Diante do mistério da morte, a Igreja Católica sempre ensinou que o cristão não deve olhar o fim da vida terrena apenas com os olhos da tristeza humana, mas sobretudo com os olhos da fé sobrenatural.
As exéquias cristãs, portanto, não são meras despedidas sentimentais ou simples homenagens à memória de alguém que partiu; elas são, antes de tudo, um ato profundamente teológico, um momento sagrado em que a Igreja Militante intercede pela Igreja Padecente, recordando que a morte foi transformada por Nosso Senhor Jesus Cristo de derrota em passagem para a eternidade. Na espiritualidade católica tradicional, a morte é compreendida à luz do Calvário: assim como Cristo morreu para abrir as portas do Céu, também o fiel é chamado a unir sua morte ao sacrifício redentor, confiando na misericórdia divina e na eficácia das orações da Igreja.
As exéquias se inserem nessa visão sobrenatural da vida, onde tudo deve ser ordenado à salvação da alma, que sempre foi considerada pela tradição católica como o maior bem do homem, conforme a máxima evangélica: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se vier a perder a sua alma?” (cf. Mt 16,26).
Por isso, a Igreja, como verdadeira mãe e mestra, nunca abandona seus filhos nem mesmo após a morte, mas continua a assisti-los por meio da Santa Missa, das orações, dos sufrágios e das indulgências. Esse cuidado manifesta a caridade sobrenatural que ultrapassa as barreiras do tempo e da morte, fundamentada no dogma da Comunhão dos Santos, tão caro à tradição católica. Dentro dessa perspectiva, compreende-se que o verdadeiro sentido das exéquias não está apenas no consolo dos vivos, mas principalmente no auxílio espiritual ao falecido, tendo a Igreja como guardiã dos grandes tesouros dados a ela por Jesus Cristo, que os distribue.
A mentalidade tradicional da Igreja sempre destacou que as orações pelos mortos são um dever de justiça e caridade, pois muitas almas necessitam de purificação no Purgatório antes de contemplar a Deus face a face.
Assim, participar das exéquias não é apenas um gesto de amizade humana, mas um verdadeiro ato de misericórdia espiritual, conforme a antiga prática cristã de rezar pelos defuntos, oferecer Missas e fazer penitências por sua purificação. Além disso, as exéquias também servem como um forte chamado à conversão dos vivos. A liturgia tradicional dos funerais sempre teve um caráter pedagógico e espiritual muito claro: recordar a brevidade da vida, a realidade do juízo particular, a necessidade da graça santificante e a importância de morrer em estado de amizade com Deus.
Não por acaso, a tradição católica sempre incentivou a meditação sobre as últimas realidades — morte, juízo, inferno e paraíso — como um meio de sabedoria cristã, conforme ensina a Sagrada Escritura: “Lembra-te dos teus fins e jamais pecarás” (Eclo 7,36).
Qual o significado das #exéquias para os cristãos?
*Por: Lino Rampazzo
O Catecismo da Igreja Católica nos ajuda a compreender o que são as exéquias.A palavra exéquias provém do verbo latino exsequi, que significa “seguir” e refere-se ao cortejo fúnebre que segue o corpo do defunto até o túmulo.
Para entender o significado cristão disso, encontramos uma profunda explicação das exéquias no Catecismo da Igreja Católica
-A primeira parte do Catecismo nos apresenta as verdades da fé, o Credo.
-A segunda parte se refere à Celebração do Mistério Cristão;
-A terceira parte à moral cristã, definida como “vida em Cristo”;
-E a última parte à oração cristã (na qual se destaca o comentário sobre o ‘Pai-Nosso’).
A reflexão sobre as exéquias se encontra na segunda parte, depois da explicação sobre os sacramentos (Batismo, Confirmação, Eucaristia etc.).
É bom lembrar que todo o Catecismo da Igreja Católica está disponibilizado na Internet e, no seguinte site, encontra-se a parte que se refere às “Exéquias Cristãs” (números 1680-1690):
http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p2s2cap4_1667-1690_po.html
Destacam-se, a seguir, algumas reflexões do Catecismo
sobre as Exéquias
Antes de tudo, há um item sobre “A última Páscoa do cristão”. Aqui, lembra-se que a Morte e a Ressurreição de Cristo revelam para nós o sentido da nossa morte: o cristão que morre em Cristo Jesus “abandona este corpo para ir morar junto do Senhor” (2 Coríntios 5,8).A Igreja, como mãe, acompanha o cristão no termo da sua caminhada para entregá-lo ‘nas mãos do Pai’. Em seguida, fala-se explicitamente sobre “A celebração das exéquias”.
A Celebração REGULAR E ORDINÁRIA das
Exéquias, aqui no Brasil, acontece, frequentemente, em três lugares:
a)-No velório
municipal (ou privativo), onde os parentes recebem os amigos do falecido;
b)-No cemitério, onde
se sepulta o corpo do falecido;
c)-E na Igreja onde se
celebra a Missa do sétimo dia e trigésimo dia.
Nesses três lugares, muitos cristãos escutam a Palavra de Deus, especialmente os Evangelhos, e rezam. A Palavra nos transmite o sentido da morte para o cristão, como acima lembrado. E a oração expressa a nossa fé na “comunhão dos santos”. “Santos” são os santificados pelo batismo, que procuram viver sua fé de maneira coerente. A morte não nos separa dos falecidos: nós permanecemos “em comunhão” com eles. Eles estão em Deus e rezam por nós; e vice-versa.
Na vida presente, muitas vezes, a fé é misturada com pecados de fraqueza e egoísmo, que, mesmo assim, não rompem de maneira radical a comunhão com Deus e com os irmãos.
-Então, logo após a morte, os cristãos vão completar sua conversão: e aqui encontramos a fé católica na existência do Purgatório (apenas para salvos e para pagamentos das penas, e não da culpa).
-Vivos e falecidos permanecem, pois, unidos, e rezam reciprocamente uns pelos outros, para que a conversão total a Cristo seja completa. A esse respeito, é bom lembrar a origem da palavra “cemitério”. Na língua grega koimeterion (κοιμητήριον) significa “lugar de repouso”, dormitório. Sim, mas quem vai dormir, depois do descanso, levanta. E nós levantaremos, no dia da ressurreição: para viver com Cristo, que destruirá a morte para sempre. A palavra “cemitério” aponta, pois, para o sentido profundamente cristão da morte.
-Quanto à Missa de sétimo e trigésimo dia, é importante lembrar que a Eucaristia é a celebração mais solene dos cristãos, na qual anunciamos a morte do Senhor que ressuscitou, que nos ressuscitará e está presente na Eucaristia como semente de ressurreição.
-Podemos, então, afirmar que este é o “momento forte” das exéquias cristãs. Nos três lugares das exéquias, nós cristãos somos chamados a ser missionários, quer dizer, anunciadores da morte-ressurreição de Cristo, que dá um novo sentido à vida e à morte.As exéquias são, pois, um “momento de graça” para renovar a nossa fé e para proclamá-la.
*Lino Rampazzo: Doutor em Teologia
pela Pontificia Università Lateranense (Roma), Lino Rampazzo é professor e
pesquisador no Programa de Mestrado em Direito do Centro Unisal – U.E. de
Lorena (SP) – e coordenador do Curso de Teologia da Faculdade Canção Nova,
Cachoeira Paulista (SP).
CELEBRAÇÃO DAS EXÉQUIAS DIRIGIDAS POR UM LEIGO
Depois do cântico de
entrada, estando todos de pé, fazem o sinal da cruz, enquanto o dirigente leigo
diz:
℣. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
℟. Amém.
℣. Bendito seja Deus, Pai de misericórdia e de toda a
consolação, que nos consola em todas as tribulações.
℟. Amém.
Irmãos:
A morte do nosso querido irmão (Nome) enche-nos de comoção e recorda-nos como é frágil e breve a vida do homem. Mas
neste momento de tribulação, conforta-nos a nossa fé. Cristo vive eternamente,
e o seu amor é mais forte do que a morte. Por isso, não deve vacilar a nossa
esperança. O Pai de misericórdia e Deus de toda a consolação vos conforte nesta
tribulação.
Oremos:
Pela vossa infinita misericórdia,
recebei, Senhor, a alma do vosso servo N. e purificai-a de todas as culpas
cometidas durante a vida terrena, para que, livre dos vínculos da morte, mereça
entrar na vida eterna.
Por Cristo, nosso Senhor.
℟. Amém.
LEITURA:
livro da Sabedoria 3, 1-6.9 – “Deus aceita os justos como sacrifício de holocausto”
Leitura do Livro da Sabedoria:
“As almas dos justos estão na mão
de Deus, e nenhum tormento os atingirá. Aos olhos dos insensatos parecem ter
morrido; a sua saída deste mundo foi considerada uma desgraça, e a sua partida
do meio de nós um aniquilamento. Mas eles estão em paz. Aos olhos dos homens
eles sofreram um castigo, mas a sua esperança estava cheia de imortalidade.
Depois de leve pena, terão grandes benefícios, porque Deus os pôs à prova e os
achou dignos de Si. Experimentou-os como ouro no crisol e aceitou-os como
sacrifício de holocausto.Os que n’Ele confiam compreenderão a verdade, e os que
Lhe são fiéis permanecerão com Ele no amor, pois a graça e a misericórdia são
para os seus santos e a sua vinda será benéfica para os seus eleitos.”
Palavra do Senhor!
Salmo 26 (27), 1.4.7 e 8b e 9a. 13-14
O Senhor é a minha luz e a minha
salvação!
O Senhor é minha luz e salvação:
a quem hei-de temer?
O Senhor é o protetor da minha
vida:
de quem hei-de ter medo?
Uma coisa peço ao Senhor, por ela anseio:
habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida,
para gozar da suavidade do Senhor
e visitar o seu santuário.
Ouvi, Senhor, a voz da minha
súplica,
tende compaixão de mim e atendei-me.
A vossa face, Senhor, eu procuro:
não escondais de mim o vosso
rosto.
Espero vir a contemplar a bondade
do Senhor na terra dos vivos.
Confia no Senhor, sê forte.
Tem coragem e confia no Senhor.
Aclamação do Evangelho: cf. Mt 11, 25-30
℣.
Bendito sejais, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque revelastes aos
pequeninos os mistérios do reino.
Mt 11, 28: «Vinde a Mim...Eu vos aliviarei»
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus!
Glória a vós Senhor!
Naquele tempo, Jesus exclamou: «Eu
Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades
aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, Eu Te
bendigo, porque assim foi do teu agrado. Tudo Me foi dado por meu Pai. Ninguém
conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a
quem o Filho O quiser revelar. Vinde a Mim, todos os que andais cansados e
oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai o meu jugo sobre vós e aprendei de Mim,
que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas
almas. Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve».
℣. Palavra da Salvação.
℟. Glória a Vós, Senhor.
*(Se conveniente, neste momento podem ser dirigidas
algumas rápidas palavras aos presentes)
PROFISSÃO DE FÉ
Com a esperança posta
na ressurreição e na vida eterna que em Cristo nos foi prometida, professemos
agora a nossa fé:
Creio em Deus, Pai todo-poderoso,
Criador do céu e da terra.
E em Jesus Cristo, seu único
Filho, Nosso Senhor:que foi concebido pelo poder do Espírito Santo.
Nasceu da Virgem Maria.
Padeceu sob Pôncio Pilatos.
Foi crucificado, morto e
sepultado.
Desceu à mansão dos mortos.
Ressuscitou ao terceiro dia.
Subiu aos Céus
Está sentado à direita de Deus
Pai todo-poderoso
De onde há-de vir a julgar os
vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo.
Na santa Igreja Católica.
Na comunhão dos Santos.
Na remissão dos pecados.
Na ressurreição da carne.
E na vida eterna.
Amém.
ORAÇÃO DOS FIÉIS
℣. Irmãos: unidos na mesma fé, oremos ao Senhor pelo nosso irmão falecido,
pela Igreja, pela paz do mundo e pela nossa salvação, dizendo com toda a
confiança:
℟. Senhor, escutai a nossa prece.
℣. Pelos pastores da santa Igreja, para que sejam fiéis à graça que
receberam e realizem o seu ministério em favor do povo de Deus, supliquemos:
℟. Senhor, escutai a nossa prece.
℣. Pelos que governam a sociedade civil, para que promovam sempre o bem
comum, a concórdia, a liberdade e a paz, oremos:
℟. Senhor, escutai a nossa prece.
℣. Pelos que sofrem no corpo ou na alma, para que sintam sempre junto de
si a presença invisível do Senhor, supliquemos:
℟. Senhor, escutai a nossa prece.
℣. Pelo nosso querido irmão N., para que o Senhor o livre do poder das
trevas e da morte eterna, supliquemos a Deus:
℟. Senhor, escutai a nossa prece.
℣. Pelo nosso querido irmão N., para que o Senhor lhe mostre a sua
misericórdia e o receba no reino da luz e da paz, oremos:
℟. Senhor, escutai a nossa prece.
℣. Pelos nossos familiares e benfeitores já falecidos, para que o Senhor
os conduza à assembleia gloriosa dos Santos,peçamos:
℟. Senhor, escutai a nossa prece.
℣. Por todos nós que participamos nesta celebração, para que a
providência paterna de Deus nos assista e nos proteja pelos caminhos da vida,
oremos:
℟. Senhor, escutai a nossa prece.
ORAÇÃO FINAL DURANTE SEPULTAMENTO
Senhor nosso Deus, Pai santo e eterno, Deus de vivos e não de mortos (cf. Mt 22,32), nós vos entregamos hoje o corpo deste(a) vosso(a) filho(a), na esperança firme da ressurreição prometida por vosso Filho Jesus Cristo, que declarou: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (cf. João 11,25).
Nós cremos, Senhor, que a morte não é o fim, mas uma passagem para a verdadeia Vida, pois o próprio Cristo nos revelou que aqueles que partiram continuam vivos diante de Vós. Como Ele ensinou, Deus é o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, mostrando que aqueles que morreram na terra continuam vivos em Deus (cf. Mateus 22,31-32).
Por isso, nossa fé não é uma fé na morte como o fim de tudo, mas na vida eterna, pois como disse o Apóstolo São Paulo: “Se os mortos não ressuscitam, então é vã a nossa fé” (cf. 1Cor 15,17). Mas nós sabemos que Cristo ressuscitou verdadeiramente e se tornou as primícias daqueles que morreram (cf. 1Cor 15,20).
Senhor nosso Deus e nosso Pai, também cremos, conforme as Escrituras nos revelam, que as almas continuam conscientes após a morte, como vemos na parábola do rico e do pobre Lázaro, onde Jesus mostra que a vida continua e que nossas escolhas têm consequências eternas (cf. Luc 16,19-31).
Cremos também na vossa misericórdia que alcança os mistérios que nós não compreendemos plenamente, como ensina São Pedro ao dizer que Cristo, após sua morte, anunciou a vitória da salvação também aos espíritos em prisão (cf. 1Pd 3,18-20), mostrando que vossos desígnios de salvação ultrapassam aquilo que nossos olhos podem ver.
E cremos ainda no testemunho do Apocalipse, onde as almas dos justos que sofreram por causa da fé estão vivas diante de Vós e clamam por justiça (cf. Apoc. 6,9-10), mostrando que aqueles que partem nesta vida não desaparecem, e nem ficam dormindo inconcientes, mas vivem diante do vosso trono.
Por isso, Senhor, confiamos este(a) vosso(a) filho(a) à vossa infinita misericórdia. Se ainda houver nele(a) algo a ser purificado, completai pela vossa graça aquilo que falta, pois sabemos que nada impuro pode entrar na vossa presença (cf. Ap 21,27), mas também sabemos que Vós sois ricos em misericórdia (cf. Efes. 2,4).
Nós vos pedimos isso não porque nossa oração substitua a vossa graça Salvífica, pois sabemos que a salvação vem de Vós e não de nossas orações, mas porque a própria Escritura nos ensina a rezar uns pelos outros (cf. Tiago 5,16) e porque a caridade não termina com a morte (cf. Rm 8,38-39).
Senhor, Vós mesmo dissestes que não quereis a morte do pecador, mas que ele se converta e viva (cf. Ez 33,11). Por isso, confiamos que vosso olhar é sempre de misericórdia, pois julgais os corações e conheceis as intenções mais profundas, e Tu revelastes ao apóstolo Tiago que vossa misericórdia em maior que vossa justiça (Tiago 2,13).
Lembrai-vos também de todo bem praticado por este(a) vosso(a) filho(a), pois prometestes que até mesmo um copo de água dado por amor não ficará sem recompensa (cf. Mt 10,42), e que em toda nação aquele que pratica a justiça vos é agradável (cf. Atos 10,34-35).
Concedei-lhe, Senhor, participar da ressurreição dos justos no último dia, quando, conforme a promessa de Cristo, todos os que estão nos túmulos ouvirão sua voz e ressuscitarão (cf. João 5,28-29).
E a nós que permanecemos, concedei viver na fé, na conversão e na esperança, para que quando chegar nossa hora possamos também ouvir: “Vinde, benditos de meu Pai” (cf. Mt 25,34).
Consolai os corações feridos pela saudade e aumentai em nós a certeza de que, para aqueles que creem, a separação é apenas temporária, pois esperamos o reencontro na vida eterna.
Recebei, Senhor, esta alma em vossa paz, perdoai seus pecados, concedei-lhe a luz eterna e fazei-o(a) participar da alegria dos santos.
Por Jesus Cristo, Nosso Senhor, que morreu, ressuscitou e vive para sempre, Senhor dos vivos e dos mortos (cf. Rm 14,9).
Amém.
Rezemos como o Senhor Jesus nos ensinou:
Pai Nosso...
Se apropriado:Ave Maria...
Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo! Como era no princípio, agora e sempre. Amém.
Breves considerações acerca das #exéquias e sepultura eclesiástica
para os "suicidas"
1) Há relatos de que a Igreja Católica não realizava missas de
sétimo dia para as pessoas que cometeram suicídio. Isso é verdade? Por que não
fazia?
De fato, a anterior legislação canônica, promulgada em 1917 pelo papa Bento XV excluía os suicidas dentre aqueles aos quais se deveria negar a sepultura eclesiástica (cf. c. 1240 § 1 nº 3) e, por consequência, ao que tivesse sido negada a sepultura eclesiástica, se lhe negava igualmente a missa exequial (missa de corpo presente) e também aquelas por ocasião do aniversário de morte e outros ofícios fúnebres públicos (cf. c. 1241).Quanto ao período de vigência daquela legislação, a interpretação da doutrina majoritária referente aos dois cânones acima citados era a seguinte: “mesmo rechaçando o erro daqueles que afirmam que todos os que se suicidam não estão em são juízo, é preciso reconhecer que nem sempre é coisa fácil determinar quando os suicidas agiram com deliberação, nem quando provocaram a morte a si mesmos os que aparecem enforcados ou afogados ou mortos de um tiro ou de uma facada, mesmo que se encontre a arma junto ao cadáver. E está claro que enquanto não conste com certeza o suicídio deliberado e ademais este seja de domínio público, não se lhes pode privar da sepultura eclesiástica” (cf. ALONSO MORÁN, S., Comentário al c. 1240 § 1 nº 3 in Código de Derecho Canónico, BAC, Madrid 1951, p. 465).A legislação canônica de 1917 foi revogada aos 25 de janeiro de 1983 com a promulgação do novo Código de Direito Canônico pelo papa João Paulo II, o qual entrou em vigor no dia 27 de novembro do mesmo ano.
2) Atualmente a Igreja faz ou não missa de sétimo dia para a pessoa
que se suicidou?
A vigente legislação canônica, promulgada pelo papa João Paulo II aos 25 de janeiro de 1983 e que entrou em vigor no dia 27 de novembro do mesmo ano, estabelece em seus cânones 1183-1185 os casos nos quais “se deve conceder ou negar as exéquias eclesiásticas”.A concessão de exéquias eclesiásticas se entende como um direito dos fiéis e como uma obrigação correlativa dos responsáveis pela sua concessão. Aliás, os próprios fiéis procuram que ninguém, a quem corresponda, seja privado delas.
Agora, a negação de exéquias eclesiásticas não exclui desde já, a possibilidade de oferecer sufrágios e orações em favor de qualquer pessoa defunta seja ou não crente, posto que a norma se refere unicamente em sentido específico às exéquias eclesiásticas, que como é sabido, diferem dos sufrágios, e estes por sua vez, são sempre possíveis em favor de quaisquer defuntos. Por outra parte, se trata de uma matéria delicada, como indicam os autores, que supõe uma exceção ao princípio geral do direito às exéquias eclesiásticas. Portanto, a negação de exéquias deve ser interpretada de forma estrita.
Também é preciso levar em conta a sensibilidade do povo cristão e o próprio legislador que favorecem a generosidade e por isso se eliminou da legislação canônica a privação da sepultura eclesiástica (como uma sanção penal) por ser demasiado duro e ineficaz.
O elenco dos casos nos quais “se deve negar as exéquias eclesiásticas” encontra-se no c. 1184 e, ali não se contempla o fato dos suicídios.
Durante a fase de revisão do texto, antes da sua promulgação, o fato foi levantado, mas não houve a sua incorporação no texto definitivo porque se julgou que antes que esclarecer, iria provocar ainda mais interrogações.
Assim, neste suposto se deve resolver a questão com benignidade:
a) devem-se remover quaisquer possibilidades de escândalos na comunidade.
b) deve-se evitar a missa exequial (missa de corpo presente).
c) mas, não se proíbem os denominados sufrágios, dentre os quais se situa a comumente denominada “missa de sétimo dia”.
3) Como a Igreja vê o suicídio? A pessoa que se suicida tem salvação ou condenação eterna (céu e inferno)? Qual a posição da Igreja sobre isso?
Responderei as duas perguntas numa só consideração. O Catecismo da Igreja Católica, promulgado mediante a Constituição Apostólica “Fidei depositum”, do papa João Paulo II, datada de 11 de outubro de 1992, em sua terceira parte (“A vida em Cristo”), secção segunda (Os dez mandamentos), capítulo segundo (“Amarás o próximo como a ti mesmo), artigo sexto (O quinto mandamento), número I (O respeito à vida humana), esclarece acerca do suicídio:
-“Cada um é responsável por sua vida diante de Deus que lha deu e que dela é sempre o único e soberano Senhor. Devemos receber a vida com reconhecimento e preservá-la para sua honra e a salvação de nossas almas. Somos administradores e não os proprietários da vida que Deus nos confiou. Não podemos dispor dela” (nº 2280).
-“O suicídio contradiz a inclinação natural do ser humano a conservar e perpetuar a própria vida. É gravemente contrário ao justo amor de si mesmo. Ofende igualmente o amor do próximo porque rompe injustamente os vínculos de solidariedade com as sociedades familiar, nacional e humana, às quais nos ligam muitas obrigações. O suicídio é contrário ao amor do Deus vivo (nº 2281)”.
-“Se for cometido com a intenção de servir de exemplo, principalmente para os jovens, o suicídio adquire ainda a gravidade de um escândalo. A cooperação voluntária ao suicídio é contrária à lei moral” (nº 2282).
-“Distúrbios
psíquicos graves, a angústia ou o medo grave da provação, do sofrimento ou da
tortura podem diminuir a responsabilidade do suicida” (nº 2282).
-“Não se deve desesperar da salvação das pessoas que se mataram. Deus pode, por caminhos que só Ele conhece, dar-lhes a ocasião de um arrependimento salutar. "A Igreja ora" pelas pessoas que atentaram contra a própria vida” (nº 2283).
Dom Valdir Mamede - Bispo auxiliar de Brasília
Conclusão
Dessa forma, as exéquias cristãs revelam toda a profundidade da visão católica sobre a vida e a morte, mostrando que a existência humana não termina no túmulo, mas encontra sua continuidade na eternidade.
Elas são uma profissão pública de fé na Ressurreição, uma proclamação da vitória de Cristo sobre a morte e um testemunho de que a esperança cristã não se baseia em sentimentos humanos passageiros, mas na promessa infalível de Nosso Senhor: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11,25).
Na tradição católica constante, sempre se insistiu que a maior caridade que se pode fazer por um falecido não são as homenagens externas, mas as orações, os sacrifícios e, sobretudo, o oferecimento do Santo Sacrifício da Missa, que possui valor infinito, não pela sua salvação, mas pelas penas que possa padecer após a morte.
Por isso, a prática das Missas de sétimo dia, trigésimo dia e aniversários de falecimento permanece como uma expressão concreta da fé viva da Igreja e da certeza de que nossas orações podem realmente ajudar aqueles que estão em processo de purificação final.
Também é importante recordar que a forma como os cristãos encaram a morte manifesta aquilo que realmente creem. Quando as exéquias são vividas com espírito de fé, recolhimento e oração, elas se tornam um verdadeiro testemunho contra a mentalidade secularizada que tenta esconder a morte ou reduzi-la a um fato puramente biológico.
Pelo contrário, a tradição católica sempre ensinou que a morte é o momento mais sério da vida, pois dela depende a eternidade, e por isso deve ser cercada de dignidade, oração e profunda confiança em Deus.
Por fim, as exéquias nos recordam uma verdade essencial da espiritualidade católica tradicional: devemos viver bem para morrer bem. A chamada “boa morte”, tão valorizada pelos santos, consiste em morrer reconciliado com Deus, fortalecido pelos sacramentos e confiante na misericórdia divina. Assim, cada funeral deve também nos levar a um exame de consciência pessoal: estamos preparados para a eternidade? Estamos vivendo em estado de graça? Estamos buscando a santidade?
Portanto, as exéquias não são apenas um rito de despedida, mas um momento de graça, de evangelização e de renovação da fé. Elas nos ensinam que a morte não tem a última palavra, que a caridade continua além do túmulo e que a esperança cristã permanece firme porque está fundada em Cristo.
Diante disso, a atitude verdadeiramente católica não é o desespero, mas a oração; não é o esquecimento, mas a memória agradecida; não é o medo, mas a esperança sobrenatural.
E assim, rezando pelos mortos e preparando nossa própria alma, caminhamos todos para o mesmo destino: a eternidade, onde desejamos um dia nos reencontrar na glória de Deus.
FONTES DE CONSULTA:
-https://formacao.cancaonova.com/igreja/catequese/voce-sabe-qual-e-o-significado-das-exequias-para-os-cristaos/
-https://www.manualdacm.com/p/exequiasleigo.html
-https://www.liturgia.pt/rituais/Exequias.pdf
-https://treinamento24.com/library/lecture/read/864970-quem-pode-fazer-as-exequias
-https://www.cnbbco.com/conteudo/artigos/item/521-breves-consideracoes-acerca-das-exequias-e-sepultura-eclesiastica-para-os-suicidas#.YthVtHbMJPY
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