O uso do "Urim e Tumim para saber a vontade de Deus" no antigo testamento!
por*Francisco
José Barros de Araújo
Entre os diversos elementos que compõem a religiosidade do antigo Israel, poucos despertam tanta curiosidade quanto o Urim e Tumim. Inseridos no contexto do culto levítico e vinculados diretamente ao ministério do sumo sacerdote, esses instrumentos aparecem nas Escrituras como meios legítimos de consulta à vontade divina em situações decisivas para a comunidade israelita.
Embora frequentemente associados, de maneira superficial, a práticas de adivinhação, o Urim e Tumim pertencem a um universo teológico específico, distinto das práticas mágicas ou pagãs do Antigo Oriente Próximo. Sua função estava estritamente subordinada à revelação divina, à Lei e à mediação sacerdotal.
A dificuldade interpretativa decorre do fato de que o texto bíblico não descreve detalhadamente sua forma, funcionamento ou natureza material, o que levou, ao longo da história, a múltiplas hipóteses exegéticas, tanto no judaísmo quanto no cristianismo. Assim, uma análise cuidadosa das fontes bíblicas, históricas e rabínicas se faz necessária para compreender o real papel do Urim e Tumim na vida religiosa de Israel.
1. O significado de Urim e Tumim
Na Bíblia Hebraica, Urim e Tumim (אורים ותמים) estão associados ao ḥôšen — o peitoral do juízo do sumo sacerdote (Ex 28,30). Tradicionalmente, os termos são traduzidos como “luzes e perfeições”, interpretação baseada na raiz hebraica de Urim (אוּרִים), ligada à ideia de luz, e Tumim (תֻּמִּים), derivada da raiz t-m-m, que expressa integridade, perfeição ou plenitude.
Alguns estudiosos propõem interpretações alternativas, sugerindo que Urim possa derivar de ’arar (“amaldiçoar”), resultando na leitura “maldição e perfeição”, o que indicaria um instrumento para discernir culpa ou inocência. Essa hipótese encontra eco em textos onde o Urim e Tumim parecem ser usados em julgamentos comunitários (cf. 1Sm 14,41–42).
Do ponto de vista gramatical, apesar de os termos aparecerem no plural, muitos exegetas consideram tratar-se de um plural intensivo, utilizado para conferir solenidade ou majestade ao conceito.
Traduções antigas reforçam essa diversidade interpretativa:
-Teodócio traduziu como “luzes e perfeições”;
-A Vulgata, seguindo São Jerônimo, optou por “doutrina e verdade”;
A tradição judaica rabínica preferiu manter o mistério, associando-os diretamente ao Nome divino.
2. O que realmente era o Urim e Tumim?
A Escritura é deliberadamente silenciosa quanto à forma física do Urim e Tumim. Sabe-se apenas que estavam guardados na dobra do peitoral sacerdotal e que seu uso era prerrogativa exclusiva do sumo sacerdote da tribo de Levi (Lv 8,8; Dt 33,8).
As hipóteses variam:
-pedras sagradas;
-objetos semelhantes a dados ou bastões;
-uma única peça com duas faces;
-ou até um pergaminho contendo o Nome de Deus.
Segundo a tradição judaica, o peitoral continha um pergaminho com o Nome Inefável, cuja presença fazia com que determinadas letras gravadas nas pedras preciosas se iluminassem, permitindo ao sacerdote interpretar a resposta divina. O comentarista Emílio Conde observa com acerto que o autor bíblico não descreve o objeto porque ele era plenamente conhecido por seus contemporâneos, tornando desnecessária qualquer explicação detalhada — o mistério surge apenas para os leitores posteriores.
3. A primeira referência bíblica ao Urim e Tumim
A menção inaugural ocorre em Êxodo 28,30:“Ponha também o Urim e o Tumim no peitoral das decisões, para que estejam sobre o coração de Arão, quando entrar perante o Senhor.”
Essa localização simbólica — sobre o coração — revela que o Urim e Tumim não eram instrumentos mecânicos ou mágicos, mas meios de discernimento espiritual, integrados à responsabilidade pastoral e judicial do sumo sacerdote. No Antigo Testamento, nada no culto é arbitrário: vestes, objetos e gestos possuem significado teológico profundo. O Urim e Tumim inserem-se nesse sistema simbólico como instrumentos de mediação da justiça divina.
4. O uso do Urim e Tumim no Antigo Testamento
As Escrituras indicam que o Urim e Tumim eram usados em situações que envolviam decisões comunitárias graves, especialmente quando havia mais de uma alternativa legítima.
4.1 Consulta para liderança e guerra - Em Números 27,21, Josué é instruído a consultar o sacerdote Eleazar, que deveria buscar a vontade do Senhor por meio do Urim. A condução militar e política de Israel dependia dessa mediação sacerdotal.
4.2 Julgamentos e discernimento moral - Em 1 Samuel 14,41–42, o método é utilizado para identificar o culpado pela violação de um juramento sagrado. A narrativa sugere uma forma de sorteio sagrado, orientado pela soberania divina.
4.3 O silêncio de Deus - Em 1 Samuel 28,6, Saul consulta o Senhor, mas não recebe resposta “nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas”. O texto revela que o Urim e Tumim não funcionavam automaticamente: dependiam da disposição divina e da retidão moral do consulente.
4.4 O abandono da prática - Após o período monárquico, o Urim e Tumim entram em desuso. Em Esdras 2,63 e Neemias 7,65, sua ausência é lamentada, sendo aguardado um sacerdote que pudesse restaurar essa mediação. A tradição judaica afirma que cessaram definitivamente com a destruição do Primeiro Templo.
5. Lançar sortes e o Novo Testamento
A prática de lançar sortes reaparece no Novo Testamento, na escolha de Matias (At 1,14–26). Contudo, o texto não associa essa prática ao Urim e Tumim, mas a um contexto transitório, anterior ao Pentecostes.
Após a descida do Espírito Santo, o Novo Testamento não registra mais o uso de sortes para discernir a vontade de Deus, indicando uma mudança teológica profunda: a orientação divina passa a ocorrer pela ação direta do Espírito na Igreja.
Conclusão
O Urim e Tumim constituíram um meio legítimo e restrito de discernimento da vontade divina no contexto do Antigo Israel. Longe de práticas mágicas ou supersticiosas, estavam integrados ao sistema cultual, jurídico e teológico da Lei mosaica.
Seu uso limitava-se a situações complexas, envolvendo escolhas igualmente válidas, e sempre sob a mediação sacerdotal. Com o amadurecimento da revelação bíblica, a prática foi abandonada, cedendo lugar à profecia, à sabedoria e, no cristianismo, à ação do Espírito Santo.
Assim, o Urim e Tumim testemunham uma etapa específica da pedagogia divina na história da salvação, lembrando que Deus conduz seu povo progressivamente, conforme sua maturidade espiritual e histórica.
*Francisco
José Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN,
conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº 003/17 - Perfil curricular
no sistema Lattes do CNPq Nº 1912382878452130.
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Bom dia a todos e parabéns pelas explicações baseadas na Bíblia.
Que Deus os oriente e abençoe grandemente. Eu gostei muito.
PARABÉNS PELO ENSINAMENTOS AQUI APRESENTADOS
Concluo que a pratica do Urim – Tumim era um meio de se apelar a respeito de se saber a vontade de Deus, em casos que haviam mais de uma alternativa, porém, essa prerrogativa era exclusivamente dos sacerdotes e não de qualquer um!
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