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O que a Teologia (antiga e moderna) diz a respeito dos "quatro seres vivos de Ezequiel e Apocalipse?"

Written By Beraká - o blog da família on quinta-feira, 30 de agosto de 2012 | 00:38



Por *Francisco José Barros Araújo 



Entre as muitas imagens misteriosas presentes na Sagrada Escritura, poucas despertaram tanto fascínio e deram origem a tantas interpretações ao longo da história da Igreja quanto a visão dos quatro seres vivos descritos pelo profeta Ezequiel e retomados por São João no livro do Apocalipse. Desde os primeiros séculos do cristianismo, Padres da Igreja, teólogos, exegetas e místicos procuraram compreender o significado dessas figuras extraordinárias que aparecem intimamente ligadas ao trono de Deus, participando incessantemente do louvor celeste.



-Ao longo da história da interpretação bíblica, surgiram diversas explicações. Alguns enxergaram nesses seres os quatro Evangelistas, interpretação que se tornou clássica na tradição cristã. Outros os identificaram como uma representação simbólica de toda a criação, reunindo o mundo animal, doméstico, selvagem e humano em perpétua adoração ao Criador. Há ainda interpretações patrísticas e medievais que os relacionam aos atributos de Cristo, às virtudes divinas, às ordens angélicas ou aos diversos aspectos da economia da salvação.


-Entretanto, não faltaram interpretações mais ousadas e até mesmo controversas. Já se afirmou, por exemplo, que "o quarto ser vivo seria Maria", ideia encontrada em alguns autores de espiritualidade e atribuída por alguns ao poeta Luís de Camões em contexto devocional. 


-Outros sustentaram que o quarto ser representaria a própria natureza humana de Cristo glorificada no seio da Santíssima Trindade. 


-Em tempos mais recentes, apareceram interpretações alegóricas, psicológicas, esotéricas e até ufológicas, completamente estranhas à tradição exegética da Igreja e sem qualquer fundamento sólido na Revelação.



Diante dessa variedade de interpretações, surge naturalmente a pergunta: 



-Afinal, o que realmente ensina a teologia católica? Existe uma interpretação oficial da Igreja? 

-Como os Padres da Igreja compreenderam esses misteriosos personagens? 

-O que dizem Santo Irineu, Orígenes, Santo Agostinho, São Gregório Magno, São Jerônimo, Santo Tomás de Aquino e os principais exegetas modernos? 

-Há continuidade entre a interpretação antiga e a moderna ou houve mudanças significativas?


Para responder adequadamente a essas questões, é preciso, antes de tudo, voltar ao texto inspirado, deixando que a própria Escritura interprete a Escritura. Afinal, tanto Ezequiel quanto São João descrevem uma mesma realidade celeste mediante uma linguagem profundamente simbólica, típica da literatura profética e apocalíptica, cujo objetivo não é satisfazer curiosidades, mas revelar verdades espirituais acerca da majestade de Deus, da liturgia celeste e da participação de toda a criação no culto devido ao Senhor.







Comecemos, portanto, pelos principais textos bíblicos onde esses misteriosos personagens aparecem



-Ezequiel 1,5: "E do meio dela saía a semelhança de quatro seres viventes. E esta era a sua aparência: tinham a semelhança de homem."


-Ezequiel 1,13: "E, quanto à semelhança dos seres viventes, o seu aspecto era como ardentes brasas de fogo, com uma aparência de lâmpadas; o fogo subia e descia por entre os seres viventes, e o fogo resplandecia, e do fogo saíam relâmpagos."


-Ezequiel 10,20: "Estes são os seres viventes que vi debaixo do Deus de Israel, junto ao rio Quebar, e conheci que eram querubins."


-Apocalipse 4,6-8: "À frente do trono, havia como que um mar vítreo, semelhante ao cristal. No meio do trono e ao seu redor estavam quatro seres vivos, cheios de olhos pela frente e por trás. O primeiro ser vivo é semelhante a um leão; o segundo ser vivo, a um touro; o terceiro tem a face como de homem; o quarto ser vivo é semelhante a uma águia em voo. Os quatro seres vivos têm cada um seis asas e são cheios de olhos ao redor e por dentro. E, dia e noite sem parar, proclamam: Santo, Santo, Santo, Senhor Deus Todo-poderoso, Aquele que era, que é e que vem."


-Apocalipse 5,6: "E olhei, e eis que estava no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos um Cordeiro, como havendo sido morto, e tinha sete chifres e sete olhos, que são os sete espíritos de Deus enviados a toda a terra."



A visão de Ezequiel possui também um importante pano de fundo histórico e cultural. Muitos estudiosos reconhecem semelhanças entre os querubins bíblicos e os antigos karibu (ou lamassu) da arte assírio-babilônica: figuras híbridas com corpo de animal alado e rosto humano que eram colocadas à entrada de palácios e templos como guardiãs simbólicas. 

 


A própria palavra hebraica querub (kerûb) provavelmente possui alguma relação etimológica com esse contexto cultural do Antigo Oriente Próximo, embora os querubins bíblicos sejam completamente desmitologizados e colocados exclusivamente a serviço do Deus único de Israel. Não por acaso, Deus ordenou que dois querubins fossem colocados sobre o propiciatório da Arca da Aliança (cf. Êxodo 25,18-22), tornando-se um dos mais importantes símbolos da presença divina no Antigo Testamento.



É importante ressaltar, porém, que a Bíblia não simplesmente copia imagens das culturas vizinhas. Ela frequentemente assume elementos conhecidos de seu contexto histórico para purificá-los de qualquer conteúdo pagão e colocá-los a serviço da revelação do Deus verdadeiro. 

 


Assim, aquilo que no mundo assírio simbolizava a proteção de reis humanos passa, na Escritura, a representar a majestade, a santidade e a soberania absoluta do Senhor dos Exércitos. É a partir dessa chave de leitura — bíblica, patrística e teológica — que procuraremos compreender o verdadeiro significado dos quatro seres vivos contemplados por Ezequiel e por São João.




O Apocalipse tem muitas imagens, e tudo nele é simbólico, cheio de significados!






O próprio número 4 tem sua importância; representa os 4 cantos da terra, os pontos cardeais, os ventos. Além disso os animais são cheios de olhos, que podem ser símbolos da providência divina. A própria forma que têm representa o que há, na criação, de mais nobre, mais forte, mais sábio e mais ágil.


-Mais que personagens históricos, os 4 viventes são símbolos que exprimem o encontro entre a iniciativa salvífica de divina e a resposta que a criação, toda inteira, dá a Deus. 


-Desde o tempo de Irineu, bispo de Lião, na França, esses 4 viventes são símbolos dos 4 evangelistas: Mateus ; Marcos ; Lucas  e  João .






i - A VISÃO DOS QUATRO SERES NO "CONTEXTO JUDAICO":





Deus se comunicou com Ezequiel em visões. A visão é uma revelação milagrosa da verdade de Deus. As de Ezequiel nos parece estranhas porque são apocalípticas. Ele viu imagens que simbolicamente transmitiam o que estava por vir. As pessoas no exílio haviam perdido a perspectiva do propósito de Deus e de sua presença; Ezequiel lhes trouxe uma revelação com a finalidade de mostrar a imensa glória e santidade de Deus, e advertir sobre as conseqüências do pecado antes que fosse tarde demais. Daniel e João foram outros escritores bíblicos que tiveram visões apocalípticas. Nesta primeira visão, Deus chamou Ezequiel para ser um profeta. Nada na experiência prévia de Ezequiel o havia preparado para uma exposição tão grande da gloriosa presença e poder de Deus. A imensa nuvem brilhou com um relâmpago, cercada por uma luz. Do fogo da nuvem saíram quatro seres viventes.Estes mostraram a Ezequiel que a iminente destruição de Jerusalém era um castigo de Deus para Judá por causa dos pecados do povo (estes seres viventes também são citados em Ap 4,6,7).



INTERPRETAÇÃO JUDAICA



-Quando Ezequiel recebeu esta visão, estava longe do Templo de Jerusalém, um símbolo da presença de Deus. Por meio desta visão, aprendeu que Deus está presente em todos os lugares (nos quatro cantos do mundo antigo) e que as atividades dEle no céu, dão forma aos acontecimentos na terra. 


-Cada um dos quatro seres viventes tinha quatro faces, simbolizando a natureza perfeita de Deus. Alguns crêem que: 


-O leão representa a força; 

-O boi: o serviço diligente; 

-O ser humano: a inteligência; 

-E a águia: a divindade.


Outros vêem estas criaturas como as mais majestosas de Deus e dizem que, por esta razão, representam toda a criação.





A visão de João em Apocalípse 4 é semelhante à de Ezequiel





-A "figura semelhante a um homem" revelou a santidade de Deus e preparou Ezequiel para aquilo que Ele estava prestes a dizer-lhe. Esta figura representava o próprio Deus em seu Trono. 

 

 

-De um modo semelhante, Cristo revelou Deus em uma forma humana e nos preparou para sua mensagem de salvação. Cristo entrou na história em um corpo real e humano.



ii - A imagem dos quatro seres vivos na Bíblia:







João utiliza muitas imagens e símbolos no apocalipse. Ignorar estes elementos é passar despercebido pelo texto e nos levará a uma falsa compreensão ou interpretação. A preocupação da pergunta mostra que estas buscando a verdadeira compreensão do texto. 




João retoma elementos do livro de Ezequiel quando fala dos quatro seres vivos em seu escrito, observemos em Ezequiel 1,5:E do meio dela saía à semelhança de quatro seres viventes. E esta era a sua aparência: tinham a semelhança de homem...” 




João conhecedor destes textos do Antigo Testamento reutiliza ajudando a comunidade  a entender a mensagem que queria mostrar em Apoc 4,6-11: 


“6 também havia diante do trono como que um mar de vidro, semelhante ao cristal; e ao redor do trono, um ao meio de cada lado, quatro seres viventes cheios de olhos por diante e por detrás;7 e o primeiro ser era semelhante a um leão; o segundo ser, semelhante a um touro; tinha o terceiro ser o rosto como de homem; e o quarto ser era semelhante a uma águia voando.8 Os quatro seres viventes tinham, cada um, seis asas, e ao redor e por dentro estavam cheios de olhos; e não têm descanso nem de noite, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, aquele que era, e que é, e que há de vir.9 E, sempre que os seres viventes davam glória e honra e ações de graças ao que estava assentado sobre o trono, ao que vive pelos séculos dos séculos,10 os vinte e quatro anciãos prostravam-se diante do que estava assentado sobre o trono, e adoravam ao que vive pelos séculos dos séculos; e lançavam as suas coroas diante do trono, dizendo:11 Digno és, Senhor nosso e Deus nosso, de receber a glória e a honra e o poder; porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade existiram e foram criadas.”







A visão de Ezequiel:








As visões de Ezequiel são importantes, pois falam de quatro seres viventes com quatro rostos diferentes, rostos que correspondem às quatro criaturas citadas em (Ezequiel 1,5-14).


Para Ezequiel os seres viventes são os querubins (Ezequiel 10,9-17) e indica a missão e o papel destes querubins em defender e levar o trono de Deus conforme a vontade Dele. 


Uma vez que entendemos que os seres viventes citados por Ezequiel são os querubins, lembramos também dos querubins que ficavam acima da arca da aliança. Protegendo-a com suas asas.






Na visão de João evangelista






Na visão de João, os seres viventes o leão, touro, homem, águia, são semelhantes a quatro "criaturas": Eles indicam os quatro seres mais fortes que estão liderando o universo físico. Estes quatro seres também evidenciam os quatro elementos que constituem o ser humano: 

-leão = sentimento, 

-águia = intelecto, 

-touro = instinto, 

-homem = rosto. 


Em resumo podemos afirmar: que leão, touro, águia, homem, os quatro seres humanos do apocalipse (Ap 4,6-7), ou em Ezequiel (Ez 1,5-21), representam o que domina o mundo e o que é mais nobre, forte, sábio e ágil na criação.





III - Os quatros seres têm a ver com os evangelistas na "releitura Cristã!"











Respondendo agora a pergunta: Ao interpretarmos ao pé da letra o texto, não encontraremos por escrito uma relação dos seres vivos do apocalipse com os quatros evangelistas. Entretanto, muitos estudiosos fazem esta interpretação desde a época de Irineu, aproximadamente no ano 400 d.C.








IV - A tradição católica:






A teologia católica no decorrer dos séculos, segundo a tradição, tem atribuído a visão a cada um dos quatro evangelistas (Mateus, Marcos, Lucas e João) um simbolismo.








Desde os tempos de Constantino (aprox. 400 d. C.), a tradição cristã com Irineu de Lião, assim interpretou estes seres vivos:






1)- Atribui ao Evangelista Marcos, a figura do Leão (Apo 5.5), o Leão de Judá. A figura do Leão: aparece 28 vezes no Livro de Apocalipse, Jesus é chamado de Leão por Marcos. Contrapõe Jesus com o Imperador Romano. Jesus é o Salvador e não o Imperador.




2)- Bezerro: Lucas mostra toda humildade de Jesus através da figura do Novilho. É um animal de serviço, Jesus veio a terra para servir. Representa este aspecto do ministério de Jesus. Ou ainda lembra a abertura do evangelho de Lucas que acontece no Templo de Jerusalém, com seus sacrifícios rituais e purificações.




3)- Homem: Mateus mostra o lado humano de Jesus. O chama de "Filho do Homem". Seu evangelho inicia com a genealogia de Jesus. Jesus faz parte da historia do Povo de Deus.




4)- Águia: Representa o evangelista João e a idéia é apresentar Jesus como quem tem visão privilegiada. Alguém capaz de chegar aos altos céus. O primeiro capítulo de João apresenta Jesus como Deus. Seu lado Divino. Ele está muito acima de tudo o que podemos ver ou compreender. É o evangelho espiritual, e muitas passagens são difíceis de compreensão. Esta simbólica é retomada por São João no Apocalipse (anos 70 de nossa era, anterior à redação dos Evangelhos).




Os primeiros textos que propõem repartição dos símbolos entre os evangelistas são do segundo século e os símbolos surgem na arte cristã a partir do século V. Com Irineu de Lião (morto em 202) discípulo de Policarpo (convertido por São João), aparece a primeira repartição dos símbolos entre os evangelistas; ela repousa no texto do Apocalipse e a consideração do início de cada evangelho.






A seguir alguns destaques de seu tratado Contra as Heresias (III, XI, 8):





São Jerônimo trata igualmente este problema em uma passagem importante de seu Comentário de Ezequiel (I. 1,10):FRAGMENT DU COMMENTAIRE SUR LE PROPHÈTE ÉZÉCHIEL.






A Homilia retoma e explicita as correspondências indicadas:






À direita o HOMEM (alegre): Mateus , "aquele que raciocina"  - Nascimento do Redentor



À esquerda o BOI (triste): Lucas, "Aquele que é sacrificado" - Crucificação



À direita o LEÃO (alegre):    Marcos , "aquele que é forte e seguro" - Ressurreição



Acima a ÁGUIA: João,  "aquele que é celeste e eterno" - Ascensão (ou melhor: o Verbo assentando junto ao Pai)






Vemos três sistemas diferentes:






1)- Irineu de Lião:





-Sacrifício táurico: Lucas

-Realeza leonina: João

-Nascimento humano:Mateus

-Espírito de profecia (águia): Marcos




 
2)- Atanásio:



-Touro: Marcos

-Leão: Lucas

-Homem: Mateus

-Águia:  João




 
3)- Jerônimo:





-Touro: Lucas

-Leão:Marcos

-Homem:Mateus

-Águia: João
 




Há acordo entre os três no tocante a Mateus.




-Irineu de Lião e Jerônimo estão de acordo sobre Lucas = Touro; 


-Atanásio e Jerônimo estão de acordo quanto João = Águia. 






Agostinho de Hipona fala do Tetramorfo no capítulo VI de sua obra Concordância dos Evangelhos; conhece o sistema de Irineu de Lião que cita para rejeitar mas parece ignorar o de Jerônimo, propondo as seguintes correspondências:




Leão:Mateus

Homem:Marcos

Boi:Lucas

Águia:João






"Ninguém duvida, diz ele, da correspondência do Boi com Lucas. Três dos símbolos são terrestres (o leão, o homem, o boi) acima como uma águia, voa João".







Apocalipse (William Barclay):




E a mesma grande verdade aplica-se a qualquer outro ser vivente. O trabalho bem feito se eleva como um hino de louvor a Deus. Isto significa que o médico ao fazer sua ronda de visitas, o cientista em seu laboratório, o mestre em sua sala de aula, o músico com seu instrumento, a secretária com seu computador, a dona-de-casa em sua cozinha, todos os que estão fazendo as tarefas que são necessárias para que o mundo siga funcionando, unem-se num grande ato harmônico de louvor. Não somente o culto na Igreja, mas sim cada dia, e em cada  uma das tarefas que se executam deveria ir precedida pelo convite: "Adoremos, louvemos a Deus."






O SIMBOLISMO DOS SERES VIVENTES






Apocalipse 4,6b-8: Não transcorreu muito tempo antes da Igreja Primitiva encontrar um simbolismo bem definido para os quatro seres viventes. Em particular, os quatro seres foram, para ela, símbolo dos quatro evangelhos. Esta concepção encontra-se representada, muito freqüentemente, nos vitrais das Igrejas mais antigas. A mais anterior das identificações foi a que fez Irineu no ano 170.Disse que as quatro criaturas representavam quatro aspectos da obra de Cristo, os quais, por sua vez, estão representados nos quatro evangelhos.




-O leão: simboliza a poderosa e efetiva obra do Filho de Deus, sua liderança e seu poder soberano.



-O bezerro: significa o aspecto sacrificial e sacerdotal de sua obra, porque é um animal que se usava para oferecer sacrifícios.



-O homem: simboliza a encarnação, sua vinda como humano.



-A águia: representa o dom do Espírito Santo, que sobrevoa a Igreja com suas asas. Por outro lado, João representa "a original, efetiva e gloriosa geração do Filho a partir do Pai", e diz como todas as coisas foram feitas por Ele. João, portanto, está representado pelo leão




-Lucas começa com a imagem de Zacarias, o sacerdote, e conta como se matou o bezerro engordado para festejar o retorno do filho mais novo.





CONCLUSÃO




O esquema de Agostinho era:



-Mateus: o leão 


-Marcos: o bezerro


-Lucas: o boi 


-João: a águia





Embora, ao longo da história da exegese cristã, tenham surgido diferentes formas de relacionar os quatro seres vivos aos quatro Evangelistas — sobretudo em Santo Irineu, São Jerônimo e São Gregório Magno —, muitos estudiosos reconhecem que o esquema de Santo Agostinho é um dos que melhor harmoniza os símbolos com a estrutura e a intenção teológica de cada Evangelho. 



Não se trata de um dogma da Igreja, mas de uma interpretação tradicional de grande valor espiritual e catequético, amplamente acolhida na arte sacra, na liturgia e na espiritualidade cristã.




-Mateus é simbolizado pelo leão, porque apresenta Cristo como o esperado descendente de Davi, o Rei-Messias prometido pelos profetas, o verdadeiro "Leão da tribo de Judá" (cf. Ap 5,5), em quem se cumprem todas as promessas feitas ao povo de Israel. Seu Evangelho possui forte caráter régio e messiânico, demonstrando continuamente que Jesus é o legítimo herdeiro do trono de Davi e o cumprimento das Escrituras.

-Marcos é representado pelo homem, pois seu Evangelho apresenta Jesus em sua vida concreta, em sua intensa atividade missionária, em suas emoções, fadiga, compaixão e proximidade com as pessoas. É o Evangelho mais dinâmico, descrevendo o Cristo Servo em constante ação, revelando de maneira muito viva sua verdadeira humanidade, sem jamais negar sua divindade.

-Lucas é identificado com o boi, animal tradicionalmente associado aos sacrifícios do Antigo Testamento. Seu Evangelho enfatiza Cristo como o Sacerdote e a Vítima perfeita que oferece sua própria vida pela salvação da humanidade. Lucas destaca de modo especial a misericórdia divina, a universalidade da redenção e o amor de Deus por todos, especialmente pelos pobres, pecadores, mulheres, estrangeiros e marginalizados. O boi, símbolo do sacrifício, expressa admiravelmente essa dimensão redentora da missão de Cristo.

-Por fim, João é simbolizado pela águia, considerada desde a Antiguidade a ave capaz de voar mais alto e contemplar diretamente a luz do sol. Assim também o quarto Evangelho eleva o leitor às maiores alturas da contemplação teológica. Enquanto os Evangelhos Sinóticos concentram-se sobretudo na vida pública de Jesus, João conduz o leitor ao mistério eterno do Verbo, iniciando sua narrativa antes mesmo da criação do mundo: "No princípio era o Verbo..." (Jo 1,1). Seu Evangelho penetra mais profundamente na identidade divina de Cristo, razão pela qual a tradição cristã lhe atribuiu o símbolo da águia.




Mais importante, porém, do que determinar qual Padre da Igreja apresentou a correspondência mais adequada entre os quatro seres vivos e os Evangelistas, é compreender a mensagem teológica comum presente em toda a tradição patrística. Os quatro seres vivos não existem para satisfazer curiosidades acerca de figuras misteriosas do Apocalipse nem para alimentar interpretações esotéricas, numerológicas ou fantasiosas. Eles apontam para uma realidade muito mais elevada: a centralidade de Cristo, a harmonia dos quatro Evangelhos e o louvor incessante prestado a Deus por toda a criação.



Ao redor do trono divino, esses seres proclamam sem cessar: "Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus Todo-Poderoso" (Ap 4,8). A Igreja sempre viu nessa liturgia celeste um reflexo da própria liturgia celebrada na terra, especialmente na Santa Missa, onde nos unimos aos anjos e santos para glorificar a Santíssima Trindade. 




Assim, os quatro seres vivos recordam que toda a criação existe para dar glória ao Criador e que toda a Revelação converge para Cristo, o Cordeiro imolado e glorificado.



É justamente por isso que a iconografia cristã, desde os primeiros séculos, passou a representar os quatro Evangelistas acompanhados de seus respectivos símbolos. 


Não se trata de meros elementos decorativos, mas de uma verdadeira catequese visual. Cada figura revela um aspecto da riqueza inesgotável do único Evangelho de Jesus Cristo: o Leão anuncia o Rei-Messias; o Homem manifesta o Verbo encarnado; o Boi proclama o Sacrifício redentor; e a Águia contempla a glória eterna do Filho de Deus.



Em última análise, os quatro seres vivos nos ensinam que os quatro Evangelhos não são relatos concorrentes nem contraditórios, mas quatro perspectivas complementares de um único mistério: Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Rei, Servo, Sacerdote e Senhor glorificado. Juntos, eles formam uma sinfonia perfeita da Revelação divina, conduzindo a Igreja de todos os tempos à contemplação daquele que está sentado no trono e do Cordeiro, "ao qual pertencem a honra, a glória e o poder pelos séculos dos séculos" (cf. Ap 5,13).



*Francisco José Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº  003/17 



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