O Papa Francisco recorda que a fé cristã não pode ser aprisionada dentro de categorias ideológicas, nem reduzida às disputas próprias da lógica política. Quando o Evangelho é interpretado apenas a partir de lentes partidárias, corre-se o risco de esvaziar sua força espiritual e transformar a vida da Igreja em campo de batalha de interesses humanos.
A mensagem cristã, no entanto, não nasce de um projeto político, mas da pessoa de Jesus Cristo e do anúncio do Reino de Deus. Por isso, a Igreja não existe para servir a agendas ideológicas, mas para evangelizar, formar consciências e conduzir os fiéis à verdade que liberta.
Nesse contexto, o Papa adverte contra duas tentações opostas, mas igualmente perigosas: “buscar a diversidade sem unidade” e “buscar a unidade sem diversidade”. Ambas, segundo ele, são desvios da ação do Espírito do Ressuscitado. A primeira conduz à fragmentação, ao conflito permanente e à perda da comunhão. A segunda leva à uniformização rígida, que sufoca os dons, carismas e a riqueza da pluralidade dentro da Igreja.
A vida eclesial autêntica, ao contrário, é marcada pela harmonia entre unidade e diversidade, onde diferentes dons e sensibilidades convivem sem romper a comunhão da fé. Essa unidade não é fruto de imposição, mas da ação do Espírito Santo, que reúne os fiéis em torno de Cristo, acima de qualquer divisão humana.
Por isso, o critério último do cristão não pode ser a lógica de partidos, correntes ou sistemas políticos, mas a fidelidade ao Evangelho. A fé exige discernimento, liberdade interior e maturidade espiritual para não ser capturada por disputas de poder.
O chamado do Papa é, portanto, um convite a recolocar Cristo no centro, purificando a fé de qualquer instrumentalização ideológica e reafirmando que a Igreja é, antes de tudo, sinal e instrumento de comunhão com Deus e entre os homens.
Tradução: Ramón
Lara
Durante sua incisiva,
profética e ainda atual homilia no domingo de Pentecostes de 2017, o Papa
Francisco afirmou que a Igreja Católica está enfrentando duas "tentações
recorrentes" no século XXI. A primeira consiste em "buscar a
diversidade sem unidade", enquanto a segunda consiste em "buscar a
unidade sem diversidade". Ele explicou que ambas são contrárias ao
Espírito do Ressuscitado, Jesus Cristo, que faz da Igreja universal "um
novo povo" de muitas nações e com "um novo coração".
Ele celebrou a Missa
de Pentecostes na Praça de São Pedro, que contou com a participação de 80 mil
pessoas de todo o mundo, incluindo dezenas de milhares de membros do movimento
carismático católico. Ontem, o Papa Francisco também comemorou o 50º
aniversário da fundação do grupo no Circus
Maximus.Usando paramentos vermelhos para a grande festividade do
dia, Francisco explicou que a igreja celebra a festa de Pentecostes 50 dias
após a ressurreição de Jesus, porque naquele dia, cerca de 2.000 anos atrás, o
Espírito Santo, que é "o primeiro presente do Senhor ressuscitado"
Veio "do céu" aos discípulos sob a forma de "línguas diversas,
como de fogo" que "descansavam" em cada um deles "e
eles" começaram a falar em "outras línguas".Ele lembrou aos
peregrinos na praça e a toda a audiência mundial de centenas de milhões que
seguiram o evento pela televisão, pela rádio e, inclusive, pelas mídias
sociais, que o Espírito "é o Espírito Criador, que constantemente traz
coisas novas".
As leituras das Escrituras do dia destacam duas dessas
coisas novas, ele disse: O Espírito torna os discípulos "um novo
povo" e cria neles "um novo coração"; "traz todos eles
juntos em comunhão" e "dá um presente a cada um, e depois os reúne em
unidade". Em outras palavras, "o mesmo Espírito cria diversidade
e unidade", e desta maneira "formar um povo novo, diverso e
unificado: a Igreja universal".
Francisco explicou
que, tanto de maneira "criativa e inesperada", o Espírito Santo
favorece a diversidade, e "em todas as épocas faz com que carismas novos e
variados floresçam. Em seguida, traz a unidade: ele junta, reúne e restaura a harmonia.
"O Espírito Santo" faz isso de maneira que aconteça a verdadeira
união, de acordo com a vontade de Deus, uma união que não é uniformidade, mas
unidade na diferença".
Ao longo de seu pontificado, Francisco
destacou continuamente o papel do Espírito na igreja e advertiu repetidamente
aos líderes da igreja, especialmente cardeais, bispos e sacerdotes na Cúria
Romana e nas dioceses do mundo, contra o fechamento dos seus olhos, ouvidos e
corações para o que o Espírito está comunicando à Igreja hoje. Em sua
homilia, advertiu-lhes novamente, bem como a liderança dos novos
movimentos (incluindo aqueles do movimento carismático presente na praça)
"para evitar as duas tentações recorrentes".
O pontífice explicou que a
primeira tentação: "buscar a diversidade sem unidade", acontece
"quando queremos separar, quando tomamos partido e formamos bandos, quando
adotamos posições rígidas e estagnadas, quando ficamos presos em nossas
próprias ideias e maneiras de fazer as coisas, talvez pensando que somos
melhores do que outros, ou que estamos sempre certos". Isso acontece
quando "escolhemos a parte sobre o todo, pertencendo a este ou a esse
grupo antes de pertencer à Igreja".
Acontece quando "nos tornamos
adeptos e fanáticos de um lado, ao invés de irmãos e irmãs no único Espírito.
Acontece também quando nos tornamos cristãos de "direita" ou de
"esquerda", antes de ficarmos do lado de Jesus, guardiões inflexíveis
do passado ou da vanguarda do futuro antes de sermos filhos humildes e gratos
da Igreja. O resultado é a diversidade sem unidade".
Ele descreveu a
segunda "tentação recorrente" como a de "buscar a unidade sem
diversidade". Quando isso acontece, "a unidade se torna uniformidade,
onde todos devem fazer tudo juntos e devem sempre pensar da mesma forma".
A unidade acaba sendo homogeneidade e não mais liberdade.
Mas,
como diz São Paulo, "onde está o Espírito do Senhor, há liberdade".O
papa pediu aos crentes que orem ao Espírito Santo "pela graça de receber
sua unidade" de maneira que "deixemos as preferências pessoais de
lado, abracemos e amemos a Igreja, a nossa Igreja".
Isso também significa
"aceitar a responsabilidade pela unidade entre todos, Para acabar com as
fofocas que semeiam o joio da discórdia e o veneno da inveja, já que ser homens
e mulheres da Igreja significa sermos homens e mulheres de comunhão".Ele
os encorajou a "pedir um coração que sinta que a Igreja é nossa Mãe e
nossa casa, uma casa aberta e acolhedora, onde a alegria diversa do Espírito
Santo é compartilhada".
Tendo
advertido sobre essas tentações e lembrando que o Espírito de Jesus quer tanto
a diversidade quanto a unidade na igreja, Francisco enfatizou que, para
alcançar esse objetivo, o Espírito dá "um novo coração". Ele lembrou
aos fiéis que quando Jesus apareceu pela primeira vez aos discípulos depois da
sua ressurreição disse-lhes: "Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem
perdoares os pecados, ser-lhes-ão perdoados".
Francisco sublinhou que
"Jesus não os condena por terem-no negado e abandonado durante sua paixão,
mas, em vez disso, lhes concede o espírito de perdão".Em sua homilia, ele
lembrou aos pastores e aos fiéis que "o Espírito é o primeiro presente do
Senhor ressuscitado, e é dado, sobretudo, para o perdão dos pecados". Ao
longo de seu pontificado de quatro anos, Francisco enfatizou a importância
central do Perdão, e ele fez isso novamente hoje, enquanto lembrou aos fiéis
que Jesus deu o Espírito "acima de tudo para o perdão do pecado".
Aqui, ele disse: "nós vemos aqui o início da Igreja" porque o perdão
é "o laço que nos mantém juntos, o cimento que liga os tijolos da
casa". Ele descreveu o "perdão" como um "presente do mais
alto grau; o maior amor de todos. Ele preserva a unidade apesar de tudo, evita
o colapso, consolida e fortalece. O perdão liberta nossos corações e nos
permite começar de novo".Ele lembrou aos fiéis que "o perdão dá
esperança; sem perdão, a Igreja não pode ser construída.
O espírito de perdão
resolve tudo em harmonia e nos leva a rejeitar qualquer outro caminho: o caminho
do julgamento precipitado, o beco sem saída do fechamento de cada porta, a rua
unidirecional da crítica aos outros. O Espírito nos pede que tomemos a rua nos
seus dois sentidos, de perdão recebido e dado".
No final da Missa de
Pentecostes, Francisco orou para que o Espírito Santo "possa sustentar a
missão da igreja em todo o mundo e dar força a todos os homens e mulheres
missionários".
Ele
também rezou para que o Espírito do Ressuscitado "possa dar paz ao mundo
inteiro e curar as feridas da guerra e do terrorismo, que a noite passada
atingiu civis inocentes em Londres". Ele pediu a todos que orassem pelas
vítimas e pelas Famílias que sofreram neste último ataque terrorista.
Fonte: DomTotal-Noticias
CONCLUSÃO
À luz desse ensinamento, somos chamados a redescobrir a beleza de uma fé que não se deixa aprisionar por divisões humanas, mas que floresce justamente na comunhão. A vida cristã autêntica não se constrói na uniformidade forçada nem na fragmentação de grupos que se fecham em si mesmos, mas na harmonia viva entre a diversidade dos dons e a unidade da mesma fé.
Viver a
unidade na diversidade significa reconhecer que o Espírito Santo atua de
maneiras variadas na vida da Igreja, suscitando carismas, sensibilidades,
formas de espiritualidade e modos distintos de expressão da fé. Essa
pluralidade, longe de ser ameaça, é riqueza quando está enraizada no mesmo
Evangelho e orientada para o mesmo Cristo.
Ao mesmo tempo, essa diversidade não pode se transformar em dispersão ou conflito permanente. A unidade cristã não é fruto de conveniência humana, mas dom de Deus, que nos reúne em um só corpo, mesmo sendo muitos membros. Por isso, a verdadeira comunhão exige humildade, escuta, capacidade de diálogo e abertura ao outro, sem renunciar à verdade da fé.
Diante
das tentações de polarização, somos convidados a um caminho mais alto: o da
comunhão eclesial. Isso implica superar leituras reducionistas da fé, evitar
que a Igreja seja instrumentalizada por disputas ideológicas e, sobretudo,
manter Cristo como centro absoluto da nossa vida pessoal e comunitária.
Assim, que cada cristão possa ser sinal vivo dessa unidade reconciliada, onde diferenças não se tornam barreiras, mas pontes; onde a diversidade não gera divisão, mas riqueza; e onde a fé se manifesta como testemunho de amor que une corações em Deus.
Que possamos, portanto, viver plenamente essa vocação: ser um só corpo em Cristo, na diversidade dos dons e na unidade do Espírito, para que o mundo reconheça na Igreja não um campo de divisão, mas um sinal vivo do Reino de Deus.
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