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O CONCEITO DE JUSTIÇA NO ANTIGO TESTAMENTO ERA O MESMO QUE TEMOS HOJE ?

Written By Beraká - o blog da família on domingo, 6 de fevereiro de 2011 | 00:33


O conceito de justiça no Antigo Testamento a partir de Juízes 5.9-12

Tércio Machado Siqueira - Universidade Metodista de São Paulo   





PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR: "Este conceito era o mesmo que temos modernamente hoje de Justiça distributiva e comutativa ?..."





Resumo:

O conceito de sedaqah (JUSTIÇA), em Juízes 5.11, representa certamente o significado mais primitivo usado e confessado pelo povo israelita.

Longe de carregar um sentido simplesmente jurídico ou de uma ordem cósmica, a expressão sidekot Yhwh, traduzida por justiças de Javé, deve ser entendida como os atos salvíficos de Javé.


O Justo do ANTIGO TESTAMENTO era aquele que se "AJUSTAVA"  à lei de Deus ?
Esta interpretação é reforçada pelo verbo hebraico tanah, recontar que rege a frase lá se recontam os atos de justiça de Javé. O esforço de recontar os atos salvíficos de Javé, no passado, tinha o objetivo de resgatar a fé no Deus que age em favor dos necessitados e trazer alento para o povo diante do desafio de conquistar um espaço para morar, plantar e criar filhos e filhas com dignidade.

O Cântico de Débora (Jz 5.1–31) não é somente importante por contribuir com o argumento da antiguidade da perícope do Sinai (Ex 19.1;Nm 10.10), mas também por revelar, provavelmente, o mais original conceito desedaqah, justiça, no Antigo Testamento (Jz 5.11).

Esta sub-unidade literária do Cântico de Débora mostra a sua importância pela consistência teológica de suas palavras. O autor dessa composição mostra seu coerente pensar teológico: a história do povo é o lugar apropriado para fazer teologia. Nesse texto, o que é mais importante são os atos salvíficos de Javé, e não a liderança que comanda e participa dessa batalha tão importante para o povo de Israel.

(A) – A tradução
Esta é uma tradução provisória de Juízes 5.9-12. Nesta, foi tentado captar o sentido mais original possível das palavras e expressões hebraicas. Da mesma forma, tentou-se resgatar a forma poética desse poema, procurando dispor as frases do texto com os seus paralelismos, a fim de facilitar o seu entendimento e interpretação.

9.    Meu coração mantém-se em ordem (inclina-se) para os comandantes de Israel,os que se apresentam voluntariamente.Bendigam a Javé!
10.  Os que cavalgam jumentas vermelho-amareladas, os que sentam sobre vestes, e os que andam sobre o caminho.Prestem atenção!
11.  Na voz dos que distribuem água entre os bebedouros! Lá se recontam os atos de justiça de Javé, os atos de justiça dos seus camponeses em Israel!Então o povo de Javé desceu (desceram) para os portões.
12.  Desperta, desperta, Débora! Desperta, desperta, fala um canto! Levanta, Baraque, e leva cativo teu cativo, filho de Abinoão!

(B) – A estrutura e a dinâmica literária de Juízes 5.9–12
Este cântico apresenta-se com uma roupagem litúrgica bastante evidente. A subunidade, Jz 5.9–12, é parte dessa ampla liturgia (v. 1–31) e mostra a convocação final das tribos, bem como a relação dos combatentes, para a batalha contra os cananeus na Planície de Meguido. Eis uma tentativa de entender e interpretar a dinâmica deste pequeno parágrafo pertencente ao Cântico de Débora:


(C) – A data do Cântico de Débora
Este é um item que se reveste de grande importância, em vista de algumas informações contidas no texto. Naturalmente que recorreremos ao Cântico como um todo, já que os versos 9–2 são parte dele. Dois pontos importantes devem ser levados em consideração nesta análise: primeiramente, Juízes 5.1–31 tem sido avaliado, pelos principais pesquisadores e pesquisadoras, como o mais primitivo texto do AntigoTestamento, por seu rico elenco de termos e expressões arcaicas (J. Alberto Soggin, Judges, London: SCM Press LTD, 1981, p.79-101); em segundo lugar, a linguagem, os costumes e as referências históricas remetem esse texto para o século XII a.C.
Os versos 9–12 apontam para um tipo de combate que guarda as características da Guerra Santa. Os sinais desse tipo de combate estão claros no texto:
(a) o verso 9b fala de combatentes voluntários. Essa é uma das marcas da guerra santa, em Israel, empreendida no contexto do período tribal. A raiz hebraica ndb, apresentar-se voluntariamente, tem uma ocorrência considerada baixa na Bíblia Hebraica, porém muito significativa. O determinante no significado da raiz ndb é o elemento da “espontaneidade” (v. 2 e 9). Essa raiz aparece, especialmente, nos textos ligados ao culto (Lv 22.18; Nm 15.3; Ez 46.12). As experiências do êxodo e as dificuldades enfrentadas para o estabelecimento em Canaã desenvolveram, entre o povo, a idéia que Javé é o comandante das batalhas para conquistar um espaço na terra para morar, plantar e educar os filhos e filhas (Ex 15.3; 17.16; 1Sm 18.17; 25.28).
(b) Essa guerra possuía um forte caráter religioso, e, por isso, a batalha e os seus guerreiros eram purificados, antes da luta (1Sm 21.6; 2Sm 11.11) e a arma usada é a música, seja entoada pelas trombetas (Js 6.1-16) ou pelas canções de Débora (Jz 5.12). O verso 11 também menciona traços da fé israelita como meios de preparação para a batalha.


Na verdade, a batalha descrita em Juízes 5.1–31 guarda as características da guerra santa e, como tal, esse tipo de enfrentamento é próprio do período anterior aos reinados de Davi e Salomão. A partir de Davi, desenvolveu-se a idéia de que a organização tribal era uma forma ingênua de enfrentar os complexos desafios econômicos e políticos dos novos tempos. Especialmente com Salomão, foram montados exércitos profissionais com soldados mercenários. Por isso, novas bases militares surgiram para facilitar a defesa da terra e conquista de outros territórios (1Rs 9.15–19; 10.26 — conforme John Bright, História de Israel, São Paulo: Paulinas, 1981, p. 275–281; Herbert Donner, História de Israel, Volume 1, São Leopoldo/Petrópolis: Editora Sinodal/Editora Vozes, 1997, p. 227–264).

O propósito político de Débora deve ser entendido à luz da fé javista e das grandes mudanças que ocorreram no contexto político-social do AntigoOriente Médio, a partir do século XIII a.C.


O projeto tribal e o conceito de sedaqah, justiça

O Cântico de Débora não menciona armas disponíveis aos combatentes israelitas, mas fala de voluntários para enfrentar os exércitos dos reis das cidades-estado. Certamente, entre os israelitas o medo estava presente, mas, apesar disso, havia disponibilidade entre as pessoas ocupadas: os que montam jumentas, os que sentam nos tribunais, os que andam a pé e os distribuidores de água (v. 9–11).
Há um detalhe muito interessante nos versos 9–11. Com exceção dos distribuidores de água, o texto não faz menção da função dos outros grupos de combatentes voluntários. Qual seria o motivo dessa extensa referência da participação dos distribuidores de água? Eis uma questão interessante a ser analisada.
(a) A importância da ação dos distribuidores de água, nesse combate, é grande, pois somente após a participação deles é que os combatentes desciam das montanhas para irem em direção aos portões das cidades-estado. Em outras palavras, o início do combate aos reis opressores dependia da participação desse grupo que atuava junto aos bebedouros.
(b) O verso 11 menciona dois verbos para referir-se à ação dos distribuidores de água: hasas, distribuir e tanah, recontar, narrar de novo. Aparentemente, as ações desses verbos são divergentes; porém, eles se completam por meio da voz dos distribuidores de água. Enquanto eles repartiam água, junto aos bebedouros, eles celebravam, com os demais voluntários, isto é, os que montam jumentas, os que sentam nos tribunais e os que andam a pé.
(c) A função dos distribuidores de água não é, simplesmente, matar a sede dos combatentes israelitas. Segundo Juízes 5.11, os voluntários israelitas, antes de descer para os portões, deveriam escutar a voz dos distribuidores de água. O texto não faz menção acerca da maneira como eles distribuíam água, mas especifica que eles recontavam as histórias da atuação de Javéno passado (Carlos A. Dreher, “A formação social do Israel pré-estatal. Uma tentativa de reconstrução histórica, a partir do Cântico de Débora (Jz 5)”, Em: Estudos Teológicos, 2, 1986, p. 169–201).
(d) A função dos distribuidores de água é descrita pelo verbo tanah, que aqui deve ser traduzido por recontar, contar de novo (v. 11) ou cantar (Ex 32.18; Jz 11.40; Sl 8.2) os sidaqot, justiça de Javé. Na descrição da atuação dos israelitas que distribuíam água para os combatentes, o que chama atenção é a afirmação de que eles recontavam as sideqot, justiças, de Javé para os combatentes. Isso sugere que no plano de combate dos camponeses israelitas incluía uma celebração cúltica visando rememorar os atos de justiça empreendidos por Javé no passado.
(e) Diante disso, surge uma questão que tem sido discutida, entre os estudiosos e as estudiosas, acerca da palavra hebraica sedaqah, no AntigoTestamento.

3. O conceito de sedaqah, “justiça”, no Cântico de Débora
Sem discutir o mérito da questão, é importante mencionar que há duas correntes que interpretam o sentido de sedaqah: a primeira é liderada por H.H. Schmid que associa a definição desse termo com as concepções doAntigo Oriente Médio, segundo a qual, sedaqah está relacionado com a ordem do mundo tal como foi criada (conforme Klaus Koch, “sdq ser fiel a la comunidad”, Em: Diccionario Teológico Manual del Antiguo Testamento, Volume II, E. Jenni e C. Westermann, Madrid: Ediciones Cristiandad, 1985, p.639-668). A segunda corrente interpreta sedaqah como uma palavra que aponta para o sentido de ações salvíficas de Javé.
O Cântico de Débora exerce uma função importante no cenário teológico de toda Bíblia. Ele mostra que, particularmente, o Antigo Testamento não contém um esboço de doutrina, mas ele é uma narrativa, uma história de um povo, vivendo entre muitos povos. As confissões de fé, veiculadas pelos hinos, não são composições poéticas conceituais desvinculadas da realidade, mas têm relação direta com a história. Portanto, a teologia doAntigo Testamento nasce da história da experiência de vida do povo hebreu. Assim deve ser lido o Cântico de Débora: como uma confissão de fé, um testemunho ou um “querigma”.
Mesmo sendo descrito como um bando de escravos fugitivos que chegaram à terra de Canaã, Israel construiu a sua identidade teológica a partir de experiências históricas. Certamente foi muito grande a pressão cultural exercida pelos egípcios, povos da Mesopotâmia e os cananeus.
O conceito de sedaqah, justiça, que o Cântico de Débora revela, não pode ser desvinculado da história salvífica, narrada nas páginas de toda a Bíblia.

Valiosas informações a partir de Juízes 5.9–12:
(1) Esta sub-unidade do Cântico de Débora fornece preciosas informações sobre o modo de ser de uma batalha cuja data pode ser atribuída ao período anterior a 1100 a.C. Este texto contribui para a definição do que poderia ser uma guerra santa: não menciona a existência de soldados mercenários, mas a tropa era constituída de membros voluntários das tribos, como fica claro no uso do verbo hebraico nadab, apresentar-se voluntariamente (v.9b); na convocação geral para as tribos (v. 10); na estreita relação com a fé javista (v. 11); com a forma ingênua de atuar na batalha: cantando e levando os cativos sem mencionar o uso de armas de morte (v. 12). São informações que contribuem para a caracterização do conceito de guerra santa.
(2) O conceito tribal está muito presente neste texto bíblico. A ausência do campo semântico de melek, rei, sinaliza que o Cântico de Débora tem sua origem no período anterior à monarquia. O voluntariado para colaborar com as tribos, na ação de defesa de seus princípios básicos, é justificado como uma resposta ao ato salvífico de Deus, libertando-os da escravidão e dando-lhes uma terra para morar, plantar e educar os filhos e filhas.
(3) O conceito de sedaqah de Javé, em Juízes 5.11, precisa ser analisado à luz do contexto do Cântico de Débora. Esse texto usa o plural construtosidekot Yhwh. Entretanto, não se pode traduzir esta expressão pura e simplesmente como “justiças de Javé”, pois tal forma comunica a idéia de estabilidade e durabilidade como as montanhas (Sl 36.7). O verso 11 de Juízes 5, todavia, refere-se às intervenções e ações de Javé na história do povo. Para se chegar a essa compreensão, é preciso observar que o verbo da frase é tanah, recontar, através de canções, as sidekot Yhwh. Por outro lado, é importante observar que, em todo o Antigo Testamento, não há lugar para se desenvolver a racionalidade científica da fé. A verdade é que na preparação para uma batalha, de importância vital para a sobrevivência do povo, para os combatentes não bastava passar conceitos e doutrinas a respeito do caráter de Deus. Acima de tudo, era preciso recontar as sidekot Yhwh, isto é, os atos libertadores de Javé que possibilitaram a libertação dos escravos hebreus. Futuramente, alguns textos bíblicos registraram a lamentação dos crentes pela ausência dessa memória que trazia alento e fortalecia a fé (Is 59.9,14).
Lei de Talião


(4) Portanto, o ato de recontar as ações salvíficas de Javé, por parte dos distribuidores de água, antes da batalha contra os cananeus, foi visto pelo autor do Cântico de Débora como um sacramento. A intenção de “recontar” os “atos salvíficos” de Javé é alentar, fortalecer na fé os temerosos combatentes. Afinal, eles iriam enfrentar exércitos adestrados e abastecidos de armas! Assim, não é difícil concluir que a fé está no ponto de partida de todos os embates da vida. Com a mesma intenção, a Igreja Cristã manteve a celebração da Páscoa, na qual a memória dos atos salvadores de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo deve ocupar um espaço vital.
Fonte: Revista -  Universidade Metodista de São Paulo   
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