
Antes de responder a essa pergunta, é preciso evitar dois extremos igualmente errados.
-O primeiro é imaginar que o pecado destruiu completamente a natureza humana, tornando o homem incapaz de conhecer qualquer verdade ou praticar qualquer bem.
-O segundo é acreditar que o pecado foi apenas um acidente superficial, sem consequências profundas para a alma. A doutrina católica, sintetizada de modo magistral por São Tomás de Aquino, segue um caminho equilibrado: o pecado original não destruiu a natureza humana, mas a feriu gravemente. A inteligência permaneceu capaz de conhecer a verdade, porém ficou obscurecida pelo erro; a vontade conservou sua liberdade, mas tornou-se inclinada ao mal; e a consciência, criada para discernir o bem e o mal, pode ser deformada pelos vícios, pelas paixões desordenadas e pela repetição do pecado.
É nesse contexto que devemos compreender as fortes palavras de São Paulo em Tito 1,15: "Seu espírito e sua consciência estão corrompidos." O Apóstolo não está afirmando que o ser humano perdeu totalmente a capacidade de conhecer a Deus ou de distinguir o certo do errado, mas que, afastado da verdade e da graça, seu modo de pensar, julgar e decidir sofre uma profunda desordem moral. A corrupção mencionada por São Paulo atinge o modo como a pessoa percebe a realidade, interpreta a lei moral e orienta suas escolhas.
Segundo São Tomás, o pecado atua como uma doença da alma. Assim como uma enfermidade compromete o funcionamento normal do corpo sem destruir sua natureza, o pecado compromete as faculdades espirituais sem eliminá-las. A inteligência passa a raciocinar sob a influência das paixões desordenadas; a vontade enfraquece diante das tentações; e a consciência, quando repetidamente ignorada, pode deixar de acusar aquilo que objetivamente é pecado. Daí a importância da graça de Deus, que não substitui a natureza humana, mas a cura, a fortalece e a eleva.
A questão, portanto, não é saber se o pecado destruiu completamente a alma, o intelecto e a consciência, mas até que ponto os corrompeu e quais permanecem sendo as capacidades naturais do homem. É exatamente essa distinção, tão cara à tradição católica e ao pensamento de São Tomás de Aquino, que nos permitirá compreender corretamente o ensinamento de São Paulo e responder à pergunta: até que ponto o pecado corrompeu a alma, o intelecto e a consciência?
Tito 1, 15: “Seu espírito e sua consciência estão corrompidos”
A
consciência segundo Tomás de Aquino – Parte 1
Freqüentemente em nossa época, essa expressão
deveria, à primeira vista, facilitar o acesso de um espírito contemporâneo à
doutrina de Tomás de Aquino. Não há palavras bastante fortes para afirmar
e repetir que se deve sempre seguir a própria consciência – mesmo quando ela se
engana? É necessário, no entanto, olhar mais de perto. Além de a
palavra não ter sempre o mesmo sentido para ele e para nós, é utilizada num
contexto profundamente diferente.
Para
nós, a consciência tem ressonância
eminentemente subjetiva. Vista como instância última diante da qual somos
responsáveis, ela é algumas vezes concebida de maneira simplista, a ponto de
ser, um pouco ingenuamente, identificada
com o que pensamos espontaneamente ou com as reações de nosso meio de origem.
Agir segundo a própria consciência seria, então, se conduzir segundo o
conformismo ambiente.
Para Tomás, as coisas
são menos simples, e ele faz uma idéia mais elevada da grandeza do homem e de
sua consciência. Ela é certamente uma instância contra a qual não se pode ir,
mas não é a última instância. Nossa dignidade de
pessoa humana não se situa numa reivindicação de autonomia absoluta diante de
Deus, mas na aceitação de nossa dependência d’Ele.
Se quisermos compreender o ensinamento do Mestre de
Aquino, deveremos retomá-lo de mais alto. Sem fazer uma exposição completa e
ainda menos entrar nos debates contemporâneos, é preciso ao menos lembrar o
mais exatamente possível de que se trata, e tentar retirar daí o interesse para
a teologia espiritual.
Deve-se, em primeiro lugar, lembrar aquilo que foi
dito sobre a lei natural, participação na criatura racional da lei eterna, da
Providência Divina.
Essa participação se realiza por um habitus próprio que Tomás chama, de maneira estranha para
nós, de “sindérese”. Esse termo, recebido de São Jerônimo – que o traduz por
“centelha da consciência”, e que ele assegura que não se extinguiu mesmo
no coração de Caim de pois de seu crime -, é a simples transcrição provavelmente
falsa de um termo grego. Se a designação se esclarece em parte pela
história da palavra, a função é mais importante ainda porque é da sindérese que
depende toda a vida moral da pessoa:
“Para que possa haver retidão nos atos
humanos, é necessário que haja neles um princípio permanente, de uma retidão
imutável, à luz do qual sejam examinadas todas as obras do homem, e que
seja de tal sorte que esse princípio permanente resista a tudo o que é mau e dê
seu assentimento a tudo o que é bom. Esta é a sindérese, cuja função é desaprovar o mal e inclinar
ao bem; deve-se conceder ainda que a sindérese não pode pecar”. (De veritate q.16 a.2)
Paralela ao intellectus, o habitus que
apreende intuitivamente os primeiros princípios da vida intelectual (o ser
existe, o não-ser não existe), a sindérese é
aquele habitus que
apreende e formula os dois grandes princípios da vida moral que trazem em si
mesmos a sua evidência: deve-se fazer o bem e evitar o mal. É nessa linha, já o vimos, que se situam as cinco
grandes inclinações que decorrem da lei natural: ao bem, à manutenção no
existir, à união sexual e à educação dos filhos, ao conhecimento da verdade, à
vida social. Embora seja tão importante, a apreensão das
intenções primordiais da vida moral e social é insuficiente por si mesma.
Alguns
princípios do direito natural só serão acessíveis depois de uma elaboração que
necessita às vezes de uma longa educação, seja para os indivíduos, seja para a
humanidade inteira. Para um conhecimento moral que se quer diretor do
agir, esse conhecimento espontâneo dos princípios últimos requer ainda
prolongamentos e adaptações às situações concretas. É necessário que a razão prática
confronte esses dados primeiros com tudo o que ela sabe por outras fontes sobre
os dados naturais e evangélicos que comandam o campo do agir humano e cristão.
É preciso também que ela tenha em conta a pessoa comprometida nessa ação
particular para determinar a maneira pela qual os princípios gerais se aplicam
aqui e agora.
É aqui que
intervém a consciência moral
Por mais estranho que possa parecer, a
consciência não é uma faculdade nem um habitus, mas um ato da razão prática.
Pode-se aceitar o
uso corrente que fala da sindérese a partir do habitus que
permite realizá-lo, e nesse momento a sindérese seria essa consciência “habitual”, mas
propriamente falando a consciência é outra coisa. É o ato pelo qual a
razão prática reúne todos os dados à sua disposição (os da sindérese, do
conhecimento moral, da experiência, das convicções e opiniões diversas, etc.)
com o fim de concluir sua deliberação num juízo prático e normativo.
Prático,
uma vez que visa orientar a ação, esse juízo permanece na ordem do conhecimento
– é, pois, suscetível de ser verdadeiro ou falso. Por essa
razão se põe a seu propósito a questão insolúvel da consciência errônea. Tomás
ensina que a consciência obriga mesmo quando ela se engana, mas isso não é sem
uma razão fundamental:
“A obrigação da consciência mesmo errônea é
a mesma da lei de Deus (idem est
ligamen conscientiae etiam erroneae et legis Dei). A consciência não
comanda fazer isso ou evitar isso senão porque ela crê que isso corresponde ou
não à lei de Deus. A lei não
se aplica aos nossos atos a não ser pela mediação de nossa consciência.”
(Super ad Rom. 14,14, lect.
2, n. 1120).
Reconhece-se
nessa última frase o resumo conciso daquilo que se acabou de ler:
Os grandes princípios morais não encontram sua
tradução concreta no agir moral a não ser mediante o juízo da consciência
emitido pela razão: “A consciência é de alguma maneira a prescrição
(dictamen) da razão” (ST I-II,
q.19 a.5).
Mas não se deve se
enganar; se é assim é porque este juízo, por estar em continuidade com a
sindérese, é considerado conforme à lei natural, ela mesma expressão no coração
da lei de Deus. Compreende-se,então,
por que ir contra sua consciência seria pecar; seria agir contra o que se pensa
ser a lei de Deus:
“Saber que uma coisa
deve ser feita em consciência, isso nada mais é do que julgar que se agiria
contra Deus se não o fizesse. Ora, agir contra Deus é pecar (Super ad Gal. 5,3,lect. 1, n. 282). [Tomás é totalmente formal:] Se um homem
julgasse que a razão humana lhe dizia uma coisa contrária à lei de Deus, ele
não devia seguir sua razão. Nesses casos, aliás, a razão não estaria completamente
no erro. Mas, quando a razão se engana e apresenta algo como uma ordem de Deus,
desprezar o ditame da razão seria desprezar a ordem de Deus.” (Suma Teológica I-II, q.19 a.5 ad2).
A
consciência segundo Tomás de Aquino – Parte 2
Só se compreendem essas fórmulas absolutas que
identificam a voz da consciência com a voz de Deus à luz de seu contexto. Elas
supõem a conformidade voluntariamente procurada da razão com a lei natural e
ademais com Deus, mas, além dessa dependência fundadora, elas supõem ainda um
ajuste virtuoso em relação aos outros homens. Tomás faz explicitamente a ligação entre essas duas atitudes em seu
comentário à primeira carta a Timóteo 1, 5:
“O fim do preceito é a caridade que
procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sem fingimento”.
Como a caridade
é o fim do preceito?
[É
necessário saber que todos os mandamentos se ordenam a promover os atos das
virtudes e que as virtudes se agenciam
entre elas num organismo do qual a caridade é o cume]. As virtudes teologais têm o fim último por objeto. As outras têm por
objeto o que permite atingir esse fim.
Assim, todas as outras virtudes se
referem às virtudes teologais como a seu fim. Entre as virtudes teologais, a que se aproxima mais do fim último tem
razão de fim para as outras: a fé o mostra, a esperança tende para ele, a caridade une a
ele. Todas se ordenam, pois, à caridade, e é assim que a caridade é o fim de
todos os mandamentos.
As outras virtudes retificam a pessoa
em relação ao próximo, daí vem que ele [o Apóstolo] tem uma boa consciência,
porque não faz a ninguém o que não quereria que se fizesse a ele. O
que é contra o próximo é, portanto, também contra a consciência. Por
isso ele fala de uma “boa consciência”.
"Aquele que não tem boa consciência não pode amar a Deus sinceramente,
porque o que não tem boa consciência teme o castigo. Ora, não há temor no
amor, o temor afasta Deus em vez de unir a ele. É assim que os mandamentos, retificando a consciência, dispõem para a
caridade." (Super
I ad Tim. 1,5, lect. 1, n.
13-16)
Esse texto, precioso para o seguimento de nosso
propósito, dá sobre a consciência uma idéia bastante diferente da concepção
enfraquecida evocada um pouco antes. Se se afirmasse que só a consciência dos
santos é infalível, não se trairia o pensamento de Tomás; ele diz com efeito:
“A testemunha infalível
dos santos é sua consciência. Mas, como algumas vezes a consciência se
engana, Paulo acrescenta: No Espírito Santo”.
A certeza da consciência se acompanha da clara
percepção da possibilidade de seu erro. Se a sindérese é
infalível, não o é da mesma maneira a consciência, porque ela não depende
somente da lei natural pela sindérese; ela está à mercê de muitas outras informações,
entre as quais os preconceitos e as idéias recebidas, assim como a intervenção
de uma vontade mal educada, que podem falsear irremediavelmente seu juízo.
Por isso, quando trata da consciência que se engana,
Tomás procede em dois tempos:
-Deve-se sempre seguir a própria consciência;
-Essa afirmação de base não muda.
Mas isso não basta para fazer uma boa ação,
porque o que é mal resulta geralmente em mal:
[A bondade ou a malícia de uma ação não vêm
somente dos objetos exteriores; um objeto bom ou indiferente em si pode se
tornar mau para o sujeito segundo a intenção na qual ele o realiza]. Desde
que a razão apresenta um objeto como mau, a vontade que se orienta para
ele torna-se má … porque ela aí se orienta como para um mal e torna-se má
porque quer o mal. [Mesmo se o que é querido não é mau em si, ele o torna por
acidente em relação à pessoa depois de um juízo errôneo da razão. Para se fazer
bem compreender e ao mesmo tempo revelar a gravidade paradoxal de um caso
assim, Tomás
propõe um exemplo extremo:] Crer em Cristo é um bem por si e necessário
para a salvação. Mas a vontade não adere a isso se não lhe é proposto pela
razão. Portanto, se a razão propuser isso como um mal, [para um não-cristão,
por exemplo], a vontade se orientará a isso como a um mal. Toda vontade que
não obedece à razão, seja reta ou errônea, é sempre má. (Suma Teológica I-II, q.19 a.5)
A força
imperativa do juízo da consciência não é em nada atenuada apesar de seu erro, e
a razão disso é clara:
“Se é
verdade que quando a razão se engana,
seu juízo não procede de Deus, entretanto, a razão errônea propõe o seu juízo
como verdadeiro, e conseqüentemente como derivado de Deus, de quem procede
toda a verdade”.
A questão se põe, então, inevitavelmente !
Uma
vez que não se pode obedecer à consciência, é preciso julgar que se age sempre
bem obedecendo a ela? Espontaneamente é o que se pensa: Eu agi bem porque agi segundo a minha consciência. Tomás não diz exatamente isso. Ele se recusa a
dizer que o erro da consciência seja suficiente para transformar em ato
moralmente bom um ato moralmente mau em si; ele põe a questão de maneira diferente:
“Assim
como a questão anterior vinha a se perguntar se a consciência errônea obriga, a
presente questão pergunta se ela escusa [do mal]. Esta questão depende do que
acima foi dito sobre a ignorância [e de seu efeito sobre o caráter voluntário
de um ato].Foi dito que a ignorância, às
vezes, causa o ato involuntário, às vezes não. E como o bem e o mal moral
dependem do caráter voluntário do ato, é claro que aquela ignorância que causa
o ato involuntário exclui o seu valor moral; não, porém, aquela que não causa o
ato involuntário. A ignorância que de algum modo é querida, direta ou
indiretamente, não causa o ato involuntário. Chamo ignorância diretamente voluntária a que se dirige ao ato da
vontade [eu não quero saber se esse ato é bom ou mau], e indiretamente voluntária
a que resulta de negligência, por alguém não querer saber o que deve saber.Se,
pois, a razão ou a consciência erram voluntariamente, ou diretamente ou por
negligência, uma vez que se trata de um erro sobre aquilo que se deve saber,
então tal erro da razão ou da consciência não escusa do mal a vontade que
concorda com a razão ou com a consciência assim errônea. Mas se o erro que
causa o involuntário provém da ignorância de uma circunstância qualquer, sem
que tenha havido negligência, esse erro escusa do mal.” (Suma Teológica I-II q.19 a.6).
O caráter técnico desse raciocínio lhe dá perfeita
clareza. Conforme à sua doutrina constante, Tomás afirma que só os atos livres
são atos morais, e só são livres os atos voluntários.
-Se o caráter voluntário
do ato é diminuído, sua moralidade o é também. Se, pois, a consciência obriga
mesmo quando se engana, não se pode concluir que se faz uma ação boa
seguindo-a. Agiria mal quem não a seguisse, mas não basta para agir bem
obedecer a ela. A consciência errônea desculpa a culpabilidade subjetiva na
medida em que ela resulta de uma ignorância invencível.
-Se o erro tinha
na origem algo voluntário, o sujeito é moralmente responsável por um ato mau.
A
ignorância por negligência é aqui capital: como num raciocínio uma proposição
falsa no início leva a uma conclusão falsa, assim também no campo do agir moral
uma falta no início leva inevitavelmente a outras se não é corrigida, e de
negligência em negligência pode-se chegar com toda boa-fé aparente a se “formar
a consciência”, como se diz algumas vezes ironicamente, até que ela não saiba
mais distinguir o bem do mal.
Tomás
encontrou na Escritura uma palavra para designar essa consciência, e com o
apóstolo Paulo fala de uma consciência “corrompida” (cauteriata):
“A
escara (cauterium) é uma
corrupção na carne pelo fogo [interior], da qual sai continuamente a podridão.
Da mesma maneira, do fogo da vontade perversa, da cólera, do ódio, da
concupiscência, a consciência sofre como de uma úlcera; Tito 1, 15: “Seu espírito e sua consciência
estão corrompidos”. (Super
I ad Tim. 4,2, lect. 1, n.
140)
Poder-se-ia falar também de uma consciência
“anestesiada” ou “adormecida”; Tomás a conhece e, evocando o processo pelo qual
pode ocorrer, ressalta a maneira pela qual a consciência lembra a ordem:
“Os homens se afastam
facilmente daquilo que os molesta; por isso o remorso da consciência age à
maneira de um aguilhão e atormenta o que tem má consciência, de sorte que ele
se afaste do pecado pela fé reta e pela boa consciência”.
Onde poríamos hoje o problema da consciência em
termos de “sinceridade”, Tomás permanece fiel à sua maneira e apresenta a
pesquisa da verdade e o grande amor que deve dirigir a ela aquele que
quer agir retamente. Quando é assim, a pessoa que age segundo sua
consciência, cuidando de não ceder a não ser à verdade, guarda uma intenção
reta, e nesta atenção à verdade ela se preserva justamente orientada para o
bem, mesmo quando se engana, e Tomás o concede. Mas ressalta também que o ato
exteriormente posto não é bom. O mal permanece o mal, e não basta se enganar
para fazer o bem. Por isso, sendo responsável diante de sua
consciência, a pessoa permanece responsável por sua
consciência.
A razão profunda dessa atitude exigente reside no
fato de que a consciência não é a última instância. No limite, semelhante
posição terminaria no individualismo mais absoluto, na negação de toda
obrigação com respeito a Deus ou aos semelhantes. Para Tomás, que concebe a pessoa
somente em sua relação a Deus e à comunidade humana, a consciência não é senão
um intermediário da lei eterna; ela não cria a obrigação, mas a transmite.
Como
ela é também objeto de cultura, modelada por muitas outras influências que podem
alterar seu juízo, importa assegurar sua retidão antes de se julgar preso.
Não se deve, sobretudo, eliminar a dúvida ou a inquietação devido a uma
preferência inconfessada por uma cômoda ignorância, mas procurar como
superá-las por uma busca sempre mais exigente da verdade.
Essa concepção da consciência representa um
formidável apelo à superação e permite ver concretamente o que representa para
o homem ser “posto entre as mãos de seu conselho”. Tornado para si próprio sua
providência, dela ele tem a grandeza e dela ele assume também a
responsabilidade.
Nenhum ser na natureza lhe é comparável, e
compreende-se que pensadores não-cristãos tenham podido ver nela a suprema
dignidade da pessoa humana. Para Tomás, é apenas um dos aspectos dessa
dignidade.
Sem lhe ser oposto de modo algum, um segundo aspecto a completa num
outro plano, o das virtudes teologais: a pessoa humana é chamada a estabelecer com
Deus uma relação nova que, sem retirá-la do tempo, a faz entrar, por assim
dizer, na eternidade: iniciada aqui, a comunhão com Deus não terminará a não
ser no face-a-face da pátria.
Fonte: Jean-Pierre Torrel, OP, Santo
Tomás de Aquino, Mestre espiritual, Ed. Loyola
Existem correntes tradicionalistas católicas que defendem a tese de Lutero e Calvino da "depravação total" do ser humano após o pecado original?
A resposta exige uma importante distinção
Oficialmente, não existe nenhuma corrente tradicionalista católica que professe a doutrina protestante da depravação total, tal como formulada por Martinho Lutero e, sobretudo, por João Calvino.
Entretanto, existem alguns autores e grupos tradicionalistas que, na prática, utilizam uma linguagem tão pessimista sobre a natureza humana após o pecado original que acabam se aproximando dessa visão, embora rejeitem explicitamente qualquer adesão ao luteranismo ou ao calvinismo.Essa distinção é fundamental para evitar tanto acusações injustas quanto simplificações históricas.
O que ensinam Lutero e Calvino?
-Lutero e Calvino sustentavam que, após o pecado original, a natureza humana ficou radicalmente corrompida.
-Segundo essa doutrina, o homem não apenas perdeu a graça santificante, mas sua própria natureza foi profundamente deformada. A inteligência, a vontade e a liberdade teriam sido tão afetadas que o ser humano se tornou incapaz de cooperar verdadeiramente com Deus na obra da salvação.
-Para Lutero, o cristão permanece simultaneamente justo e pecador (simul iustus et peccator), sendo declarado justo pela fé, mas continuando interiormente corrompido.
-Calvino levou essa concepção às últimas consequências ao defender a incapacidade total do homem para corresponder livremente à graça e sua doutrina da predestinação.
O ensinamento da Igreja Católica - O Concílio de Trento respondeu diretamente a essas teses
A Igreja ensina que o pecado original feriu profundamente a natureza humana, privando-a da justiça original e introduzindo a concupiscência, mas não destruiu nem corrompeu totalmente a natureza criada por Deus.
-A inteligência permaneceu, ainda que obscurecida.
-A vontade continua existindo, embora enfraquecida.
-A liberdade foi ferida, mas não eliminada.
-Por isso, a graça não apenas cobre juridicamente o pecado, como defendia Lutero, mas cura, santifica e transforma realmente o homem.
O precedente histórico: o jansenismo
Dentro da própria história da Igreja, o movimento que mais se aproximou desse pessimismo antropológico foi o jansenismo.
Inspirado na obra Augustinus, de Cornelius Jansênio, o movimento desenvolveu uma interpretação extremamente rigorosa dos efeitos do pecado original.
Entre seus principais representantes destacam-se:
-Cornelius Jansênio;
-Antoine Arnauld;
-Jean Duvergier de Hauranne (Abade de Saint-Cyran);
-Blaise Pascal, que, embora jamais tenha sido condenado como herege, defendeu diversas posições próximas do jansenismo em suas famosas Cartas Provinciais.
O principal centro intelectual do movimento foi a Abadia de Port-Royal, na França.
Sua espiritualidade enfatizava fortemente a corrupção da vontade humana, a raridade da verdadeira graça eficaz, o temor da condenação e um rigor moral extremo, razão pela qual diversas proposições jansenistas foram sucessivamente condenadas pelos Papas.
Existem grupos tradicionalistas atuais com tendências semelhantes?
Também aqui é necessária uma distinção
-Não se pode afirmar que grupos tradicionalistas contemporâneos ensinem oficialmente a doutrina protestante da depravação total. Isso seria historicamente falso e teologicamente injusto.Entretanto, diversos historiadores e teólogos observam que alguns setores do tradicionalismo contemporâneo apresentam um acentuado rigorismo antropológico, utilizando uma linguagem muito próxima daquela encontrada no antigo jansenismo.
-Nesses ambientes, por vezes se enfatiza quase exclusivamente a corrupção da natureza humana, a extrema dificuldade da salvação e a raridade da verdadeira cooperação com a graça.
Entre os grupos frequentemente mencionados nessas análises encontram-se:
-Alguns autores ligados à Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), sem que isso represente o ensinamento oficial da Fraternidade;
-O Instituto Mater Boni Consilii, de orientação sedeprivacionista;
-O Most Holy Family Monastery, grupo sedevacantista norte-americano;
-Alguns círculos sedevacantistas franceses e norte-americanos marcados por forte rigorismo doutrinal.
É importante insistir: essas observações referem-se a determinadas correntes, autores ou tendências internas, e não autorizam uma generalização para todos os membros ou para a doutrina oficial dessas instituições.
Alguns autores frequentemente mencionados nesse debate:
Diversos estudiosos apontam alguns autores como representantes de um possível "neo-jansenismo" ou de uma antropologia excessivamente pessimista.
Entre eles costumam ser citados:
-Padre Leonard Feeney, sobretudo por sua interpretação extremamente restritiva do axioma Extra Ecclesiam Nulla Salus;
-Padre Denis Fahey, cujas obras apresentam um tom bastante rigoroso ao tratar da decadência espiritual da humanidade moderna.
Por outro lado, convém evitar atribuições que não possuem consenso acadêmico
Por exemplo, Padre Álvaro Calderón, importante teólogo da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, é ocasionalmente mencionado em algumas discussões sobre rigorismo. Contudo, essa classificação é bastante discutível. Calderón possui sólida formação tomista e não existe consenso entre os estudiosos para qualificá-lo como "neo-jansenista". Por isso, seria intelectualmente desonesto utilizá-lo como exemplo seguro dessa tendência.
O mesmo cuidado deve ser adotado ao avaliar outros autores tradicionalistas: críticas pontuais ao rigorismo não significam que professem formalmente a doutrina da depravação total.
O equilíbrio da tradição católica
A tradição autêntica da Igreja sempre evitou dois extremos:
-De um lado, rejeitou o pelagianismo, que minimiza os efeitos do pecado original e praticamente dispensa a graça.
-De outro, rejeitou igualmente o pessimismo radical de Lutero, Calvino e, posteriormente, as tendências jansenistas, que acentuavam excessivamente a corrupção da natureza humana.
Santo Agostinho, corretamente interpretado, Santo Tomás de Aquino, o Concílio de Trento e o Magistério posterior ensinam a mesma verdade fundamental: o pecado original feriu gravemente o homem, mas não destruiu sua natureza.É por isso que Santo Tomás pôde afirmar:
"A graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa." (Gratia non tollit naturam, sed perficit.)
Essa frase sintetiza toda a antropologia católica! O erro da Reforma Protestante foi exagerar os efeitos do pecado original até apresentar a natureza humana como radicalmente corrompida e incapaz de verdadeira cooperação com a graça. O erro do pelagianismo foi o oposto: minimizar a gravidade do pecado e superestimar as capacidades naturais do homem.
A Igreja Católica rejeitou ambos os extremos
Da mesma forma, também hoje é necessário evitar simplificações. Nem todo tradicionalista é rigorista, assim como nem todo rigorista pode ser identificado automaticamente com o jansenismo.
Entretanto, quando determinados autores ou correntes apresentam uma visão da natureza humana excessivamente pessimista, aproximando-se, ainda que involuntariamente, de certas teses jansenistas, é legítimo apontar essa tendência, sempre com prudência, fundamentação histórica e justiça intelectual.
O autêntico ensinamento católico permanece o mesmo ao longo dos séculos: a natureza humana foi gravemente ferida pelo pecado original, mas continua sendo obra boa de Deus, criada à sua imagem e semelhança.
Pela graça de Cristo, ela não é simplesmente tolerada ou encoberta, mas verdadeiramente curada, elevada e aperfeiçoada.
É esse o equilíbrio da tradição católica, preservado por Santo Agostinho, desenvolvido por Santo Tomás de Aquino, definido pelo Concílio de Trento e reafirmado continuamente pelo Magistério da Igreja.
CONCLUSÃO
À luz de tudo o que foi exposto, torna-se evidente que a resposta de São Tomás de Aquino situa-se entre dois extremos igualmente incompatíveis com a fé católica:
-De um lado, o pessimismo antropológico que considera o homem totalmente corrompido pelo pecado;
-De outro, o otimismo ingênuo que minimiza as consequências da queda.
A doutrina católica afirma que o pecado original e os pecados pessoais não destruíram a natureza humana, mas a feriram profundamente.
A inteligência permanece capaz de conhecer a verdade, embora obscurecida; a vontade continua livre, ainda que enfraquecida; e a consciência conserva sua capacidade de julgar os atos humanos, embora possa ser deformada pelo erro, pelos maus hábitos e pela repetição do pecado.
É precisamente nesse sentido que São Paulo afirma em Tito 1,15 que "sua mente e sua consciência estão corrompidas".
O Apóstolo não ensina que a consciência deixou de existir ou perdeu toda capacidade de discernimento, mas que ela pode tornar-se obscurecida e incapaz de refletir fielmente a verdade moral inscrita por Deus no coração humano.
-Por isso, para São Tomás, a consciência nunca é fonte autônoma da verdade: ela deve ser continuamente formada pela reta razão, iluminada pela lei natural, pela Revelação divina, pelo Magistério da Igreja e fortalecida pela graça.
-A verdadeira liberdade consiste em escolher o bem objetivo, e não simplesmente em fazer aquilo que se deseja. O cristão, portanto, não pode limitar-se a afirmar: "sigo minha consciência". Deve perguntar, antes de tudo, se sua consciência foi corretamente formada. Obedecer à consciência é um dever; formá-la segundo a verdade revelada por Deus é um dever ainda maior.
É por isso que a graça divina não destrói a natureza humana, mas a cura, purifica, eleva e aperfeiçoa, conduzindo-a ao seu destino sobrenatural: a comunhão eterna com Deus.
-A célebre máxima de São Tomás — gratia non tollit naturam, sed perficit ("a graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa") — resume magistralmente toda a antropologia cristã.
-Nessa perspectiva, afirmar que o pecado destruiu completamente a alma, a inteligência, a vontade, a consciência ou a natureza humana constitui um grave erro doutrinal, incompatível com a fé católica. A Igreja sempre ensinou que o pecado original feriu (vulneravit naturam), mas não aniquilou a natureza criada por Deus. Permanecem no homem a imagem de Deus, a lei natural gravada no coração, a liberdade e a capacidade de reconhecer e praticar, ao menos em parte, o bem moral.
-Foi justamente partindo dessa certeza que a Igreja pôde desenvolver, desde os Padres da Igreja e de modo especial no Concílio Vaticano II, a doutrina das "sementes do Verbo" (semina Verbi). Se a natureza humana estivesse totalmente depravada, como sustentaram Martinho Lutero e, sobretudo, João Calvino com sua doutrina da "depravação total", seria impossível admitir que permanecessem no coração humano vestígios da verdade, do bem e da abertura para Deus.
-Também, não haveria fundamento para reconhecer elementos de verdade e santificação presentes fora das fronteiras visíveis da Igreja, nem para afirmar a possibilidade de salvação daqueles que, sem culpa própria, ignoram o Evangelho de Cristo.
Essa esperança não nasce de um relativismo religioso nem da ideia de que todas as religiões salvam igualmente. Ao contrário, ela repousa sobre a universalidade da vontade salvífica de Deus e sobre a eficácia universal da graça de Cristo, único Salvador da humanidade. A própria Sagrada Escritura testemunha essa verdade quando afirma que Deus:
-"quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade" (1Tm 2,4);
-que "todos os que pecaram sem a Lei, sem a Lei perecerão, e todos os que pecaram sob a Lei, pela Lei serão julgados" (Rm 2,12), indicando que Deus julga cada pessoa segundo a luz que recebeu;
-E ainda quando São Pedro declara que "em qualquer nação, quem teme a Deus e pratica a justiça lhe é agradável" (At 10,34-35).
Essas passagens não negam a necessidade da Igreja nem da evangelização. Pelo contrário, mostram que Deus pode agir extraordinariamente onde os meios ordinários da salvação ainda não chegaram.
Como ensina o Concílio Vaticano II (Lumen Gentium, 16), aqueles que, sem culpa própria, ignoram Cristo e sua Igreja, mas procuram sinceramente a verdade, obedecem à voz da consciência e se esforçam por cumprir a vontade de Deus conhecida através da lei natural, podem alcançar a salvação pela graça de Cristo, que continua sendo a única fonte de toda salvação.
Em contrapartida, Martinho Lutero ensinou que o pecado corrompeu radicalmente a natureza humana, tornando o homem incapaz de cooperar com a graça, enquanto João Calvino sistematizou essa visão na doutrina da depravação total, segundo a qual todas as faculdades humanas ficaram profundamente corrompidas pelo pecado.
Essas posições foram expressamente rejeitadas pelo Concílio de Trento, que reafirmou que o livre-arbítrio não foi destruído, que a natureza humana foi ferida, mas não aniquilada, e que a graça não apenas cobre os pecados, mas transforma interiormente o homem, tornando possível uma verdadeira santificação, realidade testemunhada pela vida dos santos.
Assim, a posição católica pode ser resumida em poucas palavras: o pecado original obscureceu a inteligência, enfraqueceu a vontade e desordenou as paixões, mas não destruiu a imagem de Deus no homem, nem eliminou sua liberdade ou sua capacidade de responder à graça.
É precisamente essa verdade que fundamenta tanto a responsabilidade moral de cada pessoa quanto a missão evangelizadora da Igreja e a esperança de que a graça de Deus pode alcançar todos os homens.
A condenação da tese da depravação total, portanto, não é apenas uma divergência teológica com Lutero e Calvino; ela é um dos pilares da antropologia cristã, da doutrina da graça, da evangelização e da própria compreensão católica da misericórdia universal de Deus, que deseja salvar todos os homens por meio de Jesus Cristo, único Mediador entre Deus e a humanidade.
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“Tudo o que não é segundo a fé, é pecado”(Rom 14,23).
Portanto, que se tenha a coragem de concluir que: toda heresia, negando a Verdade revelada, destrói a Fé. E sem a Fé não há verdadeira caridade. Não há amor. Não pode haver amor e virtude sobrenaturais. É o que ensina São Paulo. Bento XVI insiste que a caridade não é sentimentalismo:“O amor não é apenas um sentimento” (Bento XVI, Deus caritas est, no 17).E o Papa salienta que “Os sentimentos vão e vêm”(idem), mas a verdadeira caridade permanece. O verdadeiro amor é constante e fiel à verdade que o gerou.E nem a caridade católica é mero assistencialismo: “Por isso, é muito importante que a atividade caritativa da Igreja mantenha todo o seu esplendor e não se dissolva na organização assistencial comum, tornando-se uma simples variante da mesma (Bento XVI, Deus caritas est, no 31).
Se a consciência moral não é a instância última que decide o que é bom e o que é mau, mas deve conformar-se com a verdade imutável da lei moral, segue-se daí que ela não é um juiz infalível: pode errar. Este ponto merece hoje tuna particular atenção. "Não vos conformeis", ensina o Apóstolo, "com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente" (Rom. 12,2). Nos juízos da nossa consciência encontra sempre lugar a possibilidade do erro.A consciência que deriva deste erro é muito séria: quando o homem segue; a própria consciência errada, a sua ação não é reta, não realiza objetivamente o que é bom para a pessoa humana. E isto, pelo simples fato que o juízo da consciência não é a última instância moral.Sem dúvida, "sucede frequentemente ― como o Concílio indica em seguida — que a consciência seja errónea por ignorância invencível" (ibid.). Neste caso ela "não perde a sua dignidade" (cf. ibid.), e o homem que segue o seu juízo não peca. O mesmo texto conciliar, porém, prossegue observando: "Mas isto não se pode dizer quando o homem pouco se interessa em procurar a verdade e o bem, e quando a consciência se torna quase cega pelo hábito do pecado" (ibid.).Portanto, não é suficiente dizer ao homem: "segue sempre a tua consciência". É necessário acrescentar logo e sempre: "pergunta-te se a tua consciência diz o que é verdadeiro ou o que é falso, e procura com denodo conhecer a verdade". Se não se fizesse esta necessária precisação, o homem correria o perigo de encontrar na sua consciência uma força destruidora da sua verdadeira humanidade, em vez de um lugar santo onde Deus lhe revela o seu verdadeiro bem.É necessário "formar" a própria consciência. Neste empenho, o crente sabe que tem um particular auxílio da doutrina da Igreja. "Com efeito, por vontade de Cristo, a igreja Católica é a Mestra, da verdade, e a sua missão é anunciar e ensinar autenticamente a Verdade que é Cristo, e ao mesmo tempo declarar e confirmar, com a sua autoridade, os princípios da ordem moral que fluem da própria natureza humana”(Dignitatis humanae, 14).Peçamos insistentemente a Cristo, nosso Redentor, a graça de podermos discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe é agradável e o que é perfeito. O dom, a saber, de estarmos na verdade, para realizarmos a verdade.
Zé Carlos - Natal RN
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