As palavras de Jesus ecoam através dos séculos como uma advertência permanente a todo aquele que transforma a religião em fonte de lucro, exploração ou enriquecimento pessoal.
A indignação de Cristo não foi dirigida contra as ofertas destinadas ao culto divino, nem contra a legítima manutenção daqueles que servem ao altar, mas contra a mercantilização da fé, contra a instrumentalização de Deus para obter vantagens financeiras e contra aqueles que, em nome da religião, exploram a boa-fé dos fiéis.
Antes de prosseguir, é importante fazer uma distinção necessária para evitar injustiças. Não seria correto afirmar que todos os pastores protestantes ou todas as comunidades evangélicas procedem dessa maneira. Há inúmeros ministros sinceros, honestos e verdadeiramente comprometidos com o Evangelho. Entretanto, é impossível ignorar que, em determinados segmentos do protestantismo contemporâneo, especialmente onde predomina a chamada "teologia da prosperidade", o dinheiro deixou de ser um simples instrumento para a evangelização e passou a ocupar um lugar central na vida religiosa. Em muitos casos, a arrecadação financeira parece receber mais destaque que a própria conversão, a santidade e o anúncio da salvação em Cristo.
Não é difícil observar líderes religiosos vivendo cercados de luxo, possuindo carros importados, mansões, aviões particulares e um patrimônio incompatível com o ideal evangélico de simplicidade (estes já receberam seu galardão), enquanto muitos de seus fiéis enfrentam graves dificuldades financeiras, sendo constantemente pressionados a "provar sua fé" mediante ofertas cada vez maiores. Cria-se, assim, a falsa ideia de que quanto mais dinheiro alguém entrega ao líder religioso, maiores serão as bênçãos materiais recebidas de Deus. O Evangelho transforma-se numa espécie de investimento financeiro, como se Deus pudesse ser comprado por meio de depósitos bancários ou campanhas de arrecadação.
Quando surgem denúncias de enriquecimento ilícito, estelionato religioso, lavagem de dinheiro ou desvio de recursos, frequentemente muitos seguidores recusam qualquer exame crítico, atribuindo automaticamente toda acusação à perseguição do diabo ou à inveja dos incrédulos. Curiosamente, o mesmo princípio de prudência raramente é aplicado quando se trata de criticar outras igrejas, especialmente a Igreja Católica, que costuma ser julgada de maneira severa por esses mesmos grupos.
Grande parte desse problema nasce também da falta de uma leitura completa e contextualizada das Sagradas Escrituras. Muitos fiéis acabam conhecendo apenas os textos selecionados por seus líderes, frequentemente retirados de seu contexto histórico e teológico para justificar determinadas práticas. Uma leitura integral da Bíblia revela que o dízimo, na Antiga Aliança, possuía finalidade muito específica: sustentar os levitas, manter o culto do Templo e assistir os pobres, os órfãos, as viúvas e os estrangeiros (Nm 18,21-24; Dt 14,28-29; Dt 26,12-13). Não existia como mecanismo de enriquecimento pessoal de líderes religiosos.
Com a plenitude dos tempos, porém, Cristo inaugurou a Nova Aliança. O sacerdócio levítico encontrou seu cumprimento no sacerdócio eterno de Jesus Cristo, e a Lei mosaica foi levada à sua perfeição. Por isso, o Novo Testamento jamais impõe aos cristãos a obrigação jurídica de pagar o dízimo como preceito religioso. Ao contrário, ensina o princípio da generosidade livre, voluntária e proporcional às possibilidades de cada fiel: "Cada um contribua conforme decidiu em seu coração, não com tristeza nem por constrangimento, porque Deus ama quem dá com alegria" (2Cor 9,7).
O objetivo do dízimo na Lei era sustentar o sacerdócio levítico e o culto do Templo. Com a morte e a ressurreição de Cristo, esse sistema chegou ao seu cumprimento (Ef 2,15; Cl 2,13-14). Embora os sacerdotes levitas continuassem exercendo suas funções até a destruição do Templo de Jerusalém, no ano 70 d.C., os cristãos já viviam sob uma nova economia da salvação. Tornaram-se membros de um sacerdócio espiritual (1Pd 2,9), não sustentado por uma obrigação legal de dízimos, mas pela livre comunhão dos bens e pela caridade fraterna (At 2,42-47; At 4,32-35). A pedagogia do Espírito Santo já não enfatiza um imposto religioso obrigatório, mas a partilha generosa, fruto do amor e da liberdade dos filhos de Deus.
É precisamente por isso que todo cristão deve permanecer vigilante para que a casa de Deus nunca mais seja transformada num mercado religioso. A Igreja necessita de recursos para evangelizar, celebrar os sacramentos, realizar obras de caridade e manter seus ministros; isso é legítimo e encontra fundamento nas Escrituras. O que jamais poderá ser aceito é a exploração da fé, a manipulação da consciência dos fiéis ou a promessa de bênçãos em troca de dinheiro. Onde a busca desenfreada por riquezas substitui o anúncio do Evangelho, as palavras de Cristo continuam atuais e contundentes:
"Minha casa será casa de oração; vós, porém, fizestes dela um covil de ladrões."
Antes de tudo, convém esclarecer que a crítica a seguir não se dirige indistintamente a todos os protestantes ou igrejas evangélicas
Existem inúmeras comunidades e pastores íntegros, que anunciam sinceramente o Evangelho e administram com transparência os recursos recebidos.
A crítica é dirigida aos abusos característicos de determinados movimentos neopentecostais e à chamada teologia da prosperidade, quando esta transforma a fé em instrumento de enriquecimento e reduz o Evangelho a uma relação comercial entre Deus e o homem.
Infelizmente, temos constatado que, em muitos ambientes influenciados pela teologia da prosperidade, a evangelização parece resumir-se a uma mensagem simplificada e utilitarista:
"Aceite Jesus como seu único e suficiente Salvador para escapar do inferno, filie-se à nossa igreja e seja fiel nos dízimos e ofertas."
Em seguida, reforça-se constantemente o apelo emocional:
"Jesus está voltando! Está preparado? Converta-se enquanto há tempo!"
Embora a necessidade da conversão seja uma verdade do Evangelho, ela acaba sendo utilizada, em muitos casos, como instrumento de pressão psicológica para manter os fiéis submissos e financeiramente comprometidos com a instituição.
Muitos desses fiéis vivem sob um permanente clima de medo. São convencidos de que qualquer desobediência às determinações de seus líderes representa uma desobediência ao próprio Deus.
Na prática, a autoridade das Escrituras acaba sendo substituída pela interpretação particular do pastor, que frequentemente seleciona apenas os textos que favorecem seus objetivos, ignorando seu contexto histórico e teológico. Entre as doutrinas mais exploradas encontra-se justamente a do dízimo.
Ensina-se que quem não o entrega está "roubando a Deus", encontra-se debaixo de maldição e corre o risco de perder a salvação. Para aumentar ainda mais o impacto emocional, multiplicam-se campanhas financeiras, desafios de fé, votos, propósitos, "sementes", "correntes", "fogueiras santas", "desafios de Abraão" e tantas outras iniciativas cujo elemento comum é sempre o mesmo: solicitar cada vez mais dinheiro dos fiéis.
Em muitos casos, chega-se ao absurdo de incentivar pessoas extremamente pobres a entregar valores indispensáveis para sua própria sobrevivência. Há quem seja orientado a ofertar o dinheiro destinado ao aluguel, aos alimentos ou até mesmo aos medicamentos, sob a promessa de que Deus retribuirá materialmente esse "sacrifício". Entretanto, essa prática contradiz o ensinamento bíblico de que não devemos tentar o Senhor (Dt 6,16; Mt 4,7). Deus nunca pediu que seus filhos colocassem irresponsavelmente em risco o sustento de suas famílias para provar sua fidelidade.
O problema torna-se ainda mais grave quando as promessas não se cumprem!
Se o fiel continua pobre, doente ou desempregado, a culpa normalmente recai sobre ele próprio: "faltou fé", "o coração não era sincero", "a oferta não foi suficiente" ou "Deus ainda está provando sua fidelidade".
Nunca há prestação de contas pelas falsas expectativas criadas, nem restituição do que foi entregue por pessoas que, muitas vezes, sacrificaram o pouco que possuíam.
Percebe-se, assim, uma inversão da própria mensagem do Evangelho. Em vez de anunciar o amor de Deus, a misericórdia, a conversão do coração e a vida sacramental, muitos preferem alimentar o medo, a culpa e a esperança de prosperidade financeira.
O sucesso material passa a ser interpretado como sinal inequívoco da bênção divina, enquanto a pobreza é frequentemente apresentada como consequência da falta de fé ou da insuficiência das ofertas.
Não se critica aqui a legítima necessidade de sustentar a comunidade cristã. Desde os tempos apostólicos, a Igreja sempre ensinou a importância da partilha dos bens para atender às necessidades da evangelização e dos mais pobres (At 2,44-45; 4,32-35).
São Paulo também ensina que aqueles que anunciam o Evangelho podem viver do Evangelho (1Cor 9,13-14). O problema surge quando essa legítima contribuição transforma-se em mecanismo de enriquecimento pessoal de líderes religiosos que vivem cercados de luxo enquanto grande parte de seus fiéis enfrenta dificuldades econômicas.
É difícil conciliar o estilo de vida de alguns pregadores milionários com o exemplo deixado por Cristo e pelos Apóstolos. Jesus nasceu pobre, viveu pobre e morreu despojado de tudo. Os Apóstolos também jamais acumularam riquezas pessoais mediante a pregação. O próprio Senhor advertiu: "Não podeis servir a Deus e ao dinheiro" (Mt 6,24). Também recordou, na parábola do rico e de Lázaro, que quem coloca sua segurança exclusivamente nas riquezas já recebeu sua recompensa nesta vida (Lc 16,25).
Enquanto determinados líderes desfrutam de mansões, carros de luxo, aviões particulares e patrimônio milionário, milhares de pessoas continuam passando fome, sem moradia digna, sem acesso à saúde e até abandonam a fé após perceberem que as promessas de prosperidade não se concretizaram.
Muitos acabam decepcionados porque lhes foi anunciado um "evangelho da prosperidade", quando o verdadeiro Evangelho ensina o seguimento de Cristo mediante a conversão, a humildade, a renúncia e o carregamento da cruz (Mt 16,24).
São Paulo testemunha essa espiritualidade ao afirmar que aprendeu a viver tanto na abundância quanto na necessidade (Fl 4,11-13).
Recordo-me de um jovem influenciado por essa mentalidade que certa vez afirmou: "Se eu sirvo a Jesus, quero ser rico, morar numa grande casa e dirigir um carro importado." Anos depois, nada disso aconteceu. Ele e sua família abandonaram as contribuições generosas que faziam e, juntamente com elas, sua própria fé começou a enfraquecer. Isso demonstra o perigo de fundamentar a vida cristã em promessas de prosperidade material, em vez de fundamentá-la na pessoa de Cristo.
Também é verdade que muitos fiéis não são apenas vítimas passivas. Alguns alimentam a expectativa de enriquecer rapidamente mediante suas ofertas, esperando receber "cem vezes mais" nesta vida. A relação com Deus passa a ser quase comercial: oferece-se dinheiro esperando retorno financeiro multiplicado. Essa lógica, porém, não encontra fundamento no Evangelho, mas na ganância humana revestida de linguagem religiosa.
Outro grave equívoco consiste em utilizar Malaquias 3,8-10 como se fosse um mandamento obrigatório para todos os cristãos. Essa interpretação ignora completamente o contexto histórico da passagem. O profeta dirigia-se ao povo de Israel, que vivia sob a Antiga Aliança, e tratava do dízimo agrícola destinado ao sustento dos levitas, do culto do Templo e da assistência aos necessitados. Não se tratava de um sistema para enriquecer sacerdotes, muito menos de uma norma dirigida à Igreja de Cristo.
A Nova Aliança inaugurada por Jesus modificou profundamente essa realidade. O sacerdócio levítico foi substituído pelo sacerdócio eterno de Cristo, e, com a mudança do sacerdócio, houve também mudança da legislação cultual:
"Porque, mudando-se o sacerdócio, necessariamente se faz também mudança da lei." (Hb 7,12)
E o mesmo autor prossegue:
"Assim, o mandamento anterior é revogado por causa de sua fraqueza e inutilidade, pois a Lei nada levou à perfeição; em seu lugar foi introduzida uma esperança melhor, pela qual nos aproximamos de Deus." (Hb 7,18-19)
Sob a Nova Aliança, o Novo Testamento jamais impõe aos cristãos a obrigação jurídica do dízimo mosaico. Em seu lugar, ensina a generosidade livre, consciente e proporcional às possibilidades de cada um:
"Cada um contribua conforme decidiu em seu coração, não com tristeza ou por obrigação, porque Deus ama quem dá com alegria" (2Cor 9,7).
A contribuição cristã deixa de ser um imposto religioso para tornar-se expressão da caridade, da comunhão e da responsabilidade para com a missão da Igreja e o cuidado dos pobres.
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Nossa! Sou católica, mas chorei com o testemunho humilde, fiel e verdadeiro desse pastor
Clarisse - SP
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