por*Francisco
José Barros de Araújo
Como estes santos viveram e superaram a crise de fé? Esta pergunta, longe de ser apenas uma curiosidade histórica ou espiritual, toca uma realidade profundamente humana: a experiência do sofrimento interior, da dúvida e do aparente silêncio de Deus.
A crise de fé não é sinal necessariamente de fraqueza espiritual, mas muitas vezes expressão de um combate interior próprio daqueles que levam Deus a sério. De fato, quem nunca se confrontou com o inevitável da existência?
Aquela dimensão da realidade que não podemos controlar, que não depende de nossa vontade, mas que nos atinge e testa nossa capacidade de resistência, nossa maturidade emocional e, sobretudo, a autenticidade da nossa fé.
O ser humano naturalmente deseja uma felicidade estável, sem dores, sem perdas e sem contradições. Todos sonhamos com uma vida plena, onde nossos projetos se realizem sem obstáculos. Contudo, a realidade nos educa constantemente, mostrando que a vida não é um ideal imaginado, mas um caminho concreto marcado por cruzes, limites e provações. Quando recusamos essa realidade, caímos na ilusão; quando a enfrentamos sem fé, caímos no desespero; mas quando a enfrentamos com fé, encontramos um caminho de crescimento interior.
A tradição espiritual cristã sempre ensinou uma verdade exigente, mas profundamente libertadora: é preciso acolher a realidade como Deus permite que ela aconteça, confiando que, mesmo nas situações incompreensíveis, Ele continua agindo. Isso não significa um fatalismo passivo nem a aceitação do sofrimento como algo bom em si mesmo, pois Deus não quer o mal. Contudo, na sua providência misteriosa, Ele permite certas provações porque sabe tirar delas um bem maior, muitas vezes invisível aos nossos olhos imediatos.
A lógica divina frequentemente contraria a lógica humana. O Evangelho nos mostra paradoxos que desafiam nossa mentalidade: é morrendo que se vive, é perdendo que se ganha, é sendo humilhado que se é exaltado. Esta sabedoria espiritual não é teoria abstrata, mas experiência concreta vivida pelos santos ao longo da história. Eles também experimentaram tristeza, angústia, abandono, aridez espiritual e até mesmo tentações contra a fé. A diferença não foi a ausência de sofrimento, mas a maneira como responderam a ele.
A verdadeira experiência de Deus não acontece apenas nos momentos de consolação espiritual, mas muitas vezes nasce no meio da dor, das crises e das noites interiores.
Mesmo as pessoas mais espirituais enfrentam conflitos, doenças, incompreensões, fracassos e perdas. Nessas horas, surgem muitas interpretações: acaso, injustiça, erros pessoais ou maldade humana. Porém, nenhuma dessas explicações, isoladamente, é capaz de dar sentido pleno ao sofrimento humano. O maior drama acontece quando, além das dificuldades externas, a pessoa sente também o silêncio de Deus.
É justamente nesse ponto que começa o verdadeiro amadurecimento espiritual.
Quando os recursos humanos parecem insuficientes, quando as certezas emocionais desaparecem e quando até os sentimentos religiosos parecem secar, abre-se a possibilidade de uma fé mais pura, menos baseada em emoções e mais baseada na confiança.
Como ensinaram os grandes mestres da vida espiritual, Deus às vezes permite que percamos as consolações sensíveis para que aprendamos a amá-Lo por Ele mesmo e não apenas pelos benefícios que recebemos.
Foi essa experiência que muitos santos viveram. Longe de serem pessoas emocionalmente blindadas ou espiritualmente insensíveis, eles passaram por profundas provações interiores. Alguns chegaram a descrever essas experiências com palavras fortes, como “noite escura”, “deserto espiritual” ou “agonia interior”. Entretanto, essas crises não destruíram sua fé; ao contrário, purificaram-na, tornando-a mais firme, mais consciente e mais livre.
Por isso, compreender a crise de fé à luz da experiência dos santos é fundamental para desfazer um mito muito comum: o de que a santidade consiste em nunca ter dúvidas ou nunca sofrer espiritualmente. A realidade mostra o contrário. Muitas vezes, aqueles que mais amaram a Deus foram justamente os que mais sentiram o peso do silêncio divino. E exatamente por permanecerem fiéis mesmo sem consolações, tornaram-se grandes testemunhas da perseverança cristã.Este testemunho continua extremamente atual, especialmente em uma época marcada pelo materialismo, pelo imediatismo e pela busca constante de satisfação emocional. Num mundo onde muitos desistem da fé diante das primeiras dificuldades, o exemplo dos santos mostra que a crise pode ser não um sinal de derrota, mas um convite a uma fé mais adulta, mais consciente e mais enraizada na verdade.
A
espiritualidade antiga dizia: “É preciso acolher a realidade como Deus a
envia”!
Acolher o real da providência divina, que tudo dispõe em nosso favor,
mesmo sem entender, e não adianta buscar explicações racionais, porque está
fora deste plano, pois a lógica de Deus não igual a nossa: É morrendo que se
vive: é preciso perder para ganhar, humilhado para ser exaltado...
Quanta sabedoria nesse
conselho clássico da espiritualidade, mesmo sabendo que Deus não providencia sofrimentos,
desgraças, doenças, mas os permite. Deus não é o responsável direto por nossos
males. Hoje
poderíamos dizer o seguinte: é preciso se encontrar com Deus a partir dos
acontecimentos e nos acontecimentos.
Acolher Deus em todos os eventos da vida,
negativos ou positivos. Na alegria e abundância, mas também no sofrimento, na
tristeza e no fracasso.
Por mais que nos
sintamos visitados e abençoados pela graça de Deus, sabemos que tristeza, a
desolação e o desalento são estados de ânimo comuns na vida humana. E a
verdadeira experiência de Deus, às vezes, emerge, e de maneira profunda, no
meio de tudo isso. Na vida concreta, também das pessoas espirituais,
surgem fatos penosos, desentendimentos, traições, incompreensões, conflitos de
ordem afetiva, doenças.
Situações
que admitem uma série de interpretações: falta de sorte, maldade humana, acaso,
erros próprios, opções errôneas, pecados pessoais e sociais. Interpretações possíveis, mas que não resolvem o desconcerto
dos acontecimentos indesejados. O problema fica pior quando a pessoa se
sente abandonada por Deus, pelos amigos e pelos próprios recursos.
Sente-se só, posta numa
situação-limite. Porém, Deus mistura sua graça aos escombros de nossa vida. Sua
graça, oculta, eficaz e misteriosa, sabe fazer maravilhas através dos
acontecimentos inesperados, inclusive com elementos de erro e de pecado. Basta
que a pessoa não se desespere, mas confie, espere em Deus. A confiança n’Ele
nasce também de certo desespero interior. É quando já não pode mais confiar nos
próprios recursos que a pessoa ousa jogar-se nos braços da misericórdia de
Deus. Mas, no meio das trevas, para que haja verdadeiro amadurecimento
na fé, faz-se necessário manter a fidelidade a Deus, esperar pacientemente. São
João da Cruz aconselha:
“Lembre-se
de Cristo Crucificado e silencie. Viva na fé e na esperança, mesmo que seja às
escuras, pois nestas trevas Deus ampara a alma”.
É preciso confiar e
acreditar. Não duvidar e tudo esperar de Deus. Grandes santos da Igreja se
depararam com situações difíceis, extremas:
-Santo Afonso, apóstolo da
misericórdia, consolou muitos na confissão, mas disse, certa vez: “eu sofro um inferno”.
-Santa Teresinha atesta uma
verdadeira tortura interior, marcada pelo medo de se desesperar. No meio da
crise, exclama:
“É a pura agonia, sem
nenhuma mistura de consolação! Não, jamais acreditei que fosse possível sofrer
tanto”!
Nos Últimos Colóquios de Santa Teresinha do Menino Jesus existe um desabafo muito realista onde ela explica às noviças que a passagem para a eternidade não era sentimentalmente fácil nem “um mar de rosas” como muitos imaginam, apesar da sua grande confiança em Deus.Ela chegou a dizer algo nesse sentido (em forma aproximada conforme os registros):
“Não pensem que morrer seja como ir a uma festa. A agonia é bem real… mas Deus dá a força necessária.”
Em outro momento ela também explicou que sua morte seria vivida na fé pura, sem consolações sensíveis, dizendo:
“Não creio que a morte me traga consolações; espero viver até o fim na fé.”
E ainda este pensamento muito profundo que confirma essa ideia:
“Nunca pensei que fosse sofrer tanto… mas não me arrependo de ter me entregue ao Amor.”
O sentido espiritual desse desabafo - O que Teresinha queria ensinar às noviças era:
-Que a morte do justo não é teatro piedoso
-Que pode haver prova interior e aridez espiritual
-Que a santidade não elimina o sofrimento humano
-Que a confiança deve existir mesmo sem sentir consolo
Ela mesma chamou seus últimos meses de “provação contra a fé”, porque experimentou uma espécie de noite espiritual semelhante à descrita por São João da Cruz. Uma frase que resume bem esse espírito, e talvez a que melhor sintetiza isso seja:
“Se soubésseis as trevas pelas quais passo…”
Mas ao mesmo tempo ela completava com sua atitude característica:
“Meu Deus, eu Vos amo!”
Ou seja: não era um mar de rosas no sofrimento, mas era um ato heroico de confiança.Santa Teresinha conseguiu comungar nos seus últimos meses de vida, mas com muita dificuldade física por causa do estado avançado da tuberculose.
Ela recebeu o Viático?
Sim. Os registros do Carmelo de Lisieux indicam que sua última comunhão foi em 19 de agosto de 1897, cerca de 40 dias antes de sua morte (30 de setembro de 1897). Depois disso ela já estava debilitada demais para receber novamente.
Ela conseguiu engolir a hóstia? Os testemunhos das irmãs mostram que:
-Ela estava extremamente fraca
-Tinha dificuldade para comer e engolir
-Muitas vezes vivia apenas de líquidos
Por isso, como era costume nesses casos, o sacerdote podia dar uma partícula muito pequena da hóstia, ou até dissolvida em água, para facilitar a comunhão dos moribundos (prática permitida pela Igreja). Embora não haja um relato técnico dizendo literalmente “ela engoliu normalmente”, o fato de ter recebido a comunhão indica que foi administrada de modo que ela pudesse consumi-la validamente, mesmo com grande sofrimento.
A foto famosa dela já doente na enfermaria (tirada por sua irmã Céline, que era fotógrafa do Carmelo, acima desse tópico). Essas imagens mostram como ela estava debilitada e consumida pela doença, mas serena espiritualmente. Foram tiradas entre 1896 e 1897, os últimos anos de sua vida.
Um detalhe espiritual muito belo:
Mesmo sem poder mais comungar fisicamente nos últimos dias, ela fazia o que a Igreja chama de comunhão espiritual, oferecendo seu sofrimento e repetindo atos de amor como:
“Meu Deus, eu Vos amo.” (suas últimas palavras)
Masoquismo espiritual?
Não! Essas pessoas não se infligiam sofrimentos, porque, nesse caso, se
transformariam em gozo perverso. Os santos lutaram
contra os sofrimentos e tudo fizeram para superá-los! E também nós não temos que buscar sofrimentos ou
inventá-los. Quando surgem, temos o direito, e até o dever, de buscar uma solução na
psicologia, na medicina e nas ciências. Também podemos recorrer a Deus em busca da
cura. Se a alcançarmos, agradeceremos a Deus.
E se não conseguirmos o que buscamos?
-Sempre há um lugar em
nós em que fracassamos. Exatamente aí Deus abrirá uma brecha para
nos curar mais profundamente. Cura que nem sempre não restaura o objeto perdido,
mas modifica nosso olhar sobre Deus e sobre nossas relações. Nesse caso, cura
significa assumir a doença, perdoar sua causa e amar a Deus e a si mesmo
suficientemente para ser capaz de carregar sobre si e, às vezes, sobre o
próprio corpo, um novo olhar.
-Trata-se de um processo doloroso,
porém, se vivido na fé e no abandono, revelará o verdadeiro rosto de Deus, que
não se deixa banalizar ou identificar com meios que nós mesmos construímos. Ele
não é uma caricatura, um fantoche ou mesmo um ídolo construído à imagem e
semelhança do nosso desejo.
-Ele é
soberano, Senhor dos homens, do universo, da história e do destino. Mistério
insondável ao qual estamos referidos desde o mais profundo do nosso ser e que
reclama obediência, porque só Ele é o Sumo Bem. Não nos trata como crianças,
mas nos conduz, através das crises, a uma vida adulta, autêntica e responsável.
Somos assim conduzidos a uma maturidade provisória. Próxima etapa do
crescimento em Cristo.
-E as pessoas necessitam
encontrar em todos nós que trazemos as marcas de Cristo, uma razão para ter fé,
uma razão para ter esperança, uma razão para responder com amor ao amor do
Senhor. As bem-aventuranças que lemos do Evangelho são uma receita para a
santidade. Todos necessitamos vivê-las mais. Os sacerdotes têm que ser
mais santos? Seguramente sim! Os religiosos e religiosas têm que ser mais
santos e dar um testemunho maior de Deus e do Céu? Certamente! Mas todas as
pessoas na Igreja têm que fazê-lo, se for batizado(as), inclusive os leigos!
Todos temos a vocação
de ser santos e muitas vezes a crise nos desperta concretamente a este chamado,
pois no Céu só entra os Santos testados, e provados no cadinho da purificação
(Eclesiástico 2,1-13; Apoc. 21,27).
Um dos maiores pregadores na história
norte-americana, o Bispo Fulton J. Sheen, costumava dizer que:Preferia viver em tempos nos quais
a Igreja sofre em vez de florecer, quando a Igreja tem que lutar, quando a
Igreja tem que ir contra a cultura. Essas épocas para que os verdadeiros homens
e as verdadeiras mulheres deram um passo à frente e contaram "Até os
cadáveres podem flutuar corrente abaixo", costumava dizer, indicando que
muitas pessoas tomam iniciativa facilmente quando a Igreja é respeitada,
"mas é necessário que verdadeiros homens, de verdadeiras mulheres, para
nadar contra a corrente".Como isto é certo! É
preciso ser um verdadeiro homem e uma verdadeira mulher para manter-se
flutuando e nadar contra a corrente que se move em oposição à Igreja. É preciso
ser um verdadeiro homem e uma verdadeira mulher para reconhecer que quando se
nada contra a corrente das críticas, estamos mais seguros porque permanecemos
aderidos à Rocha sobre a qual Cristo fundou sua Igreja.
Este é um desses tempos. É um dos
grandes momentos para ser verdadeiros cristãos. Algumas pessoas
predizem que nesta área a Igreja passará tempos difíceis e talvez seja assim,
mas a Igreja sobreviverá, porque o Senhor se assegurará de que sobreviva. Uma
das maiores réplicas na história sucedeu justamente há cerca de 200 anos.
O
imperador francês Napoleão engolia com seus exércitos os países da Europa com a
intenção final de dominar totalmente o mundo.
Naquela época, disse certa vez ao
Cardeal Consalvi:"Vou
destruir sua Igreja" "Je detruirai votre eglise!" O Cardeal
respondeu-lhe: "Não, não poderá". Napoleão, com seus 1.50 de altura,
disse outra vez: "Je detruirai votre eglise!" O Cardeal disse
confiante: "Não, não poderá. Nem mesmo nós podemos fazê-lo!" Se os maus papas, os
sacerdotes infiéis e milhares de pecadores na Igreja não conseguiram destruí-la
em seu interior, estava dizendo implicitamente ao general: como o Senhor acredita que vai
poder faê-lo? O Cardeal apontava a uma verdade crucial. Cristo nunca permitirá
que Sua Igreja fracasse.
Ele prometeu que as portas do inferno não prevalecerão
sobre Sua Igreja, que a barca de Pedro, a Igreja que navega no tempo
rumo ao porto eterno no céu, nunca naufragará, não porque aqueles que vão nela
não cometam todos os pecados possíveis para afundá-la, mas porque Cristo, que
também está na barca, nunca permitirá que isto aconteça.
Cristo continua na barca
e Ele nunca a abandonará. Este é um tempo no qual todos nós precisamos nos
concentrar ainda mais na santidade! Estamos chamados a ser santos e quando
nossa sociedade precisa ver este rosto belo e radiante da Igreja! Somos parte
da solução, uma parte crucial da solução.
A CRISE DE FÉ DE MADRE TERESA DE CALCUTTÁ
“Madre Teresa, como toda pessoa que tem uma fé forte, tirava forças da própria fé. Só quem tem uma fé vigorosa pode experimentar uma crise tão forte e duradoura”, afirma Luis González-Quevedo, em entrevista especial para a IHU On-Line, comentando o livro com as cartas espirituais de Madre Teresa de Calcutá e amplamente comentadas nesta página.
Veja no final da entrevista a relação. Segundo
o padre Quevedo, “quem diz ter ‘perdido a fé’, por qualquer decepção religiosa
ou contra-testemunho da Igreja, na verdade, tinha uma fé muito fraca.
-Karl Marx nunca teve ‘crise de fé’. Estava tão convencido de
que a questão religiosa tinha sido resolvida, definitivamente, pelos filósofos
materialistas que o precederam, que nunca teve a menor dúvida religiosa.Os santos, sim, tiveram
dúvidas e sofreram crises de fé.
-Santa Teresinha de Lisieux escreveu: “Não sinto o gozo da fé, mas me
esforço por praticar as obras da fé”. Foi o que fez Madre Teresa ao
longo de toda sua vida.
Entrevista com Luiz
González-Quevedo, padre jesuíta, membro do Centro de Espiritualidade Inaciana -
CEI-Itaici, orientador dos Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola e redator
da revista Itaici-Revista de Espiritualidade Inaciana. É autor também de uma
série de livros sobre espiritualidade inaciana.
Confira a entrevista:
1)-IHU On-Line - A imagem
pública de Madre Teresa que mais ganhou força até recentemente é a de uma
mulher de fé, um modelo de entrega de si, de doação até o extremo, mas não se
conheciam suas crises de fé. O que traz de novo para sua imagem esta revelação
de suas crises de fé?
Luiz González-Quevedo -
Eu já tinha lido, em algum texto de Raniero Cantalamessa , que Madre Teresa nunca experimentara a
“consolação espiritual” na sua vida de oração. Isso só fez aumentar a minha
admiração por ela. Porque orar, quando
encontramos gosto, alegria e paz, é fácil. Mas orar, quando não se encontra
nisso o menor gosto, quando o coração está seco e a mente é assaltada por
pensamentos contrários à própria fé, é muito mais difícil e meritório.Por
“fé” entendemos uma confiança amorosa a respeito de realidades que não se podem
ver, nem verificar cientificamente (Deus, a vida eterna, a presença de Cristo
na Eucaristia etc.). Num mundo que
supervaloriza a ciência, é inevitável que toda pessoa que tenha fé passe por
momentos ou períodos de “crise de fé”. O que parece novo, no caso de Madre
Teresa, é que esta “crise” tenha sido tão constante e duradoura.
2)-IHU On-Line - Como
entender o vigor de Madre Teresa no seu testemunho de bondade no agir
apostólico, em meio a tal crise de fé e experiência de solidão? De onde tirava
sua força em meio a uma experiência tão profunda de vazio interior?
Luiz González-Quevedo -
Eu diria que Madre Teresa, como toda pessoa que tem uma fé forte, tirava forças
da própria fé. Só quem tem uma fé
vigorosa pode experimentar uma crise tão forte e duradoura. Quem diz ter “perdido a fé”, por qualquer decepção religiosa
ou contra-testemunho da Igreja, na verdade, tinha uma fé muito fraca. Karl Marx nunca teve “crise de fé”. Estava tão
convencido de que a questão religiosa tinha sido resolvida, definitivamente,
pelos filósofos materialistas que o precederam, que nunca teve a menor dúvida
religiosa. Os santos, sim, tiveram
dúvidas e sofreram crises de fé. Santa Teresinha de Lisieux escreveu: “Não
sinto o gozo da fé, mas me esforço por praticar as obras da fé”. Foi o que, ao
parecer, fez Madre Teresa ao longo de toda sua vida.
3)-IHU On-Line - Seria
possível confrontar-se tão de perto com a realidade da miséria e do sofrimento
injusto sem levantar dúvidas sobre Deus? Que aproximações e distanciamentos
existem entre a experiência de Teresa de Calcutá e a questão de Deus na
Teologia da Libertação?
Luiz González-Quevedo -
É sabido que na Índia, onde tenho uma irmã religiosa, coexistem a miséria
extrema e um alto desenvolvimento tecnológico. Há muitas tensões políticas,
sociais e religiosas, mas o Ocidente pós-cristão olha para o Oriente como um
foco de espiritualidade: ex oriens, lux (a luz vem do Oriente). Madre Teresa
foi à Índia como missionária e, muito provavelmente, os pobres a evangelizaram.Por outra parte, não há duvida de que uma
das possíveis causas do ateísmo, do agnosticismo ou da indiferença religiosa
seja o escândalo da persistente situação de injustiça social, precisamente nas
sociedades onde a religião está mais estendida. Oscar Niemayer atribui a
isso seu agnosticismo. Mas a mesma realidade injusta da nossa América Latina é
o pressuposto sociológico que deu origem e continua alimentando a Teologia da
Libertação. Para esta corrente teológica, Deus é, sobretudo, o Libertador,
aquele que vê a opressão do povo e ouve o clamor dos oprimidos (Ex 3,7).A
injustiça está aí, escancarada diante dos nossos olhos. A reação diante dela pode ser diversa, mesmo entre pessoas que tenham
a mesma fé. Tive um companheiro, Fernando Hoyos , que, movido por sua fé,
morreu lutando ao lado dos guerrilheiros, na Guatemala. Madre Teresa, movida também por sua fé, dedicou toda sua vida a
aliviar o sofrimento dos mais pobres entre os pobres. Muitos teólogos na
América Latina buscam uma interpretação da Bíblia e da tradição cristã que
ajude a “gerar uma sociedade sem excluídos, seguindo a prática de Jesus, que
come com publicanos e pecadores (cf. Lc 5,29-32), que acolhe os pequenos e as
crianças (cf. Mc 10,13-16), que cura os leprosos (cf. Mc 1,40-45) que perdoa e
liberta a mulher pecadora (cf. Lc 7,36-49; Jo 8,1-11), que fala com a
Samaritana (cf. Jo 4,1-26)”. Encontro este texto não nas obras de Gustavo
Gutierrez ou de Jon Sobrino , mas no
Documento de Aparecida (n. 135).Sei que a nossa Teologia da Libertação
ganhou muitas simpatias, tanto na Ásia, como na África, mas duvido que Madre
Teresa tivesse entusiasmo por ela. Tenho a impressão de que ela preferiria
posições teológicas mais tradicionais. Graças a Deus, Madre Teresa nunca
escreveu – que eu saiba – um artigo teológico, porque correria o risco de
decepcionar muitos dos seus admiradores.
4)- IHU On-Line - O caminho
de crescimento espiritual de pessoas como João da Cruz, Thomas Merton, Teresa
de Ávila, Teresa de Lisieux e Inácio de Loyola
também é marcado por crises de fé. O que há de comum entre estas
experiências? Que relação há entre a “noite escura” dos grandes místicos e o
tema da “desolação” de Inácio de Loyola?
Luiz González-Quevedo -
A “noite escura”, da qual falam os místicos carmelitanos, e a “desolação
espiritual”, da terminologia inaciana coincidem em apontar o lado sombrio e
áspero da fé. Há, no entanto, aspectos ou ênfases que permitem diferenciar os
dois conceitos. Para São João da Cruz, a
noite escura é necessária, para purificar a nossa sensibilidade e crescer no
verdadeiro amor, que consiste em “despojar-se e despir-se, por Deus, de tudo o
que não é Deus”. Já Santo Inácio enfatiza que, na desolação, somos guiados
e aconselhados pelo “mau espírito”, como ele chama à força do mal. Por isso,
quando estamos desolados, não devemos tomar decisões, antes permanecer firmes,
resistindo e reagindo contra as tentações.Todos
os místicos coincidem em dizer que a experiência de Deus é inefável, tanto nos
seus aspectos positivos (“consolação”, “paz que supera todo sentido”, “sumo
saber, não sabendo, toda ciência transcendendo”...), como nos seus aspectos
negativos (“desolação”, “noite escura”, “deserto”, saudade imensa de um Deus
sempre oculto e silencioso). Permito-me citar o que escrevi em outra
ocasião:“A saudade de Deus, que sua aparente ausência produz em nós, alimenta e
fortalece a nossa fé. A “desolação”
inaciana, como a “noite” carmelitana, torna-se convite à maturidade espiritual,
desafio para crescermos na busca infindável do Deus transcendente, esse Deus
sempre maior do que a nossa mente e o nosso coração são capazes de imaginar e
desejar” (Experiência de Deus: presença e saudade. 2. ed. São Paulo:
Edições Loyola, 2002, Col. “Leituras e Releituras”, n. 2, p. 55).Aproveito para
sugerir que a Unisinos traduza o último discurso de Karl Rahner , falecido em
1984. Tem por título: “Von der Unbegreiflichkeit Gottes” (Sobre a inefabilidade
de Deus) e foi publicado pela editora Herder, com prólogo de Karl Lehmann .
5)- IHU On-Line - Que
paralelo se pode fazer entre a experiência destas pessoas e o que se passou com
Madre Teresa? Sua experiência de “vazio interior” e “aridez espiritual” seria
uma expressão moderna ou pós-moderna dos temas já clássicos da “noite escura”
ou da desolação na mística cristã?
Luiz González-Quevedo -
Sendo “inefável” a experiência de Deus, tanto nos seus aspectos positivos como
nos aparentemente negativos, podemos empregar termos ou expressões diversas
para tentar descrevê-la. A expressão “vazio interior” parece-me muito atual. Na minha experiência de padre e orientador
de Exercícios Espirituais, escuto-a com freqüência: “Tudo o que faço dá certo –
dizia alguém -, mas nada me preenche”. Aqui, haveria que distinguir um
“vazio” superficial (o tédio dos personagens burgueses dos filmes de Antonioni
, por exemplo), de um vazio mais profundo e positivo, o “vazio” dos místicos, a
“solidão sonora”, onde Deus se esconde, porque encontra espaço de escuta. Sem
dúvida, o vazio que a Madre Teresa experimentou tão longamente na sua vida não
era um vazio superficial.
6)-IHU On-Line - Qual é
a importância do legado espiritual de Madre Teresa para nossos dias? Que lições
podemos aprender de sua experiência?
Luiz González-Quevedo -
Não conheço suficientemente a vida e a obra de Madre Teresa, mas, pelo que sei
dela, considero-a uma figura admirável. Num século tão complexo como o século
passado, deixou-nos um belo testemunho de amor a Deus e ao próximo, de
compaixão pelos últimos – “os mais pobres entre os pobres” -, de capacidade de
conquistar a boa vontade de pessoas muito diversas, para diminuir o sofrimento
dos excluídos em todo o mundo. Se o prêmio Nobel da Paz, inicialmente, lhe deu
notoriedade, ela acabou dando prestígio ao prêmio que recebera.Só a vi uma vez.
Estávamos em uma celebração, na basílica de São Pedro. Ela ocupava o banco diante do meu, por pouco tempo. Logo mais, veio um
senhor do protocolo e a convidou a ir mais para a frente. E eu fiquei lá,
atrás, satisfeito de ter visto uma humilde celebridade da nossa Igreja e do
mundo contemporâneo. Ela foi amada por ricos e pobres, de qualquer religião
e tendência política. Uma rara unanimidade.
7)-IHU On-Line - Como o
senhor orienta ou orientaria pessoas que vivenciam hoje uma experiência de
crise de fé e silêncio de Deus?
Luiz González-Quevedo -
O primeiro é acolher com sincero afeto a pessoa, na sua singularidade. Os exemplos dos santos e de outras pessoas
que passaram por crises semelhantes podem ajudar. Mas cada situação é única e,
de certa forma, irrepetível. Valorizo a abertura, a coragem de verbalizar
as dúvidas e tentações. “Tentação declarada, tentação superada”, dizia um
Doutor da Igreja. Pelo menos, ao ser partilhada, a tentação diminui,
tornando-se mais suportável. Toda a tradição cristã recomenda a abertura de
consciência com alguém da nossa confiança.Em
segundo lugar, animo a pessoa a olhar os aspectos positivos de sua situação.
Quem está em “crise de fé” está vivo... e tem fé! Quem sofre com o “silêncio de
Deus” é porque acredita Nele, tem saudade Dele, porque o ama e busca Sua
Palavra, muito além da inutilidade do nosso discurso. Fazer um Retiro em
silêncio, com o acompanhamento de uma pessoa que conheça a metodologia
inaciana, seria uma boa opção, desde que a pessoa não esteja em estado de
depressão psicológica. As Regras de
“discernimento dos espíritos” ajudam os desolados a compreender melhor sua
situação, a ter paciência e perseverar. a “vivenciar com serenidade as
aparentes ausências de Deus; a inevitável alternância entre presença e
ausência, consolação e desolação, palavra e silêncio, luz e trevas, companhia e
solidão, plenitude e vazio, gozo e aridez, terra fértil e deserto...”
(Copio de uma pessoa que está experimentando a crise).Sem deixar de levar a
sério as crises das pessoas, costumo convidá-las a olhar a vida e sua própria
situação com mais humor.
O
nosso povo diz: “o que não tem remédio, remediado está! a esperança é a
última que morre! e pobre vive de teimoso!"
Um poeta italiano, combatente
na Primeira Guerra Mundial, escreveu: “Anche questa notte passerà” (Ungaretti,
“Noia”, poema do livro A alegria – L’allegria). A longa noite da Madre Teresa de Calcutá passou e com a
nota máxima, magna cum laude! Eu a admiro e a invejo.Sóror Nirmala,
Superiora Geral das Missionárias da Caridade, assegurou que a publicação de
dezenas de cartas de Madre Teresa de Calcutá -algumas das quais narram sua
experiência de "deserto espiritual"- permite aproximar-se da grandeza
da beata e sua profunda sede de Deus. "As
irmãs se surpreenderam, eu me surpreendi ao
inteirar-nos de como sofreu em sua sede de Deus. Ela sofreu, mas tinha
uma máscara de gozo misterioso que vem apenas da entrega absoluta a Deus",
explicou a religiosa ao comentar a publicação do livro "Madre Teresa:
Vêem, seja minha luz" que recolhe 40 comovedoras missivas da santa. O livro foi editado
pelo postulador da causa da religiosa, o sacerdote Brian Kolodiejchuk. As
cartas estão dirigidas a suas companheiras e superiores durante 66 anos de sua
vida e abordam distintos aspectos. Entretanto, chamaram a atenção daquelas
cartas nas quais Madre Teresa revela que durante 40 anos não sentia a presença
de Deus. Conforme explicou Sóror Nirmala, logo que alguns meios - como
a revista Time - publicaram há algumas semanas extratos do livro
apresentando-os como "dúvidas de fé" da beata, várias religiosas de
sua congregação lhe fizeram perguntas."Entenderam
que embora os pensamentos de que Deus tivesse abandonado-a passaram por sua
mente, ela nunca rechaçou Deus, tal era sua sede de Deus, tal era sua
grandeza", afirmou a superiora em declarações à agência Reuters.
Para Sóror Nirmala,
"suas cartas são inspiradoras e nos inspiraram a seguir com o bom
trabalho". A religiosa sucedeu Madre Teresa em 1997, seis meses antes de
sua morte.Em uma das cartas, escrita em 1979, Madre Teresa escreveu que: "o
silêncio é tão grande que olho e não vejo, ouço e não escuto. A língua se move
na oração mas não fala".A primeira vez que li
algumas de suas cartas sobre este tema, surpreendeu-me que tenha vivido tudo
isto e não soubemos. Imediatamente acreditei que ela era uma grande Santa, porque
viveu como Jesus na cruz, sustentou Sóror Nirmala."Ele
(Jesus) sentiu o mesmo, o abandono do Pai. A Madre também se sentiu abandonada
pelo Pai, mas não deixou de acreditar n'Ele, não deixou de amá-lo, não deixou
de fazer sua vontade", adicionou a religiosa.O autor do livro
declarou esta semana à agência Zenit que "ninguém tinha idéia de sua vida
interior porque seus diretores espirituais retiveram estas cartas. Estas cartas
foram descobertas quando começamos a procurar documentos para sua causa"
de beatificação.(Para
escutar um ponto de vista sobre as cartas de Madre Teresa, acesse:http://www.acinews.net/mp3/puntodevista/puntodevista29agt07-) - Em síntese: A imprensa
noticia que a famosa Madre Teresa de Calcutá sofreu crises de fé durante longos
anos de sua vida terrestre. Isto não surpreende se levamos em conta as afirmações
dos santos místicos, como São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila. Deus assim
quer purificar a alma de qualquer apego às consolações de ordem sensível ou de
índole espiritual.
A notícia que surpreendeu!
Eis o que se lê no
jornal O GLOBO de 27/8/07: Nova Delhi. As dúvidas que atormentavam Madre Teresa
de Calcutá estão vindo agora à tona, com o lançamento do livro Mother Teresa:
come be my light (Madre Teresa: venha ser minha luz), do padre canadense Brian
Kolodiejchuk, um dos defensores da canonização da religiosa, o autor acredita
que tais tormentos ajudaram a purificá-la."Jesus
te ama de uma forma muito especial. No meu caso, o silêncio e o vazio são tão
grandes que olho e não vejo, escuto e não ouço", escreveu a missionária a
seu confidente, o reverendo Michael Van Der Peet, em 1979.Na publicação lançada
em 4 de setembro daquele ano, o padre canadense reúne cartas que a missionária
enviava a seus confessores e a seus superiores. Os escritos mostram que ela
passou os seus últimos 50 anos sofrendo com uma grave crise espiritual."Onde
está minha fé, inclusive aqui no mais profundo não há nada, meu Deus, que
dolorosa é esta pena desconhecida. Não tenho fé. Se há um Deus, perdoa-me, por
favor. Quando tento elevar minhas preces ao Céu, há um vazio tão
condenador..."Para irmã Nirmala, que
substituiu Madre Teresa à frente da Congregação das Missionárias da Caridade na
índia, as dúvidas da religiosa sobre a fé e a existência de Deus também foram
decisivas para sua histórica trajetória como missionária, que lutou até
a morte para ajudar os pobres.
Que dizer?
A notícia surpreendeu
muitos fiéis católicos, que julgavam ser os Santos figuras originais isentas de
qualquer crise nas suas relações com Deus!
Outra, porém, é a realidade! os(as) mestres(as) da vida espiritual ensinam que caminhamos em maior ou menor grau, para Deus, através de três etapas:
1ª)-A via purificativa
2ª)-A via iluminativa
3ª)-E por fim, a via unitiva
Principalmente a
primeira tem em vista desapegar-nos de qualquer criatura como também
desapegar-nos de nós mesmos, tendentes ao egocentrismo. - Para tanto o Pai
Celeste permite sejamos acometidos pela noite dos sentidos e a noite do
espírito, fases em que nos falta qualquer consolação ou sentimento de bem-estar
seja no plano da nossa sensibilidade, seja no da intelectualidade. São fases de
purificação, que visam a tornar a fé e o amor a Deus mais diretos, menos
interessados em alguma compensação; o fiel crê em Deus por causa da grandeza da
perfeição divina e ama a Deus porque Ele primeiro nos amou (cf. Jo 4, 19).
O
que importa nesses momentos é não desanimar, mas continuar a servir a Deus como
nos momentos de suave consolação. Com efeito; tudo passa, mesmo os maiores
valores criados, e só Deus fica.
Felizes portanto são aqueles que guardam
fidelidade quando provados, porque após o túnel vem a luz ou acima das nuvens
está o céu com a sua bem-aventurança.Ora, mesmo Madre Teresa
tendo passado por essas fases difíceis, mas salutares, da vida espiritual;
sofreu, porém, sem deixar de continuar a missão que Deus lhe confiara, entre os
pobres. A fidelidade assim mantida é altamente meritória, como o deve estar
percebendo essa santa mulher na bem-aventurança celeste.
Por conseguinte a
notícia da imprensa que surpreendeu muitos leitores nada diz de extraordinário.
Contribui
antes para se avaliar melhor o grau de perfeição espiritual a que chegou Madre
Teresa: serviu a Deus até o fim da sua vida terrestre firmemente no
claro-escuro da fé, sem alguma compensação.
Notemos aliás que a fé é
uma postura da inteligência, que pode estar desligada de sentimentos prazerosos
ou deleites espirituais.Na
biografia de Santa Teresa de Lisieux lê-se algo de semelhante; também esta
sofreu crises de fé, mas superou-as pela tenacidade forte posta ao serviço do
Senhor.
Algo de semelhante pode-se dar na vida de qualquer cristão; é a ocasião
de crescer espiritualmente, passando para uma fé mais adulta e madura.
Fonte: Dom Estêvão Bettencourt
O.S.B. – Pergunte e Responderemos
Estou vivendo uma crise de fé - O que eu devo
fazer?
Por *Fernanda Zapparoli
A fé do cristão é o combustível
que o faz transcender os obstáculos e permanecer firme em Deus. Todo
ser humano enfrenta lutas e sofrimentos, mas existe uma diferença entre o
crente e o descrente: o sentido da existência humana:
a)-O cristão crê que,
após vivenciar as provações terrenas, em Deus ele será recompensado com a
salvação eterna.
b)-O descrente vive
fugindo das provações, pois deseja viver uma vida terrena sem lutas, somente
com bonança, saúde, dinheiro e felicidade. A vida sem fé conduz a pessoa à
perda do sentido de sua existência.
Na
Palavra de Deus, encontra-se a seguinte definição: “A fé é a certeza daquilo
que ainda se espera, a demonstração de realidades que não se veem” (Hb 11,1).
Ou seja, a pessoa espera, com uma certeza que não tem explicação humana, por
algo que não é palpável.
O Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 153, afirma:“A
fé é uma graça, um dom de Deus, uma virtude sobrenatural infundida por Ele”.Portanto, é um presente
do Senhor para Seus filhos, é a via que conduz o homem a Deus. Se a fé é essencial para alcançar o céu, então, o inimigo
fará de tudo para arrancá-la das pessoas! “A
fé pode ser posta à prova. O mundo em que vivemos, muitas vezes, parece estar
bem longe daquilo que a fé nos assegura; as experiências do mal e do
sofrimento, das injustiças e da morte parecem contradizer a Boa Nova; podem
abalar a fé e tornar-se para ela uma tentação” (CIC número 165).
Doenças, divórcios,
sofrimentos e desempregos podem ser algumas das tentações que o inimigo utiliza
para fazer com que as pessoas duvidem da ação amorosa de Deus. Sendo
assim, inicia-se um processo de afastamento do Senhor, experimenta-se uma crise
de fé na qual a existência de Deus é questionada.
Passos para superar a crise de fé:
1)-Primeiro: pedir ajuda para pessoas que sejam maduras na
fé, como um padre, um diretor espiritual ou alguém que seja referência para
você. Ser muito transparente e livre em seus questionamentos, abrir-se para
ouvir os seus conselhos.
2)-Segundo: Sair do foco para viver, nos bastidores, o
combate espiritual. Para quem é líder na Igreja, pode ser tempo de ceder o
“cargo” para que outra pessoa exerça a
sua “função”, enquanto você passa por essa crise. Não é deixar de viver as
prática religiosas nem as atividades missionárias, mas de se cuidar, para que a
luta contra o inimigo não seja desleal.
3)-Terceiro: Contar com o apoio de pessoas que, realmente,
o amam e não o julgam. É uma crise que passará, e se for bem vivida, produzirá
bons frutos de salvação. Deixe as pessoas falarem o que elas quiserem, não se
deixe levar pelos comentários e julgamentos, mas compreenda que, no fim da
vida, seu julgamento será entre você e Deus.
4)-Quarto: é importante compreender que Deus jamais
violará as leis humanas e a liberdade que Ele mesmo deu para os seus filhos.
Exemplo: para o marido voltar para casa, após ter abandonado a esposa, é
preciso que ele queira voltar e faça esse caminho de volta. Deus não vai
forçá-lo a fazer isso.
ATENÇÃO! Para que a doença seja curada, é preciso que o
tratamento pedido pelos médicos seja realizado. Se Deus quiser curar
instantaneamente, é mistério de fé. É importante, no entanto, que o doente, na
sua liberdade, escolha fazer todo o processo solicitado pelos médicos.
a certeza da fé: "Deus me ama e me sustenta!"
Mediante todas as
orações não atendidas e as lutas vivenciadas, tenha uma certeza de fé: Deus o
ama e consola. A maturidade na fé acontece quando nós crentes aprendemos que
Deus não é obrigado a fazer as nossas vontades na hora que desejarmos. O que
precisamos é do amor e consolo d’Ele, pois “o justo viverá pela fé” e “perseveramos
na fé para a nossa salvação” (Hb 10,38-39).
*Fernanda Zapparoli, esposa de Guilherme
Zapparoli é Jornalista e autora dos livros: “A mulher segundo o coração de Deus” e
“A beleza da mulher a ser revelada”.
OITO grandes santos que tiveram depressão, mas nunca
se renderam a ela!
Você pode se
surpreender com vários dos nomes nesta lista.Até mesmo santos da estatura moral
da Madre Teresa de Calcutá, admirada por crentes e descrentes, dão testemunho
de ter sofrido algo que soa surpreendente e talvez chocante para quem acha que os
santos viveram numa bolha de perfeição à parte das cotidianidades que afetam os
seres humanos “comuns”: o conceito da “noite escura da alma“.
A mais
famosa abordagem do tema e do termo é, provavelmente, a do místico espanhol São
João da Cruz, reconhecido como nada menos que Doutor da Igreja. Ele descreve
essa profunda espécie de crise espiritual na jornada rumo à união com Deus em
seu célebre poema intitulado, precisamente, “La noche oscura del alma” (século
XVI).É
fato que Deus permite, e com frequência, a drástica provação da aridez
espiritual, da completa falta de fervor sensível, da dúvida espessa a respeito
da Sua existência, da revolta perante os injustíssimos reveses da vida, do
desespero diante da tragédia ou mesmo da rotina que, dias depois de dias, meses
depois de meses, se reveste daquela insuportável e amorfa ausência de sentido.
Se o próprio Cristo
experimentou o drama do silêncio do Pai na mais negra de todas as noites, a
ponto de Lhe suplicar que afastasse d’Ele esse cálice durante a Sua oração no
Jardim das Oliveiras, à espera da Paixão, por que presumir que Deus fosse
poupar-nos de experimentar a dúvida radical?
Por que imaginar que Ele nos
privasse da oportunidade de escolher, livre e voluntariamente, abraçar a fé ou
rejeitá-la, confiar n’Ele ou refutá-Lo, purificar o amor ou mantê-lo morno,
frágil, apoiado em incentivos cômodos e débeis?
NÃO SE ENGANE! Nem a vocação à vida religiosa isenta um cristão da
provação espiritual!
É claro que nem sempre
essa provação é propriamente a doença física e psíquica que hoje conhecemos
como depressão. No entanto, há santos que, pelos sintomas descritos por eles
próprios ou por outros biógrafos, muito provavelmente enfrentaram esse quadro
que atualmente é visto como “o mal do século”.
Alguns dos santos que possivelmente enfrentaram a
depressão:
1 – Santo Agostinho - Século IV - Pois é! Uma das mais
icônicas e sublimes figuras representativas da intensidade da conversão cristã
e do poder extraordinário da graça santificante; uma das personalidades mais
admiradas da história da civilização ocidental, inclusive por não católicos e
até por não cristãos: até ele enfrentou, muito provavelmente, os altos e baixos
dos neurotransmissores e a instabilidade psíquica e física que hoje a medicina
denomina depressão. Sua mãe, Santa Mônica, suportou com paciência quase inacreditável a
imprevisibilidade do filho brilhante, mas de temperamento terrível.
Agostinho procurava com intensa sinceridade a verdade e o sentido da
existência, mas, em suas andanças desnorteadas e segundo os seus próprios
termos, ele a buscava na aparência das coisas criadas, nas volúpias e prazeres
dos sentidos, longe de Deus e cada vez mais longe de si mesmo. “Eis
que estavas dentro de mim, mas eu estava fora, e fora Te buscava, e nas coisas
formosas que criaste, deforme eu me lançava“, declarará ele nas “Confissões”,
obra-prima da espiritualidade não apenas cristã, mas universal.A teimosia da graça,
porém, foi mais irredutível ainda que a dele mesmo, e, encontrando canal nas “indesanimáveis”
orações de sua mãe e na admirável influência do grande bispo Santo Ambrósio,
levou o rebelde e angustiado Agostinho a finalmente se render a Deus e acolher
o batismo. Mais ainda: ele se consagrou a Deus e chegou também ele a ser bispo.
Depois que a mãe morreu, no entanto, e durante os mais de quarenta anos que a
isto se seguiram, a sua personalidade poderosa ainda se manifestaria com
frequência na propensão à raiva implacável e à depressão severa. Santo
Agostinho se levantava desses abismos por meio da oração, do sacrifício e do
trabalho. Ocupar-se foi um grande remédio, tanto nas muitas responsabilidades
de bispo quanto nas muitas horas de reflexão, estudo e oração que o
transformaram em grande defensor da doutrina da Igreja.
2 – Santa Flora de Beaulieu - Século XIV - Ela teve uma infância
normal, mas, quando seus pais começaram a buscar marido para ela, se recusou e
anunciou que ia dedicar a vida a Deus entrando num convento. No entanto, essa
decisão, tomada num contexto turbulento, desencadeou uma fase intensa e
prolongada de depressão que afetava de tal modo o seu comportamento que mesmo para as outras irmãs era uma provação conviver com ela. Com a graça de Deus, o tempo e a ajuda de um
confessor compreensivo, Flora fez grande progresso espiritual precisamente por
causa do desafio da depressão, que ela enfrentou com empenho.
3 – Santo Inácio de Loyola - Século XVI - A personalidade poderosa do grande santo fundador dos padres jesuítas também era dada a sentimentos de profunda inquietação e sofrimento. O senso de certeza e convicção que ele demonstra em sua autobiografia (escrita em terceira pessoa) não vieram com facilidade. Depois de se converter, Inácio teve de lutar contra um feroz período de escrupulosidade, termo que, na ascese cristã, se refere à tentação de sentir-se sempre em grave pecado por cada mínima falha pessoal no cumprimento de deveres e na vivência das virtudes. Essa provação veio seguida de uma depressão tão séria que ele chegou a pensar em suicídio. Deus o retirou do abismo de trevas e sofrimento interior inspirando-lhe grandes coisas a realizar na vida em nome de Cristo e da Sua Igreja.
O
próprio Inácio define como “desolação” a experiência que enfrentou em seus
exercícios espirituais: um estado de grande inquietação, irritabilidade,
desconforto, insegurança quanto a si mesmo e às próprias decisões, dúvidas
assustadoras, grande dificuldade de perseverar nas boas intenções… De acordo
com Inácio, Deus não causa a desolação, mas a permite para nos “abalar” como
pecadores e nos chamar à conversão. A partir da sua experiência, Santo Inácio dá três conselhos
para reagir à desolação:
1)-Não desistir nem alterar
sua decisão do seguimento de Cristo (que não nos engana ao dizer: No mundo
tereis tribulação...)
2)-Intensificar a
intimidade com Deus, a meditação e as boas ações.
3)-Perseverar com
paciência e confiança, pois a provação é estritamente limitada por Deus, que
dará o alívio no momento oportuno.
Ele descobriu, em suma,
que a depressão pode ser um grande desafio espiritual e uma ótima oportunidade
de crescimento. Estes conselhos continuam perfeitamente
válidos, mas, hoje, é de importância crucial acrescentar um quarto conselho:
procurar a ajuda médica adequada. Os avanços da medicina deixam
claro que, na maioria dos quadros verdadeiramente depressivos, a medicação
psiquiátrica é indispensável para reequilibrar os neurotransmissores, pois se
trata de uma doença propriamente dita e não apenas de uma “fase de tristeza”. O tratamento da depressão clínica tem duas vertentes
interdependentes:
1)-O trabalho interior
pessoal, que pode ser acompanhado por um bom psicólogo ou orientador qualificado,
2)-E o trabalho da
medicina, acompanhado por um psiquiatra sério e bem atualizado.
4 – Santa Joana Francisca de Chantal - Século XVI: Durante oito anos, ela
viveu feliz o seu casamento com o Barão de Chantal. Mas, quando o marido morreu, seu
sogro, vaidoso e teimoso, forçou Joana e seus três filhos a irem morar com ele,
provocando uma rotina de contínuos dissabores, duras provas de paciência e depressão.
Em vez de se escorar na vitimização, como infelizmente é comum desde
sempre e até hoje, Santa Joana fez a escolha de
manter a alegria e de responder às crueldades do sogro com caridade e
compreensão. Mesmo depois de estabelecer uma cordial e santa
amizade com o grande bispo São Francisco de Sales e de trabalhar com ele na
criação de uma ordem religiosa para mulheres de mais idade, Joana continuava
experimentando momentos de grande sofrimento e injusto julgamento – e
continuava, também, a responder com alegria, trabalho esforçado e espírito
voltado a Deus.A propósito, São Francisco de Sales tem um relevante
conselho para quem sofre dessa provação: “Refresque-se
com músicas espirituais, que muitas vezes provocaram o
demônio a cessar as suas artimanhas, como no caso de Saul, cujo espírito
maligno se afastou dele quando Davi tocou sua harpa perante o rei. Também
é útil trabalhar ativamente, e com toda a variedade possível, de modo a desviar
a mente da causa de sua tristeza”.
5 – São Noel Chabanel - Século XVII: Padre jesuíta, mártir
norte-americano, trabalhou entre os índios huron com São Charles Garnier. Os
missionários, no geral, desenvolvem grande empatia por aqueles a quem
evangelizam; no entanto, não foi o caso do Pe. Noel:
ele sentia repugnância pelos índios e pelos seus costumes, além de
imensa dificuldade para aprender a sua língua, completamente diferente de
qualquer idioma europeu, sem falar nos brutais desafios que a vida em ambiente
quase selvagem envolvia. Todo esse conjunto de provações gerou nele um
sentimento duradouro de sufocamento espiritual. Como ele respondeu? Fazendo um
voto solene de jamais desistir nem abandonar a sua missão. E esse voto ele
manteve até o dia do seu martírio.
6 – Santa Elizabeth Ann Seton - Século XVIII - A primeira santa
nascida em solo estadunidense sofria com a contínua sensação de solidão e
melancolia, tão profunda que ela pensou várias vezes em se matar. Ela teve
muitos problemas em sua vida, especialmente relacionados à sua família. Leituras, música e o mar a ajudaram a ser mais alegre. Quando se converteu, a Eucaristia e a caridade
passaram a ser sua grande força diária!
7 – São João Maria Vianney - Século XIX: Conhecido como o Cura
D’Ars, ele é um dos sacerdotes mais queridos da história da Igreja, modelo de
pároco zeloso e de pastor que superou as muitas e graves limitações
intelectuais próprias para guiar as almas com maestria pelo caminho da vida da graça! Apesar de todo o bem que fazia, ele não conseguia enxergar a própria
relevância diante de Deus e convivia persistentemente
com um forte complexo de inutilidade pessoal, sintoma da depressão que o
acompanhou durante toda a vida.Nos momentos mais difíceis, ele
recorria ao Senhor e, apesar do sofrimento, renovava a determinação de
perseverar no seu trabalho com confiança, fé e amor a Deus e ao próximo.
8 – Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) -
Século XX: A santa carmelita
descalça que havia nascido judia e crescido ateia sofreu com a depressão
durante longo período. Chegou a escrever:“Encontrei-me
gradualmente em profundo desespero… Eu não podia atravessar a rua sem querer
que um carro me atropelasse e eu não saísse viva dali”. Desde antes de se
converter, principalmente nas muitas ocasiões em que foi desprezada e humilhada
por ser mulher e de origem judia, Edith sofreu intensamente a depressão.
Intelectual, filósofa, discípula e até assistente de Edmund Husserl, o fundador
da fenomenologia, ela finalmente encontrou em Deus a
Verdade que tanto buscava, a partir da leitura da obra de Santa Teresa de
Jesus. Abraçou então a graça com
tamanha sede que dela arrancava as forças para lidar não apenas com os seus dolorosos
sofrimentos interiores, mas também com as trevas mortíferas do nazismo. Edith
Stein, que adotou no convento carmelita o nome religioso de Teresa Benedita da
Cruz após se converter e se consagrar a Deus radicalmente, foi capaz de
perseverar até o martírio, mantendo a lucidez, a fé, a esperança e o amor
inclusive na prisão e na execução a que foi submetida covardemente no campo de
concentração de Auschwitz-Birkenau. Esse final de vida terrena parece
particularmente deprimente? Pois ele é, mesmo. No entanto, como tudo nesta vida
tem mais do que apenas um lado, ela enfrentou esse cenário extremo com a
serenidade e a paz de espírito de quem aprendeu a lidar com os altos e baixos
da depressão, enxergando além do imediato e abraçando uma vida que não acaba porque
é eterna – e que é capaz de brilhar até mesmo nas trevas mais densas da
morte num campo de concentração.
9 - THOMAS MERTON E A CRISE DE FÉ: Depois de ter passado sua vida espiritual em busca de uma união mística com Deus, os ensinamentos de Thomas Merton de pensamento e meditação contemplativa permanecem relevantes mais de quarenta anos após sua morte.Entre os muitos assuntos abordados este autor prolífico durante sua vida, Merton dedicada uma atenção especial à crise de fé que ele sentiu e que acontecera com a geração em que ele estava vivendo.
Tendo escrito
abertamente sobre o período de sua vida em que ele experimentou uma distância
de Deus em sua autobiografia "The Seven Storey Mountain," Thomas
Merton acreditava que ele sabia muito bem o que causou este tipo de crise.
Foi, de fato, própria crise de Merton de fé, que o obrigou a uma jornada fora
da tradição cristã, a fim de redescobrir a união mística com Deus a qual pensou que tinha sido perdido para ele.
Thomas
Merton entendido que, a fim de tratar uma doença, é preciso atacar a causa
raiz.Em
um esforço para identificar esta causa, Merton olhou para a condição humana.
Foi aqui que ele viu a doença que foi a perda da união mística com Deus
manifestar-se em uma variedade de maneiras diferentes. Merton concluiu que era
devido aos vários obstáculos que enfrentam a pessoa moderna que o contemplativo
de sua época foi, cada vez mais, perdendo a capacidade de união com Deus.Um dos principais
culpados que desviou o crente de Deus de acordo com Thomas Merton foi a época
do "materialismo", que Merton sentiu e resultou em uma perda de unidade com o
mundo, tornando a união mística com Deus quase impossível. Para remediar esta
situação, Merton sugeriu que não importa o que fé individual, uma pessoa pode
ter, eles fariam bem em não fechar as suas mentes para os ensinamentos dos
grandes pensadores espirituais e contemplativos, Cristãos ou não.
De acordo com Thomas
Merton, resolver esta crise de fé seria mais difícil do que simplesmente
mergulhar no estudo religioso. Merton acreditava que ao não conseguir uma união
com Deus, a humanidade era o seu próprio pior inimigo. A fim de deixar de estar
em desacordo consigo mesmo, Thomas Merton acreditava que uma pessoa deve
rejeitar as tentações da era tecnológica e materialista.
Como
um professor espiritual, Merton entendeu que era sua responsabilidade de manter
a tradição contemplativa viva e orientar aqueles que tinham perdido sua
espiritualidade volta a um relacionamento com Deus. Na tentativa de alcançar
este objetivo, Merton apontou que era as distrações da idade moderna que
impediu os fiéis de alcançar a relação mística com Deus.Quando os seres humanos
poderem acalmar o mundo externo ao seu redor, eles irão adquirir a capacidade
para o pensamento contemplativo necessário, e
compreender que Deus mais que um Ser, mas uma Presença infinita e viva
dentro de cada indivíduo, como já dizia Santo Agostinho em suas Confissões, que
procurava fora, o que estava dentro e por isto tão tardiamente amou esta beleza
tão nova e tão velha. Por meio de sua eloquente experiência, Thomas Merton foi
capaz de falar com os males e problemas daqueles que estavam enfrentando crise
espiritual, com uma paixão e clareza raramente visto em mestres espirituais.
Uma das maneiras em que
Merton acreditava que as pessoas perderam a capacidade de formar uma união
mística com Deus estava em ser ou transparecer serem algo diferente do que eles
realmente eram. Era a afirmação de Merton que dentro de cada indivíduo existiam
dois seres completamente separados, um dos quais uma pessoa queria ser, mas não
podia, porque não foi revelado plenamente por Deus. Portanto, era necessário encontrar
e destruir esse outro falso eu que estava no centro e restaurar o
relacionamento entre o crente e Deus. A fim de fazer isso, Merton salientou a
importância do pensamento contemplativo, que assumiu como missão preparar aqueles
que estavam dispostos para esta comunicação com Deus.
Para redescobrir o
verdadeiro eu, Thomas Merton insistiu que o crente deve resistir à tentação de
se entregar à tentação, por mais forte que ela seja. Para Merton, a oposição
que faz afastar-nos de uma união mística
com Deus só podia ser combatida com a oração contemplativa, que trabalha para
imergir o participante no amor que é um relacionamento com Deus. Desta forma,
os crentes podem pôr fim aos obstáculos que estão impedindo-os de conhecer a
Deus, abraçando o silêncio e a quietude que é propício para permitir que Deus
entre em suas vidas e nos capacite a resiliência.
O DESAFIO DE VIVER A CRISE DE FÉ
João
20,29: “Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que
nada viram e creram...”
Pouco antes de morrer,
encarcerado em Roma o Apóstolo São Paulo escreveu sua última carta, a 2Tm. Nela
ele recorda que é anunciador da mensagem salvadora:
“Cristo
Jesus destruiu a morte, fez brilhar a vida e a imortalidade” (2, 10).Por causa deste
ministério ele sofreu muito como mostra em 2Cor 11, 23-29. Para seguir o
Cristo, Paulo deixou todos os seus títulos de genuíno fariseu (Fl 3, 4-11) e
enfrentou os desafios da pregação do Evangelho “loucura e escândalo” (1Cor 1,
23). Foi, por isto, acusado de subversivo contra César (cf. At 17, 7), nocivo à
indústria dos ourives (cf. At 19, 23-40), prejudicial ao comércio dos adivinhos
(cf. At 16, 16-19), traidor da Lei de Moisés (cf. At 18, 12-17). Suportou tudo
por a amor a Jesus. Nunca se arrependeu de ter confiado no Cristo. Com alegria
escreveu:“Eis
por que sofro estas coisas. Todavia… sei em quem pus a minha confiança, e estou
certo de que Ele é capaz de guardar o meu depósito até aquele Dia” (2Tm 1, 12). Sei em quem acreditei
(pepísteuka).
Este verbo em grego indica algo de estável e imutável.
Ele sabia que se entregou a sua vida não a um mero homem, nem a uma facção
poderosa, mas a Jesus Cristo, Filho de Deus. Sabia que não seria decepcionado,
mas, ao contrário, o seu depósito lhe seria guardado e entregue naquele Dia, no
Dia do Juízo Final. Depósito, parathéke em grego, era um valor entregue aos
cuidados de uma pessoa de confiança, e que deveria ser devolvido ao
depositante, por um contrato baseado na lei romana.
Paulo contra toda desesperança termina a sua vida dizendo:“Combati
o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Desde já me está
reservada a coroa da justiça, que me dará o Senhor, justo Juiz, naquele Dia”
(2Tm 4, 7s).
Essas palavras do
Apóstolo e a sua atitude, devem ser modelo de vida para nós cristãos. Quem
abraça o Evangelho, deposita nas mãos de Jesus Cristo toda a sua vida; não
pertence mais a si, mas é selado como propriedade dele (cf. 2Cor 1, 22; Ef 1,
13s). Esta decisão pode parecer arriscada, mas é sumamente sábia. O
cristão pode e deve dizer:
“Sei em quem pus a minha confiança!”
Oração para renovar a fé e a esperança!
“Senhor, eu creio; eu quero crer mais em
Ti!
Eu Te louvo pelo dom da fé e reconheço que estou ainda longe de ter a mesma
fé de Abraão e Sara, de Tobit, de tantos profetas e reis; e o quanto sonho em
experimentar também a mesma fé da Virgem Maria.
Renova em mim o dom da fé
recebido no Batismo, confirmado na Crisma e reanimado em cada Eucaristia.Que eu
viva alicerçado na Tua Palavra e que por ela me sinta exortado à fidelidade.
Diante de tua presença, professo que creio, mas aumentai a minha fé! Senhor,
faça que minha fé seja total, sem reservas;que ela penetre no meu pensamento e
na minha maneira de julgar as coisas divinas e as coisas humanas.
Senhor, faça
que minha fé seja livre, quero aceitar livremente Tua vontade com todas as
renúncias e deveres que ela comporta.
Senhor, Tu dissestes que felizes são os
que crêem sem ter visto.Dá-me a graça de crer, mesmo nos momentos em que não
vejo caminho ou solução, reconhecendo que Tu és o caminho e solução, sempre!
Senhor,
faça que minha fé seja forte.Que eu possa caminhar sobre as águas revoltas e em
Teu Nome eu possa remover montanhas.
Dá-me a fé que não vacila,que é garantia de
vida eterna e que proclama Teu poder, agindo, curando e libertando.
Que eu não
tema a oposição daqueles que contestam a fé, a atacam, a recusam e a negam; mas
que minha fé se fortifique na experiência íntima da verdade, que ela resista ao
desgaste da crítica, que ela ultrapasse as dificuldades cotidianas.
Dá-me a cada
dia a graça de pronunciar Teu Nome com a fé que não só alimenta a minha esperança,
mas que já vê acontecer.
Que eu permaneça com os olhos fixos no Teu coração
transpassado, para que, Te vendo, eu receba a salvação e a anuncie a todos.Senhor,
faça que minha fé seja alegre.
Que ela dê paz e alegria a minha alma e me torne
disponível para rezar a Deus e conversar com os irmãos.
Senhor, faça que minha
fé seja atuante e que seja também contínua busca de Ti, um contínuo testemunho,
um contínuo alimento de esperança.
Senhor, faça que minha fé seja humilde.Que
não se fundamente em meu pensamento, e nem em meu sentimento, mas que me
submeta sempre ao Espírito Santo, à tradição e à autoridade do magistério da
Igreja.
Obrigado Senhor! Creio que estás me renovando e já me sinto fortalecido
no corpo e na alma.Porque, como a Virgem Maria, professo que tudo é
possível para aquele que crê.
Senhor eu Te suplico: que minha fé
não desfaleça e nem eu me revolte contra Ti. Porque, nos momentos de
tribulações e nas noites escuras da vida seja a fé em TI a me guiar nos vales de
lágrimas tenebrosos. Na enfermidade do corpo, quando a doença já estiver presente,
será a fé a me sustentar e tudo prover.
Aumenta a minha fé, Senhor, porque nos
momentos de discussão e de conflitos familiares, será a fé que me fará perdoar.Nos
momentos de desemparos materiais, quando as dificuldades aumentarem, será a
minha fé e confiança em TI a me sustentar.
Aumenta a minha fé, Senhor, porque
nas horas em que as pedras aparecerem no meu caminho e eu tropeçar, será pela
fé que me levantarei.
Aumenta a minha fé, Senhor, para que, durante toda a vida
e, principalmente na hora da morte, a fé me leve a crer na ressurreição e na vida
eterna junto aos vossos santos.
Aumenta a minha fé, Senhor, dilata meu coração e
fazei com que o Teu Espírito derrame sobre mim a chama e o fogo do amor.
Amém.”
Pe. Marcelo Tenório no vídeo abaixo nos esclarece brilhantemente, que "não podemos caminhar com Cristo numa fé infantil, ou seja, a nível epidérmico", pois a fé é a nível de inteligência (inteligência da fé):
Conclusão
Diante de tudo isso, podemos compreender que a crise de fé não deve ser vista como um escândalo ou como prova de fracasso espiritual, mas como uma possibilidade real de crescimento interior.
A história dos santos mostra que a fé verdadeira não consiste em nunca vacilar, mas em nunca desistir, mesmo quando tudo parece escuro. A fidelidade no deserto espiritual vale mais do que a devoção fácil dos tempos de consolação.
O exemplo de figuras como Santa Teresinha, Santo Afonso, São João da Cruz e especialmente Madre Teresa de Calcutá nos ensina que a santidade não é ausência de sofrimento, mas perseverança no amor apesar dele. Madre Teresa, mesmo sentindo durante décadas um profundo vazio interior, nunca abandonou sua missão entre os pobres. Isso mostra uma verdade impressionante: a grandeza da fé não se mede pelos sentimentos, mas pela fidelidade.
Essa realidade também nos ajuda a entender que a fé não é emoção, mas decisão. Os sentimentos podem oscilar, a motivação pode diminuir e até o entusiasmo religioso pode desaparecer por períodos, mas a fé permanece como um ato da inteligência e da vontade que decide confiar em Deus mesmo sem sentir sua presença. É justamente essa fé provada que se torna mais sólida e meritória.
Além disso, a experiência dos santos também nos ensina algo muito importante: não devemos espiritualizar de forma irresponsável os sofrimentos humanos. Buscar ajuda psicológica, médica ou espiritual não é falta de fé, mas sinal de prudência. Deus age também através da ciência, dos profissionais e das pessoas que Ele coloca em nosso caminho. A graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa.
Outro ensinamento fundamental é que ninguém deve enfrentar uma crise de fé sozinho. A tradição cristã sempre recomendou a direção espiritual, o conselho de pessoas maduras na fé e a abertura sincera do coração. Muitas crises se agravam porque são vividas em silêncio orgulhoso, enquanto poderiam ser aliviadas pela partilha e pela orientação adequada.
Por fim, a grande lição que permanece é esta: as crises podem ser momentos decisivos em nossa caminhada com Deus. Elas podem nos levar a abandonar uma fé superficial e sentimental para abraçar uma fé mais profunda, baseada não no que sentimos, mas em quem Deus é. Uma fé assim não depende das circunstâncias favoráveis, mas permanece firme mesmo nas tempestades.
Talvez seja exatamente por isso que Deus permita certas noites espirituais: não para nos afastar d’Ele, mas para nos aproximar de forma mais verdadeira. Como o ouro é purificado no fogo, a fé também é purificada nas provações. E aqueles que permanecem fiéis descobrem, mais cedo ou mais tarde, que Deus nunca esteve ausente, apenas trabalhando em silêncio.
Assim, a crise de fé pode tornar-se um chamado à maturidade espiritual. Pode ser o momento em que deixamos de ser apenas religiosos por costume e passamos a ser verdadeiros discípulos por convicção. Pode ser o momento em que nossa relação com Deus deixa de ser interesseira e se torna amor verdadeiro.No final, a história dos santos confirma uma verdade consoladora: a noite não é eterna. Aquele que persevera descobre que, acima das nuvens, o sol continua brilhando. E aquele que permanece fiel no combate espiritual poderá, como São Paulo, dizer no fim da caminhada:
"Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé."
E talvez esta seja a maior resposta à crise de fé: não desistir de Deus, mesmo quando parece que tudo está em silêncio, porque Ele jamais desiste de nós.
por*Francisco
José Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN,
conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº 003/17
FONTES DE CONSULTA:
-https://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/vida-de-oracao/estou-vivendo-uma-crise-de-fe-o-que-eu-devo-fazer/
-https://www.acidigital.com/reportajes/santidad.htm
-http://www.ihuonline.unisinos.br/artigo/1286-luiz-gonzalez-quevedo
-http://conhecimento.lhg100.com/1spirituality/1religion/1001094831.html
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Que oração simples é bela! realmente, os santos são os melhores intérpretes das coisas divinas: "Sr se quiseres enviar-me sofrimento e dor, dai-me forças para suportar , não murmurar e nem me revoltar contra Ti...
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