A mera veiculação, ou reprodução de matérias e entrevistas no todo ou em parte, não significa necessariamente, a adesão às ideias nelas contidas, nem a garantia da ortodoxia de seus conteúdos. Todas postagens e comentários são de inteira responsabilidade de seus autores primários, e não representam de maneira alguma, a posição do blog. Tal material deve ser considerado à luz do objetivo opinativo desta página.
Home » , , , , » A Cidade de Deus e a Cidade dos Homens – Qual construção estamos priorizando?

A Cidade de Deus e a Cidade dos Homens – Qual construção estamos priorizando?

Written By Beraká - o blog da família on sábado, 5 de dezembro de 2020 | 17:35

 


 

 

por*Francisco José Barros de Araújo 


A reflexão sobre a “Cidade de Deus” e a “Cidade dos Homens”, apresentada por Santo Agostinho de Hipona em sua célebre obra A Cidade de Deus, permanece profundamente atual mesmo após mais de quinze séculos. Em um mundo marcado por disputas de poder, relativismo moral, individualismo crescente e busca desenfreada por prestígio, riqueza e reconhecimento humano, a pergunta de Agostinho ecoa com força em nossa consciência: qual cidade estamos ajudando a construir com nossas escolhas, valores e prioridades?

Ao escrever sua obra, Agostinho procurava responder à crise do mundo romano após a queda de Roma, quando muitos acusavam o cristianismo de ser responsável pela decadência do império. Entretanto, o santo vai muito além de uma simples defesa da fé cristã: ele apresenta uma profunda análise espiritual da história humana, mostrando que existem duas realidades em constante tensão dentro da humanidade e até mesmo dentro do coração de cada pessoa.


De um lado está a Cidade dos Homens, simbolizada por Babilônia, edificada sobre o orgulho, o egoísmo, a autossuficiência e o amor desordenado de si mesmo. É a cidade daqueles que colocam seus interesses, paixões e ambições acima da vontade de Deus. Nela, o poder vale mais que a verdade, a aparência mais que a santidade, e o sucesso terreno mais que a vida eterna.


Do outro lado está a Cidade de Deus, simbolizada por Jerusalém, construída sobre o amor a Deus, a humildade, a caridade e a busca da verdade eterna. É a cidade daqueles que compreendem que a vida terrena é passageira e que o verdadeiro destino do homem não está apenas nas conquistas materiais, mas na comunhão com Deus.Como afirma Agostinho:


“Dois amores erigiram duas cidades, Babilônia e Jerusalém: aquela é o amor de si até ao desprezo de Deus; esta, o amor de Deus até ao desprezo de si.”


Essa distinção não significa que existam apenas dois grupos visíveis e perfeitamente separados no mundo, mas revela dois modos de viver, duas orientações espirituais e dois projetos de civilização. Cada sociedade, cada família e cada pessoa contribui diariamente para fortalecer uma dessas cidades através de suas atitudes, prioridades e decisões.


Vivemos hoje uma época em que muitos desejam construir uma sociedade sem Deus, onde a fé é relegada ao âmbito privado, os valores cristãos são relativizados e o homem se coloca como medida absoluta de todas as coisas. Ao mesmo tempo, cresce também a sede espiritual, a busca pela verdade e o desejo de reencontrar sentido em meio ao vazio existencial moderno.


Por isso, refletir sobre a Cidade de Deus e a Cidade dos Homens não é apenas um exercício intelectual ou histórico. Trata-se de uma análise concreta da nossa própria vida. Estamos construindo uma existência centrada em Deus ou em nós mesmos? Nossas escolhas aproximam nossa família, nossa comunidade e nossa sociedade do Evangelho ou apenas reforçam a lógica do egoísmo, da divisão e da superficialidade?


No fim, a grande questão levantada por Agostinho continua atual e decisiva para cada cristão: qual construção estamos priorizando?

 

A mídia, muitas vezes, banaliza coisas abomináveis, e supervaloriza as supérfluas!



Assim, a tolerância com coisas intoleráveis passa a ser nosso padrão de conduta. 



-Contentamo-nos as vezes, apenas em rezar, pregar, exortar interna e externamente sobre o assunto, mas nunca partimos para uma ação concreta. Ou ainda quando agimos, fazemos isso isoladamente, tranquilizando nossa consciência achando assim que “fiz minha parte”. 



-Antes não entedia bem a atitude de Jesus ao pegar no chicote, mas hoje dou graças a Deus, por ter percebido esta diferença entre a verdadeira paz pregada por nosso Senhor Jesus Cristo e o falso e "covarde pacifismo". 


Não podemos ficar nos escondendo atrás de uma mansidão que só revela covardia, enquanto milhares de inocentes pagam com suas vidas destroçadas de todas as formas. Uma teologia e práxis evangélica inteligente e coerente com os princípios Cristãos nos leva uma outra realidade que conduz à transformação de nossas mentes e ao inconformismo com esse mundo ilusório. 



E somente bem organizados e avançando compactados como um exército em ordem de batalha, é que conseguiremos agir eficazmente contra os ataques frontais aos valores Cristãos, que estão se alastrando pelo mundo, no qual nós que trazemos o nome de Cristãos ficamos perdendo espaços para o inimigo, aos quais precisamos urgentemente reconquistar palmo a palmo, como nos diz Moysés nosso fundador nos escritos Shalom, no histórico 1984, Nº6. 


O homem contemporâneo busca a paz, fecha-se em altos muros para não a perder, faz caminhadas pela paz, movimentos em vista dela. A palavra PAZ talvez seja hoje uma das mais faladas. Com certeza, ela expressa a realidade mais buscada pelo homem do nosso tempo. No entanto, ele nunca esteve tão em guerra como agora: o ódio se alastra, a violência e divisão se multiplica, o homem morre, vítima de si mesmo e do seu pecado.

 

 

 


 

“É aí que se manifesta o desígnio de Deus para a nossa vocação. Em um mundo marcado pelo pecado, ‘que errou bastante acerca do conhecimento de Deus, onde reinam tantos males, o ocultismo, a não conservação da pureza nem na vida nem no matrimônio, a impureza, o adultério, sangue, crime, roubo, fraude, corrupção, deslealdade, revolta, perjúrio, perseguição dos bons, esquecimento da gratidão, impureza das almas, inversão sexual, desordens no casamento, despudor e etc, e ainda se diz em paz’ (Sb 14,22-26); o Senhor nos chama a sermos anunciadores da sua paz (Is 52), a vivermos e proclamarmos a sua Paz. A levarmos com a nossa vida, com a nossa palavra e com o nosso testemunho, o Shalom de Deus aos corações; a sermos instrumentos de reconciliação do mundo com Deus; a anunciarmos com todo o nosso coração, com todas as nossas forças a salvação de Jesus Cristo e o seu Evangelho” (RVSh, 359)

 

 


 

“Paz para nós é sinônimo de conversão, de vida nova em Cristo. Não é, portanto, somente uma conquista do homem, uma ausência de guerra ou a implantação de uma “justiça humana” sobre a terra. A paz é fruto da presença do Cristo Ressuscitado em nosso meio. Como aos apóstolos (cf. Jo 20,19-21), Ele nos comunica a salvação e nos ensina a anunciá-la e ministrá-la aos homens do nosso tempo. Enquanto os homens procurarem a sua paz e a sua salvação em si próprios; enquanto acharem que podem resolver os problemas do mundo por si mesmos; enquanto pensarem que podem instalar uma paz social e política e assim trazer a felicidade geral ao mundo, sem a conversão dos corações a Jesus; sem conhecê-lo como a solução, a salvação para todo o homem e para a humanidade, longe eles estarão da paz, do Shalom que Deus quer instaurar na face da terra” (RVSh, 357).

 

 

E isso torna-se cada vez mais claro no mundo de hoje, basta olharmos ao nosso redor. A Comunidade Católica Shalom, impulsionada pelo Espírito Santo e diariamente alimentada pela oração, sente brotar em seu seio o ardente apelo de Deus para que seja saciada a sede do seu povo. Cada irmão que livremente se consagra a Deus na nossa Comunidade, sabe que entregou a sua vida em vista dessa causa, da implantação da verdadeira Paz nos corações e no mundo. O Senhor nos constitui, assim, como soldados que, incansavelmente, lutarão pela paz através do anúncio, da doação de suas vidas e do testemunho coerente do Evangelho. 


-Reconquistando palmo-a-palmo os espaços perdidos para o inimigo de Deus - Escritos Shalom, histórico 1984, Nº6

 

-“Para instaurar a Paz nos corações e no mundo o Senhor nos chama a anunciar Jesus Cristo e a formar autênticos filhos de Deus” (RVSh, 360).

 

-“É preciso reconciliar o coração do homem com o próprio homem, reconciliar o coração do homem com a natureza e com as coisas. Somente pelo poder do Espírito Santo isto pode ser realizado. É necessário ensinar os homens a orar, a se voltarem para o Senhor. É necessário estabelecer o amor de Deus nos lares, nas famílias, nos relacionamentos, nas profissões, na sociedade, no mundo! É necessário estabelecer a paz, mas tudo isto só acontece quando recebemos Jesus no coração. ‘Homem, converte-te ao Senhor Jesus e encontrarás a Paz que tanto buscas!’” (RVSh, 367).

 

 

-Reconciliar e construir a paz. Esta é a missão que recebem. Hoje, o que mais faz falta é a paz: refazer os pedaços da vida, reconstruir as relações quebradas entre as pessoas, restabelecendo a inteireza pessoal e comunitária. As pessoas que lutam pela paz são declaradas felizes e são chamadas filhos e filhas de Deus (Mt 5,9). 



Nos primeiros capítulos do livro de Gênesis vemos o registro da edificação  das primeiras cidades quando lemos: “Caim edificou uma cidade e lhe chamou Enoque, o nome de seu filho.” (Gn 4,17)

 

 

Esta geração é identificada na Bíblia como a geração dos “Filhos dos Homens”. Uma geração ímpia que pela graça comum se destacava por serem os primeiros engenheiros na edificação de cidades (4,17), na construção civil: edificação de tendas (4.20), na agropecuária: criação de gado (4,20), esta geração desenvolveu a música e a criação de instrumentos musicais como harpa e a flauta (4,21), foram também artesões dominando técnicas para o uso do bronze e do ferro (4,22). 


Estes “Filhos dos Homens” edificavam a “Cidade dos Homens”.  E assim como hoje, apesar de todo o conhecimento e desenvolvimento humano, esta geração vive de maneira autônoma de Deus, espiritualmente confusos e caminham distantes e afastados de Deus. Mas paralelamente lemos que neste mesmo mundo se desenvolve uma outra geração, a dos “Filhos de Deus”. 


No lugar de Abel Deus concede um novo representante chamado Sete e depois Enos. Esta geração é a dos que invocam o nome de Deus (4,26). Estas duas gerações vivem juntas, mas seguem destinos bem diferentes:

 

 

“Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, pois eles não são do mundo, como eu também não sou. Não rogo que os tires do mundo, mas que os protejas do Maligno. Eles não são do mundo, como eu também não sou. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como me enviaste ao mundo, eu os enviei ao mundo. Em favor deles eu me santifico, para que também eles sejam santificados pela verdade...”  (João 17,14-19)

 

 

Vivem no mesmo mundo mas de forma bem diferente. Santo Agostinho, definindo o conceito de cidade em sua obra diz: “Civitas, concors hominum multitudo”. (Epist., Olim LII.). 


Cidade é a reunião dos homens em comunhão de coração, ou, em outros termos, cujos corações se possuem do mesmo amor. Os homens são unidos ou desunidos em função do amor. Dois homens que compartilhem o mesmo amor estão unidos; dois outros que o não compartilhem, estão desunidos. Uma é natural e a outra é espiritual.  Uma ama a si mesmo até o desprezo de Deus, e a outra ama a Deus até ao desprezo de si mesmo.

 

 

Os “Filhos de Deus” tem um grande desafio!

 

 

Estender as fronteiras da “Cidade de Deus”, alargar a tenda sobrepondo assim a “Cidade dos Homens”. Esta é a etapa do processo evangelizador de conquista da “alma da cidade” que se cumpre na vida de cada comunidade Cristã, e na vida de cada filho de Deus na medida que levamos a graça transformadora de Deus aos “Filhos dos Homens”, transformando  a cidade que habitamos. 


Cada cidade tem sua identidade, sua história, seus dilemas. Deus se compadeceu de Nínive que se arrependeu e atendeu à mensagem transformadora que lhe foi enviada. Por outro lado as cidades de Sodoma e Gomorra foram destruídas.

 

 

Jesus caminhava pregando o Reino de Deus de “cidade em cidade”

 



“Havendo passado esses acontecimentos, caminhava Jesus por todos os povoados e cidades proclamando as boas novas do Reino de Deus, e os Doze estavam com Ele.” (Lucas 8,1)

 

 

O que é Evangelizar para a Igreja?

 

 

 

“Evangelizar, para a Igreja, é levar a Boa Nova a todas as parcelas da humanidade, mas para a Igreja não se trata tanto de pregar o Evangelho a espaços geográficos cada vez mais vastos ou populações maiores em dimensões de massa, mas de chegar a atingir e como que a modificar pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da salvação.” (Evangelii Nuntiandi Nº 18-19. Papa Paulo VI)

 

 

 

Jesus, os apóstolos, enfim, a Igreja, almejavam alcançar determinadas cidades com a mensagem do Evangelho. Durante a história do Cristianismo muitas cidades foram transformadas com a mensagem do Evangelho. Quando uma igreja nasce em uma determinada cidade, ela nasce com um propósito que brotou primeiramente no coração de Deus. A missão da igreja é alcançar a cidade, testemunhar o amor e a graça de Deus aos habitantes desta cidade e progressivamente cumprir sua “Missão evangelizadora” como mater e magistra, anunciando e estendendo sua mensagem redentora alcançando outros povos até os “confins da terra”, como lemos em Atos dos Apóstolos: 


“E sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra.” (Atos 1,8. 




A Paixão de Jesus pelas cidades deve também, nos contagiar, pois já em seu tempo, era na cidade que se concentrava o maior número de pessoas, e foi na cidade que Jesus desenvolveu o Seu ministério!

 

 

-A Bíblia registra dois momentos em que Jesus chorou: no enterro de Lázaro e sobre uma cidade: Jerusalém. Do indivíduo para o grupo, da família para toda a cidade! A salvação do homem todo e de todos os homens! Devemos pensar individualmente, em cada família da cidade, mas devemos pensar também coletivamente em toda a nossa cidade onde Deus nos colocou como missionário. Jesus chorou por Jerusalém e creio que a igreja deve chorar, lamentar, interceder e cumprir sua missão evangelizadora. 



-A Paixão de Cristo deve gerar compaixão em nós pelas pessoas e almas perdidas da nossa cidade. “Ai de mim se não evangelizar” (1 Cor 9,16). Lembrando todavia que, a motivação da nossa missão não é um amor humanista, utópico, ideológico, altruísta e quase meritório como muitas vezes vemos, mas sim, o próprio amor de Deus que foi derramado em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado. 



(foto reprodução)



O amor de Cristo deve nos constranger a amar os perdidos, feridos, cativos e oprimidos por toda espécie de mazelas físicas, psíquicas, sociais e espirituais. Não podemos priorizar uma dimensão pastoral prescindindo das outras.




Por amor a Deus é que uma igreja deve amar e pastorear sua cidade sem escolher as ovelhas de sua preferência e simpatias

 


A missão da Igreja nunca foi construir grupos fechados, seleções humanas ou comunidades baseadas apenas em afinidades pessoais, sociais ou ideológicas. A verdadeira Igreja de Cristo é chamada a amar e pastorear toda a cidade, todos os povos e todas as pessoas, porque sua motivação principal não deve ser a simpatia humana, mas o amor a Deus. 


Quando uma comunidade cristã ama apenas aqueles com quem possui afinidade, concordância ou proximidade, corre o risco de transformar o Evangelho em um projeto humano seletivo, esquecendo que Cristo veio justamente para buscar os afastados, os feridos, os pecadores e os marginalizados.


Jesus Cristo nunca escolheu amar apenas os mais agradáveis, os mais santos aos olhos humanos ou os mais fáceis de conviver. Pelo contrário, aproximava-se daqueles que eram rejeitados pela sociedade, sentava-se à mesa com pecadores, acolhia os pobres, os doentes, os estrangeiros e até aqueles considerados indignos pela religião de sua época. O Bom Pastor não conduz apenas as ovelhas dóceis ou semelhantes entre si; Ele vai atrás também da ovelha perdida, daquela que se afastou, daquela que ninguém mais quis procurar.


Por isso, uma Igreja verdadeiramente centrada na Cidade de Deus não pode agir movida por preferências pessoais, favoritismos ou simpatias seletivas. Seu amor deve ser universal, porque nasce do coração de Deus. Pastorear uma cidade significa olhar para ela com os olhos de Cristo: enxergar não apenas os membros mais ativos ou mais próximos, mas também os esquecidos, os pobres, os feridos emocionalmente, os jovens sem direção, as famílias destruídas, os que perderam a fé e até aqueles que criticam ou resistem à própria Igreja.


Quando uma comunidade escolhe apenas “suas ovelhas preferidas”, ela deixa de refletir plenamente o Evangelho e corre o risco de criar divisões, panelas espirituais e ambientes de exclusão. O amor cristão autêntico não funciona pela lógica da preferência humana, mas pela lógica da cruz. Cristo morreu por todos. Portanto, ninguém pode ser considerado indigno de cuidado pastoral, atenção, escuta e acolhimento.


Isso não significa relativizar a verdade ou abandonar a correção fraterna, mas compreender que o pastoreio cristão deve ser exercido com misericórdia, paciência e caridade. Nem todos chegarão à Igreja prontos, maduros ou plenamente convertidos. Muitos carregam feridas profundas, histórias difíceis, revoltas, pecados e limitações. O papel da Igreja não é selecionar os perfeitos, mas conduzir todos ao encontro transformador com Deus.


 



Uma cidade só pode ser verdadeiramente evangelizada quando a Igreja aprende a sair de si mesma. Quando deixa de viver apenas para seus grupos internos, disputas, preferências e comodidades, e passa a enxergar sua missão maior: ser sinal do amor de Deus no meio do povo. A Igreja deve amar sua cidade não porque todas as pessoas correspondem às suas expectativas, mas porque Deus ama aquela cidade. Deve interceder por ela, servir nela, sofrer com ela e caminhar junto de seu povo.


Quanto mais uma comunidade vive para Deus, menos ela seleciona pessoas por aparência, posição social, ideologia, influência ou simpatia pessoal. E quanto mais se distancia de Deus, mais tende a construir pequenos círculos fechados de afinidades humanas. A Cidade de Deus se constrói quando a Igreja compreende que cada pessoa, mesmo em sua fragilidade, possui dignidade e valor diante do Pai.


Pastorear uma cidade é carregar no coração o mesmo desejo de Cristo: que ninguém se perca. É amar sem parcialidade, acolher sem elitismo espiritual e servir sem buscar reconhecimento. Porque no Reino de Deus, o verdadeiro pastor não escolhe quais ovelhas merecem cuidado; ele ama todas porque pertencem ao Senhor.



 Foi dito para Pedro:


“Tu me amas? Então apascenta as minhas ovelhas!” Hoje ainda é dito à igreja: “Tu me amas? Então apascenta as minhas ovelhas!” (João 21,15-17).

 

 

Lembrando que ainda há muitas outras ovelhas que não estão neste aprisco!







Logo, uma “igreja que não tem compaixão pelas ovelhas e cordeiros de sua cidade, é uma igreja que ainda não experimentou a Paixão de Cristo”



O problema de uma igreja que não cumpre a sua Missão, não é um problema primeiramente de estratégia, metodologia, falta de recursos, etc.; mas o real problema desta igreja é a falta de amor à Deus! 


Já somos mais de sete bilhões de pessoas no planeta, sendo que a grande maioria vive nas cidades (média de 80%). Muitos ainda vivem sem experimentar o amor e a graça transformadora de Deus.Estão construindo a “Cidade dos Homens” sem conhecer a “Cidade de Deus”, é tempo de apaixonamento e aderir ao projeto de Jesus, não aos nossos projetos falhos.

 

 

São Tomás de Aquino responde: Art. 4 ― "Se o amor próprio é o princípio de todo o pecado"

 

 

(Infra, q. 84, a. 2, ad 3 ; IIª-IIªª, q. 25, a. 7, ad 1 ; q. 153, a. 5, ad 3 ; II Sent., dist. XLII, q. 2, a. 1; De Malo, q. 8, a. 1, ad 19)

 

Art. 3 ― Se o pecado causado pela paixão, deve ser tido como causado pela fraqueza.acima

 

Art. 5 ― Se se consideram convenientemente como causas dos pecados a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida.

 

 

O quarto discute-se assim. ― Parece que o amor próprio não é o princípio de todo pecado.

 

1. ― Pois, o em si mesmo bom e devido não pode ser causa própria do pecado. Ora, o amor próprio é, em si mesmo, bom e devido; por isso nos foi preceituado amarmos ao próximo como a nós mesmos (Lv 19, 18). Logo, o amor de si mesmo não pode ser causa própria do pecado.

 

2. Demais. ― O Apóstolo diz (Rm 7, 8): E o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, obrou em mim toda a concupiscência; ao que diz a Glosa: é boa a lei que, coarctando a concupiscência, elimina todo mal; o assim o diz porque a concupiscência é causa de todos os pecados. Ora, a concupiscência é uma paixão diferente do amor, como já antes se estabeleceu (q. 23, a. 4). Logo, o amor próprio não é causa total do pecado.

 

3. Demais. Agostinho, sobre aquilo da Escritura (Sl 79) ― Ela foi queimada a fogo e escavada ―diz, que todo pecado provém do amor que perniciosamente inflama, ou do temor que perniciosamente humilhe. Logo, só o amor próprio é causa do pecado.

 

4. Demais ― Assim como às vezes pecamos pelo desordenado amor de nós mesmos, assim também, outras, pelo amor desordenado do próximo. Logo, o amor próprio não é causa de todos os pecados.

 

Mas, em contrário, diz Agostinho, que o amor de si, até o desprezo de Deus, constitui a cidade de Babilônia (XIX De civit. Dei - cap. XXVIII). Ora, por qualquer pecado ficamos pertencendo à cidade de Babilônia. Logo, o amor próprio é a causa de todo pecado.

 

 

 

SOLUÇÃO. ― Como já se disse (q. 75, a. 1), a causa própria e essencial do pecado deve buscar-se na conversão para um bem mutável; donde procede que todo ato pecaminoso resulta do desejo desordenado de algum bem temporal. E é por nos amarmos desordenadamente a nós mesmos que também desordenadamente desejamos os bens temporais; pois, amar alguém é querer-lhe bem. Por onde e manifestamente, o amor desordenado de si é a causa de todo pecado.

 

 

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ― O amor próprio ordenado é devido e natural, no sentido de querermos para nós o bem que nos cabe. Ao passo que o amor próprio desordenado, causa desprezo de Deus, é considerado, segundo Agostinho, causa do pecado.

 

 

RESPOSTA À SEGUNDA. ― A concupiscência pela qual desejamos o bem se reduz ao amor próprio como à causa, segundo já se disse.

 

 

RESPOSTA À TERCEIRA. ― O amor se refere não só ao bem que para nós desejamos, como a nós mesmos, a quem o deseja.Por onde, o amor, considerado como referente ao que desejamos, ― p. ex., o amor do vinho ou do dinheiro ― tem como causa o temor relativo à fuga do mal. Pois, todo pecado provém ou do desejo desordenado de algum bem, ou de fuga desordenada de algum mal. Ora, esta e aquele se reduzem ao amor próprio, pois é por se amar a si próprio que o homem deseja os bens ou foge dos males.

 

 

RESPOSTA À QUARTA ― O amigo é um quase outro eu. E assim, considera-se que, quando pecamos por amor de um amigo, por amor de nós mesmos o fazemos.

 

 

 

O amor próprio: "o maior impedimento à vida de Cristo em nós"

 

 


O inimigo máximo da vida interior, segundo os autores espirituais, não é o mundo com suas tentações, nem o demônio com suas insídias, mas o amor desordenado de si mesmo; pois se não existisse em nós este amor, as tentações do mundo e as insídias do demônio seriam facilmente vencidas; no entanto, encontram um cúmplice neste amor desordenado.

 



Com a doutrina de S. Tomás, exposta na Suma Teológica [Ia IIae q. 77 e 84), vejamos de modo concreto e prático:

 

 

1)-Como o amor desordenado de si mesmo se opõe ao amor de Deus e não raro o destrói?

 

 

2)-Como o amor desordenado de si mesmo permanece latente mesmo nos melhores católicos?

 

 

3)-Que devemos pensar dos subterfúgios do amor próprio?

 

 

4)-Como se pode eficazmente combater este amor próprio? 1

 

 

DESDOBRAMENTO DAS QUESTÕES PROBLEMA

 

 

 

1)-Como o amor desordenado de si mesmo se opõe ao amor de Deus e, não raro, o destrói?

 

 

 

Este amor desordenado é muito insidioso e variado. Primeiro porque esconde-se sob outros nomes, como honra, zelo do bom nome ou da própria dignidade; diz, p. ex., «o homem ama-se naturalmente, assim como o anjo se ama a si mesmo; quer para si o bem e nisto não há desordem. Sobretudo, pela caridade sobrenatural, devemos amar-nos a nós mesmo ainda mais que ao próximo». Mas o amor próprio desordenado não diz que, tanto na ordem natural, quanto na ordem sobrenatural, o amor de nós mesmos deve ser subordinado ao amor de Deus, autor da natureza e da graça. E se nos move a considerar esta subordinação, isto ocorre somente de modo teórico e abstrato, nunca de modo prático e concreto. Assim, implícita e realmente, acabamos buscando demasiadamente nosso próprio interesse.Por conseqüência, o amor de si mesmo torna-se, pouco a pouco, desordenado; é isto uma seqüela do pecado original. Ora, o batismo nos apaga este pecado da natureza, mas permanece nos batizados essa ferida como uma espécie de cicatriz que, por vezes, se abre por causa de nossos pecados pessoais. Por isso, o amor próprio desordenado pode, pouco a pouco, instaurar a desordem em quase todos nossos atos, mesmo nos mais altos, se não os fizermos por Deus, como deveríamos, mas pela satisfação de nosso apetite natural e, assim, paulatinamente, nossa vida interior é viciada e se impede a vida de Cristo em nós.É verdade que La Rochefoucauld, em seu livro «Les Maximes», e os jansenistas exageram esta inclinação; mas, sob este exagero, há algo de verdadeiro, algo de demasiado verdadeiro.Muitos cultivam em si mesmos não o amor de Deus, mas uma excessiva estima de si mesmos, das suas qualidades, procuram o louvor e a aprovação dos outros; não enxergam seus próprios defeitos mas, ao contrário, exageram os defeitos dos outros, como escritores de panfletos políticos: são, por vezes, severíssimos com os demais e extremamente indulgentes consigo mesmos.Seria então muito bom e salutar repetir a humilhação do salmista: «sois bom para mim, Senhor, pois me humilhastes». Este amor desordenado de si mesmo gera a soberba, a vaidade e, não raro, a concupiscência da carne e dos olhos e, destes, os pecados capitais, que nascem destas concupiscências, p. ex.: preguiça, gula, impureza, inveja, ira etc. Então se verifica a enorme oposição entre o amor de Deus e o amor desordenado de si mesmo, pois o verdadeiro amor de Deus procura o beneplácito de Deus, quer agradar a Deus, enquanto o amor desordenado de si mesmo procura a satisfação pessoal, mesmo não subordinada a Deus. O amor de Deus impele à generosidade, à tender verdadeira e praticamente à perfeição; o amor desordenado de si mesmo tende a evitar os incômodos, a abnegação, o trabalho, as fadigas.


O amor de Deus é, cada vez mais, sem o interesse próprio desordenado, julga que nunca faz o suficiente por Deus e pelas almas; o amor desordenado de si mesmo pensa que sempre faz demasiado por Deus e pelo próximo. O verdadeiro amor de Deus quer não apenas receber, mas também dar glória e honra a Deus pelo zelo apostólico. O amor desordenado de si  mesmo não quer dar, mas apenas receber; como se o homem fosse o centro do universo, tudo trazendo a si mesmo. Finalmente, o amor desordenado de si mesmo tende a destruição do amor de Deus e do próximo na nossa alma, e atinge este fim quando conduz ao pecado mortal e, sobretudo, ao pecado mortal reiterado, assim mais e mais aumenta a aversão a Deus e a conversão ao bem comutável e ao mal amor de si mesmo: assim pode, cada vez mais, viciar todas nossas inclinações, como ocorre com os “danados”. 


Por exemplo, no demônio é viciada mesmo a inclinação natural de amar a Deus, autor da natureza, acima de tudo, pois, nos danados, nasce desta inclinação o desejo desordenado de fruir de Deus, não por amor a Deus, mas pela gula espiritual desenfreada, pois faltam todos os outros bens e todas as outras satisfações. Esta oposição trágica entre o amor de Deus e o amor desordenado de si mesmo, é descrita por S. Agostinho pela oposição entre caridade e cupidez: 


No fim do livro 14 de A Cidade de Deus, cap. último, diz: «Dois amores fizeram duas cidades; o amor de Deus até o desprezo de si mesmo, fez a cidade de Deus e o amor de si mesmo até o desprezo de Deus, fez a cidade da Babilônia, ou da perdição.» S. Paulo dissera (1 Tm 6, 10): «A raiz de todos os males é a cupidez» ou o amor desordenado de si mesmo. Cf. S. Tomás, Suma Teológica Ia IIae, q. 77 e 84, sobre a tríplice raiz dos pecados capitais, pois da cupidez surge a soberba, a concupiscência da carne e a concupiscência dos olhos. Isto se verifica nos maus; e, de outro modo, nos justos imperfeitos 2.   

 

 

2)-Como o amor desordenado de si mesmo permanece de modo latente mesmo nos melhores católicos? 

 

 


S. Vicente de Paulo (como se lê na sua Vida, escrita por Domino Coste, I, 12; III, 300) narra um fato que lhe sucedeu quando estava no colégio: 


«Certo dia, disseram-me: "teu pai veio te ver" e, como meu pai era um pobre agricultor e um homem rude, não quis ir até ele para conversar; e antes, quando meu pai me conduzia à cidade, estava triste pela sua condição, e me envergonhava de meu pai». O mesmo santo, falando do tempo posterior da fundação da sua Congregação, diz: «Veio o filho do meu irmão me visitar no Colégio onde era superior e eu, considerando a situação muito modesta do meu sobrinho, que se vestia rudemente, ordenei que me fosse ele conduzido secretamente. Mas, imediatamente, mudei minha deliberação com a resolução de reparar este primeiro movimento de amor próprio, desci até o portão, e abracei meu sobrinho e, conduzindo-o pela mão pela sala comum onde estavam meus confrades, disse a eles: ´Eis a pessoa mais honorável de minha família´». 


Assim, S. Vicente de Paulo vencia seu amor próprio, e ainda temia que, nessa vitória, o amor próprio se escondesse sutilmente.

 

 

 

3)-Perigo que nasce das evasões e subterfúgios usados pelo amor próprio.

 



Por exemplo, a oração mental se vicia pelo excessivo desejo de consolações sensíveis, pela gula espiritual, pelo sentimentalismo. O sentimentalismo é, na sensibilidade, uma afetação de amor de Deus e do próximo que não existe suficientemente na vontade espiritual. Então, a alma procura a si mesma mais que a Deus. Donde, para tirar a alma desta imperfeição, Deus purifica a alma pela aridez da sensibilidade. 


Se, verdadeiramente, a alma nesta aridez não é suficientemente generosa, cai na preguiça espiritual, na tepidez e não mais tende suficientemente à perfeição. Igualmente, pelo amor desordenado de si mesmo se vicia o labor intelectual ou apostólico, pois nele buscamos satisfação pessoal, buscamos o louvor, mais do que Deus ou a salvação das almas. 


Assim, o pregador pode tornar-se estéril «como um bronze que soa ou um címbalo que tine». A alma se retarda, não é mais iniciante, não avança ao estado dos aproveitados, permanece uma alma retardada, como um menino que, por não crescer, não permanece menino, nem se faz adolescente ou um adulto normal, mas um homúnculo deforme. Ocorre algo similar na ordem espiritual e isto provém do amor próprio desordenado, do qual nasce a esterilidade da vida. 3

 

 

 

4)-Que se deve fazer contra este amor desordenado?

 

 

O processo de cura tem algumas etapas: Sintomatologia, que exige anamnese, exames, diagnóstico e terapia. Porém, nenhuma destas etapas são possíveis sem a adesão daquele que sofre querer submeter-se ao processo de cura. Temos de conhecer e lutar contra nosso defeito dominante para obter a vitória. O defeito dominante é como que uma caricatura da boa inclinação que deveria prevalecer, é como que o «outro lado da moeda». Daí surge o combate entre a boa e a má inclinação. 



A virtude e o vício oposto não podem existir simultaneamente em ato no mesmo sujeito, mas podem existir simultaneamente em potência; daí surge o combate em que prevalecerá ou a boa inclinação natural, sob a forma da virtude em ato, ou o defeito dominante, sob a forma do vício em ato. Quem você alimenta e prioriza, é quem vai prevalecer, pois assim está escrito:Salmos 37,4: "Deleita-te também no Senhor, e Ele te concederá os desejos do teu coração". Assim, o defeito dominante inicial é aquilo pelo qual alguma virtude degenera em um vício materialmente similar, mas formalmente contrário, por exemplo, a inclinação à humildade degenera em pusilanimidade, a inclinação à magnanimidade em soberba e ambição, a inclinação à fortaleza em amarga ironia e crueldade, inclinação à justiça em rigorismo, inclinação à mansidão e à misericórdia em debilidade. 



Isto compreende-se melhor quando se considera, por exemplo, que a humildade se opõe mais diretamente à soberba que a pusilanimidade, que, no entanto, também lhe é contrária, assim como a magnanimidade mais diretamente se opõe à pusilanimidade que à soberba. E estas duas virtudes são conexas, como dois arcos da mesma ogiva. 



Portanto, é necessário ver sob qual forma este amor próprio prevalece em nós, isto é, se sob a forma de soberba, ou de vaidade ou de preguiça, ou de sensualidade, ou de gula, ou de ira. Em outras palavras, é preciso saber qual é nosso defeito dominante, que se manifesta nos nossos pecados mais freqüentes e que oferece alimento a nossa fantasia. Em alguns a soberba, por exemplo, vence a irascibilidade para conservar a estima dos homens; em outros, a soberba é vencida pela preguiça e não cuida mais da estima alheia. Deve-se vigiar, portanto, para refrear o defeito dominante e isto com tenacidade e perseverança para adquirir o domínio de si mesmo, não pela estima dos outros, mas por Deus. Isto é sempre possível no nosso caminho, ainda que seja sempre árduo. 



Deus não pede o impossível, mas nos adverte a fazer tudo que podemos e pedir tudo que não podemos, e nos ajuda para que consigamos. 4 Outros homens não tem um defeito manifestamente dominante, mas o seu amor próprio se manifesta de diversos modos. 



O amor próprio deve ser combatido de diversos modos, eliminando-se o que o pode alimentar e agindo mais e mais por amor de Deus, para que o agrademos, primeiro nas coisas externas e obrigatórias e fáceis de se cumprir com espírito de fé; depois nas coisas interiores e difíceis, de modo que, paulatinamente, as três virtudes teológicas prevaleçam em nossa vida, com seus correlativos dons.


Nesta metódica luta, três coisas se exigem: pureza de intenção, abnegação progressiva, recolhimento habitual.

 

 

 

NOTAS DE REFERÊNCIAS

 

 


1. A pureza de intenção é de suma importância. Diz o Salvador [Lc 11, 34]: «O teu olho é a lucerna do teu corpo. Se o teu olho for puro, todo o teu corpo terá luz; se porém, for mau, também o teu corpo será tenebroso». S. Tomás comenta: «O olho significa a intenção. Ora, quem quer fazer algo, tem alguma intenção. Se tua intenção for luminosa, isto é, dirigida a Deus, todo teu corpo, ou seja, suas operações, serão luminosas». Isto se vê em todo bom católico e em todo bom prelado que guia bem o seu rebanho.Esta pureza de intenção deve ser mantida primeiro nas coisas mais fáceis e ordinárias. S. Bento formava seus religiosos, que não costumavam ser de grande cultura, dizendo-lhes: «fazei com intenção pura, em espírito de fé, esperança e amor de Deus, para agradar a Deus, todos os atos determinados na regra»; e os religiosos, conversos, fazendo com este espírito e com esta pureza de intenção os atos externos da vida religiosa, atingiam grande perfeição, união com Deus, uma grande santidade e uma perfeita vitória sobre o amor próprio desordenado; assim, faziam um grande bem ao próximo. Como se lê no Evangelho (Lc 16, 10): «O que é fiel no pouco, também é fiel no muito», e será mesmo no martírio. S. Agostinho também diz: «o mínimo é, em si mesmo, mínimo; mas ser sempre fiel, até nas coisas mínimas, isto é o máximo».Cf. escreveu um missionário de S. Vicente de Paulo, chamado Paolo Provera, no livro Diamoci a Dio, Torino, 1945, p. 89: «Il nemico più terribile. Si deve dare un buon colpo di bistori al nostro amore proprio.»

 

 

 

2. Deve-se manter uma abnegação progressiva, externa e interna, segundo aquilo: «Aquele que quer seguir-me, negue-se a si mesmo». Há de se praticar sempre que a ocasião se apresente, para que o amor de Deus e do próximo prevaleça sobre nosso desordenado amor próprio. Isto, que é necessário aos simples fiéis que aspirem à perfeição da caridade, expressa no primeiro preceito «amarás ao Senhor teu Deus com todo teu coração», segundo a condição de cada um, é ainda mais necessário ao sacerdote, sobretudo se tem almas sob seu cuidado. Freqüentemente, os homens agem prontamente e com grande energia para a satisfação da própria cupidez, soberba, vaidade; e lenta, tarda e indolentemente, com preguiça, à obrigação incômoda, ainda que seja uma grave responsabilidade para com Deus ou o próximo. Com efeito, grande é o poder do amor próprio desordenado, e se não laborarmos para a sua destruição, ele destruirá em nós o amor de Deus e do próximo.

 

 

 

3. O recolhimento habitual é necessário para conservar a união com Deus, não somente durante a celebração da Missa, confissões ou pregação da palavra divina, mas constantemente.(extrato de «De unione sacerdotis cum Christo Sacerdote et victima»). Cf. Mt 21, 19, sobre a figueira seca «Vendo uma figueira junto do caminho, aproximou-se dela, e não encontrou nela senão folhas, e disse-lhe: Nunca mais nasça fruto de ti. E, imediatamente, secou a figueira». S. Tomás comenta: «Cristo visitou a Judéia. Esta tinha folhas, ou seja, a observância da lei, mas não tinha fruto. Do mesmo modo, algumas pessoas tem aspecto de honestidade, no entanto são más e perversas no interior... E veio a maldição para que Cristo mostrasse que a Judéia seria estéril no futuro, assim como se lê em Rm 9. Assim, por vez ocorre que a algumas pessoas, más no coração, virtuosas no exterior, o Senhor as faz secas, para que não corrompam os demais» [In Matth. XXI, 19]. E isto, Deus faz por amor às almas, para sua salvação.

 

 

4.      4.Cf. S. Agostinho (De natura et gratia, c. 43, n. 50), citado pelo Concílio de Trento (Denz. 804).

 


Fonte: Ascética e Mística - Garrigou-Lagrange, Réginald , O.P.

 

 


CONCLUSÃO


A conclusão do pensamento de Santo Agostinho de Hipona sobre a Cidade de Deus e a Cidade dos Homens nos conduz inevitavelmente a uma reflexão profunda sobre o modo como estamos vivendo nossos relacionamentos, nossas escolhas e até mesmo a maneira como enxergamos a nós mesmos.



Quando o homem passa a viver excessivamente voltado para si mesmo, fechado em seus próprios interesses, emoções e desejos, acaba construindo dentro de si uma pequena “cidade dos homens”, marcada pelo egoísmo, pela autossuficiência e pela incapacidade de acolher verdadeiramente o próximo. O coração se fecha, as relações se tornam superficiais e seletivas, e começamos a valorizar as pessoas não pelo que são diante de Deus, mas pelo quanto correspondem aos nossos gostos, ideias ou conveniências.


Assim, surgem amizades elitizadas, relações baseadas apenas em afinidades humanas e exclusões silenciosas daqueles que pensam diferente, possuem limitações, carregam feridas ou simplesmente não se encaixam no nosso “conceito ideal” de vida. 


Quando o amor próprio deixa de ser iluminado por Deus, ele facilmente se transforma em amor desordenado de si mesmo, gerando orgulho, vaidade espiritual e até indiferença para com os outros.


 


 

 

O verdadeiro amor próprio, porém, nasce em Deus e conduz a Deus. Não é um amor egoísta nem narcisista, mas um reconhecimento humilde da própria identidade como criatura amada pelo Pai. Somente Deus pode revelar plenamente quem somos, de onde viemos e para onde caminhamos. Fora d’Ele, nossa identidade se fragmenta entre aparências, máscaras e desejos passageiros. Em Deus, ao contrário, aprendemos a nos conhecer com verdade, sem ilusões e sem desespero.


Quando me deixo olhar por Deus, começo a compreender minhas fraquezas, limitações e misérias, mas sem me aprisionar nelas. Reconheço minhas quedas, porém também descubro que a graça divina é maior que minhas fragilidades. Por isso, o cristão não vive preso ao passado nem paralisado pelos próprios erros, mas segue adiante com esperança, como ensina São Paulo Apóstolo:


“Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus.” (Filipenses 3, 13-14).


Quem vive apenas um amor fechado em si mesmo dificilmente conseguirá acolher o outro em suas fraquezas. Muitas vezes, aquilo que mais criticamos nos outros é justamente aquilo que não queremos enxergar em nós mesmos. O orgulho impede a compaixão. A autossuficiência destrói a misericórdia. Já aquele que conhece a própria pobreza espiritual passa a olhar o próximo com mais paciência, compreensão e caridade.


É justamente nesse ponto que a Cidade de Deus começa a ser construída dentro do coração humano: quando deixamos de viver para exaltar o próprio ego e passamos a viver para amar, servir e caminhar com os outros. O homem não foi criado para ser uma ilha isolada, mas para viver em comunhão. Mesmo com diferenças culturais, sociais e pessoais, somos um só povo, filhos de um mesmo Pai celeste.


O amor próprio autêntico não fecha portas; ele abre caminhos. Não cria muros de orgulho, mas pontes de acolhimento. Não consiste em fingir quem não somos nem esconder nossas feridas, mas em aceitar com verdade aquilo que Deus criou em nós. Amar-se corretamente é reconhecer-se como imagem e semelhança de Deus: homem ou mulher chamados à santidade, capazes de amar, perdoar, levantar quem caiu e ajudar quem sofre.


Por isso, quanto mais próximos estamos de Deus, mais humanos nos tornamos. Mais compreensivos, mais misericordiosos e mais livres do egoísmo. O amor próprio saudável não alimenta uma personalidade narcisista nem uma falsa sensação de domínio absoluto sobre tudo. Pelo contrário, ele nos faz reconhecer diariamente nossa necessidade de Deus e do próximo.


No fim, a grande escolha permanece diante de cada um de nós: construir uma vida centrada apenas no próprio ego — a cidade dos homens — ou colaborar, com humildade e amor, para a edificação da Cidade de Deus.


 

*Francisco José Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº  003/17


 

BIBLIOGRAFIA

 

 

-DIAS, Gabriela. Pescadores de Homens: evangelizar com ousadia. Aquiraz: Edições Shalom, 2015.

 

-FREUD, Sigmund. O Futuro de uma Ilusão. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

 

-GABRIEL, Eduardo. A expansão internacional do catolicismo carismático brasileiro. Análise Social, vol 14, n. 1, São Paulo, 2009

 

-HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Lamparina, 2014.

 

-JOÂO PAULO II. Vita Consecrata (Documento). 1984.

 

-NICOLAU, Rosane Freitas. Os sentidos da Comunidade Católica Shalom entre os carismáticos de Fortaleza. Revista de Ciências Sociais, v.37, n.1, Fortaleza, 2006.

 

-NOGUEIRA, Maria Emmir Oquendo. Estudo Sobre o Escrito Amor Esponsal. 5.ed. Aquiraz, 2012.

________________. Obra Nova: caminho de e para a felicidade. 3.ed. Aquiraz: Edições Shalom, 2010a.

 ________________. Belo é o amor humano: discernimento e vivência das formas de vida na Comunidade Católica Shalom. 2.ed. Aquiraz: Edições Shalom, 2010b.

________________. Carisma de Fundação. São Paulo: Shalom, 1998.

 

-RANAGHAN, Kevin . Católicos Pentecostais. Pindamonhangada/SP: O.S.Boyer, 1972.

 

-RATZINGER, Joseph (cardeal). A fé em crise? O Cardeal Ratzinger se interroga. São Paulo: Ed. E.P.U., 1985.

 

-SUENENS, L. J. O cardeal Suenens opina sobre a Renovação Carismática. In: ALDUNATE, C. et al. A experiência de Pentecostes. A Renovação Carismática na Igreja Católica. 5. ed. São Paulo: Edições Loyola, 1986.

 

-AZEVEDO, Moysés Louro de. Vós, quem dizeis que eu sou? – incluindo testemunho de vida do autor. 5.ed. Aquiraz, CE: Edições Shalom, 2011.

_____________. Escritos: Comunidade Católica Shalom. 6.ed. Fortaleza, 2012.

______________. O Jubileu é sempre um “tempo de graça”. Shalom Maná, n.169, jul-ago. 2007, Fortaleza, pp 4-23.

______________. Vocação Shalom – Um pouco de nossa história (II Parte). Revista Shalom Maná, n.165, 2007

 

-COMUNIDADE CATÓLICA SHALOM. Estatutos. Edições Shalom: Aquiraz, 2012.

 

-CONCÍLIO, Ecumenico Vaticano II. Constituição pastoral gaudium et spes. Petropólis, RJ: Vozes, 1966.

 



------------------------------------------------------

 

 


🙏 Faça parte de nosso “Apostolado Virtual de Fé e Formação” Segura! Compartilha e siga-nos em nossas Redes Sociais abaixo:

👉  Clique aqui para seguir o Blog Berakash e receber atualizações

👉  Clique aqui e siga nosso canal no YouTube

👉  Siga o canal "Evangelho Cotidiano" no WhatsApp:

https://whatsapp.com/channel/0029Vaj6GhP6buMR1cyUUN0S

👉  Siga e assine nossa página de Cursos e Aprofundamentos no Instagran (@teologia.leigos1):

https://www.instagram.com/teologia.leigos1/


Curta este artigo :

Postar um comentário

Todos os comentários publicados não significam nossa adesão às ideias nelas contidas.O blog oferece o DIREITO DE RESPOSTA a quem se sentir ofendido(a).Os comentários serão analisados criteriosamente e poderão ser ignorados e ou, excluídos se ofensivos a honra.

TRANSLATE

QUEM SOU EU?

Minha foto
CIDADÃO DO MUNDO, NORDESTINO COM ORGULHO, Brazil
Blog formativo e apologético inspirado em 1Pd 3,15. Aqui você não vai encontrar matérias sentimentalóides para suprir carências afetivas, mas sim formações seguras, baseadas no tripé da Igreja, que deem firmeza à sua caminhada cristã rumo à libertação integral e à sua salvação. Somos apenas o jumentinho que leva Cristo e sua verdade aos povos, proclamando que Ele é “o caminho, a verdade e a vida” (João 14,6), e que sua Igreja é a coluna e o sustentáculo da verdade (1Tm 3,15). Nossa Missão: promover a educação integral da pessoa, unindo fé, razão e cultura; fortalecer famílias e comunidades por meio da formação espiritual e intelectual; proclamar a verdade revelada por Cristo e confiada à Igreja, mostrando que fé e razão caminham juntas, em defesa da verdade contra ideologias que nos afastam de Deus. Rejeitamos um “deus” meramente sentimental e anunciamos o Deus verdadeiro revelado em Jesus Cristo: Misericordioso e Justo o qual ama o pecador, mas odeia o pecado que destrói seus filhos. Nosso lema é o do salmista: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome daí glória” (Sl 115,1).

📲Fortaleça sua fé e consciência — siga e receba as atualizações!

POSTAGENS MAIS LIDAS

TOTAL DE ACESSOS NO MÊS

ÚLTIMOS 5 COMENTÁRIOS

"CONSAGRADOS A JESUS" PELAS MÃOS DE MARIA SANTÍSSIMA

"CONSAGRADOS A JESUS" PELAS MÃOS DE MARIA SANTÍSSIMA
 
Support : Creating Website | Johny Template | Mas Template
Copyright © 2013. O BERAKÁ - All Rights Reserved
Template Created by Creating Website Published by Mas Template
Proudly powered by Blogger