
A vida cristã se radicaliza no chamado que Deus
faz a cada pessoa, de forma singular, única e irrepetível. O Senhor disse a Abraão: “Sai de tua terra, do
meio dos teus parentes, da casa do teu pai, e vai para a terra que vou te
mostrar” (Gen 12,1). Todo chamado implica em escutar, discernir e
dar uma resposta pessoal. O chamamento se fundamenta no diálogo entre Deus e a
criatura humana.O profeta Jeremias é o grande
protagonista da experiência da sedução e daquele que experimenta de Deus.A tradição cristã vislumbrou, na sua
vicissitude histórica e interior, uma profecia, e quase uma antecipação da sorte
de Jesus, na sua missão de messias e servo sofredor, chamado pelo Pai a ser
instrumento de salvação, não somente para o povo de Israel, mas para todos os
povos e nações.Pressuposto desta inteligência
espiritual do mistério de Cristo é a convicção de fé que o único desígnio de
salvação de Deus foi manifestado gradualmente no AT e realizado plenamente em
Jesus, na sua missão, morte e ressurreição. Jesus faz a unidade dos dois
testamentos.Nas experiências do profeta e de Jesus
vislumbramos, refletido como num espelho, algo da nossa experiência pessoal,
enquanto pessoas chamadas pelo Pai a seguir Jesus no caminho do reino. Ao lembrar o drama humano e espiritual
de Jeremias e de Jesus, poderíamos ficar admirados e até comovidos, como
leitores sensíveis de nobres histórias do passado, capazes de tocar nossos
sentimentos e de nos edificar.A Santa mãe Igreja, porém, através da
liturgia, nos ajuda a descobrirmos que desta mesma história, humana e divina ao
mesmo tempo, somos não somente leitores atentos, mas co-protagonistas.O caminho de Deus é único e sempre o
mesmo. Deus continua conosco sua surpreendente história: “Se alguém
quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24).
E Paulo, na carta aos Romanos, destaca: “Não vos conformeis com o mundo, mas
transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e de julgar” (Rm 12,2).“Eu, como cordeiro manso levado ao matadouro,
não sabia dos planos homicidas que tramavam contra mim... Mas tu, Senhor dos
exércitos, julgas retamente, sondas as entranhas e o coração; a ti confiei
minha causa...” (Jr 11,19-20). A relação com Deus conhece alternações
entre doces intimidades e tons de combate corpo a corpo. Cantos de vitória e
queixas por ter sido enganado e seduzido pelo Senhor como por um amante
enganador. “Seduziste-me Senhor, e deixei-me seduzir; foste mais forte,
tiveste mais poder” (Jr 20,7).Lacerações da alma, dúvidas sofridas
mesmo sobre a confiabilidade de Deus, tentação de abandonar o campo, devido às
contrariedades suscitadas pelo anúncio fiel da palavra perturbadora do Senhor.
é impossível se subtrair ao fogo do Senhor!
“A palavra do Senhor tornou-se para mim fonte de
vergonha e de chacota o dia inteiro. Disse comigo: ‘Não quero mais lembrar-me
disso nem falar mais em nome dele’. Senti então dentro de mim um fogo ardente a
penetrar-me o corpo todo; desfaleci, sem forças para suportar” (Jr 20,
8-9).
Mesmo no meio de tamanhas tempestades,
o profeta renova sua entrega ilimitada ao Senhor e chega a cantar a vitória que
vem de Deus: “Mas o Senhor está comigo como poderoso soldado, meus
perseguidores tropeçarão e não me vencerão; sentirão a vergonha do seu fracasso,
um rubor eterno e inesquecível” (Jr 20,11).Revigorado pela fidelidade confirmada
de Deus ao seu plano de salvação e pela confiança renovada na vitória final do
seu amor misericordioso sobre o mal, Jeremias abre ao final a perspectiva da
aliança, “nova e eterna” que o próprio Deus vai estabelecer no futuro com seu
povo.Ela será inscrita diretamente no
coração das pessoas pelo Espírito, e será implementa por ele mesmo (cf Jr 31,
31-34). No seu trajeto pessoal, trágico e sublime, o profeta experimenta
primeiro o alvejar deste novo dia.Também o canto confiante do profeta e a
dilatação das suas perspectivas sobre o futuro, serão a meta final de um
caminho longo e atormentado, fruto de repetidas conversões ao Senhor,
renovado dom de graça, assim como dom de graça foi sua primeira escolha e
consagração como profeta por parte do Senhor, quando ele se encontrava ainda
guardado no ventre de sua mãe (cf Jr 1, 5). Este percurso interior, tão aderente ao
desígnio misterioso de Deus e tão dramático, é-nos oferecido e partilhado, com
excepcional intensidade literária e espiritual, nas chamadas “confissões” de
Jeremias que se encontram no seu livro: cc.11; 15; 17; 18; 20.
Que cada um tenha a graça e a coragem de se
confrontar, com humildade e confiança, com o caminho do profeta!
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| (A angustia e consolo do Profeta Jeremias) |
Estes textos representam não só etapas
e aspectos fundamentais da autobiografia interior do profeta, mas vão além.
Constituem testemunhos excepcionais de um caminho interior que supera os
limites da história individual de Jeremias. Afirmam-se como modelos de todo
caminho espiritual.A história da
espiritualidade cristã nos oferece inúmeros exemplos de homens e mulheres,
profundamente apaixonados por Deus, que tem atravessado o mesmo deserto e
experimentado as mesmas provações.Através deste trajeto
eles são conduzidos pelo Senhor à mesma intimidade com ele, intimidade esta
possibilitada pelo esvaziamento de toda resistência humana.Estas pessoas tem realizado em si
mesmas a passagem do tríduo pascal de Jesus, através da paixão e da morte,
assumidas como entrega confiante em Deus, até a ressurreição, à vida nova do
Ressuscitado.O Paradoxo do amor divino que se imola
para criar vida! Mistério da fragilidade do homem, que Deus não rejeita, mas
resgata!O mesmo Pedro, declarado pouco antes
por Jesus “iluminado pelo Pai,” e “bem-aventurado”, por ter proclamado com
confissão de fé autêntica em Jesus “filho do Deus vivo” ( cf Mt 16, 16-18), é
afastado por Jesus, porque atua como “Satanás”, aquele que atrapalha seu
caminho.Escolhido por Jesus a ser “pedra de
fundação” da sua Igreja, Pedro agora se revela, ao invés, como “pedra de
tropeço”, pois “não pensa as coisas de Deus mas as coisas dos homens” .Ele se manifesta ainda totalmente
estranho ao caminho de Deus e de Jesus: “Deus não permita tal coisa, Senhor!
Que isso nunca te aconteça!” (Mt 16,22-24).
A resposta de Jesus aponta seu próprio caminho,
como caminho a ser partilhado por todo discípulo:
“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome
a sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar sua vida vai perdê-la; e quem
perder a sua vida por causa de mim vai encontrá-la” (Mt 16,24-25).
Paulo reafirma a exigência desta
reviravolta na maneira de julgar e de atuar por parte do cristão, como condição
de viver em maneira coerente com a nova condição de renascidos no Espírito (Rm
12,1-2). Viver segundo os novos critérios
inspirados pelo Espírito de Jesus, é a maneira de dar o verdadeiro culto a
Deus, pois :
“A glória de Deus é o homem que vive a vida de
Deus” (Santo Ireneu).
Fonte: Zenit
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