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O poder de um olhar

Written By Beraká - o blog da família on sexta-feira, 1 de outubro de 2010 | 08:43


Pe. Marcos Chagas - Missionário da Comunidade Católica Shalom

“Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?” . Esta foi a pergunta que o homem rico, fez ao Senhor Jesus. Existe um interesse grande por parte do dito rapaz em saber do Rabi de Nazaré alguma orientação. Ele correu na direção do Divino Mestre. Talvez tenha passado por certa decepção com a resposta, remetendo-o à observância dos mandamentos. Isso para ele não era novidade. Já os praticava desde sua meninice. Os mandamentos são caminho de vida e condição para que se tenha a amizade de Deus. Pelo visto o personagem era de bons costumes, de virtudes e princípios. Mas, para que a completude fosse total, a proposta de Jesus se apresenta radical: uma renúncia de si, de seus bens, partilhá-los e lançar-se no seguimento de Cristo Jesus; este, embora fosse rico, com a sua pobreza nos enriqueceu . Jesus também viu Mateus e ao convidá-lo para o seu seguimento, encontrou no cobrador de impostos outra disposição, pois este deixou seus afazeres, e o seguiu . O jovem da história é um anônimo. Sua recusa em deixar tudo, o levou a ser um ilustre desconhecido. Dar a vida, seguir Jesus nos insere em uma história que nos nomeia, nos denomina, nos dá uma identidade bem construída, desenhada pelo próprio seguimento de Cristo. “alegrai-vos, antes, porque vossos nomes estão escritos nos céus!”

Narra-nos o texto que, o aquinhoado jovem partiu triste por achar aquela proposta que lhe foi feita, algo que ultrapassava seus limites, suas possibilidades, sua visão de mundo, seus planos, sua maneira de compreender a felicidade. Partiu triste!

Aqui cabe, uma reflexão: os bens não são um problema, mas um dom: «Pois tudo o que Deus criou é bom e nada é desprezível» . Um dom gratuito de Deus pelos quais haveremos de assumir a responsabilidade da adequada administração. Ao cabo de nossa peregrinação terrestre, prestaremos conta do que nos foi confiado. Em prática, a ninguém deve arvorar-se ser possuidor de qualquer bem, mas cada um cuida e faz desenvolver os bens que lhe foram confiados: assim deve ser. Não há proprietários ou donos em absoluto. E o apóstolo afirma: o que se espera de um administrador é que ele seja fiel . Os bens não constituem um problema; antes, os bens são solução, são meios através dos quais a Divina Providência nos disponibiliza para que cumpramos a missão que nos foi confiada. Ora, por bens, entendem-se normalmente bens materiais. Ledo engano. A fé e a vida na graça de Deus não são por acaso, um grande dom? E os conhecimentos que adquirimos pelo estudo, pesquisa e reflexão também não são um dom precioso? E o que dizer da saúde física e psíquica, o tempo, as habilidades, as competências e saberes? Será que eles não são importantes recursos? Por conseguinte, o mau rico apresentado pelo Evangelho, não diz respeito apenas a um alguém que foi um ímpio ante os olhos de Deus por ter o que tinha, mas seu erro grande está em não partilhar a prosperidade que lhe foi dado ter. Para quem tem fé e adere sinceramente ao Senhor Jesus e seu Evangelho, o segredo é colocar ao dispor de Deus o que se tem, o que se é. Reconhecer o senhorio absoluto do Senhor sobre coisas, pessoas, acontecimentos, lugares, projetos, instituições, estruturas, sentimentos, saberes, entendimentos, competências e experiências, em suma sobre tudo que não seja Deus, assumindo para com tudo isso uma atitude de total desprendimento, em suma, tudo isso, é fonte inesgotável de liberdade e disponibilidade para o serviço de Deus.

Ora, esse personagem, cujo nome se desconhece, foi alvo do olhar do Redentor: algo sublime, profundo, pois “o homem vê a aparência e Deus vê o coração” . Quando Deus olha penetra no fundo da alma, pois ele vê as intenções mais secretas, os anseios mais íntimos, as coisas mais interiores da alma humana. Ora, nesse olhar existe a sabedoria e um imenso amor. Quando Deus vê alguém, ele quer estreitar laços, ele trás para si quem ele contempla. Por isso, “fitando-o, Jesus o amou” . Não se enxerga alguém com os olhos, mas com o cérebro. Os olhos são lentes onde as imagens passam, mas o cérebro é quem decodifica as informações que lhe chegam e por isso mesmo é o processador do ato de ver. Um grande amor no olhar significa uma grande acolhida no coração. O olhar é introduzir na própria alma alguém, alguma coisa ou algum lugar, algum acontecimento. Qual a tua visão de mundo, das pessoas, das coisas? Olhar com o coração é olhar com a sede das decisões. Amar é decisão, não mero sentimento. O conhecimento brotado desse olhar de Jesus não é superficial, não se reduz a perceber a fachada. Trata-se de um conhecer em profundidade, ou seja, quem é a pessoa. Por isso, dizia Agostinho: “Ó meu Deus, tu me conheces, faze que eu te conheça, como sou por ti conhecido”. O diálogo do olhar é carregado de uma profundidade própria, densa, radical, acolhedora. Dialogar significa ir na direção da palavra do outro, ou seja, da inteligência, da revelação do outro. Portanto, o coração do encontro entre Jesus e o moço é a experiência com Jesus, aquele que nos ama. O cristianismo é o encontro com uma pessoa. Só em segundo momento será uma moral. “Desejo, - disse João Paulo II aos jovens, - que experimenteis um olhar assim. Desejo que experimenteis a verdade de que Cristo os olha com amor”. Quando Deus nos comunica sua palavra, ele se dá, cria pontes para estreitar laços conosco e nos levar à comunhão consigo. Por isso, diz a Dei Verbum: “O Deus invisível, movido por seu grande amor, fala aos homens como amigos e com eles se entretém para levá-los à comunhão consigo” . Ora, quando alguém terá o anseio de se entreter com alguém, é porque de verdade quer se comunicar. E quando Deus se comunica, ele se dá, ele vive com quem ele se comunica uma bela comunhão, uma partilha de vidas. Falar da comunicação divina é falar de tudo quanto de belo, bom e verdadeiro existe ou tem vida. Por excelência, essa comunicação se expressa na revelação divina na Sagrada Escritura. Disse a respeito, Santo Agostinho: “Tocaste-me o coração com a tua palavra e comecei a amar-te” .

Cabe uma importante consideração a respeito do caminho de amizade que o Senhor oferece aos seus amigos. O caminho de Jesus, proposto no seu pensamento e programa de vida exposto nas bem-aventuranças e no sermão da montanha . As bem-aventuranças são caminho de felicidade onde os discípulos do Senhor são chamados a assimilar a pobreza, a mansidão, os famintos e sedentos de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os promotores da paz, os perseguidos por causa da justiça e por causa de Jesus. Este é um caminho de felicidade, mas não é caminho de facilidade, é caminho de fidelidade, mas não necessariamente de sucesso, é caminho de humanos marcados pela graça de Deus, não é itinerário exaltado de super-heróis, mas é caminho de pobres e nunca de poderosos auto-suficientes. Por conseguinte, todos os dons, riquezas e bens (espirituais, materiais, intelectuais, etc) são instrumentos, meios. Não podem ser fins em si mesmos.

Aqui, nos aponta o Senhor, com sua sabedoria e poder, manifesta-se não tanto no sucesso, na prosperidade, na acomodação egoísta e fechamento no próprio bem-estar. Trata-se do caminho da cruz, caminho da vitória de Cristo, onde sua obediência traduziu-se em radical e incondicional adesão ao projeto do Pai. A sabedoria da cruz, contrasta com a sabedoria do dinheiro enquanto fonte de segurança, do luxo oriundo, dos bens materiais e do consumo desenfreado, do prazer fácil e irresponsável, do poder em função de si mesmo ou da autoprojeção pessoal, do culto das aparências enganosas, do saber racional que ignora Deus ou o exclui da vida humana. A sabedoria da cruz contrasta enormemente com a teologia da prosperidade que não se coaduna nem se mesmo pode compactuar com a idéia de um deus que meramente resolve problemas, tira da luta, anestesia, meramente gratifica emocionalmente e deixa cada qual entregue à própria sorte egoísta da auto-realização. Com Paulo, o apóstolo cujo viver era Cristo e que se disse (e de fato viveu) crucificado com Cristo , a Igreja e todos os discípulos de Jesus atestam e proclamam: “nós, porém, anunciamos Cristo crucificado, que para os judeus é escândalo, para os gentios é loucura, mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, é Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus” . E o próprio Jesus ensinou que quem quiser ser seu discípulo, deve renunciar a si mesmo, tomar a própria cruz e seguir Jesus . O caminho da vida é porta estreita e quem quiser passar por ela deve ser pequeno, despojado e disposto a dar a vida. O mistério do Cristo morto e ressuscitado permeia e pervaga a vida do cristão. E, por isso, a leitura que se faz da história é feita a partir das lentes da fé nesta verdade fundamental do cristianismo genuíno e evangélico. Por isso, nesta adesão que é amor puro, gratuito, generoso, comprometido e radical, o discípulo se diferencia dos membros de uma multidão de anônimos famintos de milagres, de vida fácil, gratificações ou de prosperidade. O discípulo é como a ovelha cujo pastor a conhece e a chama pelo nome . A este se aplica a sentença de Paulo: “Tudo concorre para o bem daquele que ama a Deus” . De tudo esse homem ou mulher que vive o discipulado tira proveito. Nada lhe faltará da parte de seu bom pastor para que seja o que deve ser e lhe será concedido o que precisa para faça o que deve fazer.

Da vida de Santo Agostinho e dos ensinamentos de tão iluminado mestre podemos ilustrar muito bem essa verdade que permeia não somente a leitura da própria história, mas a leitura desta encontra-se inserida em um vasto contexto mundial, universal. Com efeito, em novembro de 410, vive-se, no norte da África, o tempo da colheita das azeitonas. E Agostinho, a exemplo de Cristo, qual competente mistagogo, serve-se da vida cotidiana do povo para instruí-lo a respeito dos sublimes mistérios, entre os quais o mistério da cruz, eterna fonte de ressurreição. Segundo o doutor da graça e da providência de Deus na história, benefícios e calamidades estão misturados. Colher os primeiros significa também colher as segundas. O mundo, então, assemelha-se à prensa em ação, onde as azeitonas colhidas e depois de esmagadas tornar-se-ão ou azeite dourado, preciosamente recolhido ou bagaço que escorre para o esgoto. Os cristãos deverão estar atentos a estas lições . Ante os dramas vividos e as perplexidades que enfraqueciam os corações mais débeis em busca de uma leitura de fé a respeito do desabamento das seguranças humanas, no que tange a tais escolhos, o bispo assim se expressa aos seus fiéis: “O mundo está transtornado como se estivesse numa prensa. Coragem, cristãos, sementes de eternidade, peregrinos neste mundo, a caminho do céu! As provações que se multiplicam são o destino dos tempos cristãos, mas não constituem um escândalo para o cristão. Se amas este mundo, blasfemarás contra Cristo. E é isso o que te sopra o teu amigo, o teu conselheiro. Mas não deves escutá-lo. Se este mundo está sendo destruído, diz a ele que Cristo o previu” .

Jo 10, 27.

Rm 8, 28.

Sl 23 (22), 1.

SANTO AGOSTINHO, Sermo Denis, 11; PL 46, 921 apud HAMANN, Santo Agostinho e seu tempo, S. Paulo, Paulinas, 1989, p. 272.

SANTO AGOSTINHO, Sermo 81, 27; PL 38, 503 apud HAMANN, Santo Agostinho, p. 274.




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Neste Apostolado promovemos a “EVANGELIZAÇÃO ANÔNIMA", pois neste serviço somos apenas o Jumentinho que leva Jesus e sua verdade aos Povos. Portanto toda honra e Glória é para Ele.Cristo disse-nos:Eu sou o caminho, a verdade e a vida e “ NINGUEM” vem ao Pai senão por mim." ( João, 14, 6).Como Católicos,defendemos a verdade, contra os erros que, de fato, são sempre contra Deus.Cristo não tinha opiniões, tinha verdades, a qual confiou a sua Igreja, ( Coluna e sustentáculo da verdade – Conf. I Tim 3,15) que deve zelar por elas até que Cristo volte.Quem nos acusa de falta de caridade mostra sua total ignorância na Bíblia,e de Deus, pois é amor, e quem ama corrige, e a verdade é um exercício da caridade.Este Deus adocicado,meloso,ingênuo, e sentimentalóide,é invenção dos homens tementes da verdade, não é o Deus revelado por seu filho: Jesus Cristo.Por fim: “Não se opor ao erro é aprová-lo, não defender a verdade é nega-la” - ( Sto. Tomáz de Aquino)

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