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Será possível resgatar o diálogo na política?

Written By Beraká - o blog da família on terça-feira, 5 de novembro de 2019 | 12:15



(foto reprodução)


É possível resgatar o diálogo na política em meio a tanta polarização? A pergunta é necessária, sobretudo em uma época em que divergências políticas frequentemente deixam de ser apenas diferenças de ideias e passam a ser tratadas como verdadeiras guerras entre inimigos. 

Entretanto, antes de condenarmos toda e qualquer polarização, é preciso fazer uma distinção importante: é melhor existir polarização política em uma sociedade livre do que não existir divergência alguma em uma sociedade submetida a uma ditadura.


Em uma democracia, a existência de direita, esquerda, centro, conservadores, progressistas e diferentes correntes de pensamento é, em si mesma, uma manifestação do pluralismo. 

O problema não está necessariamente em haver posições opostas, mas em transformar o adversário político em inimigo a ser eliminado. Nas ditaduras comunistas, por exemplo, a ausência de uma verdadeira disputa política não significa necessariamente harmonia, consenso ou maturidade democrática; muitas vezes significa justamente a supressão da oposição, da liberdade de expressão e do direito de discordar.

Por isso, talvez a pergunta mais adequada não seja simplesmente como acabar com a polarização, mas como aprender a conviver democraticamente com ela. Uma sociedade livre precisa suportar o contraditório, inclusive quando as ideias do outro lado nos incomodam profundamente. O verdadeiro desafio consiste em preservar o debate, o respeito às instituições, a liberdade de expressão e a possibilidade de alternância no poder.

A polarização pode ser perigosa quando alimenta ódio, desumanização, violência e intolerância. Mas a ausência forçada de oposição pode ser ainda mais perigosa, porque transforma a política em unanimidade artificial. O caminho democrático, portanto, não é eliminar as diferenças, mas criar condições para que diferenças profundas possam ser discutidas sem que os adversários deixem de reconhecer uns aos outros como cidadãos com direitos.

É nesse contexto que a análise de Jonathan Haidt, apresentada no texto, ajuda a compreender por que direita e esquerda não enxergam os mesmos dilemas morais da mesma maneira e por que, muitas vezes, cada lado tem enorme dificuldade para compreender aquilo que move o outro.



Por HELIO GUROVITZ 



Em “The righteous mind”, o psicólogo Jonathan Haidt enxerga diferenças profundas na forma como os dilemas morais se apresentam à direita e à esquerda.


Há um novo esporte na academia, na imprensa e entre os intelectuais: 


Explicar a ascensão do nacionalismo populista e do conservadorismo, que tem surpreendido nas urnas mundo afora. Pode escolher: Donald Trump, Brexit, Farc e até mesmo João Doria em São Paulo. 


Em todas essas votações, saiu vencedor o campo que se convencionou associar à “direita”


Em todas, o eleitorado se dividiu de modo apaixonado e, incentivada pelas redes sociais, a polarização política atingiu níveis jamais vistos


Nos Estados Unidos, ambos os lados trocaram a civilidade e o respeito mútuo por ira, agressividade e repulsa ao adversário. Política se tornou assunto proibido em ceias de Natal, festas familiares e reuniões corporativas. Com tantas democracias rachadas, houve até quem argumentasse que a própria democracia rachou e, diante dos desafios contemporâneos, não funciona mais.



Duas linhas de pensamento foram adotadas para explicar a ascensão do novo populismo:



1)- Há aqueles que chamam a atenção para a economia. Dizem que a globalização, embora tenha tirado centenas de milhões da pobreza, não entregou o que prometeu à classe média dos países ricos. A reação natural foi o apoio a quem prometia fechar fronteiras, com políticas protecionistas e anti-imigração.


2)- Há, do outro lado, os que preferem destacar a cultura. Sustentam que as sociedades ocidentais foram incapazes de integrar milhões de imigrantes na utopia multicultural do pós-guerra. 


Afirmam que as políticas de ação afirmativa e proteção a minorias tiveram efeitos colaterais indesejados, exacerbaram racismo, preconceito e ressentimento na “maioria silenciosa”. 


A reação natural foi então o repúdio a qualquer medida classificada como “politicamente correta”, e o apoio a líderes autoritários.


Há algo de verdadeiro em ambas as explicações. Mas nenhuma delas responde por que tais reações têm ocorrido de modo tão violento, nem por que a polarização só faz crescer.


As redes sociais têm relevância nessa dinâmica:



1)- Primeiro, por contribuir para segregar a população em grupos homogêneos, onde divergências são combatidas com virulência.


2)- Segundo, por servir de veículo à disseminação de informações com viés partidário, não raro falsas, e também ao questionamento da imprensa profissional, que exerceu ao longo da história o papel de praça pública para o debate civilizado.



Mas mesmo as redes não explicam tudo! 



Se catalisaram uma reação química explosiva, é porque os reagentes já estavam lá. Há fatores mais relevantes. 




“Se trouxermos a psicologia moral para a história e a acrescentarmos às demais explicações, é possível dar conselhos para reduzir a onda recente de conflitos”, escreveu o psicólogo Jonathan Haidt, da Universidade de Nova York, antes mesmo da vitória de Trump. 


Ele expõe suas ideias em The righteous mind (algo como A mente moral), lançado há meia década. 



Haidt enxerga diferenças profundas na forma como os dilemas morais se apresentam à direita e à esquerda (nos Estados Unidos, a “conservadores” e “liberais”).


Na narrativa esquerdista, a política deve corrigir injustiças sociais, combater desigualdades, miséria e opressão. É uma moral que se resume a duas dimensões: justiça (para todos) e liberdade (da opressão).


Na narrativa conservadora, a política deve resgatar o país das amarras burocráticas, destaque aos valores morais e religiosos, punir os criminosos, retirar privilégios distribuídos a quem não merece, pôr ênfase na estrutura familiar, cuidar dos símbolos nacionais e exercer o poder externo, quando necessário, por meio das armas. 


É uma moral que se irradia por múltiplas dimensões: 


-justiça (para quem merece), 

-liberdade (do governo), 

-lealdade (à nação), 

-autoridade (da tradição e da família) 

-e sacralidade (religiosa). 


Como a paleta moral dos conservadores é mais ampla, diz Haidt, eles levam vantagem ao fazer política. 



“Os republicanos entendem a psicologia moral. Os democratas não”, escreve. 


“Os republicanos já perceberam há muito tempo que o elefante (a intuição) é quem comanda o comportamento político, não o cornaca (a razão), e eles sabem como elefantes funcionam.”




É uma ótima explicação para a eleição de Trump. E também para a dificuldade de cada lado para ouvir e entender os argumentos do outro. “Os obstáculos à empatia não são simétricos”, diz Haidt. 


Nos Estados Unidos, os esquerdistas resistem a compreender a moral da direita, simplesmente porque não valorizam na mesma medida as dimensões de autoridade, lealdade e sacralidade. 


No Brasil, a gama moral da esquerda talvez se estenda ao campo do sagrado – basta lembrar o culto a Getúlio ou Lula – e embasa uma narrativa de inegável sucesso num país de crônica desigualdade social. 


Mesmo assim, à medida que a narrativa conservadora ganha corpo também por aqui, a polarização crescerá ainda mais, e o diálogo entre os rivais será um desafio ainda mais complexo.



Revista Época









CONCLUSÃO



Resgatar o diálogo político não significa exigir que direita e esquerda pensem da mesma maneira. Também não significa construir uma falsa neutralidade na qual todos sejam obrigados a abandonar suas convicções para que exista convivência. Democracia não é ausência de conflito; é a capacidade de administrar conflitos sem recorrer à violência, à censura ou à eliminação do adversário.



A polarização, quando entendida como a existência de posições políticas claramente distintas, faz parte da própria dinâmica democrática. O problema começa quando a divergência deixa o campo das ideias e invade o campo da hostilidade pessoal. Quando o adversário passa a ser considerado inimigo da pátria, inimigo do povo, inimigo da democracia ou alguém que simplesmente não merece existir politicamente, o debate deixa de ser saudável.



-É legítimo e compreensívelque alguém à esquerda priorize igualdade social, políticas públicas, proteção das minorias e combate às desigualdades.


-Da mesma forma, é perfeitamente legítimo, compreensível e esperado que um conservador defenda família, tradição, religião, autoridade, segurança e soberania nacional.  Por isso, as pautas conservadoras não se resumem à defesa dos costumes. O conservadorismo democrático também pode defender mais liberdade e menos autoritarismo; mais democracia e menos concentração de poder; liberdade de pensamento, de expressão e de consciência; imprensa livre e respeito ao contraditório; menos censura e mais debate público; liberdade econômica, empreendedorismo e direito à propriedade; segurança jurídica e respeito às leis.Defende também menos impostos e uma carga tributária mais justa e racional, porque o cidadão não deve ser tratado apenas como fonte de arrecadação. Quando o Estado cobra impostos, deve prestar contas de cada recurso arrecadado e demonstrar que esses valores estão retornando à sociedade em saúde, educação, segurança, infraestrutura, saneamento e outros benefícios públicos concretos.Isso exige mais transparência, fiscalização e responsabilidade na utilização do dinheiro público, além de tolerância zero com a corrupção, o desperdício, o aparelhamento do Estado e o favorecimento de grupos políticos ou econômicos. Dinheiro público não é dinheiro de governo: é dinheiro do cidadão e deve ser tratado com respeito.

O conservadorismo também pode defender a meritocracia, entendida não como abandono dos mais vulneráveis, mas como valorização do esforço, do trabalho, da competência e da responsabilidade, sem privilégios políticos ou favorecimentos indevidos. Afinal, direitos devem caminhar acompanhados de deveres, porque uma sociedade livre não pode exigir apenas aquilo que recebe do Estado, esquecendo aquilo que deve à coletividade.








Defende ainda mais saúde, educação e segurança pública de qualidade, com recursos bem administrados, metas claras e avaliação dos resultados. Não basta aumentar o orçamento: é preciso garantir que o dinheiro chegue onde a população realmente precisa.

Na segurança, isso inclui reconhecer o direito à legítima defesa da própria vida, da integridade física e da propriedade, sempre dentro dos limites estabelecidos pela lei. O Estado deve proteger o cidadão, e não transformar a vítima em culpada por querer defender-se de uma agressão injusta.

Conservar, portanto, não significa simplesmente conservar tudo como está. Significa preservar aquilo que funciona, corrigir aquilo que precisa ser corrigido e rejeitar experiências que destruam instituições, liberdades e valores fundamentais.





Uma sociedade verdadeiramente democrática precisa de liberdade com responsabilidade, autoridade com limites, direitos com deveres, segurança com respeito à lei, desenvolvimento com liberdade econômica, impostos compatíveis com a capacidade do cidadão e gestão pública transparente e eficiente.


O verdadeiro adversário do conservador democrático não é quem pensa diferente, mas o autoritarismo — venha ele de onde vier. Porque uma democracia forte não precisa calar o adversário: precisa ser capaz de vencê-lo no debate, nas urnas e na força dos argumentos. 




O que uma democracia exige não é que um lado abandone suas convicções para agradar ao outro, mas que ambos reconheçam o direito de o outro existir, argumentar, votar e disputar legitimamente o poder.



Também é preciso compreender que diálogo não é submissão. Conversar com quem pensa diferente não significa concordar com ele. Ouvir um argumento não significa aceitá-lo. Respeitar uma pessoa não significa considerar verdadeira a sua ideologia. É justamente porque existem diferenças profundas que o diálogo se torna necessário.









As redes sociais tornaram esse desafio ainda maior ao criar ambientes nos quais frequentemente ouvimos apenas aqueles que confirmam nossas próprias convicções. O resultado são bolhas políticas cada vez mais fechadas, nas quais o outro lado deixa de ser compreendido e passa a ser caricaturado. Nesse ambiente, indignação gera audiência, agressividade gera engajamento e a moderação muitas vezes parece fraqueza.


Entretanto, uma democracia madura precisa recuperar uma virtude esquecida: a capacidade de discordar sem odiar. Podemos combater ideias sem desumanizar pessoas, denunciar erros sem transformar todos os adversários em criminosos e defender nossas convicções sem acreditar que somos donos exclusivos da verdade política.


Portanto, talvez o objetivo não deva ser acabar com a polarização, mas civilizá-la. É melhor uma sociedade onde diferentes correntes disputam abertamente o poder do que uma sociedade aparentemente pacificada porque apenas uma corrente pode falar. 


A verdadeira paz política não nasce da ausência de divergências, mas da existência de regras que permitam que divergências profundas sejam enfrentadas por meios democráticos.





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