por*Francisco José Barros de Araújo
A santidade cristã não consiste apenas em êxtases místicos ou feitos extraordinários, mas na fidelidade concreta ao bem, à justiça e à caridade no cotidiano. Foi justamente isso que ensinava São Gabriel de Nossa Senhora das Dores (1838–1862), jovem religioso passionista cuja vida breve, porém intensa, se tornou exemplo luminoso de virtude, coragem e amor a Deus.
“Nossa perfeição não consiste em fazer coisas extraordinárias, mas em executar bem as ordinárias”, costumava repetir.
Celebrado no dia 27 de fevereiro, São Gabriel ficou conhecido não apenas por "sua profunda vida espiritual e devoção à Virgem Dolorosa", mas também por um episódio que marcaria a tradição popular católica!
Em 1860, após a Batalha de Castelfidardo, um grupo de mercenários ligados às forças revolucionárias de Giuseppe Garibaldi apareceu na pequena cidade de Isola del Gran Sasso para saqueá-la e aterrorizar os moradores. Diante do perigo que ameaçava inocentes, o jovem religioso, com autorização do reitor do seminário, dirigiu-se ao encontro dos invasores. Desarmado, enfrentou os criminosos que saqueavam e ameaçavam a população.
Quando um deles tentava violentar uma jovem, Gabriel agiu com rapidez:
Tomou a arma do agressor e impôs autoridade moral sobre o grupo. Para demonstrar sua pontaria e determinação, disparou contra uma pequena lagartixa que atravessava o caminho, acertando-a com precisão. Impressionados com a firmeza e habilidade do religioso, os mercenários recuaram.
Gabriel ordenou que apagassem os incêndios que haviam iniciado e deixassem imediatamente a cidade. O povo, salvo da violência e da humilhação, carregou-o nos braços até o seminário, chamando-o de “o salvador de Isola”.
Este episódio, que combina coragem, prudência e caridade, tornou-o posteriormente lembrado como protetor daqueles que usam a força de modo justo para defender inocentes, motivo pelo qual muitos o veneram como padroeiro dos atiradores responsáveis e defensores da legítima defesa.
O Santuário de São
Gabriel de Nossa Senhora das Dores, meta de incontáveis peregrinações e
assistido pelos Passionistas, é um dos mais procurados da Itália e do mundo
cristão. A figura atual deste Santo jovem, mais conhecido entre os devotos como o
‘Santo do Sorriso’, caracteriza a genuína piedade cristã inserida nos
nossos tempos e está conquistando cada dia mais o coração de muitos jovens, que
se pautam no seu exemplo para ajudar o próximo e se ligar à Deus e à Virgem
Mãe.
Gabriel de Nossa Senhora das Dores, a quem Leão XIII chamava o São Luiz
Gonzaga de nossos dias, nasceu em Assis a 1 de março de 1838, filho de Sante
Possenti di Terni e Inês Frisciotti. No mesmo dia que viu a luz do mundo,
recebeu a graça do batismo, na mesma pia, em que foi batizado o grande
patriarca S. Francisco, na Igreja de S. Rufino.
O pai deste Santo, já com vinte e dois anos era
governador da cidade de Urbânia, cargo que sucessivamente veio a ocupar em S.
Ginésio, Corinaldo, Cingoli e Assis. Como um dos magistrados dos Estados
Pontifícios, gozava de grande estima do Papa Pio IX e Leão XIII honrava-o com
sua sincera amizade. A mãe era de nobre família de Civitanova d’Ancona. Estes
dois cônjuges apresentavam modelos de esposos cristãos, vivendo no santo temor
de Deus, unidos no vínculo de respeito e amor fidelíssimo, que só a morte era
capaz de solver. Deus abençoou esta santa união com treze filhos, dos
quais Gabriel era o undécimo. Este, no batismo recebeu nome de Francisco, em
homenagem a seu avô e ao Seráfico de Assis.
Dando testemunho da
educação que recebiam na família, no Processo da beatificação do Servo de Deus,
os seus irmãos declararam:
“Nós fomos educados com o máximo cuidado, no que diz
respeito à piedade e à instrução. Nossa mãe era piedosíssima e nos educou
segundo as máximas da nossa santa Religião”.
Nos braços, sobre os joelhos de
uma mãe profundamente religiosa o pequeno Francisco aprendeu os rudimentos da
vida cristã e pronunciar os santos nomes de Jesus e Maria.A grande felicidade
que na infância reinava, experimentou um grande abalo, quando inesperadamente o
anjo da morte veio visitar aquele lar e arrebatar-lhe a mãe. D.
Inês sentindo a última hora se aproximar, na compreensão do seu dever de mãe
cristã reuniu todos os filhos à cabeceira do leito mortal, estreitou-os, um por
um, ao seu coração, selou a sua fronte com o último beijo, deu-lhes a bênção,
distinguindo com mais carinho os de tenra idade, entre estes, Francisco;
munida de todos os sacramentos, confortada pela graça de Deus, na idade de 38
anos deixou este mundo, para, na eternidade, perto de Deus, receber o prêmio de
suas raras virtudes.Do pai, o próprio filho Francisco ao seu diretor espiritual
deu o seguinte testemunho:
Meu pai, declarou,
tinha por costume levantar-se bem cedo. Dedicava uma hora à oração e meditação;
se neste tempo alguém desejava falar-lhe, havia de esperar pelo fim das
práticas religiosas. Terminadas estas, ia à igreja assistir a santa Missa e
costumava levar consigo os filhos, os que não fossem impedidos. Finda a santa
Missa metia-se ao trabalho. À noite reunia seus filhos e dava-lhes sábios
conselhos e úteis exortações. Falava-lhes dos deveres para com Deus, do
respeito devido à autoridade paternal e do perigo das más companhias. “Os maus
companheiros, dizia ele, são os assassinos da juventude, os satélites de
Lúcifer, traidores escondidos e por isso para os temer e deles ter cuidado”.
Os biógrafos de
Francisco fazem ressaltar em primeiro lugar a extraordinária bondade de coração
do menino, principalmente para com os pobres. Muitas vezes ficou ele sem a
merenda, por tê-la dado aos pobres. Entre seus irmãos era ele o anjo da
paz, sempre pronto para desculpar e para defendê-los, quando acusados
injustamente. Não suportava a injúria, fosse ela atirada a si ou a um dos seus.
Com a maior facilidade se desfazia de objetos de certo valor, com que tinha
sido homenageado. Assim presenteou a um de seus irmãos de uma bela corrente de
prata, que tinha recebido de um parente. Estes belos traços no caráter de
Francisco não afastam certas sombras que nele subsistiam também. Os
que o conheciam meigo, bondoso, compassivo, sabiam-no também ser nervoso,
impaciente, irascível.Por felicidade sua o senhor Sante, seu pai não
era daqueles que desculpam os caprichos de seus filhos, pretextando serem
crianças, sem pensar que mais tarde terão de pagar bem caro esta
condescendência e fraqueza. O verdadeiro amor cristão fê-lo combater sem
tréguas todos os defeitos. Francisco era obediente e tinha grande respeito ao
pai, o que aliás não impedia que diante de uma severa repreensão desse largas
ao seu gênio impulsivo, com palavras e gestos demonstrando o seu
descontentamento, sua raiva. Mas tudo isto era fogo fátuo. Logo voltava
às boas; sua boa índole não permitia, que estas revoltas interiores durassem
muito tempo. Era encantador ver, momentos depois, o menino desfeito em pranto,
procurar o pai e por seus modos ingênuos e infantis, assegurar-se do perdão e
do amor do Sr. Sante. Este, fingindo não dar crédito a estas demonstrações,
retrucava bruscamente: “Nada de carícias; quero ver fatos”.
Então o menino se
atirava ao colo do pai, beijava-o e sentia-se feliz, em ter voltado a paz, com
o perdão paterno. Nesta escola de sábia pedagogia Francisco cedo aprendeu
combater e vencer seus defeitos.Por algum tempo Francisco ficou entregue aos
cuidados de um mestre; depois freqüentou o colégio dos Irmãos das Escolas
Cristãs, onde fez rápidos progressos, figurando sempre entre os melhores
alunos. Na idade de sete anos fez a sua primeira confissão. Um ano depois, em
junho de 1846 recebeu o sacramento da confirmação. Tudo isto prova que o menino
já se achava bem instruído nas verdades da nossa fé, graças ao sólido ensino
que lhe dispensavam os beneméritos Irmãos Sallistas. Nesse mesmo tempo caiu
também a data da sua primeira comunhão, para qual se preparou com todo o
esmero. Testemunha de vista desse grandioso ato diz:
“O fervor com que o
vi chegar-se da sagrada mesa, o espírito de fé, que se estampava no seu
semblante, o vigor dos seus afetos foram tais, que se chegava a crer ser ele
levado por um Serafim”.
Esses sentimentos de
fé e de piedade, aquelas chamas de amor ao SS. Sacramento não mais se separaram
do coração de Francisco nos anos de sua mocidade, nem no meio de uma vida
dissipada de certo modo mundana. Não menos certo é que a freqüente recepção da santa
comunhão preservou-o de graves desvios no meio das tentações do
mundo.Terminados os estudos elementares, o pai pensou em procurar para
Francisco uma educação mais elevada, de acordo com a sua posição social e
confiou seu filho aos Padres Jesuítas que na cidade de Spoleto dirigiram um
colégio. Neste educandário passou Francisco os anos todos de sua mocidade no
mundo e chegou a cursar os quatro semestres de estudos filosóficos. Estudante
inteligente e cumpridor exato de seu dever que era, deixou boa memória naquele
colégio e formavam-se as mais belas esperanças a seu respeito. Ano não passava,
que não tirasse um prêmio; no fim dos seus estudos foi distinguido com uma
medalha de ouro.
Mestres e colegas igualmente o estimavam. Tudo nele encantava:
os seus modos delicados e gentis, a modéstia no falar, o sorriso benévolo que
lhe afloravam aos lábios, o garbo com que se sabia ver em circunstâncias mais
solenes, os sentimentos nobres que dominam em todo o seu proceder. Aos seus mestres
devotava sempre a máxima estima e profunda gratidão. Das práticas de piedade
era rígido observador e com regularidade freqüentava os santos sacramentos. Não
há dúvida, que, dada a ocasião, o seu gênio impetuoso e quente o levava a
transportes de veemência e de cólera. Mais estes excessos eram sempre seguidos
de lágrimas de arrependimento e de penitência .
Desde a sua infância mostrou
devoção particular a Nossa Senhora das Dores, uma imagem da qual se conservava
em sua família; e cabia-lhe a ele adorná-la de flores e manter acesa uma
lâmpada diante da estátua. Afirma um dos seus irmãos, Eurique Possenti, que viu
Francisco, no último ano que passou em casa, usar de cilício de couro com
pontinhas de ferro. Outro testemunho, da família Parenzi, declara:
“Sua
conduta religiosa e moral tem sido irrepreensível; dada a grande vigilância de
meus pais, não teria sido admitido em nossa família, se não fosse realmente
virtuoso”.
Para completar a imagem do jovem estudante e assim melhor
poder compreender a mudança que nele mais tarde se efetuou, tenha aqui lugar a
descrição da solene distribuição de prêmios, da última em que Francisco tomou
parte no colégio dos Jesuítas em Spoleto, em setembro de 1856. Os melhores
alunos tinham sido escolhidos para abrilhantar a cerimônia com discursos e
declamações poéticas. Entre eles Francisco ocupava o primeiro lugar. Ninguém se
lhe igualava em elegância exterior, no garbo de representar, na graça de
declamar, na graciosidade da gesticulação, no timbre encantador da voz. Podendo
representar no palco, parecia estar no seu elemento e fazia-o com toda a
naturalidade e perfeição.Em sua aparência não
deixava nada a desejar: tudo obedecia às exigências da última moda: o cabelo
esmeradamente penteado, o traje elegante e ricamente adornado, as luvas
brancas, gravata de seda, sapatos luzidios e artisticamente acabados, a tudo
isso Francisco ligava máxima importância. Em certa ocasião recitou com tanto
ardor e tamanho foi o entusiasmo que excitou no auditório, que o delegado
apostólico Mons. Guadalupe, que presente se achava, ao pai de Francisco que ao
seu lado se achava disse: “se vosso filho aqui presente estivesse, abraçava-o
em vosso lugar”.As raras qualidades morais, que o adornavam, a figura simpática
e atraente na flor da mocidade, a extrema vivacidade que nele se observava, não
deixaram de emprestar-lhe um leve sombreado de vaidade, que de algum modo
chegou a dominá-lo. Esta vaidade se lhe patenteava na exigência que fazia no
modo de se trajar, sempre na última moda, de perfumar o cabelo e este sempre
tratado com cuidado, de se aborrecer com uma nódoa por mais insignificante que
fosse, no fato, no amor que tinha a divertimentos alegres e aos esportes
mundanos.
O inimigo das almas tirou proveito dessas fraquezas. Se não conseguiu
roubar-lhe a inocência, não foi porque não lhe poupasse contínuos assaltos, bem
sucedidos. A paixão pelo teatro, a verdadeira mania por bailes, o amor à
leitura de romances eram tantos escolhos, tantos perigos, que é de admirar que
o jovem Francisco não caísse presa das ciladas diabólicas. Tão pronunciada era
sua paixão às danças, que lhe importou a alcunha de “bailarino”. Assim um dos
seus mestres, Pe. Pinceli, Jesuíta, quando soube da inesperada fuga de Possenti
do mundo para o convento, disse: “O bailarino fez isto? Quem esperava uma tal
coisa! Deixar tudo e fazer-se religioso no noviciado dos Padres Passionistas!”
Francisco bem conhecia o perigo em que
nadava, e não faltava quem o chamasse à atenção, o lembrasse da necessidade da
oração, da vigilância, da mortificação, da devoção a Jesus e Maria, de não
perder de vista a eternidade, etc. Em uma carta que lhe escreveu o Pe.
Fedeschini, S. J. há todos estes avisos; o conselho de fugir das más
companhias, de dar desprezo à vaidade no vestir e falar, de largar o respeito
humano, de fazer meditação diária e receber os sacramentos.Com todas as
leviandades e suas perigosas tendências para o mundo, Francisco não deixava de
ser um bom e piedoso jovem, a quem homens sábios e virtuosos não pudessem
escrever com confiança, benevolência e estima e cujas palavras não fossem
aceitas com respeito e gratidão.
“Muitas vezes”, diz
quem bem o conhecia,“Possenti sentiu o chamado de Deus, de deixar a vida no
mundo e trocá-la com o estado religioso”. Seu diretor, Pe. Norberto,
Passionista, declara: “A vocação, se bem que descuidada e sufocada, estava nele
havia muito tempo e ele a sentiu desde os mais tenros anos. Muitas vezes o
servo de Deus disse-me isto, lastimando a sua ingratidão e indiferença”.
O mesmo
sacerdote relata:
“A sua vocação se manifestou do seguinte modo: Não sei em que ano foi,
sentiu-se ele acometido de um mal, que o fez pensar na morte. Teve então a
inspiração de prometer a Deus entrar numa Ordem religiosa, caso recuperasse a
saúde. A promessa foi aceita, pois melhorou prontamente e em pouco tempo se
achou restabelecido. A promessa ficou como se não fosse feita. O jovem tornou a
dar o seu afeto ao mundo e se entregou à dissipação como antes. Não tardou que
Deus lhe mandasse outra enfermidade, uma inflamação interna e externa da garganta,
tão grave, que parecia a morte iminente já na primeira noite, tornando-se-lhe
dificílima à respiração. Novamente o enfermo recorreu a Deus e invocando Santo
André Bobola, aplicou ao lugar dolorido uma estampa do mesmo Santo,e renovou a
promessa de abraçar o estado religioso. As melhoras se acentuaram quase
instantaneamente e teve o enfermo uma noite tranqüila e não mais voltaram as
angústias da dispnéia. Deste extraordinário favor o jovem se lembrou sempre com
muita gratidão. Manteve também por algum tempo o propósito de fazer-se
religioso, mas diferindo-lhe a execução, o amor ao mundo voltou e no mundo
continuou a viver”.
Das paixões de
Francisco, uma das mais fortes foi a da caça!
A esta paixão ele pagava tributos
bem pesados e seu diretor espiritual não hesitou em atribuir a este esporte a
cruel moléstia, que o ceifou na flor da idade. Certa vez, em pular uma cerca,
chegou a cair e com tanta infelicidade, que quebrou-lhe um osso do nariz. O
fuzil disparou e o projétil passou-lhe rentinho pela testa, pouco faltando que
lhe rebentasse o crânio.
Francisco reconhecendo logo a providência deste aviso,
renovou a sua promessa. Ficou com as cicatrizes, mas deixou-se ficar no mundo.A
graça divina também não se deu por vencida. Rejeitada três vezes, tentou um
quarto golpe, mais doloroso ainda.
De todos de sua família Francisco dedicava
terníssima amizade a sua irmã Maria Luzia, nove anos mais velha que ele, e esta
amizade era correspondida com todo afeto. Em 1855 irrompeu em Spoleto a cólera
e Maria Luiza foi a primeira vítima da terrível epidemia. Foi no dia Corpus
Christi, e a notícia alcançou Francisco, quando, na procissão, levava a cruz.
A
morte da irmã feriu profundamente o coração do jovem e mergulhou sua alma em
trevas nunca antes experimentadas. Perdeu o gosto de tudo e se entregou a uma
tristeza inconsolável. Parecia, que com este golpe a graça divina
tivesse removido o último obstáculo de a promessa se cumprir. Assim
ainda não foi. Todo acabrunhado, Francisco manifestou ao pai sua resolução de
entrar para o convento chegando a dizer que para ele tudo se tinha acabado
nesta vida.
Possenti, receando perder seu filho a quem muito amava, não recebeu
bem a comunicação e pediu-lhe nunca mais tocasse neste assunto!
Aconselhou-o a
se distrair, a afastar os pensamentos tristes a procurar a sociedade,
freqüentar o teatro; chegou a insinuar-lhe a idéia de procurar a amizade de uma
donzela distinta, de família igualmente conceituada, na esperança de nos
entendimentos inocentes ela conseguir de fazê-lo esquecer-se dos seus intentos
religiosos.
Na igreja
metropolitana de Spoleto gozava de uma veneração singular uma imagem de Nossa
Senhora; a esta imagem chamava simplesmente “a Icone”. Na oitava do dia 15 de
agosto esta imagem era levada em solene procissão por dentro da igreja e não
havia quem não se ajoelhasse à sua passagem. Em 1856 Francisco Possenti
achava-se no meio dos fiéis e todo tomado de amor por Maria Santíssima, os seus
olhos se fixavam na venerada imagem como que esperando por uma bênção especial.
Pois, quando a “Icone” vinha aproximando-se do jovem, parecia ela lhe atirar um
olhar todo especial e lhe dizer: “Francisco, o mundo não é para ti; a vida no
convento te espera”.
Esta palavra, qual uma seta de fogo cravou-lhe no coração;
assim saiu da igreja desfeito em lágrimas. Estava resolvido a realizar desta
vez o plano de alguns anos. Tratou, porém, de não dar por enquanto nenhuma
demonstração do seu intento. Embora certo de sua vocação, mas desconfiando
da sua fraqueza, e para não ser vítima de uma ilusão procurou seu mestre no
liceu e diretor espiritual Pe. Bompiani, Jesuíta e a ele se abriu inteiramente,
fazendo do conselho do mesmo depender sua resolução definitiva. O exame foi feito
com toda sinceridade e tendo tomado em consideração todos os fatores influentes
no passado da vida do jovem, o Pe. Bompiani não duvidou de se tratar de uma
vocação verdadeira e animou o jovem a seguí-la.
Consultas que fez com mais dois
sacerdotes de sua inteira confiança, tiveram o mesmo resultado. Francisco se
resolveu então a pedir sua admissão na Congregação dos Passionistas. Comunicar
ao pai a resolução tomada, não foi fácil. Mas desta vez o Sr. Sante, homem
consciencioso, vendo a aflição e a firmeza de seu filho, não mais se opôs;
tomado, porém, de espanto quando soube que a Congregação por Francisco
escolhida, a dos Passionistas, era de todas a mais austera.
Se bem que não se
opusesse à vontade do filho, tratou de procrastinar a execução do seu plano e
impor condições.Francisco, porém, ficou firme. Tomou ainda e pela última vez,
parte na solenidade da distribuição dos prêmios, no colégio dos Jesuítas, fez
como sempre um papel brilhante no palco, despediu-se dos seus professores, dos
seus amigos e em companhia de seu irmão Luiz, da Ordem Dominicana, por ordem de
seu pai, fez uma visita a seu tio Cesare, cônego da Basílica de Loreto e a um
parente de seu pai, Frei João Batista da Civitanova, guardião de um convento
dos capuchinhos, levando para ambos carta de Sante Possenti em que este pedia
examinassem a vocação do jovem. Tanto o cônego como o capuchinho carregaram
bastante as cores da vida austera na Congregação dos Passionistas, que
absolutamente não lhe conviria, a ele, moço de dezoito anos, acostumado a
seguir às suas vontades, sem restrição de comodidades. A visita à Santa Casa em
Loreto Francisco aproveitou largamente para recomendar-se a N. Sra. Não mais
arredou do caminho encetado.
De Loreto foi para convento Morrovale, dos
Passionistas onde já em 21 de setembro de 1856 recebeu o hábito com o nome de
Gabriel dell’Adolorata. Admitido no noviciado, escreveu ao pai e aos
irmãos, comunicando-lhes o fato. Ao pai pede perdão, aos irmãos recomenda amor
filial e boa conduta. A carta, embora de simplicidade encantadora, é um
documento admirável de sentimento filial e católico.
Aos companheiros seus de
estudo dirigiu cartas também. Despede-se, pede perdão de maus exemplos que
julgava ter dado; aconselha-os a fugir das más companhias, do teatro, das más
leituras e das conversas inúteis.
Convencidíssimo da
sua vocação religiosa, longe do mundo, da sociedade e da família, não mais teve
outro ideal que subir as culminâncias da perfeição. Inconfundível era sua
personalidade no meio dos seus companheiros do noviciado. Sem perder as notas
características do seu caráter, a jovialidade, a alegria de espírito, a
amenidade de trato, era ele inexcedível não só na exatidão do cumprimento dos
exercícios regulares, como também na prática das virtudes cristãs e monásticas.
E se perscrutarmos as causas profundas desta mudança radical na vida de
Gabriel, duas conseguiremos encontrar, aliás suficientes e esclarecedoras: o
ardente amor a Jesus Crucificado, à Santa Eucaristia, sua devoção singular a
Mãe de Deus, em particular à Nossa Senhora das Dores e sua inalterada
mortificação, por meio da qual deu morte aos seus desordenados apetites, um por
um.
Tendo corrido o ano
de provação, Gabriel foi admitido à profissão e mandado para várias casas da
Congregação, com o fim de completar os seus estudos de teologia.
Durante os
anos de preparação para o sacerdócio, superiores e companheiros viram no santo
jovem o modelo mais perfeito de todas as virtudes, e cumpridor exatíssimo dos
seus deveres!
Quando chegou à idade de vinte e três anos, anunciaram-se os primeiros
sintomas da moléstia, que no prazo de um ano havia de levá-lo ao túmulo: a
tuberculose pulmonar. O longo tempo da sua enfermagem Gabriel o aproveitou para
ainda mais se aprofundar na sua devoção predileta à Sagrada Paixão e Morte de
Jesus Cristo e à Maria Santíssima, mãe das dores. Em fevereiro de 1862
ainda pôde andar e receber a santa comunhão na igreja, junto com seus
companheiros. Inesperadamente o mal se agravou; foi preciso avisá-lo para
receber os últimos sacramentos.
A notícia assustou-o por um momento só; mas
imediatamente recuperou a habitual calma, que logo se transformou numa alegria
antes nunca experimentada. O modo de receber o santo viático comoveu e edificou
a todos que assistiram.Não mais largava a imagem do crucificado, que cobria de
beijos, e ao seu alcance tinha a estátua de N. Sra. das Dores, que
freqüentemente apertava ao seu peito, proferindo afetuosas jaculatórias, como
estas:
-“Minha mãe, faze
depressa!”
-“Jesus, Maria, José, expire eu em paz em vossa companhia!”
-“Maria,
mãe da graça, mãe da misericórdia, do inimigo nos protegei, e na hora da morte
nos recebei”.
Poucos momentos antes
do desenlace, o agonizante, que parecia dormir, de repente, todo a sorrir,
virou o rosto para esquerda, fixando olhar para um determinado ponto.
Como que
tomado de uma grande comoção diante de uma visão impressionante, deu um
profundo suspiro de afeto e nesta atitude, sempre sorridente, com as mãos
apertando as imagens do crucifixo e da Mater dolorosa, passou desta vida para a
outra.Assim morreu o santo jovem na idade de vinte e quatro anos, na manhã de
27 de fevereiro de 1862.
Foi sepultado na igreja da Congregação, em Isola Del
Gran Sasso. Trinta anos depois fêz-se o reconhecimento do seu corpo. Nesta
ocasião com o simples contacto de suas relíquias verificou-se a cura prodigiosa
de uma jovem que a tuberculose pulmonar tinha reduzido ao último estado. Reproduziram-se
aos milhares os prodígios que foram constatados à invocação do Santo.Em 1908 o
Papa Pio X inscreveu o nome de Gabriel da Virgem Dolorosa no catálogo dos
Beatos e em 1920 Bento XV decretou-lhe as solenes honras da canonização. Pio XI
estendeu a sua festa a toda a Igreja, em 1932.
Mas, por que o consideram Padroeiro da SANTA E Legítima Defesa?
O título de “salvador
de Isola” o explica. Do site
da Saint Gabriel Possenti Society, entidade laica sediada em Cabin
John, MD (Estados Unidos da América), consta que o seminário Passionista onde
estudava Gabriel Possenti, em 1860, localizava-ss na pequena comunidade de
Isola del Gran Sasso. Como escreveu John M Snyder, fundador e presidente da
mencionada Sociedade, em carta ao Papa João Paulo II, em 05/03/2001:
“Nossa devoção a São Gabriel Possenti justifica-se porque seu exemplo nos mostra que a santidade não é
antagônica às demais virtudes humanas como coragem e determinação.Gabriel
Possenti, em cujo íntimo ardiam a compaixão e a devoção à Virgem Dolorosa,
compreendeu com clareza, sem falsos moralismos, e sem falsa humildade, que o ato de empunhar e empregar armas de fogo, se
necessário, em legítima defesa de indefesos, não afasta o ser humano da senda do Bem.
Antes o coloca entre aqueles que têm permanente disposição neste mundo para
travar o Bom Combate.”
Artigos do Catecismo da Igreja Católica, sobre o direito à
LEGITIMA DEFESA:
CIC §1909: Por fim, o
bem comum envolve a paz, isto é, uma ordem justa duradoura e segura. Supõe, portanto, que a autoridade assegure,
por meios honestos, a segurança da sociedade e a de seus membros, fundamentando
o direito à legítima defesa pessoal e coletiva.
CIC §2263: A legítima
defesa das pessoas e das sociedades não é uma exceção à proibição de matar o
inocente, que constitui o homicídio voluntário. "A ação de defender-se pode acarretar um duplo efeito: um é a
conservação da própria vida, o outro é a morte do agressor. Só se quer o
primeiro; o outro, não."
CIC §2264: O amor a si mesmo permanece um princípio
fundamental da moralidade. Portanto, é legítimo fazer respeitar seu próprio
direito à vida. Quem defende sua vida não é culpável de homicídio, mesmo se for
obrigado a matar o agressor: Se alguém, para se defender, usar de violência
mais do que o necessário, seu ato será ilícito. Mas, se a violência for
repelida com medida, será lícito. E
não é necessário para a salvação omitir este ato de comedida proteção para evitar
matar o outro, porque, antes da de outrem, se está obrigado a cuidar da própria
vida.
CIC
§2265: A legítima defesa pode ser não somente um
direito, mas um dever grave, para aquele que é responsável pela vida de outros.
Preservar o bem comum da sociedade exige que o agressor seja impossibilitado de
prejudicar a outrem. A este título os legítimos detentores da autoridade têm o direito de repelir pelas armas
os agressores da comunidade civil pela qual são responsáveis.
CIC
§2266:
Corresponde a uma exigência de tutela do bem comum o esforço do Estado destinado a conter a difusão de comportamentos
lesivos aos direitos humanos e às regras fundamentais de convivência civil.
A legítima autoridade pública tem o direito e o dever de infligir penas
proporcionais à gravidade do delito. A pena tem como primeiro objetivo reparar
a desordem introduzida pela culpa, quando essa pena é voluntariamente aceita
pelo culpado tem valor de expiação.
Assim, a pena, além de defender a ordem pública e de tutelar a segurança das
pessoas, tem um objetivo medicinal: na medida do possível, deve contribuir à
correção do culpado.
São Gabriel Possenti,
rogai por nós!
Conclusão
A história de São Gabriel de Nossa Senhora das Dores revela uma verdade profundamente enraizada na tradição cristã: a caridade não exclui a defesa do inocente. Pelo contrário, muitas vezes ela a exige. O amor cristão não é passividade diante do mal, mas compromisso com a justiça e a proteção da vida humana.
A própria Sagrada Escritura reconhece esse princípio. No Evangelho, Cristo afirma: “Quem não tem espada, venda o manto e compre uma” (Lc 22,36), indicando que a prudência e a defesa podem ser moralmente legítimas em determinadas circunstâncias. São Paulo também ensina que a autoridade civil “não traz a espada em vão” (Rm 13,4), pois existe para conter o mal e proteger os justos.
A tradição teológica desenvolveu esse princípio de forma clara. O grande doutor da Igreja São Tomás de Aquino, na Suma Teológica (II-II, q.64, a.7), ensina que é lícito repelir a violência injusta, desde que a intenção principal seja preservar a própria vida ou a vida de inocentes, e não a morte do agressor. Trata-se do chamado princípio do duplo efeito, onde a defesa legítima é moralmente permitida quando a intenção é proteger o bem e não causar o mal. Esse ensinamento foi reafirmado pelo Magistério da Igreja. O Catecismo da Igreja Católica declara:
“A legítima defesa pode ser não somente um direito, mas um grave dever para quem é responsável pela vida de outrem.” (CIC 2265)
Portanto, proteger a própria vida, a família e os inocentes contra a agressão injusta não é contrário ao Evangelho; pode ser um verdadeiro ato de caridade. Permitir que o mal triunfe quando se tem a possibilidade de impedir seria, muitas vezes, uma forma de omissão culpável.
O episódio de São Gabriel ilustra exatamente isso. Ele não agiu movido por ódio, vingança ou violência desordenada. Agiu para impedir um crime, proteger uma jovem indefesa e salvar uma cidade do saque e da brutalidade. Sua coragem demonstrou que a virtude cristã não é fraqueza, mas força moral orientada pela justiça.
Assim, a tradição católica sempre distinguiu claramente entre violência injusta e força legítima usada para proteger o bem comum. Quando a força é empregada com prudência, proporcionalidade e intenção reta, ela pode tornar-se instrumento da justiça.
Por isso, São Gabriel permanece como símbolo de um princípio perene:
o cristão é chamado à paz, mas não à cumplicidade com o mal; à caridade, mas não à covardia; ao perdão, mas nunca à entrega dos inocentes à violência.Defender a vida, proteger os fracos e resistir à injustiça — quando necessário até com o uso proporcional da força — pode ser não apenas permitido, mas um verdadeiro dever moral diante de Deus e da sociedade.
*Francisco
José Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN,
conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº 003/17 - Perfil curricular
no sistema Lattes do CNPq Nº 1912382878452130.
BIBLIOGRAFIA:
1.AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Tradução do latim. São Paulo: Loyola, 2001. (Obra clássica da teologia moral católica. Na II-II, questão 64, artigo 7, São Tomás desenvolve o princípio moral da legítima defesa, explicando que é lícito repelir a agressão injusta quando a intenção é preservar a própria vida e não matar o agressor. É o fundamento filosófico-teológico usado pela Igreja para justificar a legítima defesa.)
2.IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2000. (Documento oficial do Magistério da Igreja que sistematiza a doutrina católica. Nos parágrafos 2263-2265 afirma que a legítima defesa “não é exceção à proibição de matar o inocente” e que pode ser um direito e até um grave dever para quem é responsável pela vida de outros.)
3.PE. SÍLVIO, Passionista. São Gabriel de Nossa Senhora das Dores. São Paulo: O Calvário / Nebli, 2022. (Biografia clássica do santo passionista São Gabriel de Nossa Senhora das Dores, narrando sua vida espiritual, devoção mariana e episódios históricos atribuídos à sua coragem em defesa da população. A obra apresenta documentos, testemunhos e tradições sobre o santo, cuja vida breve foi marcada pela caridade e santidade.)
4.AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. Tradução do latim. Petrópolis: Vozes, 2012. (Clássico da patrística onde Santo Agostinho discute a moral da guerra justa, a defesa da ordem e a legitimidade do uso da força pela autoridade legítima para conter o mal. Essa doutrina serviu de base histórica para o desenvolvimento posterior da teoria da legítima defesa na teologia cristã.)
5.CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et Spes – Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Atual. São Paulo: Paulinas, 1966. (Documento conciliar que reafirma o direito das nações à legítima defesa e o dever de proteger a vida e a paz quando injustamente atacadas, dentro da doutrina da guerra justa e da defesa do bem comum.)
Essas cinco obras representam três níveis da tradição católica
sobre o tema:
1º)-Teologia moral clássica:
-São Tomás de Aquino
2º)-Magistério oficial da Igreja:
-Igreja Católica (Catecismo e Concílio)
3º)-Hagiografia e exemplos históricos:
-São Gabriel Possenti de Nossa Senhora das Dores
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Gostei, bem interessante estava com muitas dúvidas.
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