Se o
mundo jaz sob o maligno (1 João 5,19) a política também?
Essa pergunta, desconfortável para muitos cristãos, torna-se inevitável diante da realidade histórica: guerras, corrupção, manipulação ideológica, perseguições religiosas e sistemas que frequentemente instrumentalizam o ser humano em nome do poder.
A Sagrada
Escritura não ignora essa tensão. Pelo contrário, ela reconhece que a história
humana é também palco de um combate espiritual permanente entre o Reino de Deus
e as forças que se opõem à verdade, à justiça e à dignidade da pessoa humana.
Se o mundo está marcado pelo pecado, é lógico admitir que o demônio procure agir também nas estruturas sociais, culturais e políticas. A política, enquanto organização da vida comum, não é neutra: ela pode servir ao bem comum ou tornar-se instrumento de dominação, mentira e injustiça. Por isso, não basta falar de justiça em termos meramente ideológicos ou pragmáticos; é necessário perguntar: existe verdadeira justiça sem fundamento moral? Pode haver boa política sem referência à lei natural, à verdade e à responsabilidade diante de Deus?
Ao longo da história, muitos cristãos adotaram posições extremas.
Alguns passaram a considerar a política como algo intrinsecamente corrupto —
“coisa do diabo” — devendo ser evitada pelos fiéis. Outros reduziram a política
a simples meio de sobrevivência social ou econômica, esvaziando-a de qualquer
dimensão ética ou espiritual. Há ainda aqueles que, incapazes de distinguir
missão religiosa e militância partidária, transformam o altar em palanque,
confundindo evangelização com propaganda ideológica e instrumentalizando a fé
para projetos temporais.
Entretanto, a Revelação bíblica apresenta um caminho mais profundo e equilibrado. A Bíblia não propõe fuga do mundo, mas também não autoriza sua absolutização. Jesus Cristo não fundou um partido político, mas tampouco foi indiferente à vida pública. Ele ensinou: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21), estabelecendo uma distinção essencial sem separar completamente fé e responsabilidade social. Os profetas denunciaram reis injustos; os apóstolos anunciaram Cristo mesmo diante do poder imperial; e a Igreja, ao longo dos séculos, desenvolveu uma rica reflexão sobre autoridade, justiça, bem comum e participação dos leigos na sociedade.