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Cristo morreu em nosso lugar para cumprir as escrituras, ou sua morte foi meramente política ?

Written By Beraká - o blog da família on terça-feira, 23 de fevereiro de 2016 | 15:54











COMENTÁRIOS DO BLOG BERAKÁ: A morte de Cristo foi meramente política ? -  “É comum ouvir a expressão “Cristo morreu na cruz por nós, ou mais popularmente em meu lugar”, mas teologicamente o que  significa esta expressão? Como funcionou, na prática, a redenção dos pecados da humanidade através da morte de Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz? Sua morte foi meramente resultado de suas ações políticas, ou cumprimento das escrituras? Cristo tinha consciência de sua morte redentora e do plano de Salvação, ou tudo foi mera obra contextual e do acaso que culminaram em sua morte? Muitos membros da Igreja (leigos, teólogos, religiosos, sacerdotes e até bispos), influenciados por uma Teologia da Libertação meramente humana, tem negado publicamente o sacrifício redentor de Cristo, apregoando de seus púlpitos uma teologia estranha ao sagrado magistério e à sagrada tradição da Igreja.”







O QUE NOS DIZ O MAGISTÉRIO DA IGREJA SOBRE O SACRIFÍCIO DE CRISTO ?




Sacrifício de Cristo na cruz por todos:


§616 É "o amor até o fim" que confere o Valor de redenção de reparação, de expiação e de satisfação ao sacrifício de Cristo. Ele nos conheceu a todos e amou na oferenda de sua vida. "A caridade de Cristo nos compele quando consideramos que um só morreu por todos e que, por conseguinte, todos morreram" (2 Cor 5,14). Nenhum homem, ainda que o mais santo, tinha condições de tomar sobre si os pecados de todos os homens e de se oferecer em sacrifício por todos. A existência em Cristo da Pessoa Divina do Filho, que supera e, ao mesmo tempo, abraça todas as pessoas humanas, e que o constitui Cabeça de toda a humanidade, torna possível seu sacrifício redentor por todos. 




§617 "Sua sanctissima passione in ligno crucis nobis iustificationem meruit - Por sua santíssima Paixão no madeiro da cruz mereceu-nos a justificação", ensina o Concílio de Trento, sublinhando o caráter único do sacrifício de Cristo como "princípio de salvação eterna". E a Igreja venera a Cruz, cantando: crux, ave, spes única - Salve, ó Cruz, única esperança".



Sacrifício de Cristo realiza e supera os sacrifícios do Antigo Testamento:




§1330 Memorial da Paixão e da Ressurreição do Senhor. Santo Sacrifício, porque atualiza o único sacrifício de Cristo Salvador e inclui a oferenda da Igreja; ou também santo sacrifício da Missa, "sacrifício de louvor" (Hb 13,15), sacrifício espiritual, sacrifício puro e santo, pois realiza e supera todos os sacrifícios da Antiga Aliança.




Sacrifício de Cristo único e definitivo


§613 A morte de Cristo é ao mesmo tempo o sacrifício pascal, que realiza a redenção definitiva dos homens pelo "cordeiro que tira o pecado do mundo", e o sacrifício da Nova Aliança, que reconduz o homem à comunhão com Deus, reconciliando-o com ele pelo "sangue derramado por muitos para remissão dos pecados".



§614 Este sacrifício de Cristo é único. Ele realiza e supera todos os sacrifícios. Ele é primeiro um dom do próprio Deus Pai: é o Pai que entrega seu Filho para reconciliar-nos consigo. É ao mesmo tempo oferenda do Filho de Deus feito homem, o qual, livremente e por amor, oferece sua vida a seu Pai pelo Espírito Santo, para reparar nossa desobediência.



§1545 O sacrifício redentor de Cristo é único, realizado uma vez por todas. Não obstante, toma-se presente no sacrifício eucarístico da Igreja. O mesmo acontece com o único sacerdócio de Cristo: torna-se presente pelo sacerdócio ministerial, sem diminuir em nada a unicidade do sacerdócio de Cristo.


Sacrifício de Cristo fonte de perdão dos pecados



§1851 É justamente na paixão, em que a misericórdia de Cristo vai vencê-lo, que o pecado manifesta o grau mais alto de sua violência e de sua multiplicidade: incredulidade, ódio assassino, rejeição e zombarias da parte dos chefes e do povo, covardia de Pilatos e crueldade dos soldados, traição de Judas, tão dura para Jesus, negação de Pedro e abandono da parte dos discípulos. Mas, na própria hora das trevas e do príncipe deste mundo, o sacrifício de Cristo se toma secretamente a fonte de onde brotará inesgotavelmente o perdão de nossos pecados.



Significação do sacrifício de Cristo



§545 Jesus convida os pecadores à mesa do Reino: "Não vim chamar justos, mas pecadores" (Mc 2,17). Convida-os à conversão, sem a qual não se pode entrar no Reino, mas mostrando-lhes, com palavras e atos, a misericórdia sem limites do Pai por eles e a imensa "alegria no céu por um único pecador que se arrepende" (Lc 15,7). A prova suprema deste amor ser o sacrifício de sua própria vida "em remissão dos pecados" (Mt 26.28).



§606 O Filho de Deus, que "desceu do Céu não para fazer sua vontade, mas a do Pai que o enviou", "diz ao entrar no mundo:.. Eis-me aqui... eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade... Graças a esta vontade é que somos santificados pela oferenda do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas" (Hb 10,5-10). Desde o primeiro instante de sua Encarnação, o Filho desposa o desígnio de salvação divino em sua missão redentora: "Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar sua obra" (Jo 4,34). O sacrifício de Jesus "pelos pecados do mundo inteiro" (1Jo 2,2) é a expressão de sua comunhão de amor ao Pai: "O Pai me ama porque dou a minha vida livremente" (Jo 10,17). "O mundo saberá que amo o Pai e faço como o Pai me ordenou" (Jo 14,31).



Todo ministério sacerdotal retira a força do sacrifício de Cristo 




§1566 "Eles exercem seu sagrado múnus principalmente no culto eucarístico ou sinaxe, na qual, agindo na pessoa de Cristo e proclamando seu mistério, unem os pedidos dos fiéis ao sacrifício de sua Cabeça e, até a volta do Senhor, tomam presente e aplicam no sacrifício da missa o único sacrifício do Novo Testamento, isto é, o sacrifício de Cristo que, como hóstia imaculada, uma vez por todas se ofereceu ao Pai. É desse sacrifício único que retiram a força de todo o seu ministério sacerdotal.



Único sacrifício perfeito de Cristo



§2100 Para ser verídico, o sacrifício exterior deve ser a expressão do sacrifício espiritual: "Meu sacrifício é um espírito compungido..." (Sl 51,19). Os profetas da Antiga Aliança denunciaram com freqüência os sacrifícios feitos sem participação interior ou sem ligação com o amor do próximo. Jesus recorda a palavra do profeta Oséias: "E misericórdia que eu quero, e não sacrifício" (Mt 9,13; 12,7). O único sacrifício perfeito é o que Cristo ofereceu na cruz, em total oblação ao amor do Pai e para nossa salvação. Unindo-nos a seu sacrifício, podemos fazer de nossa vida um sacrifício a Deus.



A Consciência de Jesus segundo Leonardo Boff:




Há alguns meses vi-me inesperadamente envolvido num sério debate sobre a questão da consciência de Jesus acerca de seu próprio ser e de sua missão. Surpreendeu-me a destreza com que um grupo de estudantes de Teologia manejava as obras de Frei Leonardo Boff, O.F.M., e argumentava, triunfante, com o velho “Magister dixit”, para apresentar uma realmente estranha figura de Jesus de Nazaré.Sentia dificuldades em acreditar que tais concepções pudessem estar em obras teológicas católicas. Tive que conceder que não havia lido os escritos cristológicos de meu famoso confrade petropolitano. Prometi estudá-los, com atenção especial à questão da consciência de Jesus. Baseia-se o estudo nestes dois livros de Leonardo Boff (= LB):



Jesus Cristo Libertador. Ensaio de Cristologia crítica para o nosso tempo. 9° edição. Editora Vozes, Petrópolis, 1983 (a primeira edição é de 1972). Será aqui citado abreviadamente: Libertador.Paixão de Cristo – Paixão do Mundo. Os fatos, as interpretações e o significado ontem e hoje. 2ª edição. Editora Vozes, Petrópolis, 1978 (a primeira edição é de 1977. Será aqui citado abreviadamente: Paixão. 




O modo como LB concebe a consciência que Jesus de Nazaré tinha de si mesmo e de sua missão se entende melhor a partir de sua doutrina sobre a divindade de Jesus:


LB se sente inteiramente à vontade para dizer e repetir catolicamente que “Jesus é verdadeiramente Deus”. Eis, porém, como explica esta verdade de fé em Libertador: Pensa LB que todo ser humano tem por sua natureza uma abertura tal a Deus que o torna “capaz do Infinito” (p. 221). Este princípio da antropologia transcendental é então assim aplicado: “Jesus realizou de forma absoluta e cabal esta capacidade humana, a tal ponto de poder identificar-se com o Infinito.A Encarnação significa a realização exaustiva e total de uma possibilidade que Deus colocou pela criação dentro da existência humana”.


Depois esclarece: “O homem pode, pelo amor, abrir-se de tal modo a Deus e aos outros, que chega a esvaziar-se totalmente de si mesmo e plenificar-se na mesma proporção pela realidade dos outros e de Deus. Ora, isso se deu exatamente com Jesus Cristo” (Libertador p. 221).



Daí sua repetida exclamação aproveitada de Santo Agostinho: “Humano assim como Jesus só poderia ser Deus mesmo!” (pp. 171, 193, 269). Tanto se entusiasmou por esta formulação que a colocou como título do capítulo décimo de Libertador. Mas o que se realizou em Jesus de Nazaré poderia ocorrer igualmente em cada ser humano: “Nós outros, irmãos de Jesus, temos recebido de Deus e dele o mesmo desafio: de nos abrirmos mais e mais a tudo e a todos, para podermos ser, à semelhança de Cristo, repletos da comunicação divina e humana” (p. 221).


Na p. 269, LB explica o que entende por Encarnação: “Abrir-se a Deus de tal forma que (Jesus) pôde identificar-se com Ele. A encarnação designa exatamente a absoluta e exaustiva realização desta possibilidade contida dentro do horizonte da realidade humana, pela primeira vez concretizada por Jesus de Nazaré. Sua história pessoal revelou um tipo de ser-homem, uma forma de comportamento, de falar, de relacionar-se com Deus e com os outros que rompia os critérios comuns de interpretação religiosa. Sua profunda humanidade deixou transparecer estruturas antropológicas numa limpidez e transparência para o Divino que superaram tudo o que até então na história religiosa da humanidade havia surgido. Humano assim como Jesus só poderia ser Deus mesmo. Por causa de tudo isso Jesus de Nazaré foi designado com justa razão de Cristo”.



Já que esta Encarnação pode ser repetida por todos os seres humanos, existe em todos eles uma estrutura crística, que é anterior ao Jesus histórico e dele independente, mas nele se manifestou de forma absoluta e exaustiva (p. 269). Tal “estrutura crística” não tem nenhuma referência especial ou necessária ao Mistério Pascal de Jesus, que é apenas seu grande modelo. “Todas as vezes que o homem se abre para Deus e para o outro, sempre que se realiza verdadeiro amor e superação do egoísmo, quando o homem busca justiça, solidariedade e perdão, aí se dá verdadeiro cristianismo e emerge dentro da história humana a estrutura crística” (p. 269s).



Será, pois, sempre um processo de autorredenção mediante a estrutura crística virtualmente presente em cada ser humano. Eis o que de fato aconteceu com o homem de Nazaré: “Jesus em sua humanidade viveu com tal radical idade a estrutura crística que deve ser considerado como o melhor fruto da evolução humana… ; como aquele homem que já atingiu a meta do processo de humanização do homem” (p. 271). 



Assim LB pode estabelecer esta tese: “A plena hominização do homem supõe a hominização de Deus” (p. 272, título). Daí a doutrina: “O homem mais perfeito, completo, definitivo e acabado é aquele que pôde identificar-se e ser-um com o Infinito. Ora, Jesus de Nazaré foi aquele ser humano que realizou essa possibilidade humana até o extremo e assim logrou chegar à meta da hominização. Porque foi de tal forma aberto a Deus a ponto de ser totalmente repletado por Ele, é que deve ser chamado de Deus encarnado” (p. 272s). 



Eis a Encarnação na teologia Boffenta:



Mas todos podem chegar a isso: “O homem, para tornar-se verdadeiramente ele mesmo, deve poder realizar as possibilidades inscritas em sua natureza, especialmente essa de poder ser um com Deus. Quando o homem chega a tal comunhão com Deus a ponto de formar com Ele uma unidade sem confusão, sem divisão e sem mutação, então atinge seu ponto máximo de hominização. Quando isso se verifica, Deus se humaniza e o homem se diviniza, e surge na história Jesus Cristo” (p. 273). 




Não sei se com estes conceito acima o Próprio Boff se enquadra neles aponto de considerar-se um ser divinizado, ou seja: “sem confusão, sem divisão e sem mutação, então atingiu seu ponto máximo de hominização.”



Tomando tudo isso a sério, deve-se concluir que Jesus de Nazaré não era o Verbo encarnado desde sua conceição, mas foi divinizando-se pouco a pouco até ser “totalmente repleto”. É nesse lento processo de divinização ou plena hominização que devemos entender também a progressiva consciência que Jesus de Nazaré não era o Verbo encarnado desde sua conceição, mas foi divinizando-se pouco a pouco até ser “totalmente repleto”. É nesse lento processo de divinização ou plena hominização que devemos entender também a progressiva consciência que Jesus foi adquirindo e que tinha de si mesmo.



Mas, para podermos conhecer a autoconsciência de Jesus, não podemos, segundo LB, recorrer sem mais às afirmações que os evangelistas lhe atribuem:


Pois, segundo LB, os Evangelhos foram escritos numa mentalidade “pré-científica, mítica e acrítica’ (p. 46); são “o resultado de um longo processo de reflexão, pregação e catequese que a comunidade dos discípulos elaborou sobre Jesus” (p. 46); são “a cristalização da dogmática da Igreja primitiva” (p. 46); “contêm POUCO do Jesus histórico, assim como ele foi e viveu” (p. 47); “retratam as tradições e o desenvolvimento dogmático da Igreja primitiva” (p. 48). Em suma, escreve LB em Paixão p. 73: “A situação atual dos textos neotestamentários, como ter-se-á evidenciado nas reflexões anteriores, vem cercada de tal forma por interpretações teológicas que já não se permite a reconstrução histórica do caminho de Jesus. O Jesus histórico só nos é acessível na mediação do Cristo de nossa fé. Em outras palavras: entre o Jesus histórico e nós existem as interpretações interessadas dos primeiros cristãos. Esta situação é objetiva e, em sua globalidade, insuperável”.(Poderia ser uma citação de Bultmann).



Insistindo fortemente na distinção entre um fato histórico e seu significado ou sua interpretação teológica posterior, LB, dizendo-se constantemente apoiado em bons exegetas, recorre a um expediente relativamente fácil para determinar o que é “histórico” e o que é “teológico” ou interpretação à luz do plano divino. Quando nalgum texto atribuído pelos evangelistas ao Jesus histórico se encontram elementos “teológicos”, ele é declarado simplesmente “não-histórico” e creditado à reflexão teológica posterior e não mais ao Jesus histórico (incapaz de ser teólogo).


Temos em LB um exemplo típico da aplicação conseqüente da hermenêutica bíblica racionatista, que seria “científica”. Como Rudolf Bultmann, LB opina que sabemos muito pouco sobre o Jesus histórico, mas, quando lhe convém, supõe, conhecer tão bem seu pensamento que é capaz de afirmar serenamente que Jesus tinha sobre tal ou tal ponto tal ou tal posição, que as comunidades palestinenses ou helenísticas depois modificaram de tal ou tal maneira… 



Eis alguns exemplos desta pulverização dos evangelhos em seu livro Paixão:



– Na p. 42: todo o processo contra Jesus era reflexão teológica posterior: “A historicidade de todos estes dados é assaz discutida sem possibilidade de um consenso por causa da precariedade das próprias fontes. Acresce ainda que não constam da parte dos evangelistas testemunhos oculares do processo contra Jesus. O que os evangelistas referem, é reflexão teológica com forte acento em textos do AT”.


– Na p. 45: a entrada de Jesus em Jerusalém é um fato que “foi depois da ressurreição embelezado”. “Estamos, pois, mais diante de teologia do que de história fatual”.


– Na p. 46: o texto da purificação do templo, principalmente sobre o Filho do Homem que virá como juiz e libertador, “já é reflexão pós-pascal”.


– Na p. 46s: a cena da última ceia é colocada num “marco teológico e não histórico”. Os. textos eucarísticos não são de Jesus histórico. Mas sobre isso haverá depois informações mais detalhadas.


– Na p. 49s: a tentação do Getsêmani: “O atual relato vem urdido de teologia em função das necessidades parenéticas da Comunidade primitiva”. “As palavras da oração de Jesus parecem ser elaboração da Comunidade primitiva” (p. 50). A recomendação de vigiar e orar “é muito provavelmente um lógion parenético das primeiras comunidades”. Depois: “A consciência da tentação de Jesus, de como suportou e venceu na oração, levou a comunidade a elaborar a cena do Getsêmani. Seu conteúdo não se cinge a fatos históricos concretos, nas concerne à reflexão cristológica sobre Jesus” (p. 51).


– Na p. 52, sobre todo o processo da condenação de Jesus: “Historicamente certos são os fatos da crucificação, de condenação por Pilatos e da inscrição no alto da cruz em três línguas conhecidas dos judeus. Os demais fatos ou são urdidos de teologia ou constituem pura teologia, elaborada à luz da ressurreição e da reflexão sobre o AT”.


– Na p. 56: “As cenas de Herodes, de Barrabás, do ecce Homo e do lavar das mãos, como sinal de inocência, parecem estar a serviço de um motivo apologético da Igreja primitiva. Devem mostrar que o cristianismo não é perigoso ao Estado romano”.



– Não p. 58: as sete palavras de Jesus na cruz, com exceção da de Mc 15,34 (à qual voltaremos depois), “possuem valor histórico discutível”.


– Na p. 58: “Os sinais que se seguem à morte de Jesus constituem outros tantos procedimentos literários para recalcar o significado e a importância do fato”. A informação sobre o véu do templo que se rasgou de cima para baixo não refere um fato histórico, é um código literário. A confissão da fé do centurião romano ao pé da cruz “é profissão de fé do evangelista e de sua comunidade”.


– Na p. 62s: o texto de Mc 8,31 (sobre a “necessidade” do sofrimento de Jesus) “é pregação da comunidade primitiva e não palavra do Jesus histórico”.


– Na p. 65, sobre o texto de Mc 10,45 (“O Filho do Homem veio para dar sua vida em redenção de muitos”): “pertence ao código teológico de Marcos”. Particularmente o importante inciso:“dar a vida em resgate” é um acréscimo posterior “interpretando-se a vida e a morte de Jesus num sentido sacrifical” (p. 66). 


– Na p. 67: Mc 14,6-8 (sobre a consciência de Jesus acerca de seu sepultamento): é uma adição posterior.


Com tanta teologia nos textos e tão poucos fatos históricos, já é evidente que não estamos em condições de saber grande coisa sobre a consciência de Jesus acerca de si mesmo e de sua obra:



Tem-se a impressão de que Jesus, segundo a ACHOLOGIA de LB, antes de sua ressurreição, era incapaz de fazer “teologia” ou de conhecer a vontade do Pai a seu respeito.
Pode-se sem mais conceder que os Apóstolos e discípulos de Jesus passaram por um profundo processo evolutivo na compreensão da natureza e da missão de seu Mestre. Para eles a gloriosa ressurreição do Senhor significou de fato uma total reviravolta em suas concepções.


Os dois discípulos de Emaús, que, como os demais (cf. At. 1,6), tinham posto em Jesus suas ilusões messiânicas terrenas, receberam esta enérgica repreensão de Jesus Ressuscitado:


“Oh insensatos e lentos de coração para crer em tudo o que os profetas anunciaram! Não era preciso que o Cristo sofresse tudo isso e entrasse em sua glória?” E, continua a informação do evangelista, “começando por Moisés e por todos os Profetas, (Jesus) interpretou-lhes em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito” (Lc 24,25-27).


E aos Apóstolos o Senhor Glorificado se dirigiu nestes termos:


“São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco:era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”.


E continua o evangelista:


“Então(Jesus) abriu-lhes a mente para que entendessem as Escrituras” (Lc 24,44-45). Foi também para isso que Jesus lhes prometeu o Espírito Santo:“Ele vos conduzirá à verdade plena” (Jo 16,13); “sereis revestidos da força do Alto” (Lc 24,29; At 1,4-5). E no dia de Pentecostes Jesus “derramou” sobre eles a luz divina (At 2,33) e eles começaram a entender a teologia.



Mas é necessário distinguir claramente entre este processo evolutivo dos seguidores de Jesus e o tipo de conhecimento que o próprio Jesus foi adquirindo em sua vida terrestre antes de sua glorificação:



LB “acha”(portanto, mera Achologia), que constantemente Jesus, antes da ressurreição, estava sujeito às mesmas limitações dos Apóstolos e que até viveu profundamente afetado pelas falsas concepções de uma imaginada mentalidade escatológica e apocalíptica de seu ambiente e tempo.


Não se pode igualar Jesus com os Apóstolos:


A diferença é profunda e incomensurável. Jesus histórico é de fato e historicamente “o Verbo que se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).Não podemos simplesmente desconhecer a inaudita graça da “união hipostática” no Jesus histórico pré-pascal, que faz dele um ser totalmente diferente dos Apóstolos.


A maneira como LB imagina a lenta “divinização” de Jesus ou, como ele prefere, sua “plena hominização”(cf. Libertador pp. 268-274), significa pura e simplesmente a negação do dogma da união hipostática. Nem devemos esquecer o que aconteceu com o Jesus histórico logo depois do batismo, “como Deus o ungiu com o Espírito Santo e com poder” (At 10,36; ct. Mt 3,16).


Se os Apóstolos ou as primeiras comunidades cristãs, por terem testemunhado a Ressurreição e recebido o Espírito Santo, eram tão capazes de fazer teologia e interpretar os fatos da vida de Jesus à luz do plano eterno do Pai, por que não podemos admitir idêntica ou maior capacidade em Jesus, hipostaticamente unido ao Verbo, especialmente ungido pelo Espírito Santo e intimamente identificado com o Pai?





O XEQUE MATE NA ACHOLOGIA BOFFENTA:




Se o Paulo histórico podia ser “arrebatado até o paraíso, ouvir palavras inefáveis” e “receber revelações extraordinárias” (cf. 2Cor 12, 1-7), que motivos haveria para negar ao Jesus histórico conhecimentos verdadeiramente “teológicos” e“revelados”, sobretudo quando ele mesmo afirma que os recebeu? “Não falo
por mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, me prescreveu o que devo dizer e o que devo falar” (Jo 12,49). Se já antes da Ressurreição, o Pai revelava aos infantes os mistérios do Reino (cf. Mt. 11,25; 13,11), por que o divino Infante Jesus não podia receber revelações do Pai?





Em sua obra anterior Libertador (de 1972), na p. 128, LB examina os textos segundo os quais Jesus profetizou seus sofrimentos (Mc 8,31; 9,31; 10,32-34 par.) e assume a morte sobre si como sacrifício para a redenção dos homens (Mc 10,45; Lc 22,19s; Mt 26,26.28). Já que tais profecias supõem um conhecimento bastante pormenorizado da paixão e ressurreição, conclui LB:




“Parece que, realmente, são vaticinia ex eventu, formuladas posteriormente com o fito de dar sentido ao problema teológico contido na pergunta: Se Deus se manifestou estar do lado de Cristo pela ressurreição,por que não manifestou isso antes?”(em Paixão p. 63 LB repete esta tese). LB insiste particularmente em Mc 10,45 (“… para dar a sua vida pela redenção de muitos”) e afirma que esta formulação “foi colocada na boca de Jesus pela comunidade”, já que o texto paralelo de Lucas não possui caráter soteriológico. LB passa então aos importantes textos eucarísticos (1 Cr 11,27-26; Mc 14,22-25; Lc 22,15-20; Mt 26,26-29),para dizer que, “parece, supõem uma teologia e uma práxis eucarística da Igreja primitiva”. Admite como “jesuânicas” (vocábulo por ele usado para textos considerados autênticos e do próprio Jesus histórico) apenas as palavras referidas por Lc 22,15-19a.29, por terem um caráter escatológico (e não soteriológico, conceito que não cabe no divino Salvador… ). E por isso, segundo o texto lucano, a última ceia tem um sentido escatológico para significar “a antecipação da festa no Reino de Deus que Cristo quis celebrar com seus amigos mais íntimos antes que irrompesse a nova ordem” (p.129). Pois, e isso, sim, é, para LB, histórico e autêntico: Jesus vivia no ambiente apocalíptico e escatológico da época e acreditava firmemente que o Reino iria irromper em sua vida (p. 129).



Mas segundo LB a última ceia como momento da instituição da Eucaristia,com sentido soteriológico, de fato não aconteceu antes da morte de Jesus:


Houve apenas uma ceia, como tantas tinha havido antes, mas que agora veio a ser a última, com sentido simbólico escatológico. O próprio Jesus, nesta última ceia, ainda não sabia que iria morrer ou que “devia” morrer. Ele ainda desconhecia o plano de Deus.



Para entender a consciência de Jesus, segundo a ACHOLOGIA de LB confere extrema importância às últimas palavras de Jesus moribundo registradas por Mc 15,34:


“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” Aliás, seriam, segundo LB, as únicas palavras historicamente garantidas de Jesus na cruz (p. 58) e seu último grito. Ele chega a escrever: “A cristologia e o tema da consciência messiânica de Jesus e de seu caminho concreto deve, ao nosso modo de ver, ser pensado a partir de Mc 15,34” (Paixão p. 69).



Contava Jesus com a morte violenta? 




Segundo a ACHOLOGUA de  LB em Libertador p. 129, Jesus tinha a consciência de ser o instrumento determinante para a vinda total do Reino. Embora intimamente unido à vontade do Pai, Jesus podia ser tentado “e não sabia exatamente que futuro lhe estaria reservado. No ambiente apocalíptico da época,dentro do qual Cristo mesmo se situa, acreditava-se segundo sua achologia que o Reino iria irromper após uma renhida luta entre as forças do mal( Os ricos) e do bem”(Os pobres). Jesus quer cumprir a vontade do Pai, “que ele não conhece exatamente até o fim”. Ele “entrevia a possibilidade da morte, mas não tinha a certeza absoluta dela.O brado derradeiro, no alto da cruz: “Meu Deus, meu Deus por que me abandonaste?” (Mc 15,34) pressupõe a fé e a esperança inabaláveis de que Deus não iria deixá-la morrer, mas que, mesmo no último instante, iria enfim salvá-la. Agora, porém, na cruz, sabe com toda a certeza: Deus quer que ele seja fiel até o fim com a morte” (p. 130).




Em Paixão p. 68, LB comenta: “Aqui estamos diante da máxima tentação suportada e vivida por Jesus; poderíamos formulá-la assim: Será que não terá sido em vão todo o meu compromisso? Será que o Reino não virá? Será que terá sido tudo uma doce ilusão? Não haverá um derradeiro sentido para o drama humano? Será que não sou eu o Messias? As representações que Jesus se fizera, homem que era, se desmantelaram completamento. Encontra-se nu, desarmado, totalmente vazio diante do Mistério”.



Depois, na p. 69, LB pergunta: “Como Jesus interpretou sua morte?”


E responde: “Como resultou dos textos referidos acima, nenhum deles goza de autenticidade jesuânica suficiente para nos abrir a porta da consciência e ciência prévia acerca da sua morte próxima.


Somos da opinião(ACHOLÓGIA BOFFENTA) que Jesus, somente no alto da cruz, deu-se conta de que seu fim realmente estava próximo e que podia realmente morrer. Então num grande grito externa seu profundo desamparo, quase diríamos de decepção, e se entrega ao Meu Deus”: Depois da tentativa de reconstruir o caminho do Jesus histórico (aliás de valor “precário, hipotético e caduco”, como ele mesmo reconhece na p. 73), LB torna a interrogar na p. 82: “Que sentido Jesus deu à sua morte?” Já sabemos que o forte de Jesus não era a teologia. LB acaba respondendo com H. Kessler que, garante LB, “diz com acerto”: “Com toda a probabilidade a pesquisa atual neo-testamentária pode dizer: Jesus não entendeu sua morte como sacrifício expiatório, nem como satisfação, nem como resgate. Nem estava em sua intenção precisamente mediante sua morte redimir os homens”.


Em resumo: Jesus só tinha a consciência de ser o instrumento determinante para a irrupção iminente do Reino (“Jesus viveu a efervescência da irrupção iminente”, p. 71). Reino que ele, como vítima também ele das concepções escatológico-apocalípticas de seu tempo, imaginava que iria irromper em seus dias. Mas na cruz perdeu também esta consciência, aliás bem equivocada, que merece nota insuficiente. 



Esta insistência na equivocada expectativa do Jesus histórico de presenciar ele mesmo a irrupção escatológica ou apocalíptica do Reino, merece uma observação crítica:



ENTENDENDO O SACRIFÍCIO REDENTOR DE CRISTO POR NÓS:



No Antigo Testamento animais eram sacrificados, pois havia uma aliança entre Deus e o povo de Israel, na qual esses deveriam cumprir a referida aliança obedecendo à Lei. Cabia ao povo ser fiel, todavia, a Lei era muitíssimo rígida, tanto que era quase impossível cumpri-la à risca. Deste modo, foram criados mecanismos para a chamada “expiação”, por meio da qual o povo seria redimido de suas faltas. Um dia no ano era dedicado à expiação - o Yom Kipur. O Sumo Sacerdote entrava no Santo dos Santos, lugar mais sagrado do Templo - onde pronunciava o nome de Deus e aspergia o propiciatório com o sangue das “vítimas”. O propiciatório, por sua vez, era o lugar onde Deus estava. O sangue significava que o homem merecia, de fato, a morte, pois não obedera a Lei. Ao jogar o sangue cheio das misérias naquele lugar santo, ele se tornava purificado por causa da presença de Deus. O Santíssimo (Deus) purificava o sangue (povo).



Ora, logo os profetas passaram a denunciar a insuficiência desses cultos e sacrifícios. Era evidente que o sangue de touros, bodes e carneiros não purificava nada. O sacrifício era sempre incompleto e precisava ser repetido todos os anos. Era desejo de Deus que os homens O obedecessem, que cumprissem a Lei plenamente. E, para que o povo honrasse a Aliança era necessário que tivesse um novo coração. Foi o profeta Ezequiel que deu a chave: “ Dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e voz darei um coração de carne” (36,26).



O Antigo Testamento se fecha, portanto, com essa grande expectativa: um coração novo! E a promessa se cumpriu em Jesus Cristo. Deus se fez homem para dar ao homem um coração novo, um coração obediente que realizou a Lei completamente e a Aliança Perfeita. A união perfeita entre Deus e o homem acontece na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo.


O Catecismo da Igreja Católica resume de forma magistral esta realidade:


Quando São Paulo diz de Jesus que “Deus o destinou como instrumento de propiciação, por seu próprio Sangue, quer afirmar que na humanidade deste último “era Deus que em Cristo reconciliava consigo o mundo. (CIC 433)



Jesus é o propiciatório! Ao derramar Seu sangue na Cruz, o sangue da vítima toca o propiciatório, por assim dizer e ali acontece o sacrifício expiatório definitivo, posto que perfeito. Na Cruz, o puro e imaculado que é Jesus, toma sobre si os pecados da humanidade. Não mais simbolicamente, como no Antigo Testamento, mas de forma real. A miséria, o pecado, a desgraça, a morte tocam no propiciatório que é Jesus e tudo é lavado, purificado, liberto. Para isso é que foi necessária a morte de Cristo na Cruz. 


Em todas as missas, pouco antes de os fiéis serem chamados à comunhão eucarística, ouvimos o sacerdote dizer: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Você sabe o que isso quer dizer? Para que compreendamos a fundo o sentido desta expressão, precisamos nos debruçar, primeiramente, sobre o Antigo Testamento.



O cordeiro imolado no A.T.


Antes que Deus chamasse Abraão para estabelecer com Ele uma Aliança, era muito comum que povos das mais diversas etnias sacrificassem animais, e até mesmo seres humanos, aos seus deuses. Eles acreditavam que todas as coisas ruins que aconteciam no mundo eram fruto da ira divina, que precisava ser aplacada (faltava-lhes o conhecimento sobre o pecado original). Assim, seria preciso realizar algum ato que pudesse agradar a(os) deus(es), como abrir mão de algo muito valioso para demonstrar devoção e apreço – neste caso, sacrificar cabeças de gado ou pessoas, que podiam ser inimigos ou até mesmo parentes.

O Deus de Israel repudiou de forma veemente o sacrifício de seres humanos – exceto naquela vez em que de forma aparente exigiu o sacrifício de Abraão. Aparente porque levou o mesmo a crer que deveria sacrificar Isaac, incorporando o sacrifício ritual de animais na cultura religiosa do povo escolhido.Quando o Faraó recusou-se a deixar os escravos hebreus partirem, o Senhor lançou sobre o Egito uma última e terrível praga: a morte de todos os primogênitos. Seguindo a orientação de Moisés, antes da noite do extermínio, cada família israelita sacrificou um cordeiro ou cabrito, que deveria ser “macho, sem defeito, e de um ano” (Ex 12,5). O animal deveria ser comido, e o seu sangue deveria ser passado nos batentes das portas:


Eu sou Javé. O sangue nas casas será um sinal de que estais dentro delas: ao ver o sangue, Eu passarei adiante. E o flagelo destruidor não vos atingirá, quando Eu ferir o Egito. (Ex 12,12-13)



E assim se estabeleceu a celebração da Páscoa judaica. O sangue do cordeiro macho e sem defeito livraria o povo da morte do corpo, assim como o Sangue de Cristo – Deus e Homem sem defeito, sem mácula – livraria os cristãos da morte da alma, após a nova Páscoa. O cordeiro imolado do A.T. era uma imagem do Cordeiro Imolado do N.T.Assim, ao renovar a Sua Aliança com o povo hebreu por meio de Moisés, o Deus de Israel estabeleceu que o perdão dos pecados se daria por meio do sacrifício de animais, inclusive de cordeiros. Os pecados da pessoa eram “transferidos” para o animal por meio da imposição de mãos, e este deveria morrer em seu lugar – da mesma forma como, depois, o peso dos pecados humanos recairia sobre Cristo, que aceitou morrer por nós.



Em Levítico 4, está detalhado como o “rito pelo pecado” era feito: conforme a “classe” a que o pecador pertencesse, deveria apresentar no templo um determinado tipo de animal para ser imolado. Se o pecador fosse sacerdote, deveria sacrificar um bezerro; se fosse um chefe do povo, levaria um bode (taí a origem da expressão “bode expiatório”); se fosse homem comum, apresentaria uma cabra ou ovelha. Entretanto, a oferta de uma cabeça de gado para o sacrifício expiatório representava um prejuízo patrimonial considerável; por isso, caso o pecador fosse pobre, poderia oferecer duas rolas ou dois pombinhos.Após o animal ser morto pelo sacerdote, seu sangue era derramado nos cantos do altar e em sua base. Depois, o corpo do animal era queimado e suas cinzas eram jogadas fora do acampamento, como forma de simbolizar que o pecado fora levado para bem longe da comunidade.

Em Levítico 5, o cordeiro é citado como um animal sacrificial:


“Se alguém, sem se dar conta, praticar alguma coisa proibida pelos mandamentos de Javé, será responsável e carregará o peso da sua falta.Como sacrifício de reparação, levará ao sacerdote um cordeiro sem defeito, avaliado em proporção com a culpa. O sacerdote fará o rito pelo pecado cometido sem saber, e o pecador ficará perdoado.” (Lev 5, 18-19)



Mas como o sangue de animais podia ser capaz de lavar os pecados dos homens?


Não podia. Este rito prescrito pela Lei de Moisés era apenas de caráter educativo, simbólico e provisório. Por meio dele, o Senhor levava o povo a compreender que o pecado sempre traz más consequências – sendo a morte a pior delas. Na sua Carta aos Hebreus, está declarada a ineficácia dos sacrifícios de animais para a justificação dos pecados :



“A Lei possui apenas uma sombra dos bens futuros, e não a realidade concreta das coisas. Por isso, mesmo oferecendo sacrifícios continuamente, ano após ano, a Lei não tem poder de conduzir à perfeição aqueles que participam nesses sacrifícios...uma vez que é impossível eliminar os pecados com o sangue de touros e carneiros.”(Heb 10,1;4)


O sacrifício do cordeiro prescrito pela Lei de Moisés era, portanto, apenas um rascunho, um símbolo do sacrifício que Jesus aceitaria realizar na cruz – este sim, eficaz, perfeito e definitivo.



O Cordeiro Imolado no N.T



Certo dia, estando o João a batizar o povo e a pregar, viu Jesus se aproximando. Então, olhou para Ele e disse:


“Eis o Cordeiro de Deus, Aquele que tira o pecado do mundo...E João testemunhou: “Eu vi o Espírito descer do céu, como uma pomba, e pousar sobre Ele. (…) E eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus”. (João 1,29; 32; 34)



Com Sua Paixão e Morte, Jesus Cristo remiu os pecados da humanidade com o Seu sangue precioso. Ele é a vítima perfeita, que, com seu sacrifício, apagou definitivamente da alma dos batizados a mancha do pecado original, ofensa imensa a qual nenhuma criatura tinha poder de desagravar.Assim, foi revogado o sacrifício da Antiga Aliança, que dependia da morte de animais para a expiação dos pecados, e foi estabelecido o sacrifício da Nova Aliança, por meio da morte de Cristo.



RESUMINDO:



Deus criou o homem segundo a sua imagem e semelhança, o homem era bom, assim como todas as coisas que Deus fez. Mas, influenciado pelo demônio, o homem foi tentado a pecar contra Deus e pecou. Esse pecado afastou o homem de Deus e o condenou à morte. De lá para cá a história se repete a cada criança que nasce já com a mancha do pecado original (das origens).Nascemos com uma natureza contaminada pelo pecado de Adão e Eva, e o destino natural desta natureza quando nos entregamos desordenadamente a ela é a morte eterna. Mas Deus intervém na história e decide resgatar o homem e para isso ele envia Jesus Cristo, seu único filho para sofrer e morrer na cruz e assim pagar pelo nossos erros. Jesus morreu por mim e em meu lugar, ali na cruz Jesus foi castigado e sofreu a irá de Deus para que eu e você não precisássemos sofrer.


Por que Deus fez isso?


Você encontra outra explicação a não ser no amor? Tínhamos algum crédito com Deus e ele estava nos retribuindo? Não. Jesus morreu por mim sem eu merecer e mais, sem eu ter nada para dar em troca.Não seria uma profunda ingratidão virarmos as costas para aquele que nos amou incondicionalmente?


O QUE NOS DIZEM AS ESCRITURAS SOBRE ISTO?


1)- O senhor Morreu por mim e por você: (1Ped 3,18; Gal 1,3-4; 1Jo. 3,16a; 1Cor 1,18).


2)- O sangue precioso de Jesus Cristo que permitiu que fossem salvos:(Ef. 2,13; Hb. 10,19; 13,20; Cl. 1,20; 1Pe. 2,6-7; Ap. 1,5b; 2Tm. 3,15).


3)- Foi através desse sangue, desse sacrifício salvívico que a inimizade entre Deus e os homens foi jogado por terra: (Rom. 8,5-9; Tg. 4,4)

“Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos. (Isaías 53,6).



Jesus Cristo, naquela cruz, tomou o nosso lugar. Nós, mortos em ofensas e pecados, estávamos condenados a sofrimentos eternos entregues aos apetites da nossa natureza.Mas por amor, Deus entregou o seu Filho Unigênito e este se fez carne, habitou entre nós, cumpriu a Lei e tornou-se apto para ser o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, e libertar-nos do poder das trevas, o mal já não tem mais a última palavra. O sacrifício único e redentor de Cristo trouxe nova perspectiva de vida àqueles que reconhecem e confessam e vivem sua fé neste sacrifício.O grande símbolo do amor de Deus é o fato d’Ele ter dado o seu Filho unigênito para morrer na cruz em nosso lugar. Através de Seu Filho, Deus manifesta a Sua enorme graça, preparando de si e para si o Cordeiro que justifica os pecados do mundo.


Romanos 5,18 afirma:

“Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida. 


Através de Jesus Cristo e Seu sacrifício, o acesso entre nós e Deus foi religado. Isaías 59,2 diz que os pecados fazem separação entre nós e Deus, de modo que Ele não nos ouça.Porém, em Jesus temos remissão de pecados e podemos viver um relacionamento íntimo com Deus através do novo e vivo Caminho que nos abre o acesso ao Pai (João 14,6).


Jesus Cristo morreu na cruz pagando o preço de nossos pecados, é verdade, mas a história não termina na cruz. Após três dias, Jesus Cristo ressuscitou, apareceu aos seus discípulos e depois de 40 dias, subiu aos céus (Lucas 24; Atos 1). E deixou uma promessa: Ele voltará para buscar o Seu povo e nos levará para estar com Ele, para sempre (João 14,1-3).Ele morreu em nosso lugar. Aquele sacrifício lá na cruz e a ressurreição, tem poder para transformar a nossa história pessoal e de toda humanidade.Ele tomou o nosso lugar e por isso, somos alcançados por Sua graça e d’Ele e por Ele recebemos perdão pelos nossos pecados; por meio dEle, temos acesso direto ao Pai; por meio dEle, somos participantes das promessas e bênçãos feitas a Abraão; por meio dEle, temos a esperança de eternidade e não mais viver sobre o jugo da escravidão do pecado, pois Cristo nos libertou e foi para verdadeira liberdade que ele nos criou (não confundir liberdade com libertinagem), pois assim está escrito:


“Foi para a liberdade que Cristo nos libertou! Portanto, permanecei  firmes e não vos sujeiteis outra vez a um jugo de escravidão...” (Gálatas 5,1).





O Sacrifício de RECONCILIAÇÃO de Cristo nosso Senhor:



"DEIXAI-VOS RECONCILIAR COM DEUS" – Homilia de Frei Raniero Cantalamessa – Semana Santa 2016

 
"Deus nos reconciliou consigo por meio de Cristo e nos confiou o ministério da reconciliação [...] Suplicamo-vos em nome de Cristo: deixai-vos reconciliar com Deus. Aquele que não tinha conhecido o pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nos tornássemos justiça de Deus. Posto que somos seus colaboradores, exortamo-vos a não negligenciar a graça de Deus. Ele, com efeito, diz: ‘No tempo favorável te ouvi e no dia da salvação te socorri’. Eis agora o tempo favorável; eis agora o dia da salvação!” (2 Cor 5, 18; 6,2).



Estas são palavras de São Paulo na Segunda Carta aos Coríntios. O apelo do apóstolo a reconciliar-se com Deus não se refere à reconciliação histórica entre Deus e a humanidade (esta, ele acaba de dizer, já se realizou através de Cristo na cruz); tampouco se refere à reconciliação sacramental que acontece no batismo e no sacramento da reconciliação; refere-se a uma reconciliação existencial e pessoal, a ser vivida no presente. O apelo é dirigido aos cristãos de Corinto que são batizados e vivem há tempo na Igreja; é dirigido, por isso, também a nós, aqui e agora. “O tempo favorável, o dia da salvação” é, para nós, o ano da misericórdia que estamos vivendo.


Mas o que significa, em sentido existencial e psicológico, reconciliar-se com Deus?


Uma das razões, talvez a principal, da alienação do homem moderno da religião e da fé é a imagem distorcida que ele tem de Deus. Qual é, de fato, a imagem "predefinida" de Deus no inconsciente humano coletivo? Para descobrir, basta fazer-se esta pergunta:


"Que associação de ideias, que sentimentos e reações surgem em mim, antes de qualquer reflexão, quando, na oração do pai-nosso, chego às palavras ‘seja feita a vossa vontade’"?



Quem as diz é como se inclinasse interiormente a cabeça em resignação, preparando-se para o pior. Inconscientemente, vincula-se a vontade de Deus com tudo o que é desagradável, doloroso, com aquilo que, de uma forma ou de outra, pode ser visto como mutilação da liberdade e do desenvolvimento individual. É um pouco como se Deus fosse o inimigo de toda festa, alegria, prazer, enfim um Deus ranzinza e inquisidor.


Deus é visto como o Ser Supremo, o Onipotente, o Senhor do tempo e da história, isto é, como uma entidade que, de fora, se impõe ao indivíduo; nenhum particular da vida humana lhe escapa. A transgressão da Sua lei introduz inexoravelmente uma desordem que exige uma reparação adequada, que o homem sabe ser incapaz de lhe dar. Daí o medo e, às vezes, um surdo rancor contra Deus. É um resquício da ideia pagã de Deus, nunca erradicada de todo, e talvez inerradicável, do coração humano. É nela que se baseia a tragédia grega; Deus é aquele que intervém, através da punição divina, para restaurar a ordem perturbada pelo mal.



É claro que nunca foi ignorada, no cristianismo, a misericórdia de Deus! Mas a ela foi confiada apenas a incumbência de moderar os rigores irrenunciáveis ​​da justiça. A misericórdia era o expoente, não a base; a exceção, não a regra. O ano da misericórdia é a oportunidade de ouro para trazer de volta à luz a verdadeira imagem do Deus bíblico, que não somente tem misericórdia, mas é misericórdia.Esta afirmação ousada se baseia no fato de que "Deus é amor" (1 Jo 4, 8.16). Só na Trindade Deus é amor sem ser misericórdia. Que o Pai ame o Filho não é graça ou concessão; é necessidade: Ele precisa amar para existir como Pai. Que o Filho ame o Pai não é misericórdia ou graça; é necessidade, mesmo que liberíssima: Ele precisa ser amado e amar para ser Filho. O mesmo deve ser dito do Espírito Santo, que é o amor feito pessoa.



É quando cria o mundo e, nele, as criaturas livres que o amor de Deus deixa de ser natureza e se torna graça. Este amor é uma livre concessão: poderia não existir; é hesed, graça e misericórdia. O pecado do homem não muda a natureza deste amor, mas provoca nele um salto de qualidade: da misericórdia como dom se passa à misericórdia como perdão. Do amor de simples doação se passa para um amor de sofrimento, porque Deus sofre diante da rejeição ao seu amor. "Eu nutri e criei filhos, diz o Senhor, mas eles se rebelaram contra mim" (Is 1, 2). Perguntemos aos muitos pais e mães que tiveram essa experiência se isto não é sofrimento, e dos mais amargos da vida.


E o que é da justiça de Deus? É esquecida ou desvalorizada?


A esta pergunta quem respondeu de uma vez por todas foi São Paulo. Ele começa a sua exposição, na Carta aos Romanos, com uma notícia: "Manifestou-se a justiça de Deus" (Rm 3, 21). Nós nos perguntamos: qual justiça? Aquela que dá "unicuique suum", a cada um o que é seu, distribuindo prêmios e castigos de acordo com o mérito? Haverá, é verdade, um tempo em que se manifestará também essa justiça de Deus, que consiste em dar a cada um segundo os seus méritos. Deus, de fato, como escreveu pouco antes o Apóstolo:


"retribuirá a cada um segundo as suas obras: a vida eterna aos que, perseverando nas obras de bem, procuram glória, honra e incorruptibilidade; ira e indignação contra aqueles que, por rebelião, desobedecem à verdade e obedecem à injustiça" (Rom 2, 6-8).



Mas não é desta justiça que fala o Apóstolo quando escreve que "se manifestou a justiça de Deus". O primeiro é um evento futuro; este, um evento em ato, que acontece "agora". Se assim não fosse, a afirmação de Paulo seria absurda, negada pelos fatos. Do ponto de vista da justiça retributiva, nada mudou no mundo com a vinda de Cristo. Continuam, disse Bossuet, a ver-se muitas vezes no trono os culpados e no patíbulo os inocentes[1]; mas para que não se creia que há no mundo alguma justiça e ordem fixa, ainda que invertida, eis que às vezes se vê o contrário, ou seja, o inocente no trono e o culpado no cadafalso. Não é nisto, portanto, que consiste a novidade trazida por Cristo. Ouçamos o que diz o Apóstolo:


"Todos pecaram e foram privados da glória de Deus, mas são justificados gratuitamente pela sua graça, em virtude da redenção realizada por Cristo Jesus. Deus o estabeleceu como instrumento de expiação por meio da fé, no seu sangue, a fim de manifestar a sua justiça, depois da tolerância usada para com os pecados passados no tempo da divina paciência. Ele manifesta a sua justiça no tempo presente, para ser justo e justificar quem tem fé em Jesus" (Rm 3, 23-26).


Deus faz justiça a si mesmo ao ter misericórdia! Eis a grande revelação:


O Apóstolo diz que Deus é "justo e justificador": justo consigo mesmo quando justifica o homem; Ele, de fato, é amor e misericórdia; por isso faz justiça a si mesmo – demonstrando-se verdadeiramente como o que é – quando tem misericórdia.Mas nada disto se entende quando não se compreende o que quer dizer, exatamente, a expressão "justiça de Deus". Existe o perigo de se ouvir falar de justiça de Deus e, ignorando o seu significado, ficar-se com medo em vez de encorajado.


Santo Agostinho já tinha deixado claro:


"A 'justiça de Deus' é aquela pela qual, por sua graça, nós nos tornamos justos, assim como a salvação do Senhor (Sl 3,9) é aquela pela qual Deus nos salva"[2]. Em outras palavras, a justiça de Deus é o ato pelo qual Deus faz justos, agradáveis a Si, aqueles que creem no Seu Filho. Não é um fazer-se justiça, mas um fazer justos.



Lutero teve o mérito de trazer de volta à luz esta verdade depois que, durante séculos, pelo menos na pregação cristã, o seu sentido tinha se perdido, e é isto, principalmente, que a Cristandade deve à Reforma, cujo quinto centenário ocorre no próximo ano:


“Quando descobri isto, eu me senti renascer, e pareceu-me que se escancaravam para mim as portas do paraíso”[3], escreveu mais tarde o reformador.


Mas não foram nem Agostinho nem Lutero os que assim explicaram o conceito de "justiça de Deus"; foi a Escritura que o fez antes deles:
"Quando se manifestaram a bondade de Deus e o seu amor pelos homens, Ele nos salvou, não por causa de obras de justiça por nós praticadas, mas por causa da sua misericórdia" (Tt 3, 4-5). "Deus, rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, fez-nos, de mortos que estávamos pelo pecado, reviver com Cristo. Pela graça fostes salvos" (cf. Ef 2, 4).



Dizer que "se manifestou a justiça de Deus", portanto, é como dizer que se manifestou a bondade de Deus, o seu amor, a sua misericórdia. A justiça de Deus não só não contradiz a sua misericórdia como consiste precisamente nela.O que aconteceu na cruz de tão importante a ponto de justificar esta mudança radical nos destinos da humanidade? Em seu livro sobre Jesus de Nazaré, Bento XVI escreveu:



"A injustiça, o mal como realidade, não pode ser simplesmente ignorada, deixada acontecer. Deve ser eliminada, derrotada. Esta é a verdadeira misericórdia. E que o faça Deus mesmo, já que os homens não são capazes – esta é a bondade incondicional de Deus"[4].



Deus não se contentou em perdoar os pecados do homem; Ele fez infinitamente mais:


Ele os tomou sobre si mesmo. O Filho de Deus, diz São Paulo, "se fez pecado por nós". Palavra terrível! Já na Idade Média havia quem achasse difícil acreditar que Deus exigira a morte do Filho para reconciliar consigo o mundo. São Bernardo lhe respondia: "Não foi a morte do Filho que aprouve a Deus, mas a sua vontade de morrer espontaneamente por nós": "non mors placuit sed voluntas sponte morientis"[5]. Não foi a morte, portanto, mas o amor que nos salvou! O amor de Deus alcançou o homem no ponto mais distante a que ele tinha se expulsado ao fugir de Deus, ou seja, a morte.



A morte de Cristo devia ser para todos a prova suprema da misericórdia de Deus para com os pecadores. É por isso que ela não tem sequer a majestade de certa solidão, mas é enquadrada, antes, entre dois ladrões. Jesus quis ser amigo dos pecadores até o fim: por isso morreu como eles e com eles. O ódio e a ferocidade dos ataques terroristas desta semana  em Bruxelas nos ajudam a entender a força divina contida nas últimas palavras de Cristo: "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem" (Lc 23, 34). Não importa quão grande o ódio dos homens, o amor de Deus tem sido, e será, cada vez maior. Para nós, é dirigida, nas atuais circunstancias, a exortação do Apóstolo Paulo: "Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem" (Rm 12, 21).



É hora de perceber que o oposto da misericórdia não é a justiça, mas a vingança. Jesus não opôs a misericórdia à justiça, mas à lei de talião: "olho por olho, dente por dente".


Perdoando os pecados, Deus não renuncia à justiça, mas à vingança; Ele não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (cf. Ez 18, 23). Jesus Cristo, na cruz, não pediu ao Pai que vingasse a sua causa; pediu-lhe que perdoasse os seus algozes.



Temos que desmitificar a vingança!


Ela se tornou um mito penetrante, que contamina tudo e todos, começando pelas crianças. Grande parte das histórias levadas às tela e aos jogos eletrônicos são histórias de vingança. Metade, se não mais, do sofrimento que há no mundo (quando não se trata de males naturais) vem do desejo de vingança, seja nas relações entre as pessoas, seja nas relações entre países e povos.



Foi dito que "o mundo será salvo pela beleza"[6]; mas a beleza também pode levar à ruína. Há somente uma coisa que realmente pode salvar o mundo: a misericórdia! A misericórdia de Deus pelos homens e dos homens entre si. Ela pode salvar, em particular, a coisa mais preciosa e mais frágil que há no mundo neste momento: o matrimônio e a família.


Acontece no matrimônio algo semelhante ao que aconteceu na relação entre Deus e a humanidade, que a Bíblia descreve, precisamente, com a imagem de um casamento. No início de tudo, dizíamos, está o amor, não a misericórdia. A misericórdia só intervém depois do pecado do homem. Também no casamento, no início não há misericórdia, mas amor. As pessoas não se casam por misericórdia, mas por amor.


Depois de anos, ou meses, de vida em comum, revelam-se os limites pessoais, os problemas de saúde, do dinheiro, dos filhos; intervém a rotina, que apaga toda alegria.O que pode salvar um casamento de escorregar para um poço sem fundo, senão o divórcio, é a misericórdia, entendida no sentido completo da Bíblia, ou seja, não apenas como perdão recíproco, mas como um "revestir-se de sentimentos de ternura, de bondade, de humildade, de mansidão e de magnanimidade" (Col 3, 12).


A misericórdia faz com que ao eros se junte o ágape; ao amor de busca, o de doação e de compaixão. Deus "se apieda" do homem (Sl 102, 13): não deveriam marido e mulher se apiedar um do outro? E não deveríamos, nós que vivemos em comunidade, apiedar-nos uns dos outros em vez de nos julgarmos?



Oremos:


Pai Celestial, pelos méritos do teu Filho, que, na cruz, "se fez pecado" por nós, afasta do coração das pessoas, das famílias e dos povos o desejo de vingança e faz-nos enamorar da misericórdia. Faz que a intenção do Santo Padre ao proclamar este ano santo da misericórdia encontre resposta concreta em nosso coração e leve todos a experimentarem a alegria da reconciliação contigo. Assim seja!


REFERÊNCIAS:

[1] Jacques-Bénigne Bossuet, “Sermon sur la Providence” (1662), in Oeuvres de Bossuet, eds. B. Velat and Y. Champailler (Paris: Pléiade, 1961), pág. 1062. 
[2] S. Agostinho, O Espírito e a letra, 32,56 (PL 44, 237).
[3] Martinho Lutero, Prefácio às obras em latim, ed . Weimar, 54, pág.186.
[4] Cf. J. Ratzinger - Bento XVI, Jesus de Nazaré, II Parte, Libreria Editrice Vaticana 2011, pág. 151.
[5] S. Bernardo de Claraval, Contra os erros de Abelardo, 8, 21-22 (PL 182, 1070).
[6] F. Dostoiévski, O Idiota, parte III, cap.5.




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Neste Apostolado promovemos a “EVANGELIZAÇÃO ANÔNIMA", pois neste serviço somos apenas o Jumentinho que leva Jesus e sua verdade aos Povos. Portanto toda honra e Glória é para Ele.Cristo disse-nos:Eu sou o caminho, a verdade e a vida e “ NINGUEM” vem ao Pai senão por mim." ( João, 14, 6).Como Católicos,defendemos a verdade, contra os erros que, de fato, são sempre contra Deus.Cristo não tinha opiniões, tinha verdades, a qual confiou a sua Igreja, ( Coluna e sustentáculo da verdade – Conf. I Tim 3,15) que deve zelar por elas até que Cristo volte.Quem nos acusa de falta de caridade mostra sua total ignorância na Bíblia,e de Deus, pois é amor, e quem ama corrige, e a verdade é um exercício da caridade.Este Deus adocicado,meloso,ingênuo, e sentimentalóide,é invenção dos homens tementes da verdade, não é o Deus revelado por seu filho: Jesus Cristo.Por fim: “Não se opor ao erro é aprová-lo, não defender a verdade é nega-la” - ( Sto. Tomáz de Aquino)

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