por*Francisco
José Barros de Araújo
A teologia católica sempre ensinou que os sacramentos da iniciação cristã — Batismo, Crisma e Eucaristia — pertencem a um único processo espiritual, mas possuem naturezas e exigências distintas, e compreender isso exige retornar às fontes da Igreja primitiva, ao ensinamento do Catecismo da Igreja Católica, aos Padres da Igreja e à tradição sacramental: nos primeiros séculos do cristianismo não existiam dois processos formativos separados para Batismo e Crisma como ocorre hoje; havia uma única catequese chamada catecumenato, na qual o convertido era progressivamente iluminado na fé até receber, na mesma celebração pascal, os três sacramentos da iniciação — primeiro o Batismo, depois a unção do Espírito Santo (hoje chamada Crisma) e finalmente a participação plena na Eucaristia — sendo esta última o ápice da comunhão eclesial; autores antigos como São Cirilo de Jerusalém e Santo Ambrósio de Milão descrevem claramente esse caminho como um processo de iluminação espiritual gradual, no qual a Crisma não era prêmio para perfeitos, mas fortalecimento para quem ainda estava sendo configurado a Cristo pelo Espírito Santo.
A Crisma, portanto, possui natureza essencialmente formativa e missionária: ela confirma o Batismo, imprime o selo espiritual do Espírito Santo e capacita o fiel a crescer na fé, testemunhar Cristo e amadurecer na vida cristã; por isso, embora o Código de Direito Canônico recomende que o crismando esteja devidamente preparado e disposto espiritualmente, a Igreja nunca equiparou sua exigência sacramental ao estado de graça estrito requerido para a recepção da Eucaristia. A razão teológica é profunda: a Eucaristia não é apenas fortalecimento, mas comunhão plena com Cristo e com a Igreja, sendo chamada pela tradição de “sacramento dos sacramentos”, pois torna presente o próprio Corpo e Sangue do Senhor; desde São Paulo Apóstolo, que advertia em 1Cor 11 sobre receber indignamente o Corpo do Senhor, a Igreja ensina que quem está em pecado grave ou em situação objetiva contrária ao Evangelho não pode comungar enquanto não houver conversão sacramental e regularização de vida, princípio reafirmado por documentos como a exortação Familiaris Consortio e posteriormente retomado em Amoris Laetitia, que mantêm a disciplina eucarística ao mesmo tempo em que incentivam acompanhamento pastoral e integração progressiva dos fiéis.
É nesse ponto que se compreende por que pessoas em segunda união podem, após discernimento pastoral, receber a Crisma mesmo não podendo comungar: a Crisma pertence ao dinamismo da iluminação e do crescimento espiritual, não ainda à plena comunhão sacramental; ela fortalece alguém que está caminhando, não necessariamente alguém já plenamente reconciliado em todas as dimensões sacramentais.
Historicamente, a separação temporal do processo formativo entre Batismo e Crisma surgiu apenas séculos depois, quando o crescimento das comunidades cristãs tornou impossível a presença constante do bispo em todos os batismos, levando a Igreja latina a reservar a confirmação episcopal para momento posterior; essa evolução pastoral nunca mudou a lógica teológica original: Batismo gera o cristão, Crisma o fortalece e envia, Eucaristia o introduz na comunhão plena.
Assim, quando o bispo ou pároco admite à Crisma alguém em situação matrimonial irregular, não está relativizando a moral católica nem “aprovando” a situação de vida, mas aplicando a pedagogia sacramental da Igreja, que busca conduzir gradualmente à conversão, oferecendo a graça que fortalece antes mesmo da plena participação eucarística; o fiel é chamado a compreender que receber a Crisma não significa autorização para comungar, pois a Comunhão exige estado de graça e coerência objetiva com o ensinamento matrimonial da Igreja, enquanto a Crisma permanece um sacramento de confirmação do Batismo e de crescimento na fé, expressão concreta da misericórdia pastoral que não exclui quem ainda está em caminho, mas o fortalece para que um dia possa alcançar também a plenitude da comunhão sacramental na Santa Eucaristia.
Você sabia que pessoas em segunda união
podem receber a Crisma, mas não podem Comungar? Saiba o porque
Sim, o bispo diocesano ou o pároco tem autoridade para decidir sobre a administração do sacramento da Crisma, mas sempre dentro da disciplina da Igreja Católica. Vou detalhar:
1.Autoridade
do bispo diocesano local
-O sacramento da Crisma é geralmente conferido pelo bispo, que é o ministro ordinário do sacramento. É ele tem prioritariamente, a responsabilidade pastoral de discernir quem está preparado para recebê-lo, incluindo a consideração do estado de vida dos fiéis.
2. Sobre pessoas em Segunda
união:
A Igreja ensina que pessoas que vivem em segunda união sem que a primeira união tenha sido anulada estão em situação irregular segundo o casamento canônico.Isso afeta a recepção de certos sacramentos, especialmente a Eucaristia, mas também, pode influenciar a preparação e a administração da Crisma (cada caso é um caso, não podendo tratar todos de igual forma, é preciso análise e juízo criterioso de cada caso).
3.Papel
do pároco:
O pároco, como pastor local, pode orientar, preparar e até sugerir a administração do sacramento, mas geralmente precisa da aprovação do bispo para casos pastorais delicados. Em casos de segunda união, o pároco pode orientar a pessoa sobre a regularização da situação antes de receber a Crisma, ou permitir a Crisma dependendo da uma minuciosa avaliação pastoral (algumas dioceses já determinam a todos os párocos que não administrem o sacramento da Crisma sem a devida regularização de algum impedimento, outras deixam a cargo dó pároco junto aos catequistas a análise de casa caso e sua posterior liberação ou impedimento).
4.Flexibilidade
pastoral:
Há situações em que o bispo pode conceder uma exceção pastoral, por exemplo, se a pessoa demonstrar desejo sincero de crescer na fé e se arrepender de situações passadas, mesmo sem comungar.
A decisão costuma ser
individualizada, considerando a fé, intenção e contexto da pessoa.
O bispo diocesano tem autoridade final para
permitir ou não que alguém em segunda união receba a Crisma. O pároco pode
orientar e sugerir, mas não pode contrariar a orientação do bispo.
Pessoas em segunda união ou com impedimentos para receber a
Eucaristia podem receber o sacramento da Crisma, mas há algumas nuances
importantes que a Igreja Católica observa:
1. Crisma
(ou Confirmação): é um sacramento que confere a graça do Espírito Santo e
fortalece o cristão na fé. Não exige estar em estado de graça no mesmo sentido
estrito da Eucaristia, ou seja, não é necessário estar livre de pecado mortal
para recebê-la, embora seja fortemente recomendado viver de forma coerente com
a fé.
2.Impedimentos
relacionados à Eucaristia:
Pessoas que vivem em segunda união não podem receber a Eucaristia sem passar por uma regularização (como o reconhecimento de nulidade do casamento anterior ou viver em continência).Esses impedimentos não impedem automaticamente a Crisma, porque o sacramento não exige a mesma condição de estado de graça que a Comunhão.
3.Exortação pastoral:
A Igreja costuma orientar que a
Crisma seja recebida com compreensão do compromisso de fé e desejo de seguir
Cristo, e não como um “sinal de aprovação moral”. Ou seja, quem recebe a Crisma
deve estar disposto a aprofundar a vida cristã, mas a situação matrimonial
irregular não bloqueia o sacramento.
Resumo:
-Dependendo de uma análise pastoral de cada caso, pessoas em união irregular (segunda união), pode até em alguns casos, receber a Crisma.
-Pessoas em segunda união, convivendo maritalmente, não pode
receber a Eucaristia, enquanto o impedimento não for resolvido.
OBSERVAÇÃO: Caso essas pessoas "vivam como irmãos" até a regularização do impedimento, podem receber a eucaristia, porém, cientes e concordantes entre si que:
1º)-Irmãos não se relacionam sexualmente.
2º)-Irmãos não dormem no mesmo quarto, não se vêm nus constantemente, e não vivem se provocando sensualmente.
Documentos oficiais da Igreja sobre o assunto:
No Código de Direito Canônico (CIC, 1983),
os impedimentos para a recepção do sacramento da Crisma (Confirmação) são
tratados de forma geral, já que a Crisma é um sacramento de iniciação que
normalmente se segue ao Batismo. Vou detalhar com base nos cânones mais relevantes:
1. Quem pode receber a Crisma
-Can. 889 §1: A Crisma é conferida aqueles que já receberam o Batismo e ainda não foram crismados.
-Can. 893: O crismando deve estar em estado de graça e ter a devida preparação, incluindo catequese adequada.
2. Idade da preparação para a Crisma (Catecumenato)
-Can. 891 §1: A Crisma é conferida geralmente na idade da razão (aproximadamente 7 anos ou mais), quando a pessoa pode assumir conscientemente a fé.
-Can. 892: A Conferência Episcopal pode estabelecer a idade apropriada para a Crisma.
-Can. 893: É necessário que o candidato tenha preparação adequada, incluindo o conhecimento da fé e disposição para receber o sacramento.
3. Impedimentos específicos à Crisma
O Código de Direito Canônico não lista
tantos impedimentos como ocorre no Matrimônio ou na Ordenação, mas alguns
pontos podem impedir a recepção válida da Crisma:
1.Falta
de Batismo válido → não se
pode crismar alguém que não é
batizado (Can. 889).
2.Não
ter idade mínima estabelecida pela Conferência Episcopal (Can. 891 §1).
3.Falta
de intenção ou disposição → alguém que rejeita a fé ou não tem
intenção de receber o sacramento não pode recebê-lo validamente (Can. 891 §2).
4.Excomunhão
ou censuras → certas censuras podem impedir
sacramentalmente a recepção até serem levantadas (Can. 1331, 1332).Ex. Defesa e prática do aborto.
5.Ausência
de catequese ou preparação → o sacramento não deve ser conferido sem formação mínima
adequada (Can. 892, 893).
4. Quem pode negar a Crisma?
-O bispo é o ministro ordinário da Crisma (Can. 882 §1).
-O bispo ou o pároco pode recusar a administração do sacramento se houver motivos justos, como ausência de preparação adequada ou obstáculo grave à fé (Can. 892, 893).
Portanto, os impedimentos principais são falta de Batismo válido, idade inadequada, ausência de disposição de fé ou preparação, e censuras canônicas graves (excomunhões). Fora isso, em casos de segunda união ou situação conjugal irregular, a Igreja não impede automaticamente a Crisma, embora possa orientar pastoralmente antes do sacramento.
Fundamentos Teológicos e Pastorais
1. Natureza dos Sacramentos
-Crisma (ou Confirmação): Este sacramento confere o fortalecimento do Espírito Santo e é considerado um "selo espiritual". A Igreja ensina que a Crisma é um meio de aprofundar a fé e o compromisso com Cristo. Não exige estar em estado de graça no mesmo sentido da Eucaristia, ou seja, não é necessário estar livre de pecado mortal para recebê-la, embora seja recomendável viver de forma coerente com a fé. A Crisma é vista como um sacramento que capacita o cristão a testemunhar a fé e a viver de acordo com os ensinamentos de Cristo.
-Eucaristia: A recepção da Eucaristia requer que o fiel esteja em estado de graça, ou seja, livre de pecado mortal. A Igreja ensina que a Eucaristia é o "sacramento dos sacramentos", sendo o centro da vida cristã. Portanto, aqueles que vivem em união irregular, como uma segunda união sem anulação do primeiro casamento, não podem receber a Eucaristia até que sua situação seja regularizada.
2. Impedimentos para a Eucaristia
Pessoas que vivem em segunda união sem a
devida anulação do primeiro casamento ou que não vivem em continência
(abstinência sexual) podem ser impedidas de receber a Eucaristia, conforme o
ensinamento da Igreja. No entanto, esse impedimento não se estende
automaticamente à Crisma, pois os requisitos para a recepção da Crisma são
diferentes dos da Eucaristia.
3. Orientação Pastoral
A Igreja, por meio de seus pastores, pode
orientar que a Crisma seja recebida com compreensão do compromisso de fé e
desejo de seguir Cristo. A situação matrimonial irregular não bloqueia
automaticamente o sacramento da Crisma, mas é importante que o fiel esteja
disposto a aprofundar sua vida cristã e a viver de acordo com os ensinamentos
da Igreja.
Documentos Oficiais
A Igreja Católica, por meio de diversos documentos oficiais, aborda a questão dos sacramentos e da regularização das situações matrimoniais. Alguns desses documentos incluem:
-Catecismo da Igreja Católica (CIC): O CIC aborda os sacramentos e os requisitos para sua recepção. Embora não trate especificamente da situação de segunda união, enfatiza a importância de viver em conformidade com os ensinamentos da Igreja para receber os sacramentos.
-Exortação Apostólica Familiaris Consortio (1981): Este documento do Papa João Paulo II aborda a família e a moral matrimonial, incluindo orientações sobre a recepção dos sacramentos por pessoas em situações matrimoniais irregulares.
-Instrução Pastoral sobre a Pastoral Familiar (1994): Documento que fornece orientações sobre a pastoral familiar, incluindo a questão da recepção dos sacramentos por pessoas em segunda união.
Portanto, na Crisma, pessoas em segunda união ou com impedimentos para receber a Eucaristia podem receber o sacramento da Crisma, desde que estejam dispostas a viver de acordo com os ensinamentos da Igreja e a aprofundar sua vida cristã. Já com relação a Eucaristia, a recepção da mesma requer que o fiel esteja em estado de graça, ou seja, livre de pecado mortal. Pessoas em segunda união sem a devida anulação do primeiro casamento ou que não vivem em continência não podem receber a Eucaristia até que sua situação seja regularizada. A Igreja Católica, por meio de documentos oficiais, aborda a questão da recepção dos sacramentos por pessoas em segunda união. Embora não haja uma declaração específica que permita explicitamente que tais indivíduos recebam o sacramento da Crisma, a orientação pastoral sugere que, em determinadas circunstâncias, eles podem ser admitidos a esse sacramento.
Documentos Relevantes
1.Familiaris Consortio (1981) - Na Exortação Apostólica Familiaris Consortio, o Papa João Paulo II aborda a situação dos divorciados que contraíram nova união. Ele destaca a importância de discernir as situações individuais e de oferecer acompanhamento pastoral adequado. Embora o documento não trate diretamente da Crisma, ele enfatiza a necessidade de acolhimento e acompanhamento pastoral para todos os fiéis, incluindo aqueles em situações matrimoniais irregulares.
2.Carta aos Bispos sobre a Recepção da Comunhão Eucarística por Fiéis Divorciados Novamente Casados (1994) - Esta carta da Congregação para a Doutrina da Fé reafirma a posição da Igreja de que os divorciados que contraíram nova união não podem ser admitidos à comunhão eucarística enquanto persistir tal situação. No entanto, o documento também destaca a importância de um discernimento pastoral cuidadoso e do acompanhamento espiritual desses fiéis, sugerindo que eles podem ser admitidos a outros sacramentos, como a Crisma, dependendo das circunstâncias individuais.
3.Amoris Laetitia (2016) - Na Exortação Apostólica Amoris Laetitia, o Papa Francisco aborda a pastoral familiar e a situação dos divorciados que contraíram nova união. Ele enfatiza a importância do discernimento pastoral e da misericórdia, sugerindo que, em algumas situações, esses fiéis podem ser admitidos a certos sacramentos, incluindo a Crisma, após um processo de acompanhamento e discernimento adequado.
No Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) não estabelece uma idade mínima fixa para o recebimento do sacramento da Crisma (ou Confirmação). A idade para a Crisma é determinada pelas dioceses individuais, com base em diretrizes gerais que consideram a maturidade espiritual e catequética do candidato, mais do que uma idade específica. Como jpa foi dito acima, a CNBB orienta que a preparação para a Crisma deve ser adequada à realidade pastoral local e à capacidade de compreensão dos jovens ou adultos que a recebem. Isso significa que, em algumas dioceses, a Crisma pode ser administrada a partir dos 12 ou 13 anos, enquanto em outras, especialmente em contextos de catequese de adultos, pode ser administrada em idades mais avançadas. Portanto, a idade mínima para a Crisma no Brasil é estabelecida localmente, com base nas necessidades pastorais e na preparação catequética dos candidatos.
É fundamental que o acompanhamento pastoral seja realizado com
sensibilidade, respeito e atenção às circunstâncias individuais de cada pessoa.
Fundamentos Teológicos e Pastorais
A recepção da Crisma não exige o mesmo estado de graça que a
Eucaristia.
O Catecismo da Igreja Católica (CIC) ensina que a Crisma confere o fortalecimento do Espírito Santo e é um meio de aprofundar a fé e o compromisso com Cristo. Embora seja recomendável viver de forma coerente com a fé, a situação matrimonial irregular não impede automaticamente a recepção deste sacramento.A Exortação Apostólica Amoris Laetitia (2016), do Papa Francisco, enfatiza a importância do discernimento pastoral e da misericórdia, sugerindo que, em algumas situações, fiéis em segunda união podem ser admitidos a certos sacramentos, incluindo a Crisma, após um processo de acompanhamento e discernimento adequado. Como já afirmamos anteriormente, não há documentos oficiais que proíbam a recepção da Crisma por pessoas em segunda união. A Igreja adota uma abordagem pastoral que busca acolher e discernir as circunstâncias individuais de cada fiel. É fundamental que o acompanhamento pastoral seja realizado com sensibilidade, respeito e atenção às circunstâncias individuais de cada pessoa.
Sobre a Avaliação pastoral individual
O bispo ou pároco, nessas situações costumam analisar:
-Intenção
da pessoa: quer se comprometer com a fé de forma séria? Deseja participar da vida comunitária servindo a igreja em alguma pastoral ou movimento? É dizimista fiel?
-Conhecimento da fé: participou da catequese, compreende os sacramentos? Concorda com a fé Católica integralmente?
-Situação familiar: se está em segunda união, se há filhos, se houve separação civil ou anulação da primeira união.
-Consciência da limitação: se entende que não poderá comungar até regularizar a situação.
Acompanhamento e orientação
Muitas dioceses pedem entrevistas individuais ou reuniões de preparação.O pároco pode pedir que a pessoa assuma compromissos concretos de vida cristã, mesmo sem comungar. A pessoa recebe orientações claras sobre a comunhão, para que não haja confusão entre Crisma e Eucaristia.
Decisão "definitiva" é do bispo
-Ministro ordinário da Crisma: o bispo tem autoridade final.
-Pode permitir a Crisma, mesmo que a pessoa não possa comungar, como forma de fortalecimento espiritual e incentivo à vida cristã.
-Ou, em alguns casos, pode adiar a Crisma, pedindo que a situação de impedimento seja regularizada primeiro.
Exemplo de prática pastoral
-Caso 1: Pessoa em segunda união, mas participa ativamente da comunidade, faz catequese (catecumenato), e entende que não pode comungar. O bispo permite a Crisma.
-Caso 2: Pessoa que não participa da vida paroquial ou desconhece a fé. O bispo pode sugerir adiamento da recepção da Crisma até que haja amadurecimento e compromisso.
Repito:Não existe regra automática que proíba a Crisma em segunda união. A decisão é pastoral, caso a caso, com base na fé, intenção e vida da pessoa. O objetivo do bispo ou pároco é fortalecer a fé, não punir, mesmo reconhecendo as limitações sacramentais quanto à Eucaristia.Muita gente acha que, se alguém não pode comungar, também não pode receber a Crisma — mas não é exatamente assim!
A Crisma e a Eucaristia: sacramentos diferentes
Crisma: é o sacramento da confirmação da fé, que fortalece a pessoa com o Espírito Santo para viver a vida cristã. Eucaristia: é a comunhão com Cristo, recebendo seu Corpo e Sangue, o que exige estar em estado de graça.A questão central é que a Crisma não depende de estado de graça da mesma forma que a Eucaristia. Alguém pode receber a Crisma mesmo estando em situação irregular (como uma segunda união), mas deve estar consciente do compromisso cristão.
Mas, por que quem está em segunda união não pode comungar?
A disciplina da Igreja sobre a Eucaristia não nasce de julgamento humano, mas da própria natureza do sacramento. A Eucaristia é a expressão máxima da comunhão com Cristo e com a Igreja, por isso exige o chamado estado de graça, isto é, não estar consciente de pecado grave não reconciliado sacramentalmente, conforme ensina o Catecismo da Igreja Católica ao afirmar que quem tem consciência de pecado mortal deve buscar antes o sacramento da Reconciliação.
Quando alguém vive em segunda união sem que o primeiro matrimônio tenha sido declarado nulo, a Igreja entende que permanece objetivamente vinculado ao primeiro vínculo sacramental, e a convivência conjugal posterior configura uma situação contrária ao sacramento do matrimônio, tradicionalmente descrita como adultério, realidade reafirmada por São João Paulo II na Familiaris Consortio. Por essa razão, a pessoa não é excluída da Igreja, não deixa de ser católica, não perde a dignidade de fiel nem é privada da vida comunitária, mas fica impedida de receber a Comunhão sacramental enquanto permanecer essa situação objetiva.
Esse impedimento, porém, não significa rejeição espiritual: ao contrário, a Igreja convida o fiel a continuar participando da missa, da oração, da escuta da Palavra, das obras de caridade e do caminho de conversão, buscando a regularização matrimonial ou, quando possível, assumindo um modo de vida conforme o Evangelho.
Trata-se de uma disciplina medicinal e pedagógica, não punitiva, pois a Comunhão expressa uma união plena que precisa corresponder também à vida concreta do cristão.
Então por que uma pessoa em segunda união ainda pode participar do Catecumenato e receber a Crisma?
Porque a Crisma possui uma finalidade teológica distinta da Eucaristia. A Eucaristia manifesta a comunhão plena já realizada entre o fiel, Cristo e a Igreja; a Crisma, porém, pertence ao caminho de crescimento, fortalecimento e amadurecimento da fé. Desde os primeiros séculos do cristianismo, quando Batismo, Crisma e Eucaristia eram celebrados dentro de um único itinerário catecumenal, a Igreja compreendeu a Confirmação como dom do Espírito Santo concedido não aos perfeitos, mas aos discípulos em processo de conversão, capacitando-os a perseverar, lutar espiritualmente e amadurecer na vida cristã.
Por isso, alguém pode participar do Catecumenato — que é justamente um caminho pedagógico de formação, iluminação e transformação interior — mesmo carregando situações ainda não plenamente regularizadas, pois o Catecumenato não é prêmio para santos prontos, mas escola de conversão para pecadores em caminhada. A própria Escritura ilumina essa compreensão quando Cristo diz a São Pedro Apóstolo em Lucas 22,32: “Eu roguei por ti para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos”. A tradição espiritual da Igreja viu nessa passagem uma profunda lógica sacramental: primeiro vem o fortalecimento da fé concedido por Cristo, depois o amadurecimento progressivo da conversão. Pedro não recebeu a missão de confirmar os irmãos porque já era perfeito — ele ainda negaria Jesus —, mas recebeu a graça para tornar-se aquilo que ainda estava chamado a ser.
Assim também age a Crisma: ela não declara que o fiel já alcançou a plena conformidade moral, mas concede a força do Espírito Santo para ajudá-lo a caminhar rumo a essa plenitude.
Dessa forma, quando o bispo admite à Crisma uma pessoa em segunda união após discernimento pastoral, não está relativizando a doutrina matrimonial, mas aplicando a pedagogia da graça própria da Igreja, que acompanha, forma e fortalece aqueles que desejam sinceramente crescer na fé.
A participação no Catecumenato e a recepção da Crisma tornam-se então parte do próprio processo de conversão contínua, ajudando o fiel a amadurecer espiritualmente, aprofundar sua vida cristã e caminhar, passo a passo, rumo à plena comunhão sacramental que se expressa de modo pleno na Eucaristia.
Por isso, em determinadas situações — após discernimento pastoral sério — pessoas em segunda união podem ser admitidas à Crisma, não como aprovação da situação matrimonial, mas como auxílio espiritual para avançar no caminho cristão.
O bispo, ministro ordinário do sacramento, ou o pároco em comunhão com ele, avaliam cada caso individualmente: a fé da pessoa, sua participação na comunidade, o desejo sincero de viver como cristã e a consciência clara de que ainda não poderá comungar. Normalmente, antes da Crisma, o fiel recebe orientação explícita de que o sacramento não remove automaticamente o impedimento eucarístico e que deve viver a fé dentro das limitações atuais, perseverando na oração, na caridade e na busca da regularização de sua situação.
Assim, a lógica pastoral da Igreja torna-se clara: a Eucaristia manifesta a comunhão plena já alcançada, enquanto a Crisma pode ser concedida como graça de fortalecimento para quem ainda está em caminho, mostrando que a Igreja não abandona quem enfrenta situações complexas, mas oferece meios espirituais para que a pessoa amadureça, converta-se e, quando possível, alcance também a plena participação na mesa eucarística.
concluindo com uma metáfora comparativa:
Resumindo com uma metáfora comparativa que ajuda a entender a lógica sacramental da Igreja: imagine a vida cristã como uma verdadeira escola espiritual fundada por Cristo; o Batismo é o nascimento do aluno, o momento em que ele é admitido oficialmente na escola da fé e passa a pertencer à Igreja; a Crisma é como a confirmação da matrícula e o envio para assumir responsabilidades dentro dessa escola, quando o Espírito Santo fortalece o cristão para aprender, crescer, lutar, amadurecer e testemunhar a fé, mesmo ainda estando em processo de conversão e formação iluminativa.
Já a Eucaristia é diferente, porque não representa apenas participação no processo, mas a plena comunhão com o próprio Mestre, sendo comparável à prova final ou à participação completa na mesa da família cristã, algo que exige estar espiritualmente preparado, reconciliado e em estado de graça.
Por isso, alguém pode receber a Crisma mesmo não podendo ainda comungar: porque a Crisma não é prêmio para quem já chegou à perfeição, mas força divina para quem ainda está caminhando; ela não declara que a pessoa já vive plenamente todas as exigências morais do Evangelho, mas concede a graça necessária para ajudá-la a chegar lá.
Assim, enquanto a Eucaristia pressupõe comunhão plena de vida com
Cristo e com a Igreja, a Crisma atua como impulso de crescimento, iluminação e
fortalecimento espiritual, mostrando que a pedagogia da Igreja não é excluir
quem ainda está em processo, mas acompanhá-lo passo a passo até que, iluminado
pela graça e pela conversão, possa também participar plenamente da mesa
eucarística.
Em outras palavras: é possível estar matriculado e fortalecido para aprender (Crisma), mesmo quando ainda se está organizando a própria vida para poder sentar plenamente à mesa do Senhor (Eucaristia).
ACOLHIMENTO, CONVERSÃO E A PEDAGOGIA PACIENTE DA IGREJA — Sendo ainda mais radical nesse entendimento
É necessário ter maturidade humana e espiritual para compreender
que, se duas pessoas homoafetivas unidas civilmente procuram a Igreja e pedem
para participar do catecumenato, a Igreja não pode impedir esse acolhimento nem
negar a elas o acesso ao caminho de formação cristã, pois o catecumenato não é
um reconhecimento de santidade já alcançada, mas justamente o início de um
processo de encontro, iluminação e transformação em Cristo; desde os primeiros
séculos do cristianismo, a Igreja nunca exigiu perfeição moral prévia para
admitir alguém no caminho da fé, mas exigiu abertura sincera ao Evangelho e
disposição para caminhar sob a ação da graça.
O catecumenato existe exatamente para aqueles que ainda estão em processo, que trazem consigo histórias, situações complexas, feridas, limites e compreensões ainda incompletas da vida cristã, e é nesse percurso progressivo que a pessoa vai sendo evangelizada, formada, corrigida, amadurecida e chamada continuamente à conversão.
Impedir esse acesso seria confundir a porta de entrada com o ponto
de chegada, transformando a Igreja em espaço para poucos já prontos, quando, na
realidade, ela é hospital espiritual para pecadores em busca de redenção. Nesse
sentido, é fundamental distinguir os sacramentos e suas finalidades: a
Eucaristia pressupõe comunhão plena de vida com Cristo e com a Igreja, isto é,
adesão integral à fé e esforço concreto de conformar a própria vida ao
Evangelho; já o caminho catecumenal — que conduz também à Crisma — manifesta a
pedagogia divina que educa lentamente, fortalece interiormente e ilumina a
consciência, permitindo que a pessoa compreenda cada vez mais profundamente a
verdade cristã e livremente responda a ela.
A Crisma, portanto, aparece como impulso de crescimento espiritual, fortalecimento na graça e aprofundamento da fé, não como prêmio aos perfeitos, mas como auxílio para quem está sendo configurado a Cristo dentro de um itinerário real de conversão.
A Igreja,
fiel ao exemplo do próprio Cristo, não legitima o pecado nem relativiza sua
doutrina moral, mas também não fecha as portas a quem deseja aproximar-se da
verdade; Jesus acolhia antes de exigir, caminhava antes de corrigir plenamente
e conduzia as pessoas a uma transformação interior que nascia do encontro com a
misericórdia. Assim, a missão pastoral autêntica consiste em manter unidos dois
elementos inseparáveis: a verdade do Evangelho e a caridade pastoral. Acolher
não significa aprovar automaticamente todas as situações de vida, assim como
ensinar a verdade não significa expulsar quem ainda não conseguiu vivê-la
plenamente; significa acompanhar, discernir, formar e confiar que o Espírito
Santo age no tempo de cada pessoa. A pedagogia da Igreja é gradual porque a
conversão humana também é gradual: ninguém é transformado instantaneamente, mas
pela escuta constante da Palavra, pela oração, pela formação doutrinal e pelo
acompanhamento espiritual.
Por isso, permitir o acesso ao catecumenato é reconhecer que a graça precede a mudança moral e que é justamente a experiência viva com Cristo que torna possível uma verdadeira conversão.
O objetivo final permanece claro: conduzir todos à plena comunhão
com Cristo e com sua Igreja, para que, iluminados pela fé, fortalecidos pela
graça e amadurecidos na liberdade dos filhos de Deus, possam participar
plenamente da mesa eucarística, não por exclusão inicial, mas por um caminho
autêntico de transformação interior, no qual a Igreja não abandona ninguém, mas
caminha junto até que a verdade e o amor se encontrem plenamente na vida
concreta do fiel.
*Francisco
José Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN,
conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº 003/17 - Perfil curricular
no sistema Lattes do CNPq Nº 1912382878452130.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
-Código de Direito Canônico (CIC), 1983 - Trata dos sacramentos de iniciação cristã, incluindo Batismo, Crisma e Eucaristia, e estabelece normas sobre quem pode receber cada sacramento.
-Cânones relevantes: 882 §1; 889 §1; 891–893; 1331–1332. Fonte: http://www.vatican.va/archive/cod-iuris-canonici/cic_index_pt.html
-Catecismo da Igreja Católica (CIC), 1992 - Explica a natureza dos sacramentos, a Crisma como fortalecimento do Espírito Santo e a diferença entre Crisma e Eucaristia.Seções relevantes: 1285–1321 (Crisma); 1391–1419 (Eucaristia).Fonte: https://www.vatican.va/archive/catechism_po/index.htm
-Exortação Apostólica Familiaris Consortio, 1981 – Papa João Paulo II. Aborda a pastoral familiar, a situação de divorciados e nova união e a necessidade de discernimento e acompanhamento pastoral. Fonte: http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_exhortations/documents/hf_jp-ii_exh_19811122_familiaris-consortio.html
-Carta da Congregação para a Doutrina da Fé aos Bispos sobre a Recepção da Comunhão Eucarística por Fiéis Divorciados Recasados, 1994. Reafirma a proibição de comunhão para divorciados em nova união sem regularização, mas enfatiza discernimento pastoral, abrindo espaço para orientação sobre outros sacramentos como a Crisma. Fonte: https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19940824_comunione-divorziati_en.html
-Exortação Apostólica Amoris Laetitia, 2016 – Papa Francisco. Trata da pastoral familiar moderna, da situação de divorciados em nova união, e da necessidade de discernimento individual, misericórdia e acompanhamento pastoral, inclusive em relação a outros sacramentos além da Eucaristia. Fonte: http://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html
-Diretório sobre a Catequese, 2020 – Congregação para o Clero. Orienta sobre a preparação dos fiéis para os sacramentos, incluindo Crisma, e destaca que a avaliação pastoral deve considerar cada caso individualmente. Fonte: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/ccatheduc/documents/rc_con_ccatheduc_doc_20201205_diretório-catequese.html
-Instrução Pastoral sobre a Pastoral Familiar, 1994 – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) - Recomenda acompanhamento pastoral individualizado para fiéis em situações matrimoniais irregulares e indica que sacramentos como a Crisma podem ser admitidos mediante discernimento pastoral.Fonte: https://www.cnbb.org.br (busca: “Instrução Pastoral sobre a Pastoral Familiar CNBB 1994”)
💡 Quer receber
reflexões cristãs como essa, periodicamente?
👉 Clique aqui para seguir o Blog
Berakash
👉 Clique aqui e siga em nosso canal no YouTube
A Paz em
Cristo e o Amor de Maria, a mãe do meu Senhor (Lucas 1,43)



Postar um comentário
Todos os comentários publicados não significam nossa adesão às ideias nelas contidas.O blog oferece o DIREITO DE RESPOSTA a quem se sentir ofendido(a).Os comentários serão analisados criteriosamente e poderão ser ignorados e ou, excluídos se ofensivos a honra.