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Os Anabatistas, Valdenses, Cátaros e Albigenses combatidos pela Santa Inquisição ERAM CRISTÃOS, OU HEREGES ?

Written By Beraká - o blog da família on quinta-feira, 5 de maio de 2016 | 16:23






Algumas igrejas batistas dizem que elas são descendentes diretas de certos grupos heréticos do passado. Por isso seriam as "verdadeiras igrejas de Cristo". Pretendem, inclusive, traçar sua origem até João, o batista.


Seu principal fundamento é um livreto de 56 páginas chamado "O Rastro de Sangue", de autoria de J.M. Carrol, de 1931. O autor tenta provar que grupos heréticos do passado, como os Montanistas, Novacionistas, Donatistas, Paulicianos, Albigenses, Cátaros, Valdenses e Anabatistas eram os batistas do passado, e que foram perseguidos pelos católicos e desapareceram.





Pelo fato de não existirem qualquer evidências destas alegações, alegam que a Igreja Católica tratou de apagar do mapa as evidências. O curioso é que os teólogos batistas rejeitam esta idéia como absurda e infundada. Apesar disso alguns batistas continuam a difundir tal ideia (são chamados de "batistas lendários"), para o embaraço da maioria dos protestantes batistas.



Vamos examinar cada um destes grupos:



1)- Montanistas: rejeitavam os segundos casamentos, mesmo após a morte do primeiro cônjuge. Negavam o perdão dos pecados, tornando-se um movimento sem esperança.

2)- Novacianistas: diziam que nenhum pecado deveria ser perdoado após o batismo. Também proibiam os segundos casamentos. Novaciano proclamou a si mesmo bispo e foi excomungado.


3)- Donatistas: a verdadeira igreja deveria ser composta apenas por eleitos e que os batismos somente eram válidos se feitos por um donatista.

4)- Paulicianos: criam na pluralidade de deuses, dizendo que toda matéria era má, rejeitavam o Antigo Testamento e a encarnação, e ainda diziam que Jesus era um anjo. Não honravam a cruz por acharem que Jesus não foi crucificado.

5)- Albigenses: criam em dois deuses, um bom e um mal. Rejeitavam todos os sacramentos, declaravam ser pecado casar. Eram sexualmente permissivos. A gravidez deveria ser evitada e o aborto era encorajado.

6)- Cátaros: seguiam todas as heresias dos albigenses.

7)- Valdenses: diziam que a Igreja não deveria possuir bem algum e proibiam o dízimo. Curiosamente, acreditavam na Sagrada Eucaristia e no Corpo de Cristo.


8)- Anabatistas: praticavam a poligamia e o comunismo. Condenavam as promessas como pecaminosas. Foram fundados por Thomas Munser em 1521. Somente este fato desbanca a alegação batista de antiguidade.



Observando as "peculiaridades" destes grupos, porque será que alguém ainda vai querer reclamar ser um ancestral de qualquer um deles?



Jesus prometeu que sua Igreja iria permanecer para sempre (Mt 16,18). O que você acha, então, que Ele esteve fazendo com Sua Igreja ao longo de todos esses séculos? Por acaso Ele estaria brincando com Sua criação, levando-a de heresia em heresia, ora para os montanistas, ora para os valdenses, e assim por diante? Tal pensamento é ridículo, não é mesmo? Pois bem, Ele fez exatamente o que prometeu. Edificou sua Igreja e a sustentará até o final dos tempos, e esta é a Santa Igreja Católica.



Onde estão as evidências dos protestantes?


Se existissem desde o tempo de João Batista, os livros de história especializados estariam cheios de referências, ou pelo menos algo afim. Os escritores da época dos pais da Igreja, os historiadores de sua época, não fazem referência alguma, mínima, sobre esse assunto. O mais interessante, e repudiante para os protestantes, é que estes mesmos escritos falam o nome da Igreja Católica amplamente, dezenas, centenas de vezes. Nos escritos de Santo Agostinho, por exemplo, em quem muitos protestantes acham que extraem suas doutrinas, a Igreja Católica é citada pelo nome cerca de 300 vezes.



Talvez a mais famosa referência seja a da carta de Santo Inácio de Antioquia ao povo de Esmirna, no longínquo ano de 106 d.C. Vale lembrar que Inácio era um padre apostólico, o que significa dizer que em sua vida ele conheceu alguns apóstolos de Cristo:



“Deves seguir a palavra do bispo, assim como Jesus Cristo seguiu a palavra do Pai; siga o presbítero como a um apóstolo, respeite os diáconos como aos mandamentos de Deus. Que nada façam à Igreja sem o conhecimento do bispo. Que a celebração da Eucaristia seja válida quando celebrada pelo bispo ou por quem este designar. Onde estiver o bispo, esteja o povo, assim como onde está Jesus Cristo, está a Igreja Católica. Não é permitido casar-se ou batizar sem a autorização do bispo; mas tudo o que ele aprovar agrada a Deus. Com isso tudo que fizeres será valioso e uma prova contra o mal.” (Inácio de Antioquia, Carta aos Esmirnenses, 8, 106 d.C.).

Para finalizar, somente a título de curiosidade, citaremos alguns escritos clássicos onde a Igreja Católica é citada nominalmente, notando que todas as datas são anteriores ao século 7 da era Cristã:



Inácio, Carta aos Esmirnenses 8:1-2. J65 106 DC
O Martírio de São Policarpo 16:2. J77, 79, 80a, 81a, 155 DC
Clemente de Alexandria, Stromateis 7:17:107:3. J435 202 DC
Cipriano, A Unidade da Igreja Católica 4-6. J555-557 251 DC
Cipriano, Carta a Florêncio 66:69:8. J587 254 DC
Lactâncio, Instituições Divinas 4:30:1. *J637 304 DC
Alexandre de Alexandria, Cartas 12. J680 324 DC
Atanásio, Carta sobre o Concílio de Nicéia 27. J757 350 DC
Atanásio, Carta a Serapião 1:28. J782 359 DC
Atanásio, Carta ao Concílio de Rimini 5. J785 361 DC
Cirilo de Jerusalém, Leituras Catequéticas 18:1. J836-*839
Dâmaso, Decreto de Dâmaso 3. J910u 382 DC
Agostinho, Carta a Vincente o Rogatista 93:7:23. J1422
Agostinho, Carta a Vitalis 217:5:16. J1456 427AD
Agostinho, Com. Salmos 88:2:14, 90:2:1. J1478-1479 418 DC
Agostinho, Sermões 2, 267:4. *J1492, *J1523 430 DC
Agostinho, Sermão aos Catecúmenos sobre o Credo 6:14. J1535
Agostinho, A Verdadeira Religião 7:12+. *J1548, *J1562, J1564
Agostinho, Contra a carta de Mani 4:5. *J1580-1581
Agostinho, Instrução Cristã 2:8:12+. *J1584, J1617
Agostinho, Batismo 4:21:28+. J1629, J1714, J1860a, J1882
Agostinho, Contra os Pelagianos 2:3:5+. *J1892, *J1898



Vê-se continuamente em nossos dias repetir-se a velha lenda da Inquisição como um tribunal de padres e bispos perversos,Tal lenda talvez já seja bem conhecida por você, contada clara na versão dos inimigos da fé, e não por historiadores imparciais. Nela apresenta-se um tribunal tenebroso que tortura suas pobres vítimas. Por trás dele encontrar-se-ia uma Igreja opressora das consciências e inimiga da ciência, representada por monges ignorantes, corruptos e sádicos. Como sempre um tribunal pernicioso, impiedoso etc, e coisa e tal.


Entretanto, a Inquisição é antes de tudo um fato histórico e deve ser tratado como tal. Sendo assim, para não confundirmos a história com a lenda, indicaremos em linhas gerais o que ficou conhecido como a lenda negra da Inquisição, para logo em seguida tratarmos da História.
Podemos encontrar essa literatura tendenciosa já no século XVI, momento de ascensão do protestantismo, e constatarmos seu crescimento com o iluminismo no século XVIII.


Contudo, é no século XIX que nos deparamos com os autores que mais contribuíram para a estruturação e perpetuação da lenda negra: Juan Antonio Llorente e Henry Charles Lea:



Juan Antonio Llorente[1] (1756-1823) foi mais um daqueles sacerdotes que trocaram a fé pelos ideais do mundo moderno. Tornando-se liberal, combateu a Igreja Católica calorosamente. Negava o voto perpétuo das comunidades religiosas, defendia o casamento de padres e bispos, defendia ainda – como um bom nacionalista oitocentista – que a Igreja deveria ser dirigida pelo Governo Supremo Nacional, não sendo o clero mais que uma categoria de funcionários públicos sem nenhuma relação como o Papa. Embora fosse espanhol e nacionalista, colaborou com as tropas napoleônicas invasoras e, após sua derrota, retirou-se com elas, estabelecendo-se em Paris a partir de 1814. Apesar de suas idéias liberais havia galgado, em 1789, o posto de Secretário Geral da Inquisição.


“Al abandonarlo, recogió todos los procesos de valor inapreciables de la Inquisición y procedió a quemar aquellos que podían ser favorables a dicha Institución y a apartar aquellos otros que le servirían después para utilizarlos en su Histoire critique de l’Inquisition.” (William T. Walsh. Personajes de la Inquisición. Madrid, Espasa-Calpe, S. A., 1963, pp. 306-307).



Como se vê, Llorente visava antes à luta política que à veracidade histórica. Sabemos ainda que foi nos documentos fornecidos por ele que a Comissão das Cortes de Espanha, em 1812, se baseou para negar a legalidade da fundação da Inquisição.O fanatismo do padre Llorente na luta contra a Igreja Católica era tamanho, que já sexagenário, escreveu uma obra intitulada Retrato político de los Papas, no qual, além de enumerar uma porção de calúnias, dava crédito à lenda da papisa Joana. Vê-se, pois, como surgem as lendas.Essas e outras exibições de Llorente foram demais para o governo francês, que o convidou oficialmente a retirar-se do país.



Por isso, Fernando Ayllón tem razão ao afirmar, comentando o êxito da obra de Llorente:


“Su éxito publicitario se debió a que sus escritos fueran usados como arma predilecta de los enemigos de España y de la Iglesia Católica por la supuesta seriedad y objetividad del autor, características ambas de las cuales en realidad carecía. Indubitablemente Llorente es el escritor que más ha alimentado la leyenda negra contra el Santo Oficio y su propio país.” (Fernando Ayllón, El Tribunal de la Inquisición; De la leyenda a la historia. Lima, Fondo Editorial Del Congreso Del Perú, 1997, p. 18).



Outro autor influente foi o protestante norte-americano Henry Charles Lea, que dedicou grande parte de sua vida à publicação de escritos contra a Igreja Católica[2]:


Dentre seus escritos sobre o tema Inquisição, os principais são História da Inquisição Medieval e História da Inquisição Espanhola. Lea também se baseou em Llorente, porém, fez um grande trabalho de pesquisa histórica, chegando a apresentar documentos inéditos. Contudo, seus preconceitos e suas convicções protestantes levaram-no a uma manipulação parcial e negligente da documentação adquirida.



“Les ouvrages de H.-Ch. Lea, traduits par Salomon Reinach, ont été écrits  dans un esprit voltairien, et l’auteur n’a cessé, au long de ses livres, de s’indigner et de déplorer.” (Georges Deromieu. L’Inquisition. Paris, Presses Universitaires De France, 1946, Préface).



Ilarino da Milano, em sua erudita obra Eresie Medioevali, comenta que a documentação apresentada por Lea dava a sua obra uma aparência de ciência histórica. Porém: “in realtà il bibliofilo americano fu più controversista che storico; si mantenne protestante avverso alla Chiesa romana nella interpretazione partigiana dei fatti e nel tono generale, nonostante la sua sincera professione di lealtà;” (Ilarino da Milano. Eresie Medioevali; Scritti Minori. Itália, Maggioli Editore – Rimini, 1983, p. 444).



É interessante notar que um escritor protestante, Häbler, é quem nos dá uma clara visão do método de Lea:


“La agrupación de la materia va toda encaminada a echar en cara a la Inquisición un registro de crímines lo más voluminoso posible. Puesto que no podían mantenerse en la forma en que se ha hecho hasta el presente todos los reproches de crueldad, ansia de persecución y opresión de la inteligencia han sido reforzados por medio de una inmensa mole de las particularidades más triviales, etc. Todo con el objeto de que la imagine de la Inquisición resultará lo más repugnante posible.” (F. Ayllón. op. cit. p. 25).




Conhecendo essa tradição historiográfica anticatólica, conhecemos também a origem da dita lenda negra. De modo que – precavidos contra seus prejuízos históricos – poderemos tratar aqui de alguns fatos esquecidos, ou melhor, propositalmente negligenciados por ela:



Historicamente, a Inquisição não pode ser considerada como a criação de um Papa, ou de uma mente maquiavélica de pretensões despóticas. A história é muito mais complexa do que a lenda pode imaginar.


A Inquisição foi, antes de tudo, fruto da reação de uma sociedade contra movimentos degeneradores da ordem, da moral e da cultura então reinantes, ou seja o próprio povo Cristão da época exigia uma ação enérgica da Igreja e do estado.A forte reação contra as heresias, que levará ao processo de formação do Tribunal Eclesiástico, ao contrário do que alguns pensam, parte antes do povo e do Estado que da Igreja:



“O impulso para a radicalização da atitude social contra os heréticos partiu de baixo para cima, ou seja, do fanatismo popular que tomava corpo à medida que se cristianizava a sociedade bárbaro-européia. Mesmo no ano de 1045, quando foram descobertos alguns heréticos em Châlons, as autoridades eclesiásticas recorreram aos legisladores, pois ainda não sabiam o que fazer com eles.” (Nachman Falbel. Heresias Medievais. São Paulo, Ed. Perspectiva S. A., 1977, p. 15)



Notemos que esse autor, que julga de forma preconceituosa o povo católico medieval, afirma que não foi a Igreja quem iniciou o movimento de radicalização contra os hereges, mas o povo.



João Bernardino Gonzaga, ao analisar o contexto social no qual surgiu a Inquisição, afirmou:


“No caso da Inquisição, quem a exigiu e impôs, antes da Igreja, foram os governantes e o povo, que viam, nos hereges, rebeldes perigosos e perturbadores. A História mostra que, muitas vezes, os populares se antecipavam às autoridades e se encarregavam de puni-los, levando-os à fogueira.” (João B. G. Gonzaga. A Inquisição em seu mundo. São Paulo, ed. Saraiva, 1993, p. 114).



Disto decorre que a Inquisição não é – como querem os inimigos da Igreja Católica – uma mera invenção da Igreja, que eles erroneamente julgam tirana, mas um fruto da reação da sociedade contra as heresias.


A Igreja foi obrigada, pelo seu dever de julgar questões teológicas, a criar um tribunal que impedisse excessos do povo e abusos do Estado.



É exatamente por isso que trataremos – dentro dos limites de nosso pequeno artigo – de duas das principais heresias que invadiram a sociedade medieval nos séculos XII e XIII, sem o conhecimento das quais não é possível avaliar a reação dessa sociedade nem compreender o que foi a Inquisição.






As Heresias




Os Valdenses:

No século XII varias heresias alarmaram a sociedade cristã. Dentre elas, as mais notáveis, devido à penetração que tiveram na sociedade, foram: o catarismo (cujos sectários são também conhecidos como albigenses, devido ao grande centro cátaro da cidade de Albi) e a heresia valdense.


Os valdenses, ou pobres de Lyon, denominação conferida pelo seu fundador Pierre de Vaux (Pedro Valdo), surgiram organizados em uma fraternidade entre os anos de 1173 e 1178. A princípio, como nota Ilarino[3], eles permaneceram fiéis à Igreja Católica e procuraram distinguir em suas pregações, ao contrário dos cátaros, o magistério sagrado da má conduta de alguns de seus membros.


Em 1179, no Terceiro Concílio de Latrão, o Papa Alexandre III (1159-1181) decide que eles poderiam pregar com autorização eclesiástica prévia. Entretanto, os valdenses passaram da crítica aos vícios de alguns clérigos para uma negação da autoridade eclesiástica. Essa atitude levou à sua condenação pelo Papa Lúcio III no Sínodo de Verona em 1184[4].


A partir desse momento, os valdenses assumem seu estado de rebelião contra a Igreja, constituindo dessa forma uma nova igreja com uma estrutura própria:


“Cumpriam o tríplice voto da pobreza, da castidade e da obediência aos superiores, isto é, ao próprio Valdo, como a um encarregado de Deus, praepositus et pontifex, e aos bispos presbíteros e diáconos por ele ordenados. As Sagradas Escrituras, que traduziram para as línguas vulgares e que recomendavam calorosamente para leitura, tinham o valor de norma doutrinal absoluta e de código jurídico.” (N. Falbel. op. cit. p. 62).



Os valdenses da Lombardia, relativamente aos do Languedoc, assumiram uma oposição mais agressiva. Segundo eles, os juramentos eram proibidos pelos evangelhos e a pena capital não era permitida ao poder civil. Todo leigo tinha o poder de consagrar o sacramento do altar; não aceitavam as orações pelos mortos; o Purgatório não existia e a Igreja Romana não era a Igreja de Cristo. Evidentemente, essas doutrinas demonstram a forte influência cátara sobre os valdenses, ao mesmo tempo em que tornam claro o grande problema que eles representavam para a ordem social.



O Catarismo



Problema ainda maior, quer pelas proporções que tomou, quer pelas doutrinas estapafúrdias e fantásticas que propagou, foi o catarismo.


“Ils rejettent l’Église romaine qu’ils appelent, nous dira plus tard Bernard Gui, «Mère des fornications, grande Babylone prostituée, basilique du diable et synagogue de Satan». Ils nient l’incarnation et même l’existence réelle de la Vierge Marie, dont ils font un symbole.” (G. Deromieu. op. cit. p. 2)



Este ódio à Igreja e à sua fé, que nos relata Deromieu ao citar Bernard Gui e E. AEgerter, na realidade ultrapassa – no caso dos cátaros – o ódio à Igreja Católica. Representa em última análise um ódio ao mundo e, como tal, combaterá não só a Igreja, mas também toda a ordem existente. Será, portanto, contra essa heresia e outras, defensoras de doutrinas igualmente perniciosas, que a sociedade medieval reagirá.



O catarismo dos países ocidentais provém do bogomilismo búlgaro-constantinopolitano dos séculos XI e XII, que é na verdade um maniqueísmo sob nova denominação.[5] Essa ligação entre catarismo e bogomilismo é tão real e constante que, em 1167, os cátaros organizaram um concílio em St. Félix de Caraman (Toulouse) no qual compareceu o bispo bogomilo Niketas, vindo de Constantinopla, para unificar o dualismo das seitas dos países ocidentais, levando-as do dualismo moderado ao dualismo absoluto da igreja de Dragowitsa (Tracia).[6] Entretanto, tanto o dualismo moderado quanto o absoluto partem de um mesmo princípio.



“Esso prende le mosse dalla constatazione del male, del peccato, delle difettosità esistenti negli individui, nella società, nel creato (cfr. Testi: I, 1). L’uomo ne sente il peso e ne cerca la liberazione.” (I. Milano. op. cit. p. 19 – o negrito é nosso).



Para os cátaros o mundo, ou seja, toda a realidade criada era essencialmente má. Segundo eles, o mundo fora criado pelo deus-mal. Esse mesmo deus-mal, que eles chamavam de Satã, haveria encarcerado os anjos do deus-bem na matéria e os induzido ao pecado da carne por meio do qual ele continuaria a encarcerá-los.Há, portanto, uma contradição total entre a visão de mundo cátara e a doutrina da Igreja Católica.



“O encargo de Cristo foi uma simples missão num mundo satânico, sendo negadas a encarnação, a paixão e a ressurreição. O homem não foi criado à imagem de Deus, mas pelo demônio. Daí o ódio dos cátaros pelo sinal da cruz que se relacionam aos sofrimentos de Cristo e o ligam à matéria impura.” (N. Falbel. op. cit. p. 54). 



A salvação para o catarismo era a libertação da alma de seu invólucro satânico, isto é, o corpo material impuro. Devido a essa concepção, os cátaros viam com bons olhos o suicídio:



“Além do suicídio por envenenamento ou salto num precipício, ou ainda a pneumonia voluntariamente contraída, era comum procurar-se a morte pela fome ou endura; deixavam de comer até se extinguir.” (N. Falbel. op. cit. p. 58).



Os perfeitos, ou seja, aqueles que receberam o consolamentum, dedicavam-se absolutamente, como indicam os historiadores, ao proselitismo:


“Eles percorriam as cidades e os campos, pregando com a palavra e como exemplo. A finalidade dos Perfeitos era, por um lado, engrossar as fileiras de seus adeptos e, por outro, arrebatar seguidores da Igreja de Satã, a Igreja Católica. Daí arremeterem com violência contra os sacramentos, as igrejas, a cruz e os cemitérios, contra o culto, as relíquias e, enfim, contra o clero.” (N. Falbel. op. cit. p. 59 – o negrito é nosso).



Não é difícil perceber quais foram os graves problemas trazidos por essa heresia para a sociedade. Por exemplo, os cátaros abominavam o casamento:



“O casamento era considerado um estado satânico porque regularizava o crime da carne e tinha como conseqüência natural a procriação. A concubina era mais aceita do que a mulher casada, fato que levou aos cátaros a acusação de terem hábitos promíscuos.” (N. Falbel. op. cit. pp. 55-56 – o negrito é nosso).



“Deste modo, o casamento era condenado e a destruição da família favorecida, levando assim à aceitação da união livre e à restrição de nascimentos. Foi uma antecipação da liberdade sexual absoluta.” (N. Falbel. op. cit. p. 56 – o negrito é nosso). 



Os problemas não param por aí:



Na cerimônia do consolamentum, o sacramento cátaro por antonomásia, o iniciado devia renunciar a prestar juramento[7]. Essa negação de prestar qualquer juramento, como nota N. Falbel,[8] vai diretamente contra a base das relações humanas na cristandade medieval. Fica patente, pois, o enorme perigo que o catarismo representava para a sociedade, visto que o cátaro não podia aceitar o juramento que significaria, em última analise, sua inserção nessa sociedade e a aceitação de uma organização que ele considera má e satânica.



“Le sue comunità fomentarono un clima di rivolta all’autorità ecclesiastica, in cui pullularono altri moti ereticali e reazioni politiche. Ma i catari dotrinalmente sono opposti anque all’organizzazione imperiale e nazionale d’un mondo che essi condonnano come cattivo; considerano le autorità statali, anche in ragione dell’esercizio dello « jus gladii », come rappresentanti del maligno; imperatore e re li perseguitarono como reazionari.” (I. Milano. op. cit. p. 19 – o negrito é nosso).



A revolta cátara contra o mundo, além de se opor absolutamente à Igreja Católica, a qual afirma que o mundo criado por Deus é bom, tinha necessariamente que se voltar contra toda ordem que imperava nesse mundo, de modo que o Estado tornava-se também um alvo da heresia. Isso levou, como constata Ilarino e qualquer outro historiador sério, ao surgimento de diversos focos de revolta no seio da sociedade medieval.Estes e outros problemas, causados pela heresia, são alguns dos motivos que nos permitem compreender porque o povo e as autoridades laicas anteciparam-se à Igreja, numa enérgica reação contra o perigo que os afrontava.



A Sociedade da época frente às heresias:



“D’autres « publicains » sont arrêtés à Vézelay en 1167. L’abbé demande à la foule ce qu’il faut en faire. La foule s’écrie : « Qu’ils soient brûlés, qu’ils soient brûlés ». (Henri Maisonneuve. L’Inquisition. Paris, ed. Desclée, 1989, p. 26). 




Essa atitude do povo contra os hereges não era nada incomum. Veja-se que H. Maisonneuve nos fala de “autres” (outros), pois já havia relatado diversos casos onde o povo e as autoridades laicas reagiam violentamente contra os hereges. Por exemplo, em 1025, um grupo de clérigos de Orléans, defensor de doutrinas heréticas, expõe sua doutrina diante de uma assembléia de bispos, abades e senhores presidida pelo rei Robert.


Os hereges aferram-se às suas doutrinas, recusam submeter-se e são excomungados pelo clero. Contudo, o castigo ordenado pelo rei é a pena da fogueira.[9] Os exemplos são diversos. Em 1144, em Liège, alguns hereges aguardam a sentença do Tribunal. Os juízes, esperando a conversão dos hereges acusados, conseguem a custo livrá-los do furor do povo impaciente, que quer queimá-los.[10] Em 1163, uma dezena de hereges provindos de Flandres estabelece-se às portas de Colônia. Como eles não assistem aos ofícios da Igreja, seus vizinhos assustados os denunciam. As autoridades fazem vir o monge Robert, futuro abade de Schönaugen, para discutir com os hereges. A discussão faz-se na presença do clero e de uma parte importante da população. O monge Robert esforça-se para trazê-los novamente à Igreja, mas eles se recusam. As autoridades eclesiásticas os condenam como heréticos e eles são conduzidos aos magistrados de Colônia, os quais os condenam à fogueira.[11] Por volta de 1140, os discípulos de Pierre de Bruys, uma seita iconoclasta, conseguem algum sucesso na região do Midi mediterrâneo. Pedro o Venerável, abade de Cluny, chega a escrever um tratado contra eles, chamando-os de “inimigos da cruz de Cristo”. Esses sucessos, entretanto, não duram por muito tempo, pois o povo, cansando de suas profanações, queima-os nesse mesmo ano.[12] No Saxe, em 1052, o Imperador Henrique III enforca muitos hereges.[13] Em 1120, em Soissons, a multidão impaciente com o Bispo, que demorava em justiçar alguns hereges, arranca-os de suas mãos para levá-los imediatamente à fogueira.[14]



A reação contra a heresia ocorre de forma generalizada na cristandade medieval. Mesmo no Languedoc, que foi sem dúvida a região onde o catarismo encontrou maior aceitação, a população fiel, como verifica Georges Deromieu,[15] exigia uma ação vigorosa contra ela.



“Na Inglaterra, não houve meias medidas: quando um grupo de cátaros lá desembarcou em 1160, foram todos logo presos, marcados a ferro incandescente e expulsos da ilha. Sumariamente afastou-se pois o problema, de tal sorte que, nesse país, inexistiram tribunais de Inquisição durante toda a Idade Média.” (J. B. Gonzaga. op. cit. p. 95).



Os casos são numerosos, eles revelam ao mesmo tempo uma vigorosa reação da sociedade e a atitude particular da Igreja diante da erupção de heresias. Um caso emblemático é o do massacre de Colônia em 1145.[16] Nesse ano foram trazidos alguns hereges diante do arcebispo de Colônia e de sua corte clerical e laica. Eles rejeitavam os sacramentos da Eucaristia e da Penitência, rejeitavam a liturgia, a crença no purgatório e todo alimento que provinha de um ato de acasalamento. Eles discorriam sobre sua ação missionária e sobre seus sucessos entre monges e clérigos. Durante três dias, eles discutiram com os católicos. Alguns abjuraram de suas idéias e outros se negaram terminantemente a deixá-las. Estando (e não a Igreja), sob poder das autoridades, as quais ainda não tinham pronunciado a pena, a multidão arrombou a prisão e levou os cátaros para a fogueira.



A atitude da Igreja em todos esses casos foi sempre de tentar converter os hereges. Por mais que os lendólogos neguem-se a ver, foi a conversão dos hereges – e não sua condenação à morte – o verdadeiro objetivo da Igreja. O espírito da Igreja Católica – que a lenda insiste em apresentar como tirana – está expresso nas palavras de São Bernardo de Claraval, referentes ao massacre de Colônia:


“O povo de Colônia passou da medida. Se aprovamos seu zelo, não aprovamos, de modo algum, o que fez, pois a fé é obra da persuasão e não podemos impô-la.” (N. Falbel. op. cit. p. 57.)



Portanto, tanto o povo quanto o Estado reagiram vigorosamente contra a heresia. De modo que, com o passar do tempo e o agravar do problema, a própria Igreja, fazendo jus ao seu direito e mesmo ao seu dever de julgar em causa religiosa, procurou regulamentar essa reação, desencadeando assim, o processo que culminou no surgimento do Tribunal do Santo Ofício. Tal processo, que delinearemos em linhas gerais, deixará claro qual era o verdadeiro objetivo que animava a Igreja, mostrando como sua ação reguladora foi benéfica, inclusive ao criar a Inquisição, que foi – como veremos – de longe, um tribunal bem menos severo que o da Justiça civil comum.


Como bem ensinou John Henry Newman, "aprofundar-se na história é renunciar ao protestantismo".


REFERÊNCIAS:

 [1] Cf.  William T. Walsh. Personajes de la Inquisición. Madrid, Espasa-Calpe, S. A., 1963.  
[2] Fernado Ayllón. El Tribunal de la Inquisición; De la leyenda a la historia. Lima, Fondo Editorial Del Congreso Del Perú, 1997, p. 24.     
[3] Ilarino da Milano. Eresie Medioevali; Scritti Minori. Itália, Maggioli Editore – Rimini, 1983, p. 33.
[4] Nachman Falbel. Heresias Medievais. São Paulo, Ed. Perspectiva S. A., 1977, p. 62.
[5] Nachman Falbel. Heresias Medievais. São Paulo, Ed. Perspectiva S. A., 1977, p. 38.
[6] Ilarino da Milano. Eresie Medioevali; Scritti Minori. Itália, Maggioli Editore – Rimini, 1983, p. 20.
[7] Nachman Falbel. Heresias Medievais. São Paulo, Ed. Perspectiva S. A., 1977, p. 57.
[8] N. Falbel. op. cit. p. 56.
[9] Henri Maisonneuve. L’Inquisition. Paris, Ed. Desclée, 1989, p. 22.
[10] H.  Maisonneuve. op. cit. p. 24.
[11] Idem, p. 25.
[12] Idem, p. 27.
[13] João Bernardino G. Gonzaga. A Inquisição em seu mundo. São Paulo, Ed. Saraiva, 1993, p. 93. 
[14] Idem, p. 95.
[15] Georges Deromieu. L’Inquisition. Paris, Presses Universitaires De France, 1946, p. 10. 
[16] H.  Maisonneuve. op. cit. p. 24.


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21 de maio de 2017 19:44

Gostei muito do blog...Só queria que alguém me explicasse o motivo do Papa Francisco ter pedido perdão por todos os pecados da Igreja Católica Apostólica Romana, cometidos no decorrer da História, principalmente contra os Valdenses (pobres de Lion)...Ele fez questão de se dirigir diante do local de culto valdense e pediu perdão...Ele não fez isso somente com o Movimento "herético" de Pedro Valdo, ele pediu perdão para todos os cristãos que foram perseguidos durante o período de (Poder Temporal) da Igreja...Ou esses cristãos nunca foram heréticos, ou o Vossa Santidade o Papa Francisco é o Maior Herético de todos os Papas??!!Alguém por gentileza poderia me responder??

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Neste Apostolado promovemos a “EVANGELIZAÇÃO ANÔNIMA", pois neste serviço somos apenas o Jumentinho que leva Jesus e sua verdade aos Povos. Portanto toda honra e Glória é para Ele.Cristo disse-nos:Eu sou o caminho, a verdade e a vida e “ NINGUEM” vem ao Pai senão por mim." ( João, 14, 6).Como Católicos,defendemos a verdade, contra os erros que, de fato, são sempre contra Deus.Cristo não tinha opiniões, tinha verdades, a qual confiou a sua Igreja, ( Coluna e sustentáculo da verdade – Conf. I Tim 3,15) que deve zelar por elas até que Cristo volte.Quem nos acusa de falta de caridade mostra sua total ignorância na Bíblia,e de Deus, pois é amor, e quem ama corrige, e a verdade é um exercício da caridade.Este Deus adocicado,meloso,ingênuo, e sentimentalóide,é invenção dos homens tementes da verdade, não é o Deus revelado por seu filho: Jesus Cristo.Por fim: “Não se opor ao erro é aprová-lo, não defender a verdade é nega-la” - ( Sto. Tomáz de Aquino)

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