por *Francisco José
Barros de Araújo
O mito grego de Sísifo e o segredo do recomeçar, dando sentido ao ordinário da vida
Na mitologia grega, Sísifo (Σίσυφος), filho de Éolo — rei da Tessália — e de Enarete, destaca-se como o mais engenhoso e astuto dos mortais. Fundador e primeiro governante de Éfira, futura Corinto, ele consolidou um reino próspero e influente, casando-se com Mérope, uma das Plêiades, e tornando-se ancestral de figuras como Glauco e Belerofonte. A linhagem de Sísifo, ligada aos descendentes de Deucalião, revela um homem inserido no coração da tradição heroica grega, mas cuja reputação ultrapassou a nobreza do sangue: ele se tornou símbolo de malícia, inteligência e transgressão.
Ao longo de sua trajetória mítica, Sísifo tornou-se símbolo da capacidade humana de manipular circunstâncias, contornar regras e subverter autoridades.
No entanto, sua história também revela que astúcia, por mais engenhosa que seja, não deve ser confundida com verdadeira sabedoria. A inteligência estratégica de Sísifo, sempre voltada para vantagens imediatas ou para a satisfação de desejos pessoais, contrasta profundamente com a prudência ética e a visão do bem comum que caracterizam a sophia grega.
Em outras palavras, ele pensa rápido, mas não pensa alto. Diversos episódios de sua vida demonstram essa ambiguidade. Segundo Higino, Sísifo nutria antiga hostilidade por seu irmão Salmoneu, e ao consultar Apolo sobre como eliminá-lo, recebe uma resposta enigmática: deveria gerar filhos com Tiro, filha do próprio Salmoneu, e esses descendentes cumpririam sua vingança.
A astúcia de Sísifo o leva a tentar executar o plano, mas seu fracasso apenas expõe sua incapacidade de discernir entre uma solução engenhosa e uma solução justa. A esperteza lhe rende, mais uma vez, a ira dos deuses — uma tensão que acompanha toda a sua narrativa. Outras versões, como a relatada por Pausânias, reforçam esse mesmo padrão. Nelas, Sísifo ascende ao trono de Corinto após a partida de Jasão e Medeia, demonstrando habilidade política e oportunismo notável. Contudo, também aqui sua inteligência é movida por cálculo e ambição, e não por sabedoria prudente.
Ele conhece o momento de agir, mas não conhece o limite que o separa da hybris, a desmedida que provoca a intervenção divina. Assim, o mito nos recorda que a astúcia pode impressionar, conquistar e até sobreviver por algum tempo — mas nunca conduz à plenitude, pois lhe falta a dimensão ética que transforma conhecimento em sabedoria.
Sua astúcia aparece ainda mais viva na história do rapto de Égina, filha do deus-rio Asopo. Quando Zeus a sequestra, Sísifo reconhece a jovem e, em troca de uma fonte para sua cidade, revela o paradeiro aos desesperados pais. A vingança do Olimpo é rápida: Zeus envia Tânato, a Morte, para arrastá-lo ao submundo. Mas Sísifo, sedutor e enganador, aprisiona a própria Morte com uma coleira disfarçada de colar. O mundo cai no caos — ninguém mais morre — até que Hades e Ares intervêm e libertam Tânato.
Mesmo levado enfim ao Hades, Sísifo engana os deuses mais uma vez. Ordena secretamente à esposa que não realize seus rituais funerários; já no mundo dos mortos, protesta contra a falta de sepultura e implora autorização para retornar um dia à superfície. Concedido o pedido, abandona o submundo e retoma sua vida, prolongando sua existência entre os vivos pela segunda vez. Sua fama de sagacidade manifesta-se também no episódio com Autólico, ladrão habilíssimo. Notando que seu gado desaparecia misteriosamente, Sísifo marca secretamente os cascos dos animais, revelando o ladrão por meio de inscrições deixadas no solo. O confronto resulta em uma improvável reconciliação — e, segundo algumas tradições, no nascimento de Odisseu, filho de Anticleia, seduzida por Sísifo.
O Castigo e o Sentido no Absurdo do Recomeçar
Quando finalmente morre de velhice, Hermes conduz Sísifo ao Tártaro, onde ele é colocado entre os grandes rebeldes míticos — Prometeu, Tântalo, Íxion. Seu castigo é um dos mais icônicos da mitologia: empurrar, por toda a eternidade, uma enorme pedra montanha acima, apenas para vê-la rolar de volta ao ponto inicial no exato momento em que alcança o cume. O ciclo interminável simboliza o esforço humano que parece nunca atingir plenitude, a luta incessante contra a repetição e o absurdo.
Daí surge a expressão “trabalho de Sísifo”, usada até hoje para designar tarefas repetitivas, exaustivas e aparentemente inúteis — um eterno retorno sem possibilidade de desistência.
Contudo, a reflexão moderna, especialmente após a leitura de Albert Camus, enxerga em Sísifo não apenas o castigo, mas a afirmação trágica do sentido:
Mesmo no absurdo da rotina, o ser humano é capaz de encontrar um logos, uma razão íntima que transforma repetição em resistência, e esforço em dignidade.
releitura dA MORAL DO MITO
Na perspectiva contemporânea, o mito de Sísifo deixa de ser apenas a narrativa de um castigo exemplar e passa a simbolizar a própria condição humana diante da rotina, da repetição e dos limites impostos pela vida. Sísifo tornou-se imagem paradigmática do homem que realiza um trabalho constante, árduo e aparentemente inútil — empurrar eternamente a pedra montanha acima para vê-la sempre rolar de volta.
No entanto, essa tarefa interminável revela uma lição profunda: embora os mortais não possuam a liberdade absoluta dos deuses, possuem a liberdade interior de escolher como viver aquilo que lhes é dado. O mito, reinterpretado pela modernidade, sugere que a vida é feita de gestos recorrentes, responsabilidades cotidianas e desafios que se repetem. Não há fuga da rotina, mas há a possibilidade de transformá-la. Assim, cabe ao ser humano assumir seus deveres com consciência e criatividade, descobrindo sentido mesmo nas tarefas que se renovam todos os dias.
A verdadeira liberdade não reside em escapar do peso da existência, mas em encontrar plenitude no próprio ato de viver, reinventando-se constantemente na monotonia. Dessa forma, Sísifo torna-se símbolo da resistência criadora: alguém que, mesmo diante do inevitável, pode dar forma e significado ao seu esforço. A pedra que sempre retorna não é apenas castigo — é também oportunidade permanente de afirmação, crescimento e transcendência pessoal.
Uma moral franciscana sobre o Mito de Sísifo
A espiritualidade franciscana, marcada pela simplicidade, pela humildade e pela alegria no cumprimento das pequenas tarefas, oferece uma chave de leitura profundamente humana para reinterpretar o Mito de Sísifo. A célebre frase de São Francisco de Assis — “Irmãos, comecemos, hoje, tudo de novo, porque até agora pouco ou nada fizemos” (1 Cel 103,6) — traduz magistralmente a disposição interior daquele que aceita a vida como dom renovado e como oportunidade de recomeço constante. A rotina, que no mito aparece como punição, transforma-se à luz do espírito franciscano em ocasião de graça, conversão e liberdade interior. Se, no castigo imposto a Sísifo, a repetição é concebida como absurdo, fadiga e inutilidade, para São Francisco a repetição das tarefas de cada dia é caminho de santificação.
O franciscano acolhe a realidade como ela é, sem fugir de suas pedras, pesos ou responsabilidades. Ele não espera condições ideais para amar, servir ou transformar o mundo; antes, reconhece que é justamente no pequeno, no ordinário e no constante que se manifesta o lugar real de sua fidelidade a Deus. Onde Sísifo vê monotonia, Francisco vê oportunidade; onde há apenas cansaço, ele enxerga espaço para a criatividade da caridade; onde há repetição, ele descobre a chance de “começar de novo”.
Assim, a moral franciscana oferece uma inversão simbólica do mito: a pedra que recai não é o absurdo que paralisa, mas o convite diário de Deus para reerguer-se. A subida que nunca termina é o próprio caminho espiritual, feito de passos simples e perseverantes. Para Francisco, não existe fracasso definitivo, pois cada dia traz a graça de recomeçar, mesmo que a montanha pareça sempre a mesma. A vida cristã — como o trabalho de Sísifo — é feita de constância, de pequenos atos que ninguém vê, de fidelidade silenciosa. Mas ao contrário do herói condenado, o fiel franciscano reconhece que a vitória não está no cume, mas no amor colocado a cada esforço. Desse modo, a moral franciscana transforma o mito: onde havia castigo, irrompe a esperança; onde havia absurdo, nasce sentido; e onde havia repetição vazia, surge a possibilidade de santidade cotidiana. Empurrar a pedra, dia após dia, torna-se não a expressão da inutilidade humana, mas o gesto humilde de quem sabe que em cada pequeno recomeço Deus está presente, convidando à alegria e à perseverança. E assim, o que para Sísifo era condenação, para Francisco torna-se vocação.
Poder "começar de novo" é uma graça concedida apenas aos humanos!
O poder de começar de novo é uma graça singular concedida apenas ao ser humano. Todas as demais criaturas seguem o curso natural que lhes foi determinado, sem possibilidade de alterar sua própria condição.
Nenhuma pedra pode, por sua própria iniciativa, transformar-se em preciosa; nenhum animal se adestra sozinho; nenhuma planta decide mudar por capricho. Apenas o ser humano possui a liberdade interior de escolher, reorientar-se, recomeçar. Essa é a marca mais profunda de sua dignidade: a capacidade de reiniciar o caminho, quantas vezes forem necessárias. Recomeçar significa acolher cada manhã como se fosse o primeiro dia da vida — ou talvez o último.
O impulso para um novo começo não nasce simplesmente da mudança externa do cotidiano, nem de tarefas inéditas a cumprir. O verdadeiro início está no coração, na intencionalidade. Uma nova intenção, mesmo diante do mesmo programa diário, é capaz de transformar todo o dia.
O risco maior não está na rotina em si, mas em viver sem motivação, sem “motiva-ação”, sem aquele dinamismo interior que dá sentido aos nossos passos. Quando São Francisco afirma: “Comecemos, irmãos, porque até agora pouco ou nada fizemos”, não se trata de pessimismo, mas de uma visão profundamente esperançosa.
À luz da fé, percebemos que a vida não se contenta com pouco: ela sempre pode surpreender. Somos seres inacabados, chamados a ser mais e melhores, porque Deus continuamente nos capacita a recomeçar. Cada reinício é um convite ao crescimento, à conversão, à superação de nós mesmos. Começar de novo não é negar o passado, mas reconhecê-lo como parte da nossa história sem permitir que ele nos aprisione.
O passado não nos define: somos sempre um “vir a ser”. Como no Evangelho das Bodas de Caná, Deus reserva o melhor vinho para o final; Ele sempre deixa aberta a porta do novo. O trecho já percorrido pertence ao passado, mas o caminho à frente exige passos novos, energia renovada, ousadia e firmeza. Recomeçar é, portanto, ato de fé e de coragem — uma determinada determinação de avançar, confiantes de que Deus faz novas todas as coisas.
SÃO BENTO NOS ENSINA TAMBÉM, A NÃO DESISTIR MESMO APÓS TER SIDO ENVENENADO POR SEUS IRMÃOS DE COMUNIDADE!
Com a divulgação da fama de sua exímia vida monacal, ia
ficando célebre o nome de Bento. Ora, havia a não grande distância um mosteiro
cujo abade falecera. Toda a comunidade foi ter então com o venerável Bento, e
instantemente pediu-lhe que ficasse à sua frente.
O santo recusou por muito tempo,
predizendo que não poderia harmonizar os seus costumes com os daqueles irmãos. Finalmente,
vencido pelos rogos, cedeu. Como, porém, fazia prevalecer naquele mosteiro a
observância da vida regular e a ninguém permitia, como antes, que se desviasse
do caminho monástico por ações ilícitas, os irmãos, que ele aceitara dirigir,
encheram-se de fúria e puseram-se primeiro a acusar a si mesmos por terem
pedido a Bento que os regesse; suas vidas tortuosas iam em oposição à reta norma do
abade.
Como viam que, sob tal abade, o ilícito já não lhes era permitido, e como
lhes doía abandonar os antigos hábitos, achando eles dura a obrigação de
meditar coisas novas na sua mente velha, alguns deles, já que aos maus é sempre
pesada a vida dos bons, tramaram a morte do abade, e, depois de decisão
conjunta, deitaram-lhe veneno ao vinho. Quando apresentaram ao Pai Bento, sentado à
mesa, o copo da bebida envenenada para ser abençoado segundo o costume da casa,
Bento estendeu a mão e fez o sinal da cruz. A este gesto, o vaso, que estava
distante, estalou e fez-se em pedaços, como se naquela taça de morte tivesse
dado, em vez da cruz, uma pedrada! Compreendeu logo o homem de Deus que o copo
contivera uma bebida mortal, pois não pudera suportar o sinal da vida.
Levantou-se no mesmo instante, e, com o rosto plácido, a mente tranqüila,
convocou os irmãos, aos quais assim falou: “Deus tenha compaixão de vós,
irmãos, porque de mim já a tivestes. Porque me quisestes fazer isto? Não vos
disse eu previamente, que não se harmonizariam os vossos e os meus costumes? Peço-vos
desculpas por tudo, ide e procurai para vós um Pai conforme à vossa vida, e
recomeçai tudo, depois disto, já não me podereis reter...”
Voltou, então, ao recanto da sua amada solidão em Subiaco,
agora sob os olhares do seu Contemplador divino. São Bento porém, não desistiu da vontade e chamado de
Deus, e fundou em poucos
anos doze mosteiros.
Antes de Bento, os monges viviam como eremitas,
isolados, sozinhos. São Bento organizou a vida monástica comunitária e os
mosteiros começaram a florescer. Todos
eles seguiam a famosa Regra
de São Bento.
As famílias nobres de Roma começaram a
mandar seus filhos para estudarem nos mosteiros fundados por São Bento, e
graças a sua ação ele cristianizou a Europa, tornando-se até hoje seu
padroeiro.
Fonte: São
Gregório Magno, Vida de São Bento
Música: "Recomeçar"
(Autora: Suely Façanha - Comunidade Católica Shalom)
Quando a dor é bem mais forte
e
o riso silêncio se faz
Quando a lágrima teimosa
já rola
e não quer parar mais
Ó Senhor!
É tempo de olhar mais
longe
É hora de esconder-me
bem dentro
do teu coração
E o amor que vejo em teu olhar
me
dá novo sentido pra viver
E assim recomeçar!
Recomeçar a viver,
Recomeçar,
Reencontrar Você
Recomeçar porque você,
Senhor,
é
a luz que ilumina os passos meus
Eu posso confiar!
Recomeçar a viver,
Recomeçar
Reencontrar você
Recomeçar
Re-aprender amar
Sem
medo de perder-me em teu amor
Em Ti eu posso sim...
*Francisco José
Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme
diploma Nº 31.636 do Processo Nº 003/17 - Perfil curricular no
sistema Lattes do CNPq Nº 1912382878452130.
Bibliografia
-BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega – Vol. 2. 25. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.
-CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo: Ensaio sobre o Absurdo. Trad. Ari Roitman e Paulina Wacht. Rio de Janeiro: Record, 2018.
-CELANO, Tomás de. Vida de São Francisco. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2004.
-DELORME, Jean. Francisco de Assis: A Alegria de um Homem Livre. São Paulo: Paulinas, 1997. (Um clássico da espiritualidade franciscana, sólido e acessível.)
-GREGÓRIO MAGNO, São. Vida de São Bento. 4. ed. Rio de Janeiro: Lumen Christi, 2016.
-GRIMAL, Pierre. Dicionário de Mitologia Grega e Romana. 6. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.
-KURY, Mário da Gama. Sísifo e Outros Mitos Gregos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
-LE GOFF, Jacques. São Francisco de Assis. Trad. Marcos de Castro. Rio de Janeiro: Record, 2001. (Uma das melhores biografias histórico-acadêmicas do santo.)
-VERNANT, Jean-Pierre. Mito e Sociedade na Grécia Antiga. 3. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2019.
-VITORINO, Frei. Francisco de Assis: Mestre do Impossível. São Paulo: Paulinas, 2007.
-----------------------------------------------------
📌 Gostou do conteúdo?
👉 Clique aqui
para seguir o Blog Berakash
👉 Clique aqui e siga em nosso canal
no YouTube






Postar um comentário
Todos os comentários publicados não significam nossa adesão às ideias nelas contidas.O blog oferece o DIREITO DE RESPOSTA a quem se sentir ofendido(a).Os comentários serão analisados criteriosamente e poderão ser ignorados e ou, excluídos se ofensivos a honra.