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Práticas Oraculares no Antigo Israel: O Papel do Urim e Tumim na Busca da Vontade Divina

Written By Beraká - o blog da família on terça-feira, 20 de dezembro de 2016 | 10:43






O uso do "Urim e Tumim para saber a vontade de Deus" no antigo testamento!


por*Francisco José Barros de Araújo 




Entre os diversos elementos que compõem a religiosidade do antigo Israel, poucos despertam tanta curiosidade quanto o Urim e Tumim. Inseridos no contexto do culto levítico e vinculados diretamente ao ministério do sumo sacerdote, esses instrumentos aparecem nas Escrituras como meios legítimos de consulta à vontade divina em situações decisivas para a comunidade israelita.



Embora frequentemente associados, de maneira superficial, a práticas de adivinhação, o Urim e Tumim pertencem a um universo teológico específico, distinto das práticas mágicas ou pagãs do Antigo Oriente Próximo. Sua função estava estritamente subordinada à revelação divina, à Lei e à mediação sacerdotal.



A dificuldade interpretativa decorre do fato de que o texto bíblico não descreve detalhadamente sua forma, funcionamento ou natureza material, o que levou, ao longo da história, a múltiplas hipóteses exegéticas, tanto no judaísmo quanto no cristianismo. Assim, uma análise cuidadosa das fontes bíblicas, históricas e rabínicas se faz necessária para compreender o real papel do Urim e Tumim na vida religiosa de Israel.




1. O significado de Urim e Tumim



Na Bíblia Hebraica, Urim e Tumim (אורים ותמים) estão associados ao ḥôšen — o peitoral do juízo do sumo sacerdote (Ex 28,30). Tradicionalmente, os termos são traduzidos como “luzes e perfeições”, interpretação baseada na raiz hebraica de Urim (אוּרִים), ligada à ideia de luz, e Tumim (תֻּמִּים), derivada da raiz t-m-m, que expressa integridade, perfeição ou plenitude.



Alguns estudiosos propõem interpretações alternativas, sugerindo que Urim possa derivar de ’arar (“amaldiçoar”), resultando na leitura “maldição e perfeição”, o que indicaria um instrumento para discernir culpa ou inocência. Essa hipótese encontra eco em textos onde o Urim e Tumim parecem ser usados em julgamentos comunitários (cf. 1Sm 14,41–42).



Do ponto de vista gramatical, apesar de os termos aparecerem no plural, muitos exegetas consideram tratar-se de um plural intensivo, utilizado para conferir solenidade ou majestade ao conceito. 




Traduções antigas reforçam essa diversidade interpretativa:



-Teodócio traduziu como “luzes e perfeições”;

-A Vulgata, seguindo São Jerônimo, optou por “doutrina e verdade”;



A tradição judaica rabínica preferiu manter o mistério, associando-os diretamente ao Nome divino.





2. O que realmente era o Urim e Tumim?



A Escritura é deliberadamente silenciosa quanto à forma física do Urim e Tumim. Sabe-se apenas que estavam guardados na dobra do peitoral sacerdotal e que seu uso era prerrogativa exclusiva do sumo sacerdote da tribo de Levi (Lv 8,8; Dt 33,8).




As hipóteses variam:


-pedras sagradas;

-objetos semelhantes a dados ou bastões;

-uma única peça com duas faces;

-ou até um pergaminho contendo o Nome de Deus.



Segundo a tradição judaica, o peitoral continha um pergaminho com o Nome Inefável, cuja presença fazia com que determinadas letras gravadas nas pedras preciosas se iluminassem, permitindo ao sacerdote interpretar a resposta divina. O comentarista Emílio Conde observa com acerto que o autor bíblico não descreve o objeto porque ele era plenamente conhecido por seus contemporâneos, tornando desnecessária qualquer explicação detalhada — o mistério surge apenas para os leitores posteriores.



3. A primeira referência bíblica ao Urim e Tumim




A menção inaugural ocorre em Êxodo 28,30:“Ponha também o Urim e o Tumim no peitoral das decisões, para que estejam sobre o coração de Arão, quando entrar perante o Senhor.”



Essa localização simbólica — sobre o coração — revela que o Urim e Tumim não eram instrumentos mecânicos ou mágicos, mas meios de discernimento espiritual, integrados à responsabilidade pastoral e judicial do sumo sacerdote. No Antigo Testamento, nada no culto é arbitrário: vestes, objetos e gestos possuem significado teológico profundo. O Urim e Tumim inserem-se nesse sistema simbólico como instrumentos de mediação da justiça divina.









4. O uso do Urim e Tumim no Antigo Testamento


As Escrituras indicam que o Urim e Tumim eram usados em situações que envolviam decisões comunitárias graves, especialmente quando havia mais de uma alternativa legítima.


4.1 Consulta para liderança e guerra - Em Números 27,21, Josué é instruído a consultar o sacerdote Eleazar, que deveria buscar a vontade do Senhor por meio do Urim. A condução militar e política de Israel dependia dessa mediação sacerdotal.


4.2 Julgamentos e discernimento moral - Em 1 Samuel 14,41–42, o método é utilizado para identificar o culpado pela violação de um juramento sagrado. A narrativa sugere uma forma de sorteio sagrado, orientado pela soberania divina.


4.3 O silêncio de Deus - Em 1 Samuel 28,6, Saul consulta o Senhor, mas não recebe resposta “nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas”. O texto revela que o Urim e Tumim não funcionavam automaticamente: dependiam da disposição divina e da retidão moral do consulente.


4.4 O abandono da prática - Após o período monárquico, o Urim e Tumim entram em desuso. Em Esdras 2,63 e Neemias 7,65, sua ausência é lamentada, sendo aguardado um sacerdote que pudesse restaurar essa mediação. A tradição judaica afirma que cessaram definitivamente com a destruição do Primeiro Templo.



5. Lançar sortes e o Novo Testamento



A prática de lançar sortes reaparece no Novo Testamento, na escolha de Matias (At 1,14–26). Contudo, o texto não associa essa prática ao Urim e Tumim, mas a um contexto transitório, anterior ao Pentecostes.



Após a descida do Espírito Santo, o Novo Testamento não registra mais o uso de sortes para discernir a vontade de Deus, indicando uma mudança teológica profunda: a orientação divina passa a ocorrer pela ação direta do Espírito na Igreja.



Conclusão




O Urim e Tumim constituíram um meio legítimo e restrito de discernimento da vontade divina no contexto do Antigo Israel. Longe de práticas mágicas ou supersticiosas, estavam integrados ao sistema cultual, jurídico e teológico da Lei mosaica.



Seu uso limitava-se a situações complexas, envolvendo escolhas igualmente válidas, e sempre sob a mediação sacerdotal. Com o amadurecimento da revelação bíblica, a prática foi abandonada, cedendo lugar à profecia, à sabedoria e, no cristianismo, à ação do Espírito Santo.



Assim, o Urim e Tumim testemunham uma etapa específica da pedagogia divina na história da salvação, lembrando que Deus conduz seu povo progressivamente, conforme sua maturidade espiritual e histórica.



*Francisco José Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº  003/17 - Perfil curricular no sistema Lattes do CNPq Nº 1912382878452130.





Referências Bibliográficas



-BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. Nova edição revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2016.

-BRIGHT, John. História de Israel. 4. ed. São Paulo: Paulus, 2003.

-BRUEGGEMANN, Walter. Teologia do Antigo Testamento: testemunho, disputa e defesa. São Paulo: Academia Cristã, 2014.

-BULLINGER, E. W. Figuras de linguagem usadas na Bíblia. Rio de Janeiro: CPAD, 2011.

-CONDE, Emílio. Introdução ao Antigo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 1987.

-DE VAUX, Roland. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Paulus, 2004.

-HARRISON, R. K. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2010.

-HESCHEL, Abraham Joshua. Deus em busca do homem: uma filosofia do judaísmo. São Paulo: Perspectiva, 2009.

-JOSEFO, Flávio. Antiguidades judaicas. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

-MAIMÔNIDES. Guia dos perplexos. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

-NACHMÂNIDES (RAMBAN). Comentário ao Pentateuco. São Paulo: Sêfer, 2005.

-PARROT, André. A Bíblia e o Antigo Oriente. São Paulo: Paulus, 2000.

-RASHI. Comentário à Torá. São Paulo: Sêfer, 2004.

-SCHOLEM, Gershom. As grandes correntes da mística judaica. São Paulo: Perspectiva, 1995.

-VON RAD, Gerhard. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: ASTE, 2006.



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+ Comentário. Deixe o seu! + 3 Comentário. Deixe o seu!

19 de novembro de 2021 às 08:22

Bom dia a todos e parabéns pelas explicações baseadas na Bíblia.
Que Deus os oriente e abençoe grandemente. Eu gostei muito.

11 de abril de 2022 às 19:28

PARABÉNS PELO ENSINAMENTOS AQUI APRESENTADOS

Anônimo
6 de agosto de 2024 às 22:56

Concluo que a pratica do Urim – Tumim era um meio de se apelar a respeito de se saber a vontade de Deus, em casos que haviam mais de uma alternativa, porém, essa prerrogativa era exclusivamente dos sacerdotes e não de qualquer um!

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