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Réplica ao artigo acadêmico da Socióloga Roseane Freitas: O Sentido da Comunidade Católica Shalom, entre os carismáticos de Fortaleza-Ce.

Written By Beraká - o blog da família on domingo, 9 de setembro de 2018 | 00:18







Resenha do artigo de: ROSEANE FREITAS NICOLAU  (Professora Adjunta do Departamento de Psicologia da UFC - Doutora em Sociologia)


A QUE SUPOSTAMENTE SE OBJETIVA O TRABALHO ACADÊMICO DA AUTORA?


Este artigo discute o engajamento e a relação dos fiéis com a Comunidade Católica Shalom, destacando a importância desta para a Renovação Carismática em Fortaleza. Tomada como tipo ideal no sentido Weberiano, analisamos a comunidade como um lugar social de extrema importância para a reconstrução de identidades religiosas, considerando, de acordo com Weber, o carácter de ação comunitária da religião, que nos permite compreender o sentido, através das vivências, das representações e dos fins subjetivos dos indivíduos. Para apreender as representações do fiel em relação à comunidade, analisamos seu dispositivo simbólico, as tramas de sentido em que ela se assenta e o envolvimento das pessoas nela, apresentando os itinerários religiosos dos carismáticos ou o que eles denominam a “caminhada”, com a finalidade de apreender, pelo menos parcialmente, o seu significado.




Desse modo, selecionei um Grupo de Oração que acompanhei durante oito meses como observadora, visitei três Comunidades de Vida, e fiz entrevistas individuais com autoridades e leigos carismáticos. Os testemunhos  e as entrevistas constituem os recursos que utilizei para analisar as representações dos carismáticos e as diferentes formas de engajamento na RCC, bem como o percurso religioso dos fiéis, sendo possível detectar as mudanças cognitivas operadas a partir da conversão e as alterações de atitudes religiosas e de estilo de vida. Nesse aspecto procurei observar de que maneira as pessoas se comportam a partir da adesão, o que elas pensam de si antes e depois, atentando para as representações subjacentes ao seu dito, não como códigos a serem decifrados, mas como idioma a ser interpretado, no sentido de Geertz (1989). Dessa maneira, procurei integrar a experiência dos fiéis ao sistema de representações que a Renovação Carismática oferece, partindo do fenômeno experimentado pelos atores e das representações que fazem de sua vivência, no sentido em que Simmel (1971) toma essas representações, atribuindo-lhes grande importância, pois é através delas que o homem constrói o mundo, percebe-o e se orienta nele.



O PONTO DE VISTA PESSOAL DA AUTORA COM RELAÇÃO A COMUNIDADE CATÓLICA SHALOM - SUAS COMPARAÇÕES COM ALGUNS SOCIÓLOGOS POR ELA ESCOLHIDOS - O QUE É AUTÊNTICO EM SEU TRABALHO, E O QUE É DISTORCIDO EM SUA ANÁLISE E CONCLUSÃO?  (Destacado em vermelho, as distorções daquilo que realmente é).




De fato, faz parte do Carisma Shalom evangelizar e formar os filhos de Deus, o que realiza promovendo um número variado de eventos e utilizando para divulgá-los os meios de comunicação que possui.Os membros do Shalom se auto-intitulam anunciadores da paz que Jesus fala no evangelho, e dizem ter a missão de levar, com seu exemplo de vida, com sua palavra e seu testemunho, o Shalom de Deus aos corações. Assim, se dizem instrumentos de reconciliação do mundo com Deus:


“Ressuscitados com Cristo, recebemos dele a missão e nos tornamos presença de paz no mundo. Paz que é conversão, reconciliação com Deus, com os homens e conosco mesmos” (Revista Shalom Maná, nº 114, Agosto-setembro, 2002).






Stuart Hall (2001) mostra que a identidade é formada na interação entre o eu e a sociedade e que o eu é projetado nas várias identidades culturais.A identidade religiosa é uma das possibilidades de se recuperar a identidade no mundo social, aspecto extremamente importante para a sobrevivência do eu.Portanto, a constituição da identidade religiosa contribui para alinhar os sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que se ocupa no mundo social e cultural. Assim, ao assumir uma função social integrando-se no grupo religioso, recupera-se não apenas a função ou lugar social perdidos, mas a própria possibilidade de sobrevivência do eu pelo lugar que o sujeito passa a ocupar diante do outro. É principalmente a posição subjetiva que o sujeito ocupa que lhe permite sustentar uma imagem valorizada diante do outro, necessária à reformulação da imagem que ele tem de si. O Shalom oferece essa possibilidade, não fazendo, pelo menos explicitamente, distinção entre ricos e pobres, letrados e iletrados, cultos e incultos.


O certo é que os membros do Shalom transmitem um sentimento positivo, pois demonstram uma disposição particular para enfrentar os problemas da vida, característica dos fortes e confiantes.



Esta disposição, segundo analisei, é construída a partir do sentimento de pertença à Comunidade, lugar onde é possível vivenciar fenômenos de ordem emocional responsáveis pelas transformações interiores de vida. É na experiência compartilhada que se desenvolvem os dons carismáticos, e que se assume um compromisso com os trabalhos da comunidade, tornando efetiva a participação.


Segundo uma informante, não basta freqüentar o Shalom, é preciso se comprometer com a obra e renovar sua vida, tornando-se membro de um Grupo de Oração, de uma Comunidade de Aliança ou de uma Comunidade de Vida e seguir as prescrições particulares de cada agrupamento, com seu estilo de participação específica, que particulariza os itinerários e os diferentes perfis religiosos.O Grupo de Oração “É o principal serviço e expressão da RCC. Deve promover a experiência de Pentecostes ou facilitá-la para o fiel, acompanhando- o no caminho espiritual (...) sua finalidade é anunciar o Querigma, fazer o anúncio da Boa Nova” (informante).



É no Grupo de Oração que se inicia a caminhada no Shalom, após a participação em um Seminário de Vida no Espírito Santo, ritual que termina com o Batismo no Espírito Santo e que é condição sine qua non para a inserção em um grupo da Comunidade Shalom. Este pode acontecer em um grande evento, a exemplo do Renascer, ou em cursos ofertados regularmente para pequenos grupos.


Já os integrantes das Comunidades de Vida (CV) ou de Aliança (CA) se implicam de formal radical, única possibilidade de fazer parte delas. Eles são identificados através do TAW, ou Cruz de São Francisco que carregam no peito.


“Ser portador do TAW, é o desejo mais íntimo dos adeptos do Shalom, pois significa atingir um grau mais elevado no caminho da santidade e um passo a mais na construção da identidade carismática.”



O que mais chama a atenção no estilo de vida dos membros da CV é a tendência a “auto-segregação”. Eles se vestem com simplicidade, circulam apenas pelos ambientes sociais relacionados às igrejas e ao Shalom, têm um modo de falar calmo, transmitindo compreensão e aceitação do outro, uma alegria que se expressa pelo sorriso constante no rosto e que dizem ser motivada pela comunhão com Deus. Não freqüentam cinema, bares ou qualquer outro lugar considerado impróprio.


A rotina diária dos membros da CV é dedicada aos compromissos espirituais: oração pessoal, estudo bíblico através do método da Lectio Divina, terço e Eucaristia, cantos de louvores ao Senhor, através da oração das Laudes,reunião de formação comunitária e partilha de vida. Além dessas atividades espirituais, desenvolvem trabalhos relativos à evangelização.


Segundo os integrantes, eles vivem para louvar, adorar e bendizer ao Senhor, cultivando os carismas do Espírito Santo.Como se pode perceber, o estilo de vida na comunidade é muito próximo ao estilo de vida religiosa,com uma rotina de oração e de trabalho, na qual as atividades “mundanas” e a circulação por outros espaços sociais são interditadas. Inclusive, é o que colocam como proposta de estilo de vida.



Já as Comunidades de Aliança, são formadas por pessoas que “dedicam sua vida ao Senhor no meio secular”. Embora sejam totalmente engajados na vida religiosa, os integrantes desta comunidade não precisam morar em residências coletivas, como na CV, morando em sua própria casa e desenvolvendo desenvolvendo suas atividades profissionais fora da comunidade.Encontram-se aí pessoas dos mais diferentes perfis socioeconômicos. Entrevistei uma advogada da CA que entrou na RCC com o marido:


“(...) fazemos parte da CA que é uma comunidade externa (...) nós trabalhamos fora também (...) Mas tem setores da obra que a gente trabalha como voluntária e outros que a gente trabalha com serviço remunerado”.



Eles seguem as mesmas regras de vida dedicada ao Senhor que se reflete no modo de vida familiar, profissional e social, levando os compromissos da comunidade para sua vida pública. Ao mesmo tempo, circulam entre os não-carismáticos, que têm outra concepção de vida, outro estilo religioso e outra maneira de olhar o mundo.


As Novas Comunidades trazem implícita uma expectativa de mudança social que faz crescer o número de adeptos, multiplicando-as. Segundo Hervieu-Léger (2005), elas representam a inclinação característica da modernidade religiosa, que é criar comunidades fundadas em afinidades sociais, culturais e espirituais.


As comunidades carismáticas não se inscrevem no nada, mas num contexto formado por um tecido humano, social, político, histórico, geográfico e institucional que favoreceu seu aparecimento. Muitos lêem os fenômenos comunitários como movimentos contestadores; outros como alienantes do mundo; mas, a verdade é que as comunidades se constituem como fenômenos religiosos de linha fundamentalista, com pretensão de retorno a um cristianismo primitivo, fazendo-se presente em uma época na qual se previa o desaparecimento da religião. Entretanto, como sugere Hervieu-Leger (2005: 45), são as próprias transformações da modernidade que sustentam um lugar de importância para a religião, pois suscitam crises, criando um universo de incertezas, cujo efeito é de um vazio social e cultural produzido pela mudança e vivido como ameaça pelos indivíduos e pelos grupos. Assim, os sistemas religiosos tradicionais vão se reordenando sob novas formas, perpetuando-se e permanecendo com um grande poder de atração sobre os indivídu-os e a sociedade, como acontece com a RCC. Aqui, as pessoas encontram, na vivência comunitária e na prática religiosa, explicações e sentido para a vida, quando não os encontram no mundo.


Segundo os carismáticos, as comunidades devem ser vistas de dois ângulos:


1)- O da aspiração a uma sociedade melhor, mais humanizada.

2)- E como um dispositivo para favorecer a elevação espiritual.



Assim, o princípio da comunidade é elevar espiritualmente seus membros para que, em seu conjunto, possam construir uma sociedade melhor, o que implica desenvolver um sentimento de pertença através do crescimento pessoal. E é nisso que o carismático se engaja, sendo também isso o que fundamenta o dispositivo simbólico que atrai tantas pessoas. Estes elementos, juntamente com a publicidade que se faz em torno das Novas Comunidades, fazem com que estas ocupem um lugar simbólico privilegiado do qual os católicos querem participar.



O engajamento no Shalom implica um processo de mudanças, de reconstrução de identidade e de fortalecimento psicológico, propiciando uma nova forma de significar e ordenar o mundo. O “católico especial”, que emerge desse processo, tem uma autoconfiança que se exterioriza através da alegria, da amabilidade, da afetividade e da solidariedade para com os irmãos. Esse “resultado” vai se desenhando a partir da vivência em comunidade, na relação que se estabelece entre os indivíduos e na maneira particular pela qual eles se ligam à sociedade.



E é nos rituais dos grupos de oração que tudo começa. Por isso, é oportuno acompanhar o ritual que desenvolve o forte espírito de pertença.






As reuniões do Grupo de Oração se passam na seguinte seqüência ritual:


1)- Acolhida, quando todos se cumprimentam com alegria, incentivada por cânticos,palmas e movimentos corporais, acompanhados de expressões como “entre no clima”, “libere a ação do espírito”, “deixe o espírito entrar”.


2)- As músicas com ritmos dançantes e letras como “quero mergulhar na alegria do Senhor”, “vem Espírito, encha-me de luz”, “vem libertar meu coração”, “renova-me Senhor”,

3)- Acompanham “aleluias” e “glória a Deus”. Esses momentos, duram mais ou menos vinte minutos.


3)- Prepara para a ação do Espírito, que é solicitado a comparecer e a manifestar seus dons e carismas. As pessoas começam a orar, “na língua dos anjos”, e o coordenador do grupo repete em voz suave: “o Espírito Santo está agindo, transformando, curando doenças físicas e emocionais; ele visita a cada um nesse momento, abandonem-se ao espírito”.


4)- Em seguida a esse momento de euforia coletiva e de experiência com o espírito, no qual acontece a “Revelação”.

5)- Passa-se a uma fase de cânticos mais suaves e introspectivos


6)- Segue-se a “Partilha”, ocasião em que a pastora solicita a participação das pessoas para que relatem o que foi revelado, como foram “tocadas” pelo Espírito Santo e o que sentiram naquele momento. É quando se revela algo milagroso que aconteceu na vida da pessoa.


7)- Passa-se, então, de uma vivência emocional coletiva para uma oração comunitária, em que as experiências individuais devem ser partilhadas. Geralmente, esse momento é introduzido pela pastora ou por outra pessoa, com pequenos exemplos alegóricos tirados, da sua vida cotidiana, através dos quais ilustra sua relação privilegiada com Jesus e o Espírito Santo, resultado de sua caminhada. As narrativas nesse espaço são relacionadas ao cotidiano das pessoas e tem-se a oportunidade de ouvir relatos sobre a experiência religiosa diária com Deus, e as transformações que provocam no dia a dia. O principal objetivo desses testemunhos é mostrar “a experiência com Deus nas pequenas coisas, pois esta acontece em todos os momentos”.



8)- Seguem-se momentos de silêncio, entrecortados por uma série de mensagens enviadas por Deus, mensagens recebidas nos dias precedentes. As pessoas vão contando suas experiências, as visões que tiveram enquanto estavam entregues à oração. Começam com frases do tipo: “Jesus disse”, “o Espírito me revelou”, “senti Jesus me tocar...”. A pastora repete com freqüência: “Tem que falar, partilhar a emoção, a experiência, o que Deus faz na sua vida, pois isso serve para o irmão”. Partilhar é a palavra de ordem,pois a oração comunitária significa a partilha e ninguém deve ficar calado nessa hora. As pessoas, segundo a pastora, devem apresentar o que sentem no grupo para entender a obra de Deus na sua vida. O entendimento do que se passa nesse momento é “o Espírito Santo que coloca e se não se abre o coração não se consegue perceber o que Jesus quer dizer”.Em um depoimento, uma pessoa disse:


“Deus falava comigo e eu não sabia, pensava que era a minha consciência. Se a gente não ficar atento, não consegue identificar o que ele nos ensina” .


9)- O próximo passo é estabelecer a relação das experiências vividas no grupo com os fatos da vida cotidiana, a partir de um novo saber adquirido. Assim,são apresentados os testemunhos de curas e os relatos de acontecimentos cotidianos para os quais são atribuídos novos sentidos:


“A experiência com Deus é em todos os momentos, nas pequenas coisas. É só prestar atenção na ação dele na nossa vida, esperar, confiar e se segurar na fé. É preciso ter força para confiar, resistir...” (Maria, integrante do grupo).


Esse momento pode durar uma hora ou mais.


10)- Passando em seguida para a Pregação, ocasião em que as falas são interrompidas para dar lugar à leitura de uma passagem da Bíblia, escolhida frequentemente da Epístola de São Paulo, considerada como texto didático, por ser escrito em linguagem não-parabólica, adequada para os não-familiarizados com a “palavra de Deus”. É a leitura da Bíblia que dá todo o suporte para que se reconheça a ação de Deus, diz a pastora, incitando os presentes a se inscreverem nos cursos de estudos bíblicos oferecidos pelo Shalom.

11)- As pessoas também são orientadas a fazerem sua oração pessoal, diariamente, condição necessária ao desenvolvimento de uma maior “intimidade com Deus”. Para uma integrante, o mais difícil na caminhada é a oração pessoal, mas é ela que desenvolve os sentidos para se perceber a presença de Deus e entender sua palavra. Diz que “é preciso concentração, sair do mundo, se isolar do que está ao seu redor... Os mestres passam anos em contemplação, em êxtase, para sentir (...) imagine nós”.É preciso, então, abraçar o hábito da oração; hábito que o grupo ajuda a desenvolver.


Por isso, não se deve faltar às reuniões,“mesmo quando a vontade é não vir, tem que vencer o cansaço, pois é tão necessário vir ao grupo quanto ir à missa. Aqui a sua visão se abre” (Carla).



É nesses rituais que a “visão do fiel vai se abrindo” para um universo no qual os fatos são sempre atribuídos à vontade divina e as decisões mais simples passam a ser tomadas a partir de orações e em retiros espirituais. Tudo deve ser discernido através da oração. Dessa maneira, vai se desenhando a identidade carismática, com o desenvolvimento de hábitos e condutas típicas do grupo. E é também nos rituais que a pessoa vai sendo estimulada a se engajar nos trabalhos, pois embora a inserção no grupo seja o primeiro passo, “comprometer-se com a obra” e “persistir na caminhada” são os principais fatores que levam alguém a se “renovar”. Assim, após a inserção no grupo, a pessoa deve assumir uma atividade e desenvolver uma nova maneira de ser e de se comportar. Isso faz com que passe do momento mágico da experiência com Deus, ao momento de cultivar uma racionalidade para desenvolver novas atitudes na vida. Como disse Andréia:


“não é só me ajoelhar e rezar… Claro, mas tem que estudar, conhecer, pensar, investigar e trabalhar”.

Trabalhar significa engajar-se em um ministério ou projeto. Os ministérios são núcleos responsáveis pelas diferentes atividades de evangelização. Existem vários ministérios: dos pregadores, da libertação, do pastoreio, do aconselhamento,promoção da dignidade humana, etc., que seramificam em vários outros e que são escolhidos de acordo com o interesse da pessoa. Segundo um coordenador,o incentivo à participação nos ministérios começa após um período de seis meses de frequência ao grupo, quando a pessoa se convence de que a melhor forma de amar a Deus é lhe servindo. “Nada é forçado”, mas é cobrado esse engajamento, a cada reunião de grupo e nos rituais, onde se mencionam sempre os cursos, as reuniões de estudo, os retiros, acampamentos e outras atividades. Se, de um lado, existe um leque de possibilidades para o sujeito, de outro, existe a disposição pessoal para se envolver com os trabalhos.





Existem membros de grupos de oração que passeiam por vários ministérios, participam de alguns trabalhos, mas não se implicam totalmente com eles. Outros, entretanto, são “firmes na caminhada”, comprometendo-se radicalmente. E quanto mais radicalmente a pessoa se engaja, mais fortalecida ela vai se sentindo, sendo estimulada por um “formador pessoal”, que a aconselha no momento de tomar decisões. Para dar suporte ao engajamento dos inúmeros renovados, é preciso um trabalho permanente, uma vigilância e um encorajamento constantes.


A escolha do lugar ideal, como diz Moysés, se faz de acordo com “onde for o chamado de Deus”. Significa dizer que os “tocados pelo Espírito Santo” irão se engajar nos espaços de sociabilidade da RCC, a partir de sua própria caminhada e investimento na sua salvação, e trabalhar naquilo que o seu talento indica. Assim, a mobilidade do sujeito pelos espaços do Shalom e sua persistência implicam diferentes itinerários traçados pela forma de engajamento e indicam importantes diferenças individuais, que podem ou não mudar o estilo de vida das pessoas. Os efeitos da adesão estão diretamente relacionados com o percurso e o investimento pessoal de cada um.


Embora o objetivo maior seja pertencer a uma Comunidade de Aliança ou de Vida, nem sempre se consegue trilhar este percurso.


As pessoas que acompanhei no grupo de oração funcionam dentro daquilo que podemos considerar como suas possibilidades. As prescrições que determinam a caminhada de desenvolvimento espiritual: orações pessoais, rezar o terço todos os dias, participar dos eventos, ir à missa, assumir um ministério, não são cumpridas à risca por todos. Muitos não conseguem seguir as recomendações, embora se proponham a isso, como ouvi de alguns informantes:


“Eu nunca persisto na caminhada. Já é a terceira vez que faço o Seminário de Vida e começo no grupo de oração. Mas eu sou fraca”; “Eu freqüento o grupo há quatro anos, mas nunca me engajei em um ministério. Agora vou ver se consigo”.


Promessas que, muitas vezes, não se cumprem, mas mantêm a ligação com o grupo.


Assim, há uma imagem ideal no horizonte a ser construída, representada tanto por Moisés como por Emmir, figura feminina mais citada como ideal a ser atingido, conforme se constata neste depoimento:


(...) quando vi a Emmir disse: quero ser igual a ela, ter esta alegria e disponibilidade para com o irmão e essa aparência de tranqüilidade e segurança que ela tem em seu semblante.


Moisés e Emmir são, portanto, o modelo de identificação entre os renovados do Shalom. Moisés,como o bíblico, foi escolhido por Deus para a missão de fundar a Comunidade Shalom, tendo Emmir como sua colaboradora. Moisés, “o fundador”, possui uma função: a de ser o líder, pois ele foi “escolhido por Deus para ser a cabeça da nossa comunidade”, disse um informante. Isso lhe confere uma autoridade que vai além da mobilização emocional que é capaz de provocar. Sua palavra é autoridade, reconhecida pelo saber divino, sendo relativa à sua função e ao carisma que se reconhece nele. O carisma do fundador é de participar da paternidade de Deus. Ele é seu eleito, pastor de seu rebanho.


Na análise weberiana, penso que Moisés se aproxima da figura do profeta, esta figura que porta um carisma pessoal, “(...) o qual, em virtude de sua missão, anuncia uma doutrina religiosa ou um mandado divino” (WEBER, 1991, p. 303).Weber não faz distinção entre o profeta que anuncia de novo uma revelação antiga daquele que reivindica para si uma revelação totalmente nova, isto é, entre o “revelador” e o “fundador” de uma religião. O que importa para ele é a vocação pessoal, que distingue profeta e sacerdote. A autoridade do profeta não está a serviço da tradição sagrada, como no caso do sacerdote, mas ela se dá em virtude de sua revelação pessoal ou de seu carisma. Assim, a legitimação do profeta atua em nome de seu dom pessoal. Por isso, ele pode se constituir como exemplo a ser seguido, pois organiza a vida e o mundo num sistema coerente de sentido. O profeta promove “... uma sistematização de todas as manifestações da vida, portanto, de coordenação do comportamento prático num modo de viver, qualquer que seja a forma que este adote em cada caso concreto” (WEBER, 1991, p. 310).



Os fundadores são evocados como verdadeiros representantes divinos, desfrutando, junto aos fiéis, de um prestígio elevado. Geralmente, as pessoas se referem a eles como “uma bênção”, tomando as suas palavras como verdade absoluta, jamais questionada, pois são legitimadas pelos testemunhos de suas vidas. Para os fiéis, o que lhes confere este status é, principalmente, o fato de serem ungidos com os dons do Espírito Santo. Para ser Shalom, é preciso seguir esse modelo e desenvolver os dons.



E isso se consegue com perseverança e dedicação à obra, o que possibilita emergir talentos individuais, livremente revelados pela prática comunitária, religiosamente legitimada em termos de carisma. Mas, só se obtém tudo isso sendo perseverante e capaz de renunciar às coisas do mundo.


A decisão de assumir um trabalho indica o compromisso com a fé através da tomada de consciência para se engajar eticamente no trabalho. A partir deste compromisso começa a transformação da pessoa para o estatuto de “ser Shalom”, com a consequente sensação de pertencer ao que designei como a “fortaleza do espírito”.


Toda essa transformação é operada em uma comunidade que oferece proteção e sustenta uma dimensão de valorização simbólica capaz de fortalecer cada um de seus membros.Assim, nos agrupamentos do Shalom se constroem redes de pertença, onde muitos encontram renovação de sentido, de verdades e de práticas de vida, levando a uma conseqüente mudança na forma de atuar socialmente, segundo o modelo representado pelo “jeito Shalom de ser”. Embora a renovação seja um investimento pessoal, que só depende do esforço de cada um, nesta caminhada ele não está só, pois conta com a ajuda do irmão. No discurso do Shalom, todos devem incentivar e orientar os que estão no início de sua caminhada. Assim, a caminhada se torna uma “pedagogia entre irmãos”, que funciona como uma dinâmica de construção de uma “nova pessoa”, no curso da qual ela recusa certos elementos, trocando-os por outros e onde re-elabora o sentido do sofrimento. E tem sempre alguém ao lado para ajudar, pois cada um tem seu formador pessoal. Também a convivência com os que se constituem como modelos de identificação favorece a modelação da conduta.


No sentido sócio-antropológico aqui analisado, a inserção na comunidade cumpre um papel importante que enlaça o sujeito no apelo carismático por um mundo mais humanizado e participativo em termos religiosos. E, para isso, é preciso viver uma experiência de vida religiosa na qual não cabem mediações,“mergulhando nas coisas de Deus” e comprometendo-se em evangelizar o irmão, o que, aliás,é recomendado fazer diariamente, no trabalho, na família, na rua. Deve-se falar, sem pudor nem vergonha,com as pessoas sobre Deus e suas maravilhas,sendo multiplicador, “testemunho de Deus”. Este é o principal meio através do qual se trazem novos irmãos para a comunidade. Segundo a fala de um dos pregadores: “Se cada um evangelizar um irmão por dia, mudaremos Fortaleza”.



Este apelo vem substituir o espaço vazio deixado pelas tecnologias políticas (utopias, programas, modos de ação e estratégias). Os valores defendidos pela Renovação Carismática são baseados no ideal de fraternidade cristã, que torna os homens capazes de conviver em paz consigo e com os outros: “Shalom da paz”. Isso consegue estabilizar a vida, tanto em seus aspectos sociais quanto individuais, pois garante, simbolicamente, formas ideais de convivência social, pautadas em uma igualdade de valores éticos, morais e afetivos, que oferecem um suporte importante para se enfrentar as ameaças em que se constitui a sociedade moderna, ao mesmo tempo em que atende às aspirações individuais, tornando-se o suporte afetivo para as pessoas, e recuperando as redes de pertença nas quais se construía a identidade do homem no passado.




CONCLUSÃO DA AUTORA:


A tentativa de tamponar a dor e o mal-estar, seja por que via for, é um engodo que pode levar a sérias distorções, não apenas de si mesmo, mas principalmente da própria realidade social em que o sujeito está inserido, quando se cria um tipo de sociedade idealizada. Como disse Freud (1930), não há nada de bom no idealismo, pois com um ideal o homem ilude a si mesmo e aos outros. Todo ideal é enganoso e enganador, o que significa que devemos desconfiar das promessas de felicidade que as instituições totalitárias apresentam. Por outro lado, agarrar-se a um ideal é um caminho, uma escolha, uma saída para a angústia, nem melhor, nem pior que outras. E, para muitos, a única saída possível é refugiar-se na busca da verdade divina e submeter-se aos ensinamentos e às prescrições celestes, mesmo que em prejuízo de sua liberdade. Nesse caso, a liberdade mais importante, do ponto de vista do sujeito, é a de escolha. Se ele deseja permanecer aprisionado a um ideal, seja ele religioso, cientifico, romântico ou político, que escolha o que julga ser o melhor para si.


Uma sociedade dirigida para o consenso, que evita o conflito no confronto com diferenças, e onde se funciona a partir de um modelo interpretativo único, quando se conta com tantas possibilidades criativas de interpretar a realidade. O novo, o inédito, o criativo se produz no confronto e no conflito de idéias, na possibilidade de dialogar com várias formas de pensamento. Ao se inscrever no interior de um sistema totalitário, retirando-se dos embates sociais e submetendo-se a prescrições inquestionáveis para obter proteção, parece que o que se busca é o refúgio na fortaleza representada pelo Shalom, e não o crescimento pessoal.





PERGUNTAS E REFUTAÇÕES  AO ARTIGO:



1)- Sendo a Sociologia uma ciência NÃO exata como a matemática, está ela sujeita, ou completamente IMUNE a critérios subjetivos, pessoais,  e de grupos ideológicos? A questão que nos interessa neste momento é: A sociologia é uma Ciência Exata? É óbvio que a reflexão sobre os fenômenos sociais não começou com a Sociologia, no século XIX. Há séculos os filósofos já se ocupavam da explicação dos fenômenos sociais. Entretanto, a reflexão filosófica a respeito da sociedade difere da Sociologia tanto nos resultados quanto, principalmente, na maneira de alcançá-los. Ao contrário das explicações filosóficas, as explicações sociológicas não partem simplesmente da especulação de gabinete, baseada na observação casual de alguns fatos. A filosofia social estabelece o que é bom e o que é mau para a sociedade e para o homem, enquanto a Sociologia, não emite juízos de valor.


Mas, o que caracteriza realmente a Sociologia como uma ciência, mesmo que seja inexata?

 

a)- Em primeiro lugar, a ciência se expressa como um sistema de conceitos, proposições e teorias comprováveis. Como sistema articulado com suas propostas e definições concretas, a verdadeira ciência não é um mero conjunto de ideias e conceitos subjetivos, como na sociologia, os quais não se consegue aquela comprovação repetível em laboratório, como se dar nas ciências exatas. 


b)- Outra característica está nos seus objetivos. A ciência tem como fim principal explicar a realidade com base na observação sistemática dos fatos. A sociologia pode se transformar em instrumento de intervenção social, como, por ex.: através do planejamento social. No método, está a característica mais importante da ciência. Aqui a Sociologia se distingue das formas não científicas de explicação da sociedade pelos meios de alcançar suas generalizações. Em outras palavras, a Sociologia é uma ciência predominantemente indutiva, isto é, parte da observação sistemática de casos particulares para daí chegar à formulação de generalizações sobre a vida social. Já a Filosofia Social é dedutiva.


c)- Outra característica da Sociologia é a neutralidade valorativa. A Ética cumpre definir o justo e o injusto nas ações humanas; o Direito fundamenta-se no que é legítimo do ponto de vista jurídico nas relações humanas; a Lógica estabelece as normas para bem pensar e atingir a verdade. Já a Sociologia não é valorativa e nem normativa. A Sociologia estuda os valores e as normas que existem de fato na sociedade e tenta identificar a classificar as relações entre esses componentes da sociedade



d)- A transitoriedade é outra característica do conhecimento científico. Um sistema filosófico pode se manter inalterado durante séculos, o que não acontecerá com as ciências inexatas. A ciência da Sociologia depende das observações dos fatos que são transitórios diante da história da humanidade; também podem mudar os conceitos durante a melhora dos métodos de observação. A ciência sociológica não é cristalizada. Ela é, sobretudo, um processo de pesquisa contínua e de ininterrupta reformulação de teorias. Todavia, a Sociologia não estuda todos os fatos da sociedade; estuda aqueles que apresentam alguma regularidade no seu modo de ser, isto é, generalizações padronizadas na vida social. Uma generalização somente pode ser considerada cientificamente quando é universalmente válida. Contudo, nem todas as discussões que existem são objeto de estudo dos sociólogos. Isto porque os métodos científicos não permitem responder questões de importância social, tais como: Qual é o sentido da existência dos seres vivos? Qual é o sentido do universo? Assim sendo, se vê, que não existe incompatibilidade entre o saber científico e a Filosofia ou Religião, pelo simples fato de que estas últimas se ocupam de problemas que estão fora do âmbito da ciência sociológica.



A sociedade também é estudada pela Antropologia, pela Economia e pela Psicologia. Além das suas aplicações no planejamento social, na pesquisa e na orientação das relações sociais, o conhecimento sociológico também funciona como uma disciplina humanística, ou seja, não é apenas um conhecimento transformado em técnicas e teorias, mas também um meio de possível aperfeiçoamento do espírito, na medida em que pode ajudar as pessoas a compreenderem melhor o seu comportamento social, dos outros e dos grupos. Assim sendo, é uma forma significativa de consciência coletiva.É bem verdade que a Sociologia nasceu como tentativa de buscar soluções racionais, científicas, de acordo com a pretensão de Auguste Comte (França / 1798-1857), para os problemas sociais resultantes da Revolução Industrial e de decomposição da ordem social aristocrática na França do início do século XIX. Entretanto, há uma diferença entre problemas sociais e problemas sociológicos. Os problemas sociais são fatos passíveis de observação sistemática e generalizada, portanto, de explicação científica. Já os problemas sociológicos são fatos de explicação teórica e não universal do que acontece na vida social. Por ex.: carnaval e futebol.Outra confusão se dá entre a ciência da Sociologia e Doutrina Social. A ciência é uma explicação de algum fenômeno com base na observação direta dos fatos que a confirmam. Quanto às doutrinas, estas não se baseiam na observação dos fatos, mas em idéias sobre como a realidade possa ser, ou principalmente, como a realidade deve ser.


A vontade de mudança de alguns sociólogos (anos 60) levou alguns a fazer distinção entre “Sociologia radical” e “Sociologia conservadora”. A primeira seria comprometida com os interesses das categorias subalternas da sociedade capitalista, enquanto a segunda é um instrumento de defesa dos interesses da burguesia.Em outras palavras, a verdadeira Sociologia pode incomodar as categorias cujos interesses sejam afetados pela revelação das relações sociais que estejam na origem dos problemas sociais. Mas para que isso aconteça é necessário que o sociólogo faça ciência e não doutrinação política rotulada de “Sociologia”. Portanto ela como ciência “inexata”,não pode jamais emitir Juízo de valor. Juízo de valor é um julgamento feito a partir de percepções individuais, tendo como base fatores culturais, sentimentais, ideologias e pré-conceitos pessoais, normalmente relacionados aos valores morais. Um juízo de valor pode ser interpretado a partir de um ponto de vista pejorativo, quando significa que determinada avaliação ou juízo foi feito tendo como base os valores pessoais de determinado indivíduo, sem com que fosse seguido um pensamento imparcial, racional e objetivo sobre o acontecimento. Neste contexto, o juízo de valor pode ser um caminho para os preconceitos, as discriminações e os julgamentos injustos, que é o que aconteceu aqui com esta socióloga em questão em seu estudo sobre a Comunidade Católica Shalom.



2)- Qual seria o ritual (ritmo) ordinário de vida da autora? Seus sonhos? Seus projetos pessoais e coletivos? Que renúncias, propostas e convicções ela optou e abraçou, para atingi-los? O termo rito tem vários sentidos. Rito é um pouco diferente de ritual, dando continuidade ao mito. No sentido mais geral, é uma sucessão de palavras e atos que, repetida, compõe uma cerimônia (Religiosa,social, ceromonial,etc).Apesar de seguir um padrão, o rito não é mecanizado, pois pode atualizar um mito, mantendo ensinamentos ancestrais e sagrados.Ora, ritmo vem do grego Rhytmos, e designa aquilo que flui, que se move, movimento regulado.Ritmo é o tempo que demora a repartir-se. Dependendo de cada um, os conceitos de ritmo podem variar: Para Berge: O ritmo é uma lei universal a que tudo se submete. Dalcroze o caracteriza como principio e movimento. Já Plantão sistematiza o ritmo, colacando-o como definição de movimento ordenado.Como a missa e tudo na vida tem seu rito e rítimo, não seria diferente em nossas reuniões, que não secretas, são abertas, e que tem o nosso rito próprio, mas assemelhando-se aos ritos da missa: Nos reunimos em nome da trindade e a invocamos com a oração do vinde Espírito Santo,pois acreditamos no que diz a sagrada escritura: “onde dois ou mais, estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles(Mateus 18,20).Por estamos reunidos como irmãos, geramos a fraternidade, pois assim nos diz o salmo: Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos! É como o óleo precioso sobre a cabeça, ordena o SENHOR a sua bênção e a vida para sempre”(Salmo 133,1-3). E por isto nos alegramos e celebramos esta fraternidade. Temos o momento de súplicas, louvor, adoração, intercessão por nossas necessidades pessoais e comunitárias, e momentos de gratidão a Deus por todos os seus feitos constantes e diários em nossas vidas, pois assim nos diz a palavra de Deus:”Pois, quem é que te faz destacado em relação aos demais? E o que tens que não tenhas recebido? E, se o recebeste, então qual o motivo do teu orgulho, como se não o tiveras ganho?Já tendes tudo o que desejais! Já estais ricos... (I Cor 4,7-8). E por fim partilhamos as maravilhas que Deus fez conosco, e rezamos por aqueles que estão fracos, para se fortalecerem na fé. Fazemos uma breve partilha do momento de oração para sairmos edificados com a partilha dos irmãos, testemunhando a ação concreta de Deus em nosso meio. Encerramos com uma oração final pedindo a intercessão de Maria junto a seu filho Jesus por nossas necessidades, damos alguns avisos finais e fazemos a despedida sempre em nome da Trindade. Deixo aqui um texto enriquecedor de nossa fundadora Emmir Nogueira publicado na revista Shalom Maná sobre o rito e ritmos da vida:




Tudo tem seu tempo e ocasião, diz o Eclesiastes. Para cada coisa, dirá outra tradução, há um tempo debaixo do sol. O autor continua a repetir as palavras, sem a menor pressa, criando, em sua narrativa, um ritmo que, por si só, expressa o que ele quer dizer: tudo tem seu tempo, tudo tem seu ritmo:


“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.

Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;

Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;

Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;

Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;

Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;

Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;

Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.

Que proveito tem o trabalhador naquilo em que trabalha? Tenho visto o trabalho que Deus deu aos filhos dos homens, para com ele os exercitar.Tudo fez formoso em seu tempo; também pôs o mundo no coração do homem, sem que este possa descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até ao fim.Já tenho entendido que não há coisa melhor para eles do que alegrar-se e fazer bem na sua vida;E também que todo o homem coma e beba, e goze do bem de todo o seu trabalho; isto é um dom de Deus.Eu sei que tudo quanto Deus faz durará eternamente; nada se lhe deve acrescentar, e nada se lhe deve tirar; e isto faz Deus para que haja temor diante dele.O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou.Vi mais debaixo do sol que no lugar do juízo havia impiedade, e no lugar da justiça havia iniqüidade.Eu disse no meu coração: Deus julgará o justo e o ímpio; porque há um tempo para todo o propósito e para toda a obra.Disse eu no meu coração, quanto a condição dos filhos dos homens, que Deus os provaria, para que assim pudessem ver que são em si mesmos como os animais.Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo fôlego, e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade.Todos vão para um lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó...” (Eclesiastes 3,1-20).








Como não rezar com esta passagem a cada final de ano? Como vivi os tempos que o Senhor providenciou? Como acertei o meu passo ao sábio compasso que marca o ritmo da vida, de tudo o que existe debaixo do sol, inclusive eu? Quem nasceu? Quem morreu? Em que nasci? Em que morri? O que plantei? O que colhi? O que derrubei? O que construí? Como chorei? Como ri? Como vivi o luto e a dança? A quem acolhi? De quem parti? A quem deixei partir?Como falei? Como calei? O que calei? Para que calei? O que falei? Como falei? Para que falei?Odiei? Fiz guerra? Perdi, então, todo o meu ritmo, todo o meu tempo. Gastei inutilmente os tempos que o Senhor providenciou. Atravessei o compasso que marca o ritmo da vida, inclusive da minha. Matei e morri. Plantei, mas não colhi. Destruí. Se ri, foi pantomima. Se chorei, foi de desgosto. Se dancei, foi grotesco. Se acolhi, só foi a mim mesma. A tudo e a todos enxotei. Minhas palavras destruíram, meu silêncio foi omissão, falsa proteção a mim mesma. Odiei.Amei? Então construí e promovi a paz, encontrei, então, o sábio ritmo da vida, o tempo interior só conhecido de quem ama. Aproveitei bem os tempos que me deu a Providência. Dancei, feliz e equilibrada, conduzida por meu divino par, ora valsas, ora noturnos, ora barcarolas, ora polcas e mazurcas, ao compasso que marca o ritmo da vida, de toda vida, da minha vida, da sua vida. Dancei, com toda a criação, com Deus e com os irmãos. Deixei-me conduzir pelo hábil Cavalheiro. Nasci e dei à luz. Plantei e colhi. Derrubei feiura, colhi beleza, bem, verdade. Ri, feliz ao acolher, nas dobras da renúncia do amor, meu irmão, a vida, as circunstâncias. Rodopiei, confiante e tranquila, a guardar segredos de amor em meu coração. Amei.Ora amei, ora odiei? Natural. Sou pecadora. Sou imperfeita. Sou humana. Simplesmente vivi. Colhi os frutos do meu ódio e do meu amor.Uma coisa sei que, com a mais absoluta certeza, tive, eu, assim como você: o amor do Pai em toda circunstância. A salvação do Filho todos os dias do nosso ano. A ação santificadora do Espírito, disponível em toda ocasião. Criador e criatura dançamos juntos, tal pai e filha na festa dos quinze anos, tal casal de noivos nas bodas, envolvidos, sempre, por muitos outros pares, milhares, milhões, bilhões de outros pares.Chegamos ao fim de mais um ano em nossa bela sonata da vida. É preciso dar o comando de replay e assisti-la outra vez, serenamente, ouvindo detalhes perdidos na correria, na emoção dos acontecimentos: stacatos sutis, ligaduras ressonantes, fermatas desconcertantes.Começa uma nova página. Quantos compassos teremos? Que temas se repetirão? Que novos tons serão adotados? Que novas frases musicais serão relidas, recriadas? Que outros instrumentos entrarão? Que interpretação escolheremos dar? Que passos criaremos? Como faremos a leitura, compasso a compasso?Deus sabe! E é nisso que reside nossa tranquilidade, nossa confiança. Não conhecemos o que virá, mas pelos temas, frases, harmonias e compassos, pelo ritmo e pelo tom já tocados, sabemos que, tocada a quatro mãos, nossa composição será bela. O ritmo, por vezes sincopado, combinará com soluços. O compasso em sua batida convencional, evocará a rotina, que também revela beleza. As notas que voam, oração. As que ficam na memória, contemplação. As que marcam a base, convicção. As que desenham a melodia, inventividade.Deus sabe! Deus sabe! Deus sabe! Que a proposta de uma vida alucinada não nos seduza. Que o ritmo da evangelização, do amor, este, sim, seja alucinado, sem medida: Jesus tem sede, tem pressa. O ritmo interior, porém, este seja aquele secreto, confiante, sábio, paciente ritmo interior de Maria: Deus sabe! Deus sabe! Deus sabe! Tudo passa! Deus fica! Deus sabe! Para tudo há um tempo debaixo do sol. Não temo! Deus sabe! Deus sabe! Deus sabe!...”


 
(Sacerdotes da Comunidade Católica Shalom)



3)- O que diferencia uma pessoa ou grupo de pessoas, que fizeram suas opções radicais de vida, e abraçam uma causa não religiosa, seja de direita, ou esquerda, socialista, esotérica, capitalista, humanitária, ateísta, ou até mesmo hedonista? O que define quem é mais, ou menos feliz com essas escolhas? A sinceridade é o critério da verdade? Uma pessoa pode estar sinceramente equivocada? Em que melhor dos mundos ela quer viver? Quais seus valores? Seus ícones, e referenciais? São infalíveis?Qual o conceito de felicidade, verdade e liberdade da autora, aos quais ela quis comparar com o carisma da Comunidade Católica Shalom? Sua pesquisa, análise, e conclusão, mesmo com a melhor das intenções, é muito reducionista. Percebemos a questão da subjetividade, que é muita ampla neste contexto para a mesma emitir um juízo de valor, como ela fez em sua conclusão acima. Ela ao querer relativizar os valores e objetivos da comunidade, quis absolutizar os seus como os corretos, ou tentou se proteger de seus medos de assumir compromissos que impliquem em mudança de seu “mindset”. Talvez este seja o maior medo de todo nós, que é: encontrar-se consigo mesmo, e pesar nossos valores e convicções à luz da verdade divina, revelada em Cristo Jesus, que é um contínuo trabalho de artesão.



Com todo respeito ao trabalho da socióloga em questão, mas tenho que falar com toda franqueza: ela não entendeu nada, fez uma análise e conclusão muito superficial.No entendimento da mesma, é como se tudo se resumisse dentro dos muros do Shalom, e ficássemos restritos às reuniões de oração.Quem vive a realidade da Comunidade, sabe que os momentos de oração pessoal e comunitárias, são apenas o motor motivacional para os nossos trabalhos extra muros, pois é ai onde se manifesta nosso chamado, como muito bem nos recorda nosso fundador Moysés (Que rejeita todo e qualquer tipo de culto a sua personalidade, ao contrário do que disse a autora, ele sempre diz: Que Ele (Jesus) cresça, e eu diminua):




“É aí que se manifesta o desígnio de Deus para a nossa vocação. Em um mundo marcado pelo pecado, ‘que errou bastante acerca do conhecimento de Deus, onde reinam tantos males, o ocultismo, a não conservação da pureza nem na vida nem no matrimônio, a impureza, o adultério, sangue, crime, roubo, fraude, corrupção, deslealdade, revolta, perjúrio, perseguição dos bons, esquecimento da gratidão, impureza das almas, inversão sexual, desordens no casamento, despudor e etc, e ainda se diz em paz’ (Sb 14,22-26); o Senhor nos chama a sermos anunciadores da sua paz (Is 52), a vivermos e proclamarmos a sua Paz. A levarmos com a nossa vida, com a nossa palavra e com o nosso testemunho, o Shalom de Deus aos corações; a sermos instrumentos de reconciliação do mundo com Deus; a anunciarmos com todo o nosso coração, com todas as nossas forças a salvação de Jesus Cristo e o seu Evangelho” (RVSh, 359)



Paz para nós é sinônimo de conversão, de vida nova em Cristo. Não é, portanto, somente uma conquista do homem, uma ausência de guerra ou a implantação de uma “justiça humana” sobre a terra. A paz é fruto da presença do Cristo Ressuscitado em nosso meio. Como aos apóstolos (cf. Jo 20,19-21), Ele nos comunica a salvação e nos ensina a anunciá-la e ministrá-la aos homens do nosso tempo. Enquanto os homens procurarem a sua paz e a sua salvação em si próprios; enquanto acharem que podem resolver os problemas do mundo por si mesmos; enquanto pensarem que podem instalar uma paz social e política e assim trazer a felicidade geral ao mundo, sem a conversão dos corações a Jesus; sem conhecê-lo como a solução, a salvação para todo o homem e para a humanidade, longe eles estarão da paz, do Shalom que Deus quer instaurar na face da terra” (RVSh, 357). 



E isso torna-se cada vez mais claro no mundo de hoje, basta olharmos ao nosso redor. A Comunidade Católica Shalom, impulsionada pelo Espírito Santo, e diariamente alimentada pela oração, sente brotar em seu seio, o ardente apelo de Deus para que seja saciada a sede do seu povo:



Amós 8,11: “Eis que virão os dias, previne o SENHOR, Adonai, em que mandarei fome sobre toda a terra; não simplesmente a fome por comida, nem a sede de água; mas a fome e a sede de ouvir e se alimentar da Palavra do SENHOR.
 








Cada irmão que livremente se consagra a Deus na nossa Comunidade, sabe que entregou a sua vida em vista dessa causa: da implantação da verdadeira Paz nos corações e no mundo. O Senhor nos constitui, assim, como soldados que, incansavelmente, lutarão pela paz através do anúncio, da doação de suas vidas e do testemunho coerente do Evangelho. (Reconquistando palmo a palmo, os espaços perdidos para o inimigo de Deus - Histórico Shalom 1984,6-9)
 



Apostolado Berakash

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12 de setembro de 2018 16:50

Achei muito interessante tanto a visão sociológica da Comunidade como sua réplica, apesar de não ter lido tudo.

Aliás, parabéns pelo blog!

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Neste Apostolado promovemos a “EVANGELIZAÇÃO ANÔNIMA", pois neste serviço somos apenas o Jumentinho que leva Jesus e sua verdade aos Povos. Portanto toda honra e Glória é para Ele.Cristo disse-nos:Eu sou o caminho, a verdade e a vida e “ NINGUEM” vem ao Pai senão por mim." ( João, 14, 6).Como Católicos,defendemos a verdade, contra os erros que, de fato, são sempre contra Deus.Cristo não tinha opiniões, tinha verdades, a qual confiou a sua Igreja, ( Coluna e sustentáculo da verdade – Conf. I Tim 3,15) que deve zelar por elas até que Cristo volte.Quem nos acusa de falta de caridade mostra sua total ignorância na Bíblia,e de Deus, pois é amor, e quem ama corrige, e a verdade é um exercício da caridade.Este Deus adocicado,meloso,ingênuo, e sentimentalóide,é invenção dos homens tementes da verdade, não é o Deus revelado por seu filho: Jesus Cristo.Por fim: “Não se opor ao erro é aprová-lo, não defender a verdade é nega-la” - ( Sto. Tomáz de Aquino) “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome dai glória...” (Salmo 115,1)

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