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Satanás poderia arrepender-se, pedir perdão a Deus e converter-se?

Written By Beraká - o blog da família on sexta-feira, 4 de julho de 2014 | 18:18








A questão — “Satanás poderia arrepender-se, pedir perdão a Deus e converter-se?” — toca um dos pontos mais profundos da teologia cristã: a natureza da liberdade angélica e a irreversibilidade da escolha feita pelos anjos no início da criação.



Segundo a fé cristã e a tradição teológica clássica (especialmente em São Tomás de Aquino), os anjos não vivem um processo de decisão moral como o ser humano, que aprende, erra, amadurece e pode se reorientar ao longo do tempo. O anjo realiza uma única escolha fundamental, feita com uma inteligência plenamente iluminada e uma vontade plenamente determinada no momento da decisão. Por isso, após a queda, não se fala propriamente em “arrependimento” possível para os anjos decaídos, pois sua opção não é sucessiva ou progressiva, mas definitiva.



Nesse sentido, a Igreja entende que Lúcifer — identificado pela tradição com o anjo que se tornou Satanás — não se encontra em um estado de “endurecimento progressivo”, como ocorre no homem que resiste repetidamente à graça, mas em uma fixação irrevogável da vontade contra Deus. Não se trata de falta de oportunidade de conversão, mas de uma escolha plenamente consciente e plenamente assumida em um único ato espiritual decisivo.



Quando Jesus se encontra com Satanás no deserto, a resposta “Afasta-te, Satanás” (cf. Mt 4,10) não deve ser entendida como uma simples recusa de diálogo moral, mas como a manifestação de um conflito já resolvido em sua raiz: não há aqui um processo de conversão possível em curso, mas a rejeição definitiva da tentação. O episódio não serve como “prova empírica” de impossibilidade de arrependimento demoníaco, mas como revelação do contraste absoluto entre a obediência filial de Cristo e a rebelião já consumada do tentador.



A Sagrada Escritura também adverte o ser humano sobre o perigo do endurecimento do coração, como em Hebreus 3,13:


“Exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama HOJE, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado.”


Aqui está uma distinção essencial: enquanto o homem vive no “hoje” da história, aberto à graça e ao arrependimento, os anjos caídos não estão mais nesse regime de prova, pois sua decisão ocorreu fora do tempo humano, em uma única determinação intelectual e volitiva.

Quanto à passagem de Apocalipse 12,7-9, que descreve a queda de Satanás e dos anjos rebeldes, ela expressa em linguagem simbólica o mistério da rejeição definitiva de Deus por parte de criaturas espirituais. Do mesmo modo, Lucas 10,18 (“Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago”) indica a rapidez e irreversibilidade dessa queda, não um processo contínuo de degradação moral. É importante também esclarecer um ponto teológico fundamental: Deus não predestina ninguém ao mal nem ao pecado. A tradição cristã afirma que Deus cria todas as criaturas espirituais boas e livres, e permite a possibilidade real da recusa. 


A queda de Lúcifer não foi causada por uma imposição divina, mas por um ato livre da criatura. O mal, portanto, não tem origem em Deus, mas na liberdade criada que se fecha ao próprio bem.



Dessa forma, a doutrina cristã sustenta duas verdades simultâneas: Deus é infinitamente bom e não quer o mal de nenhuma criatura, mas também respeita de modo absoluto a liberdade que Ele mesmo concedeu. No caso dos anjos, essa liberdade se exerce em um único ato definitivo, cujo resultado, uma vez fixado, não se reabre ao arrependimento.Assim, a impossibilidade de conversão de Satanás não decorre de falta de misericórdia divina, mas da natureza mesma da decisão angélica e da plena confirmação da vontade naquilo que foi livremente escolhido contra Deus.





Deus sempre dá uma segunda chance!




Oportunidades não faltaram a Lúcifer! Podemos ter certeza disso. Afinal, a Bíblia ensina que “Deus é amor” (1Jo 4,8-16), que Ele tem “prazer na misericórdia” (Mq 7,19) e que o Criador é “[...] Deus compassivo e cheio de graça, paciente e grande em misericórdia e em verdade”. 




-Além disso, Ele se alegra em ver que o indivíduo, por mais perverso que seja, se converta e viva (Ez 18,23-32). Deus, em Sua grande misericórdia, suportou longamente a Satanás. Este não foi imediatamente degradado de sua posição elevada, quando a princípio condescendeu com o espírito de descontentamento, nem mesmo quando começou a apresentar suas falsas pretensões diante dos anjos fiéis. Muito tempo foi ele conservado no Céu. 




-Reiteradas vezes lhe foi oferecido o perdão, sob a condição de que se arrependesse e submetesse. 


-Deus nos dá as mesmas oportunidades para arrependimento e mudança de nossos conceitos religiosos equivocados, que podem nos levar à perdição eterna. Iremos aproveitar as oportunidades que o Espírito Santo nos oferece todos os dias









“Se hoje vocês ouvirem a voz de Deus, não endureçais os vossos corações...” (Hb 3,7- 8).




FATO: O DIABO ESTAVA PLENAMENTE CIENTE E CONVICTO DO QUE ESTAVA FAZENDO!





Certa vez um homem que tinha matado o assassino de sua filha foi perguntado se estava arrependido. A sua resposta foi: 



“Se tivesse uma segunda chance, faria tudo de novo e o mataria lentamente!” 


Ele fez consciente, fez porque quis, fez o que achou que deveria ser feito. Não fez movido por impulso ou forte emoção. Não há lugar de arrependimento para quem age assim (não estou levando em conta a ação do Espírito Santo, que pode quebrantar a mais duro coração humano). É esse argumento que é usado pelo autor do livro aos Hebreus para alertar os crentes sobre o perigo do pecado voluntário:





“Porque se voluntariamente continuarmos no pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados, mas uma expectação terrível de juízo, e um ardor de fogo que há de devorar os adversários.”(Hb 10,26-27) .





O diabo morava com Deus era e é muito inteligente, um traidor consciente, quis ser Deus no lugar de Deus. O homem difere do diabo, entre outras coisas, porque enquanto na carne sofre de um “embotamento espiritual” que lhe impede de ser livre em suas atitudes. Segundo o apóstolo Paulo: 




“O homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendê-las, porque elas só são entendidas espiritualmente (1 Co 2,14).


Mesmo o “homem espiritual” tem que aceitar muitas coisas pela fé, sem o completo entendimento. Esse embotamento permite arrependimento ao maior dos pecadores, após ser iluminado em seu entendimento pelo Espírito Santo e ter sua maldade exposta diante de si, o conduzindo ao arrependimento. O arrependimento nos traz um tremendo pesar pelo mau cometido. Nas palavras de Deus: 




“Ali vos lembrareis de vossos caminhos, e de todos os vossos atos com que vos tendes contaminado; e tereis nojo de vós mesmos, por causa de todas as vossas maldades que tendes cometido” (Ezequiel 20,43 ). 



Esse nojo de si próprio é o genuíno arrependimento. Não remorso pelo que se fez, mas repúdio de si próprio por ter sido capaz de fazê-lo. O mesmo não ocorre com o diabo que, antes de pecar, já tinha o completo entendimento e mesmo assim optou por agir deliberadamente contra Deus.



ATENÇÃO! Quando nós enxergamos do nosso ponto de vista meramente humano, quando freqüentemente nos arrependemos de algo, projetamos nos demônios aquilo que somos, como se eles fossem iguais a nós, mas no mundo espiritual arrependimento é um sentimento que simplesmente não existe!





ESPÍRITOS NÃO SE ARREPENDEM, POIS ARREPENDIMENTO É COISA DO HOMEM LIMITADO, MORTAL, E SUJEITO AO TEMPO!





“Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa! Porventura, tendo ele dito, não o fará? ou, havendo falado, não o cumprirá?” ( Nm 23, 19 ).




“Também aquele que é a Força de Israel não mente nem se arrepende, por quanto não é homem para que se arrependa”. ( 1 Sm 15,29 ).




DEUS É ESPÍRITO, OS DEMÔNIOS SÃO ESPÍRITOS, E DEPOIS QUE MORRERMOS SEREMOS SERES ESPIRITUAIS COMO OS ANJOS (Mt 22,30)

 





Devido ao fato de seres espirituais não se arrependerem é que no inferno não haverá salvação e o tormento será eterno. Se fosse possível se arrepender no inferno, também lá haveria salvação! Em nenhum lugar da Bíblia qualquer anjo, bom ou mau, jamais se arrependeu de ter feito algo.




Apocalipse 9 fala de anjos caídos, representados como uma mistura demoníaca de gafanhoto/escorpião/cavalo/leão com cara de homem, E QUE SERÃO LIBERTOS:




O longo tempo na escuridão das trevas, sofrendo numa "fornalha espiritual" ardente, deveria ter sido suficiente para trazer-lhes arrependimento e desejo de salvação. Ao invés disso, durante os cinco meses em que ficarão em liberdade, eles sairão desejosos de destruir todos os homens que encontrarem, porém Deus não os permitirá fazerem isso, tão somente que os atormentem, como aconteceu com o pobre Jó:









“O quinto anjo tocou a sua trombeta, e vi uma estrela que do céu caíra sobre a terra; e foi-lhe dada a chave do poço do abismo. E abriu o poço do abismo, e subiu fumaça do poço, como fumaça de uma grande fornalha; e com a fumaça do poço escureceram-se o sol e o ar. Da fumaça saíram gafanhotos sobre a terra; e foi-lhes dado poder, como o que têm os escorpiões da terra. Foi-lhes dito que não fizessem dano à erva da terra, nem a verdura alguma, nem a árvore alguma, mas somente aos homens que não têm na fronte o selo de Deus. Foi-lhes permitido, não que os matassem, mas que por cinco meses os atormentassem. E o seu tormento era semelhante ao tormento do escorpião, quando fere o homem. Naqueles dias os homens buscarão a morte, e de modo algum a acharão; e desejarão morrer, e a morte fugirá deles. A aparência dos gafanhotos era semelhante à de cavalos aparelhados para a guerra; e sobre as suas cabeças havia como que umas coroas semelhantes ao ouro; e os seus rostos eram como rostos de homens. Tinham cabelos como cabelos de mulheres, e os seus dentes eram como os de leões. Tinham couraças como couraças de ferro; e o ruído das suas asas era como o ruído de carros de muitos cavalos que correm ao combate. Tinham caudas com ferrões, semelhantes às caudas dos escorpiões; e nas suas caudas estava o seu poder para fazer dano aos homens por cinco meses. Tinham sobre si como rei o anjo do abismo, cujo nome em hebraico é Abadom e em grego Apoliom. (APOCALIPSE 9,1-11)




POR TUDO ISSO SE DEDUZ: DEMÔNIOS NÃO SE ARREPENDEM, E POR ISSO NÃO PODEM SER SALVOS - O DIABO NÃO TEM FÉ HUMANA ELE TEM CONVICÇÃO FIRME E CLARA!





“Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem”. (HEBREUS 11,1)




Em outras palavras para melhor entender:





1)- Não existe fé sem esperança: coisas que não vemos mas, esperamos.


2)- Nós temos fé num Deus que nunca vimos, num céu aonde nunca fomos!


3)- O diabo morava no céu, na presença de Deus, o via face a face! Como poderia ele ter fé?



“Porque na esperança fomos salvos. Ora, a esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos” (Romanos 8,24-25)












ATENÇÃO! Não há fé no mundo espiritual! Não há fé no céu  e nem no inferno, pois os anjos tanto bons como os decaídos, não têm fé! Eles tem certeza, pois já veem aquilo que para nós é ainda objeto da nossa fé e esperança.





São Tiago afirma que “os demônios creem”. Mas o que isso realmente significa? Vamos ao texto:



“Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma. Mas dirá alguém: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me a tua fé sem as obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras. Crês tu que Deus é um só? Fazes bem; os demônios também o creem, e estremecem.” (Tg 2,17-19)


À primeira vista, alguém poderia concluir que os demônios possuem fé. Porém, à luz do conjunto da Escritura — especialmente da Carta aos Hebreus — é necessário compreender em que sentido São Tiago utiliza essa expressão.




Os demônios não “creem” em Deus como o homem crê. Eles não possuem fé no sentido teologal e salvífico. Na verdade, os demônios possuem certeza intelectual da existência de Deus. Eles não apenas acreditam que Deus existe: eles sabem. Conhecem concretamente Sua existência, Seu poder, Sua majestade e Sua justiça. Por isso “estremecem”. Seu temor não nasce da esperança ou da confiança, mas do reconhecimento inevitável da autoridade divina diante da qual se rebelaram.



É justamente aí que está a força da argumentação de São Tiago:
 


Não basta admitir intelectualmente que Deus existe. Até os demônios fazem isso. O simples reconhecimento racional da verdade divina não salva ninguém. O homem pode conhecer doutrinas, decorar versículos, defender dogmas e ainda assim viver distante da vontade de Deus.



Tiago combate uma fé puramente verbal, intelectual e estéril — uma fé sem obediência, sem conversão e sem caridade. Por isso insiste que “a fé sem obras é morta”. O problema não é a fé verdadeira, mas a falsa segurança de quem reduz a religião a um assentimento mental sem transformação de vida.Já a fé apresentada em Hebreus 11 possui outro caráter completamente diferente. Ali, a fé aparece como adesão confiante e obediente a Deus, mesmo diante do invisível:



“Ora, a fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê.” (Hb 11,1)



Os heróis da fé abandonaram terras, riquezas, seguranças e até a própria vida porque esperavam “uma pátria melhor, isto é, a celestial” (Hb 11,16). Essa é a fé salvífica: não mero conhecimento intelectual, mas entrega confiante, amorosa e obediente a Deus.



Os demônios são incapazes dessa fé porque sua vontade já está fixada na rejeição definitiva do bem. Eles possuem conhecimento sem amor, reconhecimento sem submissão e verdade sem obediência. Sabem quem Deus é, mas O odeiam. Por isso, sua “crença” não conduz à salvação, mas ao desespero.




Surge então uma pergunta importante: se “sem fé é impossível agradar a Deus” (Hb 11,6), como os anjos bons agradam a Deus, já que também não possuem fé no mesmo sentido humano?



A resposta clássica da teologia é que os anjos fiéis não vivem da fé, mas da visão. Enquanto nós caminhamos na obscuridade da fé rumo à contemplação futura, os anjos bons contemplam diretamente aquilo que nós ainda esperamos. Eles não “creem” em Deus como quem ainda não vê; eles veem. Por isso, não necessitam da fé como virtude teologal própria do estado peregrino do homem.



Além disso, os anjos fiéis nunca estiveram separados de Deus pelo pecado como aconteceu com a humanidade caída e com os anjos rebeldes. Diferentemente do homem, que necessita da redenção operada por Cristo para ser restaurado, os anjos fiéis permaneceram perseverantes na obediência desde sua prova inicial.Santo Tomás de Aquino toca indiretamente nessa realidade ao tratar da presença de Deus em todas as as coisas na Suma Teológica. Ao apresentar objeções contrárias, ele cita:



“Além disso, os demônios são realidades. No entanto, Deus não está nos demônios, pois não existe união entre a luz e as trevas, diz a Segunda Carta aos Coríntios.”



A questão levantada por Santo Tomás não significa que Deus deixe de sustentar ontologicamente a existência dos demônios — pois nada pode existir sem o poder criador de Deus —, mas que não existe neles a presença da graça, da comunhão e da amizade divina. Deus pode estar presente enquanto causa do ser, mas não enquanto união amorosa e santificante, porque os próprios demônios rejeitaram definitiva e livremente essa comunhão.



Assim, São Tiago não ensina que os demônios possuem fé salvadora. Pelo contrário: usa-os como exemplo extremo da inutilidade de uma “fé” reduzida a mero conhecimento intelectual. Afinal, conhecer a verdade sem amá-la e obedecê-la jamais conduzirá alguém ao céu.



Em seguida, Tomás de Aquino faz uma distinção entre a natureza do diabo - que vem de Deus - e a deformidade da culpa que foi derivada do diabo:




"RESPONDO: Deus está em todas as coisas, não como uma parte da essência delas, ou como um acidente, mas como o agente presente naquilo em que age. É necessário que todo agente se encontre em contato com aquilo em que imediatamente age e o atinja em seu poder. Por isso, no livro VII da Física se prova que o motor e o que é movido têm de estar juntos. Ora, sendo Deus o ser por essência é necessário que o ser criado seja seu efeito próprio, como queimar é efeito próprio do fogo. Este efeito, Deus o causa nas coisas não apenas quando começam a existir, mas também enquanto são mantidas na existência, como a luz é causada no ar pelo sol enquanto o ar permanece luminoso. Portanto, enquanto uma coisa possui o ser, é necessário que Deus esteja presente nela, segundo o modo pelo qual possui o ser. Ora, o ser é o que há de mais íntimo e de mais profundo em todas as coisas, pois é o princípio formal de tudo o que nelas existe, como já se explicou. É necessário, então, que Deus esteja em todas as coisas e intimamente." (cf. Suma Teológica I, q. 08, a. 1).




Sem o sustento contínuo de Deus, toda a criação cairia imediatamente no nada, isto é, no “não-ser”. Nada existe por si mesmo! 



Tudo o que foi criado permanece existindo porque Deus, a cada instante, conserva todas as coisas no ser. A criação não é apenas um ato passado, ocorrido em algum ponto distante do início do universo; ela é também uma ação presente e contínua de Deus sustentando tudo aquilo que existe. Por isso dizia o padre jesuíta Vicente Garmar:



“Se Deus Uno e Trino fosse capaz de dormir, Ele acordaria sem a criação.”



A frase é profundamente teológica. Deus não apenas criou o mundo; Ele o mantém existindo. Cada criatura existe porque está sendo continuamente sustentada pela inteligência e pela vontade divina. Se Deus suspendesse esse ato sustentador, todas as coisas desapareceriam instantaneamente, retornando ao nada absoluto do qual foram tiradas.




Isso significa que o homem peca exatamente no momento em que Deus o está sustentando no ser. O pecador só consegue respirar, pensar, agir e continuar existindo porque Deus continua lhe concedendo existência. Há algo dramaticamente paradoxal nisso: a criatura utiliza os dons recebidos do Criador para rebelar-se contra o próprio Criador.



O mesmo se aplica, em sentido ainda mais profundo, aos demônios. Satanás odeia a Deus no exato instante em que recebe d’Ele o sustento da própria existência. O diabo continua existindo apenas porque Deus continua conservando sua natureza angélica no ser. Caso contrário, ele cairia imediatamente no nada.



Essa reflexão ajuda a compreender um ponto importante da teologia clássica: pode-se dizer, em certo sentido, que Deus “ama” também o diabo — não enquanto deformidade moral ou maldade, mas enquanto criatura saída de Suas mãos. A natureza angélica, em si mesma, continua sendo boa enquanto obra criada por Deus. O mal não pertence à essência criada por Deus, mas à corrupção voluntária produzida pela própria criatura rebelde.



É exatamente isso que Santo Tomás de Aquino ensina ao afirmar que Deus está presente em todas as coisas enquanto causa do ser, mas não está presente na deformidade da culpa. 



-Deus sustenta a existência do demônio, mas não participa de sua maldade. O mal moral não possui substância própria criada por Deus; ele é uma privação, uma corrupção do bem que deveria existir.Assim, Deus está no diabo enquanto mantém sua natureza angélica existindo, mas não está no ódio, na revolta e na perversão que nasceram da livre rejeição do bem. A maldade não vem de Deus; ela surge quando a criatura racional se afasta voluntariamente da ordem divina.



-Por isso, não existe amizade entre Deus e Satanás. A amizade exige reciprocidade de amor, comunhão de vontade e correspondência afetiva. Deus oferece o bem, o amor e o ser; Satanás responde com rejeição, orgulho e ódio. O drama do diabo consiste justamente nisso: ele é amado enquanto criatura sustentada por Deus, mas escolhe odiar Aquele sem o qual não poderia existir nem por um único instante.



Essa realidade revela simultaneamente a infinita bondade de Deus e a gravidade da liberdade criada. Deus continua sustentando até mesmo aqueles que O rejeitam, porque Sua ação criadora não depende da bondade da criatura, mas da perfeição de Sua própria natureza. Contudo, o fato de Deus sustentar uma criatura não significa que aprove suas escolhas morais. Deus conserva o ser; a criatura decide como utilizará a liberdade recebida.



No caso dos santos, essa sustentação divina é acolhida em amor e comunhão. No caso dos demônios, ela é recebida em eterna revolta. E nisso se encontra uma das dimensões mais trágicas da queda angélica: Satanás combate precisamente Aquele que o mantém existindo.



Pode-se dizer, em certo sentido teológico e analógico, que o grande tormento do inferno consiste precisamente no amor de Deus rejeitado!




Não porque o amor divino seja mau ou cause sofrimento em si mesmo, mas porque a criatura rebelde experimenta eternamente a presença daquele Amor que insiste em sustentar sua existência, enquanto ela permanece fechada em ódio, orgulho e rejeição.



Deus continua amando Satanás enquanto criatura saída de Suas mãos. Continua sustentando sua natureza no ser, pois Deus não se arrepende de criar nem abandona o ato pelo qual conserva a existência de tudo aquilo que fez. Contudo, esse amor não encontra correspondência. A soberba satânica tornou-se uma recusa definitiva da comunhão divina. O diabo não quer amar a Deus, não quer submeter-se a Ele e não quer receber Sua amizade.








Nesse sentido, pode-se afirmar que existe uma presença do amor de Deus também no inferno — não como amizade, alegria ou comunhão, mas como a presença daquele Bem absoluto que continua sustentando no ser uma criatura que O rejeita eternamente. Deus permanece fiel àquilo que criou, mesmo quando a criatura se torna infiel ao Criador.



O inferno, portanto, não deve ser imaginado como um lugar onde Deus está ausente absolutamente, pois, sem Deus, nada poderia existir. O que está ausente no inferno é a comunhão beatífica, a amizade, a participação amorosa na vida divina. Deus está presente enquanto causa do ser e juiz justo, mas não enquanto união de amor correspondido.



Há nisso uma dimensão profundamente trágica: Satanás odeia exatamente Aquele sem o qual ele não poderia existir sequer por um instante. Seu tormento nasce também dessa contradição eterna: receber continuamente o ser e rejeitar continuamente o Autor da vida.



O que foi dito sobre o diabo pode, em parte, ser aplicado também ao homem. O pecado rompe a amizade com Deus e fecha o coração humano ao amor divino. Contudo, existe uma diferença fundamental: enquanto para os anjos caídos não existe mais tempo de prova nem possibilidade de arrependimento, o homem ainda vive sob o tempo da misericórdia. Enquanto há vida, existe a possibilidade da conversão, do retorno e da reconciliação.



Por isso, o Evangelho é um constante chamado para que o homem não endureça o coração. Deus continua oferecendo graça, perdão e amizade, esperando livremente a resposta da criatura. O ser humano ainda pode voltar atrás antes que sua vontade se fixe definitivamente na rejeição do bem.



De certa forma, o inferno manifesta o estado extremo de uma criatura que prefere fechar-se eternamente ao amor em vez de humilhar-se diante dele. A soberba torna-se então uma prisão sem saída, porque impede a alma de receber precisamente aquilo para o qual foi criada: a comunhão com Deus.



É por isso que a tradição cristã chama o inferno de “morte eterna”. Não se trata de aniquilação, mas de uma existência afastada da finalidade para a qual foi criada. É uma morte que não termina, porque a criatura continua existindo, mas sem participar da plenitude da vida divina. Em certo sentido, é um estado permanente de autodestruição espiritual: a criatura conserva o ser recebido de Deus enquanto se recusa eternamente ao próprio Bem que poderia plenificá-la.



Ao revoltar-se contra Deus, a criatura racional pratica uma espécie de suicídio espiritual, pois rejeita a fonte da vida, da verdade e da felicidade. E quanto mais insiste nessa recusa, mais mergulha na miséria da própria separação.



Ainda assim, Deus permanece fiel. Ele não deixa de amar Suas criaturas porque Sua bondade não depende da resposta delas. O drama do inferno não está na ausência do amor divino, mas na rejeição eterna desse amor por parte da criatura. Por isso, a maior tragédia não é simplesmente “ser punido”, mas terminar como Satanás: existir eternamente diante do Amor absoluto e nunca mais conseguir amá-Lo de volta.




Porque Deus não perdoa o diabo?





A resposta mais profunda para essa pergunta é a seguinte: Deus não “deixa de perdoar” Satanás por falta de misericórdia; o problema é que Satanás não quer ser perdoado. O perdão verdadeiro supõe não apenas a disposição misericordiosa daquele que perdoa, mas também a aceitação desse perdão por parte daquele que ofendeu. Onde não existe arrependimento, não pode existir reconciliação.



É exatamente aí que se encontra o drama da queda angélica. Satanás é um anjo, e os anjos são criaturas puramente espirituais. Diferentemente do homem — que é composto de corpo material e alma espiritual — o anjo não possui matéria nem corpo físico. Sua própria natureza é espiritual. Nessa natureza residem diretamente sua inteligência, vontade e capacidade de amar. O homem pensa, ama e decide através da alma unida ao corpo; o anjo, por sua vez, realiza todas essas operações de maneira puramente espiritual.



Por isso, a tradição teológica ensina que a escolha angélica possui um caráter muito diferente da escolha humana. O homem vive no tempo: aprende lentamente, amadurece gradualmente, erra, arrepende-se, muda de opinião e pode converter-se ao longo da vida. Já o anjo conhece de modo muito mais profundo e imediato. Sua decisão ocorre com uma clareza intelectual muito superior à humana.



Quando Satanás e os demais anjos rebeldes se revoltaram contra Deus, não pecaram por ignorância, fraqueza emocional ou impulsividade, como frequentemente acontece com os homens. Sua recusa foi plenamente consciente, deliberada e radical. Por isso, sua vontade ficou fixada naquilo que escolheram.



Não significa que Deus tenha retirado arbitrariamente deles a possibilidade de perdão. Significa que eles próprios se fecharam definitivamente à comunhão divina. O problema não está na insuficiência da misericórdia de Deus, mas na obstinação absoluta da criatura rebelde. Enquanto o homem vive neste mundo, sua vontade ainda está em movimento. Ainda existe o “hoje” da graça. Ainda é possível arrepender-se, confessar a culpa e retornar à amizade com Deus. O homem pode endurecer o coração, mas também pode quebrantar-se. Pode cair profundamente, mas ainda pode voltar atrás.




Com os anjos caídos, porém, a situação é diferente. Sua escolha ocorreu numa dimensão espiritual em que a decisão se fixa de modo definitivo. Eles não ignoram quem Deus é. Não precisam “crer” como nós cremos pela fé. Conhecem espiritualmente aquilo que nós conhecemos parcialmente e sob véus.É por isso que a Escritura diz que “os demônios creem e estremecem” (Tg 2,19). Eles sabem perfeitamente quem Deus é. Conhecem Sua majestade, Seu poder e Sua glória com uma certeza muito superior à humana. Contudo, esse conhecimento não produz amor nem obediência, porque sua vontade permanece fixada na soberba e na rejeição.



Nesse sentido, pode-se dizer que os demônios não necessitam ser “convencidos” da existência de Deus ou da realidade espiritual, porque vivem nessa realidade de modo imediato. Nós caminhamos pela fé; eles possuem conhecimento espiritual direto. O homem precisa da ação interior da graça para ser iluminado, convertido e conduzido à verdade. Já os anjos rebeldes não pecaram por falta de luz, mas apesar da luz que possuíam.



Por isso, o pecado deles assume um caráter definitivo. Não porque Deus seja incapaz de perdoar, mas porque eles permanecem eternamente recusando o perdão.



O inferno, então, manifesta o estado da criatura que prefere eternamente a própria soberba à humildade diante de Deus. Satanás não deseja reconciliação. Não deseja submissão. Não deseja amar. Sua revolta tornou-se sua própria identidade moral. Ao mesmo tempo, essa doutrina revela algo profundamente sério sobre a liberdade criada. Deus leva tão a sério a liberdade da criatura que permite até mesmo a possibilidade da rejeição definitiva do Seu amor. O amor verdadeiro não pode ser imposto. Deus oferece graça, amizade e misericórdia, mas não obriga ninguém a amá-Lo.



Essa realidade também serve como advertência para o homem. Enquanto há vida, existe esperança. Enquanto o coração ainda pode arrepender-se, existe possibilidade de reconciliação. O grande perigo espiritual não é a queda em si, mas endurecer-se a ponto de não desejar mais voltar para Deus.



Assim, a condenação de Satanás não nasce de uma ausência de amor divino, mas da recusa eterna da criatura em aceitar esse amor. Deus permanece infinitamente misericordioso; é Satanás quem permanece eternamente fechado à misericórdia.



Pergunta: "Por que Deus permitiu que Satanás e os demônios pecassem?"






Essa é uma das perguntas mais profundas da teologia cristã, porque toca diretamente o mistério do mal, da liberdade e da própria natureza do amor de Deus. A Sagrada Escritura ensina que Deus criou todas as coisas boas. Isso inclui também os anjos. Satanás não foi criado mau, perverso ou demoníaco. Antes de sua queda, Lúcifer era uma criatura espiritual grandiosa, dotada de inteligência, beleza e dignidade elevadíssimas. A tradição cristã costuma relacionar simbolicamente sua grandeza com textos como Ezequiel 28,12-18 e Isaías 14,12-14, que descrevem poeticamente a queda daquele que quis elevar-se acima da ordem estabelecida por Deus.



Mas alguém poderia perguntar: “Deus errou ao criar seres livres, inteligentes e dotados de vontade?” A resposta cristã é claramente: não!



Deus não errou, porque tudo aquilo que Deus cria é bom e perfeito segundo sua finalidade. O problema nunca esteve na criação divina, mas no mau uso da liberdade por parte da criatura. 



A existência do pecado não significa falha no Criador, mas abuso da liberdade concedida por Ele.



Ao criar anjos e homens com inteligência, vontade e liberdade, Deus comunicou às criaturas algo que reflete a própria perfeição do Seu ser. O homem foi criado “à imagem e semelhança de Deus” justamente porque participa, de modo limitado e criado, dessas dimensões espirituais presentes perfeitamente em Deus: inteligência para conhecer a verdade, vontade para amar o bem e liberdade para escolher.




Essas capacidades não são defeitos da criação; são precisamente sua maior dignidade. Deus não quis criaturas mecânicas, programadas apenas para obedecer automaticamente. O amor verdadeiro exige liberdade verdadeira. Sem liberdade não existe amor autêntico, apenas automatismo, condicionamento ou imposição. Uma criatura incapaz de escolher também seria incapaz de amar genuinamente.



Por isso, tanto os anjos quanto os homens receberam uma escolha real: permanecer em comunhão humilde com Deus ou voltar-se para si mesmos em orgulho e autossuficiência.



A possibilidade da recusa nasce justamente da grandeza da liberdade. Não porque a liberdade seja má, mas porque ela é tão real que pode ser usada inclusive contra o próprio Criador.



Ainda assim, isso não transforma a liberdade em erro. Pelo contrário: um universo com seres livres é infinitamente mais elevado do que um universo de criaturas incapazes de amar conscientemente. Deus preferiu correr, por assim dizer, o “risco” da liberdade a criar apenas seres sem verdadeira participação espiritual.



A tragédia do pecado demonstra não a falha da criação, mas a seriedade da liberdade criada. Deus leva tão a sério a dignidade da criatura racional que permite até mesmo a possibilidade da rejeição.




Satanás pecou livremente. O homem também peca livremente. Porém, a existência do pecado não destrói a bondade daquilo que Deus criou. A inteligência continua sendo boa. A vontade continua sendo boa. A liberdade continua sendo boa. 




O mal surge quando essas faculdades deixam de se orientar para Deus e se fecham no orgulho e no egoísmo.Assim, Deus não errou ao criar seres livres; pelo contrário, foi justamente aí que manifestou uma das maiores grandezas de Sua criação. Porque somente criaturas livres podem amar verdadeiramente, obedecer verdadeiramente e participar conscientemente da comunhão divina. 


O problema nunca esteve na liberdade em si, mas na criatura que escolheu usar os dons recebidos contra o próprio Doador. Segundo a tradição cristã, Satanás — movido pela soberba — recusou-se a servir. Não quis reconhecer sua condição de criatura diante do Criador. Em vez de amar a Deus acima de tudo, quis colocar a si mesmo no centro. Em linguagem simbólica, a Sagrada Escritura descreve essa rebelião:



-“Subirei aos céus; exaltarei meu trono acima das estrelas de Deus...” (Isa 14,13)


-“Há muito quebraste o teu jugo, rompeste os teus laços, e disseste: ‘Não servirei!’” (Jer 2,20)



O pecado de Satanás foi, portanto, um pecado de orgulho absoluto: a tentativa da criatura de ocupar o lugar do Criador. Apocalipse 12,4-9 parece descrever figurativamente a rebelião de parte dos anjos, tradicionalmente entendida como “um terço” das criaturas angélicas que seguiram Satanás em sua revolta. Esses anjos tornaram-se os demônios, isto é, anjos decaídos que rejeitaram definitivamente a comunhão divina.




Diferentemente do homem, porém, os anjos realizaram essa escolha com plena clareza espiritual. O ser humano vive no tempo, aprende lentamente, amadurece, arrepende-se e pode mudar de direção ao longo da vida. Já os anjos, por serem espíritos puramente intelectuais, realizaram sua decisão de maneira muito mais profunda e definitiva.



Por isso, a tradição cristã afirma que não existe arrependimento para os anjos caídos. Não porque Deus seja incapaz de perdoar, mas porque a vontade deles permaneceu fixada eternamente naquilo que escolheram livremente.



Os anjos fiéis, por outro lado, são chamados nas Escrituras de “anjos eleitos” (1Tm 5,21), pois permaneceram em fidelidade e amor diante da prova.




Surge então outra pergunta inevitável: se Deus já sabia que Satanás iria rebelar-se, por que permitiu?


A Bíblia não oferece uma resposta filosófica completa e explícita para esse mistério. Contudo, toda a revelação aponta para um princípio fundamental: Deus considera a liberdade algo tão valioso que prefere permitir a possibilidade da rejeição a criar criaturas incapazes de amar livremente.



O mesmo vale para a humanidade!



Adão e Eva também receberam uma escolha. Deus não os criou como robôs incapazes de desobedecer. A possibilidade do pecado estava ligada à possibilidade do amor livre. Sem liberdade, não existiria verdadeira obediência, verdadeira santidade nem verdadeira comunhão.



Deus poderia ter criado um universo sem risco moral algum? Sim. Mas seria um universo sem liberdade real. Seria um mundo de criaturas programadas, não de filhos capazes de amar.


É precisamente aí que se encontra o drama e, ao mesmo tempo, a grandeza da criação racional. Deus quis seres capazes de responder livremente ao Seu amor. E a liberdade verdadeira implica necessariamente a possibilidade da recusa. Tanto os anjos quanto os homens receberam essa dignidade tremenda: a capacidade de dizer “sim” ou “não” ao Criador.




Isso não significa que Deus deseje o mal. Deus jamais força alguém a pecar, nem tenta qualquer criatura ao pecado. Satanás e os anjos rebeldes pecaram por decisão própria. Sua revolta nasceu do interior de sua própria vontade.Da mesma forma, o homem continua responsável pelas próprias escolhas morais.



Ao permitir a liberdade, Deus também permite a possibilidade do mal moral. Contudo, a fé cristã ensina que Deus continua soberano mesmo diante da rebelião das criaturas. O mal não escapa ao Seu domínio providencial. Deus não é autor do mal, mas é capaz de tirar bens ainda maiores até mesmo das tragédias produzidas pelo pecado.




A maior prova disso é a própria Cruz de Cristo: do maior pecado da história — a rejeição e morte do Filho de Deus — Deus fez nascer a redenção do mundo.



No fim das contas, a existência da rebelião angélica e humana revela algo profundo sobre Deus: Ele prefere criaturas livres, capazes até de rejeitá-Lo, a criaturas incapazes de amar verdadeiramente. O amor forçado não é amor. Por isso, Deus criou seres livres — anjos e homens — e diante deles colocou uma escolha real: viver eternamente em comunhão com Ele ou fechar-se tragicamente em si mesmos.




Pe. Colombo Pires, EPanjos Tradução do Original Pe. Romanus Cessario, O.P.





POTÊNCIAS E LIMITES DA RACIONALIDADE HUMANA



Por *Lumen Veritatis, nº5


Apesar da inteligência humana e angélica possuírem uma performance diferente, a distinção clássica entre a visão matutina e vespertina dos anjos sugere uma verdade importante acerca do conhecimento disponível a todos que vivem na Fé de Jesus Cristo. 



A noção que os anjos possuem dois tipos de visão aparece inicialmente nos comentários de Santo Agostinho acerca da criação na Bíblia, o De Genesi ad litteram, Book IV, chapters 22-31 onde o Doutor da Graça fala de um amanhecer e de um anoitecer no conhecimento dos Anjos. 








A tradição teológica subsequente alargou essa distinção, pois, como Hugo de São Vítor observa, “ há muitas questões acerca da natureza angélica, as quais a curiosidade da mente humana não foi capaz de descobrir”.1 




Então, na sua Summa theologiae, não surpreende descobrir que São Tomás de Aquino estende a intuição do conhecimento angélico de Agostinho. 



O Santo de Hipona inventou as expressões conhecimento “matutino” e “vespertino” como parte da sua interpretação dos seis dias da criação presentes no Gênesis… (Ele) chamou “matutino” ao conhecimento angélico das coisas no seu primordial começo, precisamente como existem no Mundo; e “vespertino” ao seu conhecimento da realidade criada enquanto existindo na sua própria natureza.2









Porque a “escuridão da noite” caracteriza, mais propriamente, o conhecimento dos anjos decaídos que se fixaram na realidade criada, o Aquinate rejeita esse ponto de vista. Ele defende que como o amanhecer e o anoitecer estão conotadas com a luz do dia, “ambos os tipos de conhecimento expressados por estes termos pertencem aos anjos que estão na luz”.3 




Nenhum teólogo contestaria que o que os anjos vêem na manhã, nomeadamente, tudo como existe no divino mundo da criação, forma a única base para a genuína reflexão teológica. O próprio São Paulo testemunha a centralidade desse tipo de conhecimento quando ele lembra aos Colossenses que Cristo “é a imagem de Deus invisível, o primogênito de toda a criação; Por Ele todas as coisas foram criadas, no céu e na terra, visíveis e invisíveis” (Col 1, 15-16).



Enquanto nós frequentemente associamos a teologia com a realidade de Deus e os Seus feitos, com mistérios como a Trindade, a Ressurreição de Cristo, e a Imaculada Conceição da Virgem Maria, a reflexão teológica estende-a apropriadamente ao que os homens e as mulheres fazem.Por outras palavras, a fé do cristão determina a questão ética. Também as virtudes da vida cristã estão entre aquelas realidades visíveis que encontram a sua realização em Cristo.



De fato, Orígenes, autor do II século, afirma esta verdade quando escreve:





“Não se surpreendam ao falarmos das virtudes do amado Cristo, porque em outros casos nós estamos afeitos a olhar o próprio Cristo como a substância daquelas muitas virtudes”.4






Pelo fato de Cristo permanecer a fonte de todo o bem moral para a pessoa que aceita a mensagem do Evangelho, a Igreja afirma que o ensino da moral cristã possui uma distinta especificidade. Numa variedade de maneiras, os teólogos contemporâneos enfatizam a importante ligação entre a reta conduta Cristã e a autêntica crença cristã.




Hans Urs von Balthasar, por exemplo, identifica Cristo como a “norma pessoal e concreta”5 da vida moral. Isto quer dizer, entre outros, que sem uma efetiva união com Cristo, nenhuma pessoa humana pode, na prática, atingir a perfeição da vida moral que conduz à beatífica companhia com a Trindade, os anjos e os santos.



Para mais, “é Cristo, o novo Adão, que plenamente desvenda a própria humanidade e desdobra o Seu nobre chamado revelando o mistério do Pai e do amor do Pai”.6Por outras palavras, apenas a pessoa que abraça uma vida cristã de virtudes vive inteiramente de acordo com a norma da verdade moral que Cristo, a “imagem do Deus invisível,” comunica ao mundo, e em Cristo realiza a perfeição da natureza humana.



Por um lado, devido à sua inteligência superior, os anjos conhecem os divinos mistérios do mundo com grande clareza. Nós, por outro lado, conhecemos as verdades da fé sombriamente, isto é, apenas pela crença na Palavra de Deus, Primeira Verdade.7 



E por causa da escuridão moral que caracteriza o pecado no mundo, as verdades da fé acerca da conduta humana parecem por vezes obscuras para a pessoa que ainda deve aprender a apreciar a medida espiritual que Cristo estabelece para vida humana.Certamente, uma ponderação contemplativa mais profunda da verdade revelada — um esforço na fé para ver mais claramente o que os anjos bons vêem na “manhã” quando tudo aparece na “imagem perfeita” — forma a característica básica do dinamismo da vida Cristã.





Significa isto, então, que o conhecimento da fé apenas pode fornecer instrução moral para o crente Cristão?





Tradicionalmente, a Igreja dá uma resposta negativa a essa questão. A razão humana — a que está inerente a capacidade e o objeto próprio — não está abrogada pelo dom da fé. O ser humano, alumiado pela fé em Cristo continua a englobar o mundo com a sua capacidade racional de inteligência. 




E para que se possa compreender plenamente o esplendor da vida Cristã, é importante conhecer as razões porque o conhecimento humano autêntico ajuda a crença Cristã, especialmente em matérias que concernem a própria conduta da vida humana. O fato de a razão preservar todo o seu vigor no contexto da vida cristã indica um papel genuíno para a filosofia dentro de uma compreensão cristã do mundo e da pessoa humana.




Nas suas Gifford Lectures (1931-32), Étienne Gilson levantou a questão da filosofia Cristã:




“Eu chamo Cristã a toda a filosofia que, apesar de manter as duas ordens formalmente distintas, considera a revelação Cristã um auxiliar indispensável para a razão”.8 



Quer nós aceitemos ou não esta proposta especifica, Gilson deixa ao menos uma noção de como a crença Cristã pode considerar o esse rerum, o ser das coisas, de um ponto de vista formalmente distinto daquele da fé divina. E se essa procura pessoal por sabedoria se desenvolve num inquérito intelectual, nós podemos justamente chamar à pessoa que o pratica um filósofo Cristão. 




O conhecimento filosófico demanda esse rerum quod in propria natura habent, isto é, busca desvendar as naturezas próprias que as coisas têm nelas mesmas. Apesar da filosofia poder apenas conseguir um conhecimento limitado da natureza das coisas, o ensinamento filosófico ainda representa um esforço discursivo da parte da pessoa humana a fim de obter o que os anjos vêm ao escurecer, um “conhecimento da realidade criada enquanto existente na sua própria natureza.”





A Igreja, cada vez mais, incentiva este esforço, e ela fá-lo baseada em São Paulo:





“Com efeito, o que é invisível nele — o seu eterno poder e divindade — tornou-se visível à inteligência, desde a criação do mundo, nas suas obras” (Rm 1, 20).




O Cristão sabe que há limites para os “princípios e as causas” que os filósofos procuram!





A “filosofia primordial” de Aristóteles, na realidade, convida-nos a contemplar a existência da mais alta verdade, embora os poços que alcançaram esta meta obtiveram apenas um oblíquo, inferencial conhecimento deste último princípio; isto é, um conhecimento da dependência dos seres criados de uma única, fonte que todas as pessoas chamam Deus.9 



Devido a ter explorado extensivamente a diferença entre o Deus dos filósofos e o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, São Tomás de Aquino oferece uma nota incaracteristicamente acabrunhada acerca daquelas pessoas que se apóiam apenas na razão para descobrir a verdade acerca da existência humana.





Porque Aristóteles viu que não há nenhum outro conhecimento humano nesta vida exceto através das ciências especulativas, ele sustentou que o homem não pode atingir uma completa, mas apenas uma relativa felicidade. Com isto fica claro o que o nobre gênio entre os filósofos experienciou no curso do seu tempo.10 




Mas enquanto o Cristão escapa a esse triste estado, ele ou ela precisam experimentar alguma frustração dos filósofos. Como um teólogo aponta, “se o homem não estabelece um contato definitivo com Deus a um ponto que não é graça (no sentido teológico da palavra), então o Deus que se revela não se pode endereçar ao homem de modo significante.


Daí, a solene declaração da Igreja que a existência de Deus pode ser naturalmente conhecida (Dz 3004, 3026) e que a alma humana é imortal (Dz 1440)”.11



Quando a Igreja defende a dignidade do chamado humano e restaura a esperança para aqueles desconsolados de qualquer destino mais alto, ela reconhece que a sua mensagem atingiu o mais profundo do coração humano. 



Ao mesmo tempo, por causa do sobrenatural senso de fé, o Povo de Deus recebe uma verdade que excede a capacidade do conhecimento humano, a verdade que os liberta (Cf. Jo 8, 32). 



Retornemos à distinção que Santo Agostinho e São Tomás de Aquino fizeram entre o conhecimento matutino e vespertino dos anjos — o seu cognitio matutina e vespertina — a fim de ver que aplicação pode ter na ética teológica.



O Aquinate explica a base para distinguir os dois tipos de conhecimento angélico da seguinte maneira:




Para o ser das coisas deflui do Mundo como de um primeiro (ou primordial) princípio, e esta efusão termina no ser das coisas o que elas possuem em sua própria natureza.




São Tomás fala de um “defluir” que se espalha da fonte criativa de todas as coisas em Deus e termina na variedade de naturezas criadas que existem no mundo.12 



A expressão da verdade divina assemelha-se a este fluir do ser. No ponto de vista do Aquinate, encontra-se a inesperada compleição da metafísica na revelação Cristã.Através da revelação divina, Deus comunica um conhecimento da realidade como ela existe no Seu Filho, mesmo apesar de os crentes ainda gozarem da capacidade de adquirir um conhecimento das coisas reais como elas existem nelas próprias.O filósofo americano vai ainda tão longe de afirmar que “a teologia revelada promete uma visão dos princípios que o metafísico busca, e até mesmo deseja”.13











REFERÊNCIAS




1 De Sacramentis Bk 1, chap. 5, no. 19 (PL 176: 254).

2 Summa theologiae Ia q. 58, a. 6.

3 Ibidem.

4 Origen, Commentary on the Song of Songs, Bk 1, in Origen, The Song of Songs: Commentary, trans. R. P. Lawson (Ancient Christian Writers, vol. 26; Westminster, MD and London, 1957), p. 89.

5 Hans Urs von Balthasar, “Nine Theses in Christian Ethics”, in International Theological Commission: Texts and Documents 1969-1985, ed, Michael Sharkey (San Francisco, 1989), p. 108.

6 Gaudium et spes, nº. 22.

7 O Aquinate chega a especular se os anjos possuem essa claridade acerca das verdades da fé mesmo antes da sua confirmação na glória (ver Summa theologiae IIa-IIae q. 5, a. 1). Em qualquer caso, a distinção de Santo Agostinho refere-se ao que os anjos conhecem após a sua irreversível escolha de amor a Deus.

8 The Spirit of Medieval Philosophy (New York, 1940), p. 37.

9 Cf. In De Trinitate Bk 5, chap. 4.

10 Contra gentiles Bk III, c. 48.

11 Edward Schillebeeckx, Revelation and Theology, vol. 1 (New York, 1967), pp. 154, 155.

12 Porque ele afirma firmemente a total implicação da doutrina Cristã da criação ex nihilo, São Tomás reconhece que toda a natureza criada possui mas nunca extingue o seu próprio ato de ser. A grande contingência dos seres criados deriva da tênue afirmação que têm na existência, onde quer que a divina omnipotência e infinitude repousem na identidade da essência e existência que pertence unicamente a Deus. Por outras palavras, a explicação do Aquinate acerca do “defluir” permanece livre de emanacionismo ou outra conotação panteísta.


13 Mark D. Jordan, Ordering Wisdom:The Hierarchy of Philosophical Discourses in Aquinas (Notre Dame, IN, 1986), p. 178. Jordan explica mais tarde esta conexão: “Se há uma diferença metodológica entre metafísica e teologia, não haveria então uma segregação material delas nos textos (de São Tomás). O discurso da metafísica não está encerrado em algum ponto abaixo da teologia na hierarquia das ciências. O leitor passa imperceptivelmente de um discurso para outro. De fato, não é como se estivéssemos a passar ao lado da metafísica, mesmo se alguém sabe que a metafísica, enquanto ela mesma, não pode prover a necessidade de um estágio mais alto. Pelo contrário, encontra-se a inesperada compleição da metafísica na revelação” (p. 177).




*Fonte: In: Lumen Veritatis, nº5 - Este texto foi publicado com a gentil permissão do corpo editorial da AMATECA series of Handbooks of Catholic Theology e foi traduzido pelo Pe. Colombo Pires E.P. da edição inglesa do Father Cessario’s Le Virtù (Milan 1994) - [Romanus Cessario, O.P. The Virtues, Or the Examined Life (London/New York: Continuum, 2002)].









CONCLUSÃO




Diante disso, compreende-se que a condenação de Satanás não é fruto de crueldade divina nem de uma suposta ausência de misericórdia em Deus, mas consequência direta da própria liberdade criada. 



Deus não criou o diabo mau, nem predestinou Lúcifer à perdição; ao contrário, criou-o bom, belo, cheio de luz e perfeição, como uma das mais elevadas criaturas espirituais. 



Contudo, a grandeza da liberdade concedida aos anjos trazia também a possibilidade real da recusa. E foi justamente essa recusa livre, consciente e definitiva que transformou o portador da luz no adversário de Deus.



A Escritura mostra que a rebelião angélica não foi um simples erro impulsivo ou uma fraqueza momentânea, mas uma oposição deliberada ao senhorio divino. Por isso, a queda de Satanás representa o drama extremo da criatura que, podendo contemplar a verdade, escolheu voltar-se contra ela. Diferente do homem, que vive no tempo, amadurece, erra, arrepende-se e pode retornar continuamente à graça, os anjos fizeram sua escolha em plenitude de consciência espiritual. Assim, a decisão dos anjos fiéis tornou-se eternamente fidelidade, enquanto a dos anjos rebeldes tornou-se eternamente rebelião.



É exatamente por isso que a Bíblia insiste tanto para que o homem não endureça o coração. Enquanto existe o “hoje” da vida presente, existe também a possibilidade da conversão. O ser humano ainda caminha sob o tempo da misericórdia. Cada pecado não arrependido endurece a alma, obscurece a consciência e afasta gradativamente da verdade, mas Deus continua chamando o homem ao retorno. O perigo está justamente em resistir continuamente à graça até desejar definitivamente viver sem Deus.



Satanás torna-se, então, não apenas exemplo de rebeldia, mas também sinal do que acontece quando a criatura transforma o orgulho em princípio absoluto. Seu pecado fundamental foi a recusa da submissão amorosa a Deus. Por isso, toda vez que o homem absolutiza a própria vontade, despreza a verdade divina e coloca o próprio “eu” acima do Criador, repete em menor escala a lógica da revolta luciferina.



Ao mesmo tempo, a queda de Lúcifer manifesta algo profundamente consolador: Deus permanece soberano sobre toda a criação. O mal não nasce de uma força rival equivalente a Deus, como se existissem dois princípios eternos em combate. Satanás continua sendo criatura e somente age dentro dos limites permitidos pela providência divina. A vitória definitiva pertence a Cristo, que veio destruir as obras do diabo (1Jo 3,8) e restaurar no homem aquilo que foi ferido pelo pecado.



Assim, a doutrina sobre a queda dos anjos não foi revelada para alimentar curiosidades sobre demônios, mas para advertir o homem sobre a seriedade da liberdade, a gravidade do pecado e a urgência da conversão. 



Enquanto houver vida, existe esperança; enquanto durar o “hoje” da graça, Deus continua oferecendo misericórdia ao pecador arrependido. 


E é justamente nisso que consiste a grande diferença entre a situação do homem e a dos anjos caídos: nós ainda estamos no caminho, ainda podemos voltar, ainda podemos dizer “sim” a Deus.


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Anônimo
28 de maio de 2026 às 08:59

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Jardel Vieira Sampaio

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