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Rodney Stark O Crescimento do Cristianismo: Um Sociólogo Reconsidera a História

Written By Beraká - o blog da família on sexta-feira, 7 de novembro de 2014 | 13:07


Rodney Stark (nascido em 1934) é um conservador americano sociólogo da religião . Ele é Professor de Ciências Sociais na Universidade de Baylor , co-diretor do Instituto da Universidade de Estudos de Religião, e editor-fundador da Revista Interdisciplinar de Pesquisa sobre Religião.

Stark tem escrito mais de 30 livros, incluindo The Rise of Christianity (1996), e mais de 140 artigos acadêmicos sobre temas tão diversos como o preconceito, crime, suicídio e vida da cidade na antiga Roma.Ele já ganhou duas vezes o Livro Distinguished Prêmio da Sociedade para o Estudo Científico da Religião , para o futuro da religião: Secularização, Revival, e Formação Cult (1985, com William Sims Bainbridge ), e para a churching da América 1776-1990 (1992, com Roger Finke ).

Início da vida e da educação
Stark cresceu em Jamestown, Dakota do Norte , em uma família  Luterana. Ele passou um tempo no Exército dos Estados Unidos , antes de se formar em jornalismo pela Universidade de Denver , em 1959. Ele trabalhou como jornalista para o Oakland Tribune, de 1959 até 1961, então perseguiu o trabalho de pós-graduação, obtendo seu mestrado em Sociologia pela Universidade da Califórnia , Berkeley em 1965 e seu doutorado, também de Berkeley, em 1971.


Carreira e pesquisa

Após concluir seu doutorado, Stark realizada nomeações como um sociólogo de pesquisa no Centro de Pesquisa e Estudo do Centro de Estudos de Direito e Sociedade. Depois de ensinar como Professor de Sociologia e de Religião Comparada na Universidade de Washington por 32 anos, Stark foi para a Universidade de Baylor em 2004, onde é co-diretor do Instituto de Estudos da Religião. Ele é um defensor do aplicação da teoria da escolha racional na sociologia da religião , o que ele chama de teoria da economia religiosa.

Teoria Stark-Bainbridge da religião

Durante o final dos anos 1970 e 1980, Stark trabalhou com William Sims Bainbridge na teoria Stark-Bainbridge da religião, e co-escreveu os livros O Futuro da Religião (1985) e A teoria da religião (1987) com Bainbridge. Hoje em dia a sua teoria, que visa explicar o envolvimento religioso em termos de recompensas e compensadores, é visto como um precursor do recurso mais explícita de princípios econômicos no estudo da religião como mais tarde desenvolvido por Laurence Iannaccone e outros.

Sobre o crescimento do cristianismo

Stark propôs em The Rise of Christianity que o cristianismo cresceu através graduais conversões individuais e estratégicas, bem como via redes sociais da família, amigos e colegas. Sua principal contribuição, comparando evidência documentada de propagação do cristianismo no Império Romano com a história da igreja mórmon nos séculos 19 e 20, foi para ilustrar que um crescimento sustentado e contínuo pode levar a um crescimento enorme dentro de 200 anos. Este uso de crescimento exponencial como motor para explicar o crescimento da igreja, sem a necessidade de conversões em massa (considerado necessário pelos historiadores até então) é hoje amplamente aceite.

Stark sugeriu que o cristianismo cresceu porque ele tratava as mulheres melhor do que as religiões pagãs . Ele também sugeriu que tornar o cristianismo a religião oficial do Império Romano enfraqueceu a fidelidade da comunidade cristã, trazendo para a fé Cristã pessoas que realmente não acreditam ou tiveram uma experiência muito fraca com Deus e aderiu apenas por mero oportunismo, e para evitar a perseguição.

Na teoria da evolução

Em 2004, o American Enterprise, uma publicação on-line do American Enterprise Institute , publicou um artigo de Stark, "Os fatos, Fable e Darwin," crítica da sufocante de debate sobre evolução . Stark criticou a "Cruzada darwiniana" e sua "tática de afirmar que a única escolha é entre Darwin e literalismo bíblico." Apesar de não ser ele mesmo um criacionista, ele acredita que, apesar de "a teoria da evolução é considerada como o desafio invencível para todas as reivindicações religiosas, é dado como certo entre os principais cientistas biológicos que a origem das espécies ainda tem de ser explicado." Ele sugere que os governos "relevem a exigência de que os textos do ensino médio possa consagrar a tentativa fracassada de Darwin como uma verdade incontestável e cientificamente comprovada, pois não passa ainda de teoria."

Fé religiosa pessoal

Em seu livro de 1987 A teoria da religião, Stark e Bainbridge se descrevem como "pessoalmente incapazes de fé religiosa". Embora relutante em discutir seus próprios pontos de vista religiosos, ele declarou em uma entrevista concedida em 2004 que ele não era um homem de fé, mas também não é um ateu.


Em uma entrevista de 2007, depois de aceitar uma nomeação na Universidade de Baylor , Stark indicou que a sua auto-compreensão tinha mudado e que ele poderia agora ser descrito como um "cristão independente".


Nesta entrevista Stark relembra que ele "sempre foi um "cristão cultural”, entendido por ele como tendo "sido fortemente comprometido com a civilização ocidental." De suas posições anteriores, ele escreveu:

“Eu nunca fui ateu, mas eu provavelmente poderia ter sido melhor descrito como um agnóstico".

Rodney Stark O Crescimento do Cristianismo: Um Sociólogo Reconsidera a História

*(por Cleusi Gama da Silva)

Rodney Stark é um sociólogo conhecido por produzir uma sociologia da religião com rigor metodológico, o que nem sempre acontece em outros estudiosos da área. Essa preocupação remonta há muito tempo.


Stark, à luz de Popper, desenvolve uma teoria da religião pautada na utilização de axiomas, a partir dos quais levanta um conjunto de proposições que podem ser empiricamente testadas. No Prefácio da obra em tela, Stark indica-nos seu método de trabalho, no qual utilizou dados históricos de diversas fontes, introduzindo historiadores, biblistas, para elaborar uma releitura sociológica do crescimento do Cristianismo. Apropria-se da formulação da teoria formal da escolha racional, das teorias da firma, do papel das redes sociais e dos vínculos interpessoais no processo de conversão. Inclui ainda os modelos de dinâmica populacional, a epistemologia social e os modelos de economias da religião.



No primeiro capítulo, Conversão e crescimento cristão, o tema central é responder o que subjaz à difusão do Cristianismo primitivo, caracterizado como um movimento messiânico minúsculo, obscuro e periférico.


Para entender como o Cristianismo sobrepujou o paganismo clássico, afirma existirem várias explicações:


1)-Segundo Stark, não torna sacrílego empenhar-se em explicações plausíveis advindas da observação das variáveis constituintes da dinâmica social. Esse esforço não pretende contrapor-se à crença em uma ação divina, na medida em que busca entender “ações humanas em termos humanos” de um processo inacabado. A partir de projeções estatísticas, analisa possíveis taxas de crescimento do Cristianismo primitivo,sem a necessidade de recorrer a argumentos miraculosos.


2)-Constatação plausível na leitura de Stark é a de que a conversão a grupos religiosos novos ou dissidentes torna-se possível quando os vínculos com membros do grupo novo são mais fortes do que os mantidos com os anteriores, fato este explicado pela teoria do controle do comportamento dissidente (p.26), acrescentando ainda que os convertidos, em geral, não apresentavam anteriormente uma prática religiosa consistente.


3)- Em A classe fundamental do Cristianismo primitivo, segundo capítulo da obra, Stark, discordando de análises feitas sobre os primeiros cristãos, argumenta que o movimento em seus primórdios pode ter contado com indivíduos provenientes dos estratos mais desfavorecidos da sociedade clássica, os quais, porém, não constituíam sua maioria. A plausibilidade da afirmação dos conversos procederem de estratos mais elevados alinha-se à distinção feita por Stark em sua obra Uma teoria da Religião, na qual apresenta a diferença entre seita e movimentos de culto. A seita constitui-se por um cisma no interior do movimento religioso convencional (p. 45). Já os movimentos de culto apresentam-se como nova crença, e indivíduos de estratos mais elevados da sociedade são mais propensos a aderir a novas crenças do que os mais incultos. Tais proposições, corroboradas por dados estatísticos,levam à conclusão de que o Cristianismo primitivo foi um movimento de indivíduos mais favorecidos.



4)- No capítulo terceiro, A missão junto ao povo judeu: as razões de seu provável sucesso, o autor apresenta evidências de que os judeus da diáspora possibilitaram as adesões ao Cristianismo não apenas no séc I e II, mas também até por volta do séc V. Para refutar a posição de que os judeus rejeitavam a mensagem cristã, Stark recorre a três argumentos:

a)os judeus emancipados perceberam que o Judaísmo não era apenas uma religião, mas uma etnicidade que os mantinha à margem. A solução da dissonância cognitiva, em marginalizados, ocorre pela assimilação ou a resolução do conflito, corroborada pelas proposições de que novos movimentos religiosos arregimentam adeptos principalmente dos estratos religiosamente inativos e descontentes, que, no caso judaico, são constituídos pelas novas gerações.


b)- Em segundo lugar, as pessoas se mostram mais dispostas a adotar uma nova religião à medida que esta mantém uma continuidade cultural presente no Judaísmo/Cristianismo, por possuírem aspectos semelhantes.


c)- O último argumento é que os movimentos sociais crescem mais rapidamente quando se disseminam ao longo de redes sociais preexistentes, e essas redes existiam entre os judeus da diáspora.



Para o sociólogo, as epidemias de varíola e sarampo foram devastadoras da população pagã, enquanto, para o Cristianismo, constituíram solo fértil para a sua disseminação, pois a religião cristã tinha capacidade de explicação e consolação das desgraças – isso, além da maior resistência dos cristãos às epidemias, que teve como resultado o fato de os mesmos se tornarem a maioria na população.


Além disso, os pagãos, tendo seus laços sociais abalados pelas epidemias, aderiam mais facilmente a novos vínculos com os cristãos, aumentando o número de conversões, tendo em vista o aspecto da solidariedade humana dos cristãos primitivos.


Aspectos interessantes são apresentados quanto ao papel da mulher dentro do Cristianismo primitivo, no capítulo quinto, sob o título: 


O papel das mulheres no crescimento cristão. Stark, diferentemente da análise simplista de autores que afirmam serem as mulheres da época fáceis de se filiarem a “qualquer superstição forânea”, apresenta-nos os elementos do ethos cristão (a proibição do infanticídio, a condenação ao aborto e ao divórcio, ao incesto, à infidelidade conjugal e à poligamia) como fatores que constituíram o poder de atração às mulheres da época.


Na subcultura cristã era possível às mulheres ocuparem status diferenciado, o que não acontecia no mundo greco-romano. Além disso, a conversão feminina em novos movimentos contemporâneos também apresenta índice mais elevado do que no caso do sexo masculino, não se restringindo, pois, ao início do movimento cristão. A destacada diferenciação do coeficiente sexual com superioridade para as mulheres em relação aos homens cristãos decorreu da proibição do aborto e infanticídio nas doutrinas cristãs.


Stark trabalha sua demonstração recorrendo a evidências arqueológicas e à demografia histórica, as quais corroboram o status privilegiado das mulheres na Igreja cristã primitiva. Tal fenômeno relativo a relações de gênero não se limitava à família, mas à sociedade e à própria Igreja, em que mulheres ocuparam postos de destaque, como o caso da diaconisa Febe.


Casamentos exogâmicos permitidos entre as cristãs e homens pagãos, dado o alto nível de comprometimento dos cristãos, não manifestava apostasia; ao contrário, acreditava-se na possibilidade de que esse tipo de casamento conduziria a novas adesões, denominado por Stark de conversões “secundárias”. A alta taxa de natalidade e fertilidade das mulheres cristãs também é um aspecto a ser destacado.


Sob o título A cristianização do Império urbano:


Uma abordagem quantitativa, Stark recorre a Meeks para reconhecer os novos adeptos ao Cristianismo primitivo através da categoria urbanidades. Acresce a essa contribuição o resultado de pesquisa em vasta fonte de dados garimpados em Atlas históricos, traçando a rota de disseminação do movimento cristão em 22 grandes cidades, sendo que, destas, 20 integravam o mundo greco-romano. No aspecto localização, a distância de viagem entre Jerusalém e as cidades em tela foi utilizada para compreender em que medida a influência de contatos judaicos anteriores à romanização se fez presente. O Gnosticismo é visto por Stark não como heresia cristã, mas como mais uma heresia judaica.



O caos urbano propiciou ao Cristianismo a oportunidade de sobrepujar o paganismo e outros movimentos religiosos, como solução a esses problemas. Essa análise é realizada tendo como objeto a cidade de Antioquia, apontada como exemplo da precária condição de sobrevivência urbana da época. Esse estudo está consignado no capítulo sétimo, sob o título Caos urbano e crise: o caso de Antioquia. Através de seu meticuloso estilo metodológico de produção científica, Stark ampara sua análise na alta densidade da cidade de Antioquia no séc. I, com 117 habitantes por acre e sérios problemas de infra-estrutura e segurança.


Para desenvolver o capítulo oitavo, Os mártires:


O sacrifício como escolha racional, Stark se contrapõe ao estudo científico-social da religião como simples questão de classificação, pois isso retrata mais um objetivo primordial de desacreditar a religião do que de empreender sua compreensão. Assim, pauta sua análise na teoria da escolha racional, importada da microeconomia e adaptada à sociologia da religião.


Estigmas e sacrifícios religiosos são escolhas racionais, na medida em que “quanto mais sacrifícios as pessoas oferecem à sua fé, maior o valor das recompensas que ganham em contrapartida” (p.186). No subtítulo, Religião e racionalidade, enuncia uma proposição teórica na qual “a religião provê compensadores por galardões que são escassos ou indisponíveis”. Racionalmente, o indivíduo deseja recompensas imediatas, mas se estas são muito escassas, satisfaz-se com os compensadores, ou alternativas.


Por outro lado, as pessoas diferem em suas avaliações quanto às recompensas ou benefícios específicos pois possuem diferentes esquemas de preferência.


Os indivíduos avaliaram compensadores buscando custos e benefícios, custos de oportunidade e maximização de benefícios líquidos. Os mártires são considerados o ponto mais crível de uma religião, pois a mesma está pautada nas redes de relacionamentos e na força dos testemunhos como forma de sedimentação da credulidade.


Stark alerta, também, que na rede de relacionamentos podem existir os aproveitadores, os quais, como atores racionais, apenas desejam auferir benefícios e não contribuir para o interesse coletivo. No sentido oposto, encontra-se a prática cotidiana, na qual o Cristianismo não se resume a sacrifícios e estigmas, mas a auxílio aos menos favorecidos. Como os cristãos deviam amar ao próximo, eram amados, e seu código moral rigoroso propiciava-lhes uma vida familiar mais segura.



Em Oportunidade e Organização, capítulo nono, o autor avalia as oportunidades do surgimento do novo culto, além de focalizar os aspectos diferenciais da organização do movimento cristão que desencadearam perseguição contra os adeptos. Quanto à regulação estatal, Roma parece não ter efetuado severa perseguição legal aos cristãos primitivos, o que pode ser confirmado tanto pela pujança do crescimento da nova religião quanto pelas evidências arqueológicas.


Na análise produzida, o sociólogo lança mão do conceito de economias religiosas. O Cristianismo encontrou solo fértil para desenvolver-se dada a debilidade pagã, e seu sucesso residiu em ser uma firma religiosa que oferece serviço completo, com adeptos obstinados, resultando em recompensas religiosas admiráveis. Além do mais, seu crescimento contou com o poderoso marketing da influência pessoa a pessoa.



Em Breve reflexão sobre a virtude, afirma que crescimento do Cristianismo deveu-se às suas doutrinas religiosas particulares. Elas foram revolucionárias por inspirar o amor ao próximo e pela concretude das ações dos cristãos primitivos.


O Cristianismo, como movimento de revitalização, respondeu pela formação de uma cultura desprovida de etnicidade, unificando as diversas subculturas existentes no interior do Império. A ética cristã possibilitou uma visão moral de valorização e respeito à vida, ou, nas palavras de Stark, a virtude foi sua própria recompensa (p. 240).



Stark contribui para a sociologia da religião com uma análise pautada em axiomas, definições e proposições, revendo conceitos sociológicos clássicos, além de fornecer dados, fatos e fontes históricas ricos na compreensão da evolução do Cristianismo primitivo.

STARK, Rodney - O Crescimento do Cristianismo: Um Sociólogo Reconsidera a História, Editora Paulinas, São Paulo, 2006, ISBN 85-356-1657-8. 267 p.


*Cleusi Gama da Silva: Doutoranda em Ciências da Religião, docente das disciplinas de Sociologia e Cultura Organizacional no Curso de Graduação de Administração da FACCE – UNIMES –Santos/SP.





Somos todos cristãos



Cristo é e seguirá sendo a principal referência do que reconhecemos no Ocidente como a "nossa"cultura. Católicos, protestantes, judeus, islâmicos,budistas, espíritas, agnósticos, ateus – não importa.Comungamos de um patrimônio que entendemos como ideal de civilização e de justiça.


*(Por Reinaldo Azevedo – Veja)


Quando, no começo deste mês, arqueólogos do Vaticano desenterraram o sarcófago com os restos mortais do apóstolo Paulo, nascido no ano 10 e decapitado em 67, vinham à luz alguns séculos de civilização, de que a mensagem de Cristo é, a um só tempo, conseqüência e causa.


Combatido, submetido ao obscurantismo politicamente correto e tomado como inimigo das minorias multiculturalistas – tão mais barulhentas quanto mais minoritárias –, o cristianismo, não obstante, guarda as chaves do humanismo moderno e da democracia e constitui o que o homem tem produzido de melhor em pluralismo, tolerância e, creiam!, avanço científico.


"A humanidade produz bíblias e armas, tuberculose e tuberculina (...), constrói igrejas e universidades que as combatem; transforma mosteiros em casernas, mas nas casernas coloca capelães militares", escreveu o romancista austríaco Robert Musil (1880-1942) em O Homem sem Qualidades.”


Falamos de uma "civilização" que parece ser a improvável história de um permanente paradoxo. E, no entanto, ela avança, sempre duvidando de si mesma, mergulhada às vezes no horror, mas se recuperando, em seguida, para a maravilha.


Depois de Jesus, é Paulo que vem à luz como o homem mais importante do cristianismo, verdadeiro fundador da teologia cristã. Com um édito do imperador Constantino, em 313, a seita minoritária, nascida entre judeus da Galiléia, tornava-se uma das religiões do Império Romano. Cessava a perseguição ao cristianismo, e aquele foi um dos marcos da longa marcha que se anuncia acima.


Como se operou o milagre?


O sociólogo americano Rodney Stark sustenta que uma das raízes da expansão cristã é a caridade – elevada por Paulo à condição de primeira virtude. E a outra são as mulheres. Em The Rise of Christianity: a Sociologist Reconsiders History, Stark, professor de sociologia e religião comparada da Universidade de Washington, lembra que, por volta do ano 200, havia em Roma 131 homens para cada 100 mulheres e 140 para cada 100 na Itália, Ásia Menor e África.


O infanticídio de meninas – porque meninas – e de meninos com deficiências era "moralmente aceitável e praticado em todas as classes". Cristo e o cristianismo santificaram o corpo, fizeram-no bendito, porque morada da alma, cuja imortalidade já havia sido declarada pelos gregos. Cristo inventou o ser humano intransitivo, que não depende de nenhuma condição ou qualidade para integrar a irmandade universal. As mulheres, por razões até muito práticas, gostaram.



No casamento cristão, que é indissolúvel, as obrigações do marido, observa Stark, não são menores do que as das mulheres:


A unidade da família é garantida com a proibição do divórcio, do incesto, da infidelidade conjugal, da poligamia e do aborto, a principal causa, então, da morte de mulheres em idade fértil. A pauta do feminismo radical se volta hoje contra as interdições cristãs que ajudaram a formar a família, a propagar a fé e a proteger as mulheres da morte e da sujeição. Embora a cultura helênica, grega, matriz espiritual do Império Romano, tenha sido fundamental na expansão do cristianismo, o mundo estava diante de uma nova moral. Quando Constantino assina o Édito de Milão, a religião dos doze apóstolos já somava 6 milhões de pessoas.



Stark demonstra ser equivocada a tese de que aquela era uma religião apenas dos humildes:


O "cristianismo proletário" serve ao proselitismo, mas não à verdade. A nova doutrina logo ganhou adeptos entre as classes educadas. Provam-no os primeiros textos escritos por cristãos, com claro domínio da especulação filosófica. Mas não só. Se o cristianismo era uma religião talhada para os escravos – "os pobres rezarão enquanto os ricos se divertem" (em inglês, dá um bom trocadilho: "the poor will pray while the rich play") –, Stark prova que o novo credo trazia uma resposta à grande questão filosófica posta até então: a vitória sobre a morte.



Outro mito diz respeito a um suposto cristianismo pastoril e antiurbano:


Nos primeiros séculos, ao contrário, a fé se espalhou justamente nas cidades. Um caso ilustra bem o motivo. Entre 165 e 180, a peste mata, no curso de quinze anos, praticamente um terço da população do império, incluindo o imperador Marco Aurélio – o filme Gladiador mente ao acusar seu filho e sucessor, Cômodo, de tê-lo assassinado.


Outra epidemia, em 251, provavelmente de sarampo, também mata às pencas. Segundo Stark, amor ao próximo, misericórdia e compaixão fizeram com que a taxa de sobrevivência entre os cristãos fosse maior do que entre os pagãos. Mais: aqueles acreditavam no dogma da Cruz e, pois, na redenção que sucede ao sofrimento.


O ambiente miserável das cidades, de fato, contribuía para a pregação da fraternidade universal:


Os cristãos são os inventores da rede de solidariedade social, especialmente quando começaram a contar com a ajuda de adeptos endinheirados e, nas palavras de Stark, "revitalizaram a vida nas cidades greco-romanas". Os cristãos inventaram as ONGs – as sérias. Essa dimensão do cristianismo, que só pode existir se vivenciada na prática, está em Paulo. Hora de voltar a ele.


"POR QUE ME PERSEGUES?"


Foi em Antioquia (At, 11,26), na Síria, que uma comunidade, pela primeira vez, designou-se "cristã", justamente os convertidos de origem pagã. E é dali que o cristianismo se espalhou pelo antigo mundo helênico, então romanizado.


Em At, 11,1-3, São Pedro, considerado o fundador da Igreja, é censurado por seus pares:


"Entraste na casa de homens não circuncidados e comeste com eles". Pedro responde que o fez por inspiração divina. O momento em que o cristianismo deixa de ser o credo de um grupo minoritário de judeus da Palestina para ser a religião de todo e qualquer homem "que aceite a salvação" tem um símbolo: a conversão de Saul, que aparece como "Saulo" nas versões em português da Bíblia.



Ele houvera recebido a incumbência de ir a Damasco e conduzir presos a Jerusalém "quantos encontrasse daquela profissão" (os cristãos). Na estrada, "cercou-o uma luz vinda do Céu. E, caindo em terra, ouvia uma voz que lhe dizia: 'Saul, Saul, por que me persegues?'. Ele disse: 'Quem és tu, Senhor?'. E Ele lhe respondeu: 'Eu sou Jesus, a quem tu persegues'" (At, 9, 3-5). Em Damasco, aonde fora conduzido cego, Saul recebeu Ananias, um convertido, que o curou pela imposição das mãos, inspirado por Jesus. O Filho de Deus vê em Saul "um vaso escolhido" para levar o seu nome "diante das gentes, e dos reis, e dos filhos de Israel" (At, 9,15). Nascia, assim, o Apóstolo dos Gentios, cujo nome cristão passa a ser "Paulo". E nascia o cristianismo como religião universal.



Coube a esse fariseu convertido romper os laços com a tradição judaica. O batismo mimetizaria a própria morte e ressurreição de Cristo. Por meio dele, morria-se para o passado e nascia-se para uma nova vida. Na Primeira Epístola aos Coríntios, escreve: "Num mesmo espírito fomos batizados todos nós, para sermos um mesmo corpo, sejamos judeus, ou gentios, ou servos, ou livres: e todos temos bebido em um mesmo espírito" (I Cor, 12,13).


Paulo dá ordenamento à mensagem de fraternidade universal de Cristo e antevê a comunidade dos homens não mais separados por credo, raça ou, note-se, história pessoal. Junto com o batismo, está a eucaristia: "Porventura o cálice da bênção não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão não é participação do corpo do Senhor?" (I Cor, 10,16).



Paulo está para o cristianismo como Maquiavel para o realismo político:


Se conferia dimensão mística à coletividade, era o profeta da Graça divina tornada uma rebelião individual: a redenção se dá por meio da fé. Se ele recomenda, em Rom, 13,7, que os impostos sejam pagos, o imperativo da fé traz a semente de uma subversão. Segundo ele, só por meio da lei (referia-se à lei divina), ninguém se justifica diante de Deus.


Paulo foi um gênio político, e suas escolhas determinaram a capacidade do cristianismo de se adaptar aos desafios que lhe são contemporâneos sem abrir mão dos princípios. Sua teologia está centrada na certeza da ressurreição, que prova a divindade do Cristo. Por isso, é também o mensageiro da parúsia, da segunda vinda do Messias.


Mas o que fazer enquanto Ele não volta?


A parúsia devia gerar uma espera angustiada e frustrada. Cumpria ordenar a vida dos cristãos. Na Segunda Epístola aos Tessalonicenses, ele recomenda:


"Não comemos de graça o pão, mas com nosso trabalho e fadiga. (...) se alguém não quer trabalhar, não coma" (2 Tes, 3,7-10).


Antes de Milton Friedman, Paulo já sabia que não existe almoço grátis. Nem salvação(Heresia do quietismo). As religiões não cristãs da Antiguidade davam grande ênfase ao "entusiasmo", ao arrebatamento religioso. Ele se dirige aos Coríntios e estabelece uma hierarquia no que chama "corpo místico de Cristo":


"Se eu falar a língua dos homens e dos anjos e não tiver caridade, sou como o metal que soa (...). E se eu tiver o dom da profecia e conhecer todos os mistérios (...) e se tiver toda a fé (...), e não tiver caridade, não sou nada" (Cor, 13:1,2).


Preparava os cristãos para uma corrida de fôlego. E lembrava que o cristianismo supõe mais do que uma espera:


Cristo voltará à terra. Um dia. Os cristãos não renunciaram à parúsia. Mas os contemporâneos, notadamente os católicos e os protestantes históricos, tendem a considerar que o acontecimento escatológico, finalista, de certo modo, já aconteceu.


A luta final do Bem contra o Mal perdeu seu acento místico e seu caráter temporal para ser uma espera simbólica. Esse Cristo laicizado está prenunciado no próprio Paulo. Como demonstra Stark, o cristianismo se consolida nas cidades greco-romanas como religião da solidariedade. E, modernamente, com certo risco para o próprio credo, vê mitigada a sua dimensão sagrada para se transformar num código civil, íntimo das sociedades democráticas. A Igreja dos Gentios se torna uma comunidade em favor da universalização de direitos.



OCIDENTE GRECO-CRISTÃO


Cristo e o cristianismo seguem como as principais referências da civilização ocidental. De tal sorte é assim, que nem pensamos nisso. Culturas vitoriosas são estáveis, pacíficas, civilistas e até um tanto frívolas na proteção dos seus fundamentos. Quem viu o papa Bento XVI, na Turquia, orando como oram os muçulmanos assistiu à presença serena de um pastor que não duvida da natureza inclusiva do seu credo. O cristianismo, na sua manifestação mais poderosa, a Igreja Católica – 1,098 bilhão de pessoas, segundo o Anuário Pontifício de 2006 –, voltava a Paulo. Se não mais para converter, para compreender. Estima-se que um terço da humanidade – 2,1 bilhões de pessoas – seja cristão.



É claro que o que vai acima se presta ao contencioso. Especialmente num tempo em que toda evidência serve à contestação.

“As culturas vitoriosas dão à luz os críticos de seus próprios fundamentos. É a melhor evidência de que são realmente um triunfo”.


Assim, haveria ali a indisfarçável afirmação da supremacia de uma visão de mundo. Cristo é e seguirá sendo a principal referência do que reconhecemos no Ocidente como a nossa "cultura" porque somos todos cristãos. Se não formos pela fé, seremos pela história; se não formos porque devotos da Revelação, seremos porque caudatários de uma revolução.


Cristãos, ateus, judeus, islâmicos, budistas, materialistas, espíritas, agnósticos, comungamos de um patrimônio que entendemos como um ideal de civilização e de justiça.


Se o cristianismo conferiu uma ética nova, como se viu, à cultura greco-romana, tomou dela emprestados alguns séculos de especulação filosófica. De sorte que se constituiu, no tempo, como a memória de dois humanismos, de duas visões totalizantes: a helênica – grega – e a dos Evangelhos.


Apostamos nas virtudes do exame de consciência racional assim estabelecido pela cultura Greco-Judaica-Cristã:


1)-Estamos ocupados em controlar nossos impulsos para ser reconhecidos como pessoas a serviço do bem e da verdade;

2)-Esforçamo-nos para demonstrar que preferimos ser colhidos pela injustiça a praticá-la;

3)-Aspiramos a valores espirituais acima dos materiais e apreciamos tal qualidade nos outros;

4)-Boa parte de nós acredita numa justiça divina que sucede à morte, e os que não chegam a tanto demonstram seguir um modelo perfeito ao menos na idéia.

5)-Somos, de fato, não só cristãos, mas também herdeiros involuntários do filósofo grego Platão (428-348 a.C.).


6)-E onde essas idéias não se transformaram em leis, em códigos leigos, o poder se impõe pelo terror, pela ditadura, pela violência institucionalizada, pela morte – e, freqüentemente, assim se procede "em nome de Deus".


7)- Não há humanismo leigo que tenha sido tão poderoso na história humana quanto três palavras que salvam: consciência, arrependimento e perdão.


8)- A referência a Platão ilumina o debate. Se, do ponto de vista da origem histórica, faz sentido falar em um mundo "judaico-cristão", no que concerne à religião e à filosofia, o que ganhou o mundo foi o helenismo cristão. O Império Romano helenizado havia abolido as fronteiras, estimulado a especulação filosófica, reconhecido a cidadania dos povos conquistados, estabelecido o ideal – e só o ideal – de uma humanidade fraterna, com a qual sonhavam os filósofos.


Richard Tarnas, autor de A Epopéia do Pensamento Ocidental,nota que a abertura do Evangelho de João – "No princípio era o Verbo" – remete ao "logos universal da filosofia grega", isto é, a uma espécie de inteligência cósmica, que "transcendia todas as oposições e imperfeições aparentes". Isso pressupunha a existência de uma Razão, de um cosmo universal, potencialmente alcançável por qualquer homem, independentemente de sua origem.


O judeu Fílon de Alexandria, que nasceu entre os anos 15 e 10 a.C. – contemporâneo de Jesus e de Paulo –, falava de uma certa "idéia das idéias", fonte da inteligibilidade do mundo. Sem Alexandre Magno (356-323 a.C.), educado pelo filósofo Aristóteles (384-322 a.C.), e o Império Romano, com a sua paz duradoura, talvez o cristianismo tivesse ficado restrito à Galiléia.


Não faz sentido contar a história que não houve, mas é preciso que nos coloquemos uma questão:


“Por que a doutrina se difundiu e se tornou hegemônica além das fronteiras da Palestina sem que tenha, em sua própria terra de origem, suplantado o judaísmo, de onde derivou?”

Os primeiros cristãos de Jerusalém, nota o historiador romeno naturalizado americano Mircea Eliade (1907-1986) em História das Crenças e das Idéias Religiosas, eram judeus de Jerusalém que "constituíam uma seita apocalíptica dentro do judaísmo palestino".


Eles "estavam na espera iminente da segunda vinda do Cristo". A ekklesía (termo grego que designa igreja) cristã nasce no Dia de Pentecostes. Em Atos dos Apóstolos, lemos que os discípulos de Jesus estavam reunidos quando, "de repente, veio do Céu um estrondo (...) e lhe apareceram umas línguas de fogo, e pousou uma sobre cada um deles (...) e começaram a falar em várias línguas" (At, 2: 1-4). Pedro então conclama os varões de Israel à conversão: "Saiba logo toda a Casa de Israel, com a maior certeza, que Deus o fez não só Senhor, mas também Cristo a este Jesus" (At, 2:36). Khristós, em grego, significa "o Ungido", o "Messias".



O Pentecostes era uma festa religiosa dos judeus, inicialmente ligada à colheita e depois à entrega da Tábua das Leis no Monte Sinai. O início da igreja cristã assiste, como se vê, a uma manifestação análoga àquela fundadora para o judaísmo: segue a tradição mosaica – do patriarca Moisés –, embora a hierarquia religiosa judaica fosse hostil aos apóstolos. Uma hostilidade que era menor contra os hebreus locais do que contra os judeus "helenistas".



Os Atos relatam intrigas e falsos testemunhos contra inocentes acusados de blasfêmia. Ainda que as imputações fossem falsas, a verdade é que os cristãos helenistas resistem à herança rabínica do cristianismo da Palestina. Santo Estêvão, primeiro mártir da religião, desafia a hierarquia ao negar que Deus precisasse de um templo: "Mas Salomão lhe [a Deus] edificou a casa. Porém, o Excelso não habita em casas feitas por mãos humanas, como diz o profeta" (At, 7: 47-48). Ele é martirizado e tem início uma grande "perseguição à Igreja". Em At, 8:3, está presente o grande artífice do cristianismo, mas ainda como inimigo dos cristãos: Paulo, protagonista desta história.
O cristianismo como uma ética das relações foi, sustenta Rodney Stark, um dos fatores de seu enraizamento na Antiguidade e de sua expansão em todas as classes e grupos sociais, com especial ênfase entre as mulheres.


Se a visão de mundo cristã não era avessa ao "logos" grego, como aqui se escreveu, emprestava à família um acento estranho àquela cultura, o que foi logo percebido pelas mulheres. Elas, como foi acontecer, identificaram primeiro o amor de salvação.



 

Cenários para um papa americano - Entrevista com o Sociólogo Rodney Stark

 

 

 

A difusão do cristianismo fora da Europa redesenha as estratégias das Igrejas (sobretudo a católica). Na véspera de um novo consistório, uma entrevista com o sociólogo Rodney Stark.





(A reportagem é de Maria Antonietta Calabrò, publicada no caderno La Lettura do jornal Corriere della Sera, 08-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto).





Considerado um dos mais renomados sociólogos da religião da atualidade, professor de Ciências Sociais da Baylor University e antes da Washington University, professor honorário daUniversidade de Pequim, Rodney Stark é autor de mais de 30 livros e também de inúmeros artigos científicos.





Em seu último livro publicado pela HarperCollins (The Triumph of Christianity), ele analisa o crescimento e a difusão do movimento originado por Jesus Cristo, desde o início até os nossos dias. Dos 12 apóstolos até os 2,18 bilhões de pessoas (cerca de um terço da população do planeta) que se definem como cristãs neste início de 2012 e fazem do cristianismo a religião mundial mais difundida e a que parece estar mais adaptada para a era da globalização.






"Talvez, a característica mais marcante da fé cristã – observa Stark – é a sua capacidade de se misturar com qualquer cultura humana. Assim como a Bíblia foi traduzida para muitos milhares de línguas, do mesmo modo há milhares de confissões cristãs, mas cada uma delas é autêntica, porque a mensagem básica é verdadeiramente universal".






Eis a entrevista:





1)- As últimas estatísticas do Pew Forum Research demonstram que a Europa não domina mais a cristandade global como há 100 anos. Hoje, ao contrário, o maior número de cristãos vive no Novo Mundo. As Américas do Norte e do Sul têm juntas o maior número absoluto e a maior porcentagem de cristãos. Quase 40% dos cristãos de todo o mundo (37%) vivem nas Américas, onde quase nove em cada dez pessoas são cristãs (86%). Ao mesmo tempo, os três países com a população cristã mais numerosa, isto é, os EUA, o Brasil e o México, estão na América. Esses dados sugerem que perguntemos a você se Cristo hoje não é, acima de tudo, americano.




Neste momento, o cristianismo europeu carece de fiéis comprometidos. Essa minha afirmação se torna verdadeiramente óbvia quando consideramos as estatísticas sobre os cristãos "ativos", isto é, aqueles que frequentam a igreja regularmente. Se nos basearmos nos números daqueles que vão à igreja, a África é o continente mais cristão, embora a África seja superada pelos dados combinados dos cristãos praticantes nas Américas do Norte e do Sul.





2)- Por que há essa predominância do continente americano dentro do cristianismo globalizado?





Em parte, isso se deve ao extraordinário incremento da prática da fé católica na América Latina, por causa – permita-me usar esta palavra – da "competição" com um protestantismo rapidamente crescente na mesma região, onde o pertencimento protestante é mais forte, assim como a frequência católica à prática religiosa, com o resultado final de que a América Latina é muito mais cristã e observante hoje do que era há apenas alguns anos.





3)- Falemos da América do Norte e, em particular, dos EUA. É impressionante notar que todos os três maiores "desafiadores" republicanos nas primárias sejam muito caracterizados do ponto de vista religioso, o que confirma o peso do cristianismo na vida pública norte-americana. Mas, ao mesmo tempo, eles pertencem a confissões cristãs diferentes: Mitt Romney, mórmon; Rick Santorum, católico; Ron Paul, batista. Por que isso acontece?






O pluralismo é a chave da vitalidade da religiosidade americana, assim como do desenvolvimento da civilização cristã. Esse foi o "milagre" que colocou os americanos em ação em relação à fé, com o resultado de que, se em 1850 cerca de um terço dos americanos pertenciam a uma congregation, isto é, a um grupo religioso organizado localmente, no início do século XX metade dos americanos pertenciam, e hoje esse dado subiu para 70%. Todos os políticos de sucesso em nível nacional dos dois maiores partidos pertencem a uma congregation.






4)- A África subsaariana e a Ásia Oriental têm hoje uma população total de cerca de 800 milhões de cristãos, um número semelhante ao das Américas. A Nigéria é o país africano com o maior crescimento de cristãos e, infelizmente, também de mártires. Se continuarmos usando a imagem de antes e se, hoje, digamos assim, Cristo é americano, amanhã Cristo será africano? E isso é ainda mais importante hoje, às vésperas de um novo consistório que irá redefinir os pesos do Conclave: o próximo papa será negro?






As minhas estatísticas, baseadas em pesquisas da Gallup em cerca de 160 países, mostram que há muito mais católicos na África do que indicam os dados oficiais da Igreja. Aparentemente, o crescimento foi tão rápido que até os padres locais perderam a conta. De fato, abaixo do Saara, o cristianismo está crescendo mais rapidamente do que o Islã. Você me pergunta se isso levará à eleição de um papa negro? Eu respondo: ainda não houve um papa que proviesse do hemisfério ocidental, isto é, das Américas. Mas eu não estou qualificado para fazer previsões sobre questões de política da Igreja.






5)- Do ponto de vista sociológico, o cristianismo europeu realmente acabou? E como avaliar o crescimento da presença islâmica na Europa?





Há uma notável possibilidade de um renascimento religioso no Velho Continente. É bem sabido que as taxas de fertilidade na Europa caíram muito abaixo do nível de substituição. Mas nem todos os grupos têm uma baixa fertilidade. Quem participa ativamente da vida de uma Igreja tem taxas de fertilidade muito acima da cota de substituição. Consequentemente, a população que vai à igreja está crescendo, enquanto a população secularizada declina, e as futuras gerações de quem frequenta a igreja poderá superar em número aqueles que não a frequentam. Assim, as igrejas europeias poderão ficar repletas. Infelizmente, não posso prever o que vai acontecer na relação entre cristãos e muçulmanos na Europa.






6)- Os dados do Pew Forum Research afirmam que a China tem a maior minoria cristã do mundo. Você estudou o incremento do cristianismo na China e o considerou um exemplo do que você chama de "vitória da razão". Pode nos explicar o fenômeno?





O rápido crescimento do cristianismo na China reflete a adequação universal da fé e, especialmente, a sua compatibilidade com a modernidade, ao contrário do que se pode pensar. Fundamentalmente, o cristianismo é uma religião da razão, no sentido de que sempre tentou explicar o seu ensinamento básico. Ele oferece respostas razoáveis a perguntas fundamentais. E o faz com base no fato de Deus ser a essência da razão, e a sua criação é tão racional que pode ser explicada e entendida: essa é a base da ciência. Ao contrário, as religiões orientais não dão explicações, mas só meditações. Os chineses estão verdadeiramente conscientes da compatibilidade do cristianismo com a ciência e a economia modernas. E o cristianismo atualmente é mais forte entre os chineses mais imersos na modernidade, e as melhores universidades chineses são muito mais cristãs, evidentemente, do que as universidades americanas.




Livro do Sociólogo Rodney Stark: “A VITÓRIA DA RAZÃO”







(POR ORLANDO SAMÕES- Assistente do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa)


Dado o contexto em que nos encontramos, em que tanto se discute a natureza do sistema capitalista, temos razões acrescidas para ouvir mais este contributo. Por muitas limitações que a sua argumentação contenha, Rodney Stark tem o mérito de nos baralhar um pouco mais nas ligações simples que tendemos fazer quando procuramos estas explicações.


Claro que a possibilidade que o autor coloca é apenas isso: mais uma possibilidade. Mas ele ilustra-a bem e parece-me que deve existir algo de verdadeiro nela. Penso que possa ser uma fraqueza da teoria de Stark o facto dele nem sempre a justificar de um ponto de vista de filosofia política.


Quer dizer, por vezes a sua argumentação muda, usando o decorrer dos acontecimentos na história, apenas porque explicam melhor o que quer dizer. Neste sentido, não fica nada claro, por exemplo, porque é que as quatro cidades Italianas que ele considera que foram as primeiras cidades capitalistas, deixaram, simplesmente, de o ser. Citarei com base na edição inglesa (The Victory of Reason – How Christianity Led To Freedom, Capitalism and Western Success (1st Ed. 2005), Random House Trade, NY, 2006.) e a traduções são minhas, mas o livro encontra-se já em português.



Para começar a desmontar o problema ele parte daquilo que lhe parece constituir uma ideia de progresso contida na fé cristã (p. 11):


“Enquanto que outras religiões mundiais enfatizaram os mistérios e a intuição, o Cristianismo abraçou a razão e a lógica como guias primeiros para a verdade religiosa” (p. x). O que encaixa na sua teoria, porque, segundo ele, “o capitalismo é, essencialmente, a sistemática e sustentada aplicação da razão ao comércio” (p. xi). Para este efeito concorrem dois elementos importantes: a questão do livre arbítrio posta por Santo Agostinho, que falsifica astrologias ou predestinações (p. 6), e o facto do Novo Testamento não ser uma escritura unificada mais sim uma «Antologia» (p. 9). “A ideia de progresso começa com Paulo: ‘o nosso conhecimento é imperfeito e a nossa profecia imperfeita’ (I Corinthians 13: 9, RSV). Que contrasta com o segundo verso do Corão, que se auto proclama como sendo a Escritura da qual não há dúvida” (p. 9).


Assim ele argumenta a impossibilidade de separar teologia e ciência (p. 12). Esta indivisibilidade aconteceria apenas no caso singular da Europa medieval (p. 14). Mesmo no caso da Grécia antiga, “Deus” não seria uma criatura consciente pelo que eles apenas acreditavam que existissem ciclos pré-determinados (p. 19).


O Islão é a vontade de Deus em processo contínuo, sendo lida como algo para ser apenas “acreditado” (p. 21). No caso chinês, Tao nem sequer é ser, nunca implicaria ordem: são energias mais ou menos dispersas (p. 16). Em qualquer destes casos o universo é “misteriosos, inconsistente e imprevisível, (...) não há qualquer motivo para celebrar a razão” (p. 15).



No mundo cristão o destino está mais sob controle:


Podemos ser virtuosos ou pecadores. Podemos fazer bem e podemos fazer mal. “Esta concepção de Deus é incompatível com fatalismos” (p. 25). É-nos permitido errar (p. 26). Quer dizer, a nossa doutrina é, em certa medida, «individualista», sustenta Stark (p. 26). Este enfatizar do indivíduo e seus direitos, e não tanto dos deveres coletivos, como noutras culturas,(Na Comunista existe os escravos do estado e dos seus poderosos dirigentes) é, segundo o autor, a base para a abolição da escravatura medieval (p. 27-8).



Stark tem ainda a ambição de refutar a ideia de Max Weber constante no «influente» estudo A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (p. xi), onde se argumenta que “só o Protestantismo forneceu uma visão moral que levou as pessoas a refrear o seu consumo material ao mesmo tempo que vigorosamente procuravam riqueza”.


Aliás, o florescer do capitalismo foi muito anterior à Reforma. Tal como Henri Pirenne nota, e Stark dele cita:


“Todas essas características fulcrais do capitalismo – Empresa particular, adiantamentos de crédito, lucros comerciais, especulação, etc. – foram encontradas do século XII em diante, nas cidades república da Itália – Veneza, Génova e Florença” (p. xii). Para Stark, os países nórdicos – a que associamos o suposto capitalismo de génese protestante «não inventaram nada», apenas apanharam aquilo que os mediterrâneos fizeram «brilhantemente». “Além do mais, durante o seu período crítico de desenvolvimento económico, esses centros capitalistas nortenhos eram Católicos e não Protestantes – A Reforma ainda estava para vir, lá muito no futuro” (p.xii).



O Capitulo dois trabalha sobre os progressos técnicos, culturais e religiosos medievais:


O autor afirma que qualquer pessoa que foi educada nos últimos séculos foi habituada a designar este período por Idade das Trevas (“Dark Ages”) quando podíamos chamar-lhe, em vez disso, o período em que «a tecnologia europeia e a ciência desabrochou e ultrapassou o resto do mundo». Fazendo um papel de historiador Stark vai ao detalhe explicando as inovações que se deram na capacidade produtiva, os avanços nos transportes e na capacidade de guerra. Em regra, explica, “as invenções e inovações tendem a acontecer onde a propriedade é assegurada quer porque o estado se tornou desorganizado ou porque os seus poderes foram truncados” (p. 38).


Sabemos das melhorias no uso da força ou vento ou da água e da tracção animal e dos ganhos fulminantes de produtividade agrícola. Mas um ponto interessante prende-se com a singularidade europeia no que diz respeito a três grandes invenções: “chaminés, óculos e relógios” (p. 43). Atende-se à inequívoca superioridade que estas 3 invenções inspiram: que as chaminés facilitam e melhoram brutalmente a nossa vida é inquestionável; que ver focado é, objectivamente, melhor do que ver desfocado; que chegar a horas implica o cumprimento de regras e que permitem melhor coordenação. Claro que a China, como sabemos, roçou muita da tecnologia que rondava estes artefatos. Segundo Stark, eles só não perceberam o seu alcance.



Igualmente na cultura, na música, na arte, na literatura e na ciência os europeus medievais faziam história. A universidade vem daqui: “Lembrem-se que estas eram instituições profundamente cristãs: todas as faculdades eram de ordens sagradas e, consequentemente, daqui eram os mais famosos cientistas” (p. 53). Mas uma das invenções que mais preocupa o autor chama-se “Capitalismo”:


Para Stark, ele foi mesmo sendo burilado por «monges católicos, que não obstante terem posto de lado as coisas mundanas, procuraram assegurar a segurança económica dos seus estados monásticos » (p. 55). Nem que para isso tivessem de «reformular» algumas doutrinas.


Mas o que é então o capitalismo?


“O termo capital começou a ser usado no século XIV para indicar os fundos que tinham capacidade de dar um rendimento em retorno, em vez de serem apenas de valor consumível” (p. 5), explica. É uma denominação que implica o uso, com risco, de riqueza, com vista à obtenção de um ganho. Stark dá uma definição (muito própria) para o termo (p. 56) mas acaba sublinhando os pontos em que todos os autores concordam:


“todos os que escreveram sobre capitalismo aceitam que este assenta sobre mercados livres, direitos de propriedade firmes e trabalho livre (ou seja, sem coerção)” (p. 57). A parte do trabalho ser sem coação é crucial. Aliás, “é a capacidade para motivar o trabalho e o sistemático reinvestimento de lucro que geram a imensa produtividade do capitalismo, tal como Weber e Marx afirmaram há mais de um século atrás” (p. 57).
“A Bíblia condena muitas vezes a avareza e a riqueza – ‘Porque o amor ao dinheiro é a raiz de todo o mal’ – mas não condena diretamente o comércio ou os mercadores” (p. 57, a referencia é do autor: I Timothy 6:10). No mundo Greco-Romano, “seria complicado escapar ao pecado no decurso das compras e das vendas”.


Contudo, “depois da conversão de Constantino”, continua Stark, “a atitude em relação ao comércio começou a ser suavizada, o que levou o Santo Agostinho a ensinar que a maldade não estava inerente ao comércio mas sim, como em qualquer ocupação, estaria do lado do individuo viver com retidão” (p. 58).


O autor então, explicitamente, segue a linha proposta por Randall Collins (Weberian Sociological Theory, Cambridge: Cambridge University Press, 1986) no que diz respeito ao que apelida de “capitalismo religioso” (Collins (1986), p. 55). Sublinha, tal como Collins, que não se trata sequer de um Proto-Capitalismo (idem, p. 52).



Collins, refere-se à Igreja como o maior proprietário de terras, que teve de se especializar em determinadas colheitas. Para obter ganhos de produtividade nas trocas, teve ainda que usar «sofisticados» métodos de gestão com previsões e «planos de longa duração» (p. 59). Ela ainda provoca a alteração para uma economia mais baseada em dinheiro (caso dos monges em Lucca – Florença) e o desenvolvimento das primeiras operações de crédito ,caso dos templários que enriqueceram(p. 60), assim como das primeiras hipotecas (p. 61). Mesmo a inicial oposição aos juros e lucros iria ser ainda mais revertida pelos teólogos católicos.
Stark sustenta que Tomás de Aquino, em particular, declarou que os lucros eram «moralmente legítimos» e que, estes teólogos já «justificavam as taxas de juro».


Claro que não se deve esperar nada em retorno ao fazer o bem. Mas, na prática, pagavam-se juros (p. 64). Aliás, a teoria do preço justo, mais aceite por Agostinho, iria ser, em grande parte, rejeitada por Tomás de Aquino. Segundo a leitura de Stark deste autor: “o mercador que chega a uma aldeia faminta, mesmo que saiba que vão aparecer mais mercadores de seguida, (...) pode, em boa consciência, ficar calado e vender ao preço alto corrente” (p. 65).


No Islão é diferente: o Corão tem absoluta certeza sobre este assunto e “condena todos os juros (riba)” (p. 67). Não seria daqui que o capitalismo poderia aparecer.



A preocupação em melhor dispor de riqueza e as preocupações que lhe são inerentes, não seria possível sem “noções tais como a de dignidade do trabalho ou a ideia de que o trabalho é uma actividade virtuosa”, em si mesmo.


“O ascetismo cristão é muito diferente de outras culturas, onde a devoção é associada à rejeição do mundo e das suas atividades”. Stark lembra a famosa regra de Santo Bento: “O idealismo é o inimigo da alma. Daqui que os irmãos devam ter períodos específicos de trabalho manual assim como de prece” (p. 62).


Atente-se a este contraste decisivo:


“Na China os Mandarins deixavam crescer as unhas o máximo que podiam (...) para tornar evidente que não trabalhavam. Pelo contrário, o capitalismo pareceu precisar e encorajar uma atitude completamente diferente em relação ao trabalho – vendo- o intrinsecamente virtuoso e ainda a reconhecer a virtude na restrição do consumo” (p. 62).



O capítulo seguinte é sobre a “A tirania e o ‘renascer’ da liberdade”. Segundo Stark, o sucesso do ocidente está ligado às sociedades serem livres. A liberdade fornece o ambiente que permite segurar o capitalismo. “Os estados despóticos levam à avareza universal”, reclama ele. Onde os governantes são sovinas, as pessoas tendem a ser assim também: ou consomem tudo ou “escondem os frutos do seu trabalho”. Os níveis de vida ficam sempre abaixo do que poderiam. O que os déspotas esquecem é que “toda a riqueza deriva da produção”, pelo que para esta acontecer algo tem de ser “engordado, desenterrado, cortado, caçado, arrebanhado, fabricado ou de outra forma criado”, numa palavra: arriscado. “Quando a riqueza está sujeita a tributação devastadora e a ameaça constante de usurpação, o desafio é manter a nossa riqueza, não é torná-la produtiva” (p. 73).



Há ainda que considerar a questão da igualdade e das diferenças de merecimento que daqui terá de surgir. Neste aspecto, “as fundações teológicas de uma igualdade moral”, são, para Stark, de extrema importância no fornecimento de um ingrediente adicional: a conjugação da igualdade perante a lei com a desigualdade de resultados – que advirá, forçosamente, com o capitalismo.


“Mesmo no Ocidente, nenhuma pessoa razoável argumenta que toda a gente é igual em termos de habilidades, diligência, ou carácter; o pressuposto é que o que existe é uma igualdade moral que lhe é precedente” (p. 76).


Estas considerações teológicas – igualdade moral – estão, explicitamente, em toda a tese de John Locke, assim como se encontram na famosa passagem da Declaração de Independência da América, argumenta o autor (p. 76). “Num mundo Romano extremamente status-consciente, os primeiros Cristãos tentaram abranger uma concepção de humanidade universalista” (p. 77).



A questão dos direitos de propriedade volta assim a ser aqui investigada, a par com a limitação do poder do estado.Olhando para os vários Santos, Stark tem uma leitura que aponta para uma progressão interessante:


1)- Para Ambrósio seria difícil a aceitação dos direitos de propriedade, enquanto que para Agostinho esta seria como uma condição natural.

2)- Já Alberto Magno teria dito que a propriedade existia para a conveniência e utilidade do homem.


3)- Tomás de Aquino, por fim, “notou que, mesmo que a propriedade não tenha sido ordenada por lei divina, está de acordo com a lei natural – isto é, inerente à natureza humana enquanto derivada pela razão” (p. 79).


Sobre a limitação do poder do estado, ele sublinha primeiro que tudo que “O Islão tem sempre idealizado a fusão da religião com a regra política” (p. 80), enquanto que “a ideia de uma separação entre a Igreja e o Estado ‘é, num sentido profundo, Cristã’” (p. 80).


Voltemos a Tomás de Aquino onde Stark encontra mesmo «planos para prevenir a tirania», como em descritos em On Kingship, do qual cita:


“um regime deveria ser cuidadosamente trabalhado para que pudesse prevenir que uma multidão dirigida por um rei fosse cair nas mãos de um tirano” (p. 82, retirado de Aquinas, On Kingship, book I, ch. 6).


Outro contributo decorre da desunião europeia, talhada por pequenos estados e que fomentou “líderes fracos”, dando azo à «criativa concorrência», entre pessoas que já se moviam, por vezes, à procura de oportunidades. Estes elementos estavam todos presentes na Itália do norte (p. 83). As cidades eleitas são Veneza, Génova, Florença e Milão.



A segunda parte do livro começa precisamente descrevendo como se foi aperfeiçoando este capitalismo das quatro cidades italianas. Brevemente, explica Stark:


“Porque os detentores (os investidores) beneficiam do aumento da produção, eles irão disciplinar o seu consumo no sentido de reinvestir lucros para aumentar a produção futura, reinvestindo em maior capacidade, melhores tecnologias, ou numa força de trabalho mais motivada ou mais qualificada. (...) Daqui que o milagre do capitalismo seja simplesmente isto: com o passar do tempo, todos têm mais. (...) Acrescendo a isto, a teologia cristã encorajou visões extremamente otimistas acerca do futuro que justificaram estratégias de investimento a longo-prazo” (p. 106).



Trocas, sempre existiram, diz Stark, a novidade da Europa medieval foi ter uma leitura do comércio menos aventureira:


A «empresa racional» é uma organização criada com regras que permitem o seu regular funcionamento e que faz estimativas e ajusta os negócios de forma a suportar o menor risco possível. Ao nível dos recursos humanos, cuja qualificação teria de acompanhar este conceito, o autor lembra dados curiosos. “Há uma estatística que nos revela muito: em Florença, no ano de 1338, quase metade da população em idade escolar estava a estudar, e isto numa era em que nem sequer havia escolas em grande parte da Europa e mesmo muitos reis eram iletrados” (p. 107).


Foi daqui que apareceram as técnicas contabilísticas primárias que mais tarde foram usadas como ferramentas para o cálculo financeiro e de gestão (p. 110). O autor explica ainda o caso singular da Itália cujos mercadores, despertos para os problemas relacionados com o uso de dinheiro e para evitar rupturas, pediam as primeiras transferências à distância (inclusive internacionais) e desenvolveram as primeiras formas de papel-moeda. De realçar portanto os inacreditáveis 173 grandes bancos que já existiam neste país no século XIV, sem contar com as respectivas sucursais! Destes, 38 operavam Florença e 34 em Pisa (p. 113).



Mas ao florescimento capitalista o autor associa ainda o aparecimento dos Humitiati e a adopção das leis sumptuárias:


Movimento que levou ao alastramento de ideias ascéticas ou «proto-puritanas», como as designa (p. 121). Estes votos de humildade, que consistiam em se aceitar níveis de vida mais restringidos, por opção, eram «novos» em Itália. Aliás, não só se dizia comumente que o dinheiro morre quando convertido em vaidades, como esta frase se tornou preambulo das leis sumptuárias (p. 122). Claro que alguns dos artigos fazem parecer que a intenção do legislador era deixar «os homens ricos reinvestir o rendimento em vez de permitir que as respectivas esposas o gastassem frivolamente » (p. 123). Mas o ponto principal é que, segundo Stark, o capitalismo estava instalado antes disto acontecer, pelo que pode ter sido uma reacção que, em primeira instância, deverá ter sido «contra» o capitalismo (p. 125).



Sobre a limitação do poder do estado, ele sublinha primeiro que tudo que “O Islão tem sempre idealizado a fusão da religião com a regra política”, enquanto que “a ideia de uma separação entre a Igreja e o Estado ‘é, num sentido profundo, Cristã’ ”.



A fase seguinte do livro conta como o capitalismo se mudou para norte e porque é que aí se instalou melhor:


Na Flandres medieval, as empresas, mesmo nomeadamente na área dos têxteis, eram relativamente pequenas. Muitos dos lucros que tinham eram mesmo consumidos e não possuíam, normalmente, sequer quotas para vários sócios (p. 133).



A internacionalização permitida através dos bancos italianos ajudou a expandir os seus negócios. O autor traça uma linha entre várias cidades explicando as causas das movimentações, mas aqui apenas citarei os nomes das cidades envolvidas. Em Bruges, os avanços comerciais eram de italianos que já tinham mais noções financeiras. Em termos industriais, a liderança seria de Ghent, argumenta. Mas a cidade que rapidamente avultou o maior volume de negócios foi Antuérpia – «comunidade profundamente católica» (p. 143) na época, segundo Stark. E da mesma Antuérpia “fugiram refugiados – muitos deles católicos – trazendo consigo as empresas e os seus sofisticados talentos” (p. 144) para Amesterdão.


É precisamente de Amesterdão que capitalismo chegará finalmente à Inglaterra (p. 147). Lugar que viria a ser a sua casa, digo eu. Depois, a história é conhecida. A Inglaterra teve um conjunto de factores muito favoráveis à indústria e à livre iniciativa (p. 148). Neste ponto, Stark mistura as condições geográficas e políticas e a sorte dos recursos naturais para explicar a ascensão da Inglaterra. A sua ideia principal pareceu-me ser a descentralização. Esta permitia, nos lugar mais afastados das cidades, fugir aos impostos ou escapar à pressão dos Grémios (p. 153). “Muito maior variedade de estilos e de qualidades era provável acontecer na dispersa indústria algodoeira em Inglaterra, onde os desenhadores não podiam espreitar por cima dos ombros uns dos outros” (p. 154).


Foi permitido o teste de práticas alternativas e uma aprendizagem com os erros e acertos (Não apenas meramente teorizado em escrivaninhas de escritórios sombrios, mas experimentado naturalmente):


No capítulo seguinte, «O anticapitalismo “Católico”», Stark explica finalmente porque é que o capitalismo foi associado ao protestantismo. De forma condensada a sua ideia é esta:


“As sociedades solidamente católicas [foram] dirigidas por déspotas que tributavam, saqueavam e regulavam o comércio até à paralisação. Entretanto, o capitalismo continuou florescente na Inglaterra e na Holanda, ambos predominantemente protestantes” (p. 163). (Qualquer semelhança para com os dias que correm na Europa deverá ser coincidência). O autor critica ferozmente a Espanha que ficou à mercê dos fluxos de ouro e de prata das Américas, pensando que a atividade fabril e o comércio seria destinada a povos inferiores. O pensamento corrente, do século XVI, era «que os outros se esforcem pela Espanha» (p. 167).


A tributação fiscal em Castela era mesmo a mais alta da Europa, refere (p. 169). É de crucial importância a intervenção gorada contra a Inglaterra em 1588: o autor conta que nada do que estava nos navios tinha sido fabricado na Espanha, nem as armas, nem os mapas (p. 168). Mas ainda assim, “poderia ter tido sucesso de a Inglaterra fosse governada por um déspota – mas [a Espanha] estava condenada contra uma nação de “lojistas”, onde a tecnologia desabrochou, as empresas estavam cultivadas e a rainha era uma afeiçoada capitalista” (p. 180). As frotas marítimas inglesas até incluíam barcos privados.



A situação em França também ajudou a empurrar o capitalismo para norte. Ao nível político a situação não era melhor que a espanhola. A convocação dos estados gerais era raríssima. As sessões ocorrem brutalmente trespassadas no tempo (1468, 1483, 1560, 1614, 1789*), tanto, que o monarca em activo, pelas leis da vida, era sempre outro (p. 186).


A tributação também era elevada, mas alguns amigos tinham acesso a privilégios dados pela Coroa. Aliás, ninguém poderia encetar qualquer actividade sem licença real. Limitavam ainda mais as actividades económicas a conhecida máquina burocrática (p. 189) à francesa e a intransigência das associações profissionais – os Grémios (p. 190).


O capitalismo passou por cima, quase literalmente, da França. Nunca tomaram em consideração as forças de mercado (p. 192). A sua conclusão é simples: “Não foi catolicismo mas sim a tirania que impediu o capitalismo na França e na Espanha,” (p. 194) volta a afirmar Stark.



Por fim, o autor explica a passagem do capitalismo para o Novo Mundo:


Para isso apresenta uma distinção fundamental entre as colonizações espanhola e britânica, paralela à diferenciação entre feudalismo e capitalismo. Nas palavras do autor, “quase todos os colonos britânicos vinham para ficar; muitos dos colonos espanhóis eram peregrinos.


As colónias britânicas eram fundadas na produção, as espanholas na extracção” (p. 212). A razão pela qual eles não quereriam voltar está ligada à natureza da viagem: “ [Os emigrantes das Ilhas Britânicas] não vinham nem à procura de estados feudais nem para as minas de ouro ou prata. Muitos vieram pelos altos salários prevalecentes nas colónias e as extraordinárias oportunidades de obter terra arável fértil ou de montar uma loja ou oficina” (p. 214).


Para Stark, as possibilidades de se pagar na América três vezes mais à hora que no velho continente explica-se pela adesão dos americanos às novas tecnologias que favoreciam a produtividade (p. 224). Quer dizer, os que iam parecem ser menos avessos ao risco que os que ficavam. Eram ainda mais letrados, em média (p. 226). Note-se que as primeiras coisas a ser construídas eram escolas, e em cada nova zona conquistada a ocidente eram apontadas pessoas locais para ensinar a ler (p. 227).



O autor termina citando um importante académico chinês, cuja declaração deve ser destacada (Aikman, David, Jesus in Beijing: How Christianity Is Transforming China and Changing the Global Balance of Power, Washington, DC: Regnery, 2003):


“Uma das coisas que fomos chamados a observar foi saber o que contribuiu para o sucesso, ou melhor, a proeminência do Ocidente sobre o resto do mundo. Estudámos tudo o que pudemos de uma perspectiva histórica, politica, económica e cultural. Ao início, pensámos que foi porque vocês tinham armamento mais poderoso do que nós. Depois, pensámos que seria por tinham o melhor sistema político. De seguida concentramo-nos no vosso sistema económico. Mas passados vinte anos, apercebemo-nos que no centro da vossa cultura está vossa religião: O Cristianismo. É por isto que o Ocidente é poderoso. A fundação moral da vida social e cultural cristã foi o que tornou possível a emergência do capitalismo e depois as transições para a democracia política. Nós não temos dúvida nenhuma sobre isto” (p. 235, retirado de Aikman (2003), p. 5).



E termina o autor dizendo: «Eu também não». Mas não sei se concordo totalmente. Sobre esta tese eu preferiria terminar com a frase: Se non è vero, è ben trovato.


A fundação moral da vida social e cultural cristã foi o que tornou possível a emergência do capitalismo e depois as transições para a democracia política.


FONTE:


Os trabalhos de Rodney Stark:

1)-Crenças cristãs e anti-semitismo (1966), com Charles Y. Glock
2)-Piedade Americana (1968), com Charles Y. Glock
3)-O Futuro da Religião: Secularização, Revival, e formação Cult (1985), com William Sims Bainbridge
4)-Sociologia (1985) um texto de sociologia da faculdade introdutório que passou por dez edições a partir de 2007. 10: (2006) ISBN 0495093440
5)-Uma Teoria da Religião (1987), com William Sims Bainbridge
6)-Religião, Desvio e Controle Social (1996), com William Sims Bainbridge
7)-The Rise of Christianity: A History sociólogo reconsidera (1996), ISBN 978-0060677015
8)-Atos de Fé: Explicando o lado humano da Religião (2000), com Roger Finke . University of California Press
9)-Deus único e verdadeiro: conseqüências históricas de monoteísmo (2001), ISBN 978-0-691-11500-9
10)-Para a Glória de Deus: Como Monoteísmo Led Reformas, ciência, caça às bruxas, eo fim da escravidão (2003), ISBN 978-0-691-11436-1
11)- Explorando a Vida Religiosa (2004) ISBN 0-8018-7844-6
12)- A Vitória da Razão: Como o cristianismo Led to Freedom, Capitalism, and Western Success (2005), ISBN 0-8129-7233-3
13)- Cidades de Deus: a história real de como o cristianismo se tornou um movimento urbano e conquistou Roma (2006)
14)- Descobrir Deus: um novo olhar sobre as origens das grandes religiões (2007), ISBN 978-0-06-117389-9
15)- Batalhões de Deus: o caso das Cruzadas (2009)
16)- O triunfo do cristianismo: Como o Movimento de Jesus se tornou a maior religião do mundo (2011), ISBN 0062007688
17)- Como o Ocidente Won: A história esquecida da Triumph da Modernidade (2014), Instituto de Estudos intercolegial , ISBN 1610170857


Fonte:Wikipedia



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Neste Apostolado promovemos a “EVANGELIZAÇÃO ANÔNIMA", pois neste serviço somos apenas o Jumentinho que leva Jesus e sua verdade aos Povos. Portanto toda honra e Glória é para Ele.Cristo disse-nos:Eu sou o caminho, a verdade e a vida e “ NINGUEM” vem ao Pai senão por mim." ( João, 14, 6).Como Católicos,defendemos a verdade, contra os erros que, de fato, são sempre contra Deus.Cristo não tinha opiniões, tinha verdades, a qual confiou a sua Igreja, ( Coluna e sustentáculo da verdade – Conf. I Tim 3,15) que deve zelar por elas até que Cristo volte.Quem nos acusa de falta de caridade mostra sua total ignorância na Bíblia,e de Deus, pois é amor, e quem ama corrige, e a verdade é um exercício da caridade.Este Deus adocicado,meloso,ingênuo, e sentimentalóide,é invenção dos homens tementes da verdade, não é o Deus revelado por seu filho: Jesus Cristo.Por fim: “Não se opor ao erro é aprová-lo, não defender a verdade é nega-la” - ( Sto. Tomáz de Aquino)

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