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SÃO TOMÁS DE AQUINO E A VIRTUDE APETITIVA DA ORAÇÃO

Written By Beraká - o blog da família on terça-feira, 9 de junho de 2020 | 20:37


















O estudo das Virtudes não tem origem na Patrística Cristã, mas na filosofia grega que lhe é anterior. Não podemos falar de oração (para o homem religioso) ou meditação (para os céticos),  sem falar dos apetites da alma. Para muitos autores, Platão teria separado razão e apetite (seja no sentido da epithimía, do páthos, ou mesmo do éros) e isso faria, desse filósofo, um racionalista. O equívoco dessa interpretação está em desconsiderar as referências do texto platônico à unidade e à interação entre os três gêneros da psykhé, à importância de órgãos corpóreos e do elemento irascível da alma como intermediários entre razão e apetite, assim como à diferença entre "apetite em si" (gênero apetitivo) e "apetite de algo" (resultado da interação entre os três gêneros da alma). Desde os Diálogos socráticos aos prováveis últimos Diálogos, pode-se encontrar referências às potencialidades psíquicas humanas de querer, perceber, desejar, afetar, ser afetado, agir, ter apetites, escolher, raciocinar, dentre outras. Destacadamente nos textos da República e do Timeu, a alma humana é vista como dotada de apetites (alguns benéficos, como o de beber quando se tem sede; alguns destrutivos, como o de matar), de sentimentos (afeições como ira, medo, ânimo, temeridade etc.), de opiniões (próximas ou afastadas da verdade). Nesses textos, pode-se notar a dinâmica interna à psykhé humana, a inter-relação dialética entre os seus três gêneros (eíde; méros):o apetitivo, o irascível e o racional, o que é denominado por alguns comentadores (e não por Platão) de "teoria da tripartição da alma". O uso do termo "tripartição" é obviamente questionável, pois não se trata de partes materiais de algo corpóreo, mas de princípios psíquicos de motivação para a ação, que conduzem o homem a agir bem ou mal, conforme forem direcionados – o que faz da psicologia platônica uma das bases de sua teoria ético-política-moral. Em República IV, o debate a respeito da possibilidade da justiça na alma humana culmina com a postulação de três distintos princípios internos à psykhé. Aprendemos, irritamo-nos e temos apetites com diferentes gêneros da/na alma. Compete ao princípio apetitivo (tò epithymetikón) a satisfação de suas disposições; ao racional (tò logistikón), deliberar e governar a alma como um todo, agindo sobre os demais gêneros da alma; ao irascível (tò thymoeidés), elemento intermediário entre aqueles dois, compete combater como súdito e aliado do racional, executando os comandos deste e contendo os apetites nocivos ao todo. Para que tais potencialidades possam atuar plenamente é necessária a educação da alma, pois tais gêneros voltam-se um para o outro e encontram-se em constante interação, o que já coloca em questão a interpretação por um dualismo que opõe razão e apetite; mas o texto vai além disso:




A alma humana possui inúmeros apetites específicos, cuja formação varia segundo a educação recebida (República IV-IX), sendo exemplos deles: apetite de saber, apetite de honras, apetite de aquisições, apetites necessários, apetites não-necessários à sobrevivência, apetites à margem da lei (perversos), apetite de vingança, apetite de matar, apetite de dinheiro, apetite de poder etc. Isso porque há um "fluxo apetitivo" a ser direcionado (educado) e porque há uma diferença entre "apetite em si" e "apetite de algo".

























Em República VI 485d-e, o fluxo apetitivo é comparado à imagem de uma torrente (um rio) que pode ser desviada em diferentes direções, o que indica que os apetites específicos (apetites de algo) resultam de um direcionamento da energia apetitiva (apetite em si) para determinados objetos de desejo, conformes à educação. Essa inter-relação do gênero apetitivo com os outros gêneros da alma já havia sido indicada no livro IV pela diferenciação entre apetite "em si" e apetite "de algo bom". O "apetite em si" restringe-se à disposição à saciedade, por exemplo, o apetite de beber. O "apetite de algo" é o apetite por certa quantidade e qualidade de algo específico, por exemplo, o apetite de beber um tanto de determinada bebida boa.


O ímpeto do apetite em si (gênero apetitivo) não necessariamente coincide com o discernimento da razão (gênero racional), podendo o gênero apetitivo, bem como o gênero irascível (também irracional), opor-se ao gênero racional da alma.




Os três gêneros da alma encontram-se em constante tensão e mútua influência. Mas os diversos direcionamentos do fluxo apetitivo, ou seja, os apetites de algo específico serão construídos exatamente a partir da ação (externa e interna) do gênero racional sobre o apetitivo e o irascível, isto é, por aquilo que a razão, os costumes, a educação estabelecerem como benéficos, desejáveis ou possíveis. Assim, ainda que alguns apetites de algo possam opor-se às prescrições da reta razão, são os apetites a ela interligados – o apetite de conhecimento, o apetite pelo bem, o apetite pela verdade – que a fazem lançar-se à busca de tais objetos. Isso mostra-nos algo significativo (e que abala a interpretação de que Platão teria oposto razão e apetite, ou razão e desejo):


A capacidade de raciocinar é mobilizada pelo apetite de algo; conhecer, escolher, julgar, discernir, raciocinar, trata-se todos de estados psíquicos dotados de impulso apetitivo.18 Em outros termos, o éros é mobilizador e condutor da razão. Daí o texto platônico (Cf. República, Leis) sustentar que, quando a alma é mal educada, a razão encontra-se escravizada pelo éros tirânico,o raciocínio encontra-se ofuscado e dominado pela tirania de determinados apetites e afecções, enquanto que, na alma que recebe a reta educação de seus três gêneros internos, o raciocínio é autônomo, a razão é guiada pelo éros filosófico.



A inter-relação dialética entre os três gêneros da/na alma é também indicada na definição das quatro virtudes na alma humana, em República IV, o que é deduzido exatamente após o debate sobre a estrutura triádica da alma. A posse da unidade na inter-relação entre os três gêneros da alma caracterizará a conquista da virtude da justiça. Não só a justiça, mas todas as virtudes na alma são apresentadas não como atributos de uma determinada "parte" da alma, mas como um modo de relação entre as três fontes internas de motivação para agir: sintonia entre as três, na temperança; ciência do racional sobre o irascível e o apetitivo, na sabedoria; ação do irascível sobre o apetitivo pelo discernimento do racional, na coragem. Diante de todas essas passagens, devemos reconhecer que a psicologia platônica concebe a alma humana triádica como uma potência de relação. A interação, particularmente entre o racional e o apetitivo, ocorre de vários modos. Dois deles estão expostos em República IV:



1)-Por meio da ação do gênero irascível como intermediário na contenção de alguns apetites e pelo direcionamento do apetitivo à formação de apetites de algo bom segundo a reta educação (como o apetite de conhecer, o apetite pelo bem, pela verdade).


2)-Outro modo é mencionado na narrativa do Timeu: através da ação de substâncias corpóreas que executam comandos do racional sobre o apetitivo (como a ação da bile, recompensando ou penalizando o apetitivo, ao gerar sintomas como náuseas, ou afeições como medo, alegria, tristeza, raiva, decepção, compaixão...).





A VIRTUDES DA ORAÇÃO NA TEOLOGIA:



A palavra 'virtude' significa uma disposição habitual para a prática do bem (hábitos contrários às virtudes tornam-se vícios. A sociedade moderna, desvaloriza as virtudes e exaltam os vícios elevando-os a categoria de virtudes). Mais do que isto, virtude é atitude de retidão, uma força moral, um valor, uma coragem, um modo austero de vida. É aquilo que podemos identificar nos santos. Eles são sempre foram pessoas orantes. E temos necessidade de oração, muito mais na cultura moderna, que percorre um caminho de profunda secularização. A oração é uma das grandes virtudes cristãs. A falta de espiritualidade, de oração, ocasiona fatos curiosos na sociedade atual. O vazio interior tem feito surgir movimentos pseudo-espirituais. Isto porque temos necessidade de contato ou relacionamento com Deus. Aliás, todos temos que ser pessoas de Deus. Assim sendo, na nossa Pastoral, Povimentos e Novas Comunidades com muito mais propriedade, podemos levar outros a Deus. A oração é um trabalho exigente e duro. Ela não pode ser abandonada. A sua eficácia depende da perseverança, ou seja, rezando todo dia. É um trato com Deus, que leva em conta a fé. E corremos sempre o perigo de deixá-la tornar-se fria, sem vigor e morta. É indispensável que haja esforço com a postura firme e combatente do orante. Olhando os nossos pais na fé, Abraão, Jacó e Moisés, eles eram grandes orantes. Moisés, por exemplo, fala com Deus cheio de muita confiança, sendo manso, humilde e comprometido com a vida do povo. Jamais duvides que é só por meio da oração que podes alcançar a tua salvação e chegar à perfeição. Para vencer as tentações, praticar as virtudes e guardar perfeitamente os mandamentos da lei de Deus, precisas no momento decisivo de um especial auxílio da graça, o qual Deus te concede unicamente por meio da oração, e da oração perseverante. Especialmente no tempo da tentação deves recorrer a Deus, pedindo-Lhe seu auxílio, ao menos pela invocação dos santíssimos nomes de Jesus e Maria. Antes de rezar prepara teu corarão. Pondera que vais falar com Deus para obter sua misericórdia; que os anjos olham para ti com turíbulos de ouro nas mãos e estão prontos a oferecer a Deus tua oração como um agradável incenso (conf. Salmo 141,2). Esforça-te, por isso, para rezar não só com os lábios, mas também com o coração, pois, contrariamente, em vez de obteres graças, só provocarias a ira de Deus contra ti. Procura rezar com especial devoção aquelas orações que mais se repetem, como o Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Glória ao Pai. Dedica-te com grande zelo à prática das jaculatórias que não estão ligadas a lugar algum, nem a nenhum tempo. Faze tuas orações com humildes sentimentos e com uma firme, constante e inabalável confiança. Se te parecer que Deus não quer te atender, continua a rezar e a confiar apesar disso, porque é certo que Deus ouve a todos que Lhe suplicam com confiança e perseverança. Alimenta também um amor especial pela oração mental e consagra-lhe cotidianamente tanto tempo quanto te for possível. Liga toda a importância aos atos da vontade: faze atos de humildade, de confiança, de abnegação própria, de arrependimento e principalmente de amor. Não permitas que teus pensamentos vaguem a seu bel-prazer, mas, se involuntariamente sofreres distrações, não te inquietes por isso, não deixes a oração. Igualmente não deves abandonar a oração por causa da aridez espiritual, ainda que ela dure toda a tua vida. Humilha-te cheio de desejo de submeter-se à santíssima vontade de Deus.



O QUE DIZ SÃO TOMÁS SOBRE AS VIRTUDES E A VIRTUDE APETITIVA DA ORAÇÃO?



“A virtude designa certa perfeição da potência. Mas a perfeição de uma coisa é considerada, principalmente, em ordem do seu fim. Ora, o fim da potência é o ato. Portanto, a potência será perfeita na medida em que é determinada por seu ato. As potências racionais próprias do homem não são determinadas a uma coisa só, antes se prestam, indeterminadamente, a muitas coisas. Ora, é pelos hábitos que elas se determinam aos atos. Por isso as virtudes humanas são hábitos.” (Suma Teológica, Iª seção, IIª parte, q. 55 a.1).



“para agir bem, é necessário que não só a razão esteja bem disposta pelo hábito da virtude intelectual, mas que a potência apetitiva também o esteja pelo hábito da virtude moral. Tal como o apetite se distingue da razão, assim também a virtude moral se distingue da intelectual. E como o apetite é princípio dos atos humanos enquanto participa, de algum modo, da razão, assim o hábito moral tem a razão de virtude humana, na medida em que se conforma com a razão.” (Aquino, Tomás de. Suma Teológica. Iª IIªe, V.IV, Q. 58, a. 2. São Paulo: Loyola, 2004)



“assim como nos dispomos a proceder retamente em relação aos princípios universais, pelo intelecto naturalmente, ou pela ciência habitual, assim também, para nos dispormos bem em relação aos princípios particulares de nossas ações, que são os fins, é preciso que sejamos aperfeiçoados por certos hábitos que, de alguma forma nos tornam conatural o correto julgamento do fim. E isso se faz pela virtude moral, porque o virtuoso julga retamente sobre o fim da virtude. Logo, a razão reta do agir, ou seja, a Prudência, exige que o homem tenha a virtude moral”. (Aquino, Tomás de. Suma Teológica. Iª IIªe, v.IV, Q. 58, a. 5. São Paulo: Loyola, 2004)



As virtudes morais, juntamente com a virtude intelectual da Prudência porque esta é de certa forma uma virtude moral também, sendo as que exigem a retidão do apetite, pois produzem a potência de agir bem e são a causa do exercício da boa ação, Tomás as define na questão 61, artigo1 como virtudes principais ou cardeais:“... pois são quatro os sujeitos da virtude que estamos falando aqui, a saber: o racional por essência, que a Prudência aperfeiçoa, e o racional por participação, que se divide em três, ou seja, a vontade, sujeito da justiça; o apetite concupiscível, sujeito da temperança e o irascível, sujeito da fortaleza.” (Aquino, Tomás de. Suma Teológica. Iª IIªe, v.IV, Q. 61, a. 2. São Paulo: Loyola, 2004)


“É necessário, pois, que lhes sejam acrescentados por Deus certos princípios pelos quais ele se ordene a bem-aventurança sobrenatural, tal como está ordenado ao fim que lhe é conatural por princípios naturais que, porém, não excluem o auxílio divino. Ora, esses princípios se chamam virtudes teologais, primeiro por terem Deus como objeto, no sentido que nos orientam retamente para ele; depois por serem infundidos só por Deus; e, finalmente, porque essas virtudes são transmitidas unicamente pela revelação divina, na sagrada escritura”. (Aquino, Tomás de. Suma Teológica. Iª IIªe, v.IV, Q. 62, a. 1. São Paulo: Loyola, 2004)






Art. 1 – Se a oração é um ato de virtude apetitiva ?



Segundo São Tomás as virtudes intelectuais aperfeiçoam o intelecto especulativo e prático, enquanto que as virtudes morais aperfeiçoam a potência apetitiva. O primeiro discute–se assim: “Parece que a oração é um ato de virtude apetitiva”.



1)-Pois, a oração é para ser ouvida. Ora, é o desejo que é ouvido de Deus, segundo a Escritura: O Senhor ouviu o desejo dos pobres. Logo, a oração é um desejo. Ora, o desejo é um ato da virtude apetitiva. Portanto, também a oração.


2)-Demais - Dionísio diz: Antes de tudo é útil começar pela oração como a que nos dá e une a Deus. Ora, é a união, pertencente à potência apetitiva, que produz o amor. Logo, a oração pertence à potência apetitiva.


3)-Demais – O Filósofo diz que são duas as operações da parte intelectiva. A primeira é a inteligência dos indivisíveis, pela qual apreendemos a qualidade das cousas. A segunda, a composição e a divisão, pelas quais apreendemos o que é. A essas partes se acrescenta uma terceira, o raciocínio, que procede do conhecido para o desconhecido. Ora, a oração não se reduz a nenhuma dessas operações. Logo, não é ato da virtude intelectiva, mas, da apetitiva. Mas, em contrário, diz Isidoro, que orar é o mesmo que dizer. Ora, dizer é ato próprio do intelecto. Logo, orar não é ato da potência apetitiva, mas, da intelectiva.



SOLUÇÃO: Segundo Cassiodoro, oração significa como que razão vocal. Ora, a razão especulativa e a prática diferem em que aquela só apreende as coisas: e esta, não só as apreende, mas também as causa. Mas, de dois modos pode uma cousa ser causa de outra. De modo perfeito, quando impõe necessidade, o que se dá quando o efeito totalmente depende da ação da causa. De modo imperfeito, por simples disposição: isto é, quando o efeito não depende totalmente da ação da causa. Assim, pois, também a razão pode ser de dois modos; causa. De um, impondo necessidade; e deste modo compete–lhe não só imperar sobre as potências inferiores e os membros do corpo, mas também sobre os homens que lhe estão sujeitos, ordenando–lhes. De outro modo, influindo e de certa maneira dispondo; assim, quando pede lhe façam alguma cousa os que não lhe estão sujeitos, por serem iguais ou superiores. Ora, ambos esses modos de proceder, isto é, imperar e pedir ou deprecar implicam uma certa ordenação, por dispormos que uma cousa seja feita por meio de outra. O que portanto pertence à razão, a que é próprio ordenar; e por isso diz o Filósofo, que a razão nós exorta ao melhor. Ora, é neste sentido que agora tratamos da oração, enquanto implica uma certa deprecação ou petição, conforme às palavras de Agostinho dizendo, que a oração é um certo pedido; e às de Damasceno, ensinando que a oração consiste em pedirmos a Deus o que convém. Por onde é claro, que a oração, no caso vertente, é um ato de razão.


DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO: Diz–se que Deus ouve o desejo dos pobres, quer por ser o desejo a causa do pedido, sendo este de certo modo o intérprete daquele; quer para mostrar a rapidez da audição, pois, Deus já ouve o que ainda constitui um simples desejo dos pobres, antes de eles o formularem em oração, conforme àquilo da Escritura: E acontecerá que antes que eles bradem eu os escutarei.


RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO: Como já dissemos, a vontade move a razão para os seus fins. Por onde, nada impede que, movido pela vontade, o ato da razão tenda para o fim da caridade, que é a união com Deus. Ora, a oração tende para Deus, quase movida pela vontade da caridade, de dois modos. De um modo, quanto ao que é pedido, pois, o que principalmente devemos pedir na oração é a nossa união com Deus, segundo a Escritura: Uma só cousa pedi ao Senhor; esta tornarei a pedir: que habite eu na casa do Senhor todos os dias da minha vida. De outro, quanto ao que pede, que deve aproximar–se daquele a quem pede, ou localmente, tratando–se de um homem, ou espiritualmente, de Deus. Por onde, diz no mesmo lugar Dionísio, que quando invocamos a Deus nas nossas orações, achamo–nos presentes a Ele, com o espírito descoberto. E, neste sentido também Damasceno diz que a oração é a ascensão do espirito para Deus.



RESPOSTA À TERCEIRA OBJEÇÃO: Os três atos referidos pertencem à razão especulativa. Mas, ulteriormente, à razão prática pertence causar pelo império ou pela petição, como se disse.

(São Tomás de Aquino - Questão 83: Da oração. Art. 2 – Se é conveniente orar)








I. A Natureza da Oração



(Por Pe. Oscar das Chagas C.SS.R.)



O reconhecimento, como dissemos, coaduna as nossas faculdades e arranca a nossa alma à fascinação das criaturas, não para lançá-las à inação, mas para dirigi-las a Deus. A alma vai a Deus pelo recolhimento, para se unir a ele e entreter-se com Ele pela oração; é desse divino entretenimento da oração que devemos agora ocupar-nos. Mas se é sempre necessário determinar bem o assunto, particular precisão temos quanto ao nosso tema porque nos encontramos diante de diferentes termos: — religião, piedade, devoção, prece, oração, homem de oração, espírito de oração, etc. — os quais, embora suscetíveis dum sentido especial e preciso, são, todavia na linguagem usual, muitas vezes empregado um pelo outro, e é por isso que importa defini-los bem, parai evitar quanto possível uma confusão desagradável.



A natureza impõe-nos deveres para com os autores dos nossos dias e para com a pátria, que é para nós como uma segunda mãe: devemos cercá-los de provas sinceras da nossa submissão, respeito e afetuoso devotamento: o conjunto desses deveres, dessas provas de respeito e filial afeição, constituem o culto dos pais e da pátria.Com mais razão temos de prestar honra e glória a Deus, primeiro princípio de todo o ser e todo o bem, senhor soberano e absoluto de todas as coisas. A Ele todas as nossas homenagens de respeito e de obediência, de reconhecimento e amor: e o conjunto dessas homenagens que devemos a Deus, Criador e soberano Senhor de todas as coisas, constitui o culto divino.



Ora, enquanto a piedade é a virtude moral que nos faz prestar aos pais e à pátria o culto que lhe é devido, é pela virtude da religião que nos desobrigamos para com Deus, como convém do culto exigido por sua majestade suprema.



Pronunciar com respeito profundo o nome de Deus, cantar com amor os louvores divinos, assistir devotamente ao santo Sacrifício, adorar a Deus com toda a humildade no céu, na cruz ou no tabernáculo, cercar de veneração os santos altares e deles não se aproximar senão com recolhimento e gravidade, guardar, numa palavra, em todas as funções do culto, a atenção, a reserva, a modéstia e a dignidade que elas exigem, é praticar a virtude da religião; ao contrário, é lesar essa virtude o tratar com mais ou menos negligência ou leviandade as coisas santas, abandonando-se, p. ex., à indolência ou à dissipação durante a oração, o ofício divino ou o santo Sacrifício.



Diz o doutor angélico que, do mesmo modo como a virtude da religião é uma manifestação das virtudes de fé, esperança e caridade que ela supõe necessariamente na alma, a piedade é uma manifestação do amor que temos ao próximo; essas duas virtudes são filhas do amor e tiram da caridade a sua força e a sua perfeição. A religião, todavia, não é uma virtude teologal, mas só uma virtude moral, porque, embora nos prenda a Deus, como o indica o seu próprio nome, não tem diretamente a Deus por objeto como a caridade, mas os atos do culto divino que ela faz cumprir com a fidelidade e disposições requeridas. Ela conserva o primeiro lugar entre as virtudes morais, porque mais do que as outras se aproxima de Deus, que dá às virtudes a sua dignidade e excelência.



Avancemos e demos um novo passo em nosso estudo



Em sua infinita bondade, Deus não se contenta de ser para nós Criador e soberano Senhor, cuja majestade suprema exige o culto e as homenagens da nossa religião. Pelo prodígio duma adoção tão real quão misteriosa, quis estabelecer entre ele e nós verdadeiras relações filiais: comunica-nos a sua vida divina e, com toda a verdade, como diz o apóstolo, ele é nosso Pai e nós seus filhos: Ut filii Dei nominemur et simus.Ora, essa adoção realiza-se pela comunicação que nos é feita pelo Espírito Santo. Sob o impulso do Espírito de amor, diz Santo Tomás, a nossa alma pode se elevar à altura sublime de ver em Deus um Pai, de dar-lhe esse doce nome, concebendo para com ele um afeto verdadeiramente filial: Accepistis Spiritum adoptionis filiorum, in quo clamamus: Abba (Pater). Ora, para tornar as nossas almas dóceis a seus divinos impulsos, o Espírito Santo comunica-lhes primeiro os seus dons, disposições admiráveis, que sem atingirem a excelência das virtudes teologais às quais são ordenados os dons, sobrepujam todas as virtudes morais, elevando-nos a uma perfeição mais sublime.








E é precisamente pelo dom da piedade que a nossa alma, movida pelo Espírito divino, presta a Deus as homenagens do culto não já somente como ao Criador de infinita majestade, mas como a um Pai infinitamente bom e ternamente amado.



E assim como a virtude da piedade nos faz honrar não só nosso pai segundo a carne, mas também os que lhe são próximos, isto é, todo os que nos são unidos pelos laços do sangue, assim o dom da piedade cerca de provas de afeto e respeito não só a Deus nosso Pai, mas também os homens, enquanto se referem a Deus, isto é, enquanto pertencem à grande e bela família que Deus se dignou formar conosco. Diríamos com prazer que o dom da piedade é como o espírito de família pelo qual os filhos de Deus honram e amam a seu Pai, e se amam e honram entre si; é a obra do Espírito do amor a estabelecer entre os filhos de Deus o reino perfeito da caridade. Daí a bela progressão estabelecida pelo doutor angélico e que resume muito bem quanto dissemos até aqui: O culto do Criador é superior ao culto do próximo; mas, prestando a Deus as nossas homenagens, é mais perfeito quando se vê nela um Pai soberanamente amável do que o Senhor e Mestre. Se, pois, a virtude da piedade deve ceder a dianteira à virtude da religião, esta por seu turno é inferior ao dom da piedade que a excede em dignidade e excelência.



Se das virtudes passarmos aos atos, chegaremos à devoção, à prece e à oração



Primeiro à devoção. Para Santo Tomás a devoção não é outra coisa que o ato pelo qual a nossa vontade se inclina com prontidão a tudo quanto se refere ao culto divino; é o fato de alguém se dar (donatio) ou de se devotar (devotio) ao serviço de Deus. Ora, diz o santo doutor, querer uma coisa e querê-la prontamente é uma só virtude: a mesma virtude que dá o querer dá também o querer prontamente; pertence, pois, à virtude da religião inclinar-se aos atos do culto divino e inclinar-se-lhes com prontidão; a devoção é, pois, um ato da virtude de religião. A devoção não consiste na assistência ao santo Sacrifício, ou na recitação do ofício divino, ou no cumprimento de qualquer outro ato religioso; consiste no fato de se dar alguém a esses atos do culto com santo ardor e com santo zelo. É fácil observar que, se o ato de devoção tem por principio imediato a virtude de religião, o amor de Deus, a divina caridade é a sua fonte primária, a primeira inspiradora, como o é do resto da religião. O amor, com efeito, dá o seu ardor ao devotamento aos amigos; e desse devotamento à amizade tira um novo vigor. Assim, diz o doutor angélico, a caridade produz a devoção, de que se nutre depois como dum alimento que a fortifica. De outro lado, todo ato virtuoso supõe na alma que o produz uma disposição correspondente que se confirma pela repetição do ato. Praticamente, pois, e considerada como disposição habitual, a devoção não é senão o ardor ou a viveza da caridade; é o fervor que expulsa toda indolência, toda preguiça, toda negligência no serviço de Deus. Daí tudo quanto é de natureza a abrasar as nossas almas do amor divino, como a contemplação das perfeições divinas, é uma fonte em que se alimenta a devoção.E por esse fervor não só a alma se inclina com prontidão ao serviço de Deus, mas o faz ordinariamente com santa alegria, embora tenha de fazer para isso grande sacrifício; é a palavra de Santo Agostinho: Ubi amatur non laboratur aut si laboratur amatur labor.


Toda a substância e medula da devoção estão nessa prontidão, viveza, agilidade, santo ardor, generosidade e devotamento da vontade. Com essa disposição da alma tem-se a essência da devoção; sem ela só há aparências; eis por que é chamada devoção substancial.



Ela é, geralmente, temperada de certa doçura e suavidade; a alma inclina-se com amor e gosto às coisas de Deus, acha-se bem com ele; ela permanece em paz, o coração em alegria, e o dever é fácil. Essa suavidade não é a devoção; pois que sem ela a vontade pode estar ao serviço de Deus; mas, acrescida à devoção como o acidente à substância, ela se chama devoção acidental. Se ela fica na alma sem passar aos sentidos, tem-se a devoção acidental espiritual; se se difunde da alma aos sentidos como o vaso que transborda, tem-se a devoção acidental sensível. Então o coração se dilata na alegria e bate com mais animação; os olhos brilham e umedecem-se de lágrimas, o rosto torna-se radiante, a voz comovida, os sentidos suavemente impressionados. E isso chega às vezes a uma sorte de transporte e embriaguez espiritual. Às vezes, ao contrário, embora a vontade faça o seu dever generosamente, os sentidos não se comovem, a alma não é invadida dessa suavidade; ela sente-se como que abandonada; a cabeça fica vazia e sem ideias; o coração frio não encontra senão afetos sem sabor e a vontade permanece sem impulso. E’ a aridez, a secura, o abandono, a desolação.


A alma penetrada de religião e piedade inclina-se com mais devoção à prece e à oração: a prece e a oração constituem as suas delícias e é para ela o tesouro infinito, em que encontra com Deus todos os, bens.



Quando queremos obter de um inferior alguma coisa a que temos direito, podemos mandar; para movermos os nossos iguais e superiores a satisfazer algum dos nossos desejos, devemos recorrer à prece. A prece, tal qual a consideramos aqui, distinguindo-a da oração, é uma súplica que dirigimos a Deus diretamente ou por intermédio dos santos, pois que sendo Deus só o autor e a fonte de todas as graças, os santos não podem e não devem ser senão os intercessores junto dele.



A prece é uma petição, diz Santo Agostinho: Oratio petitio quaedam est. Pela prece, diz São João Damasceno pedimos a Deus as coisas que convêm à sua glória e à nossa salvação. Oratio est petitio decentium a Deo. O mesmo santo padre diz ainda que a prece é uma elevação da nossa alma a Deus: Oratio est ascensus mentis in Deum. E São Dionísio, de seu lado, tinha dito que a prece nos dá e nos une a Deus.



Explicando as palavras desses dois santos doutores, Santo Tomás mostra que, sob o impulso da caridade, a prece tende para Deus de dois modos:



1.º Por seu objeto, porque, diz ele, o que devemos pedir, sobretudo a Deus é a união com Ele segundo o salmista: Unam petii a Domino, hanc requiram, ut inhabitem in domo Domini omnibus diebus vitae meae.



2.º Pela necessidade que temos de aproximar-nos daquele a quem desejamos apresentar o pedido: fisicamente, se só se trata de um dos nossos semelhantes; pelo espírito e pelo pensamento, se queremos orar a Deus.


Resumindo esses elementos, Santo Afonso dá uma definição completa e perfeita da prece, dizendo: “A prece é a elevação da alma a Deus para obter qualquer graça”.



E acrescenta: Chama-se petição quando tem por objeto coisas determinada; súplica, quando se limita a pedir o auxílio divino em geral; obsecração, no caso em que piamente se insiste para obter a graça solicitada como quando pedimos: “Por vossa cruz e por vossa paixão, livrai-me, Senhor”. A ação de graças é, enfim, o agradecimento que dirigimos a Deus pelos benefícios recebidos, e pelo qual, diz Santo Tomás, merecemos receber outros maiores. A prece é, pois, um recurso a Deus e, tomada em geral, compreende todas as partes que acabamos de distinguir. É evidente que a prece é um ato da virtude da religião. Pela prece honramos a Deus, submetendo-nos a ele plenamente e proclamando que só ele é o autor de todo o bem, enquanto que nós não somos senão insuficiência e miséria.



Da mesma forma é claro que, para orar verdadeiramente, não basta recitar magnificamente e sem atenção uma fórmula mais ou menos piedosa. A prece, para ser verdadeira, deve ser a expressão dum desejo sincero; e quanto mais ardente for esse desejo, tanto mais viva sairá do coração a prece para subir a Deus.



Para orar é absolutamente necessário ter a intenção formal de dirigir-se a Deus e de pedir o seu auxílio. E embora baste essa primeira intenção para dar à prece a sua virtude meritória e impetratória, para trazer à nossa alma o alimento e a consolação que encerra, a prece deve ser animada por atenção mantida, segundo a palavra do apóstolo:



“Minha alma não tira fruto algum da prece, na qual só toma parte a minha língua” (1 Cor 14, 14)



Ora, na oração vocal, no Ofício divino, por exemplo, essa atenção existe, seja que a alma se aplique a pronunciar exatamente as palavras, seja que lhes acompanhe o sentido, seja que — e é a atenção mais perfeita — a alma se deixe absorver pelo pensamento de Deus e do fervor que ela solicita da sua bondade. Seria, evidentemente, ofender a Deus e faltar ao respeito para com a sua majestade abandonar-se voluntariamente, durante a prece, a preocupações estranhas. É verdadeira a prece, enfim, mesmo que, calando-se a nossa boca, o nosso coração apresente o pedido ao Senhor. Salvo no Ofício e nas preces comuns em que se prescreve a pronunciação, a voz, o canto e tudo quanto se mistura à prece são estimulantes que se pode empregar ou omitir conforme incomodam ou fomentam o fervor dos nossos pedidos.Não é agora o momento de falar da necessidade da prece, do seu poder sobre o coração de Deus, dos favores que devemos solicitar ou dos mediadores que podemos empregar junto de Deus; falaremos disso depois. Digamos brevemente o que é o espírito de prece e chegaremos suavemente à meditação que deve coroar o que acabamos de expor. O espirito de prece é como um instinto divino, que faz sair a cada instante do nosso coração o grito da prece. Espírito de fé possui um religioso não só porque crê firmemente tudo o que crê e ensina a sta. Igreja, ou porque faz de tempo em tempo algum ato de fé viva e sincera, mas quando em tudo pensa e age segundo a fé, quando a fé é realmente o archote que dirige a sua vida e aclara todos os seus passos. Assim também não se dirá dum sacerdote ou dum religioso que ele tem o espírito de prece unicamente porque recita o Ofício divino ou celebra a santa missa com piedade, ou porque é exato às preces comuns do seu instituto. Quem possui esse tesouro não cessa, por assim dizer, de orar: nos sofrimentos, nas alegrias, nas tentações, nas dificuldades, antes de qualquer passo, antes de qualquer empreendimento, no sucesso como na provação, numa palavra, em todas as circunstâncias é para ele um dever recorrer à prece: a prece é como a respiração da sua alma. Eis o que Santo Afonso quisera criar em todas as almas; eis o que ele quer que se peça a cada instante. Sabendo quão expostos estamos a negligenciar a prece, mormente nos momentos em que ela nos é mais indispensável, isto é, na hora da tentação, em seu zelo pela salvação das almas dá-nos o seguinte conselho de gênio:


“Pedi, pois, para orar: pedi primeiro a graça de orar nos momentos difíceis”









É isso que ele mesmo fazia. Quem ora se salva, diz ele alhures; o espírito de prece é, pois, garantia de salvação. O espírito de prece supõe: o espírito de fé, — o desejo ardente dos bens sobrenaturais, — o sentimento profundo da nossa miséria e da nossa incapacidade — e a confiança filial em Deus. A isso voltaremos mais tarde.Mas é na meditação que se nutre o espírito de prece e assim tocamos o alvo a que queremos chegar. Temos a falar primeiro do exercício da oração e depois da vida de oração ou do espírito de oração. O plano que nos traçamos não nos permite longos desenvolvimentos sobre esse grande assunto tão abundantemente tratado por todos os mestres da vida espiritual. Aborda-lo-emos apenas na certeza de que as almas de boa vontade acharão facilmente o meio de suprir a nossa insuficiência.



Com São João Clímaco e são João Crisóstomo, Santo Afonso define a meditação:



Um entretenimento familiar e uma união íntima com Deus. Eis as suas palavras: Oratio est familiaris conversatio et conjunctio cum Deo. Eis o que se faz na oração segundo são João Crisóstomo: a alma fala a Deus e Deus fala à alma.



Essa definição parece abranger todos os degraus da oração, desde a mais ordinária até a mais sublime. Ajoelhada ante o tabernáculo, uma pobre mãe de família faz ao Mestre a exposição das suas angústias e lhe diz a sua confiança e o seu amor: ela faz oração. O pecador, que contempla com fé o crucifixo, deixa-se comover, bate no peito implorando perdão: faz igualmente oração, e faz a oração que convém a seu estado. O santo que, à vista de Jesus crucificado, se arrebata e se eleva da terra e que no êxtase exclama: Ó amor, ó amor! Faz oração: está intimamente unido a Deus e entretém-se com ele.



Entretenimento familiar e união íntima com Deus:



Note-se bem, não é sempre a abundância de palavras e a animação exterior que torna mais intensa a união de duas almas, e mais vivo o seu entretenimento. O olhar cheio de ternura duma mãe sobre o seu filho é mais eloquente do que todos os discursos; e um sorriso deste último bastará para dizer a sua mãe quanto à ama e quão grande é a alegria de se achar ao pé dela. Entretinha-se, certamente, com Deus familiarmente e lhe estava intimamente unido, fazia oração admirável aquele humilde campônio que, fixos os olhos no tabernáculo, respondeu ao santo cura d’Ars: Olho para ele, e ele olha para mim. Em um entretenimento, aliás, os dois interlocutores não falam sempre igualmente. Nos entretenimentos do mestre com seu discípulo, por exemplo, ora é o mestre, sobretudo que fala: o discípulo contenta-se de escutar, mostrando a seu mestre, por sua atitude, por seu olhar, por sua atenção firme, que o compreende e gosta das suas palavras. Ora é o discípulo que expõe ao mestre as suas dificuldades, às quais este responde brevemente e com benevolência. Assim é na oração o entretenimento com Deus.




Há, pois, na oração a ação de Deus e a ação do homem. O homem procura Deus, vai unir-se e entreter- se com ele; e na sua infinita bondade, Deus entra com prazer em relações com sua cara criatura, feliz não só de cumulá-la de graças, de inundá-la de suas luzes e consolações, mas ainda de dar-se a ela e de comunicar-lhe a sua própria vida. Ora, esse encontro, essa união do homem com Deus pode ser mais ou menos laboriosa para o homem. Sobre a terra é, muitas vezes, por esforços múltiplos auxiliados pela graça, que o homem se eleva a Deus e fica unido a ele. Só vê Deus em suas obras e através das criaturas; muitas vezes, porém, em lugar de o auxiliarem a chegar a Deus, as criaturas detêm-lhe o voo, distraem-no e afastam-no de Deus.



No céu Deus mostra-se a descoberto, em sua divina essência, e dá-se sem reserva; então o homem une-se a Deus sem esforço. Deus dele se apodera de certo modo, inunda a sua inteligência de luz, inebria o seu coração de amor e o penetra de todos os lados.  É a união perfeita para sempre indissolúvel, é a eterna beatitude. Ora, entre esses dois extremos há vários degraus; Deus tem mil maneiras de se nos comunicar, de encher o nosso espírito da sua luz e o nosso coração de amor. Quando, pois, o homem, auxiliado pela graça, se une a Deus por seus próprios atos, por seus esforços, é a oração ordinária ou comum. Quando, ao contrário, é Deus que atrai a si a alma e a une a si pela ação da graça, manifestando-se mais ou menos claramente, mas de maneira extraordinária, à sua criatura, e penetrando de amor o seu coração, é a oração extraordinária ou mística.



Grande é a diferença entre a meditação e a contemplação, diz Santo Afonso; na meditação a alma procura a Deus pelo trabalho do raciocínio; na contemplação o possui e o contempla sem esforço. Na meditação a alma age, além disso, por suas faculdades; na contemplação é Deus que age nela. A alma é passiva recebe sem esforço da sua parte os dons que a graça divina difunde sobre ela; sob o impulso da luz e do amor de que está repleta, limita-se a contemplar, com doçura inefável, a bondade infinita que a cumula de seus dons.



A oração ordinária chama-se também oração ativa; a oração extraordinária, oração passiva; o que não significa que na oração mística ou passiva a alma seja inerte e como que aniquilada; ao contrário, vive vida mais intensa: vê melhor, ama com mais ardor, permanece livre e, segundo certos autores, poderia merecer ou ser infiel mesmo rio êxtase. Não entraremos no estudo das orações místicas. Só de Deus depende elevar-nos a elas, e ele só segue as leis de seu beneplácito. Santo Afonso recomenda como mais sábio e mais seguro às almas que não foram elevadas à união mística, não desejar senão a união ativa.Seja como for, sejamos sempre bem humildes diante de Deus, plenamente submissos à sua santa vontade e só tenhamos um desejo: amá-lo sempre mais até ao desprezo e sacrifício de nós mesmos. Se aprouver a Deus atrair a si a nossa alma e unir-se-lhe mais intimamente, sejamos em suas mãos como a cera mole que se deixa trabalhar. Devemos também, e então ainda mais, desconfiar de nós mesmos, e ser fiéis mais do que nunca a deixar-nos orientar pelos que Deus encarregou de dirigir-nos.



Vamos, pois, à oração ordinária



A alma eleva-se a Deus pelo pensamento e prende-se a ele pelo amor, ou une-se a Deus pelo espírito e pelo coração: a oração compreenderá, pois, a operação do espírito e a operação do coração ou da vontade. Pela primeira, a alma aplica sua inteligência a uma verdade, a um mistério, para dela se convencer e penetrar; é o que se chama consideração ou meditação. Pela operação do coração ou da vontade ama-se, deseja-se, pede-se o bem proposto pelo espírito, decide-se a empregar os meios para consegui-lo: são os afetos, as preces, as resoluções: é a oração propriamente dita. Digamos logo, as considerações não é um estudo especulativo. A alma procura, sim, convencer-se, penetrar-se duma verdade para melhor a compreender. Mas não é só para aprender e saber, mas, sobretudo para abrasar o coração, para mover a vontade, para a alma se decidir a entrar resolutamente no caminho das virtudes e para nele andar com passo firme e seguro. Com outras palavras, a alma considera atentamente a verdade para a crer e crer praticamente, a virtude para amá-la e segui-la, o dever para cumpri-lo, o mal para detestá-lo, o perigo para evitá-lo: a consideração deve conduzir ao amor e à ação.



Não há oração sem a consideração do espírito, ou sem o movimento do coração ou da vontade. O amor não existe sem o conhecimento: para se amar a Deus, é preciso saber que ele é amável e pensar nisso. De outro lado, sem o movimento da vontade, sem os afetos do coração a consideração seria apenas um estudo especulativo mais ou menos vão; não seria oração.



As considerações e os afetos da oração, todavia, não se encontram sempre nas mesmas proporções; umas e outras podem ter na oração lugar mais ou menos considerável; às vezes as considerações têm o lugar principal; às vezes dominam os afetos: daí várias espécies de  orações comuns. Em geral, no começo da vida espiritual as considerações terão e deverão ter largo espaço na oração. A alma precisa fortalecer e aclarar a fé; deve ter luzes mais abundantes e mais vivas sobre os mistérios, sobre as virtudes e sobre os deveres de estado; esforçar-se-á por penetrar-se de convicções fortes que possam sustentá-la e dirigi-la constantemente no caminho do bem.De outro lado, compreende-se que uma alma ainda pouco esclarecida sente menos necessidade de expandir-se em afetos; o conhecimento é de ordinário o princípio e a regra do amor: quanto mais uma alma vê as amabilidades de Deus, tanto mais se inclina a amá-lo.



Mais tarde, ao contrário, à medida que a alma for mais esclarecida pela prática da oração e da virtude, e se sentir penetrada de convicções mais fortes e de impulso, ela dará, não por preguiça nem por capricho, mas porque mais prontamente se ilumina sobre a verdade a ela proposta, menos tempo à meditação ou à consideração, para se entregar mais depressa e mais longamente aos afetos.



As considerações, enfim, diminuirão progressivamente para dar lugar a um simples pensamento, a um simples olhar atento aos mistérios, à verdade proposta.Ora, sob esse ponto de vista distingue-se: a oração de meditação, a oração afetiva e a oração de simplicidade ou a contemplação ativa.Oração de meditação é aquela em que dominam as considerações.Oração afetiva é aquela que, sem suprimir as considerações, as simplifica e abrevia para dar mais lugar aos afetos.



A oração de simplicidade, enfim, como diz o nome, reduz ainda o trabalho do espirito: contenta-se com um pensamento, um olhar, contempla logo o que medita. Simplificará do mesmo modo os seus afetos, exprimi-los-á com brevidade, prendendo-se de preferência a atos que correspondem às suas atrações, afeiçoando-se os atos de amor, de confiança, de abandono, de reconhecimento, sem jamais esquecer a humildade.



Tende até a simplificar-se quanto ao seu assunto, voltando-se de preferência ao mistério que a cativa, não podendo afastar o seu olhar, por exemplo, do Calvário ou do tabernáculo. É a segunda fase da oração afetiva, que sempre mais se simplifica até tornar-se um simples olhar amoroso. Essa oração tem de Bossuet o seu nome claro e expressivo. Quando chega à sua maior simplificação, outros a denominam oração de simples intuição, simples abandono em Deus, recolhimento ativo, repouso ativo, quietude ativa, contemplação ativa ou adquirida. Toda a sua essência, em nossa opinião, está nestas duas palavras: olha e ama. Parece ser esse também o pensamento de Santo Afonso.



E mais acima observa que, antes de conceder às almas o dom da contemplação passiva, Deus as introduz na oração de recolhimento ou no repouso contemplativo; tocada então, seja por uma verdade particular, seja pelo pensamento em Deus, a alma sente-se recolhida profundamente em si mesma e suavemente atraída para Deus. Esse recolhimento, diz ele, é natural: não que se possa alguém elevar por suas próprias forças, mas porque a alma, que o goza, está ainda em estado ativo e lá chega com o auxílio da graça ordinária; enquanto que o recolhimento sobrenatural, primeiro grau da contemplação mística, é o efeito duma graça extraordinária que põe a alma num estado passivo.



Terminemos, enfim, esta exposição já demasiado longa por algumas reflexões sobre a prática da oração ordinária ou sobre o método de oração.Sendo a oração, como dissemos um entretenimento familiar com Deus, parece que se não deveria falar de método de oração. Os entretenimentos de um filho com seu pai não são negócio de convenção e não se regulamentam por leis fixas. Não têm por lei senão o abandono, a confiança mútua, os voos do coração. Não se pode, pois, ao que parece traçar regras para o nosso entretenimento com Deus. Há sem dúvida momentos em que a alma fervorosa, sustentada pelas divinas consolações, acha a oração agradável, doce, fácil: ficaria nela horas inteiras, dizendo como São Pedro: É bom estarmos aqui. Bonum est nos bic esse. Mas há também dias difíceis em que a alma, apesar do seu fervor, se acha como que abandonada, em trevas: é a secura, a aridez, a incapacidade; é então como um pobre cego que estende a mão, pedindo que lhe guiem os passos. De resto, também a alma fervorosa necessita de direção para evitar ilusões, para não confundir as consolações sensíveis com o verdadeiro fervor, para lembrar que a oração genuína deve desabrochar na vida pela prática das virtudes.



Os mestres da vida espiritual são unânimes em traçar-nos regras cheias de sabedoria para dirigir-nos na prática da oração. Dizemos de todas: regras cheias de sabedoria, pois que, se diferem em certos pormenores, estão admiravelmente de acordo no fundo. Não queremos aqui estabelecer comparação entre os diferentes métodos de oração: praticamente para cada um o melhor é aquele que ele mais compreende que condiz mais com seu gosto e que ele emprega com fruto. Parece, entretanto, bem natural que nós sigamos o método de Santo Afonso, que é, com razão, chamado o doutor da oração.



Importante é conhecer bem os elementos necessários da verdadeira oração, e não descuidar nenhum habitualmente. Quanto à maneira de combiná-los entre si, não é isso o ponto capital. Quais são esses elementos? O fim procurado pela oração nô-lo indicará. Pela oração, dissemos, a alma une-se a Deus pelo espírito e pelo coração: devemos encontrar nela sempre a consideração do espírito e os afetos do coração. Ela, porém, não se une a Deus unicamente para gozá-lo presentemente e por alguns instantes; quisera aderir irrevogavelmente a ele; procura, pois, nele a luz, a força e todas as graças de que necessita para se dar sempre mais ao Senhor e para lhe ser fiel pelo cumprimento da sua vontade.



Ora, é pela prece que a alma se atrai a abundância das graças divinas, e é pelas resoluções que ela se prende praticamente ao serviço de Deus e à vontade divina. Daí se conclui que a oração completa, seja qual for o método empregado, encerra a consideração, os afetos, as preces, as resoluções.



Nada mais natural do que seguir essa ordem na oração. Para se tratar com um grande personagem é preciso primeiro apresentar-se a ele; e depois de regulado o assunto da entrevista, faz-se a despedida de acordo com as conveniências: assim a oração deve ser precedida da preparação e seguida duma conclusão.A oração mental, diz Santo Afonso, contém três partes: a preparação, a meditação e a conclusão. A preparação, ajunta ele, consiste em três atos, que são:



1.° Ato de fé na presença de Deus e adoração;
2.° Ato de humildade e contrição;
3.° Ato de súplica de luzes.



Da conclusão diz o santo doutor: A conclusão da oração compõe-se de três atos:


1.º Agradece-se a Deus pelas luzes recebidas;
2.º Propõe-se observar as resoluções tomadas;
3.º Pede-se ao Pai celeste, por amor de Jesus e Maria, a graça de lhe ser fiel.



Quanto ao corpo da oração, Santo Afonso quer que se comece pela meditação propriamente dita ou pela consideração. Da consideração passa-se aos afetos. Após os afetos, Santo Afonso fala das preces que devemos fazer na oração e quer nomeada-mente que se peça cada dia o amor de Deus e a santa perseverança. Termina-se, enfim, pelas resoluções sem as quais a oração seria incompleta e ficaria mais ou menos estéril Ele quer que a oração termine por uma dupla resolução: primeiro a resolução geral de santificar-se e de amar a Deus de todo o coração:


“A resolução de santificar-se, diz ele, deve ser frequentemente renovada na oração, na santa comunhão, na visita ao Santíssimo Sacramento, mas, sobretudo de manhã”



Em seguida uma resolução particular bem determinada, que se procurará pôr logo em prática e que será renovada até que produza frutos. A resolução particular será de imitar Jesus Cristo pela virtude do mês. Bem. Após a preparação, que deve ser feita com brevidade e grande fervor, a meditação ou a consideração, os afetos, as súplicas e as resoluções. Sempre que Santo Afonso fala da prática da oração mental, — Homo Apostolicus, A religiosa santificada, Prática do amor a Jesus Cristo, etc. — ele enumera esses quatro elementos e na mesma ordem, que é, aliás, a melhor ordem e a mais razoável; sempre também liga mais importância aos afetos do que aos raciocínios e, sobre¬tudo inculca o papel principal da prece.


E ainda: É mister observar que a utilidade da oração mental consiste menos na meditação como tal do que nos afetos, nas preces e nas resoluções que são os três principais frutos da meditação. E outra vez: O que nos une a Deus na oração não são tanto os bons pensamentos do nosso espírito como os bons movimentos da nossa vontade ou os santos afetos.E quanto às preces, eis as suas palavras, das quais não poderíamos nunca penetrar-nos bastantemente:



“Ademais na oração é extremamente útil e talvez preferível a tudo o mais, fazer frequentes preces, pedindo a Deus com humildade e confiança as suas graças, isto é, as luzes de que necessitamos a resignação, a perseverança, etc., mas, sobretudo o dom de seu santo amor… Numa palavra, toda a vossa oração deve consistir em fazer atos e preces; é precisamente isso que a venerável Sor Maria Crucificada declarou um dia no êxtase, dizendo que a oração é a respiração da alma; com efeito, assim como pela respiração recebemos e expelimos o ar, pelas preces a nossa alma recebe de Deus e, por seus atos de oferecimento e de amor, se dá a Deus”.


Voltaremos mais tarde aos diferentes elementos da oração. Será preciso manter-se rigorosamente à ordem que acabamos de indicar? Será necessário que todos esses elementos se encontrem absolutamente em cada oração? Não é esse certamente o pensamento de Santo Afonso. Ele é sem dúvida inimigo da presunção que pretendesse sair dos caminhos ordinários da oração; condena a moleza que não quer fazer esforço, e o capricho que não suporta direção; mas reprova igual¬mente o constrangimento que comprime os voos da alma e a fadiga inutilmente. De resto, as suas palavras são formais:



“Quando se faz oração em particular, é bom servir-se sempre dum livro de meditações, ao menos no começo, detendo-. se nas passagens mais tocantes e sem preocupação de ler toda a meditação. São Francisco de Sales diz que nisso devemos imitar as abelhas que sugam uma flor enquanto nela encontram mel, e que voam depois para outra… Santa Teresa seguiu esse método durante dezessete anos; lia primeiro um pouco, depois meditava por algum tempo. É assim que convém fazer, a exemplo da pomba quando bebe: aspirando um pouco de água, levanta os olhos para o céu”




De outro lado, temos o exemplo do santo doutor, que dividiu muitas das suas meditações em dois pontos, dando o primeiro às considerações e o segundo aos afetos e súplicas; e recomendava isso especialmente a seus religiosos. Escreveu- lhes a 26 de fevereiro de 1771:



“Recomendo que para a meditação se sirvam o mais possível dos meus livros: Preparação para a morte, Meditação sobre a Paixão, Setas de fogo no caminho da salvação, e Meditações do Advento até à oitava da Epifania. Digo isso não para exaltar as minhas miseráveis obras, mas porque essas meditações são entremeadas de piedosos afetos e repletas — o que mais importa — de santas súplicas, que quase não se encontram em outros livros. Peço, pois, que se leia sempre na meditação o segundo ponto, que consiste nos afetos e súplicas”.



Mas o santo doutor compôs também meditações divididas em vários pontos dos quais cada um contém considerações, afetos e súplicas; e isso parece-nos mais especialmente prático para as meditações de certa duração. São Francisco de Sales, citado por Santo Afonso, dizia ainda:



“Sucederá às vezes que, feita a preparação da vossa meditação, a vossa alma sinta doce emoção, que a transporte subitamente a Deus: então, Filotéia, deixai todo outro método que vos dei, porque, embora o exercício do entendimento deva preceder o da vontade, se o Espírito Santo operar em vós, por essas impressões sobre a vontade, os santos afetos que devem ser excitados pelas considerações da meditação, não procurareis mais no vosso espírito o que já tendes no coração. É regra geral que se deve abrir sempre o coração aos afetos que nele nascem, seja antes das considerações, seja depois… A respeito das resoluções, que são as determinações dos afetos, a ordem natural é que não se façam senão depois dos afetos e pelo fim da meditação, porque, tendo-nos de representar vários objetos particulares e familiares, a sua ideia poderia causar ao espírito distrações se não fossem entremeados de afetos”



Esse é o espírito dos santos: espírito de generosidade, mas também espírito de santa liberdade, de abandono a Deus e de docilidade aos impulsos da graça. A oração assim compreendida foi posta por Santo Afonso ao alcance de todos. E se há tantas almas, mesmo consagradas a Deus, que não fazem seriamente oração, não é que a oração seja demasiado difícil e impraticável para muitos, como às vezes se diz, mas porque se falsifica a ideia da verdadeira oração ou então (coisa mais frequente ainda) não se quer dar o trabalho para isso. Para a alma se unir a Deus e entreter-se com ele, precisa, como diremos mais longa¬mente depois, conservar puro e desapegado o coração, esforçar-se e lutar com mil inimigos interessados em afastá-la de Deus: falta-lhe coragem e força porque não ora e assim renuncia à oração. Ou então falsifica- se a ideia da oração; transforma-se a consideração, — é aqui que se acha o escolho para muitas almas de boa vontade, — em um estudo árido, seco e frequentemente difícil da verdade ou do mistério proposto. Quisera-se achar logo sobre a verdade meditada desenvolvimentos ricos e abundantes que não podem ser o fruto senão de longas pesquisas; perde-se então o tempo em sonhos vagos ou em deplorar a sua incapacidade, e abandona-se a oração. Se a oração, de fato, deve ser necessariamente um exercício improvisado de raciocínio e amplificação, torna-se fatalmente impossível, não só às almas simples e ignorantes, mas mesmo a muitas pessoas cultas. Muitas vezes esses esforços para desenvolver o assunto da meditação são mais funestos do que favoráveis ao recolhimento e à união com Deus.



Mas mesmo para as pessoas mais instruídas a consideração deve ser menos um estudo do que um exercício de fé. Qual é o fim da consideração, senão penetrar fortemente a alma de algum mistério, de alguma verdade sobrenatural, de modo a comover a vontade, a abrasar o coração? A consideração deve aclarar e consolidar a fé e inclinar a alma à prática das virtudes. Ora, para isso os raciocínios não são absolutamente indispensáveis: são menos uteis do que atos enérgicos de fé seguidos de súplicas ardentes para se obter uma fé mais viva, mais esclarecida, mais prática. À alma que acaba de ler um pensamento forte e bem escolhido, é bom reconhecer diante de Deus que não está dele suficientemente penetrada, que infelizmente o esquece com frequência; e dizer: Meu Deus creio essa verdade… mas dela tantas vezes me esqueço… se a não esquecesse, seria mais fiel ao dever, mais atento a comprazer-vos, não cairia em tal ou tal defeito… amar-vos-ia mais… Fazei, pois, que nela pense meu Deus; dai-me uma fé mais viva, mais esclarecida, mais prática, e fazei que conforme a minha vida à minha fé. Repetindo passo a passo esses atos de fé, essas confissões e essas súplicas, a alma se penetrará facilmente da verdade que medita. Os raciocínios da nossa inteligência entregue a si própria só nos podem fornecer luzes naturais, enquanto que os atos enérgicos de fé e as súplicas humildes e confiantes nos encherão de luzes divinas.Não pretendemos banir da oração os raciocínios; porém ninguém a eles se entregue senão depois de haver implorado o auxílio divino; não insista em procurar um raciocínio que parece escapar não se sacrifique jamais ao raciocínio o exercício da fé; mas ao lado do raciocínio multipliquem-se os atos de fé e as preces. A alma ficará assim mais unida a Deus e a consideração será mais proveitosa.Ora, parece-nos que a consideração assim concebida e levada ao exercício da fé é fácil a todas as almas de boa vontade. Ouçamos as notáveis palavras de São Francisco de Sales:



“O mundo dirá que eu suponho em quase toda parte que Filotéia tem o dom da oração mental, e que, como poucos a têm, este livro não poderá ser útil a todos. Confesso que o supus, e é certo que nem todos têm o dom da oração. Mas é também verdade que quase todos o podem ter, mesmo os mais rudes, contanto que possuam bons diretores, e que, para adquiri-lo, queiram trabalhar como a coisa merece. E se houver alguém que não possua esse dom nem no ínfimo grau, — o que julgo coisa raríssima, — um sábio diretor o fará facilmente suprir essa falta pela atenção em ler ou ouvir ler as mesmas considerações que há nas meditações”



Conhecemos o zelo de Santo Afonso em vulgarizar a oração, e com que sucesso, sabemos que o Homo Apostolicus manda ao sacerdote zeloso mover à oração, como ele o fazia, as pessoas da mais modesta condição que não sabem ler e são desprovidas de toda instrução; e entre os atos enumerados indica os atos de fé. Julgava, pois, que a oração está ao alcance de todas as almas de boa vontade; e não podia pensar de outro modo aquele que declarou que, se a meditação não é absolutamente necessária à salvação como a prece, é, todavia muito necessária às almas para se manterem na graça de Deus (H. A. Appendix I § 1). Se alguém opinar que os raciocínios são absolutamente necessários na meditação e se julgar que o que acabamos de expor é um diminutivo da meditação, isso não tem grande importância. Cada um se esforce ao menos por difundir a sua prática, que assim colocará e santificará muitas almas de boa vontade, que talvez não farão verdadeiras meditações em todo o rigor do termo, mas que farão muito bem oração. É dessa forma que, pela bondade divina, muitas almas modestas farão melhor oração do que muitos sábios que se não sabem unir a Deus e que se desvanecem em seus vãos pensamentos.



O exercício da oração é o entretenimento admirável da alma com Deus, no qual Deus se descobre à alma fiel, e, abrasando-a do seu amor, a une a si sempre mais intimamente.



Ora, verdadeiro homem de oração é aquele que não só é exato em dar-se à meditação sempre que lho permitam os seus deveres de estado e a obediência; que, segundo o conselho de Santo Afonso, é avaro de seu tempo para consagrá-lo à oração, e que enfim, no meio de seu trabalho, conservando-se unido a Deus, quanto o permite a fragilidade humana, se volta frequentemente aos pensamentos, aos afetos e às súplicas da sua meditação, para deles impregnar toda a sua vida.O espírito de oração consiste em pôr em prática, ao mesmo tempo, o espírito de fé, de prece e de amor. Por tudo quanto dissemos, é claro que a oração, que é a perfeição da religião e da piedade, é ao mesmo tempo a santificação e o triunfo da caridade. A alma que ama sinceramente a Deus não pode separar-se dele; corre, voa à oração com o maior ardor, a mais ardente devoção; e a oração toma-se como a fornalha ardente em que ela aviva sem cessar as chamas da caridade.






Sob o impulso da caridade, a oração torna-se o exercício de todas as virtudes. Alterativamente a alma imerge-se nas salutares confusões da humildade, entrega-se aos voos da confiança e do zelo, ou determina-se generosamente a todos os devotamentos, a todos os sacrifícios, a todas as imolações para o beneplácito e a glória de seu Deus. É assim que a oração é como o resumo da vida cristã e religiosa, a sua alma e o seu tudo.




BIBLIOGRAFIA



- PLATÃO. A República. Trad. M. H. Rocha Pereira. 7. ed. Lisboa: F. C. Gulbenkian, 1993. 


-AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Volume I, III e IV. São Paulo: Loyola, 2004


-OMER C.SS.R., Padre Saint. Escola da Perfeição Cristã para Seculares e Religiosos: Obra compilada dos escritos de Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja. Editora Vozes, 1955.


-AZEVEDO C.SS.R., Padre Oscar das Chagas. As Doze Virtudes para cada Mês do Ano. Editora Vozes.


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