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O sentimento de culpa na Perspectiva Cristã e Freudiana

Written By Beraká - o blog da família on sábado, 8 de maio de 2021 | 19:55

 

 



 

 

 

A CULPA NA VISÃO DO MAGISTÉRIO DA IGREJA:

 

 

 

Consciência e culpas

 

§1781 A consciência permite assumir a responsabilidade dos atos praticados. Se o homem comete o mal, o julgamento justo da consciência pode continuar nele como testemunho da verdade universal do bem e ao mesmo tempo da malícia de sua escolha singular. O veredicto do juízo de consciência continua sendo um penhor de esperança e misericórdia. Atestando a falta cometida lembra a necessidade de pedir perdão, de praticar novamente o bem e de cultivar sem cessar a virtude com a graça de Deus.Diante dele tranqüilizaremos nosso coração, se nosso coração nos acusa, porque Deus é maior que nosso coração e conhece todas as coisas (1 Jo 3,19-20).

 

 

§1784 A educação da consciência é uma tarefa de toda a vida. Desde os primeiros anos, alerta a criança para o conhecimento e a prática da lei interior reconhecida pela consciência moral. Uma educação prudente ensina a virtude, preserva ou cura do medo, do egoísmo e do orgulho, dos sentimentos de culpabilidade e dos movimentos de complacência, nascidos da fraqueza e das faltas humanas. A educação da consciência garante a liberdade e gera a paz do coração.

 

 

§1801 A consciência moral pode estar na ignorância ou fazer julgamentos errôneos. Essa ignorância e esses erros nem sempre são isentos de culpa.

 

 

§1861 O pecado mortal é uma possibilidade radical da liberdade humana, como o próprio amor. Acarreta a perda da caridade e a privação da graça santificante, isto é, do estado de graça. Se este estado não for recuperado mediante o arrependimento e o perdão de Deus, causa a exclusão do Reino de Cristo e a morte eterna no inferno, já que nossa liberdade tem o poder de fazer opções para sempre, sem regresso. No entanto, mesmo podendo julgar que um ato é em si falta grave, devemos confiar o julgamento sobre as pessoas à justiça e à misericórdia de Deus.

 

 

 

Ignorância voluntária e culpa

 

 

§1860 A ignorância involuntária pode diminuir ou até escusar a imputabilidade de uma falta grave, mas supõe-se que ninguém ignora os princípios da lei moral inscritos na consciência de todo ser humano. Os impulsos da sensibilidade, as paixões podem igualmente reduzir o caráter voluntário e livre da falta, como também pressões exteriores e perturbações patológicas. O pecado por malícia, por opção deliberada do mal, é o mais grave.

 

 



Juízo errôneo e culpa

 

 

§1791 Muitas vezes esta ignorância pode ser imputada à responsabilidade pessoal. É o que acontece "quando o homem não se preocupa suficientemente com a procura da verdade e do bem, e a consciência pouco a pouco, pelo hábito do pecado, se torna quase obcecada". Neste caso, a pessoa é culpável pelo mal que comete.

 

 

Legítima defesa e culpa

 

 

§2264 O amor a si mesmo permanece um princípio fundamental da moralidade. Portanto, é legítimo fazer respeitar seu próprio direito à vida. Quem defende sua vida não é culpável de homicídio, mesmo se for obrigado a matar o agressor: Se alguém, para se defender, usar de violência mais do que o necessário, seu ato será ilícito. Mas, se a violência for repelida com medida, será lícito. E não é necessário para a salvação omitir este ato de comedida proteção para evitar matar o outro, porque, antes da de outrem, se está obrigado a cuidar da própria vida.

 

 

Pena civil e culpa

 

 

§2266 Corresponde a uma exigência de tutela do bem comum o esforço do Estado destinado a conter a difusão de comportamentos lesivos aos direitos humanos e às regras fundamentais de convivência civil. A legítima autoridade pública tem o direito e o dever de infligir penas proporcionais à gravidade do delito. A pena tem como primeiro objetivo reparar a desordem introduzida pela culpa. Quando essa pena é voluntariamente aceita pelo culpado tem valor de expiação. Assim, a pena, além de defender a ordem pública c de tutelar a segurança das pessoas, tem um objetivo medicinal: na medida do possível, deve contribuir à correção do culpado.

 

 

Penitência e culpa

 

 

§1459 Muitos pecados prejudicam o próximo. É preciso fazer possível para reparar esse mal (por exemplo restituir as coisas roubadas, restabelecer a reputação daquele que foi caluniado ressarcir as ofensas e injúrias). A simples justiça exige isso. Mas, além disso, o pecado fere e enfraquece o próprio pecador, como também suas relações com Deus e com o próxima. A absolvição tira o pecado, mas não remedeia todas as desordens que ele causou. Liberto do pecado, o pecador deve ainda recobrar a plena saúde espiritual. Deve, portanto, faz alguma coisa a mais para reparar seus pecados: deve "satisfazer" de modo apropriado ou "expiar" seus pecados. Esta satisfação chama-se também "penitência".

 

 

Reconhecimento das culpas

 

 

§827 "Mas enquanto Cristo, 'santo, inocente, imaculado', não conheceu o pecado, mas veio apenas para expiar os pecados do povo, a Igreja, reunindo em seu próprio seio os pecadores ao mesmo tempo santa e sempre necessitada de purificar-se, busca sem cessar a penitência e a renovação." Todos os membros da Igreja, inclusive seus ministros, devem reconhecer-se pecadores. Em todos eles o joio do pecado continua ainda mesclado ao trigo do Evangelho até o fim dos tempos. A Igreja reúne, portanto, pecadores alcançados pela salvação de Cristo, mas ainda em via de santificação.A Igreja é santa, mesmo tendo pecadores em seu seio, pois não possui outra vida senão a da graça: é vivendo de sua vida que seus membros se santificam; é subtraindo-se à vida dela que caem pecados e nas desordens que impedem a irradiação da santidade dela. É por isso que ela sofre e faz penitência por essas faltas das quais tem o poder de curar seus filhos, pelo sangue de Cristo e pelo dom do Espírito Santo.

 

 

§1455 A confissão dos pecados (acusação), mesmo do ponto de vista simplesmente humano, nos liberta e facilita nossa reconciliação com os outros. Pela acusação, o homem encara de frente os pecados dos quais se tornou culpado: assume a responsabilidade deles e, assim, abre-se de novo a Deus e à comunhão da Igreja, a fim de tomar possível um futuro novo.

 

 

§1847 "Deus nos criou sem nós, mas não quis salvar-nos sem nós." Acolher sua misericórdia exige de nossa parte a confissão de nossas faltas. "Se dissermos: 'Não temos pecado', enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos nossos pecados, Ele, que é fiel e justo, perdoará nossos pecados e nos purificará de toda injustiça" (1Jo 1,8-9).

 

 


 

ENTENDIMENTO TEOLÓGICO DA CULPA

 

 

 

Minha consciência diz o que é certo e o que é errado, e nunca posso lidar contra a minha consciência. Se eu fiz isso mesmo assim, então tenho que pedir por perdão a Deus, crer no seu perdão. Minha consciência diz o que é certo e o que é errado, e nunca posso lidar contra a minha consciência. Se eu fiz isso mesmo assim, então tenho que pedir por perdão a Deus, crer no seu perdão e nunca mais tornar a pecar. Também tenho que ter atenção especial para que minha consciência seja marcada pela palavra de Deus, para que ela não me julgue desnecessariamente, mas que eu sempre esteja atento para saber o que é a vontade de Deus na minha vida.

 

 

O que é consciência?

 

 

Todos tem um senso inato para justo e injusto – “uma voz interior”, que está sobre todos os pensamentos e ações. Essa “voz interior” é nossa consciência, que nos diz o que é moralmente correto ou errado:

 

 

“De fato, quando os gentios, que não têm a Lei, praticam naturalmente o que ela ordena, tornam-se lei para si mesmos, embora não possuam a Lei; pois mostram que as exigências da Lei estão gravadas em seu coração. Disso dão testemunho também a sua consciência e os pensamentos deles, ora acusando-os, ora defendendo-os...” Romanos 2,14-15

 

 

Mas a consciência não é nada invariável. Ela é possível ser formada, ou deformada, pois ela se desenvolve através do ambiente, situações vividas e entendimento crescente. É preciso entender que as pessoas tem um nível de consciência diferente, e não pode ser usada a consciência individual de cada um de forma genérica e universal, como se a sua consciência fosse a verdade real, ainda que a pessoa esteja convicta disso, para evitar escandalizar os fracos na fé:

 

 

“Mas vede que essa liberdade não seja de alguma maneira escândalo para os fracos. Porque, se alguém te vir a ti, que tens ciência, sentado à mesa no templo dos ídolos, não será a consciência do que é fraco induzida a comer das coisas sacrificadas aos ídolos? E pela tua ciência perecerá o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu. Ora, pecando assim contra os irmãos, e ferindo a sua fraca consciência, pecais contra Cristo. Por isso, se a comida escandalizar a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que meu irmão não se escandalize...”  1 Coríntios 8,9-13

 

 

Tens tu tuas próprias convicções? Tem-na em ti mesmo diante de Deus. Bem-aventurado aquele que não se condena a si mesmo naquilo que acredita. Mas aquele que tem dúvidas, peca...” Romanos 14,22-23

 

 

Uma consciência pura é o requisito para ter paz com Deus. Eu nunca posso – sob hipótese alguma – agir contra a minha consciência. Seria o mesmo que pecar consciente. Uma consciência pura significa viver em sintonia com a luz e o entendimento que eu recebi a partir de Deus. Se eu peco consciente, então tenho que pedir perdão a Deus e se for necessário aos homens. Eu tenho que colocar as circunstâncias em ordem, para conseguir o verdadeiro progresso na minha vida espiritual. Como cristão pode acontecer que tenho sentimentos de culpa, apesar de ter conseguido o perdão dos pecados. O acusador me acusa com as coisas que eu fiz no passado. Então tenho que resistir a ele firme na fé, porque Jesus lna cruz perdoou e pagou os meus pecados. Além disso tenho que me abster do pecado, para que fique totalmente livre do sentimento de culpa.

 

 

Se eu me torno duro e frio em algumas áreas da minha vida, e minhas ações vão direto contra a minha consciência, a minha consciência fica danificada. Através da desobediência repetida, a consciência acaba morta. O resultado é que consigo fazer o mal intencionalmente, sem ter sentimento de culpa. Logicamente é muito perigoso estar nessa situação, correndo o risco da psicopatia, onde já não existe nenhum sentimento de culpa.

 

 

Paulo escreve que nada – nenhuma ação má – lhe era imputada por sua consciência, mas mesmo assim ele não se sentia justificado (I Coríntios 4,4). Ele tinha uma consciência pura, mas ele sabia que tinha áreas em sua vida, onde ele ainda não tinha recebido luz. Ele sabia que é necessário mais do que uma consciência pura, para chegar a luz e entendimento que está em Deus.

 

 

A CULPA NA PERPECITIVA FREUDIANA

 

 

Culpa Universal e Culpa Individual

 

 

Em muitos textos, especificamente em "Totem e Tabu" (1913), "Psicologia de Grupo e Análise do Eu" (1921) e "O Futuro de uma Ilusão" (1927), Freud apresenta o antagonismo irremediável entre as exigências da sociedade e a moção pulsional, considerando tal incompatibilidade como ameaça constante à sobrevivência da civilização, uma vez que os impulsos agressivos e hostis sempre procuram um meio para se expressar. É exatamente por isso que a civilização se beneficia do agente interno que vigia o sujeito e o condena com a emergência da culpa. Após inúmeras reflexões e trabalhos, em 1929, em "O mal-estar na cultura" Freud conclui que:

 

 

A civilização consegue, de uma maneira ou de outra, dominar o perigoso desejo de agressão, enfraquecê-lo, desarmá-lo e estabelecer no interior do sujeito um agente para conter o desejo. Isso porque esse agente – o supereu – vigia o eu e está pronto a condená-lo, intensificando o sentimento de culpa que sustenta a civilização.

 

 

Para chegar a essa conclusão Freud teve de percorrer um trajeto minucioso de pesquisas e investigações em que ora se destaca a universalidade da culpa, na tentativa de explicar o cerne da civilização, ora se atenta à neurose e à culpa que atormenta individualmente o sujeito. Em "Atos obsessivos e práticas religiosas" (1907), Freud elabora certa comparação que pode auxiliar na compreensão da culpa em suas variáveis individual e coletiva. Ao tratar de cerimonial como um conjunto de condições que devem ser preenchidas, Freud aponta que o ritual obsessivo aparenta ser um cerimonial, com a diferença de que no cerimonial religioso todo e qualquer detalhe é significativo e possui algum sentido simbólico, enquanto o ritual obsessivo é destituído de qualquer sentido manifesto e parece absurdo, inclusive ao próprio obsessivo, que, apesar de não conseguir escapar ao ritual, reconhece a falta de lógica em seus atos.

 

 

A investigação psicanalítica dilui o aspecto absurdo dos atos obsessivos ao revelar que eles possuem um sentido [inconsciente] e que é pelo mecanismo de deslocamento psíquico que ocorre a substituição do elemento real e importante por um trivial. Assim, tem-se que o ritual obsessivo surge como um ato de defesa ou de segurança, uma espécie de medida protetora; sendo que o que está oculto para o sujeito é a conexão entre a ocasião em que a angústia surge e o perigo que ela aponta. Comparativamente, verifica-se que as práticas devotas nos cerimoniais dos indivíduos religiosos também se caracterizam como empreendimentos cujo principal objetivo é a execução de medidas protetoras, que visam garantia de segurança.

 

 

 

Freud percebe que tanto cerimoniais religiosos como rituais obsessivos surgem com duas características:

 

1)-A de buscar proteção contra impulsos hostis internos (tentação/pecado).

 

2)-Evitar o mal esperado (um castigo, punição ou penitência).

 

 

Percebe também, que existem em ambos, leis e proibições, cuja função é expiatória. Em seguida, Freud trata da formação da religião, que se baseia na supressão ou renúncia de certos impulsos instintuais – dos quais procedem, por exemplo, parte da moralidade dos mandamentos –, e verifica que o sentimento de culpa resultante de uma tentação contínua e a angústia sob a forma de temor da punição divina são conhecidos há mais tempo no campo da religião do que no campo das neuroses. Posteriormente, a renúncia dos impulsos será abordada na obra freudiana como elemento crucial, juntamente com a intensificação do sentimento de culpa, das bases do desenvolvimento da civilização.Diante dos paralelos e analogias entre neurose obsessiva e religião, Freud (1907/1969) conclui:

 

 

"pode-se considerar a neurose obsessiva um correlato patológico da formação de uma religião, descrevendo a neurose como uma religiosidade individual e a religião como uma neurose obsessiva universal" (p. 116).

 

 

 

As relações entre a religião, que mitiga a culpa universal, e a neurose obsessiva, que acolhe a culpa individual, aparecem também em "Leonardo da Vinci e uma Lembrança de Sua Infância" (1910), no qual Freud fala sobre a ousadia e independência intelectual de Leonardo. Dentre muitos aspectos de sua genialidade, Freud se interessa justamente pelo que parece ser apenas um "detalhe" na história daquele homem tão brilhante: sua fria rejeição da sexualidade. Freud afirma que os afetos do gênio italiano eram controlados e submetidos à pesquisa, o que não significa que ele fosse insensível à paixão, ele apenas "convertera sua paixão em sede de conhecimento, entregando-se à investigação com a persistência, constância e penetração que derivam da paixão" (Freud, 1910/1969, p. 69). É notável a capacidade que Leonardo desenvolveu de sublimar seus impulsos sexuais, tanto em suas expressões artísticas como em sua curiosidade e interesse intelectual. Segundo Freud, esse destino só foi possível porque a libido escapou ao recalque, podendo ser investida e sublimada em suas pesquisas. Freud verifica ainda fato e característica importantes na história de Leonardo: a ausência de seu pai durante sua tenra infância e a minuciosidade com que ele fazia anotações em um diário, o que lhe chamou atenção, pois apontava uma possível neurose obsessiva. A falta do pai explicaria a fraqueza do mecanismo de recalque, indicando a existência das pesquisas sexuais infantis não inibidas e, por conseguinte, a aparente ausência do sentimento de culpa. Além disso, o convívio com a mãe biológica, pobre e abandonada, bem como sua decepção com os desdobramentos da fantasia do abutre, possivelmente estão na origem do sentimento de repulsa que desenvolveu por mulheres.

 

 

 

Freud atenta em diversos momentos para a curiosidade infantil e demonstra que a especulação das crianças sobre a vida sexual produz fundamentos concretos ao psiquismo e se relaciona com a culpa. O pensamento vigente à época era o de que a sexualidade emergia apenas com a puberdade, mas Freud descreveu a sexualidade infantil e se contrapôs à ideia de que a sexualidade concerne apenas à idade adulta. Assim, a criança pode atribuir a si mesma uma imensa culpa por sua curiosidade infantil, ou ainda a culpa derivada do medo de perder o amor dos pais ou do temor da punição, o que pode gerar inúmeros desdobramentos futuros. Tal compreensão, se não justifica, ao menos explica a marcante independência que Leonardo apresenta em relação a seus próprios sentimentos e também aos demais seres humanos, não necessitando e nem dependendo de qualquer figura de autoridade.Freud resgata a ideia da necessidade humana de se apoiar em alguma autoridade, já que o ser humano nasce em um estado de completa dependência, e afirma: "No entanto, Leonardo pôde dispensar este apoio; não teria podido fazê-lo se nos primeiros anos de sua vida não tivesse aprendido a viver sem o pai" (Freud, 1910/1969, p. 112).

 

 

 

Relacionando aquela dependência inicial à necessidade de uma autoridade, Freud conclui que o complexo parental se encontra também nas raízes da necessidade de religião, pois o "sentimento religioso" se origina na e com a constatação da longa dependência e fragilidade humana, estendidas para além da vida cotidiana. Em vista disso, Freud consegue estabelecer o motivo pelo qual a religião se faz uma neurose coletiva e livra o sujeito de uma neurose individual:



A proteção contra doenças neuróticas que a religião concede aos seus crentes é facilmente explicável: ela afasta o complexo parental, do qual depende o sentimento de culpa, quer no indivíduo, quer na totalidade da raça humana, resolvendo-o para ele, enquanto o incrédulo tem que resolver sozinho seu problema. (Freud, 1910/1969, p. 113)Pouco depois de escrever sobre as teorias sexuais infantis e refletir sobre o papel que pais, educação e sociedade exercem sobre as mesmas, em 1908, Freud escreve o artigo "Moral Sexual 'Civilizada' e Doença Nervosa Moderna", sob a influência do livro Ética sexual de Von Ehrenfels (1907). Segundo nota do tradutor inglês, este artigo é a primeira das longas exposições que Freud faz sobre o antagonismo entre a civilização e a demanda pulsional. Escritos anteriores, no entanto, já revelavam a convicção que Freud tinha a esse respeito, como, por exemplo, em cartas enviadas a Fliess e em seus "Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade", publicado em 1905, onde afirma que é inversa a relação existente entre a civilização e o livre desenvolvimento da sexualidade.

 

 

Todas essas considerações convergem para um caminho inevitável: buscar a origem da culpa e explicar o surgimento da civilização, da moral e, inclusive, da religião. Em 1913, Freud publica seu inestimável "Totem e Tabu – Alguns Pontos de Concordância entre a Vida Mental dos Selvagens e dos Neuróticos", onde discorre sobre a horda primeva e os dois crimes fundantes: o incesto e o parricídio.

 

 

 

"Totem e Tabu" foi uma das mais brilhantes contribuições teóricas na explicação da relevância do sentimento de culpa no sujeito. A partir de estudos antropológicos sobre comunidades primitivas ainda existentes são abordados ritos e proibições fortemente arraigadas, como, por exemplo, o horror ao incesto e a exogamia. Em seu texto, Freud sugere que existem inúmeras semelhanças e pontos de concordância entre a psicologia dos povos primitivos – retratada pela antropologia social – e a psicologia dos neuróticos, foco da psicanálise. Nesse sentido, o estudo da primeira teria muito a contribuir com o desenvolvimento da psicanálise. É importante destacar também a relevância da infância, uma vez que, para Freud, o homem selvagem e o neurótico assemelham-se muito às crianças. Um neurótico apresenta invariavelmente certo grau de infantilismo psíquico: ou falhou em libertar-se das condições psicossexuais que predominavam em sua infância (inibição) ou a elas retornou (regressão).

 

 

Freud elege para seu estudo em "Totem e Tabu" o povo aborígene da Austrália, pois são descritos por antropólogos como "um dos mais miseráveis e atrasados selvagens". Um dos elementos que mais lhe chama a atenção nas tribos daquele povo é o horror ao incesto e uma preocupação excessiva com sua prevenção, sendo este punido até quando ocorre entre animais. Pois, se aquele povo primitivo, canibal e desnudo, não desenvolveu qualquer tipo de moral civilizada, era de se esperar que não houvesse restrições à vida sexual e que sua sexualidade não se sujeitasse a normas.

 

 

No entanto, o que se verificou foi que "eles estabelecem para si próprios, com o maior escrúpulo e o mais severo rigor, o propósito de evitar relações sexuais incestuosas" (Freud, 1913/1969, p. 7). É como se houvesse uma espécie de "lei" contra a união e o relacionamento sexual entre pessoas de um mesmo clã, ainda que sejam de famílias biológicas diferentes.Tal constatação, apesar de ir contra o esperado, não constitui surpresa para Freud, já que muito antes ele imaginava uma possível relação entre a proibição do incesto e a civilização: em 1897, Freud escreveu a Fliess ("Rascunho N" (Freud, 1897b/1969)) que o incesto é antissocial e a civilização consiste numa progressiva renúncia a ele.



Entre os aborígenes da Austrália, o tabu do incesto é tão forte que a sua violação é vingada de maneira enérgica por todo o clã, diferentemente do que ocorre quando outras proibições (matar o totem, por exemplo) são violadas e o "castigo", isto é, a punição, é automática, como se um desastre ou infortúnio atingisse, inevitavelmente, o violador. Freud percebe que naquele caso específico a comunidade tende a punir os transgressores de maneira brutal. Com isso, suspeita que deveria existir também uma culpa coletiva, já que, se o transgressor ficasse imune, todo o povo poderia ser punido ou castigado; Freud passa então a abordar a culpa a partir da necessidade de castigo.

 

 

 

Para compreender e explicar a culpa coletiva, Freud precisou recorrer ao mito científico darwiniano da Horda Primeva em que os filhos teriam se unido para assassinar o Pai primevo. Mas com a morte do pai, ao invés de satisfação e liberdade, os filhos se depararam com o remorso e o temor de uma punição; assim, adotaram um totem (frequentemente um animal) como substituto sagrado do pai, o qual era venerado e inviolável, provocando uma espécie de reconciliação que pudesse amenizar a culpa e ajudar a esquecer o crime cometido. Por esse motivo, o totemismo pode ser considerado uma primeira tentativa de religião. A religião totêmica teria surgido do sentimento filial de culpa, num esforço para mitigar esse sentimento e apaziguar o [furor do] pai com a mais cautelosa obediência a ele; para Freud, todas as religiões posteriores são vistas como tentativas de solucionar o mesmo problema.

 

 

 

Em 1939, em três ensaios compilados em "Moisés e o monoteísmo", Freud apresenta algumas teses acerca da religião monoteísta. Dentre elas, a tese elaborada sobre o assassinato de Moisés traz um desdobramento importante à compreensão da origem da culpa coletiva, pois acrescenta esse fardo [mais um assassinato] à sua fonte. Freud destaca que aquela culpa ultrapassou os limites grupais: "ela tinha se apoderado de todos os povos do Mediterrâneo, como um vago mal-estar, como uma premonição cataclísmica" (Freud, 1939/1969, p. 131).

 

 

 

Ainda em "Totem e Tabu", Freud faz algumas analogias entre a neurose obsessiva e a religião ao identificar que as proibições obsessivas envolvem renúncias e restrições bastante extensivas, assim como as proibições do tabu e da religião, e percebe que algumas restrições podem ser suspensas se certas ações forem realizadas; assim, tais ações logo se tornam atos compulsivos que se repetirão indefinidamente: elas são da mesma natureza que a expiação, a penitência, a purificação ou até as medidas defensivas.

 

 

Para Freud o sentimento moral procede da mesma fonte da qual se originou a religião, porém esse é fruto simultaneamente da exigência da sociedade e da penitência que o sentimento de culpa estabelece.

 

 

 

Após "Totem e Tabu", a questão da culpa coletiva ou individual aparecerá em 1914 no texto "Sobre o Narcisismo – uma Introdução", quando Freud fala sobre o ideal do eu e a instância resultante, o supereu. Com o conceito de narcisismo Freud avançou bastante na compreensão do sentimento de culpa, pois a construção de uma noção de ideal do eu e, posteriormente, de supereu, exemplifica a exigência da qual se deriva a culpa no sujeito. Laplanche e Pontalis apontam o ideal do eu como uma formação intrapsíquica relativamente autônoma que serve de referência ao eu para apreciar suas relações afetivas e afirmam que "sua origem é principalmente narcísica" (Laplanche & Pontalis, 2004, p. 222). Freud afirma que o ideal do eu revela um importante cenário para a compreensão da psicologia de grupo, pois além de seu aspecto individual, esse ideal apresenta um aspecto social, que constitui o ideal comum de uma família, uma classe ou uma nação.

 

 

Para Freud, o ideal vincula não somente a libido narcisista da pessoa, mas também uma quantidade considerável de sua libido homossexual, que retorna ao eu. É através dessa compreensão que Freud apreende o sentimento de culpa em sua esfera social: "A falta de satisfação que brota da não realização de um ideal libera a libido homossexual, sendo esta transformada em sentimento de culpa (ansiedade social)" (Freud, 1914/1969, p. 108). Sabe-se que originalmente, na vida psíquica, o sentimento de culpa era produto do temor da punição pelos pais, isto é, a expressão do medo de perder o amor dos pais; mais tarde os pais são substituídos por um número indefinido de pessoas na comunidade, o que leva à "ansiedade social", que, apesar de se apresentar enquanto culpa individual, nasce graças à vivência coletiva.

 

 

 

Em 1915, Freud descreve o sentimento de culpa e o relaciona à atitude adotada diante da morte; em "Reflexões para os Tempos de Guerra e Morte" ele fala que a história primitiva da humanidade está repleta de assassinatos e aponta que o obscuro sentimento de culpa ao qual a humanidade tem estado sujeita desde épocas pré-históricas e que, em algumas religiões, foi condensado na doutrina da culpa primeva, do pecado original, é provavelmente o resultado de uma culpa de homicídio em que teria incorrido o homem pré-histórico.

 

 

No mesmo texto Freud discorre sobre a ambivalência de sentimentos que se apresentava no período de guerra, pois ao mesmo tempo em que o homem podia matar seus inimigos sem o menor escrúpulo, ele realizava rituais de purificação e isolamento para livrar-se da culpa decorrente de seu ato e do medo da vingança do espírito morto. Ao lado de um corpo sem vida, passou a existir não só a doutrina da alma, a crença na imortalidade e uma poderosa fonte de sentimento de culpa do homem, mas também os primeiros mandamentos éticos. A primeira e mais importante proibição feita pela consciência que despertava foi: não matarás. (Freud, 1915b/1969, p. 305).Concomitante à exigência ética havia o medo da própria morte, que também é reflexo do sentimento de culpa.

 

 

 

Com a formulação do complexo de Édipo, o sentimento (universal) da culpa é presentificado e revivido individualmente, no que Freud identifica como intensos desejos de morte (desejo de matar o pai); estes podem se transfigurar em medo consciente da própria morte (como vingança) graças à ação da instância interna opressora que se origina com a resolução do Édipo – o supereu.

 

 

Para Freud, à época do crime primevo, a autoridade era externa ao sujeito; agora, com a emergência do supereu e a internalização das normas, a instância opressora lhe é interna. Isso configura um problema: apenas uma renúncia não seria suficiente, uma vez que o desejo persiste e não escapa ao supereu. A culpa é compreendida, portanto, como sendo a forma pela qual o eu percebe a crítica do supereu. É, pois, um sentimento de indignidade. Há um ideal do eu que "critica" o eu e este se sente indigno do ideal.

 

 

 

Finalmente, em "O mal estar na cultura" (1930 [1929]), Freud reconhece duas origens para o sentimento de culpa:

 

1)-A angústia diante da autoridade.

 

 

2)-E, posteriormente, a angústia diante do supereu.

 

 

A culpa se delineia, então, não mais como um sentimento difuso, e sim um sentimento onipresente e universal: uma infelicidade interior contínua. No texto, fica claro que a sobrevivência da civilização só é possível com a exigência da supressão e renúncia dos impulsos do sujeito, o que intensifica o sentimento de culpa. Assim, para a sobrevivência da civilização e evolução da cultura existem elevadas normas de conduta moral às quais cada pessoa deve se adequar, controlando seus impulsos e renunciando a satisfações. Portanto, como Freud afirmou em O mal-estar, "pode-se representar o sentimento de culpa como o mais importante problema no desenvolvimento da civilização" (Freud, 1930[1929]/1969, p. 96).

 

 

 

Freud constatou, pois, o percurso das exigências às quais o sujeito, em toda a história, se submete:

 

 

a)-Primeiramente é obrigado a inibir seus impulsos pela soberania do pai primevo.

 

b)-Posteriormente, se submete à lei paterna no complexo de Édipo, até se restringir pela internalização da moral na instância do supereu, represar seus impulsos pelas normas religiosas.

 

c)-E, finalmente, se enquadrar aos padrões sociais, sempre em razão da culpa intrínseca, à qual não é capaz de escapar.

 

 

 

Pode-se dizer, portanto, que a culpa individual está íntima e diretamente relacionada à culpa coletiva e que decorre não só de seu histórico, mas é produto da condição de dependência primária do ser humano e de sua vivência grupal.

 

 

Sentimento Inconsciente de Culpa

 

 

 

A questão do inconsciente não apenas perpassa toda a teoria freudiana como também é uma das noções mais essenciais à psicanálise. Desde o "Projeto para uma Psicologia Científica" (1895) Freud se interessa por estudar mecanismos psíquicos. Até formular suas duas tópicas do aparelho psíquico Freud atravessa uma trajetória repleta de percalços e evolui de uma noção baseada em elementos quantitativos (impulsos neurológicos) à dinâmica qualitativa do psiquismo.

 

 

Em "A Interpretação dos Sonhos" (que começou a ser escrita em 1895 e foi publicada em 1899) Freud dá um salto qualitativo na teoria psicanalítica ao abandonar a supervalorização da consciência e destacar que o inconsciente é a verdadeira realidade psíquica, de maneira a assegurar que a interpretação é a via real que leva ao conhecimento das atividades inconscientes.

 

 

 

Em 1901, no capítulo "Determinismo, crença no acaso e superstição" de "Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana" Freud recorre ao exemplo clínico da paranoia para demonstrar a existência de conhecimento inconsciente, uma vez que considera que não há nada que possa ser arbitrário ou indeterminado no psiquismo.

 

 

Freud fala sobre a superstição ser uma expectativa de infortúnio:

 

 

Uma pessoa que deseja o mal a outrem, tendo sido educada com preceitos morais e, por isso, recalcado sua hostilidade no inconsciente "será especialmente propensa a esperar o castigo por sua maldade inconsciente como um infortúnio que a ameaça de fora" (Freud, 1901/1969, p. 311).

 

 

Esse "castigo" diz respeito à necessidade de punição que, atrelada à culpa [inconsciente], pode aparecer de diversas formas. Freud ainda não falava de sentimento inconsciente de culpa, mas, ao investigar o determinismo psíquico que se apresenta nos atos falhos e se revela no mecanismo da formação dos sonhos, constatou expressões inconscientes da culpa. A investigação psicanalítica muito auxiliou na revelação de conteúdos inconscientes nos neuróticos e, nesse sentido, aproximou o neurótico do criminoso, uma vez que se depara com os crimes do incesto e do parricídio no complexo de Édipo. Outra semelhança é o fato de que ambos possuem um segredo oculto; no entanto, o criminoso oculta algo intencionalmente, enquanto, para o neurótico, o segredo está oculto de sua própria consciência, isto é, não está apenas esquecido, mas fortemente recalcado. É como se o neurótico ignorasse seu próprio segredo e o criminoso simulasse tal ignorância.

 

 

Além disso, os segredos oferecem resistência para serem revelados, porém, a resistência no tratamento analítico situa-se na fronteira entre o consciente e o inconsciente e pode ser combatida pelo próprio paciente através de esforços conscientes, objetivando a cura; o que não ocorre com o criminoso, pois este não cooperará, já que seu objetivo é manter o crime em sigilo, não revelá-lo, e sua resistência origina-se totalmente da consciência.

 

 

 

Assim, Freud retoma a noção de determinismo psíquico na tentativa de articular uma possível contribuição da psicanálise para aqueles casos, mas aponta outra dificuldade, uma vez que o material psíquico recalcado no neurótico atormenta o paciente da mesma forma que uma consciência culpada. E assinala uma complicação:

 

 

"Os senhores, em sua investigação, podem ser induzidos a erro por um neurótico que, embora inocente, reage como culpado devido a um oculto sentimento de culpa já existente nele e que se apodera da acusação." (Freud, 1906/1969, p. 103).

 

 

Freud retoma a infância para elaborar a hipótese da culpa não consciente e cita um exemplo facilmente verificável, quando uma criança acusada de uma transgressão qualquer nega sua culpa, mas chora como um condenado. Freud afirma que mesmo parecendo que a criança mentiu ao alegar inocência, muitas vezes ela de fato não cometeu a transgressão da qual é acusada, mas o seu choro pode denunciar uma outra falta qualquer que tenha cometido. Segundo Freud, "[a criança] fala a verdade ao negar ser culpada da primeira transgressão, ao mesmo tempo em que revela seu sentimento de culpa proveniente de outra falta" (Freud, 1906/ 1969, p. 103).

 

 

 

Em "Atos obsessivos e práticas religiosas" (1907), segundo nota do tradutor, surgirá pela primeira vez explicitamente o termo "sentimento inconsciente de culpa", que desempenhará papel tão importante nos escritos posteriores de Freud, como em "O Ego e o Id" (1923). Naquele texto, Freud afirma que:

 

 

Nos atos obsessivos, por mais que não pareça, tudo tem sentido e pode ser interpretado; afirma ainda que "o ato obsessivo serve para expressar motivos e ideias inconscientes" (Freud, 1907/1969, p. 113), uma vez que a pessoa que obedece à compulsão o faz sem compreender- lhe o sentido.

 

 

Ao estudar os atos obsessivos, Freud conclui:

 

 

"Pode-se dizer que aquele que sofre de compulsões e proibições comporta-se como se estivesse dominado por um sentimento de culpa, do qual, entretanto, nada sabe, de modo que podemos denominá-lo de sentimento inconsciente de culpa." (Freud, 1907/1969, p. 113).

 

 

 

 

Em "Totem e Tabu" (1913) Freud esboça certa tentativa de apreender a relação do sentimento de culpa com o inconsciente. Freud entende que as expressões do ódio não eram permitidas na horda primeva – o que fazia com que aquele afeto se mantivesse recalcado no inconsciente – e a violação de qualquer norma gerava certo sentimento de culpa, que foi intensificado com o parricídio. Ao chamar a atenção para o fato de uma sensação de culpa ter em si muito da natureza da angústia, Freud descreve essa sensação como um "pavor da consciência". É essa relação entre a culpa e a angústia que, neste momento, possibilita a visualização das fontes inconscientes:

 

 

 

A psicologia das neuroses nos fez ver que, se impulsos cheios de desejos forem reprimidos, sua libido se transformará em angústia.7 E isto nos faz lembrar que há algo de desconhecido e inconsciente em conexão com a sensação de culpa, a saber, as razões para o ato de repúdio. O caráter de ansiedade que é inerente à sensação de culpa corresponde ao fator desconhecido. (Freud, 1913/1969, p. 43).

 

 

 

Foi somente em 1915, no artigo "O Inconsciente", que a questão da culpa inconsciente foi esclarecida. Neste, Freud diferencia ideias de afetos:

 

 

As primeiras seriam traços de memória que aparecem como representações psíquicas, enquanto os afetos e emoções correspondem a processos de descarga, cujas manifestações finais são percebidas como sentimentos. Com essa distinção, Freud questiona a possibilidade de haver impulsos, emoções ou sentimentos inconscientes, já que são sentidos e percebidos pela consciência, e conclui: "é certamente da essência de uma emoção que estejamos conscientes dela... Assim, a possibilidade do atributo de inconsciência seria completamente excluída no que diz respeito a emoções, sentimentos e afetos" (Freud, 1915a/1969, p. 182).

 

 

 

Freud entende que pode ocorrer de uma emoção ou afeto ser sentido e mal-interpretado, isso porque o recalque do representante adequado daquele afeto forçou-o a se ligar a outra ideia; assim, a consciência considera, erroneamente, o afeto sentido como sendo expressão da ideia substituta. É importante destacar que é exatamente esse processo que ocorre na neurose obsessiva.Considerando o recalque sofrido pela ideia original, Freud explica a licença da denominação "sentimento inconsciente de culpa":



Se restaurarmos a verdadeira conexão, chamaremos o impulso afetivo original de inconsciente, contudo, seu afeto nunca foi inconsciente, o que aconteceu foi que sua ideia sofreu repressão. Em geral, o emprego das expressões "afeto inconsciente" e "emoção inconsciente" refere-se a vicissitudes sofridas, em consequência da repressão, pelo fator quantitativo no impulso instintual. (Freud, 1915a/1969, p. 182)

 

 

 

Freud afirma que as ideias inconscientes, mesmo após o recalque, continuam a existir e tentam se manifestar na consciência e que o afeto inibido em seu desenvolvimento pode aparecer enquanto angústia. Ao considerar a dinâmica do inconsciente, Freud aponta que a culpa inconsciente se manifesta também no tratamento analítico e explica certa resistência derivada do eu durante a análise:

 

 

A reação terapêutica negativa, apresentada no quinto capítulo, intitulado "Estados de dependência do eu", quando elucida importantes aspectos da dinâmica e funcionamento do supereu. Segundo Freud, "o sentimento de culpa que está encontrando sua satisfação na doença se recusa a abandonar a punição do sofrimento" (Freud, 1923/1969, p. 62). O sentimento de culpa se apresenta nesses casos como uma resistência à cura, bastante difícil de superar.

 

 

 

O supereu, que também é, em grande parte, inconsciente, é então apresentado, em suas relações com o ideal do eu, como uma instância autocrítica capaz de julgar e oprimir o eu; Freud pontua a censura moral e afirma que "a tensão entre as exigências da consciência e os desempenhos concretos do eu é experimentada como sentimento inconsciente de culpa" (Freud, 1923/1969, p. 49).

 

 

Em 1924, no texto "O problema econômico do masoquismo", Freud volta a essa questão e afirma que a utilização do termo "sentimento inconsciente de culpa" é psicologicamente incorreta, já que sentimentos não podem ser descritos como "inconscientes".

 

 

Agora é possível compreender que os afetos que são denominados como "inconscientes" foram inibidos em seu desenvolvimento pelo recalque e que, na verdade, o que é inconsciente não é o afeto, mas sim a representação original do mesmo e a carga libidinal ligada àquela. Portanto, falar de "sentimento inconsciente de culpa" significa dizer que o representante psíquico original da culpa foi recalcado.

 

 


 

COMO SUPERAR O SENTIMENTO DE CULPA DE FORMA CRISTÃ:

 

 

 

Todo mundo tem pecados, e um dos resultados do pecado é a culpa. Podemos ser agradecidos pelos sentimentos de culpa porque eles nos levam ao reconhecimento dos erros e ao arrependimento. No momento em que uma pessoa dá as costas ao pecado e sua face a Jesus Cristo, começa a libertar-se do sentimento de culpa. Arrependimento é parte da fé que leva à salvação (Mateus 3,2; 4,17; Atos 3,19).Em Cristo, até mesmo os piores pecados são apagados (leia 1 Coríntios 6,9-11 e veja a lista de obras injustas que são perdoadas). Deus é Misericórdia. Depois que uma pessoa é batizada, crismada, e teve uma experiência com o amor e a misericórdia de Deus, ainda assim ela ainda vai pecar, e isto não causa surpresa alguma a Deus. Quando isso acontece, Deus ainda promete o seu perdão:


 


“Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1 João 2,1).

 

 

 

Liberdade em Cristo, não significa liberdade de sentimentos de culpa. Mesmo quando nossos pecados são perdoados, ainda nos lembramos deles. Além disso, temos um inimigo espiritual, chamado de “acusador de nossos irmãos” (Apocalipse 12,10), o qual nos lembra de uma forma tão cruel todas as nossas falhas, erros e pecados. Quando um Cristão experimenta de sentimentos de culpa, ele(a) deve fazer o seguinte:

 

 

 

1) Confesse todos os pecados previamente cometidos que ainda não foram confessados e sobre os quais você tem conhecimento. Em alguns casos, sentimentos de culpa são apropriados porque na confissão eles são necessários para um autêntico exame de consciência Muitas vezes nos sentimos culpados porque realmente somos culpados! (Vejamos a descrição dos sentimentos de Davi nos Salmos 32,3-5).

 

2) Peça ao Senhor que revele qualquer outro pecado que precisa ser confessado. Tenha a coragem de ser completamente aberto e honesto diante do Senhor. “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau” (Salmos 139,23-24a).

 

3) Confie na promessa de que Deus vai perdoar o pecado e remover a culpa baseado no sangue de Cristo (1 João 1,9; Salmos 85,2; 86,5; Romanos 8,1).

 

4) Nas ocasiões em que sentimentos de culpa surgem sobre pecados já confessados e abandonados, rejeite esses sentimentos como culpa falsa. Pecados já arrependidos, reparados e confessados, pecados perdoados. O Senhor tem sido fiel à sua promessa de perdoar. Leia e medite em Salmos 103,8-12.

 

5) Peça ao Senhor para repreender a Satanás, seu acusador, e peça ao Senhor que restaure a alegria que acompanha a liberdade da confissão de suas culpas. Salmos 32 é um estudo muito proveitoso. Apesar de Davi ter pecado de forma terrível, ele encontrou liberdade dos seus pecados e sentimentos de culpa. Ele lidou com a causa da culpa e a realidade do perdão. Salmos 51 é uma outra passagem muito boa para investigar. A ênfase aqui é a confissão do pecado enquanto Davi implora a Deus com um coração cheio de culpa e sofrimento. Restauração e gozo são os resultados.

 

 

Finalmente, se pecado tem sido confessado e arrependimento tem ocorrido, então é certo que o pecado tem sido perdoado e é hora de seguir para a frente. Lembre-se que aquele tem vindo a Cristo através de fé tem sido transformado em uma nova criatura. “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2 Coríntios 5,17). Parte das “coisas antigas” que “já passaram” é a lembrança de pecados passados e a culpa que produziam. Triste dizer que muitos Cristãos têm a tendência de ter prazer em recordar até com certo orgulho as vidas pecaminosas que viviam antes de sua experiência com a misericórdia de Deus. Isso não faz nenhum sentido e vai de encontro à vida Cristã santa e gloriosa que Deus quer que tenhamos.

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

 

 

Freud, S. (1969). Atos obsessivos e práticas religiosas. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de S. Freud (J. Salomão, trad., Vol. 9, pp. 109-122). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1907).

 

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Freud, S. (1969). Sobre o narcisismo: uma introdução. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de S. Freud (J. Salomão, trad., Vol. 14, pp. 75-110). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1914).

 

 

Freud, S. (1969). Totem e tabu – alguns pontos de concordância entre a vida mental dos selvagens e dos neuróticos. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de S. Freud (J. Salomão, trad., Vol. 13, pp. 17- 192). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1913).

 

 

Freud, S. (1969). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de S. Freud (J. Salomão, trad., Vol. 7, pp. 152-162). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1905).

 

 

Hamud, M. I. L., & Gellis, A. (2009). Gênese e desenvolvimento da noção de sentimento de culpa na obra freudiana. Relatório final de projeto de Iniciação Científica – FAPESP.

 

 

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Neste Apostolado promovemos a “EVANGELIZAÇÃO ANÔNIMA", pois neste serviço somos apenas o Jumentinho que leva Jesus e sua verdade aos Povos. Portanto toda honra e Glória é para Ele.Cristo disse-nos:Eu sou o caminho, a verdade e a vida e “ NINGUEM” vem ao Pai senão por mim." ( João, 14, 6).Como Católicos,defendemos a verdade, contra os erros que, de fato, são sempre contra Deus.Cristo não tinha opiniões, tinha verdades, a qual confiou a sua Igreja, ( Coluna e sustentáculo da verdade – Conf. I Tim 3,15) que deve zelar por elas até que Cristo volte.Quem nos acusa de falta de caridade mostra sua total ignorância na Bíblia,e de Deus, pois é amor, e quem ama corrige, e a verdade é um exercício da caridade.Este Deus adocicado,meloso,ingênuo, e sentimentalóide,é invenção dos homens tementes da verdade, não é o Deus revelado por seu filho: Jesus Cristo.Por fim: “Não se opor ao erro é aprová-lo, não defender a verdade é nega-la” - ( Sto. Tomáz de Aquino) “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome dai glória...” (Salmo 115,1)

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