por *Franzé
Nesse sentido, O Manifesto Comunista se assemelha a outras obras ideológicas radicais da história, como Mein Kampf, de Adolf Hitler, e o Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung no início da China comunista: textos nos quais o autor apresenta ao leitor uma visão direta, não diluída e desprovida de filtros morais de sua doutrina — por mais sombria que ela seja. Ignorar esse traço, relativizá-lo ou reduzi-lo a uma suposta “retórica juvenil” é fechar deliberadamente os olhos para aquilo que o próprio Marx teve o cuidado de declarar de forma explícita. É justamente a partir dessa franqueza — e não de releituras posteriores, suavizadas ou ideologicamente convenientes — que se deve analisar, sem ingenuidade, as propostas concretas de abolição defendidas no Manifesto Comunista. E é exatamente isso que veremos a seguir.
I - O manifesto Começa com a “Abolição propriedade PRIVADA”
Evidentemente, porém, apenas da classe média e dos ricos comuns,
porque militares e membros do partido permanecem com suas propriedades
intocáveis — como ocorre até hoje nos regimes comunistas, a exemplo de China,
Cuba e Coreia do Norte.
O manifesto de Marx tornou-se famoso por resumir toda a teoria do comunismo em uma única frase: "Abolição da propriedade privada". Ao final do segundo capítulo, ele inclusive fornece as 10 medidas necessárias para tornar um país comunista. Diz ele:
“O proletariado usará sua supremacia política para expropriar, de maneira gradual, todo o capital da burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado — isto é, do proletariado organizado como classe dominante...”
Naturalmente, isto só poderá ocorrer por meio de intervenções despóticas no direito de propriedade e nas relações de produção burguesas. Por meio de medidas, portanto, que economicamente parecerão insuficientes e insustentáveis, mas que, no decurso do movimento, levam para além de si mesmas, requerendo novas agressões à velha ordem social.Estas medidas serão, obviamente, naturalmente distintas para os diferentes países.
Não obstante, nos países mais avançados, poderão ser aplicadas de
um modo generalizado:
1. Expropriação da propriedade sobre a terra e aplicação de toda a renda obtida com a terra nas despesas do Estado.
2. Imposto de renda fortemente progressivo.
3. Abolição de todos os direitos de herança.
4. Confisco da propriedade de todos os emigrantes e rebeldes.
5. Centralização do crédito nas mãos do Estado, por meio de um banco nacional com capital do Estado usufruindo monopólio exclusivo.
6. Centralização, nas mãos do Estado, de todos os meios de comunicação e transporte.
7. Ampliação das fábricas e dos instrumentos de produção pertencentes ao Estado; arroteamento das terras "improdutivas" (menos as dos militares e membros do alto comando do partido Comunista), e melhoramento das terras cultivadas, tudo de acordo com um plano geral.
8. Trabalho obrigatório para todos. Criação de exércitos industriais, em especial para a agricultura.
9. Unificação do trabalho agrícola e
industrial. Abolição gradual de toda e qualquer distinção entre cidade e campo
por meio de uma distribuição equilibrada da população (díga-se: trabalhos em "campos forçados" - GULAG's,
como punição) ao longo do território do
país.
10. Educação gratuita para todas as crianças nas escolas públicas, "fechamento das escolas privadas e *Homeschooling" (*modalidade de educação que defende que crianças e adolescentes sejam educados
em casa, pelos pais, em vez de ir às escolas), para a doutrinação infantil mais eficaz e abrangente. Eliminação do trabalho infantil nas fábricas (criança na
escola é mais fácil de ser doutrinada que trabalhando). Unificação da educação
com a produção industrial etc.
Mas estes famosos 10 pontos do manifesto comunista — que vão desde a abolição da propriedade até a instituição do trabalho compulsório e da reorganização da distribuição demográfica — ainda não englobam todo o pensamento de Marx! Com efeito, a abolição da propriedade privada está longe de ser a única coisa que o filósofo acreditava que tinha de ser abolida da sociedade burguesa para permitir a marcha do proletariado rumo à utopia.
Em seu manifesto, Marx enfatizou outras ideias e instituições que
também tinham de ser erradicadas:
II - ABOLIÇÃO DA Família tradicional
No segundo capítulo, Marx admite que a abolição da família — uma instituição burguesa — é um tópico espinhoso, mesmo para os revolucionários. "Abolição da família! Até os mais radicais se assustam com este propósito infame dos comunistas", escreve ele.Em seguida, ele explica que os oponentes desta ideia são incapazes de entender um fato crucial sobre a família."Sobre quais fundamentos se assenta a família atual, a família burguesa? Sobre o capital, sobre o proveito privado. Em sua forma completamente desenvolvida, a família tradicional é uma instituição burguesa e existe somente na burguesia", afirma Marx.
Para melhorar a situação, abolir a família seria relativamente fácil tão logo a propriedade da burguesia fosse abolida:
"A família burguesa será naturalmente eliminada com o
eliminar deste seu complemento, e ambos desaparecerão com o
desaparecimento do capital."
III - "ABOLIR A Individualidade DO SUJEITO" EM PROL DA COLETIVIDADE
E INTERESSES APENAS DO ESTADO
Marx acreditava, corretamente, que o indivíduo e a individualidade eram uma força de resistência ao igualitarismo que ele queria impor. Consequentemente, também no segundo capítulo, Marx afirma que o "indivíduo" — que para ela era "o burguês, o cidadão de classe média detentor de propriedades" — terá de ser "retirado do caminho, suprimido, e ter sua existência impossibilitada".
Segundo Marx, a individualidade é uma construção social da sociedade capitalista e está profundamente arraigada na própria noção de capital:
"Na sociedade burguesa, o capital é independente e possui
individualidade, ao passo que a pessoa é dependente e não possui
individualidade", escreveu ele. "E a abolição deste estado de coisas é rotulada pela burguesia
de abolição da individualidade e da liberdade! E com razão. A abolição da individualidade burguesa, da
independência burguesa e da liberdade burguesa sem dúvida são os nossos
objetivos."
IV - ABOLIR AS "Verdades PERENES E COMUNS AOS POVOS" (COMO DIREITOS HUMANOS/DEMOCRACIA PLENA) EM TROCA
DAS AFIRMAÇÕES MOMENTÂNEAS E REVOLUCIONÁRIAS
-Marx aparentava não acreditar que existisse qualquer outra verdade além da luta de classes. Tudo aquilo que as pessoas comuns consideravam ser verdades era, segundo Marx, apenas imposições da burguesia. Para Marx, a luta de classes era a única verdade inquestionável. E era ela o que determinava todas as outras "verdades": "As ideias dominantes de cada época sempre foram apenas as ideias da classe dominante", disse ele. "Quando o mundo antigo estava em declínio, as religiões antigas foram sobrepujadas pelo cristianismo. Quando as ideias cristãs sucumbiram, no século XVIII, às ideias racionalistas, a sociedade feudal travou sua luta de morte com a burguesia, que então era revolucionária."
-Ele reconheceu que esta ideia soaria radical demais para seus leitores, principalmente quando se considera que "o comunismo não buscava modificar a verdade, mas sim suprimi-la".
Porém, argumentou Marx, essas pessoas simplesmente não estavam tendo a visão global das coisas. Dirão os céticos:
"As ideias religiosas, morais, filosóficas, políticas, jurídicas, etc., sofreram várias modificações no decorrer da história. Entretanto, a religião, a moralidade, a filosofia, a ciência política, e o direito sempre sobreviveram a estas mudanças. Além disso, existem verdades eternas, como Liberdade, Justiça etc., que são comuns a todas as camadas sociais. Já o comunismo quer abolir as verdades eternas, abolir todas as religiões e toda a moralidade, em vez de apenas tentar configurá-las de novo. Consequentemente, o comunismo age em contradição a toda a experiência histórica passada."
Ora, mas a que se reduz esta dedução de Marx?
Ela simplesmente afirma e "confessa que toda a história da sociedade se baseou na evolução dos antagonismos de classes", antagonismos que assumiram diferentes formas em diferentes épocas.
Porém, qualquer que fosse a forma assumida, um fato é comum em Marx a todas as épocas:
A exploração de uma parte da sociedade pela outra. Não é de se admirar, portanto, que a consciência social das épocas passadas, a despeito de toda a multiplicidade e variedade de acontecimentos, se manifeste sempre dentro de padrões similares e de acordo com idéias gerais. E isso só irá desaparecer por completo com o desaparecimento total dos antagonismos de classe.
A tese marxista de que não existem “verdades perenes e comuns a todos os povos”, mas apenas ideias condicionadas pela luta de classes, revela um dos pontos mais problemáticos — e perigosos — do Manifesto Comunista. Marx parte do pressuposto de que toda verdade é produto exclusivo de relações materiais de poder, reduzindo a religião, a moral, o direito, a filosofia e até a noção de justiça a meros instrumentos da classe dominante.
-Assim, conceitos como liberdade, dignidade humana, justiça ou
direitos naturais não seriam realidades objetivas ou universais, mas
construções ideológicas criadas para manter a exploração. A luta de
classes passa, então, a ocupar o lugar de verdade absoluta, funcionando quase
como um dogma secular: tudo se explica por ela, tudo se subordina a ela.
-O problema central dessa tese é sua redução radical da experiência
humana. Ao afirmar que “as ideias dominantes de cada época são as ideias da
classe dominante”, Marx ignora deliberadamente o fato histórico de que muitas
das grandes ideias morais e jurídicas surgiram justamente em oposição ao poder
vigente (como a revolução Francesa), e não como sua extensão.
O cristianismo primitivo, por exemplo, não foi uma ideologia criada pela elite romana para manter a dominação; ao contrário, foi perseguido por séculos por desafiar a ordem estabelecida.
O mesmo vale para o direito natural clássico, para a noção de
dignidade da pessoa humana e, mais recentemente, para os próprios direitos
humanos, que nasceram como limites ao poder do Estado — não como sua
ferramenta.
Quando Marx admite que o comunismo não busca “reconfigurar” as verdades, mas abolir as verdades eternas, ele revela o caráter profundamente revolucionário — e destrutivo — de sua proposta. Não se trata de corrigir injustiças concretas dentro de um horizonte moral comum, mas de eliminar qualquer referência moral objetiva.
Se não há verdades universais, então não há critério estável para
julgar o bem e o mal, a justiça e a injustiça. Tudo passa a ser legítimo se
servir ao “movimento da história”. Nesse ponto, a teoria deixa de ser apenas
uma crítica social e se transforma numa autorização filosófica para o arbítrio.
A resposta de Marx aos seus críticos também é insuficiente. Ele afirma que a persistência histórica de ideias como moralidade, religião e direito não prova sua universalidade, mas apenas reflete a permanência da exploração de uma classe por outra.
Porém, esse argumento é circular: parte-se da premissa de que toda
a história é luta de classes e, em seguida, usa-se essa mesma premissa para
negar qualquer evidência contrária. Trata-se de um sistema fechado, imune à
refutação empírica. Além disso, mesmo admitindo conflitos sociais ao longo da
história, isso não invalida a existência de princípios morais compartilhados,
como a condenação do assassinato, da injustiça deliberada ou da opressão do
inocente — princípios que atravessam culturas, épocas e sistemas políticos.
É precisamente nesse ponto que a tradição cristã introduz uma ruptura decisiva com a lógica do ódio de classes. A partir do cristianismo — ainda que como uma meta moral sempre a ser plenamente alcançada — não se fomenta a divisão permanente entre opressores e oprimidos, mas a conciliação, o reconhecimento da dignidade comum e a possibilidade de redenção moral tanto pessoal quanto social. A visão cristã da história não nega a existência de injustiças reais, mas recusa a ideia de que a humanidade esteja ontologicamente condenada a um conflito irreconciliável.
Ao colocar as pessoas umas contra as outras como inimigos
estruturais, o marxismo deixa de ver seres humanos concretos e passa a enxergar
apenas categorias abstratas.
Já a ética cristã parte do princípio de que todos compartilham a mesma origem e caminham para o mesmo fim último, o que torna a reconciliação não apenas possível, mas desejável e profundamente humana. Ao reduzir toda a consciência social à exploração, Marx também ignora a complexidade da natureza humana. O ser humano não é apenas um agente econômico inserido em relações de produção; é também um ser moral, espiritual, racional e relacional.
As grandes tradições filosóficas —
de Aristóteles a Tomás de Aquino, de Cícero ao Iluminismo clássico —
reconheceram que certos valores não dependem da classe social, mas da própria
condição humana. Negar isso é empobrecer a compreensão do homem e abrir caminho
para regimes que, em nome de uma verdade “histórica” futura, se sentem
autorizados a esmagar indivíduos reais no presente.
Em última instância, a abolição das verdades perenes não liberta o homem; retira-lhe qualquer proteção contra o poder absoluto. Se não existem valores universais, então não há limites morais para o Estado revolucionário, nem direitos que possam ser invocados contra ele.
A história do século XX mostrou com clareza onde essa lógica
conduz: à supressão da liberdade, à relativização da dignidade humana e à
legitimação da violência como instrumento político.
Assim, longe de ser um avanço moral, a rejeição marxista das verdades universais representa um profundo retrocesso civilizacional.
V- abolição das Nações territoriais
"Os comunistas", disse Marx, "são repreendidos por seu desejo de abolir países e nacionalidades". Mas esses críticos são incapazes de entender a natureza do proletariado, disse ele. Os operários (fruto do ideário comunista) não têm pátria. Logo, não é possível tirar deles aquilo que eles não têm (pois são meras engrenagens do sistema estatal). Ademais, dado que o proletariado tem primeiro de conquistar a dominação política, de ascender à classe dominante da nação, e finalmente se tornar ele próprio a representação da nação, então podemos dizer que, até o momento, ele ainda é nacional, mas não no sentido burguês da palavra."
Adicionalmente, o próprio Marx admitiu que, "por causa do
capitalismo", as hostilidades entre as pessoas de diferentes culturas, estavam diminuindo.
Assim, quando o
proletariado chegasse ao poder, não mais haveria necessidade de existir nações,
disse ele. As diferenças nacionais e o antagonismo entre as pessoas de
diferentes culturas estão, diariamente, desaparecendo cada vez mais por causa
do desenvolvimento da burguesia, da liberdade de comércio, do mercado mundial,
e da uniformidade do modo de produção industrial, que gera condições uniformes
de vida entre as pessoas.A supremacia do proletariado fará com que tudo isso
desapareça ainda mais rápido.
6)-"ABOLIR O passado HISTÓRICO" EM PROL DOS SUPOSTOS HEROIS REVOLUCIONÁRIOS DO PRESENTE
Marx via "a tradição e os costumes como uma ferramenta de dominação
da burguesia". Aderência aos costumes e respeito ao passado serviam meramente
para distrair o proletariado, atrasando sua busca por emancipação e supremacia.
Os tradicionalistas — "reacionários" — apegados ao passado e aos
costumes agiam assim unicamente para manter os instintos revolucionários do
proletariado sob controle."Na sociedade
burguesa", escreveu Marx, "o passado domina o presente; na sociedade
comunista, o presente domina o passado".Talvez as sementes da nossa atual era da pós-verdade estejam aí.
Entre todas as seis propostas abolicionistas radicais do Manifesto Comunista, poucas revelam tamanha incoerência interna e potencial destrutivo quanto a ideia de abolir o passado histórico em nome de supostos “heróis revolucionários” do presente. Para Marx, a tradição, os costumes e a memória histórica não passam de instrumentos de dominação da burguesia, artifícios ideológicos usados para manter o proletariado distraído, domesticado e afastado de sua missão revolucionária.
-O respeito ao passado, nessa lógica, não é virtude civilizatória,
mas obstáculo político; não é fonte de identidade, mas mecanismo de controle.
Os chamados “reacionários” seriam, portanto, todos aqueles que se recusam a
romper com a herança histórica e cultural acumulada ao longo das
gerações. Essa leitura, contudo, parte de uma redução brutal da
experiência humana — e flerta com o anacronismo ideológico. Parece supor que,
desde as cavernas, o homem já pensasse em termos “burgueses”, preocupado em
manter estruturas simbólicas de opressão, e não simplesmente em
sobreviver.
-Como se os primeiros costumes, rituais e regras de convivência
tivessem surgido para alienar um proletariado inexistente, e não para organizar
a caça, dividir alimentos, proteger o grupo e garantir a continuidade da vida.
Na ótica marxista, até o fogo, a roda e o sepultamento dos mortos poderiam ser
denunciados como construções ideológicas suspeitas, a serviço de alguma
dominação de classe milenar.
Tradição, costumes e memória não são criações artificiais de uma elite conspiradora, mas expressões orgânicas da vida social, sedimentadas ao longo do tempo como resposta a desafios concretos: organização familiar, transmissão de valores, coesão comunitária, limites morais, linguagem, direito e religião. Ao tratar o passado apenas como uma narrativa opressora a ser demolida, Marx ignora que nenhuma sociedade nasce do zero — e que toda tentativa de reconstrução radical do presente sem raízes no passado resulta, inevitavelmente, em engenharia social autoritária.
A famosa afirmação de Marx — “na sociedade burguesa, o passado domina o presente; na sociedade comunista, o presente domina o passado” — soa menos como tese filosófica e mais como slogan revolucionário.
Na prática, o que se viu nos regimes comunistas não foi a
libertação do presente, mas sua submissão absoluta a uma narrativa oficial,
constantemente reescrita conforme as conveniências do poder. O passado não foi
superado; foi manipulado, apagado, censurado e substituído por mitologias
políticas e por um panteão artificial de “heróis revolucionários”, elevados à
condição de figuras quase sagradas, intocáveis e imunes à crítica. A
incoerência é gritante: ao denunciar a tradição como instrumento de dominação,
o comunismo criou novas tradições obrigatórias, novos dogmas, novos rituais
cívicos e novas ortodoxias ideológicas.
O culto a líderes revolucionários — de Lênin a Mao, de Stálin a Kim Il-sung — demonstrou que o problema nunca foi a existência de heróis ou de narrativas históricas, mas quem controla a narrativa.
Fora da bolha ideológica comunista, personagens históricos são apresentados
em sua integridade humana, com virtudes e defeitos, acertos e erros, méritos e
deméritos. São estudados como exemplos complexos, dos quais se pode aprender
tanto o que imitar quanto o que evitar. Historiadores sérios não permitem sua
divinização mitológica; não os transformam em santos laicos nem em demônios
absolutos. Apresentam os fatos, contextualizam as decisões, expõem as
consequências — e deixam ao leitor ou ao cidadão a tarefa de tirar suas
próprias conclusões.
Nos regimes comunistas, ocorre exatamente o oposto. A história deixa de ser investigação e passa a ser catecismo político. Líderes revolucionários são elevados a figuras infalíveis, moralmente puras e historicamente incontestáveis, enquanto seus crimes, fracassos e contradições são apagados, relativizados ou justificados como “necessidades históricas”.
O passado, assim, deixa de ser um patrimônio comum da humanidade e
transforma-se em instrumento de propaganda, moldado pelo partido, ensinado de
forma dogmática nas escolas e imposto, quando necessário, pela força do
Estado. Além disso, a tentativa deliberada de romper com a memória
histórica mina a própria capacidade crítica do indivíduo. Sem passado, não há
critérios de comparação; sem continuidade histórica, não há aprendizado com
erros anteriores; sem tradição, tudo se torna fluido, provisório e facilmente
manipulável.
Quando a história é substituída por mitologia política, o cidadão deixa de ser um sujeito crítico e torna-se apenas um receptor passivo da versão oficial dos fatos.
Não por acaso, muitos veem nessa proposta marxista uma das raízes
intelectuais da atual era da pós-verdade, na qual a história deixa de ser uma
busca honesta pelos fatos e passa a ser constantemente reescrita conforme as
necessidades políticas do presente. O que muda não é o passado em si, mas o
discurso autorizado sobre ele — e quem ousa discordar é rotulado como inimigo,
reacionário ou subversivo.
Em última instância, abolir o passado em nome do presente não liberta o homem — desarma-o. Povos sem memória são mais fáceis de controlar, indivíduos sem raízes são mais suscetíveis à doutrinação, e sociedades que desprezam sua herança cultural tornam-se presas fáceis de projetos totalitários. A promessa marxista de emancipação, nesse ponto, revela-se profundamente paradoxal: ao negar o passado, o comunismo não emancipa o proletariado, mas o priva de sua identidade, de sua história e de sua capacidade de resistência ao poder absoluto.
Adaptado de: Mises Brasil
Conclusão
O capitalismo do século XIX foi, sem dúvida, marcado por abusos graves, exploração excessiva e condições de trabalho moralmente inaceitáveis. Pessoas movidas por um legítimo senso de justiça e solidariedade reagiram a esse cenário, e é inegável que O Manifesto Comunista (1848), assim como os movimentos sociais que se seguiram, incluindo as críticas de Leão XIII na Rerun Novarum, desempenharam um papel relevante ao denunciar excessos e impulsionar mudanças. A organização dos trabalhadores, o surgimento dos sindicatos e a consolidação de direitos trabalhistas contribuíram para civilizar a relação entre capital e trabalho, tornando-a mais equilibrada ao longo do tempo.
-O erro fundamental de Marx, porém, foi transformar uma crítica
legítima em uma teoria totalizante e sectária, ao afirmar que apenas o
trabalhador produz riqueza enquanto o capitalista nada mais faz do que
explorá-lo. Essa visão é simplista e falsa. Sem empresa, não há produção
organizada; sem capital, não há investimento; sem empreendedor, não há
inovação. Capital e trabalho não são inimigos naturais — são
interdependentes.
-O empresário que também, é um trabalhador, é alguém que assume riscos,
organiza recursos, antecipa demandas e transforma ideias em bens e serviços. A
narrativa que reduz essa relação a opressores e oprimidos gera uma miopia
intelectual da qual decorrem quase todos os fracassos do campo socialista.
Reconhecer o fracasso histórico do socialismo real, contudo, não implica concluir que o capitalismo seja moralmente perfeito. O capitalismo expressa traços reais da natureza humana: egoísmo, ambição, desejo de ganho. Mas exatamente por não depender de um “homem novo” idealizado, ele se mostra mais realista, resiliente e sustentável.
O capitalismo não nasceu como teoria abstrata, mas como resposta
prática às necessidades humanas, moldada por tentativas, erros e correções ao
longo da história. É por isso que ele sobreviveu, se aperfeiçoou e se expandiu.Como
sistema de trocas voluntárias, o capitalismo demonstrou ser o maior responsável
pela redução da pobreza e pela elevação do padrão de vida nos últimos dois
séculos. Sua lógica interna atribui ao agente econômico o custo de suas
próprias escolhas, incentivando racionalidade, eficiência e responsabilidade.
Já a socialização desses custos — típica de Estados excessivamente
intervencionistas — gera desperdício, escassez e insustentabilidade. Não é
razoável supor que um pequeno grupo de burocratas consiga coordenar milhões de
decisões individuais melhor do que os próprios agentes envolvidos.
O capitalismo também possui uma dimensão moral frequentemente ignorada. No livre mercado, ninguém é recompensado pela força, mas pela capacidade de atender às necessidades alheias. Para prosperar, é preciso servir.
O comerciante, o industrial e o prestador de serviços só têm
sucesso quando oferecem algo que as pessoas desejam e podem pagar — inclusive
as mais pobres. Diferentemente do socialismo, o capitalismo não tenta extinguir
o egoísmo humano; ele o canaliza para relações cooperativas e pacíficas.
Essa lógica explica por que as sociedades capitalistas se estruturam em interações marcadas pela cordialidade e pelo consentimento mútuo. O “obrigado” ao final de uma transação não é mero formalismo: é o reconhecimento de que ambas as partes ganharam. Já nos sistemas socialistas, a ascensão ao topo não ocorre por mérito ou competência, mas por lealdade política, favorecimento e coação. Não por acaso, os regimes socialistas históricos produziram elites cínicas, autoritárias e profundamente corruptas — como se viu na União Soviética, em Cuba, na Venezuela e em outros experimentos fracassados.
No Brasil, ironicamente, convivemos com uma retórica
anticapitalista em um país que dificulta brutalmente o empreendedorismo. Abrir
uma empresa é penoso; fechá-la, quase impossível. A burocracia e a carga
tributária sufocam justamente aquilo que gera riqueza, empregos e inovação.
Defender o capitalismo, portanto, não é defender privilégios, mas defender
liberdade econômica, responsabilidade individual e cooperação social.
Não precisamos da benevolência de governos ou da suposta solidariedade compulsória do Estado para que nossas necessidades sejam atendidas. Precisamos de mercados livres, concorrência, segurança jurídica e respeito à iniciativa privada. Como bem observou Roberto Campos, quando há múltiplas conclusões inconciliáveis sobre o mesmo fenômeno econômico, já não estamos diante de ciência, mas de ideologia. O capitalismo não é perfeito — mas é, até hoje, o sistema que melhor conciliou prosperidade material, liberdade individual e limites reais da natureza humana.
por *Franzé - Analista Político - Colaborador do Apostolado
Berakash
Bibliografia
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-LEONARDO, Rodrigo Constantino. Esquerda caviar. Rio de Janeiro: Record, 2013.
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