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O Silêncio de Deus : “Onde tu estavas Senhor ?”

Written By Beraká - o blog da família on sexta-feira, 12 de dezembro de 2014 | 10:12





Autor: D. Estevão Bittencourt - OSB

“Meu Deus, meu Deus porque me abandonastes ?” (Marcos 15,34).


0 sofrimento humano, especialmente o das crianças e o das pessoas inocentes, é motivo de perplexidade, mesmo para quem tem fé. Deus parece indiferente ao que afeta o ser humano em suas mais íntimas aspirações. - No artigo que se segue, o problema é exposto muito vivamente mediante testemunhos de pessoas desesperadas. 




Seguir-se-á a elucidação da problemática:


1) no plano natural mesmo, o sofrimento é inerente à dignidade humana e vem a ser escola que engrandece;


2) no plano da fé, o silêncio de Deus é rompido pelo Verbo que se fez carne e assumiu tudo o que é humano - inclusive a dor mais extrema e a morte - não a fim de suprimir as desgraças, mas com o objetivo de imprimir novo sentido à dor humana, fazendo-a penhor de vida plena e transfigurada.


“Em Jesus Deus Pai falou e fala aos homens. Os Santos são o eco prolongado dessa voz.”



0 sofrimento é geralmente um mistério, pois contraria às mais íntimas aspirações do ser humano. Principalmente o sofrimento infligido cruelmente a seres inocentes, como são as crianças e os justos perseguidos, suscita interrogações: onde fica Deus nesse contexto? Por que se cala, parecendo ignorar a dor dos seus fiéis? 



Nas páginas subseqüentes, a problemática será abordada em duas etapas: 



1) exposição do questionamento; 


2) a solução

a) filosófica ou racional

b) a solução da fé.


1. A problemática


São numerosos os testemunhos de autores que exprimem a angústia do ser humano perante o sofrimento, angústia agravada pelo silêncio de Deus. - Eis alguns depoimentos dos mais significativos:


1.1.   0 ateísmo

a) Em 1936 Albert Camus, escritor francês ateu, encontrava-se em viagem por uma das estradas da Algéria, em companhia de um amigo, quando se depararam com horrível cena: um menino muçulmano, atingido violentamente por um ônibus, jazia sobre o asfalto, sem dar sinal de vida. Voltando-se para o amigo e apontando para o céu, murmurou Camus: "Como vês, Ele se cala!". Tais palavras acusavam o Senhor Deus por não intervir no caso, como se tal desgraça não lhe interessasse. A conclusão de tal observação repetiria uma pergunta freqüente: como dizer que Deus é bom, se Ele se mantém impassível diante da dor, principalmente diante da dor de um inocente?


b) No seu romance La Peste, o mesmo Camus descreve uma cena em que o Pe. Paneloux diz ao Dr. Rieux que o sofrimento é sinal do amor de Deus, que de tal maneira quer salvar o homem. Responde Rieux: "Não, padre. Tenho outro conceito de amor. Eu me recusarei até a morte a amar essa criação, na qual crianças são torturadas" (La Peste, Paris 1974, p. 238).


c) Em 1947 um jovem autor alemão, W. Borchert, escreveu um drama intitulado "Fora, diante da porta", em que imagina um diálogo entre o ex-combatente Berkmann e Deus:


“Mas dize-me: quando é que és bom, ó bom Deus Foste bom quando permitiste fosse vítima da explosão de uma bomba meu filho, que mal completara um ano, o meu filhinho? Então foste bom quando deixaste que o matassem?...Não, é verdade, Tu apenas o permitiste. Mas não ouviste quando ele gritava e quando explodiam as bombas? Então onde estavas, ó bom Deus, quando as bombas explodiam? Ou foste bom quando caíram mortos onze homens da minha patrulha? Onze homens ao menos, bom Deus. É certo que os onze homens clamaram forte na solidão do bosque, mas não estavas lá; realmente não estavas lá, bom Deus. Foste bom em Stalingrado, bom Deus, foste bom lá; como? Sim? Mas então quando é que foste bom, Deus, quando? Quando alguma vez te ocupaste conosco, ó Deus?'(transcrito do artigo de L. Pozzoli "La perdita del Padre nella letteratura dei 900" em "Rivista del Clero Italiano" 80, 1999, no 4, p. 279).


1.2.   No povo de Israel


Já no Antigo Testamento o salmista confessava sua angústia pelo silêncio de Deus:


"Senhor, por que ficas tão longe e te escondes no tempo da angústia? A soberba do ímpio persegue o infeliz. Fiquem presos nas tramas que urdiram! 0 ímpio se gloria da própria ambição; o avarento que bendiz, despreza o Senhor. 0 ímpio é soberbo, jamais investiga: 'Deus não existe!'é tudo o que pensa" (SI 10, 22-25).


0 Holocausto (Shoah) abalou profundamente a consciência judia pela tragédia verificada nos campos de concentração de Auschwitz, Dachau, Treblinka... Os judeus formularam perguntas angustiadas:


"Onde estava Deus em Auschwitz?, Como pôde permitir que o seu povo fosse exterminado, sem que Ele mesmo interviesse?.Por que Deus ficou em silêncio enquanto tantas crianças judias eram torturadas e mortas de maneiras tão cruéis?...''




A estas perguntas alguns judeus tentaram responder apresentando um "novo conceito de,Deus após Auschwitz":


Assim Hans Jonas, numa conferência na Universidade de Tübingen (Alemanha) em 1984, afirmou que Deus quis, enquanto durar a história dos homens, "despojar-se do poder de envolver-se no curso físico das coisas deste mundo" (H. Jonas, "Le concept de Meu après Auschwitz. Une voix juive" Paris, PayotRivages, 1994, pp. 34s). 0 mesmo autor continua: "Em Auschwitz Deus ficou mudo. Não interveio, não porque não o quisesse, mas porque não estava em condições de intervir. Outorgando ao homem a liberdade, Deus renunciou à sua onipotência" (p. 34). Reconhecendo a autonomia do homem, Deus se terá retirado do mundo e da história da humanidade, renunciando à sua onipotência.


Outros pensadores judeus foram mais adiante. Em 1944 J. Katzeneison escreveu:


"É bom que Deus não exista, mesmo que seja incômodo sermos privados de Deus". R. L. Rubinstein perguntou: "Como podem os judeus crer num Deus todo-poderoso e benévolo depois de Auschwitz?". Para E. Wiesel, "Deus foi infiel às suas promessas; por isto é impossível continuar a crer; mas também é impossível não mais crer" (cf. M. Giuliani, Auschwitz nei pensiero ebraico. Brescia, Morcelliana 1998).



1.3.   Entre os cristãos


Também os cristãos sentem angustiados a aparente ausência de Deus. Até mesmo os mais unidos aos valores espirituais ou os mais enriquecidos com graças especiais experimentaram (e experimentam) o sofrimento por causa do silêncio de Deus:



1)- São João da Cruz chama essas fases de aridez "noites do espírito"; nestas não somente Deus parece ausente, mas a alma justa tem a impressão de estar rejeitada por Deus e condenada à perdição definitiva. A história da espiritualidade cristã está cheia de casos de Santos e Santas que passam pela noite do espírito com duração de anos.



2)- A autobiografia de Santa Teresa de Lisieux refere longos períodos de desolação espiritual da jovem carmelita: um muro parecia separá-la do céu, quase sempre fechado, enquanto era assaltada por dúvidas de fé e tentações de desespero. Tal estado de desolação acompanhou Te­resa até o fim da vida, quando finalmente Deus se fez "sentir" e ela pôde respirar na alegria e na paz, murmurando: "Mon Dieu, je vous aime". Na manhã do dia em que morreu, disse a Santa: "Passo por uma pura ago­nia, sem qualquer consolação... Não; nunca teria acreditado que fosse possível sofrer tanto".


Estes depoimentos bastam para ilustrar o problema:


É difícil compreender que Deus não intervenha em tantos casos para livrar suas criaturas das mãos de assassinos e malfeitores ou para salvar inocentes que sofrem cruelmente. Teriam razão os ateus ao afirmar que tal ordem de coisas é incompatível com a existência de um Deus que seja bom e, ao mesmo tempo, todo-poderoso? Tais perguntas sugerem reflexão:


2.      Ponderando serenamente:


Não há dúvida, a realidade do sofrimento humano é, por vezes, obscura, de modo que não se pode elucidar cada caso de dor. Como quer que seja, a razão e a fé convergem entre si para dissipar a idéia de que o sofrimento é incompatível com a existência de Deus bom e todo-poderoso. É o que passamos a demonstrar.


2.1.   Fala a razão:


A razão aponta dois aspectos positivos e valiosos do sofrimento:

a) Sintoma de perfeição ontológica

Verifica-se que o sofrimento está ligado à perfeição dos seres. Com efeito; subamos a escala dos seres:

a)- o mineral não sofre. Pode ser talhado e martelado sem que sinta dor. É totalmente insensível;

b)- o vegetal, quando agredido, reage. A planta da qual se corta um ramo, tende a se restaurar; por conseguinte, no plano em que começa a vida, começa a réplica àquilo que pretende destruir o ser;

c)- o animal irracional (cão, gato ... ) sofre, gemendo, chorando, urlando... Goza de vida sensitiva; por isto sente a dor;

d)- o ser humano, que vive no plano intelectivo, sofre mais ainda.Não somente sente dor física ou moral, mas também reflete sobre a sua dor - o que o faz sofrer duplamente. E - note-se bem - quanto mais alguém é nobre e digno, tanto mais sofre; assim quem muito ama, muito sofre.


Só não sofre quem é alienado ou doente mental ou... tarado e desnaturado... A razão desse sofrimento está em que a pessoa percebe a diferença existente entre o ideal (o que deveria ser) e a realidade; essa diferença suscita dor em quem tem sensibilidade para os verdadeiros valores.



Donde se vê que o sofrimento não somente não é incompatível com a auto-realização de alguém, mas chega a estar indissoluvelmente associado à nobreza do ser humano. É sintoma de grandeza moral (desde que vivenciado sem masoquismo nem sadismo).



b) Escola de aperfeiçoamento espiritual

A experiência ensina que o sofrimento contribui, muitas vezes (pois a verdade é que nem sempre isto acontece), para o engrandecimento de quem sofre. Quebra o egoísmo ou o egocentrismo e torna a pessoa mais compreensiva, mais aberta para o próximo e o mundo.


Purifica o olhar da mente, permitindo escalonar melhor os valores e ajudando a desmascarar mais precisamente as bolhas de sabão, coloridas por fora, mas vazias por dentro.


0 sofrimento desfaz ilusões e leva o ser humano a procurar em plano superior a resposta cabal para seus anseios naturais. Isto é tão verídico que já os filósofos gregos antes de Cristo faziam o trocadilho: páthos máthos (sofrimento é educação). 0 autor da epístola aos Hebreus chega a dizer que Jesus, como homem, aprendeu mediante o que sofreu: émathen aph'hon épathen (Hb 5, 8).



A Escritura põe em relevo o valor pedagógico do sofrimento. Assim diz o Senhor a Israel:


"Reconhece no teu coração que o Senhor teu Deus te educava, como um homem educa seu filho" (Dt 8, 5).


A carta aos Hebreus retoma a temática:


"É para a vossa educação que sofreis. Deus vos trata como filhos. Qual é, com efeito, o filho cujo pai não o educa? Se estais privados da educação, da qual todos participam, então sois bastardos e não filhos" (Hb 12, 7s).


"Deus nos educa para o aproveitamento, a fim de nos comunicar a sua santidade" (Hb 12, 10).


Assim como a energia do átomo só se desprende quanto o átomo é bombardeado, assim também a energia do herói ou da heroína só se atualiza e mobiliza quando martelada pela dor.


2.Passemos agora à instância da fé


2.2.      Fala a fé


0 que vai dito a seguir, só pode ser plenamente entendido por quem tenha fé. Todavia é de notar que a noção de um Deus omisso, negligente ou malvado é inconcebível: ou Deus é a suma perfeição, infalível em tudo, ou não é, não existe.


Um Deus que o homem possa criticar por ser Ele imperfeito (menos justo ou santo do que o homem) não pode existir, pois tal conceito seria contraditório.


Quando o homem não entende o comportamento de Deus, não diga que Ele está sendo falho (tal hipótese é inconsistente), mas reconheça que a sabedoria de Deus é mais ampla do que a da criatura; por isto é por vezes misteriosa, ... misteriosa, porém, porque mais profunda do que a do homem. Não é lícito configurar Deus à semelhança de um Grande Homem ou Grande Banqueiro.

I Cor 1,25: “Porque a loucura de Deus é mais sábia do que a sabedoria dos homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que a força dos homens.”

Dito isto, passemos a uma reflexão teológica mais profunda:



Ensina a Escritura que Deus criou o homem num estado de bonança, em que estaria isento de sofrimento e morte; cf. Gn 2, 17; 3, 16-19; Sb 1, 13s; 2, 23s. Todavia o homem perdeu a graça original pelo pecado que cometeu. Em conseqüência está sujeito à dor e à morte. Tal é a explicação que a fé apresenta para o fenômeno. - Deus, porém, não é indiferente a tal estado de coisas: o próprio Deus assumiu a natureza humana com todas as conseqüências do pecado; provou a dor e a morte, transfigurando-as ou tornando-as canais para a posse da plena vida.


Depois que Jesus morreu na cruz, o sofrimento não desapareceu da face da terra, mas adquiriu sentido novo ou, melhor, mudou de sinal: deixou de ser mero símbolo de perdição para tornar-se sinal de redenção e salvação.

Col 1,24: “Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja.”



Assim pode-se dizer que Deus não se calou nem se cala diante do sofrimento humano. Este assume, por vezes, proporções gigantescas devidas à perversidade humana, mas é acompanhado pela Providência Divina. Aliás, diz S. Agostinho que:


“Deus nunca permitiria os males (cometidos pelo homem ou pelas criaturas em geral) se não tivesse, em sua sabedoria, recursos para tirar dos males bens ainda maiores; nem sempre nos é dado contemplar os frutos positivos do sofrimento, mas é de crer que a sabedoria divina não se engana e revelará aos homens, no fim da história, o feliz desfecho de muitas misteriosas tragédias.”


Diz Pascal (t 1662) que Cristo estará em agonia até o fim dos tempos. Sim; em cada justo é Cristo quem prolonga a sua Paixão redentora (cf. CI 1, 24). Assim os Santos são, ao longo da história da humanidade, os sinais de Deus; padecendo com Cristo, indicam aos seus irmãos o significado de vitória que o sofrimento assume quando unido ao de Cristo.


Pelos Santos, que nunca faltarão no decorrer dos tempos, Deus rompe o trágico silêncio e fala aos homens.


D. Estevão Bettencourt - P & R – Outubro de 1999







DISCURSO DO SANTO PADRE BENTO XVI  DURANTE A VISITA AO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE AUSCHWITZ - BIRKENAU


(Domingo, 28 de Maio de 2006)

Tomar a palavra neste lugar de horror, de acúmulo de crimes contra Deus e contra o homem sem igual na história, é quase impossível e é particularmente difícil e oprimente para um cristão, e principalmente para um Papa que provém da Alemanha.

Num lugar como este faltam as palavras, no fundo pode permanecer apenas um silêncio aterrorizado um silêncio que é um grito interior a Deus: Senhor, por que silenciaste? Por que toleraste tudo isto?


É nesta atitude de silêncio que nos inclinamos profundamente no nosso coração face à numerosa multidão de quantos sofreram e foram condenados à morte; todavia, este silêncio torna-se depois pedido em voz alta de perdão e de reconciliação, um grito ao Deus vivo para que jamais permita uma coisa semelhante.


Há 27 anos, no dia 7 de Junho de 1979, estava aqui o Papa João Paulo II; então ele disse:


"Venho hoje aqui... Quantas vezes! E desci muitas vezes à cela da morte de Maximiliano Kolbe e detive-me diante do muro do extermínio e passei entre as ruínas dos fornos crematórios de Birkenau.Como Papa, não podia deixar de vir aqui". O Papa João Paulo II veio aqui como filho daquele povo que, ao lado do povo judeu, teve que sofrer mais neste lugar e, em geral, durante a guerra: "Foram seis milhões de Polacos, que perderam a vida durante a segunda guerra mundial: um quinto da nação", recordou então o Papa. Aqui, ele elevou a solene admoestação ao respeito dos direitos do homem e das nações, que antes dele tinham elevado diante do mundo os seus Predecessores João XXIII e Paulo VI, e acrescentou: "Pronuncia estas palavras [...] o filho da nação que na sua história remota e mais recente sofreu numerosas angústias infligidas por outros. E não o diz para acusar, mas para recordar. Fala em nome de todas as nações, cujos direitos são violados e esquecidos...".



O Papa João Paulo II veio aqui como um filho do povo polaco. Hoje eu vim aqui como um filho do povo alemão, e precisamente por isto devo e posso dizer como ele:

“Não podia deixar de vir aqui. Tinha que vir. Era e é um dever perante a verdade e o direito de quantos sofreram, um dever diante de Deus, de estar aqui como sucessor de João Paulo II e como filho do povo alemão filho daquele povo sobre o qual um grupo de criminosos alcançou o poder com promessas falsas, em nome de perspectivas de grandeza, de recuperação da honra da nação e da sua relevância, com previsões de bem-estar e também com a força do terror e da intimidação, e assim o nosso povo pôde ser usado e abusado como instrumento da sua vontade de destruição e de domínio. Sim, não podia deixar de vir aqui. A 7 de Junho de 1979 estive aqui como Arcebispo de Munique-Frisinga entre os numerosos Bispos que acompanhavam o Papa, que o escutavam e rezavam com ele. Em 1980 voltei mais uma vez a este lugar de horror com uma delegação de Bispos alemães, abalado por causa do mal e reconhecido pelo facto de que acima das trevas tinha surgido a estrela da reconciliação. Ainda é esta a finalidade pela qual me encontro hoje aqui: para implorar a graça da reconciliação antes de tudo de Deus, o único que pode abrir e purificar os nossos corações; depois, dos homens que sofreram; e por fim, a graça da reconciliação para todos os que, neste momento da nossa história, sofrem de maneira nova sob o poder do ódio e sob a violência fomentada pelo ódio.”


Quantas perguntas surgem neste lugar! Sobressai sempre de novo a pergunta:


Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar este excesso de destruição, este triunfo do mal? Vêm à nossa mente as palavras do Salmo 44, a lamentação de Israel que sofre:


"... Tu nos esmagaste na região das feras e nos envolveste em profundas trevas... por causa de ti, estamos todos os dias expostos à morte; tratam-nos como ovelhas para o matadouro. Desperta, Senhor, por que dormes? Desperta e não nos rejeites para sempre! Por que escondes a tua face e te esqueces da nossa miséria e tribulação? A nossa alma está prostrada no pó, e o nosso corpo colado à terra. Levanta-te! Vem em nosso auxílio; salva-nos, pela tua bondade!" (Sl 44, 20.23-27).


Este grito de angústia que Israel sofredor eleva a Deus em períodos de extrema tribulação, é ao mesmo tempo um grito de ajuda de todos os que, ao longo da história ontem, hoje e amanhã sofrem por amor de Deus, por amor da verdade e do bem; e há muitos, também hoje.



Nós não podemos perscrutar o segredo de Deus vemos apenas fragmentos e enganamo-nos se pretendemos eleger-nos a juízes de Deus e da história. Não defendemos, nesse caso, o homem, mas contribuiremos apenas para a sua destruição. Não em definitiva, devemos elevar um grito humilde mas insistente a Deus: Desperta! Não te esqueças da tua criatura, o homem!


E o nosso grito a Deus deve ao mesmo tempo ser um grito que penetra o nosso próprio coração, para que desperte em nós a presença escondida de Deus para que aquele seu poder que Ele depositou nos nossos corações não seja coberto e sufocado em nós pela lama do egoísmo, do medo dos homens, da indiferença e do oportunismo.


Emitamos este grito diante de Deus, dirijamo-lo ao nosso próprio coração, precisamente nesta nossa hora presente, na qual incumbem novas desventuras, na qual parecem emergir de novo dos corações dos homens todas as forças obscuras:


“Por um lado, o abuso do nome de Deus para a justificação de uma violência cega contra pessoas inocentes; por outro, o cinismo que não conhece Deus e que ridiculariza a fé n'Ele. Nós gritamos a Deus, para que impulsione os homens a arrepender-se, para que reconheçam que a violência não cria a paz, mas suscita apenas outra violência uma espiral de destruição, na qual todos no fim de contas só têm a perder. O Deus, no qual nós cremos, é um Deus da razão mas de uma razão que certamente não é uma matemática neutral do universo, mas que é uma coisa só com o amor, com o bem. Nós rezamos a Deus e gritamos aos homens, para que esta razão, a razão do amor e do reconhecimento da força da reconciliação e da paz prevaleça sobre as ameaças circunstantes da irracionalidade ou de uma falsa razão, separada de Deus.”



O lugar no qual nos encontramos é um lugar da memória, é o lugar do Shoá. O passado nunca é apenas passado:


Ele refere-se a nós e indica-nos os caminhos que não devem ser percorridos e os que o devem ser. Como João Paulo II, percorri o caminho ao longo das lápides que, nas várias línguas, recordam as vítimas deste lugar: são lápides em bielo-russo, checo, alemão, francês, grego, hebraico, polaco, russo, rom, romeno, eslovaco, sérvio, ucraniano, judaico-hispânico, inglês.Todas estas lápides comemorativas falam de dor humana, deixam-nos intuir o cinismo daquele poder que tratava os homens como material e não os reconhecia como pessoas, nas quais resplandece a imagem de Deus.


Algumas lápides convidam a uma comemoração particular. Há uma em língua hebraica. Os poderosos do Terceiro Reich queriam esmagar o povo judeu na sua totalidade; eliminá-lo do elenco dos povos da terra. Então as palavras do Salmo: "estamos todos os dias expostos à morte; tratam-nos como ovelhas para o matadouro", verificam-se de modo terrível.



No fundo, aqueles criminosos violentos, com a aniquilação deste povo, pretendiam matar aquele Deus que chamou Abraão, que falando no Sinai estabeleceu os critérios orientadores da humanidade que permanecem válidos para sempre:


“Se este povo, simplesmente com a sua existência, constitui um testemunho daquele Deus que falou ao homem e o assumiu, então aquele Deus devia finalmente estar morto e o domínio devia pertencer apenas ao homem àqueles que se consideravam os fortes que tinham sabido apoderar-se do mundo. Com a destruição de Israel, com o Shoa, queriam, no fim de contas, arrancar também a raiz sobre a qual se baseia a fé cristã, substituindo-a definitivamente com a fé feita por si, a fé no domínio do homem, do forte. Depois, há a lápide em língua polaca: numa primeira fase e antes de tudo queria-se eliminar a élite cultural e cancelar assim o povo como sujeito histórico autónomo para o reduzir, na medida em que continuava a existir, a um povo de escravos.”


Outra lápide, que convida particularmente a reflectir, é a que está escrita na língua dos Sint e dos Rom:


Também aqui se pretendia fazer desaparecer um povo inteiro que vive migrando entre os outros povos. Ele estava inserido entre os elementos inúteis da história universal, numa ideologia na qual só devia contar o útil medível; tudo o resto, segundo os seus conceitos, era classificado como lebensunwertes Leben uma vida indigna de ser vivida.


Depois há a lápide em russo que evoca o imenso número das vidas sacrificadas entre os soldados russos no confronto com o regime do terror nazista; mas, ao mesmo tempo, faz-nos reflectir sobre o trágico duplo significado da sua missão:


“Libertaram os povos de uma ditadura, mas submetendo também os mesmos povos a uma nova ditadura, a de Estalin e da ideologia comunista.”


Também todas as outras lápides nas numerosas línguas da Europa nos falam do sofrimento de homens de todo o continente; tocariam profundamente o nosso coração, se não fizéssemos apenas memória das vítimas de modo global, mas se víssemos, ao contrário, os rostos das pessoas individualmente que acabaram naquele terror escuro.


Senti como um dever íntimo deter-me de modo particular também diante da lápide em língua alemã. Dela emerge diante de nós o rosto de Edith Stein, Theresa Benedicta da Cruz: judia e alemã desaparecida, juntamente com a irmã, no horror da noite do campo de concentração alemão-nazista; como cristã e judia, aceitou morrer juntamente com o seu povo e por ele. Os alemães, que então foram conduzidos a Auschwitz-Birkenau e aqui morreram, eram vistos como Abschaum der Nation como o refugo da nação. Mas agora nós reconhecemo-los com gratidão como as testemunhas da verdade e do bem, que também no nosso povo tinha desaparecido. Agradecemos a estas pessoas, porque não se submeteram ao poder do mal e agora estão diante de nós como luz numa noite escura. Com profundo respeito e gratidão inclinamo-nos diante de todos os que, como os três jovens diante da ameaça da fornalha babilónica, souberam responder: "Só o nosso Deus nos pode salvar. Mas também se não nos libertares, sabe, ó rei, que nós nunca serviremos os teus deuses nem adoraremos a estátua de ouro que erigistes" (cf. Dn 3, 17s).



Sim, por detrás destas lápides encerra-se o destino de inumeráveis seres humanos. Eles despertam a nossa memória, despertam o nosso coração. Não querem provocar em nós o ódio: ao contrário, demonstram-nos como é terrível a obra do ódio. Querem conduzir a razão a reconhecer o mal como mal e a rejeitá-lo; querem suscitar em nós a coragem do bem, da resistência contra o mal. Querem dar-nos aqueles sentimentos que se expressam nas palavras que Sófocles coloca nos lábios de Antígona face ao horror que a circunda:


"Estou aqui não para odiar mas para, juntos, amar".



Graças a Deus, com a purificação da memória, à qual nos estimula este lugar de horror, crescem à sua volta numerosas iniciativas que desejam pôr um limite ao mal e dar força ao bem. Há pouco pude abençoar o Centro para o Diálogo e a Oração. Nas imediatas proximidades tem lugar a vida escondida das irmãs carmelitas, que estão particularmente unidas ao mistério da cruz de Cristo e nos recordam a fé dos cristãos, que afirma que o próprio Deus desceu ao inferno do sofrimento e sofre juntamente conosco.


Em Oswiecim existe o Centro de São Maximiliano e o Centro Internacional de Formação sobre Auschwitz e sobre o Holocausto. Depois, há a Casa Internacional para os Encontros da Juventude. Numa das Antigas Casas de Oração existe o Centro Hebraico. Por fim está a constituir-se a Academia para os Direitos do Homem. Assim podemos esperar que do lugar do horror nasça e cresça uma reflexão construtiva e que recordar ajude a resistir ao mal e a fazer triunfar o amor.



A humanidade atravessou em Auschwitz-Birkenau um "vale escuro":


Por isso desejo, precisamente neste lugar, concluir com a oração de confiança com um Salmo de Israel que é, ao mesmo tempo, uma oração da cristandade:


"O Senhor é o meu pastor: nada me falta. Em verdes prados me fez descansar e conduz-me às águas refrescantes. Reconforta a minha alma e guia-me por caminhos rectos, por amor do seu nome. Ainda que atravesse vales tenebrosos, de nenhum mal terei medo porque Tu estás comigo. A tua vara e o teu cajado dão-me confiança... habitarei na casa do Senhor para todo o sempre" (Sl 23, 1-4.6).

Fonte:vatican.va


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Neste Apostolado promovemos a “EVANGELIZAÇÃO ANÔNIMA", pois neste serviço somos apenas o Jumentinho que leva Jesus e sua verdade aos Povos. Portanto toda honra e Glória é para Ele.Cristo disse-nos:Eu sou o caminho, a verdade e a vida e “ NINGUEM” vem ao Pai senão por mim." ( João, 14, 6).Como Católicos,defendemos a verdade, contra os erros que, de fato, são sempre contra Deus.Cristo não tinha opiniões, tinha verdades, a qual confiou a sua Igreja, ( Coluna e sustentáculo da verdade – Conf. I Tim 3,15) que deve zelar por elas até que Cristo volte.Quem nos acusa de falta de caridade mostra sua total ignorância na Bíblia,e de Deus, pois é amor, e quem ama corrige, e a verdade é um exercício da caridade.Este Deus adocicado,meloso,ingênuo, e sentimentalóide,é invenção dos homens tementes da verdade, não é o Deus revelado por seu filho: Jesus Cristo.Por fim: “Não se opor ao erro é aprová-lo, não defender a verdade é nega-la” - ( Sto. Tomáz de Aquino)

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