Como e por que, o patriarcado se sobrepôs ao matriarcado na história da humanidade?
*Francisco José Barros de Araújo
Não há qualquer pretensão de encerrar este tema com a presente reflexão. Ao contrário: trata-se de uma tentativa de organizar racionalmente um debate que, nos tempos atuais, tem sido frequentemente capturado por paixões ideológicas, leituras anacrônicas da história e disputas identitárias marcadas mais pelo impulso emocional do que pela análise rigorosa. A leitura de Sapiens, de Yuval Noah Harari, funciona aqui como ponto de partida, não como autoridade absoluta, mas como provocação intelectual relevante. Ao tratar da evolução do Homo sapiens e das estruturas sociais que emergiram ao longo de dezenas de milhares de anos, Harari recoloca uma questão central da antropologia:
Por que a organização patriarcal se tornou predominante ao longo da história humana, enquanto sociedades matriarcais amplas e duradouras não se consolidaram como norma? Essa pergunta persiste porque desafia explicações simplistas.
A sociedade patriarcal antecede religiões organizadas, sistemas jurídicos complexos e mesmo a escrita. Ela atravessa continentes, culturas e épocas, resistindo a mudanças políticas, revoluções econômicas e transformações morais profundas.
Antropólogos, biólogos, sociólogos e historiadores apresentam múltiplas hipóteses — desde fatores biológicos, como força física média e influência hormonal, até explicações evolucionistas ligadas à reprodução, à sobrevivência do grupo e à divisão de tarefas em contextos de escassez extrema. Nenhuma dessas teorias, isoladamente, resolve o problema; juntas, contudo, revelam a complexidade do fenômeno.
No contexto contemporâneo, esse debate ganha nova tensão ao ser inserido no conflito entre a chamada heteronormatividade, a cultura gay e os movimentos identitários associados ao que se convencionou chamar de cultura woke. Hoje, discutir patriarcado, gênero e sexualidade exige um esforço consciente para que a racionalidade prevaleça sobre a militância acrítica.
Nesse ponto, é significativo observar que o próprio Yuval Noah Harari — homossexual assumido e intelectual alinhado a pautas progressistas — não abdica da análise empírica e histórica em favor da pós-verdade. Ao contrário, Harari frequentemente vai na contracorrente do discurso emocionalizado, reconhecendo limites biológicos, contingências históricas e a impossibilidade de reescrever completamente a natureza humana apenas por decreto cultural.
Assim, este texto não busca justificar moralmente o patriarcado, tampouco negá-lo como construção histórica sujeita a transformações. Busca, antes, compreender por que ele emergiu, por que se manteve por milênios e por que qualquer tentativa de superá-lo exige mais do que slogans: exige conhecimento histórico, rigor científico e honestidade intelectual.
A
opinião dos antropólogos e sociólogos segue em diversas vertentes:
1)-
Alguns julgam que a força muscular, geralmente maior nos homens, ditou esta
organização.
2)-
Outros acham que não foi tanto a força, mas a agressividade Cromossômica
hormonal da testosterona, coisa ausente na mulher, pois existem certas
realidades que são IMUTÁVEIS, tais como OS PARES DE CROMOSSOMOS. No indivíduo
masculino é X e Y, na mulher são dois pares XX. Isto é imutável, ou seja, ainda
que se mude a estética, é impossível mudar esta genética. O homem sempre teve,
de forma geral, um temperamento mais agressivo, o que poderá ter condicionado
de forma primitiva a organização social.
3)-
Outros antropólogos referem ainda um possível gene patriarcal, algo intrínseco
ao ser humano, que nos leva irremediavelmente a uma organização patriarcal.
4)-
Outros estudiosos atribuem a incidência masculina sobre o feminino a partir das
escrituras verotestamentárias, mas é importante ressaltar que, o Patriarcado
não foi moldado a partir das escrituras, pois elas só foram escritas
posteriormente milênios depois deste sistema já estar plenamente
instalado,portanto, esta perspectiva é de difícil sustentação e convencimento a
nível antroplógico e socioólogico.
5)-
Como conciliar na mulher a Gravidez e menstruação, com seres humanos em
constantes conflitos de Guerras tribais e o aperfeiçoamento de técnicas dos
Caçadores Coletores? Outra explicação de ordem biológica atribui menos
importância à força bruta e à violência, e sugere que, em milhões de anos de
evolução, homens e mulheres desenvolveram estratégias diferentes de
sobrevivência e de reprodução. Como os homens competiam entre si pela
oportunidade de engravidar mulheres férteis, a chance de reprodução de um
indivíduo dependia, acima de tudo, de sua capacidade de superar em desempenho e
derrotar outros homens. Com o decorrer do tempo, os genes masculinos que
conseguiam passar para a geração seguinte eram aqueles pertencentes aos homens
mais ambiciosos,agressivos e competitivos, e melhores caçadores coletores, pois
não menstruavam, e ter uma mulher como caçadora coletora, independente das
habilidades, colocava em risco o grupo de caça, caso a mulher estivesse
menstruada, o que iria atrair outros predadores felinos e caninos carnívoros
sobre este grupo com o cheiro de sangue, provocado pela menstruação, já que períodos
de caças às vezes eram prolongados.
Segundo algumas correntes antropológicas e evolucionárias, a presença — ou ausência — de um útero desempenhou papel central na configuração histórica das relações entre homens e mulheres, não como elemento moral ou ideológico, mas como dado biológico incontornável que moldou estratégias de sobrevivência ao longo de milênios. A gestação, o parto e o prolongado período de dependência da prole impuseram às mulheres custos físicos, energéticos e temporais elevados, restringindo sua mobilidade e sua capacidade de participação contínua em atividades de risco, como a caça, a guerra e as longas expedições de subsistência.
Nesse contexto, diferentemente dos homens, que podiam dispersar seus esforços reprodutivos com relativa facilidade, as mulheres estavam biologicamente vinculadas ao sucesso de cada gestação, o que tornava a proteção, a provisão e a estabilidade fatores decisivos para a sobrevivência de seus filhos.
Assim, embora uma mulher não tivesse dificuldade em encontrar um parceiro disposto à fecundação, a continuidade de sua linhagem dependia de algo muito mais complexo: a presença de um homem capaz e disposto a prover recursos, oferecer proteção e permanecer vinculado ao núcleo familiar por tempo suficiente para garantir a sobrevivência da mãe e da criança. Durante os longos períodos de gravidez, amamentação e cuidado infantil, as oportunidades femininas de obtenção direta de alimento eram severamente limitadas, o que tornava a cooperação com um parceiro masculino não apenas desejável, mas muitas vezes indispensável.
Nessas circunstâncias, as relações entre os sexos tenderam a se estruturar em torno de acordos assimétricos de responsabilidades, nos quais o homem assumia o papel de provedor e defensor, enquanto a mulher se concentrava na gestação, no cuidado e na socialização dos filhos.
Ao longo de inúmeras gerações, esse arranjo favoreceu a transmissão de traços comportamentais distintos. Mulheres mais orientadas ao cuidado, à cooperação e à preservação do grupo tiveram maior sucesso reprodutivo do que aquelas excessivamente engajadas em disputas diretas por poder, as quais frequentemente implicavam riscos incompatíveis com a maternidade prolongada.
De modo complementar, homens mais competitivos, ambiciosos e dispostos a assumir riscos tendiam a assegurar maior acesso a recursos, status e oportunidades reprodutivas. O resultado, segundo essa hipótese, foi a consolidação gradual de padrões comportamentais diferenciados, nos quais os homens se projetaram com maior frequência nas esferas públicas de competição — política, guerra e economia — enquanto as mulheres se tornaram o eixo de sustentação do espaço doméstico e da continuidade social.
Ainda assim, essa abordagem, embora coerente em muitos aspectos, não está isenta de críticas e limitações. É particularmente problemática a suposição de que a dependência feminina de apoio externo tenha se dirigido exclusivamente aos homens, ignorando o papel relevante de redes femininas de cooperação e parentesco. Do mesmo modo, a ideia de que a competitividade masculina, por si só, explica a dominação social carece de fundamentação empírica mais robusta, uma vez que sociedades humanas sempre combinaram hierarquia, cooperação e interdependência entre os sexos.
Tais ressalvas não invalidam a hipótese evolucionária, mas indicam que a formação das estruturas patriarcais resultou menos de um único fator determinante e mais de uma interação complexa entre biologia, ambiente, cultura e necessidades concretas de sobrevivência coletiva.
Três importantes revoluções definiram o curso da história:
1)- A Revolução Cognitiva deu início à história, há cerca de 70 mil anos.
2)- A Revolução Agrícola a acelerou, por volta de 12 mil anos atrás.
3)- A Revolução Científica, que começou há apenas 500 anos, pode muito bem colocar um fim à história e dar início a algo completamente diferente.
Essas três revoluções afetaram os seres humanos e os demais organismos. Muito antes de haver história, já havia seres humanos. Animais bastante similares aos humanos modernos surgiram por volta de 2,5 milhões de anos atrás. Mas, por incontáveis gerações, eles não se destacaram da miríade de outros organismos com os quais partilhavam seu habitat. Em um passeio pela África Oriental de 2 milhões de anos atrás, você poderia muito bem observar certas características humanas familiares: mães ansiosas acariciando seus bebês e bandos de crianças despreocupadas brincando na lama; jovens temperamentais rebelando-se contra as regras da sociedade e idosos cansados que só queriam ficar em paz; machos orgulhosos tentando impressionar as beldades locais e velhas matriarcas sábias que já tinham visto de tudo.
Esses humanos arcaicos amavam, brincavam, formavam laços fortes de amizade e competiam por status e poder, mas os chimpanzés, os babuínos e os elefantes também. Na
realidade, não há um consenso, não há uma resposta clara que justifique o nosso
caminho de milénios que nos trouxe, enquanto seres humanos, até ao dia de hoje,
nesta organização social tal como a conhecemos.
Estudar a História não nos oferece respostas prontas nem indica, de forma inequívoca, qual é a escolha moral ou política correta a ser adotada no presente; contudo, concede algo igualmente valioso: amplia o horizonte das possibilidades humanas ao revelar que as formas de organização social, econômica e cultural que hoje consideramos naturais ou inevitáveis são, na verdade, resultados contingentes de processos históricos específicos. Não por acaso, os movimentos que se propõem a transformar o mundo tendem a começar pela releitura — e, muitas vezes, pela reescrita — da História, pois é por meio dela que se molda a imaginação coletiva sobre o passado e, consequentemente, sobre o futuro que se deseja construir.
Ao reinterpretar eventos, personagens e estruturas sociais, muitos desses movimentos partem do pressuposto de que a ordem vigente é meramente contingente, artificial e essencialmente opressiva, ignorando que diversas instituições históricas — entre elas o patriarcado — não surgiram apenas de disputas de poder arbitrárias, mas de processos longos de adaptação social a condições concretas de sobrevivência, escassez e organização coletiva.
Sob uma perspectiva sociológica conservadora, o patriarcado histórico não pode ser compreendido apenas como um sistema de dominação deliberada, mas como uma estrutura funcional que, ao longo de milênios, ofereceu previsibilidade, estabilidade e coesão às sociedades humanas, especialmente em contextos nos quais a fragmentação social significava vulnerabilidade existencial.
A tendência contemporânea de reconstruir narrativas históricas enfatizando exclusivamente opressões, silenciamentos e injustiças — frequentemente dissociadas das responsabilidades, deveres e sacrifícios que acompanharam esses mesmos papéis sociais — revela mais um projeto normativo do presente do que uma análise equilibrada do passado. Ao reivindicar direitos sem a correspondente reflexão sobre deveres, limites e custos sociais, tais releituras acabam por deslegitimar instituições que, embora imperfeitas, foram decisivas para a continuidade das comunidades humanas. Nesse sentido, o patriarcado não se impôs apenas como expressão de força ou privilégio masculino, mas como um arranjo social que organizou a divisão de responsabilidades, a proteção dos mais vulneráveis e a transmissão intergeracional de valores, oferecendo um arcabouço moral e simbólico capaz de sustentar sociedades ao longo do tempo.
A desconstrução acrítica dessas narrativas, ao privilegiar projetos de transformação imediata, corre o risco de minar os fundamentos culturais que tornaram possível a própria existência da ordem social que hoje permite a formulação dessas críticas.
O risco, porém, reside em confundir interpretação crítica com instrumentalização ideológica da História, substituindo a complexidade dos fatos por narrativas simplificadas que servem mais à mobilização emocional do que à compreensão efetiva da experiência humana.
Essa nova história, construída a partir de leituras seletivas do passado, tende a afirmar que a situação presente não é natural nem permanente, mas resultado de uma sucessão quase aleatória de acontecimentos injustos que poderiam — e deveriam — ser corrigidos por meio de uma ruptura consciente com as tradições herdadas. Sob essa lógica, o passado é frequentemente reduzido a um repositório de erros morais, e a história deixa de ser um campo de aprendizado para tornar-se um instrumento de legitimação de projetos de transformação radical.
É por essa razão que os marxistas elaboram uma narrativa própria sobre o capitalismo, as feministas revisitam a origem das sociedades patriarcais e os afro-americanos mantêm viva a memória dos horrores do comércio escravagista: não com o objetivo de compreender integralmente a complexidade histórica desses fenômenos, mas de libertar-se simbolicamente deles e justificar novas ordens sociais. Contudo, como advertia Alexis de Tocqueville, há um risco profundo quando sociedades democráticas passam a desprezar o valor das tradições e das instituições que se formaram lentamente ao longo do tempo. Para Tocqueville, as estruturas sociais herdadas — ainda que imperfeitas — funcionam como freios morais e culturais contra o caos, a tirania das maiorias e o voluntarismo revolucionário.
Ao tratar a história apenas como um catálogo de opressões a serem superadas, perde-se a noção de que muitas dessas instituições, como a família patriarcal, foram também pilares de coesão, continuidade e responsabilidade social. A tentativa de “libertar-se” do passado, quando feita sem prudência, corre o risco de produzir não uma sociedade mais justa, mas uma sociedade desancorada, vulnerável a engenharias sociais que ignoram a natureza humana, os limites da ação política e a sabedoria acumulada das gerações anteriores — exatamente o tipo de perigo que Tocqueville identificava ao observar os excessos das paixões igualitárias desacompanhadas de freios morais e históricos.
Por que o Patriarcado Prevaleceu? Universalidade, Poder e Limites das Explicações Culturais
A grande verdade, gostemos ou não, é que o patriarcado se consolidou como a forma dominante de organização social na imensa maioria das sociedades agrícolas, industriais e tribais, humanas e mesmo animais, não primordialmente como resultado de convenções culturais arbitrárias, mas como uma estratégia histórica de sobrevivência diante de contextos marcados pela escassez, pela violência e pela necessidade de reprodução e proteção do grupo.
Essa estrutura resistiu de maneira notavelmente persistente a levantes políticos, revoluções sociais e profundas transformações econômicas, atravessando milênios praticamente intacta em seus fundamentos essenciais.
O caso do Egito é emblemático: ao longo dos séculos, o território foi sucessivamente conquistado por assírios, persas, macedônios, romanos, árabes, mamelucos, turcos e britânicos, sem que, contudo, a lógica patriarcal de sua organização social fosse substancialmente alterada.
Governado por diferentes sistemas jurídicos — faraônico, helenístico, romano, islâmico, otomano e colonial britânico —, o Egito manteve, sob todas essas ordens, critérios sociais que privilegiavam determinados modelos de masculinidade e excluíam aqueles que não se enquadravam no ideal do “homem pleno”.
A universalidade histórica do patriarcado dificulta seriamente a tese de que ele seja fruto de um simples acidente cultural ou de um círculo vicioso iniciado por um evento fortuito. Antes mesmo de 1492, sociedades da África, da Ásia e das Américas — muitas delas completamente isoladas entre si por milhares de anos — já apresentavam estruturas patriarcais bem definidas. Astecas e incas, por exemplo, desenvolveram complexas civilizações patriarcais sem qualquer influência direta das tradições europeias, assim como inúmeras sociedades indígenas com contato mínimo ou inexistente com o chamado mundo civilizado.
Diante desse quadro, torna-se plausível supor que, embora as definições culturais de “homem” e “mulher” variem enormemente entre sociedades, exista algum fator de ordem biológica ou evolucionária de alcance quase universal que levou à valorização recorrente da masculinidade em detrimento da feminilidade no exercício do poder social. Ainda assim, é preciso reconhecer com honestidade intelectual que essa razão última permanece desconhecida. Há diversas teorias explicativas, mas nenhuma delas é conclusiva. A explicação mais recorrente atribui a predominância masculina ao maior poder físico médio dos homens, sugerindo que essa vantagem foi utilizada para subjugar as mulheres. Em sua versão mais refinada, essa tese argumenta que a força permitiu aos homens monopolizar atividades que exigiam trabalho braçal intenso, como o preparo da terra, a caça e a defesa do território, garantindo-lhes o controle da produção de alimentos e, por consequência, da influência política. No entanto, essa abordagem apresenta problemas significativos.
Em primeiro lugar, a afirmação de que “os homens são mais fortes que as mulheres” é válida apenas em termos médios e para determinados tipos específicos de força. Em múltiplos aspectos biológicos relevantes para a sobrevivência — como resistência à fome, à dor, à fadiga e a certas doenças —, as mulheres frequentemente demonstram desempenho superior ao masculino. Surge, então, a questão fundamental: seria a força física, por si só, suficiente para explicar a permanência quase universal do patriarcado ao longo da história humana?
A resposta, ao que tudo indica, é negativa. O fenômeno revela-se muito mais complexo, envolvendo uma interação intrincada entre biologia, ambiente, reprodução, organização social e contingências históricas que ainda desafiam explicações simplistas ou ideologicamente orientadas.
CONCLUSÃO
O que sabemos com relativa segurança é que, ao longo do último século, os papéis sociais ligados ao gênero passaram por transformações profundas e aceleradas. Direitos civis, participação política, acesso ao mercado de trabalho e redefinições jurídicas alteraram significativamente a posição social das mulheres e das minorias sexuais em diversas sociedades. Mudanças que, em 1913, seriam consideradas impensáveis — como o sufrágio feminino, mulheres em tribunais superiores ou o debate público sobre homossexualidade — tornaram-se, em grande parte do Ocidente, realidades institucionalizadas.
Paradoxalmente, é justamente essa velocidade de mudança que torna a questão do patriarcado ainda mais desconcertante. Se hoje se argumenta que o sistema patriarcal se sustentou sobre mitos culturais e não sobre fundamentos biológicos sólidos, permanece a pergunta incômoda: como explicar sua quase universalidade histórica e sua impressionante estabilidade ao longo de milênios? A resposta honesta é que ainda não sabemos ao certo. Existem hipóteses plausíveis, mas nenhuma definitiva. E talvez esse seja o ponto mais relevante: reconhecer os limites do nosso conhecimento é mais científico do que substituir a dúvida por certezas ideológicas.
No debate atual entre heteronormatividade, cultura gay e movimentos woke, a tentação de reescrever toda a história humana a partir de categorias morais contemporâneas é grande. No entanto, esse exercício frequentemente ignora contextos de sobrevivência, escassez, guerra e reprodução que moldaram as estruturas sociais muito antes da modernidade. Defender direitos, dignidade e igualdade jurídica no presente não exige negar a complexidade do passado, nem demonizar toda a herança histórica como se fosse fruto exclusivo de opressão consciente.
Nesse sentido, a postura de intelectuais como Yuval Noah Harari é particularmente relevante: mesmo partindo de uma identidade pessoal que poderia levá-lo a uma leitura puramente militante, ele insiste em submeter as narrativas contemporâneas ao crivo da história, da biologia e da antropologia. Essa atitude serve de alerta contra a pós-verdade e contra a substituição da análise racional por discursos emocionalmente satisfatórios, porém intelectualmente frágeis.
Conclui-se, portanto, que compreender o patriarcado — em suas origens históricas, fundamentos biológicos possíveis, permanências culturais e transformações ao longo do tempo — não constitui um entrave à construção de sociedades mais justas, livres e dignas, mas, ao contrário, revela-se um requisito indispensável para que essa construção não se apoie em ilusões desconstrutivistas frágeis, capazes apenas de demolir narrativas, instituições e vínculos sociais sem oferecer, em seu lugar, projetos coerentes, estáveis e verdadeiramente humanos.
A crítica que ignora a realidade histórica e antropológica corre o risco de substituir estruturas imperfeitas, porém funcionais, por vazios normativos preenchidos por dogmas ideológicos de curto prazo, desprovidos de enraizamento na experiência humana concreta.
Compreender não é justificar, assim como questionar não implica negar a complexidade do real; antes, é somente a partir desse esforço de compreensão racional, honesta e desapaixonada que se torna possível pensar em transformações que não sacrifiquem a coesão social, a dignidade da pessoa e a própria ideia de humanidade no altar de utopias desconectadas da natureza, da história e dos limites do humano.
Estudar a história nem sempre nos diz qual caminho devemos seguir, mas amplia o leque de escolhas possíveis.
A jornada do conhecimento permanece aberta, e somente ela pode sustentar mudanças duradouras que não se dissolvam ao sabor das modas ideológicas.
*Francisco José
Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme
diploma Nº 31.636 do Processo Nº 003/17 - Perfil curricular no
sistema Lattes do CNPq Nº 1912382878452130.
BIBLIOGRAFIA
-ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: LTC, 1981.
-BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
-BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.
-BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2019.
-DEL PRIORE, Mary. História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2018.
-DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
-ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.
-FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 2014.
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-LÉVI-STRAUSS, Claude. As estruturas elementares do parentesco. Petrópolis: Vozes, 2012.
-PINKER, Steven. Tábula rasa: a negação contemporânea da natureza humana. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
-SCRUTON, Roger. O que é conservadorismo. São Paulo: É Realizações, 2015.
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-WEBER, Max. Economia e sociedade. Brasília: UnB, 2015.
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Teoria muito interessante!
Uma mulher, por outro lado, não tinha dificuldade em encontrar um homem disposto a engravidá-la. No entanto, se quisesse que seus filhos lhe dessem netos, precisava carregá-los no útero durante nove árduos meses e depois, ainda cuidar deles durante anos de infância sob sua completa dependência. Durante esse período, as mulheres tinham poucas oportunidades de obter comida e necessitava de muita ajuda. Precisava de um homem para garantir sua própria sobrevivência e a de seus filhos. Neste caso, a mulher não tinha muita escolha além de concordar com todas e quaisquer condições que o homem estipulasse para ficar por perto e dividir o fardo! Com o tempo, os genes femininos que chegaram à geração seguinte pertenciam a mulheres de caráter cuidador e submisso. Mulheres que passavam tempo excessivo em disputas por poder não deixaram nenhum desses genes poderosos para as gerações futuras.
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