Palmas na missa e dança litúrgica - Pode ou não pode? Por que?
por *Francisco José Barros Araújo
A discussão em torno do uso de palmas e da chamada dança litúrgica na Santa Missa reaparece ciclicamente na vida da Igreja, quase sempre acompanhada de fortes paixões, simplificações teológicas e acusações mútuas de irreverência ou de infidelidade à Tradição.
Em muitos ambientes, especialmente aqueles influenciados por correntes ultratradicionalistas, radicais ou sedevacantistas, sustenta-se a tese de que a Missa seria exclusivamente o memorial da Paixão e Morte de Cristo. A partir dessa premissa, conclui-se que qualquer manifestação corporal de júbilo — palmas, gestos rítmicos ou expressões simbólicas de alegria — seria intrinsecamente incompatível com a natureza do culto eucarístico, configurando desrespeito ou até sacrilégio.
Entretanto, tal leitura, além de parcial, revela uma compreensão insuficiente do que a Igreja entende por Missa, sacrifício e memorial. Ela tende a absolutizar um aspecto real e essencial da Eucaristia — o caráter sacrifical — isolando-o artificialmente do conjunto do Mistério Pascal, que inclui inseparavelmente a Ressurreição, a Ascensão e a glorificação de Cristo à direita do Pai.
O resultado é uma visão empobrecida da liturgia, marcada por uma espiritualidade excessivamente funerária, na qual a alegria pascal aparece como suspeita e o louvor corporal como ameaça à sacralidade.
Por outro lado, também não se pode ignorar que, em determinados contextos pastorais, a introdução acrítica de palmas, coreografias e gestos espontâneos degenerou em espetacularização da liturgia, subjetivismo emocional e ruptura da linguagem ritual própria do culto católico. Esses abusos, infelizmente reais, alimentam reações igualmente extremas, criando um falso dilema entre rigidez e desordem, silêncio absoluto e ruído permanente, contemplação e alegria.
Diante desse cenário, torna-se evidente que a pergunta correta não é simplesmente se “pode” ou “não pode” bater palmas ou utilizar expressões corporais na Missa.
A questão verdadeiramente teológica é outra: qual é o sentido da Missa enquanto ação de Cristo e da Igreja? O que significa, à luz da Escritura e do Magistério, afirmar que a Eucaristia é memorial da morte e ressurreição do Senhor? Em que medida o corpo humano, assumido e redimido pelo Verbo encarnado, participa legitimamente do culto divino?
Responder a essas questões exige abandonar tanto os slogans ideológicos quanto as reações emocionais, retornando às fontes seguras da fé:
-A Sagrada Escritura,
-A Tradição viva da Igreja
-E o Magistério autêntico e initerrupto (de Nicéia ao Vaticano II)
Somente a partir desse tripé é possível discernir, com equilíbrio e fidelidade, o lugar do louvor, da alegria e da expressão corporal na liturgia, e não a partir de gostos pessoais, preferências estéticas ou opiniões particulares de grupos e lideranças — inclusive aquelas de viés tradicionalista — dentro da Igreja. Tal discernimento evita tanto a diluição do caráter sacrifical da Santa Missa quanto a sua redução a um formalismo rígido e autorreferencial, assegurando que o culto cristão permaneça verdadeiramente eclesial, encarnado e orientado ao mistério pascal, sem se transformar nem em espetáculo emotivo nem em uma experiência intimista e desencarnada.
Assim, o presente estudo propõe-se a examinar, de forma sistemática e fundamentada, o significado teológico da Missa como celebração do Mistério Pascal, o conceito de memorial na tradição católica e os critérios magisteriais que regulam a inculturação litúrgica.
À luz desses elementos, busca-se demonstrar que palmas e expressões corporais não são, em si mesmas, incompatíveis com a liturgia, mas que sua legitimidade depende do sentido, do momento, da intenção e da ordem ritual em que se inserem. Trata-se, portanto, não de relativizar a sacralidade do culto, mas de compreendê-la em toda a sua profundidade cristológica, pascal e eclesial.
1. A Missa como Mistério Pascal: sacrifício e ressurreição
A Santa Missa é, de fato, atualização sacramental do Sacrifício da Cruz. Contudo, ela não se reduz à recordação isolada da morte de Cristo. A Eucaristia é a celebração do Mistério Pascal, que engloba inseparavelmente Paixão, Morte, Ressurreição e glorificação do Senhor.
A própria liturgia exprime essa totalidade ao proclamar, após a consagração:
“Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição!”
Cristo que se faz presente no altar não é um cadáver simbólico, mas o Cristo vivo e ressuscitado, que age através do ministério sacerdotal. Como ensina São João Paulo II:
"O sacrifício eucarístico torna presente não apenas na Paixão e a Morte, mas também na Ressurreição, que é a coroação do sacrifício"
2. O conceito de “memorial” na teologia litúrgica - A tradição católica distingue cuidadosamente entre:
-Atualização sacramental do sacrifício da Cruz (Paixão e Morte);
-Memória histórica da Ressurreição, que não necessita de renovação sacramental, pois Cristo já vive glorioso e não pode mais morrer.
O conceito bíblico de memorial (zikkaron) não é mera lembrança psicológica, mas uma recordação eficaz que torna presente aquilo que significa. O Catecismo da Igreja Católica ensina que a Eucaristia é memorial no sentido forte: torna presente o sacrifício único de Cristo e seus frutos salvíficos.
Assim, a morte é anunciada, porque é atualizada sacramentalmente; a ressurreição é proclamada, porque é um fato histórico consumado que permanece eternamente no Cristo glorioso.
Documentos posteriores do Magistério aprofundaram esse princípio, reconhecendo que elementos como gestos corporais, palmas, posturas simbólicas e até determinadas formas ritualizadas de dança podem ser admitidos na liturgia, desde que expressem uma verdadeira oração comunitária — de louvor, súplica, oferta ou ação de graças — e não se reduzam a mera performance estética, entretenimento ou espetáculo antropocêntrico.
O critério não é a novidade nem a emoção gerada, mas a capacidade do gesto de servir ao "actus liturgicus", isto é, à ação sagrada de Cristo e da Igreja.
A "Varietates legitimae" também adverte contra dois extremos igualmente nocivos:
-De um lado, um "ritualismo rígido e engessado" que absolutiza formas históricas específicas como se fossem intocáveis.
-De outro, um "experimentalismo desordenado" que fragmenta a unidade litúrgica e obscurece o primado do mistério pascal.
Assim, gestos como palmas ou movimentos corporais só são legítimos quando inseridos organicamente na celebração, de modo sóbrio, simbólico e comunitário, evitando qualquer protagonismo individual ou teatralização da assembleia.
Portanto, segundo o Magistério, a inculturação litúrgica não significa adaptar a liturgia ao gosto subjetivo da comunidade, mas permitir que o Evangelho fecunde as culturas, purificando-as e elevando-as, para que o culto divino permaneça, ao mesmo tempo, verdadeiramente católico, fiel à Tradição e inteligível aos povos concretos que celebram a fé.
Conclusão
A reflexão apresentada permite concluir, com segurança doutrinal e fidelidade ao Magistério da Igreja, que o louvor e a adoração cristãos não podem ser reduzidos nem a um exercício puramente intelectual, nem a uma experiência meramente interior e subjetiva.
O Deus da Revelação bíblica não salva apenas a alma, mas o homem inteiro. Por isso, o culto cristão, especialmente a liturgia, envolve o ser humano em sua totalidade: razão, vontade, afetividade e também o corpo.
A Santa Missa, enquanto celebração do Mistério Pascal, torna presente sacramentalmente o sacrifício redentor de Cristo e, ao mesmo tempo, proclama a sua Ressurreição gloriosa, que permanece eternamente viva no próprio ser do Ressuscitado.
Negar ou obscurecer essa dimensão pascal plena conduz a uma compreensão mutilada da Eucaristia e, por consequência, a uma espiritualidade marcada pelo rigorismo, pelo medo e por uma visão quase fúnebre da liturgia, estranha tanto à Escritura quanto à Tradição viva da Igreja.
A rejeição sistemática de toda e qualquer expressão corporal de louvor — como palmas ou gestos ritualizados de alegria — frequentemente revela uma mentalidade de fundo gnóstico, ainda que inconsciente, que desconfia do corpo e o considera um obstáculo à verdadeira espiritualidade.
Tal postura entra em choque com a fé cristã na Encarnação do Verbo, com a sacramentalidade do corpo humano e com a própria lógica da liturgia, que sempre se expressou por sinais sensíveis, gestos, posturas e ações simbólicas.
Entretanto, reconhecer a legitimidade da expressão corporal no culto não significa legitimar o subjetivismo, o exibicionismo ou o emocionalismo desordenado.
A liturgia não é propriedade da assembleia nem palco para performances individuais; ela pertence à Igreja e está submetida a critérios objetivos de ordem, sobriedade, decoro e fidelidade ao rito.
Por isso, a pergunta decisiva não é simplesmente se algo “pode” ou “não pode”, mas por que, para que, como e em que momento determinada expressão é realizada.
Quando palmas, gestos ou danças litúrgicas brotam de uma autêntica oração comunitária, estão em harmonia com o tempo litúrgico, respeitam a estrutura do rito e expressam verdadeiramente louvor, súplica ou ação de graças, elas podem constituir uma linguagem legítima da fé encarnada.
Quando, ao contrário, se tornam espetáculo, distração ou ruptura da unidade ritual, perdem seu sentido e devem ser corrigidas.
O Magistério oficial da Igreja, especialmente a partir do Concílio Vaticano II, oferece critérios equilibrados que evitam tanto o formalismo estéril quanto o espontaneísmo caótico.
A inculturação litúrgica, longe de ser uma concessão ideológica, é expressão da catolicidade da Igreja, que assume o que há de verdadeiro, belo e ordenado nas diversas culturas, sem jamais comprometer a unidade substancial do rito romano nem a integridade da fé apostólica.
Em última análise, a liturgia cristã é antecipação sacramental da glória futura. Ela educa o corpo e a alma para o culto eterno, no qual toda a criação participará do louvor a Deus.
Por isso, quando bem compreendida e corretamente vivida, a expressão corporal na Missa não diminui o caráter sacrifical da Eucaristia, mas o ilumina à luz da Ressurreição, recordando à Igreja peregrina que o Crucificado está vivo, reina glorioso e nos envia, fortalecidos pelo pão da Palavra e da Eucaristia, a anunciar com alegria o Evangelho até os confins da terra.
Referências
-CONCÍLIO DE TRENTO. Doutrina sobre o Santíssimo Sacrifício da Missa. 1547.
-CONCÍLIO VATICANO II. Sacrosanctum Concilium. Constituição sobre a Sagrada Liturgia. Vaticano, 1963.
-CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 2. ed. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1997.
-JOÃO PAULO II. Ecclesia de Eucharistia. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2003.
-CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. Varietates legitimae. Vaticano, 1994.
-CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO. Instrução Geral sobre o Missal Romano. Vaticano, 2002.
-CNBB. Documento 43: Animação da Vida Litúrgica no Brasil. Brasília: Edições CNBB, 1994.
-BENTO XVI. Sacramentum Caritatis. Vaticano, 2007.
-PAULO VI. Mysterium Fidei. Vaticano, 1965.
-CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO. Redemptionis Sacramentum. Vaticano, 2004.
*Francisco José Barros
Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma
Nº 31.636 do Processo Nº 003/17
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Perdão, fiquei um pouco confusa, então não pode bater palma?
Amada irmã Sara,
Não só pode como deve, claro respeitando os momentos oportunos: No canto de entrada, no glória, na aclamação do evangelho e no canto final.
Shalom !!!
TODO NOSSO CORPO É UMA EXPRESSÃO DE LOUVOR E ADORAÇÃO A DEUS: Salmo 47,1-2: “Aplaudi com as mãos, todos os povos! Cantai a Deus com voz de triunfo! Porque o Senhor Altíssimo é temível, e grande Rei sobre toda a terra.” – Louvo e adoro a Deus quando me ajoelho, quando ergo minhas mãos, quando me curvo, quando fecho meus olhos para rezar, quando danço como fez Davi diante da arca, e quando o aplaudo em seu Santuário (confr. Salmo 150).
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