D. Helder foi um homem "FILHO do seu tempo", aberto ao novo, defensor da dignidade humana, e da liberdade!
Com o tempo, o padre Helder foi percebendo que o integralismo não era a maravilha que divulgavam!
"Em vez de me passar um pito, por eu não estar usando o solidéu, o Santo Padre tirou o seu da cabeça e o segurou numa das mãos", contava sorridente.”
D. Helder Câmara e o Socialismo
humano
Em 1962, D. Helder Câmara se torna membro da Comissão para Disciplina do Clero, prévia do Concílio Vaticano 2º, que havia sido convocado pelo papa João XIII - O chefe da Igreja Católica “pregava uma reformulação na forma de apresentar a fé cristã ao mundo moderno, onde a ciência e a crítica tivessem acesso. A preocupação era sempre colocar o homem no centro das discussões e a religião católica em face das exigências do mundo, enquadrando cada povo na sua realidade política, social e econômica”, anota Verônica Veloso. O papa queria “preservar a cultura cristã no essencial e apreciar os aspectos relativos à mutabilidade do progresso humano”.
Não muito diferente do que está fazendo, neste momento, o papa Francisco, o argentino convocado para atualizar a Igreja Católica, mas sem alterar seus princípios básicos, o que, na verdade, lhe confere universalidade. Não se trata de aderir aos modismos, àquilo que é passageiro, e sim de adaptar-se ao que está cristalizado pelos novos tempos.
Pelos preceitos propagados pelo papa João XXIII, que dom Hélder acata de bom grado, a Igreja Católica, sem perder seu caráter universalista e sem deixar de ser pastora de todos — e não de classes sociais específicas —, fez uma “opção pelos pobres” e definiu que tinha a “intenção de trabalhar com eles e não apenas para eles”. Dom Jaime Câmara e dom Hélder se desentenderam a respeito da temática e o segundo teve de se afastar do Rio de Janeiro.
D. Helder Câmara, Jango, e o Regime Militar
Como presidente da CNBB, dom Hélder e o arcebispo de São Paulo, com Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, encontram-se com o presidente João Goulart, em março de 1964, para adverti-lo, sublinha Verônica Veloso, “contra uma atitude precipitada e lhe mostraram a falta de um plano sério de reformas das estruturas, a falta de um plano para estabelecimento de um verdadeiro socialismo humano” e explanam sobre a reação da extrema-direita.
Socialismo
humano parece uma contradição, porque o socialismo não é humanista, mas
certamente os bispos eram próximos da socialdemocracia, mas, como a esquerda
sempre demonizou-a, tratando-a como “reformista” — uma espécie de tática
capitalista para salvar o capitalismo —, era menos inadequado falar em
“socialismo humano”.
O equívoco dos religiosos era pensar que João Goulart era socialista. Não era. Era defensor do capitalismo, mas certamente pensava num capitalismo ao estilo do norte-americano dos tempos de Franklin D. Roosevelt, nos Estados Unidos, que investiu fortemente no social, ou no estilo do bem-estar social da Inglaterra.
Curiosamente,
a esquerda e a direita nunca entenderam Jango de maneira ampla: sempre
pensaram-no como um homem de esquerda, até socialista.
Em abril de 1964, sob a ditadura de Castello Branco, ainda moderada, a cúpula da Igreja Católica afasta dom Hélder da CNBB e o papa Paulo VI o transforma em arcebispo de Recife e Olinda. As relações entre o regime civil-militar e dom Hélder eram ruins. O bispo “foi acusado de proteger padres suspeitos de subversão, entre os quais dom José Lamartine e os padres Almeri e Sena”. Ele começou a discutir políticas de desenvolvimento e, consequentemente, a tecer críticas ao governo de Castello Branco. “Em 31 de março de 1966 dom Hélder recusou-se a celebrar uma missa em comemoração ao segundo aniversário do movimento de 1964”, anota Verônica Veloso.
O general Itiberê Gouveia do Amaral, comandante da 10ª Região Militar, critica-o asperamente. O general Itiberê sustenta que dom Hélder desagrega “o rebanho católico em consequência de suas atitudes” e o aponta como “esquerdista” e associado à Ação Popular (AP). De fato, dom Hélder tinha um idealismo e uma práxis mais alinhada a ideologia de esquerda, mas não era, ao contrário do que pensavam militares mais ortodoxos, comunista. Ele propugnava por uma sociedade mais igualitária, mas não sob o comando dos comunistas. Era, acima de tudo, um homem do establishment da Igreja Católica — como o papa Francisco. Dom Hélder denunciava injustiças contra trabalhadores e isto, em tempos radicalizados — os da Guerra Fria, do “nós contra eles” —, era interpretado pelos militares, sobretudo os da Linha Dura, como ser comunista.
O presidente Castello Branco, um dos melhores quadros políticos do regime militar, chega a conversar pessoalmente com dom Hélder. Mantêm uma conversa cordial, pois Castello Branco, se era resoluto, não era truculento. Porém, ao criticar a atuação de bispos da Igreja Católica, o presidente desagrada dom Hélder e seus aliados. “Vários setores da Igreja se mostraram solidários a dom Hélder. O arcebispo de Goiânia [Dom Fernando] denunciou como subversivos os oficiais que o criticavam”, conta Verônica Veloso. Em 1967, no governo de Costa e Silva, da Linha Dura, o intimorato dom Hélder defende uma América Latina “livre, não apenas no plano político, mas também no plano econômico” (curiosamente, os militares, embora apoiados pelos Estados Unidos, mantinham o país independente, com posições firmes).
O bispo
adverte que “só a ação social da Igreja poderá fazer fracassar a revolução
violenta no Nordeste”. O religioso estava dizendo que o socialismo do tipo
bolchevique poderia ser evitado — a tomada do poder pela força (a violência
como parteira da história) —, desde que a ação social pudesse ser feita pela
Igreja, mas por certo era um “convite” a uma ação do governo.
Por exemplo que defendesse a reforma agrária, que, a rigor, é uma medida típica tanto do sistema capitalista quanto do socialista (no caso da União Soviética, com sua reforma agrária coletivista, resultou em milhões de mortes e baixa produção agrícola).
-No mesmo ano, a CNBB condena, por meio de um manifesto, a subversão de esquerda e, ao mesmo tempo, solidariza-se com os clérigos perseguidos pelo regime. Em 1968, as relações entre o governo e a Igreja Católica — ou parte dela — pioram com a declaração de um bispo de Santo André:
“Uma
revolução armada pode ser lícita quando reina a opressão e quando vigoram
salários de fome”.
Dom
Hélder, corroborando a crítica, afirma que, ao menos no Nordeste, o regime,
mais do que capitalista, era feudal. Radicalizado, frisa sua “convicção na
marcha inelutável do socialismo”. Tese, aliás, que não era compartilhada por
toda a Igreja Católica e muito menos pelo Vaticano.
Era, no máximo, discurso radicalizado de um religioso, de proa, dadas as circunstâncias políticas do país e, sobretudo, do Nordeste (no qual os trabalhadores rurais eram tratados praticamente como escravos ou servos). Havia, na região, formas pré-capitalistas de lidar com o trabalhador.
Assim como na União Soviética socialista trabalhadores escravos foram usados para construir obras pesadas — com milhares deles morrendo de fome e de excesso de trabalho.
Um quadro muito pior, até incomparável, do que o brasileiro. A Igreja Católica, que havia apoiado o golpe de 1964, com a restrição de alguns grupos, passa a defender, no complicado ano de 1968, com a ditadura do AI-5, reformas e as liberdades individuais, além de criticar a violência política.
Na 2ª Assembleia Geral do Celam, em 1968, dom Hélder defende uma opção preferencial pelos pobres e um desenvolvimento de fato inclusivo e lança o movimento Ação, Justiça e Paz. O governo militar critica abertamente o clero dito progressista.
“Em maio de 1969, o padre Antônio Henrique Pereira Neto, coordenador da Pastoral da Juventude no Recife e assessor do arcebispo, foi sequestrado, torturado e assassinado, sendo o crime atribuído a extremistas de direita”, assinala Verônica Veloso. Em Paris, em 1970, falando para 10 mil pessoas, dom Hélder denuncia torturas de presos políticos no Brasil. “O que fiz foi defender a justiça. Se combato as injustiças quando são cometidas em qualquer parte do mundo, por que haveria de me calar quando essas injustiças e arbitrariedades se passam dentro do meu país?”
O principal sociólogo do país, Gilberto Freyre, autor do seminal clássico “Casa Grande & Senzala”, pontua que dom Hélder era “aliado do comunismo internacional”. Líderes da Arena, como Clóvis Stenzel e Roberto Abreu Sodré, o atacam. Em retaliação, a ditadura proíbe o arcebispo de “discursar no país, assim como de falar no rádio e na televisão.
A imprensa”, censurada “pelo governo, foi proibida de mencionar seu nome”. Impossibilitado de falar no país, dom Helder começa um périplo pelo mundo. Mas não esteve em países comunistas, porque, frisou, “não teria ali a liberdade de falar o que quero” (ou seja, criticar o próprio comunismo). No exterior, afiançava que era indispensável mudar o mundo, dada a integração das economias, e não apenas o Brasil. Suas viagens eram autorizadas pelo papa.
INDICAÇÃO AO Nobel
da Paz E PRÊMIO NIWANO
Em 1974, dom Hélder foi indicado para o Nobel da Paz. “Ficou acertado, por todos os jurados, que o prêmio lhe seria conferido. No entanto, dois dos cinco membros do júri terminaram por se demitir, declarando publicamente que os três outros haviam sucumbido a ‘pressões inconfessáveis’, traindo os compromissos prévios em torno do nome de dom Helder Câmara”, escreve Verônica Veloso. O empresário norueguês Tore Munch teria conspirado com militares, empresários e um embaixador, Jaime de Sousa Gomes, contra a indicação do arcebispo.
Em 1978,
com a ditadura em fase de abertura, dom Hélder concede entrevista à revista
“Veja” e propõe “a implantação de um sistema político capaz de dar fim às
estruturas injustas”.
“O grave
é que ao pensarmos em socialismo humano, que salve efetivamente a pessoa humana
e não esmague a liberdade a pretexto de assegurar a igualdade, a pior
contrapropaganda vem da Rússia e da China”, diz o arcebispo.
“Ao lado
do inaceitável socialismo materialista, há lugar para socialismos que, de modo
algum, se prendem ao materialismo dialético e ao ateísmo militante. A
Igreja vai admitir que o cristão tente um socialismo que, sem a ilusão de
realizar paraísos na Terra, evite um mundo de oprimidos e opressores.”
Por não conceituar com precisão qual socialismo propõe, inclusive se é possível um socialismo diferente do soviético ou do chinês, não fica-se sabendo o que dom Hélder estava de fato propondo.Sintomaticamente, as alternativas propostas pela esquerda ao socialismo de matiz stalinista são sempre vagas, imprecisas. O socialismo referencial ainda é o stalinista e o chinês, filho das políticas de Ióssif Stálin, adotou medidas econômicas — produzindo um comunismo na política e um capitalismo na economia — tão-somente para evitar a debacle.
Em 1980, no governo do general João Figueiredo, o papa João Paulo 2º visitou o Brasil e elogiou dom Hélder devido ao seu trabalho com os pobres de Pernambuco. A ovelha era rebelde, mas muito menos rebelde do que comumente se pensa. O papa, nesse ano, era um dos combatentes do comunismo, ao lado de Ronald Reagan, dos Estados Unidos, Helmut Khol, da Alemanha Ocidental, e Margaret Thatcher, da Inglaterra. O trabalho que reconhecia era o evangélico, o fato de dom Helder atrair o povão para Igreja Católica.
Em 1983, dom Hélder recebeu o prêmio Niwano da Paz, “por seu trabalho em favor dos pobres e por sua vida dedicada à valorização da dignidade humana, à libertação da opressão e da pobreza e à promoção da cooperação religiosa com outros países”. O prêmio é concedido pela Fundação Niwano, organização budista do Japão.
Em 1984, dom Hélder passou a se dedicar à Fundação das Obras de Frei Francisco, cujo objetivo é ajudar os pobres. Em 1985, com a posse de José Sarney na Presidência da República, dom Hélder defende a reforma agrária, “como forma de evitar a violência”, e a Assembleia Constituinte. A aposentadoria do cargo de arcebispo de Olinda e Recife se dá em 15 de julho de 1985. Dom Hélder elogia o Plano Nacional de Reforma Agrária do governo Sarney. Era um “bom começo”.
Em 1986,
o chefe do Gabinete Militar, general Rubens Bayma Denis, o condecora, no
Itamaraty, com a Ordem do Rio Branco. “Eu não mudei. Mas se isto está
acontecendo é sinal de que alguma coisa mudou”, frisa dom Hélder.
Nesse ano, a Prefeitura de Roma concede-lhe o Prêmio Roma-Brasília, Cidade da Paz. Numa decisão estranha, dom Hélder não assinou um documento da Comissão Pró-Diretas da OAB-Seção de Pernambuco, que cobrava eleição direta para presidente da República. Ele alegou que era preciso “equacionar os problemas do país”, pois, se isto não fosse feito, o sucessor de José Sarney “não resistiria nem seis meses”. Fernando Collor foi eleito em 1989 e durou mais do que seis meses. Caiu não por pressões dos militares, e sim devido a uma escalada de corrupção irrefreável no seu governo.
No fim da
década de 1980, alinha-se ao presidente Sarney e aos conservadores da Igreja
Católica e condena “o filme A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese,
por enfocar de maneira desrespeitosa a figura de Jesus Cristo”. O arcebispo, um
defensor da liberdade (NÃO LIBERTINAGEM), unia-se aos censores...
Em 1990, defendeu as medidas econômicas do governo de Fernando Collor, que, ao final, revelaram-se desastrosas. Dom Hélder morreu em 27 de agosto de 1999, aos 90 anos. Dom Hélder era um homem e religioso contraditório? Era! Mas, sem dúvida, era um grande homem da Igreja Católica. Merece ser santo? É provável que sim, pois, ao lado das coisas terrenas, de suas lutas políticas, era um evangelizador. Mas o homem espartano gostaria de ser santo? Não dá para saber, mas é provável que não. Se sagrado santo, porém, não “envergonhará” nenhum outro santo.
*Francisco José Barros Araújo –
Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636
do Processo Nº 003/17
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