Por *Francisco José Barros
Araújo
Entre as muitas imagens misteriosas presentes na Sagrada Escritura, poucas despertaram tanto fascínio e deram origem a tantas interpretações ao longo da história da Igreja quanto a visão dos quatro seres vivos descritos pelo profeta Ezequiel e retomados por São João no livro do Apocalipse. Desde os primeiros séculos do cristianismo, Padres da Igreja, teólogos, exegetas e místicos procuraram compreender o significado dessas figuras extraordinárias que aparecem intimamente ligadas ao trono de Deus, participando incessantemente do louvor celeste.
-Ao longo da história da interpretação bíblica, surgiram diversas explicações. Alguns enxergaram nesses seres os quatro Evangelistas, interpretação que se tornou clássica na tradição cristã. Outros os identificaram como uma representação simbólica de toda a criação, reunindo o mundo animal, doméstico, selvagem e humano em perpétua adoração ao Criador. Há ainda interpretações patrísticas e medievais que os relacionam aos atributos de Cristo, às virtudes divinas, às ordens angélicas ou aos diversos aspectos da economia da salvação.
-Entretanto, não faltaram interpretações mais ousadas e até mesmo controversas. Já se afirmou, por exemplo, que "o quarto ser vivo seria Maria", ideia encontrada em alguns autores de espiritualidade e atribuída por alguns ao poeta Luís de Camões em contexto devocional.
-Outros sustentaram que o quarto ser representaria a própria natureza humana de Cristo glorificada no seio da Santíssima Trindade.
-Em tempos mais recentes, apareceram interpretações alegóricas, psicológicas, esotéricas e até ufológicas, completamente estranhas à tradição exegética da Igreja e sem qualquer fundamento sólido na Revelação.
Diante dessa variedade de interpretações, surge naturalmente a pergunta:
-Afinal, o que realmente ensina a teologia católica? Existe uma interpretação oficial da Igreja?
-Como os Padres da Igreja compreenderam esses misteriosos personagens?
-Há continuidade entre a interpretação antiga e a moderna ou houve mudanças significativas?
Para responder adequadamente a essas questões, é preciso, antes de tudo, voltar ao texto inspirado, deixando que a própria Escritura interprete a Escritura. Afinal, tanto Ezequiel quanto São João descrevem uma mesma realidade celeste mediante uma linguagem profundamente simbólica, típica da literatura profética e apocalíptica, cujo objetivo não é satisfazer curiosidades, mas revelar verdades espirituais acerca da majestade de Deus, da liturgia celeste e da participação de toda a criação no culto devido ao Senhor.
Comecemos,
portanto, pelos principais textos bíblicos onde esses misteriosos personagens
aparecem
-Ezequiel 1,5: "E do meio dela saía a semelhança de quatro seres viventes. E esta era a sua aparência: tinham a semelhança de homem."
-Ezequiel 1,13: "E, quanto à semelhança dos seres viventes, o seu aspecto era como ardentes brasas de fogo, com uma aparência de lâmpadas; o fogo subia e descia por entre os seres viventes, e o fogo resplandecia, e do fogo saíam relâmpagos."
-Ezequiel 10,20: "Estes são os seres viventes que vi debaixo do Deus de Israel, junto ao rio Quebar, e conheci que eram querubins."
-Apocalipse 4,6-8: "À frente do trono, havia como que um mar vítreo, semelhante ao cristal. No meio do trono e ao seu redor estavam quatro seres vivos, cheios de olhos pela frente e por trás. O primeiro ser vivo é semelhante a um leão; o segundo ser vivo, a um touro; o terceiro tem a face como de homem; o quarto ser vivo é semelhante a uma águia em voo. Os quatro seres vivos têm cada um seis asas e são cheios de olhos ao redor e por dentro. E, dia e noite sem parar, proclamam: Santo, Santo, Santo, Senhor Deus Todo-poderoso, Aquele que era, que é e que vem."
-Apocalipse 5,6: "E olhei, e eis que estava no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos um Cordeiro, como havendo sido morto, e tinha sete chifres e sete olhos, que são os sete espíritos de Deus enviados a toda a terra."
A visão
de Ezequiel possui também um importante pano de fundo histórico e cultural.
Muitos estudiosos reconhecem semelhanças entre os querubins bíblicos e os
antigos karibu (ou lamassu) da arte assírio-babilônica: figuras híbridas com
corpo de animal alado e rosto humano que eram colocadas à entrada de palácios e
templos como guardiãs simbólicas.
A própria palavra hebraica querub (kerûb) provavelmente possui alguma relação etimológica com esse contexto cultural do Antigo Oriente Próximo, embora os querubins bíblicos sejam completamente desmitologizados e colocados exclusivamente a serviço do Deus único de Israel. Não por acaso, Deus ordenou que dois querubins fossem colocados sobre o propiciatório da Arca da Aliança (cf. Êxodo 25,18-22), tornando-se um dos mais importantes símbolos da presença divina no Antigo Testamento.
É
importante ressaltar, porém, que a Bíblia não simplesmente copia imagens das
culturas vizinhas. Ela frequentemente assume elementos conhecidos de seu
contexto histórico para purificá-los de qualquer conteúdo pagão e colocá-los a
serviço da revelação do Deus verdadeiro.
Assim, aquilo que no mundo assírio simbolizava a proteção de reis humanos passa, na Escritura, a representar a majestade, a santidade e a soberania absoluta do Senhor dos Exércitos. É a partir dessa chave de leitura — bíblica, patrística e teológica — que procuraremos compreender o verdadeiro significado dos quatro seres vivos contemplados por Ezequiel e por São João.
O
Apocalipse tem muitas imagens, e tudo nele é simbólico, cheio de significados!
O próprio número 4
tem sua importância; representa os 4 cantos da terra, os pontos cardeais, os
ventos. Além disso os animais são cheios de olhos, que podem ser símbolos da providência
divina. A própria forma que têm representa o que há, na criação, de mais nobre,
mais forte, mais sábio e mais ágil.
-Mais que personagens
históricos, os 4 viventes são símbolos que exprimem o encontro entre a
iniciativa salvífica de divina e a resposta que a criação, toda inteira, dá a
Deus.
-Desde o tempo de
Irineu, bispo de Lião, na França, esses 4 viventes são símbolos dos 4 evangelistas:
Mateus ; Marcos ; Lucas e João .
i - A
VISÃO DOS QUATRO SERES NO "CONTEXTO JUDAICO":
Deus se comunicou com
Ezequiel em visões. A visão é uma revelação milagrosa da verdade de Deus. As de
Ezequiel nos parece estranhas porque são apocalípticas. Ele viu imagens que
simbolicamente transmitiam o que estava por vir. As pessoas no exílio
haviam perdido a perspectiva do propósito de Deus e de sua presença; Ezequiel
lhes trouxe uma revelação com a finalidade de mostrar a imensa glória e
santidade de Deus, e advertir sobre as conseqüências do pecado antes que fosse
tarde demais. Daniel e João foram outros escritores bíblicos que tiveram visões
apocalípticas. Nesta primeira visão,
Deus chamou Ezequiel para ser um profeta. Nada na experiência prévia de
Ezequiel o havia preparado para uma exposição tão grande da gloriosa presença e
poder de Deus. A imensa nuvem brilhou com um relâmpago, cercada por uma luz. Do
fogo da nuvem saíram quatro seres viventes.Estes mostraram a
Ezequiel que a iminente destruição de Jerusalém era um castigo de Deus para
Judá por causa dos pecados do povo (estes seres viventes também são citados em
Ap 4,6,7).
INTERPRETAÇÃO JUDAICA
-Quando Ezequiel recebeu esta
visão, estava longe do Templo de Jerusalém, um símbolo da presença de Deus. Por meio desta visão, aprendeu
que Deus está presente em todos os lugares (nos quatro cantos do mundo antigo) e
que as atividades dEle no céu, dão forma aos acontecimentos na terra.
-Cada um dos quatro
seres viventes tinha quatro faces, simbolizando a natureza perfeita de Deus. Alguns crêem que:
-O leão representa a força;
-O boi: o serviço diligente;
-O ser humano: a
inteligência;
-E a águia: a divindade.
Outros vêem estas
criaturas como as mais majestosas de Deus e dizem que, por esta razão,
representam toda a criação.
A
visão de João em Apocalípse 4 é semelhante à de Ezequiel
-A
"figura semelhante a um homem" revelou a santidade de Deus e preparou
Ezequiel para aquilo que Ele estava prestes a dizer-lhe. Esta figura
representava o próprio Deus em seu Trono.
-De um
modo semelhante, Cristo revelou Deus em uma forma humana e nos preparou para
sua mensagem de salvação. Cristo entrou na história em um corpo real e
humano.
ii - A
imagem dos quatro seres vivos na Bíblia:
João utiliza muitas
imagens e símbolos no apocalipse. Ignorar estes elementos é passar despercebido
pelo texto e nos levará a uma falsa compreensão ou interpretação. A preocupação
da pergunta mostra que estas buscando a verdadeira compreensão do texto.
João retoma elementos
do livro de Ezequiel quando fala dos quatro seres vivos em seu escrito,
observemos em Ezequiel 1,5:E do meio dela saía à
semelhança de quatro seres viventes. E esta era a sua aparência: tinham a
semelhança de homem...”
João conhecedor
destes textos do Antigo Testamento reutiliza ajudando a comunidade a entender a mensagem que queria mostrar em
Apoc 4,6-11:
“6 também havia diante do trono
como que um mar de vidro, semelhante ao cristal; e ao redor do trono, um ao
meio de cada lado, quatro seres viventes cheios de olhos por diante e por
detrás;7 e o primeiro ser era semelhante a um leão; o segundo ser, semelhante a
um touro; tinha o terceiro ser o rosto como de homem; e o quarto ser era
semelhante a uma águia voando.8 Os quatro seres viventes tinham, cada um, seis
asas, e ao redor e por dentro estavam cheios de olhos; e não têm descanso nem
de noite, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, aquele
que era, e que é, e que há de vir.9 E, sempre que os seres viventes davam
glória e honra e ações de graças ao que estava assentado sobre o trono, ao que
vive pelos séculos dos séculos,10 os vinte e quatro anciãos prostravam-se
diante do que estava assentado sobre o trono, e adoravam ao que vive pelos
séculos dos séculos; e lançavam as suas coroas diante do trono, dizendo:11
Digno és, Senhor nosso e Deus nosso, de receber a glória e a honra e o poder;
porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade existiram e foram
criadas.”
As visões de Ezequiel
são importantes, pois falam de quatro seres viventes com quatro rostos
diferentes, rostos que correspondem às quatro criaturas citadas em (Ezequiel
1,5-14).
Para Ezequiel os
seres viventes são os querubins (Ezequiel 10,9-17) e indica a missão e o papel
destes querubins em defender e levar o trono de Deus conforme a vontade Dele.
Uma vez que entendemos que os seres viventes citados por Ezequiel são os
querubins, lembramos também dos querubins que ficavam acima da arca da aliança.
Protegendo-a com suas asas.
Na visão de João
evangelista
Na visão de João, os
seres viventes o leão, touro, homem, águia, são semelhantes a quatro "criaturas":
Eles indicam os quatro seres mais fortes que estão liderando o universo físico. Estes quatro seres
também evidenciam os quatro elementos que constituem o ser humano:
-leão =
sentimento,
-águia = intelecto,
-touro = instinto,
-homem = rosto.
Em resumo
podemos afirmar: que leão, touro, águia, homem, os quatro seres humanos do
apocalipse (Ap 4,6-7), ou em Ezequiel (Ez 1,5-21), representam o que domina o
mundo e o que é mais nobre, forte, sábio e ágil na criação.
III - Os
quatros seres têm a ver com os evangelistas na "releitura Cristã!"
Respondendo agora a
pergunta: Ao interpretarmos ao pé da letra o texto, não encontraremos por
escrito uma relação dos seres vivos do apocalipse com os quatros evangelistas.
Entretanto, muitos estudiosos fazem esta interpretação desde a época de Irineu, aproximadamente no ano 400 d.C.
IV - A tradição católica:
A teologia católica no decorrer
dos séculos, segundo a tradição, tem atribuído a visão a cada um dos quatro
evangelistas (Mateus, Marcos,
Lucas e João) um simbolismo.
Desde
os tempos de Constantino (aprox. 400 d. C.), a tradição cristã com Irineu de
Lião, assim interpretou estes seres vivos:
1)- Atribui ao
Evangelista Marcos, a figura do Leão (Apo 5.5), o Leão de Judá. A figura do
Leão: aparece 28 vezes no Livro de Apocalipse, Jesus é chamado de Leão por
Marcos. Contrapõe Jesus com o Imperador Romano. Jesus é o Salvador e não o
Imperador.
2)- Bezerro: Lucas
mostra toda humildade de Jesus através da figura do Novilho. É um animal de
serviço, Jesus veio a terra para servir. Representa este aspecto do ministério
de Jesus. Ou ainda lembra a abertura do evangelho de Lucas que acontece no
Templo de Jerusalém, com seus sacrifícios rituais e purificações.
3)- Homem: Mateus
mostra o lado humano de Jesus. O chama de "Filho do Homem". Seu
evangelho inicia com a genealogia de Jesus. Jesus faz parte da historia do Povo
de Deus.
4)- Águia: Representa
o evangelista João e a idéia é apresentar Jesus como quem tem visão
privilegiada. Alguém capaz de chegar aos altos céus. O primeiro capítulo de
João apresenta Jesus como Deus. Seu lado Divino. Ele está muito acima de tudo o
que podemos ver ou compreender. É o evangelho espiritual, e muitas passagens
são difíceis de compreensão. Esta simbólica é
retomada por São João no Apocalipse (anos 70 de nossa era, anterior à redação
dos Evangelhos).
Os primeiros textos
que propõem repartição dos símbolos entre os evangelistas são do segundo século
e os símbolos surgem na arte cristã a partir do século V. Com Irineu de Lião
(morto em 202) discípulo de Policarpo (convertido por São João), aparece a
primeira repartição dos símbolos entre os evangelistas; ela repousa no texto do
Apocalipse e a consideração do início de cada evangelho.
A
seguir alguns destaques de seu tratado Contra as Heresias (III, XI, 8):
São Jerônimo trata
igualmente este problema em uma passagem importante de seu Comentário de
Ezequiel (I. 1,10):FRAGMENT DU COMMENTAIRE SUR LE PROPHÈTE ÉZÉCHIEL.
A
Homilia retoma e explicita as correspondências indicadas:
À direita o HOMEM
(alegre): Mateus , "aquele que raciocina" - Nascimento do Redentor
À esquerda o BOI
(triste): Lucas, "Aquele que é sacrificado" - Crucificação
À direita o LEÃO
(alegre): Marcos , "aquele que é forte e seguro" - Ressurreição
Acima a ÁGUIA: João, "aquele
que é celeste e eterno" - Ascensão
(ou melhor: o Verbo assentando junto ao Pai)
Vemos três sistemas
diferentes:
1)-
Irineu de Lião:
-Sacrifício táurico: Lucas
-Realeza leonina: João
-Nascimento humano:Mateus
-Espírito de profecia
(águia): Marcos
2)-
Atanásio:
-Touro: Marcos
-Leão: Lucas
-Homem: Mateus
-Águia: João
3)-
Jerônimo:
-Touro: Lucas
-Leão:Marcos
-Homem:Mateus
-Águia: João
Há acordo entre os
três no tocante a Mateus.
-Irineu de Lião e Jerônimo estão de acordo sobre Lucas
= Touro;
-Atanásio e Jerônimo estão de acordo quanto João = Águia.
Agostinho de Hipona
fala do Tetramorfo no capítulo VI de sua obra Concordância dos Evangelhos;
conhece o sistema de Irineu de Lião que cita para rejeitar mas parece ignorar o
de Jerônimo, propondo as seguintes correspondências:
Leão:Mateus
Homem:Marcos
Boi:Lucas
Águia:João
"Ninguém duvida, diz ele, da correspondência do Boi com
Lucas. Três dos símbolos são terrestres
(o leão, o homem, o boi) acima como
uma águia, voa João".
Apocalipse
(William Barclay):
E a mesma grande
verdade aplica-se a qualquer outro ser vivente. O trabalho bem feito se eleva
como um hino de louvor a Deus. Isto significa que o médico ao fazer sua ronda de
visitas, o cientista em seu laboratório, o mestre em sua sala de aula, o músico
com seu instrumento, a secretária com seu computador, a dona-de-casa em
sua cozinha, todos os que estão fazendo as tarefas que são necessárias para que o
mundo siga funcionando, unem-se num grande ato harmônico de louvor. Não somente
o culto na Igreja, mas sim cada dia, e em cada uma das tarefas que se
executam deveria ir precedida pelo convite: "Adoremos, louvemos a
Deus."
O
SIMBOLISMO DOS SERES VIVENTES
Apocalipse 4,6b-8: Não transcorreu muito
tempo antes da Igreja Primitiva encontrar um simbolismo bem definido para os
quatro seres viventes. Em particular, os quatro seres foram, para ela, símbolo
dos quatro evangelhos. Esta concepção
encontra-se representada, muito freqüentemente, nos vitrais das Igrejas mais
antigas. A mais anterior das
identificações foi a que fez Irineu no ano 170.Disse que as quatro criaturas
representavam quatro aspectos da obra de Cristo, os quais, por sua vez, estão
representados nos quatro evangelhos.
-O
leão: simboliza a poderosa e
efetiva obra do Filho de Deus, sua liderança e seu poder soberano.
-O
bezerro: significa o aspecto
sacrificial e sacerdotal de sua obra, porque é um animal que se usava para
oferecer sacrifícios.
-O
homem: simboliza a
encarnação, sua vinda como humano.
-A
águia: representa o dom do
Espírito Santo, que sobrevoa a Igreja com suas asas. Por outro lado, João
representa "a original, efetiva e gloriosa geração do Filho a partir do
Pai", e diz como todas as coisas foram feitas por Ele. João, portanto, está
representado pelo leão
-Lucas começa com
a imagem de Zacarias, o sacerdote, e conta como se matou o bezerro engordado
para festejar o retorno do filho mais novo.
CONCLUSÃO
O esquema de Agostinho
era:
-Mateus: o leão
-Marcos: o
bezerro
-Lucas: o boi
-João: a águia
Embora, ao longo da história da exegese cristã, tenham surgido diferentes formas de relacionar os quatro seres vivos aos quatro Evangelistas — sobretudo em Santo Irineu, São Jerônimo e São Gregório Magno —, muitos estudiosos reconhecem que o esquema de Santo Agostinho é um dos que melhor harmoniza os símbolos com a estrutura e a intenção teológica de cada Evangelho.
Não se trata de um dogma da Igreja, mas de uma interpretação tradicional de grande valor espiritual e catequético, amplamente acolhida na arte sacra, na liturgia e na espiritualidade cristã.
-Mateus é simbolizado pelo leão, porque apresenta Cristo como o esperado descendente de Davi, o Rei-Messias prometido pelos profetas, o verdadeiro "Leão da tribo de Judá" (cf. Ap 5,5), em quem se cumprem todas as promessas feitas ao povo de Israel. Seu Evangelho possui forte caráter régio e messiânico, demonstrando continuamente que Jesus é o legítimo herdeiro do trono de Davi e o cumprimento das Escrituras.
-Marcos é representado pelo homem, pois seu Evangelho apresenta Jesus em sua vida concreta, em sua intensa atividade missionária, em suas emoções, fadiga, compaixão e proximidade com as pessoas. É o Evangelho mais dinâmico, descrevendo o Cristo Servo em constante ação, revelando de maneira muito viva sua verdadeira humanidade, sem jamais negar sua divindade.
-Lucas é identificado com o boi, animal tradicionalmente associado aos sacrifícios do Antigo Testamento. Seu Evangelho enfatiza Cristo como o Sacerdote e a Vítima perfeita que oferece sua própria vida pela salvação da humanidade. Lucas destaca de modo especial a misericórdia divina, a universalidade da redenção e o amor de Deus por todos, especialmente pelos pobres, pecadores, mulheres, estrangeiros e marginalizados. O boi, símbolo do sacrifício, expressa admiravelmente essa dimensão redentora da missão de Cristo.
-Por fim, João é simbolizado pela águia, considerada desde a Antiguidade a ave capaz de voar mais alto e contemplar diretamente a luz do sol. Assim também o quarto Evangelho eleva o leitor às maiores alturas da contemplação teológica. Enquanto os Evangelhos Sinóticos concentram-se sobretudo na vida pública de Jesus, João conduz o leitor ao mistério eterno do Verbo, iniciando sua narrativa antes mesmo da criação do mundo: "No princípio era o Verbo..." (Jo 1,1). Seu Evangelho penetra mais profundamente na identidade divina de Cristo, razão pela qual a tradição cristã lhe atribuiu o símbolo da águia.
Mais importante, porém, do que determinar qual Padre da Igreja apresentou a correspondência mais adequada entre os quatro seres vivos e os Evangelistas, é compreender a mensagem teológica comum presente em toda a tradição patrística. Os quatro seres vivos não existem para satisfazer curiosidades acerca de figuras misteriosas do Apocalipse nem para alimentar interpretações esotéricas, numerológicas ou fantasiosas. Eles apontam para uma realidade muito mais elevada: a centralidade de Cristo, a harmonia dos quatro Evangelhos e o louvor incessante prestado a Deus por toda a criação.
Ao redor do trono divino, esses seres proclamam sem cessar: "Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus Todo-Poderoso" (Ap 4,8). A Igreja sempre viu nessa liturgia celeste um reflexo da própria liturgia celebrada na terra, especialmente na Santa Missa, onde nos unimos aos anjos e santos para glorificar a Santíssima Trindade.
Assim, os quatro seres vivos recordam que toda a criação existe para dar glória ao Criador e que toda a Revelação converge para Cristo, o Cordeiro imolado e glorificado.
É justamente por isso que a iconografia cristã, desde os primeiros séculos, passou a representar os quatro Evangelistas acompanhados de seus respectivos símbolos.
Não se trata de meros elementos decorativos, mas de uma verdadeira catequese visual. Cada figura revela um aspecto da riqueza inesgotável do único Evangelho de Jesus Cristo: o Leão anuncia o Rei-Messias; o Homem manifesta o Verbo encarnado; o Boi proclama o Sacrifício redentor; e a Águia contempla a glória eterna do Filho de Deus.
Em última análise, os quatro seres vivos nos ensinam que os quatro Evangelhos não são relatos concorrentes nem contraditórios, mas quatro perspectivas complementares de um único mistério: Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Rei, Servo, Sacerdote e Senhor glorificado. Juntos, eles formam uma sinfonia perfeita da Revelação divina, conduzindo a Igreja de todos os tempos à contemplação daquele que está sentado no trono e do Cordeiro, "ao qual pertencem a honra, a glória e o poder pelos séculos dos séculos" (cf. Ap 5,13).
*Francisco José Barros de Araújo – Bacharel em
Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636 do Processo
Nº 003/17
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