(foto reprodução)
A frase não é montagem, nem invenção de adversários políticos. Em entrevista à Folha de S.Paulo, em 2009, Lula afirmou, ao defender a necessidade de coalizões políticas:
“Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão.”
Agora imagine, por um instante, se fosse Jair Bolsonaro quem dissesse algo semelhante envolvendo Jesus Cristo e Judas.
-Quantas manchetes teríamos? Quantos comentaristas indignados? Incluindo a ala comunista e progressista da CNBB, que só encherga com o olho esquerdo?
-Quantos discursos sobre “ataque à fé”, “fundamentalismo” e “instrumentalização da religião”?
-Quantas acusações de que Bolsonaro estaria usando o nome de Cristo de maneira ofensiva?
É justamente aí que aparece a velha indignação seletiva:
Para determinados setores da esquerda, uma frase só é escandalosa dependendo de quem a pronuncia.
E não estou dizendo que devemos transformar toda declaração política em escândalo religioso. Pelo contrário: devemos aplicar a mesma régua para todos. Se uma fala é considerada ofensiva, inadequada ou teologicamente absurda quando dita por um adversário, deve receber a mesma avaliação quando sai da boca de um aliado.
E vale lembrar que, na época, a declaração de Lula não passou despercebida: provocou críticas de oposicionistas e até reação da ala moderada da CNBB. Dom Dimas Lara Barbosa observou que "Cristo acolheu pecadores, mas não fez alianças com aqueles que aparentavam uma coisa por fora e eram outra por dentro" - Jesus propôs a conversão e mudança de vida, e não a padronização do farisaísmo.
Politicamente, Lula estava defendendo o pragmatismo das coalizões. Mas, do ponto de vista cristão, a comparação é no mínimo bastante questionável:
Jesus não veio ao mundo para conquistar maioria parlamentar nem para negociar princípios em troca de governabilidade.
O problema não é Lula ter dito isso. O problema seria fingir que a mesma frase seria tratada da mesma maneira se tivesse sido pronunciada por Bolsonaro.
Indignação verdadeira não escolhe partido, ideologia ou candidato. Ou a régua vale para todos, ou não é justiça: é apenas conveniência política.
SEGUEM OS PRINCIPAIS TRECHOS DA ENTREVISTA:
FOLHA UOL - O sr. apoiou Sarney,
reatou com Collor, é amigo de Renan Calheiros, de Jader Barbalho e recebeu
Delúbio Soares recentemente na Granja do Torto. Todos são acusados de práticas atrasadas na política e até de
corrupção. Ao se aproximar dessas figuras, não transmite ideia de tolerância
com desvios éticos?
LULA -
O dia em que você for acusado, justa ou injustamente, enquanto não for julgado, terá de
ser tratado como cidadão normal. Não tenho relações de amizade, mas
institucionais.
FOLHA UOL - O cidadão o vê abraçado
com essas figuras...
LULA
- O cidadão tem
de saber que eles foram eleitos democraticamente. E o eleitor dessas pessoas é
tão bom quanto elas.
FOLHA UOL - Seu aliado Ciro Gomes, diz que há "frouxidão moral"
na hegemonia da aliança entre PT e PMDB, da qual o sr. é o principal
avalista. Como o sr. responde?
LULA
- A aliança com o PMDB e os demais partidos
permitiu governança muito tranquila. Se confirmada a aliança, será feito documento público para saber os
compromissos assumidos.
FOLHA UOL - E a frouxidão moral?
LULA
- Conceito do
Ciro.
FOLHA UOL - Ciro disse que o sr. e
FHC foram tolerantes com o patrimonialismo para fazer aliança no Congresso. Ou
seja, aceitaram a prática de usar bens públicos como privados.
LULA
- Qualquer um que
ganhar as eleições, pode ser o maior
xiita deste país ou o maior direitista, não conseguirá montar o governo fora da
realidade política. Entre o que se quer e o que se pode fazer tem uma
diferença do tamanho do oceano Atlântico. Se Jesus Cristo viesse para cá, e
Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para
fazer coalizão.
FOLHA UOL - É o que explica o sr.
ter reatado com Collor, apesar do jogo baixo na campanha de 1989?
LULA
- Minha relação
com o Collor é a de um presidente com um senador da base.
FONTE: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2210200902.htm
LULA DISSE QUE JESUS TERIA DE FAZER ALIANÇA COM JUDAS PARA GOVERNAR. MAS SERÁ QUE TODO “ACORDO POLÍTICO” É IGUAL?
É justamente aqui que precisamos separar duas coisas que o discurso político frequentemente mistura: governabilidade e fisiologismo; negociação institucional e conchavo; diálogo republicano e troca de favores.
Lula tentou justificar sua lógica política dizendo que, se Jesus viesse governar o Brasil e Judas tivesse votos suficientes em algum partido, Jesus teria de chamá-lo para uma coalizão. A comparação pode até servir para explicar o presidencialismo de coalizão, mas ela também revela um problema: se a política passa a ser compreendida como a necessidade de negociar com qualquer um, independentemente de princípios, o pragmatismo pode facilmente se transformar em permissividade.
E aqui está a questão que não pode ser ignorada: qual é exatamente a diferença entre fazer uma composição necessária para governar e entregar o Estado como moeda de troca para sustentar uma base política? É perfeitamente legítimo que um presidente precise negociar com o Congresso. Nenhum presidente governa sozinho. Aprovar orçamento, reformas e políticas públicas exige diálogo, articulação e, muitas vezes, concessões. Isso vale para Lula, Bolsonaro e qualquer outro presidente.
Mas existe um enorme hiato entre negociar votos para garantir governabilidade e transformar cargos, verbas e estruturas públicas em instrumentos de manutenção de poder.
E é justamente aí que a narrativa da “governabilidade” precisa ser examinada com cuidado!
Durante a pandemia, por exemplo, o governo federal criou o Auxílio Emergencial de R$ 600, chegando a R$ 1.200 para mães que preenchiam os requisitos legais. A própria CGU encontrou centenas de milhares de pagamentos indevidos e, posteriormente, identificou mais de 200 mil pagamentos com indícios de irregularidades, resultando em bloqueios, cancelamentos e devoluções.
Da mesma forma, a CGU e outros órgãos investigaram desvios e irregularidades na aplicação de recursos federais destinados ao combate à Covid em estados e municípios. Foram dezenas de operações envolvendo bilhões de reais em contratações analisadas.
Isso não significa afirmar que todo prefeito, governador ou beneficiário fraudador agiu assim, muito menos que qualquer irregularidade possa ser automaticamente atribuída ao presidente da República. Seria intelectualmente desonesto. Significa apenas reconhecer que dinheiro público exige fiscalização e que corrupção não deixa de ser corrupção porque acontece longe do Palácio do Planalto.
E esse é precisamente o ponto que a indignação seletiva costuma esconder!
Quando um governo de direita comete um erro, seus adversários frequentemente tratam o episódio como prova de que todo o projeto político é moralmente ilegítimo. Quando um governo de esquerda enfrenta denúncias, desvios ou escândalos, rapidamente aparecem explicações sobre “governabilidade”, “correlação de forças”, “necessidade de coalizão” e “preservação da democracia”.
Não deveria funcionar assim. A mesma régua precisa servir para todos!
Se Bolsonaro tivesse dito que Jesus precisaria fazer aliança com Judas, provavelmente haveria uma enorme discussão sobre sua relação com o cristianismo, sua utilização do nome de Jesus e sua suposta instrumentalização da religião.
Mas, quando a frase vem de Lula, muitos simplesmente a tratam como uma espirituosa metáfora sobre coalizão política. Isso não é coerência. É indignação seletiva.
E também não precisamos transformar Bolsonaro em santo para reconhecer isso. Presidente nenhum é infalível. Governo nenhum está acima de críticas. Bolsonaro pode e deve ser criticado quando erra. Mas criticar um governo não significa atribuir-lhe automaticamente toda fraude cometida por terceiros, assim como defender um governo não significa fechar os olhos para seus erros. Até porque, durante a pandemia, o próprio governo federal criou mecanismos de fiscalização. A CGU acompanhou os pagamentos do Auxílio Emergencial e atuou no combate a irregularidades e fraudes.
Quanto à cloroquina, é preciso fazer uma distinção histórica importante: no início da pandemia, havia estudos preliminares e o Ministério da Saúde chegou a autorizar seu uso em determinados casos, enquanto as evidências científicas ainda estavam em evolução. Portanto, é perfeitamente possível discutir a postura de Bolsonaro sem transformar uma questão científica complexa em slogan político.

No fim das contas, o verdadeiro problema não é negociar. É o que se negocia, por quê e a que preço.
-Governabilidade é necessária - Fisiologismo não!
-Coalizão é parte da democracia- Corrupção não!
-Diálogo com o Congresso é legítimo - Loteamento do Estado para garantir poder não pode ser normalizado!
-E se Jesus realmente entrasse na política brasileira, talvez a pergunta mais importante não fosse se Ele precisaria negociar com Judas.Seria outra:Jesus aceitaria negociar seus princípios para conseguir votos?
-A resposta cristã parece muito mais simples: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8,36).
Por isso, antes de discutir se Jesus teria de fazer aliança com Judas, talvez devêssemos perguntar se Judas continuaria sendo Judas depois de entrar numa coalizão com Jesus — ou se Jesus deixaria de ser Jesus para conseguir governar.
Essa é a diferença entre governar com realismo e governar sem princípios.
E, para quem defende a democracia, a regra deveria ser uma só: não importa se é Lula, Bolsonaro ou qualquer outro político. O que é errado continua errado, independentemente da cor partidária de quem o pratica.
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-E se Jesus realmente entrasse na política brasileira, talvez a pergunta mais importante não fosse se Ele precisaria negociar com Judas.Seria outra:Jesus aceitaria negociar seus princípios para conseguir votos?
-A resposta cristã parece muito mais simples: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8,36).
Por isso, antes de discutir se Jesus teria de fazer aliança com Judas, talvez devêssemos perguntar se Judas continuaria sendo Judas depois de entrar numa coalizão com Jesus — ou se Jesus deixaria de ser Jesus para conseguir governar.
Essa é a diferença entre governar com realismo e governar sem princípios.
E, para quem defende a democracia, a regra deveria ser uma só: não importa se é Lula, Bolsonaro ou qualquer outro político. O que é errado continua errado, independentemente da cor partidária de quem o pratica.
Maria de Fátima -SP
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