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Entre a Graça e o mal radical: Deus concederia a mesma recompensa escatológica de Madre Teresa de Calcutá a Adolf Hitler?

Written By Beraká - o blog da família on quinta-feira, 30 de dezembro de 2021 | 17:21

 


por *Francisco José Barros de Araújo 




Na lógica humana, seria justo Deus conceder a mesma recompensa de Madre Teresa de Calcutá a Hitler?


 

A questão acerca da justiça e da misericórdia divinas acompanha a história do pensamento cristão desde seus primórdios. Em termos simples, mas teologicamente profundos, ela pode ser formulada da seguinte maneira: seria justo Deus conceder a mesma recompensa eterna a uma vida marcada pela santidade heroica, como a de Santa Teresa de Calcutá, e a uma existência caracterizada por crimes gravíssimos contra a humanidade, como a de Adolf Hitler? 



À primeira vista, a própria formulação da pergunta parece escandalosa, pois confronta o senso moral natural do homem com o mistério insondável da ação divina.  Na lógica humana — profundamente marcada por critérios jurídicos, proporcionais e temporais — tal hipótese soa não apenas injusta, mas moralmente inaceitável. Entretanto, a Revelação cristã ensina que Deus não está submetido às categorias humanas de tempo, mérito e cálculo, pois é absolutamente livre, soberano e transcendente. 



Como afirma São Paulo, “não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus que se compadece” (Rm 9,16). Esta afirmação, longe de relativizar a moral ou anular a responsabilidade humana, introduz o fiel no coração do mistério da eleição divina, no qual justiça e misericórdia não se opõem, mas se harmonizam de modo perfeito.  



Todavia, a reflexão teológica não pode se contentar com respostas simplistas ou sentimentalistas, especialmente em tempos marcados por relativismo moral, subjetivismo religioso e uma concepção humanista que frequentemente subordina Deus ao homem. É precisamente nesse contexto que se torna necessário examinar, à luz da Sagrada Escritura, da Tradição da Igreja e do Magistério, em que condições a misericórdia divina atua, quais são seus limites revelados e de que modo ela se articula com a justiça eterna.  



A Igreja Católica ensina com clareza que não existe perdão sem arrependimento, nem salvação sem conversão interior. Ao mesmo tempo, proclama que a misericórdia de Deus é infinita e pode alcançar o pecador até o último instante de sua vida. Esse aparente paradoxo — que confunde muitos fiéis e tem sido explorado de maneira irresponsável por correntes teológicas modernas — exige uma abordagem rigorosa, fiel à doutrina perene da Igreja, evitando tanto o rigorismo desesperador quanto o permissivismo blasfemo.  Dessa forma, o presente texto propõe-se a analisar, de maneira sistemática e teologicamente fundamentada, a relação entre justiça e misericórdia divinas, o papel decisivo do arrependimento no momento da morte, os erros do humanismo moderno infiltrados na teologia contemporânea e, por fim, responder de modo claro e coerente à pergunta inicial: "poderia Deus, sem contrariar Sua própria revelação, conceder a Hitler a mesma recompensa eterna de Madre Teresa de Calcutá?"







Uma santa mística, favorecida por locuções interiores com Nosso Senhor Jesus Cristo, teria ousado perguntar-lhe qual fora o destino eterno de Judas Iscariotes, aquele que O entregou aos sumos sacerdotes. A resposta atribuída a Cristo é profundamente reveladora: 



“Minha filha, não te digo o que ocorreu com Judas, para que a humanidade não abuse da misericórdia de Deus Pai.” 



Tal afirmação, independentemente do juízo prudencial que a Igreja sempre mantém sobre revelações privadas, exprime com notável fidelidade uma verdade central da fé católica: o mistério do juízo divino é deliberadamente velado para preservar o homem tanto da presunção quanto do desespero. 



Nesse mesmo sentido, ensina o Pe. Leo J. Trese, em A Fé Explicada, que “a morte fixa a alma no estado em que se encontra”. 



Trata-se de uma formulação clássica da teologia católica: com a morte, cessa o tempo da prova, e a alma entra definitivamente na condição espiritual livremente escolhida. Assim, ainda que alguém tenha dedicado externamente toda a sua vida ao serviço da Igreja, se morrer em estado de pecado mortal, sem arrependimento, sua alma permanece fixada nessa ruptura com Deus, incorrendo na danação eterna. De modo inverso, se uma pessoa que tenha vivido de forma gravemente desordenada — como o ladrão arrependido na cruz, e mesmo, em tese, um criminoso de proporções históricas como Hitler — alcançar, no último instante, um arrependimento verdadeiro e sobrenatural, confessando interiormente seus pecados e voltando-se sinceramente para Deus, a misericórdia divina pode perdoá-la plenamente.


Surge, então, a questão decisiva: é teológica e magisterialmente correta essa afirmação? À primeira vista, tais proposições parecem tensionar justiça e misericórdia como realidades opostas. Contudo, essa tensão só existe quando se adota uma mentalidade marcada pela “achologia” contemporânea e pelo relativismo moral, frutos diretos da ideologia romântica e humanista, que tende a dissolver os critérios objetivos da Revelação em sentimentalismo religioso. 



Torna-se, portanto, indispensável esclarecer em que medida Deus age com misericórdia ou com justiça diante daquele que morre afastado de Deus e sem arrependimento, e daquele que, mesmo no último momento, se converte com sinceridade.




A doutrina católica é inequívoca: quem morre em pecado mortal, sem arrependimento, é réprobo, isto é, encontra-se condenado, não por um decreto arbitrário de Deus, mas pela livre e definitiva recusa da graça. Diante disso, o incrédulo frequentemente levanta a objeção clássica: “Onde está a justiça de Deus ao castigar com pena eterna um pecado que durou apenas um instante?”


A resposta repousa na própria natureza da eternidade. O pecado mortal não é punido eternamente por sua duração temporal, mas por sua gravidade ontológica: trata-se de uma ofensa a um Deus de majestade infinita. Além disso, após a morte, a relação com o tempo e o espaço deixa de existir, e a alma entra em um estado eterno correspondente à decisão livre tomada no kairós da vida terrena. O réprobo não pode mais satisfazer por sua culpa, pois, diferentemente do pecador penitente nesta vida, ele já não participa dos méritos redentores de Cristo. Por isso, ensina a Escritura: “O resgate de uma alma é caro, e nunca será suficiente” (Sl 48,8-9).


Como afirma o Belluacense, “ali a culpa pode ser castigada, mas jamais expiada”, pois, segundo Santo Agostinho, no estado de condenação o pecador é incapaz de arrependimento. Mesmo que Deus quisesse perdoar ao réprobo, este não aceitaria a reconciliação, uma vez que sua vontade se encontra definitivamente obstinada no ódio a Deus e na recusa da verdade. 



A condenação eterna, portanto, não é apenas pena, mas também autoexclusão consciente e irrevogável da comunhão com Deus.Essa compreensão preserva, simultaneamente, a justiça perfeita e a misericórdia infinita de Deus, afastando tanto a imagem de um juiz cruel quanto a caricatura de um Deus permissivo. Justiça e misericórdia não se contradizem em Deus; ao contrário, manifestam-se plenamente na verdade do juízo eterno.

 

 

Disse o Papa Inocêncio III que “os anjos réprobos e os condenados não se humilharão; pelo contrário, crescerá neles a perseverança do ódio”. Na mesma linha, São Jerônimo afirma que “nos réprobos, o desejo de pecar é insaciável” (Pr 27,20). Por isso, conclui-se com a Escritura: “A ferida de tais desgraçados é incurável, porque eles mesmos recusam a cura” (Jr 15,18). 



Santo Afonso Maria de Ligório, ao reunir essas autoridades em sua obra Preparação para a Morte, sintetiza de modo contundente a doutrina tradicional: a condenação eterna não consiste apenas em uma pena imposta externamente, mas na fixação definitiva da vontade no mal e na recusa obstinada da graça.


Diante disso, a hipótese segundo a qual Deus permitiria que alguém que viveu constantemente na amizade com Ele viesse, ao final, a morrer em estado de pecado mortal distorce gravemente a realidade da economia da salvação, pois supõe que Deus deixaria de conceder graças suficientes e eficazes àqueles que cooperaram fielmente com Ele ao longo da vida. Tal suposição transformaria a salvação em uma espécie de loteria espiritual, o que é incompatível com a justiça, a providência e a fidelidade divinas. 



A sabedoria cristã sempre reconheceu o princípio clássico talis vita, talis mors — tal vida, tal morte — indicando que, ordinariamente, quem vive em estado de graça morre em estado de graça, assim como é moralmente previsível que quem vive afastado de Deus corra sério risco de morrer nessa mesma condição. Todavia, essa regra geral não exclui a ação soberana da misericórdia divina. Mesmo aquele que viveu mal jamais é privado da assistência da graça e pode, se corresponder a ela, converter-se no último instante, como ocorreu com o bom ladrão crucificado ao lado de Cristo. É plausível, inclusive, que as conversões de última hora sejam mais numerosas do que se imagina, pois Deus, sendo infinitamente misericordioso, considera circunstâncias, atenuantes e disposições interiores que escapam totalmente ao julgamento humano. Ainda assim, tais conversões não anulam a seriedade da vida moral, mas antes confirmam que a misericórdia de Deus jamais contradiz a justiça, antes a pressupõe e a aperfeiçoa.

 

 

 

O Mistério do Destino de Judas: Justiça e Misericórdia em Equilíbrio

 

 

Nosso Senhor manteve em mistério o destino eterno de Judas para preservar a humanidade de dois extremos igualmente perigosos: a presunção, que leva ao abuso da misericórdia divina, e o desespero, que nega a possibilidade do perdão.Ao silenciar sobre o destino de Judas, Cristo manifesta uma pedagogia divina profundamente sábia. 



Se sua condenação fosse declarada de modo explícito, muitos cairiam no desespero; se sua salvação fosse afirmada com clareza, outros abusariam da misericórdia de Deus. Por isso, a Revelação nos convida a evitar ambos os extremos: não absolutizar a justiça divina segundo critérios humanos, como se Deus fosse um juiz frio, rígido e implacável, nem deformar sua misericórdia infinita, reduzindo-a a um permissivismo complacente e blasfemo. 



Deus não é um carrasco legalista, mas tampouco um Deus indiferente ao pecado. Ele é Pai infinitamente misericordioso porque é infinitamente justo. Cabe-nos, portanto, confiar plenamente em sua misericórdia, sem jamais prescindir da conversão e do santo temor de sua justiça.

 


 

O Romantismo e o Humanismo e a Distorção da Justiça e da Misericórdia Divinas

 

 

 

O Romantismo e, sobretudo, o Humanismo moderno introduziram progressivamente na mentalidade contemporânea — e, por infiltração cultural, também em certos discursos e práticas dentro da Igreja — uma falsa compreensão da justiça e da misericórdia divinas. 



O catolicismo sempre ensinou, de modo claro e coerente, que o homem existe para Deus: “Tu nos fizeste para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti” (Santo Agostinho). 



Toda a ordem da criação, da redenção e da salvação é essencialmente teocêntrica: Deus é a causa primeira, o fim último e o critério absoluto de todas as coisas. Já o Humanismo, herdeiro direto do Renascimento e intensificado pela Modernidade, afirma o oposto: tudo existe para o homem, e o homem existe para si mesmo. 


Essa visão antropocêntrica desloca Deus do centro e entroniza o homem como medida de todas as coisas, corroendo silenciosamente a noção autêntica de justiça e misericórdia.  Essas duas cosmovisões não são complementares, mas mutuamente excludentes. Onde Deus deixa de ser o centro, a misericórdia deixa de ser dom gratuito que chama à conversão e passa a ser confundida com mera condescendência sentimental; a justiça, por sua vez, deixa de ser expressão da santidade divina e torna-se um conceito moldado pelas emoções, circunstâncias ou interesses humanos. 



O Romantismo, ao absolutizar o sentimento, reforçou essa distorção ao substituir a verdade objetiva pela experiência subjetiva, abrindo espaço para uma misericórdia sem exigência e um perdão sem arrependimento — algo totalmente estranho à Revelação cristã.  



Cristo, porém, é inequívoco ao afirmar — como proclama solenemente a Liturgia do Sábado Santo na bênção do Círio Pascal —: “Ego sum Alpha et Omega, Principium et Finis”. Ele é o início e o fim de toda a história, o critério último do bem e do mal, da justiça e da misericórdia. O Humanismo moderno, em contrapartida, ousou formular implicitamente um novo credo: “Homo, principium et finis, alpha et omega”. 



Ao fazer isso, não apenas subverteu a ordem da criação, mas também esvaziou o sentido cristão da salvação, transformando Deus em coadjuvante do homem e a fé em instrumento de autoafirmação. Recuperar a verdadeira doutrina católica sobre justiça e misericórdia exige, portanto, um retorno decidido ao seu fundamento original: 


Deus como centro, fim último e Senhor absoluto da história e da consciência humana.

 

 


O Humanismo como Idolatria do Homem

 


O Humanismo, em sua matriz filosófica originária, é essencialmente pagão, porque desloca o eixo da realidade de Deus para o homem, fazendo deste o princípio, a medida e o fim de todas as coisas. Ao entronizar o homem no lugar que pertence exclusivamente a Deus, o Humanismo comete o pecado clássico da idolatria: substitui o Criador pela criatura. Não se trata apenas de um erro conceitual, mas de uma inversão ontológica e moral que corrói toda a visão cristã do mundo.



Quando o homem passa a ser a medida de todas as coisas, Deus deixa de ser o critério último da verdade, do bem e do justo. 



Contra essa pretensão, a Sagrada Escritura adverte com severidade: “Maldito o homem que confia no homem” (Jr 17,5). Tal maldição não se refere à legítima confiança humana ordenada, mas à autossuficiência antropocêntrica, que exclui Deus e absolutiza o juízo humano.


As Duas Cidades e os Dois Amores



Santo Agostinho oferece a chave interpretativa definitiva dessa oposição ao afirmar:



“Dois amores construíram duas cidades: o amor de Deus, levado até o desprezo de si mesmo, construiu a Cidade de Deus; o amor de si mesmo, levado até o desprezo de Deus, construiu a cidade terrena.” (Civitas Dei).



A Cidade do Homem nasce, portanto, do amor desordenado de si, da exaltação do ego humano como centro da história. A civilização cristã medieval, teocêntrica em sua estrutura fundamental, pode ser compreendida, em sentido analógico, como expressão histórica da Civitas Dei. Em contraste, a civilização moderna, inaugurada pelo Humanismo renascentista, é a consolidação histórica da Cidade do Homem.Entre essas duas cidades não existe síntese possível. Elas são fundadas sobre princípios radicalmente opostos e sobre amores inconciliáveis. A inimizade entre ambas não é acidental, mas metafísica e teológica, remontando ao próprio juízo divino pronunciado no Gênesis: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela; ela te esmagará a cabeça” (Gn 3,15). Essa inimizade atravessa toda a história como um combate entre a ordem de Deus e a ordem do homem que se absolutiza.



A Impossibilidade de um “Humanismo Cristão”



Diante desse quadro, impõe-se a pergunta decisiva: como conceber um humanismo cristão? Como imaginar uma conciliação entre a Civitas Dei e a Civitas hominis? Como harmonizar dois amores que se excluem por natureza? Se o cristianismo proclama Cristo como Alpha et Ômega, princípio e fim de todas as coisas, como pode subsistir uma visão que afirma o homem como centro último da realidade?


Por isso, Humanismo e Cristianismo, enquanto sistemas de pensamento, são termos contraditórios. Ninguém pode ser verdadeiramente cristão e humanista ao mesmo tempo, se por humanismo se entende a primazia absoluta do homem. Toda tentativa de conciliação acaba inevitavelmente em ambiguidade doutrinária e enfraquecimento da fé.



A Tentação Permanente da Conciliação



Apesar disso, a história mostra repetidas tentativas de harmonizar o inconciliável. Sempre houve aqueles que, na ânsia de encontrar “sementes de verdade” em toda heresia, acabam por legitimar o erro. De fato, não existe mentira absolutamente pura; toda heresia contém algum elemento verdadeiro. O problema surge quando, a partir de um grama de verdade misturado a uma tonelada de erro, se constroem sistemas sofisticados de sofismas para justificar o injustificável.


Esse foi o grande drama já no nascimento do mundo moderno: tentou-se reconciliar a mentalidade humanista com o catolicismo, fabricando um suposto humanismo cristão, assim como mais tarde se tentou um liberalismo católico e, hoje, um socialismo cristão. Esse pseudo-humanismo — como o defendido por Jacques Maritain, autor admirado por Paulo VI — preserva algumas verdades antropológicas legítimas, mas as reinterpreta à luz de um conceito profundamente ambíguo e contaminado em sua origem.


O resultado é um humanismo ambíguo, no qual o mesmo termo passa a ter dois sentidos distintos: um cristão e outro pagão. Essa duplicidade semântica abre caminho para todas as confusões, anfibologias e, por fim, para o deslizamento progressivo rumo ao naturalismo e ao relativismo. Ainda que seja verdadeiro afirmar que a dignidade humana só é plenamente reconhecida pela concepção católica — que faz do homem filho adotivo de Deus pelo batismo —, atribuir essa verdade ao rótulo já corrompido de humanismo é um grave erro estratégico e doutrinal.


Adotar termos carregados de significados heterodoxos nunca é prudente. Ao fazê-lo, concede-se aos inimigos da fé uma brecha pela qual se infiltram na Cidade de Deus os miasmas do naturalismo.




Quem é, afinal, “O Homem”?



Por fim, é preciso perguntar: quem é esse “Homem” exaltado pelo Humanismo? O termo é um universal abstrato que, em cada época, foi identificado com um tipo humano concreto. No Renascimento, foram os gênios autoproclamados que se julgaram a medida de todas as coisas. Posteriormente, os reis absolutos assumiram esse papel, colocando-se como princípio e fim da ordem social, exigindo que tudo — inclusive Deus e a Igreja — lhes estivesse subordinado.


Essa pretensão autodivinizadora do homem renascentista e do absolutismo político encontrou, lamentavelmente, complacência em certos papas de mentalidade humanista, como Pio II, Júlio II e Leão X. Tal conivência histórica não legitima o erro; apenas confirma o quanto o humanismo, desde sua origem, esteve associado à diluição do primado de Deus e à exaltação desordenada do homem.

 

 

Os Papas do Renascimento e a Penetração do Humanismo Pagão nos Meios Eclesiásticos

 


Durante o Renascimento, papas marcados por escândalos morais e por uma visão cultural secularizada favoreceram, direta ou indiretamente, a entrada do humanismo pagão nos ambientes eclesiásticos, sem que houvesse uma condenação explícita e sistemática dessa corrente.

 

(Jesus e Maria -Teto da Capela Sistina)

 

Os Papas do Renascimento — muitos deles tristemente célebres por escândalos morais, nepotismo e mundanismo — demonstraram clara simpatia pelo Humanismo renascentista, sobretudo em seu aspecto cultural e artístico. 



Nesse período, não se encontra uma condenação formal e explícita do Humanismo enquanto movimento intelectual, o que facilitou sua penetração nos meios católicos e, de modo particular, nos círculos curiais e no próprio Vaticano.Um exemplo emblemático dessa condescendência foi o caso de Lorenzo Valla, intelectual humanista cujas posições teológicas incluíam erros gravíssimos — como a negação da Santíssima Trindade. Apesar disso, Valla foi protegido e nomeado para um cargo na Cúria Romana pelo papa de seu tempo, o que o livrou da Inquisição de Nápoles. Tal fato ilustra como o prestígio cultural do Humanismo, aliado à admiração pelas letras clássicas, frequentemente sobrepôs-se à vigilância doutrinal.




Essa tolerância ao humanismo pagão também se manifestou no campo artístico. A Capela Sistina é frequentemente citada como símbolo dessa ambiguidade. Diversos autores críticos interpretam as obras de Michelangelo ali presentes — especialmente a Criação do Mundo e, de modo ainda mais acentuado, o Juízo Final — como impregnadas de elementos neoplatônicos e gnósticos, nos quais a exaltação do corpo idealizado, a ambiguidade simbólica e certas referências mitológicas obscurecem a centralidade cristológica tradicional.



Segundo essa leitura crítica, no Juízo Final a figura de Cristo assume traços mais próximos de um Apolo clássico do que do Cristo sofredor da Tradição iconográfica cristã; a exaltação de figuras musculosas e nuas, inclusive em representações de Cristo e da Virgem Maria, teria reforçado uma visão estética mais pagã do que teológica. O máximo de correção realizado à época não foi uma revisão doutrinal da obra, mas apenas a determinação posterior para que se cobrisse a nudez excessiva com véus, medida de caráter mais moral do que teológico.


Ainda segundo essa interpretação, certas figuras do afresco evocariam mitos pagãos: São Lourenço seria representado à maneira de Hércules, exaltando o suicídio heroico; São Bartolomeu, segurando a própria pele, lembraria Marsias esfolado por Apolo, símbolo de uma visão dualista e de desprezo pela matéria. Tais leituras, ainda que debatidas entre historiadores da arte, revelam a profunda influência do imaginário clássico e do humanismo pagão no coração da arte sacra daquele período.


Em síntese, o Renascimento marcou uma época em que a autoridade papal, enfraquecida moralmente, mostrou-se incapaz — ou indisposta — de exercer um discernimento rigoroso entre o legítimo uso da cultura clássica e a infiltração de uma visão antropocêntrica incompatível com o primado de Deus. Essa ausência de condenação clara permitiu que o Humanismo, em suas formas mais ambíguas e perigosas, se insinuasse no interior da vida e da expressão cultural da Igreja, preparando crises que só mais tarde seriam enfrentadas com maior clareza doutrinal.

 

 

(São Bartolomeu - Teto da Capela Sistina)

 

 

O “Humanismo Cristão” do Renascimento é uma Fábula



O chamado humanismo cristão do Renascimento não passa de uma construção retórica posterior. O Humanismo, desde suas origens, sempre foi essencialmente pagão, pois coloca o homem — e não Deus — no centro da realidade. 



O mais grave, porém, não foi o humanismo assumidamente pagão, mas aquele que se travestiu de cristão e encontrou acolhida nos ambientes eclesiásticos, inclusive no Vaticano. Naturalmente, tais afirmações despertam protestos: sempre haverá quem, calçando os borzeguins ou os coturnos clássicos, se levante em defesa do Humanismo renascentista em nome da arte, da cultura ou do progresso intelectual. Contudo, nenhuma sofisticação estética é capaz de redimir um princípio falso.


Do Absolutismo à Revolução: a Metamorfose do “Homem”



O egoísmo dos monarcas absolutos — fomentadores de religiões nacionais e submetedores da Igreja ao Estado — terminou na guilhotina ou no parlamentarismo, que não passou de uma guilhotina seca. A guilhotina molhada fez triunfar o Homem sob a figura do citoyen; a seca, sob a figura do deputado. Tudo passou a ser feito “em nome do homem” e da cidadania, palavra que ainda hoje se repete como um mantra. Com a Revolução de 1789, o Humanismo deixou de ser o do artista ou do soberano solar para se tornar o do advogado, do comerciante e do burguês.


Esse “Homem” — sempre com H maiúsculo — passou a ocupar o trono antes reservado a Deus. Um deus genérico, arquiteto do universo, com “d” minúsculo, foi entronizado pela guilhotina, carregando sob o braço a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. 



A razão foi divinizada, a transcendência dissolvida, e o burguês capitalista tornou-se o novo ídolo, ainda que se declarasse devoto do “Grande Arquiteto” ou da Deusa Razão.


A Unção Religiosa da Revolução



Essa visão burguesa e capitalista do homem, vitoriosa com Robespierre e Napoleão, contou com o beneplácito de católicos conciliadores. O Homem da Revolução foi ungido por Pio VII em Notre-Dame de Paris. 



Diante disso, pergunta Paul Claudel com dolorosa ironia: “Como pode o Pastor Supremo confundir o bode com o cordeiro?” Não causa espanto que, após a sagração de Napoleão — a Revolução a cavalo — tenham surgido os católicos liberais. Espantoso seria se não tivessem surgido.



Do Liberalismo ao Marxismo: a Lógica Interna do Humanismo



O Humanismo liberal não satisfez os proletários gerados pela Revolução Industrial e pela dissolução das corporações. O egoísmo monárquico foi substituído pelo egoísmo do lucro desvinculado da moral. Marx apresentou então um novo humanismo: o Homem passou a ser o proletário explorado. Ecce Homo. Ecce Proletarius. 



O marxismo apresentou-se como a conclusão lógica do humanismo renascentista. A idolatria do homem levou à proclamação da morte de Deus em Nietzsche e ao materialismo absoluto de Marx.Socialismo e comunismo declararam-se a face definitiva do Humanismo: aquela que reduz o homem a aparelho digestivo e faz da sobrevivência material o valor supremo. A vida física tornou-se absoluta; o dinheiro, motor da História. O homem genial do Renascimento converteu-se primeiro em burguês obeso, depois em proletário orgulhoso de sua animalidade. Lenin, Stalin, Mao e Fidel difundiram essa “bíblia da imbecilidade e do ódio”, como a chamou com precisão Paul Claudel.



Nazismo, Humanismo e Idolatria Racial



Hitler rejeitou Marx, mas não o Humanismo. O Homem passou a ser o alemão, o ariano, o Homo Germanicus. Em nome dessa idolatria racial, milhões foram sacrificados em Auschwitz e Treblinka. Também aqui não faltaram conciliadores: tentaram harmonizar o paganismo ariano com a noção cristã de pátria. 



Monsenhor Kaas votou por Hitler; teólogos e prelados minimizaram seus erros. Esses humanistas sabiam exatamente o que faziam.



O Modernismo e a Religião do Homem



Jacques Maritain, próximo de Paulo VI, defendeu no Humanismo Integral uma leitura positiva da Reforma, da Revolução Francesa e da Revolução Bolchevique como etapas da libertação do homem. 



Esse caminho converge com o Modernismo de Loisy, condenado por São Pio X, para quem a humanidade “adora a si mesma em Jesus”. O que era perspectiva tornou-se programa: a religião do Homem.




Discurso Humanista no encerramento do Vaticano II 



No discurso de encerramento do Concílio Vaticano II, Paulo VI declarou que a Igreja se ocupou intensamente do homem e reconheceu um “novo humanismo”, chegando a afirmar: “Nós também temos o culto do homem.” 



Essas palavras, embora mereçam respeito, não possuem autoridade magisterial definitiva, apenas opinião pessoal do papa. Tratam-se de discursos pastorais, não definições dogmáticas. Ainda assim, revelam uma inflexão preocupante: a tentativa de conciliação entre a Civitas Dei e a Cidade do Homem.



ONU, Paz do Mundo e Paz de Cristo



Essa lógica culminou na exaltação da ONU como fonte da paz mundial. Paulo VI declarou a Organização como “caminho obrigatório da civilização moderna”. Contudo, a paz da ONU não é a paz de Cristo. Desde sua fundação, guerras, genocídios e injustiças se multiplicaram. A paz do Humanismo é a paz do mundo, não a paz da Civitas Dei. “Deixo-vos a minha paz, não como o mundo a dá” (Jo 14,27).



A Verdadeira Dignidade do Homem



A visão católica afirma a dignidade única de cada homem porque ele é imagem de Deus. Cada alma reflete Deus sob um ângulo irrepetível. Quando vive em graça, irradia a luz divina; quando peca, obscurece-a. Como ensina São Boaventura, nas criaturas inferiores há vestígios de Deus; no homem, imagem; no santo, semelhança. Essa era a visão medieval, expressa por Dante: o homem existe para Deus, não para si mesmo.


O Humanismo afirma: tudo existe para o Homem. O Cristianismo ensina: o homem existe para Deus!




Arrependimento, Misericórdia e Justiça



A misericórdia de Deus é infinita, mas nunca atua sem arrependimento. O bom ladrão foi salvo porque reconheceu sua culpa e a divindade de Cristo. Não há perdão sem contrição. Como canta o Dies Irae: “Tu que absolveste Maria Madalena e atendeste ao ladrão, a mim também deste esperança.”Deus está fora do tempo e pode conceder graças extraordinárias no instante da morte. A justiça e a misericórdia não se opõem; são virtudes irmãs, como ensina São Tomás. Sem misericórdia, a justiça se torna crueldade; sem justiça, a misericórdia degenera em permissivismo.



No juízo final, haverá surpresas! Mas a Escritura é clara: quem confessa seus pecados é perdoado; quem os nega, se perde. Confiemos na misericórdia infinita de Deus, sem jamais abusar dela. Entreguemo-nos a Nossa Senhora, Mãe de Misericórdia, certos de que “a misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram” (Sl 85).



 



Perdão Divino, Arrependimento e Justiça: Limites Revelados pela Escritura


Portanto, ainda que a liberdade e a soberania divinas ultrapassem infinitamente a nossa inteligência — pois Deus não está sujeito ao tempo nem às categorias humanas — seria contrário à Revelação contida nas Sagradas Escrituras afirmar que Deus possa perdoar alguém sem arrependimento e conceder-lhe a mesma recompensa eterna reservada aos santos que viveram na fidelidade, como Madre Teresa de Calcutá. A Revelação é clara e constante: não há perdão sem conversão, não há salvação sem arrependimento sincero.


A misericórdia divina é infinita, mas jamais arbitrária; ela atua em perfeita harmonia com a justiça. Deus não se contradiz. 


Aquele que rejeita a verdade, persevera no mal e se fecha voluntariamente à graça, exclui-se a si mesmo da comunhão com Deus.


O Testemunho da Escritura - O profeta Isaías afirma com clareza:



“Ainda que se mostre favor ao ímpio, nem por isso aprende a justiça; até na terra da retidão ele pratica a iniquidade, e não atentará para a majestade do SENHOR” (Is 26,10).


Ou seja, a concessão de favores externos não produz automaticamente conversão interior. A dureza do coração impede o reconhecimento da verdade, mesmo diante da misericórdia.


O Apocalipse é ainda mais explícito quanto à santidade exigida para a vida eterna:


“Nela jamais entrará qualquer coisa impura, tampouco alguém que pratique ações vergonhosas ou mentirosas” (Ap 21,27).


E reforça:


“Bem-aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos, para que tenham direito à árvore da vida e possam entrar na cidade pelas portas. Mas ficarão de fora os cães, os feiticeiros, os que se prostituem, os homicidas, os idólatras e todos os que amam e praticam a mentira” (Ap 22,14-15).


A Escritura não deixa margem para um perdão automático, desvinculado da conversão moral e da adesão à verdade.



“Pai, perdoai-lhes”: Houve perdão sem arrependimento?



Surge então a objeção clássica: não teria Cristo perdoado sem arrependimento ao dizer na cruz: “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem”?


Para responder corretamente, é preciso compreender tanto a teologia do pecado quanto a noção de ignorância moral.São Paulo explica que o pecado supõe conhecimento da lei:


“Eu não teria conhecido o pecado, se a Lei não tivesse dito: não cobiçarás” (Rm 7,7).


A teologia moral distingue dois tipos de ignorância:


1ª)-Ignorância invencível: quando a pessoa não tem meios de conhecer a verdade. Não há culpa.


2ª)-Ignorância vencível: quando a pessoa poderia conhecer a verdade, mas não quis. Há culpa.



Se Cristo pede perdão ao Pai, é porque há culpa real. Logo, a ignorância daqueles que O crucificaram não era invencível, mas culpável, fruto da recusa da verdade que lhes fora anunciada.


Além disso, é fundamental notar:Cristo não declarou o perdão, mas intercedeu por eles.O perdão, se foi concedido, dependia da abertura interior à graça, algo que só Deus conhece.



Caridade, Correção e Verdade



Ao lermos o Evangelho e as Epístolas, percebemos que a caridade é o eixo central da vida cristã. Contudo, caridade não é sentimentalismo, nem tolerância com o erro. Amar é querer o bem do outro, e o maior bem é a salvação eterna.Por isso, Jesus ora perdoa, ora corrige severamente. Ele acolhe a samaritana, mas amaldiçoa a hipocrisia dos fariseus. Ele é manso com os fracos, mas firme com os obstinados.O critério é claro:


-Boa vontade, ainda que fraca → paciência, mansidão, misericórdia.


-Malícia deliberada, adesão consciente ao erro → correção firme.


É por isso que Nosso Senhor diz: “Não vim apagar a mecha que fumega, nem quebrar a cana rachada”.Enquanto houver uma centelha de verdade na inteligência, há esperança de conversão.


A Samaritana: Verdade e Misericórdia Unidas


O encontro de Jesus com a samaritana é exemplar. Ele não relativiza o pecado nem o ignora. Pelo contrário, conduz a conversa de modo a levá-la à confissão:


“Já tiveste cinco maridos, e o que tens agora não é teu marido.”


Cristo não “passa pano”, não faz concessões à mentira. Sua misericórdia nasce da verdade, e é exatamente essa franqueza amorosa que converte a mulher. Não se cura um câncer escondendo o diagnóstico.


“Dar a outra face”: quando perdoar e quando resistir?


Cristo ensina a dar a outra face, mas Ele próprio, quando esbofeteado, não o fez. Antes, respondeu:


“Se falei mal, mostra onde; se falei bem, por que me bates?”


Portanto, a regra é espiritual, não mecânica. A atitude correta depende do efeito moral sobre o agressor:


Se o perdão pessoal pode tocá-lo e convertê-lo, perdoa-se!


Se a resistência firme é necessária para fazê-lo refletir, protesta-se contra a injustiça.Em ambos os casos, o objetivo é sempre o mesmo: a conversão do pecador.Deus pode tudo, exceto contradizer a si mesmo. A Escritura revela com clareza que não existe salvação sem arrependimento, nem perdão sem conversão. A misericórdia divina não apaga a justiça; ela a cumpre.


Por isso, afirmar que alguém que perseverou no mal até o fim poderia receber a mesma recompensa dos santos fiéis é negar a Revelação, esvaziar o sentido da cruz e transformar a misericórdia em injustiça.


A verdadeira caridade não é indulgência com o pecado, mas amor pela verdade que salva.

 


CONCLUSÃO 



À luz de tudo o que foi exposto, torna-se evidente que a pergunta inicial — embora legítima — só pode ser corretamente respondida quando libertada das categorias reducionistas do pensamento moderno e recolocada no horizonte da Revelação cristã. Deus não é prisioneiro da lógica humana, mas também não age de modo arbitrário ou contraditório à Sua própria Palavra. 



A soberania divina jamais se exerce em oposição à verdade revelada; ao contrário, ela a confirma. A Sagrada Escritura, a Tradição e o Magistério da Igreja são unânimes ao afirmar que a misericórdia de Deus pressupõe o arrependimento sincero do pecador. Não há, em toda a Revelação, um único exemplo de perdão concedido para a Salvação sem conversão interior. O caso do bom ladrão, frequentemente citado de modo superficial, confirma exatamente o oposto do que muitos pretendem defender: ele reconheceu sua culpa, confessou a justiça de sua punição e proclamou a realeza de Cristo. Por isso foi salvo. 



Assim, afirmar que Deus poderia conceder a Hitler — ou a qualquer outro pecador impenitente — a mesma recompensa eterna de uma santa que viveu heroicamente as virtudes cristãs sem arrependimento final não é um sinal de fé na misericórdia, mas uma negação prática da justiça divina e da própria moral cristã. 



Tal concepção não procede da Revelação, mas de uma mentalidade humanista que projeta em Deus suas próprias categorias sentimentais e relativistas. Ao mesmo tempo, a Igreja jamais se arroga o direito de declarar condenada uma alma em particular. O destino eterno das pessoas pertence ao juízo exclusivo de Deus. Por isso, pode-se — e deve-se — esperar que mesmo grandes pecadores tenham recebido, no último instante, uma graça extraordinária de conversão, disso temos inúmeros exemplos. Mas essa esperança não pode ser transformada em doutrina, nem usada como pretexto para diluir a gravidade do pecado ou banalizar a necessidade da conversão. 



Justiça e misericórdia, como ensina São Tomás de Aquino, não são virtudes opostas em Deus, mas perfeitamente unidas. Onde não há misericórdia, a justiça se torna crueldade; onde não há justiça, a misericórdia degenera em permissividade. É nesse equilíbrio perfeito — inacessível à razão puramente humana — que se fundamenta a esperança cristã e o temor salutar. Em conclusão, Deus não concederia a mesma recompensa eterna a Madre Teresa de Calcutá e a Adolf Hitler sem arrependimento, pois tal hipótese contradiz explicitamente a Revelação divina, a doutrina constante da Igreja e o ensinamento inequívoco das Sagradas Escrituras. 



A misericórdia de Deus é infinita, mas não é mágica, nem automática, nem independente da resposta livre do homem. Onde não há conversão interior, não há perdão, ainda que a graça seja abundantemente oferecida.  A parábola do banquete nupcial (Mt 22,1-14) esclarece esse ponto de forma definitiva. O convidado que entra sem as vestes adequadas não é expulso por falta de convite — pois foi chamado —, mas por falta de disposição interior correspondente à dignidade do banquete. Muitos teólogos identificam essas vestes com a graça santificante recebida no Batismo; contudo, a própria economia da salvação demonstra que não é o rito em si que salva automaticamente, mas o estado da alma diante de Deus. Há salvação fora do batismo sacramental em casos extraordinários — como o do bom ladrão —, mas não há salvação sem arrependimento, sem conversão e sem a aceitação interior da graça.  



O bom ladrão não foi batizado com água, mas foi “revestido” da graça pelo arrependimento sincero, pela confissão da própria culpa e pela fé explícita na realeza de Cristo. Ele entrou no banquete porque, embora sem o rito visível, estava interiormente vestido. 



Em contraste absoluto, o rico da parábola de Lázaro (Lc 16,19-31), embora filho de Abraão segundo a carne, não manifesta em momento algum arrependimento, pedido de perdão ou reconhecimento de culpa. Mesmo no sofrimento, sua preocupação permanece autocentrada; por isso, permanece separado de Deus. Não é a riqueza que o condena, mas a ausência de conversão.  



Esses dois episódios, colocados lado a lado, desmontam tanto o erro do sacramentalismo mecânico quanto o da misericórdia sem justiça. Deus não exclui ninguém arbitrariamente do banquete do Reino, mas ninguém entra nele sem as vestes da graça, isto é, sem arrependimento e sem a transformação interior da alma. 



A exclusão do convidado sem vestes e a condenação do rico não são atos de crueldade divina, mas o resultado da livre rejeição da graça oferecida.  Portanto, ainda que — em tese — um pecador gravíssimo pudesse alcançar o perdão no último instante por um arrependimento verdadeiro e sobrenatural, isso jamais autoriza a afirmar que Deus igualaria, sem conversão, o destino eterno de um réprobo ao de uma alma que perseverou heroicamente na caridade. Tal afirmação não exalta a misericórdia, mas a desfigura. 



A verdadeira esperança cristã repousa na certeza de que Deus quer salvar, mas também na verdade de que Ele não salva sem o consentimento livre do homem.  Entre a presunção e o desespero, a Revelação nos ensina o caminho reto: confiar ilimitadamente na misericórdia divina, sem jamais abusar dela, lembrando sempre que muitos são chamados, mas poucos são escolhidos — não por arbitrariedade divina, mas porque nem todos aceitam vestir-se da graça que lhes é oferecida.



Este mistério não nos autoriza nem ao desespero nem à presunção, mas nos chama à conversão constante, à humildade e à confiança filial naquele que é, ao mesmo tempo, infinitamente justo e infinitamente misericordioso.




*Francisco José Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº  003/17 - Perfil curricular no sistema Lattes do CNPq Nº 1912382878452130.





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