformando-os com o Filho de Deus. O fruto da vida sacramental é que o Espírito de adoção deifica os fiéis unindo-os vitalmente ao Filho único, o Salvador.

 

 

 

Sacramentos prenunciam a glória futura da vida eterna

 

 

 

§1130 Os sacramentos da Vida Eterna A Igreja celebra o mistério de seu Senhor "até que Ele venha" e até que "Deus seja tudo em todos" (1 Cor 11,26; 15,28). Desde a era apostólica a liturgia é atraída para seu termo (meta final) pelo gemido do Espírito na Igreja: "Maran athá!" (Palavras aramaicas que significam: "O Senhor vem") (1 Cor 16,22). A liturgia participa assim do desejo de Jesus: "Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco (...) até que ela se cumpra no Reino de Deus" (Lc 22,15-16). Nos sacramentos de Cristo, a Igreja já recebe o penhor da herança dele, já participa da Vida Eterna, embora ainda "aguarde a bendita esperança, a manifestação da glória de nosso grande Deus e Salvador, Cristo Jesus" (Tt 2,13). "O Espírito e a esposa dizem: Vem! (...) Vem, Senhor Jesus!" (Ap 22,17.20). Santo Tomás resume assim as diversas dimensões do sinal sacramental: "Daí que o sacramento é um sinal rememorativo daquilo que antecedeu, isto é, a Paixão de Cristo; e demonstrativo daquilo que em nós é realizado pela Paixão de Cristo, a saber, a graça; e prenunciador, isto é, que prenuncia a glória futura".

 

 

 

Sacramentos agem ex opere operato

 

 

 

§1128 Este o sentido da afirmação da Igreja: os sacramentos atuam ex opere operato (literalmente: "pelo próprio fato de a ação ser realizada"), isto é, em virtude da obra salvífica de Cristo, realizada uma vez por todas. Daí segue-se que "o sacramento não é realizado pela justiça do homem que o confere ou o recebe, mas pelo poder de Deus". A partir de momento em que um sacramento é celebrado em conformidade com a intenção da Igreja, o poder de Cristo e de seu Espírito agem nele e por ele, independentemente da santidade pessoal do ministro. Contudo, os frutos dos sacramentos dependem também das disposições de quem os recebe.

 

 

 

 

APROFUNDAMENTO TEOLÓGICO: SACRAMENTO DO “TOCO DE CIGARRO” (Leonardo Boff)


 



 

Capítulo I. Porta de entrada do edifício sacramental

 

 

O homem está no mundo. Ele “é capaz de ler a mensagem do mundo” (p. 9) através das realidades que, em suma, são sinais de outra realidade. E assim chegamos a Deus, a “realidade fundante de todas as coisas” (p. 10). O homem pode “fazer de um objeto um símbolo e de uma ação um rito” (p. 11). Quando essa ação e esse objeto apontam para outra coisa maior, então chamamos de sacramento. Para o cristianismo a matéria é sacramental. Esta chegou à sua máxima densidade em Jesus Cristo, Sacramento Primordial do Pai. Este deixou a Igreja que é (COMO QUE...) sacramento universal de salvação. Ela se concretiza nas várias situações da vida e funda a estrutura sacramental centrada especialmente nos sete sacramentos (p. 12).

 

 

 

O Sacramento da Caneca e do toco de cigarro?

 

 

A Igreja sempre percebeu que tudo pode ser sinal sacramental da graça divina. Sacramentos são “sinais que contém, exibem, rememoram, visualizam e comunicam uma outra realidade diferente deles, mas presente neles” (p. 18). A linguagem da religião e do sacramento nunca é apenas descritiva, mas principalmente evocativa: de um passado e de um futuro vividos no presente (p. 18). O exemplo da caneca que traz Boff, evoca muito bem isso. Quem olha de fora com um olhar científico não enxerga o mesmo que quem olha de dentro com um olhara sacramental. Nesse sentido, o toco de cigarro do pai lembra ao autor, o pai que viveu e vive com ele. Ele remota à fé, que “ilumina e exorciza o absurdo da morte” (p. 22). Quando mais profundamente o homem se relaciona com o mundo e com as coisas do seu mundo, mas encontra a sacramentalidade (p.23).

 






 

Recordemos também, a ilustração do pão que uma mãe faz para os filhos na história contada por Boff

 

 

Esse pão é “diferente porque recorda e traz presente por si mesmo (in-manência) e através de si mesmo (trans-parência) algo que vai além de si mesmo (trans-cendência)” (p. 29). E essa é a dimensão sacramental daquele gesto que a mãe zelosamente repete. Esse gesto depende também de quem observa. Isso pode ser alargado ao mundo. No capítulo II, Boff fala da caneca. Aquele utensílio doméstico que nos remete a épocas tão antigas, e a diversas situações com ela vividas. Diz que a caneca vista de fora, com os óculos do cientista, é tão-somente um objeto de louça ou de ferro, porém, com os olhos da fé sacramental, a mesma caneca adquire uma importância inefável:"A caneca fala da história da família que ela sempre acompanhou, na vida e na morte. Ela foi entrando cada vez mais na família. No final era um filho a mais cercado de carinho. E hoje está lá ainda a falar e a relembrar na fidelidade e na humanidade de servir a água que agora ficou doce, fresca e boa por causa da caneca...Essa é a visão interior da caneca. Foi o relacionamento havido com ela que a fez ser um sacramento familiar." (p. 19).No capítulo III, o autor discorre sobre o sacramento do toco de cigarro. Nos soa estranho, banal e reducionista referir-se a tão grande mistério dessa forma, comparando a Eucaristia, o Sacramento por excelência a um simples toco de cigarro. Principalmente hoje em dia, onde temos campanha contra o fumo, despersuadindo os tabagistas de continuarem no vício que já ceifou tantas vidas, talvez até de alguém bem próximo(a) a nós. Nesta parte do livro, Boff narra uma experiência pessoal, para fazer essa analogia:"Era o dia 11 de agosto de 1965. Munique, na Alemanha. Lembro-me bem: lá fora as casas aplaudiam o sol vigoroso do verão europeu; flores multicores explodiam nos parques e acenavam ridentes das janelas. São duas horas da tarde. O carteiro me traz a primeira carta da pátria. Ela vem carregada de saudade deixada pelo caminho percorrido. Sofregamente abro-a. Todos de casa escreveram. Parece quase um jornal. Paira um mistério: "Já deves estar em Munique quando leres estas linhas. Iguais a todas as outras, esta carta, embora diferente das demais, te traz uma bela mensagem, uma notícia que, vista sob o ângulo da fé, é deveras alvissareira. Deus exigiu de nós, há poucos dias, um tributo de amor, de fé e de penhorado agradecimento. Ele desceu no seio da nossa família. Olhou-nos um a um e escolheu para si o mais perfeito, o mais santo, o mais maduro, o melhor de todos, o mais próximo d'Ele, o nosso querido papai. Querido, Deus não o tirou de nós, mas deixou-o mais ainda entre nós. Deus não levou papai só para si, mas deixou-o mais ainda para nós. Ele não arrancou papai da alegria de nossas férias, mas plantou-o mais fundo na memória de todos nós. Deus não furtou papai da nossa presença, mas deu-o mais presente. Ele não o levou, mas o deixou. Papai não partiu, mas chegou. Papai não foi, mas veio para que papai fosse mais pai ainda, para que papai estivesse presente hoje e sempre, aqui no Brasil com todos nós, contigo na Alemanha, com o Ruy e o Clodovis Boff em Lovaina, e com o Waldemar nos Estados Unidos." (p. 22, negritos meus).

 

 

 

Realmente, é um lindo e comovente relato! No dia seguinte, Boff examina melhor o envelope da missiva e observa a presença de um "toco de cigarro"

 


 

"Fora o último que havia fumado, momentos antes de um enfarte do miocárdio o haver libertado definitivamente desta cansada existência." (p. 22). 




E Boff define sacramento: "Toda vez que uma realidade do mundo, sem deixar o mundo, evoca uma outra realidade diferente dela, ela assume uma função sacramental. Deixa de ser coisa para se tornar um "sinal ou um símbolo" (?) - Todo sinal é sinal de alguma coisa ou de algum valor para alguém. Como coisa pode ser absolutamente irrelevante (?). Como sinal pode ganhar uma valoração inestimável e preciosa. Tal o toco de cigarro de palha que, como coisa, é lançado ao lixo. Como símbolo é guardado qual tesouro inapreciável." (p. 23).

 


 

CRÍTICAS A TEOLOGIA SACRAMENTAL DO TOCO DE CIGARRO DE LEONARDO BOFF

 

 


 


Essencial é, assim, compreender qual é o sentido que o teólogo Boff empresta a este termo análogo, a partir de sua obra: Igreja Carisma e Poder:"A Igreja é aquela parte do mundo que, na força do Espírito, acolheu o Reino de forma explícita na pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado na opressão, guarda a permanente memória e a consciência do Reino, celebra sua presença no mundo e em si mesma detém a gramática do seu anúncio, a serviço do mundo" (p.16).

 

 

A definição é longa e precisa de explicação - O mundo é, para Boff:

 

 

"O lugar da realização histórica do Reino" (idem). E o Reino - "que engloba mundo e Igreja" - "é o fim bom da totalidade da criação em Deus finalmente liberta totalmente de toda imperfeição e penetrada pelo Divino que a realiza absolutamente" (idem) - Assim, o Reino - tão estranhamente formulado particularmente por Boff - se realiza no mundo, e a Igreja é mediadora dele - mas, segundo Boff, não exclusiva mediadora (pp.84 e 139) - mas um de seus sinais, não o único sinal.

 

 

Boff abandona, desta forma, dois conceitos fundamentais do catolicismo!

 

 

1)-Um, expresso diretamente por Nosso Senhor Jesus Cristo ao dizer: "o meu Reino não é deste mundo".

 

 

2)-E outro, decorrente do "quem crer e for batizado será salvo, quem não crer será condenado". (Mc 16,16),complementado por: "quem vos ouve a mim ouve " (Lc 10,16), e sintetizado na fórmula "extra Ecclesiam nulla salus".

 

 

O que ele prega é pois uma outra igreja que conduz a um Reino meramente terreno.

 

 

Uma igreja que é cósmica, igualitária e pneumática. Diz ele:"Se porém o Cristo pneumático (ressuscitado) não conhece mais limitações e limites estanques então Seu corpo que é a Igreja não pode também se encapsular dentro dos limites de sua dogmática, de sua liturgia e de seu direito canônico. A Igreja possui as mesmas dimensões do Cristo ressuscitado. E essas dimensões são cósmicas. Suas funções e mistérios, suas estruturas e serviços que existem e devem existir, devem contudo manter-se sempre abertos ao Espírito que sopra onde quer e que é uma permanente força dinâmica no mundo. Todos os homens agraciados e que estão com o Espírito Santo deveriam por isso mesmo sentir-se membros da Igreja e encontrar um lugar para si dentro de suas estruturas visíveis. Ninguém está fora da Igreja, porque não existe mais um "fora", porque ninguém está fora da realidade de Deus e do Cristo ressuscitado. O homem pode contudo negar-se à cobertura; pode subjetivamente recursar-se a aceitar semelhante realidade. Mas nem por isso ele deixará de estar dentro" (p.232).

 

 

 

Boff deseja pois, uma Igreja sem definições  dogmáticas, litúrgicas, ou canônicas - Enfim, uma "Igreja Casa-da-mãe-Joana"

 

 





Não é de estranhar assim que ele considere "importante" a afirmação de T. Bruneau:"A desintegração institucional é, a meu ver, a condição sine qua non da participação do leigo na Igreja do Brasil"É, aliás, sobre a Igreja enquanto instituição que ele descarrega o mais pesado de suas críticas, acusando-a de ser não acidental, mas essencialmente, uma violadora dos direitos humanos (pp.58 e ss.). De acordo com Boff, na Igreja "a desigualdade estrutural produzida pela detenção dos meios de produção simbólica por parte de um grupo gera uma situação de permanente conflito com os direitos humanos". Os "detentores dos meios de produção simbólica" são os membros da hierarquia eclesiástica, encarregada por Cristo de ensinar a Verdade e de conduzir os homens à salvação.Para Boff, enquanto perdurar uma "compreensão dogmática e doutrinária da revelação e da salvação de Jesus Cristo dever-se-á contar irretorquivelmente com a repressão da liberdade do pensamento divergente dentro da Igreja" (p.75).Para afastar-nos de tal perigo o zeloso teólogo recomenda-nos um estudo seu publicado na REB 35. Mas, como realizar esse benéfico trabalho de destruição da estrutura eclesiástica?

 



Serão suficientes os estudos e as palavras de tão inefável, INERRANTE e INFALÍVEL teólogo?

 

 



(para Boff a verdade não está com a Igreja, mas apenas com os progressistas)





Não! "Em primeiro lugar convém exorcizar a tentação idealista de que basta um recurso à modificação das consciências para produzir uma mudança estrutural na Igreja. Mais do que as novas idéias são as práticas diferentes (com o suporte de suas respectivas teorias) que modificam a prática eclesial. Estas modificações por sua vez abrem caminho para uma compreensão teórica e temática correspondente propiciando uma leitura nova do Evangelho e da Tradição”.Certamente devemos reconhecer Marx e Antonio Gramsci se tratassem do assunto, não o diriam melhor. Santo Agostinho humildemente recinheceu erros em sua teologia e fez uma RETRATAÇÃO. Boff é inerrante, quem tem que se retratar é a Igreja Coluna e sustentáculo da verdade(1 Tim 3,15). Não se pense, entretanto, que Boff defenda essas sublimes teorias sem apoiar-se nas autoridades competentes da matéria. Longe disso! Ao comentar, por exemplo, a "patologia" da "compreensão dicotômica" da Ecclesia docens e discens, depois de rejeitar a autoridade do Papa S. Pio X, que ele cita em segunda mão e numa tradução falseada (cfr. p. 218), apoia-se numa autoridade surpreendente em matéria eclesiástica:O pedagogo marxista Paulo Freire, o qual "mostrou o caráter patológico desse tipo de relação" - o tipo de relação defendido por S. Pio X - "que desumaniza um polo e o outro".Mereceriam também comentário os textos de Boff sobre a natureza do Corpo de Cristo Ressuscitado - que ele identifica com o Espírito - sobre a unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade da Igreja, sobre os sacramentos, sobre a Fé e - resumindo - sobre praticamente todos os temas por ele tratados.Uma pessoa ingênua que lesse este livro de Boff poderia pensar que se enganou julgando comprar um livro católico. A religião professada em suas páginas é outra. A Igreja é outra, outro é o Evangelho, outra a Fé, outros os Sacramentos, outro o Deus.

 

 

 

A Santa Sé pediu o Silêncio Obsequioso (conf. Rom 14,22) a Boff, Ele a princípio,se calou - Por que? Ele mesmo o explica:

 

 

 

"Evidentemente a "velha Igreja" olhará com certa desconfiança para a nova Igreja na periferia e para as liberdades evangélicas que ela se toma. Poderá ver nela uma concorrente; gritará em termos de Igreja paralela; magistério paralelo, falta de obediência e lealdade para com o Centro! A Igreja nova deverá saber usar de uma inteligente estratégia e tática: não deverá entrar no esquema de condenações e suspeitas como o Centro poderá fazer. Deverá ser evangélica, compreender que a instituição enquanto é poder somente poderá usar a linguagem que não ponha em risco o próprio poder, que sempre temerá qualquer afastamento do comportamento ditado pelo Centro (o centro é inafalível?), e verá isto como deslealdade. Apesar de poder compreender tudo isso, a Igreja nova deverá ser lealmente desobediente. Explico-me: deverá buscar uma profunda lealdade para com as exigências do Evangelho; deverá ouvir a voz do Centro para se questionar da verdade de sua interpretação evangélica; caso estiver crítica e profundamente convencida de seu caminho, deverá ter a coragem de ser desobediente no Senhor e no Evangelho às imposições do Centro, sem rancor nem lamúria, mas numa profunda adesão à mesma vontade de ser fiel ao Espírito que presumimos existir também no Centro. Salva-se, portanto, a comunhão básica. Esta pureza evangélica é provocação para o Centro para ele mesmo despertar para o Espírito que não pode ser canalizado segundo os interesses humanos. A abertura à comunhão com o todo, a exclusão sequer da possibilidade de uma ruptura que destruísse a unidade e a caridade, mesmo que isso signifique isolamento, perseguição e condenação por parte do Centro constitui a garantia de autenticidade cristã e zelo de inspiração evangélica" (p.107).  




Ou seja, para Boff a Igreja nova deve compreender que o Centro, porque é poder, não pode falar senão pelos poderosos, sendo sua palavra no mínimo suspeita; deve, além disso, sem se submeter, não romper nunca com Roma, embora a comunhão essencial - a da Fé - já esteja rompida. 



A grande verdade por trás de tudo isso que Boff apregoa é que já não se trata, na realidade, de manter a unidade pela caridade, mas de dissimular hipocritamente o rompimento. 



Esse procedimento foi comum a muitas heresias, de modo especial às mais perigosas dentre elas. Repetindo-o, a nova Igreja, da qual Boff é um dos mentores, segue o caminho daqueles que através da história, quiseram utilizar a Arca da Salvação para propagar o erro e a mentira, talvez até de forma sincera, mas sinceramente equivocada.

 

 




 




CONCLUSÃO

 

A heresia de Leonardo Boff não é Cristológica e nem Trinitária, mas eclesiológica. 




A dificuldade presente no pensamento de Leonardo Boff não se encontra propriamente na Cristologia ou na doutrina trinitária, mas sobretudo na eclesiologia. 


Em outras palavras, o problema está em sua compreensão da natureza da Igreja, da autoridade do Magistério e da sacramentalidade instituída por Cristo. 


Ao adotar interpretações pessoais e subjetivas, Boff acaba por contrapor sua própria visão à fé constantemente professada pela Igreja ao longo dos séculos, como se a tradição católica estivesse equivocada e sua leitura particular fosse a correta.








Nesse contexto, suas reflexões sobre a Eucaristia e suas analogias com objetos de valor afetivo revelam uma confusão entre duas realidades distintas: o caráter memorial da Santa Missa e a Presença Real de Cristo na Eucaristia. A Igreja jamais negou que a Missa seja memorial. Ao contrário, é o próprio Senhor quem ordena: «Fazei isto em memória de mim» (Lc 22,19). Contudo, o erro está em interpretar esse memorial em sentido puramente psicológico, sentimental ou simbólico.


Na linguagem bíblica, memorial não significa simples recordação de algo ausente, mas atualização sacramental da ação salvífica de Deus. Por isso, a Igreja sempre ensinou simultaneamente duas verdades inseparáveis: a Santa Missa é realmente memorial, porém a presença de Cristo nas espécies consagradas é real, verdadeira e substancial.


Se a Eucaristia fosse apenas um símbolo criado pela comunidade, como sugerem certas interpretações de cunho memorialista, perderiam o sentido as próprias palavras de Cristo: «Isto é o meu corpo» (Mt 26,26) e «Minha carne é verdadeiramente comida e meu sangue verdadeiramente bebida» (Jo 6,55). Da mesma forma, a severa advertência de São Paulo seria incompreensível: «Quem come e bebe sem discernir o Corpo do Senhor, come e bebe a própria condenação» (1Cor 11,28-29). Ninguém se condena por tratar com irreverência um simples símbolo, mas porque ali está realmente presente o Senhor.


Assim, qualquer comparação entre a Eucaristia e um objeto que recorde uma pessoa amada pode, no máximo, ilustrar o aspecto memorial da celebração, mas fracassa completamente quando aplicada à realidade sacramental. 


Uma fotografia, uma lembrança de família ou até mesmo o exemplo do toco de cigarro mencionado por Boff podem evocar memórias de alguém ausente; a Santíssima Eucaristia, porém, não remete apenas a Cristo: ela contém o próprio Cristo vivo e glorioso, presente no Sacramento do Altar.


Portanto, reduzir a Eucaristia a um mero simbolismo afetivo significa esvaziar aquilo que sempre constituiu o coração da fé católica e aproximar-se de uma compreensão incompatível com o ensinamento constante da Igreja, solenemente reafirmado pelo Concílio de Trento e pelo Magistério perene. 


A verdadeira questão não é saber se a Missa é memorial — pois ela realmente o é —, mas reconhecer que, dentro desse memorial, Cristo se faz verdadeiramente presente. A Missa é memorial, mas a presença de Cristo na Eucaristia é real. 


Eis a fé católica recebida dos Apóstolos, preservada pela Igreja e professada pelos fiéis ao longo dos séculos.



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