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Padre João Batista Libãnio fala sobre o tema: A Kênosis de Deus: “Tão humano assim, só podia ser Deus”

Written By Beraká - o blog da família on domingo, 12 de janeiro de 2014 | 13:16




GRIFOS DO AUTOR DO BLOG BERAKÁSH:“Tão humano assim, só podia ser Deus”, é uma frase de Fernando Pessoa, (que Leonardo Boff tomou posse indevidamente) referindo-se a Jesus, um Deus que mergulha em nossa humanidade e convida-nos a participar da sua divindade.

Em nós há uma “orfandade original”, que o homem já nasce com saudades de um Pai/Mãe que transcende a biologia, a genética, o parto. Em oposição a essa “orfandade original”, há em nós um profundo anseio por uma “paternidade original”, que se expressa na busca por Deus.


As muitas e variadas experiências religiosas, presentes em todas as culturas, revelam essa busca, esse desejo pela fonte da qual nos desligamos e à qual queremos nos re-ligar. Daí as Religiões...

Ao longo da vida tentamos encontrar respostas para perguntas profundas, enigmas que ocupam a mente humana desde o nosso mais primitivo ancestral até o mais tecnológico dos atuais habitantes do planeta: “de onde viemos, quem somos, para onde vamos?”

Dessas, a pergunta mais angustiante é a que diz respeito ao nosso destino. Ao mesmo tempo que celebramos a vida, o nascimento colocamos um ponto de interrogação sobre nosso maior e inevitável limite, a morte. Como, diante de um corpo esvaziado de vida, frio, inerte, vislumbrar um fim que seja apenas o começo? O que fomos, limitado no tempo e no espaço, deseja um ser pleno, na eternidade. O pó de onde viemos, inflado de vida pelo Espírito que sopra onde quer, será a argamassa do que seremos para sempre.

No Natal celebramos o mistério da Encarnação. Tem gente que faz confusão com uma das concepções mais comuns, presente em várias culturas e fundamento de várias interpretações religiosas, a idéia da Reencarnação.
Para quem crê na reencarnação, a vida, ou “as vidas” são como degraus de uma escada para se chegar a Deus. Numa concepção extremamente Pelagiana,o Homem, pelo seu próprio esforço sem necessidade da graça de Deus,vai galgando passo a passo, vida após vida, seu caminho para o Paraíso.


Essa doutrina cruel e implacável, de certa forma Cartesiana(Causa e efeito) justifica a dor e o sofrimento de tanta gente. Seria uma forma de “pagar” pecados cometidos em outras encarnações. Surge aí, em algumas culturas, a idéia do Karma, ou seja, a visão de que cada pessoa já nasce com uma espécie de destino traçado, objetivando justamente cumprir os passos necessários para o seu aperfeiçoamento. Um dos problemas que se apresenta  nessas  doutrinas reencarnacionistas é a liberdade humana, que fica seriamente comprometida.

A Fé cristã inverte a lógica da reencarnação: Jesus nos revela que a escada não é para o Homem subir até Deus, mas para Deus descer até o Homem.

No  mistério da Encarnação, o Deus conosco, se faz companheiro de caminhada na História. O Criador convivendo face a face com sua criatura. O Pai, que na pessoa do Filho nos faz todos irmãos e, pelo Espírito Santo, nos convida à santidade.

O mistério da encarnação revela o quanto Deus nos leva a sério, o quanto nos valoriza e ama, a ponto de assumir a nossa História e humanidade, a nossa Vida, caminhar conosco, experimentar nossos limites e nos ensinar a rompê-los.Em Jesus, Deus se faz humano para nos revelar toda a sua divindade. Como disse Fernando Pessoa: “Tão humano assim, só podia ser Deus”.

Deus fez isso ao vestir-se de Tempo, cercar-se de Espaço para “estar no meio de nós”, convidando-nos a mergulhar em sua plenitude.
Há um homem Deus entre nós. Convivendo com Ele e nossos irmãos, deixemos que Ele viva conosco e faça a sua História refazendo a nossa, a cada dia, em todo tempo e lugar onde possamos experimentar nossos encontros humanos, onde possamos encarnar no outro e com o outro, nossa sede de afeto, paz, justiça e dignidade...”


A KENOSIS DE DEUS

A proximidade e a distância de Deus: suas conseqüências para a imagem atual de Deus.


(J. B. Libanio)


O ser humano, ao longo da história, tem vivido a proximidade e a distância de Deus. E hoje tal parodoxo se acentua. Rápida passagem por alguns momentos e modelos de tal relação de Deus com os humanos permite esclarecê-lo melhor.


I. Proximidade dos deuses no mundo grego


A cultura grega, desde Homero até os momentos de decadência, conheceu intensa relação com os deuses. Eles se interessavam pela vida dos humanos. Participavam de seus problemas, preocupações, lutas, aventuras. Com o olhar de hoje, aparecem para nós como projeção das qualidades e vícios humanos para plano supraterreno. Corporizavam os sonhos e os medos, as virtudes e os defeitos humanos em grau maior.


Ao participar da miséria dos mortais, mesmo sendo imortais, faziam-se bem próximos das pessoas. Não as escandalizavam, porque elas sabiam serem eles irascíveis, ciumentos, prepotentes, em desenfreada luta por poder e domínio de uns sobre os outros, exatamente como na terra.


Vale deles a inversão do ensino bíblico. Em vez de criarem os homens e mulheres à sua imagem e semelhança, foram por eles criados contra o modelo de suas aspirações, desejos e frustrações.

Um simples exemplo. Zeus, chefe supremo do Olimpo, decidira destruir Tróia pelos gregos. A deusa Hera, sua esposa, interpõe-se para fazer valer seu poder, exigindo que ele mude de idéia. Zeus cede. Bem nos moldes humanos dos ciúmes e disputas intrafamiliares. 


Em tempo de decadência moral da época helenística, os deuses se impregnaram de vícios semelhantes. Dionísio não se acanha de mostrar-se em comportamento embriagado e Afrodite exibe atitude puramente sexual. O próprio Homero descreve cenas de banquetes ruidosos dos deuses a gargalhadas.



Tocou profundamente a história humana a concepção de moira (grego), fatum (latim), que traduzimos por destino


Concebia-se como uma força ora anônima, ora personalizada à qual se submetiam não somente os seres humanos, mas até os próprios deuses. Segundo o mito de Édipo, ele assassina o próprio pai Laio sem sabê-lo, por verdadeiro destino, vaticinado por Pitia, sacerdotisa de Apolo, para casar-se com a mãe Jocasta. A psicanálise inspira-se em tal mito. O id e superego inconscientes têm algo de tal destino, ao comandar comportamentos que escapam do domínio e consciência do sujeito. A Providência divina da tradição cristã, muitas vezes, não escapou de certa concepção arcaica de destino, só que agora traçado por Deus.


II. Deus otiosus


O outro extremo. Em vez de ver os deuses mergulhados no mundo dos humanos, participando das contingências felizes e viciosas da terra, firma-se, em algumas religiões, a tendência de fazê-los retirar-se para o céu. É a figura do deus otiosus, tão conhecida na história das religiões ( ). M. Eliade, com o subtítulo “o Deus longínquo”, observa: “Numa palavra, pode dizer-se destes Deuses que, depois de terem criado o Cosmos, a vida e o homem, sentem uma espécie de “fadiga”, como se o enorme empreendimento da Criação lhes tivesse esgotado os recursos. Retiram-se, pois, para o Céu [...]” ( ).

Continuando a reflexão, o especialista no assunto, acrescenta que o vazio na Terra, criado por essa ausência, vem, em seguida, preenchido por outras figuras: um filho, o demiurgo, seres divinos, antepassados míticos, as Deusas-mães, os Deuses fecundados, etc. ( ). 



III. Evolução de Israel



Israel experimentou dupla presença de Deus: proximidade e distância. As duas narrações da criação retratam-nas bem. A versão mais antiga, javista, desenhou um Deus criador a modo de oleiro, jardineiro, cirurgião. Moldou o primeiro homem do barro, insuflou-lhe o hálito da vida pelas narinas, plantou o jardim do paraíso no Éden de delícias, tirou uma costela do homem, fechou-lhe a carne e da costela formou a mulher. Passeava no jardim à hora da brisa do dia, interpelou Adão e Eva depois de terem comido do fruto da árvore que estava no meio do jardim do paraíso, amaldiçoou a serpente (Gn 2, 7-9.19-22.14s). 


Na narrativa mais tardia, de origem sacerdotal, Deus age por meio da palavra. Diz e tudo é feito (Gn 1, 3-31). Ação em que aparece mais claramente a transcendência de Deus e sua distância das criaturas. Não as manipula, mas as cria do caos fundamental. Tal versão retrata o domínio absoluto e universal de Deus sobre todo o criado, que brota de simples palavra sua. E ainda mais, depois da criação ele repousa no sábado da Transcendência e de absoluta autonomia, como objeto de culto do povo.


Ao longo da história de Israel, Deus age, segundo alguns textos, diretamente, próximo, ordenando a Noé para construir a Arca e assim escapar vivo do dilúvio, chamando e provando Abraão com o pedido do sacrifício de Isaac, o filho querido, conversando com Moisés face a face e em inúmeras outras formas. O didático livro de Jó desenvolve-se numa conversa entre Deus, Satã e Jó. Em dado momento, Jó se dirige a Deus: “Conhecia-te só de ouvido mas, agora, viram-te meus olhos” (Jó 42, 5).


Em outros textos, acentua-se a distância. Javé disse a Moisés: “Não poderás ver minha face, porque ninguém me pode ver e permanecer vivo. O Senhor disse: ´Aí está o lugar perto de mim! Tu estarás sobre a rocha. Quando a minha glória passar, eu te porei na fenda da rocha e te cobrirei com a mão enquanto passo. Quando eu retirar a mão, verás as minhas costas. Minha face, porém, não se pode ver``” (Ex 33, 20-23).


A crença nos anjos e demônios, como seres bons e maus, intermédios entre Deus e os humanos, deixa-se explicar, em parte, pelo crescente distanciamento entre Deus e as criaturas. Em textos antigos da Escritura, a figura do Anjo indicava a presença de Deus. Depois do exílio da Babilônia, o povo de Israel teve contacto com a cultura medo-persa, quando já tinha uma teologia mais clara da transcendência de Javé. Ao conhecer os seres intermédios, entenderam que eles serviam muito bem para explicar as provocações para o bem e as para o mal, que antes se atribuíam a Javé ( ).


Israel oscilou entre um Deus atuando diretamente no mundo e um Deus distante, agindo por meio de intermediários. Teologia que se conservará através dos tempos nas duas clássicas imagens de Deus: o Deus transcendente e o Deus imanente.
Alguns salmos traduzem bem essa tensão. À guisa de exemplo, no salmo 18(17) casam-se as duas tendências num hino de ação de graças pela vitória, transformado em oração do povo de Israel. Celebra-se a experiência da prodigiosa intervenção divina em sua história ( ).


O poder e a grandeza de Javé manifestam-se nos efeitos cósmicos diante de sua presença: “Então a terra abalou-se e tremeu, as bases das montanhas estremeceram e oscilaram, porque ele ardeu em cólera. De suas narinas irrompia fumaça; de sua boca, um fogo voraz de carvões acesos. (v. 8-9). “Do fulgor de sua presença passaram pelas nuvens granizo e carvões ardentes. Então o Senhor trovejou nos céus, e o Altíssimo fez ressoar sua voz: granizo e carvões ardentes. Disparou suas flechas e as dispersou, multiplicou os raios e os disseminou. Apareceu o fundo do mar, e os fundamentos do orbe ficaram expostos ante tuas ameaças, Senhor , ante o sopro impetuoso de tua cólera. (v. 13-16).



A outra face da presença encanta-nos a sensibilidade. É toda ternura. “Debruçou-se do alto e segurou-me para tirar-me das águas caudalosas. Livrou-me de inimigos poderosos, de adversários mais fortes que eu. Enfrentaram-me no dia de minha desventura, mas o Senhor foi meu apoio. Ele me trouxe para um lugar aberto libertou-me, porque me ama. (v.17-20.).


IV. Encarnação


O Cristianismo fez girar nos gonzos o universo divino. Trouxe o divino de Deus para dentro da história humana. Diferenciou-se do Deus cada vez mais distante da tradição sacerdotal judaica, mas também não se identificou com os deuses pagãos tão humanos que se viciaram dos pecados e fraquezas dos humanos.


O novo testamento diante do divino de Jesus cultivou duas percepções diferentes, mas não opostas. A tradição sinótica acentuou a humanidade de Jesus, especialmente Marcos. Ao curar o cego, Jesus pôs os dedos nos ouvidos do surdo, cuspiu e tocou-lhe a língua (Mc 7, 33), suspirou (v. 34); pôs saliva sobre os olhos do cego de nascença (Mc 8, 23). O hino aos filipenses traduz, em termos teológicos, a percepção da extrema humanidade de Jesus. “Ele, subsistindo na condição de Deus, não pretendeu reter para si ser igual a Deus. Mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo, tornando-se solidário com os homens. E, apresentando-se como simples homem, humilhou-se, feito obediente até a morte, até a morte da cruz” (Fl 2, 6-8).



O evangelho de João retrata o Jesus terrestre, iluminado pelo halo da ressurreição. Os longos sermões, as curas simbólicas, as cenas da prisão e morte revelam um Jesus mais divino que humano. Se compararmos, à guisa de exemplo, as narrações sinóticas da prisão com a de João, pequenos pormenores manifestam a diferença de ótica. Os sinóticos protagonizam o papel de Judas na traição, a violência sobre Jesus, sua impossibilidade de defender-se. João faz Judas desaparecer. Jesus interpela os inimigos. Diante do “eu sou”, caem por terra. Ele se entrega e defende os apóstolos. Na cruz, para João já brilha a luz da ressurreição, da glorificação no auge da humilhação.


Em outros textos, Paulo acentua a soberania de Jesus. O próprio hino da epístola aos filipenses prossegue dizendo que “Deus o exaltou e lhe deu o Nome que está sobre todo nome. Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho de quantos há no céu, na terra, nos abismos. E toda língua proclame, para glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor” (Fl 2, 9-11). O hino da epístola aos colossenses vai mais longe. Ele o faz “imagem do Deus invisível, primogênito de toda criatura, pois nele tudo foi criado, nos céus e na terra”; “tudo foi criado por ele e para ele, e ele, existe antes de tudo; tudo nele se mantém”; “aprouve a Deus fazer habitar nele toda a plenitude” (Cl 1, 15-19).

Doravante a imagem de Deus se forjará a partir da pessoa de Jesus. Fundamental vai ser sua experiência de Deus como Abbá, Pai de bondade e misericórdia, que acolhe a todos, especialmente os fracos, pecadores, afastados e marginalizados sob todos os aspectos.


É uma proximidade diferente de Deus. Jesus, ao renunciar a condição divina de andar entre nós, assumiu a simplicidade da forma humana até o extremo de ser condenado à morte do escravo na cruz. A presença de Deus atravessa todas as experiências humanas. Nada escapa do processo de divinização.


Deu-se duplo movimento. Deus ficou próximo de nós e nós nos elevamos à dignidade divina, como S. Leão Magno na homilia da Natividade enfaticamente afirma:”Toma consciência, ó cristão, da tua dignidade, e já que participas da natureza divina, não voltes aos erros de antes por um comportamento indigno de tua condição” ( ).



V. Cristianismo e Império


A proximidade da Encarnação e do Jesus histórico, aos poucos, cedeu lugar para a grandeza do ressuscitado. A conversão do imperador ao Cristianismo facilitou a mudança de tônica. E a Igreja terrestre percebeu-se antes na imagem da Igreja “toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível” (Ef 5, 27).


A figura de Cristo Pantocrator – rei da glória, Senhor e Mestre de tudo –, em atitude de majestade, domina o cenário das pinturas e ícones, embelezando ábsides e cúpulas de basílicas orientais , desde as lutas contra os arianos, mas sobretudo do século IX em diante. Na Igreja de Santa Sofia, em Constantinopla, o mosaico do Pantocrator, tendo à esquerda Maria, mãe de Deus e à direita João Batista, ostenta a glória do Senhor ressuscitado de todas as coisas, diante do qual imperadores se prostraram. Por influência do Oriente, a arte românica e gótica do Ocidente, nos pórticos das catedrais e grandes igrejas, ostentam Cristos de majestade.


A figura do Cristo poderoso projeta para dentro de Deus a imagem do poder. O distanciamento de Cristo implicou conseqüentemente o ainda maior afastamento de Deus.

Abriu-se espaço para os seres intermédios: Nossa Senhora com inúmeros títulos, santos, almas do purgatório, aparições, promessas, novenas, peregrinações. 


VI. Redescoberta do Jesus histórico


A tradição imperial e a teologia essencialista escolástica e neoescolástica obscureceram a face humana de Jesus.


A sua humanidade era interpretada a partir da divindade e essa haurida da concepção grega de Deus. O clássico tratado “De Deo Uno”, sobre a existência e a natureza de Deus, fortemente influenciado pela tradição aristotélico-tomista essencialista, antecedia ao estudo da Trindade e Cristologia. Ambas eram marcadas pela compreensão abstrata de Deus.


Somente a partir da reviravolta cristológica, produzida pelos novos pressupostos teóricos iluministas (séc. XVIII) e românticos da história (século XIX), pela teologia liberal (séc.XIX) e pelos estudos arqueológicos, culturais, históricos, exegético-lingüísticos dos séculos passados, a figura do Jesus histórico readquiriu grandeza.



Passando por etapas e também extremos, e não cabe aqui explicitá-los, a geração pós-bultmaniana atingiu consenso tanto no meio evangélico como católico


A diferença entre Historisch (histórico factual) e Geschichtlich (histórico quanto ao sentido, realidade), abriu perspectivas teológico-exegéticas. Afirma-se relação indissolúvel entre ambos. O Jesus da história é o Cristo da fé e vice-versa.


Temos acesso ao Jesus da história no kerygma da Igreja primitiva

Em relação a Bultmann, afirmou-se a insuficiência do simples fato (dass) do Jesus na cruz como lugar da decisão existencial. O was (o quê) e wie (como) da vida do Jesus histórico têm relevância. Temos acesso a ele pela via da fé da comunidade. Recursos exegéticos rigorosos permitem a aproximação ao histórico de Jesus.


A revolução cristológica afetou diretamente a compreensão de Deus. Jesus o experimentou como Abbá, paizinho, papai. E permitiu que fizéssemos a mesma experiência. Na oração do Pai Nosso, ousamos, como diz a liturgia, chamar a Deus de Pai. A proximidade de Deus se fez maior.



No entanto tal mudança de paradigma, por assim dizer, ainda não produziu os efeitos no conjunto da teologia e especialmente nas práticas de piedade do povo.
O caminho da revelação foi de um Deus-para-nós, trabalhado pela teologia como um Deus-em-si para somente depois ser um Deus-em-nós. Assim o Deus-para-nós (aparecer de Deus) recua até o ser de Deus (Deus-em-si) e desce à transparência em nós (Deus-em-nós).


O Deus-para-nós refere-se ao saber salvífico, fundado na economia da salvação. Trata de Deus a partir do aparecer histórico de Jesus. Acolhe-se o mistério na imediateidade de sua manifestação. Cristo é apresentado no evangelho como caminho, vida, luz. Os seus títulos definem-se em relação a nós, na função redentora. Exprime-se em linguagem histórico-salvífica.


O Deus-em-si inquire pela inteligibilidade do mistério revelado, ao construir linguagem coerente sobre a palavra ouvida na fé. O mistério desafia a inteligência. Realiza o programa de Santo Anselmo: fides quaerens intellectum – a fé que busca inteligência. Diz-se de modo novo o que cremos.


O Deus-em-nós, numa terceira etapa, antes dialética que cronológica, dirige o olhar da fé para dentro do crente, de sua interioridade a fim de perceber aí a presença do mistério. Este se compreende como realidade escondida, presente e ativa no fiel. É o momento de interiorização, do caminhar da graça em cada indivíduo, na história. Faz-se inteligível para quem vive de Deus e atento aos irmãos.


Dessa leitura resulta também a idéia de um Deus frágil que sofre com o Filho e o Filho revela a Deus no extremo de sua humanidade. L. Boff, nas pegadas de S. Leão Magno e de Fernando Pessoa, formulou belamente a frase: “Humano assim só pode ser Deus mesmo” ( ).



VII. Momento atual


O momento atual embaralha diversas compreensões de Deus, ora tão próximas que o reduzem a um entre nós, tão distantes que deixam espaço para inúmeros ritos intermédios, ou até ausente pela via do ateísmo e agnosticismo.


1. Morte de Deus


a. Ateísmo


O anúncio da morte de Deus assumiu em Nietzsche expressão dramática. No prólogo, o autor descreve o encontro de Zaratustra com um velho santo, metido em canções, louvores a Deus. Depois da conversa, saem os dois rindo como dois meninos. E Zaratustra fala a seu próprio coração: “Será possível? Esse velho santo, em sua floresta, ainda não soube que Deus está morto” ( ).


Para Nietzsche, a morte de Deus inclui naturalmente e principalmente o Deus cristão.

Mas vai além. “Isso não significa somente que já não há Deus, mas que a estrutura fundamental de tudo o que existe está totalmente abalada: o mundo suprassensível, que era considerado até então como o que era verdadeiramente real e atuante, é tornado irreal e vão, perdeu sua força e não oferece mais vida: toda a metafísica cessou de existir”. O nome de Deus designa “o mundo suprassensível em geral, o mundo dos ideiais, das medidas e dos valores, do verdadeiro, do bem e do belo, que indicam o fim, colocado acima da vida humana como a luz do sol, e comandam assim do alto e de fora” ( ).

Tema a ser retomado pela teologia da morte de Deus,
L. Fuerbach lançou a base do ateísmo moderno. Deus não passa da exteriorização da consciência do homem.


 "A consciência de Deus é a consciência que o homem tem de si mesmo, o conhecimento de Deus o conhecimento que o homem tem de si mesmo. Pelo Deus conheces o homem e vice-versa pelo homem conheces o seu Deus: ambos são a mesma coisa. O que é Deus para o homem é o seu espírito, a sua alma e o que é para homem seu espírito, sua alma, seu coração, isto é também o seu Deus: Deus é a intimidade revelada, pronunciamento do Eu do homem; a religião é uma revelação solene das preciosidades ocultas do homem, a confissão dos seus mais íntimos pensamentos, a manifestação pública dos seus secretos de amor" ( ).


K. Marx prossegue a linha Feuerbachiana


Suas clássicas afirmações fizeram história.

 "O fundamento da crítica irreligiosa é: o homem faz a religião; a religião não faz o homem. Em outras palavras, a religião é a consciência de si mesmo e o sentimento de si mesmo do homem que ainda não se encontrou ou que voltou a perder-se. Mas o homem não é um ser abstrato, acuado fora do mundo. O homem é o mundo dos homens, o estado, a sociedade. Este estado, esta sociedade produzem a religião, uma consciência invertida do mundo, porque são um mundo invertido. A religião é a teoria geral deste mundo, seu compêndio enciclopédico, sua lógica com formas populares, seu point d'honneur espiritualista, seu entusiasmo, sua sanção moral, sua solene consumação, sua razão universal de consolo e justificação. É a realização fantástica da essência humana, porque a essência humana carece de realidade verdadeira. A luta contra a religião é, portanto, em forma mediata, a luta contra o outro mundo, do qual a religião é o aroma espiritual. A miséria religiosa é, por uma parte, a expressão da miséria real e, por outra, o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, assim como é o espírito de uma situação carente de espírito. É o ópio do povo. A abolição da religião enquanto felicidade ilusória do povo é necessária para sua felicidade real. A exigência de abandonar suas ilusões sobre sua situação é a exigência de que se abandone uma situação que necessita de ilusões. A crítica da religião é, portanto, em embrião, a crítica do vale de lágrimas que a religião rodeia de um halo de santidade" ( ). 



S. Freud fecha o círculo dos mestres da suspeita. A. Vergote resume a tese central de S. Freud:

"A idéia de Deus é o deslocamento, para uma figura paterna ampliada, dos desejos e da dramática que caracterizam a relação com o pai” ( ).


Sartre esbarra com a realidade da liberdade

Electra, depois do assassinato de Egisto e da mãe Clitemnestra, não suporta o remorso e entrega-se a Júpiter, enquanto Orestes resiste corajoso na sua liberdade autônoma ( ). Refugiar-se em Deus ou nos deuses revela a fraqueza, incapacidade de haver-se com a própria liberdade. A liberdade de Deus e a humana, não se tocam, como dois navios que passam um pelo outro, comenta Sartre. 


b. Agnosticismo


Mais que pelo ateísmo, o silêncio se faz pelo agnosticismo:

Cientistas, como o prêmio Nobel A. Kastler, filósofos atuais, como A. Comte-Sponville, preferem calar-se diante da existência de Deus. Confessam que não há argumentos racionais constringentes nem para um lado nem para o outro. A pedra de tropeço que derruba a fé em Deus é a existência do mal.

A. Kastler se escandaliza diante do fato de uma evolução em que Deus teria pensado a vida à custa da morte. Este Deus não é bom, nem poderoso. Logo não é Deus. Melhor aceitar o absurdo.


“Estou profundamente perturbado porque não posso aceitar a fé de minha infância. Em particular, a idéia, tão bela como falsa, segundo meu modo de ver, expressa por Cristo, de que Deus é Amor. De modo nenhum posso aceitar isso. Se admito que existe um universo, que um Deus onipotente e onisciente o governa, pois bem, Ele não é amor! A observação do mundo obriga-me a constatar que a vida dos seres está baseada na morte de outros seres, de alto a baixo na escala” ( ).


O ateísmo e agnosticismo, silenciando totalmente a Deus, geram atitudes bem diversas. Uns sentem-se confortáveis na casa humana com as pequenas alegrias do cotidiano.

Outros apelam por atitudes heróicas estóicas. Suportam tudo em nome da honradez humana. Enfim outros descolam para a vida desregrada, realizando o prognóstico de F. Dostoeivski, de que sem Deus tudo é permitido.


c. Secularização


Morte de Deus pode traduzir o fenômeno de secularização. Intérpretes otimistas da secularização, como F, Gogarten ( ), H. Cox ( ), consideraram-na como “conseqüência legítima do impacto da fé bíblica sobre a história”, portanto originária de raízes da tradição judaicocristã. Comentando tal afirmação, Cl. Caliman acrescenta: “essas raízes afundam na doutrina bíblica da criação, no acontecimento libertador do Êxodo, no Sinai e no evento da Encarnação” ( ). Processa-se assim desaparecimento de elementos espúrios da revelação com conseqüente purificação da fé cristã.



A teologia da morte de Deus forjou a expressão ‘ateísmo cristão” ( ). Pretendeu negar aplicar ao Deus de Jesus Cristo a lógica do Deus criado pela razão na perspectiva teísta. É o lado positivo da teologia do século passado que viu no teísmo, não a conciliação entre a razão e Deus, mas a negação do próprio Deus da revelação.


Noutra vertente, a teologia da morte de Deus despede-se do Deus ontoteológico, reduzindo o divino a Jesus na sua humanidade histórica de modo que na sexta-feira santa também Deus morreu. Processou-se mais que uma secularização, verdadeiro secularismo, transpondo integralmente para a história dos homens o que Deus significava ( ).


O interesse por Deus não se refere ao ser e natureza na eternidade, mas, no máximo, à sua manifestação no mundo e na vida dos homens ( ). Afasta-se de concepção acentuadamente racional de Deus cuja existência e natureza se deduzem por meio de elementos conceituais, mais devidos à filosofia clássica que à Revelação e à experiência do ser humano. Distancia-se assim de uma visão de Deus como fundamento da totalidade de todos os seres, subjacente à preocupação da ontoteologia pela metafísica do ser.


2. Visão tradicional


Apesar dos embates da modernidade secularizante e até mesmo atéia, permanece uma visão tradicional, pré-moderna, popular de Deus:

Em termos concisos, é um Deus distante, mas que solicitado por nós, interfere miraculosamente na natureza e na vida dos homens. É o Deus dos milagres.


A. Torres Queiruga debate intensamente com essa imagem de Deus, apontando-lhe os malefícios teológicos e religiosos e oferecendo outra possível compreensão correspondente aos tempos de modernidade:


A figura de Deus dessa visão pré-moderna atemorizava, exigia das pessoas atos de amor e culto como um ser carente, intervinha no funcionamento da natureza a seu bel prazer, supria a fraqueza das pessoas com atos de força.


Torres Queiruga descreve como “um deus que intervém de fora e não se implica total e unicamente no bem das criaturas, que tanto pode mandar o mal ou o castigo e que, por motivos muito diversos, chega a exigir nosso sofrimento e comprazer-se nele ( ).

E. N. de Barros Guimarães resume muito bem essa visão tradicional:

“Essa compreensão engendrou a visão religiosa segundo a qual Deus, infinitamente distante e transcendente, fundamento e o sustento de todas as coisas, dos astros do firmamento aos acontecimentos históricos, age seja nos acontecimentos, seja na liberdade humana e interfere, com arbítrio absoluto, a partir de inescrutáveis desígnios, por vontade e ação absolutas”. ( ).



3. Banalização de Deus


Em oposição tanto ao silêncio de Deus quanto a formas tradicionais ontoteológicas, pouco condizentes com a sede religiosa atual, explodem outras compreensões de Deus. Algumas inserem-no no jogo mercadológico (neopentecostalismo), outras o trazem para o plano do consolo, satisfação pessoal, de cunho quase terapêutico (neopaganismo, Nova Era, pentecostalismos). Talvez a expressão “banalização de Deus” seja forte demais. No entanto, quer traduzir de maneira crítica o encurtamento da dimensão de Mistério absoluto, de Transcendência imanipulável de Deus


a. Neopentecostalismo


O neopentecostalismo reproduz, em forma moderna e econômica, elementos estruturais semelhantes à posição tradicional. A bênção se Deus se traduz em termos financeiros a partir da teologia da prosperidade. Os pregadores prometem aos crentes cura das doenças, libertação do demônio, prosperidade material na forma de dinheiro e bens materiais, tais como carro, casas na praia, bom emprego.

Baseiam-se em revelações feitas a K. Hagin, segundo o qual “Deus faz gosto da riqueza de seus filhos:

Edir Macedo argumenta que Deus é um Pai rico, logo os filhos também são ricos ( )”. O preço de tais graças é a contribuição que os fiéis devem dar à Igreja Universal do Reino de Deus, insistem seus pastores. Se o fiel não pagar o dízimo não alcança as bênçãos de Deus. A coação se faz ao fiel e a Deus que se vê obrigado a cumprir as promessas de bênção ( ). Aqui encontramos em forma decadente e comercializada a visão das promessas e bênçãos do catolicismo tradicional.


b. Neopaganismo


No pólo oposto ao Deus transcendente, invadem a cultura atual formas neopagãs de Deus, mesmo no ambiente católico. Retomam-se críticas antigas dos pagãos do início do Cristianismo, acusando o Deus cristão de intransigente, destruidor da civilização pagã clássica, perturbador da ordem cívica, conduzindo o mundo ao caos das insurreições, tiranias, totalitarismos ( ).


Ele favoreceu o próprio ateísmo marxista, ao defender o princípio fundamental da igualdade entre todos. Desvalorizou a alegria de viver, a liberdade de pensar. Haja vista a inquisição e as infiltrações maniquéias na sua imagem. 


O neopaganismo recupera formas religiosas pagãs, incentiva um Deus da religião e menos da fé e do evangelho, considerado pernicioso. Aproxima Deus ou os deuses da vida das pessoas, com cerimônias cultuais, hauridas nas religiões pré-cristãs indoeuropéias para ritualizar o cotidiano.


Há uma busca de assenhorear-se de Deus ou dos deuses, como realidade disponível em nosso benefício. Israel lutara com denodo contra a magia. Ao longo da história, os profetas reagiam iradamente diante dos surtos mágicos que surdiam com freqüência.

O neopaganismo retoma-os com a sofisticação da modernidade. Mas, no fundo, está em jogo a imagem de um Deus e de deuses à disposição dos ritos que criamos e com os quais o dominamos.


c. Deus e Nova Era


Mais que movimento é estado de espírito. Substitui-se o Deus pessoal pelo clima divino. O adjetivo (divino) desloca o substantivo (Deus). Escorrega-se facilmente para o panteísmo. É um Deus envolvente praticamente sem transcendência. Está aí para criar uma era de felicidade, de harmonia, de paz e amor. Todo canto. Todo luz. Todo beleza. Suprime a rudeza da existência. A cruz e o sofrimento são remetidos para o lado doentio do Cristianismo.


Confunde-se facilmente com o movimento dos astros que influenciam, de maneira determinista, o desenrolar da história humana. Anunciam-se por meio da proximidade de Marte e Júpiter a paz que guiará os planetas e o amor que dirigirá as estrelas. Desponta a aurora da era de Aquário com harmonia, inteligência, solidariedade e paz infinitas ( ).



d. Pentecostalismos


Caracteriza-os a todos eles o fato de o fiel apelar para uma experiência próxima, pessoal, única, indiscutível de Deus. Ela não se submete a nenhum cânone extrínseco à própria subjetividade.


Há graus, naturalmente, de certezas da presença imediata de Deus. Acentuam a presença do Espírito Santo com os dons da cura, da glossolalia, seguidos da percepção de profunda conversão para a nova vocação. Muitas vezes termina na fundação de nova denominação religiosa, ou movimento, ou comunidade. Outras vezes tais experiências se fazem dentro de celebração comunitária, especialmente nos grupos de oração.



A Igreja católica, atenta à consciência da imprescindibilidade da instituição e ao carisma de discernimento, debate-se com expressões carismáticas


Algumas caminham na linha-limite entre o carismatismo independente, autônomo e o inserido numa comunidade eclesial oficial. Outras denominações evangélicas procuram também enquadrar os fiéis, mas freqüentemente acontece membros se sentirem mal e saltarem para outra denominação ou fundarem uma nova. D. Hervieu-Léger analise essa “peregrinação” de religião que tem a ver com a subjetividade e proximidade de Deus ( ).



Outro jogo difícil se trava entre o desejo, ora implícito e até mesmo inconsciente, ora declarado de adorar gratuitamente a Deus ou de possuir o Espírito. No primeiro caso, respeita-se a Transcendência de Deus e a reconhece. No segundo, escorrega-se para imanentização e manipulação de Deus, como alguém ou algo em vista de curas, de satisfações afetivas.


A própria leitura da Bíblia não funciona como regulador externo da verdade e autenticidade da experiência e proximidade de Deus, mas como seu desencadeador subjetivo.



4. Proximidade com as ciências


As ciências debatem-se com a imagem de Deus. Já aludimos 
àqueles cientistas que preferem o agnosticismo diante do mistério doloroso do evolucionismo segundo o qual a vida desponta à custa de infinitas mortes.


Teilhard de Chardin pensa o processo evolutivo noutra perspectiva. Ao perguntar-se pelo sentido teleológico e teológico da evolução, atribui “toda eminência ao Futuro e Maior”.


Defende uma proximidade de Deus no mundo material. A partir de real experiência mística que ele descreve como uma presença de Deus que o inundou com sua luz fazendo que ele nEla encontrasse a Realidade tangível por excelência, exclama: “Eis o Universo ardente!” “Deus, somente Deus, agita com o seu Espírito a massa do Universo em fermentação” ( ).


Em outro momento, prolonga a presença de Cristo para dentro do cosmos. “Ó Cristo Jesus, vós trazeis verdadeiramente em vossa benignidade e em vossa Humanidade toda a implacável grandeza do Mundo” [...]

“Eu vos amo como a Fonte, o Meio ativo e vivificante, o Termo e a Saída do Mundo, mesmo natural, e do seu Devir. Centro em que tudo se encontra e que se distende sobre todas as coisas para reconduzi-las a si, eu vos amo pelos prolongamentos do vosso Corpo e da vossa Alma em toda a Criação, por meio da Graça, por meio da Vida, por meio da Matéria” ( ).


Essa proximidade entre Deus e o cosmos produziu efeitos diferentes:

Escancarou as portas para a “mística cósmica” que anima para além de interesses antropocêntricos o pensamento e a prática ecológicos.

Para L. Boff, ela salva a ética ecológica de degenerar-se em código de preceitos e hábitos de comportamento e a ecologia da mente de perder-se na pura interioridade. Oferece uma “experiência de base omnienglobante mediante a qual se capta a totalidade das coisas, exatamente como uma totalidade orgânica, carregada de significação e de valor” ( ).



Permitiu uma leitura de Jesus Cristo desde o aspecto cósmico nas pegadas do hino pré-paulino da epístola aos Colossenses (1, 15-19), como vimos acima. O mesmo L. Boff aponta a diafania crística de Teilhard como uma das principais correntes que disputam a interpretação religiosa do mundo juntamente com a secularização.


O mundo traz indícios reveladores da profundidade crística, que a obra de Teilhard recolhe, tematiza e sistematiza:

“O mundo não é tanto a epi-fania mas a dia-fania desta realidade (Cristo), no coração do ser” ( ). Responde, em última análise, a pergunta: “O Cristo evangélico, imaginado e amado dentro das dimensões de um mundo mediterrâneo, é ainda capaz de abranger e centrar nosso Universo, prodigiosamente engrandecido ( )?”

Um Cristo pensado e amado no coração da matéria traz nova proximidade do mundo, percebido pelas ciências naturais, com a realidade divina. 


O passo da visão teilhardiana para o panteísmo espreita pensadores incautos e fiéis apressados. A teologia joga com a distinção entre panteísmo e panenteísmo. Supõe precisão e clareza de mente.

Na atual confusão mental identifica-se facilmente o fato da presença de Deus em tudo com a divinização de tudo. E aqui a Nova Era encontra fonte de inspiração, divinizando a totalidade da realidade.


5. A proximidade e a distância mantidas em dialética: K. Rahner


K. Rahner conjuga genialmente a experiência de Deus como distanciamento cheio de mistério e a experiência mística de autocomunicação de Deus a todo ser humano.


Não se deixou vencer pela tentação de um Deus de que dispomos ao bel prazer, que vem encher-nos as lacunas materiais e espirituais.

A um jovem que lhe escreve perguntando por que Deus permite que soframos, responde:

“Esta pergunta se subtrai a nós e recolhe-se ao incompreensível mistério que é o próprio Deus; de tal modo que só a aceitação, com esperança, deste nosso sofrimento é a maneira concreta de aceitarmos também, com amor, o próprio Deus da eterna incompreensibilidade”. Em seguida, não hesita dizer-lhe que “o amor para com um Deus não compreensível é verdadeira e definitivamente a única felicidade do homem ( ).


A afirmação do mistério de Deus, absoluto, imanipulável pela criatura faz parte dos eixos básicos do pensamento de K. Rahner. ““Deus não é ´algo` ao lado de outras coisas, algo que pudera integrar-se em um mesmo sistema homogêneo com essas outras coisas.


Quando dizemos ´Deus` nos referimos à Totalidade, não como uma soma posterior de uns fenômenos que vamos investigando, mas como a Totalidade que não pode nunca ser manipulada em sua origem e fundamento, como aquela Totalidade que não podemos captar, agarrar nem dizer, porque se encontra por trás, diante e acima de tudo, aquela Totalidade a que pertencemos nós mesmos, o mesmo que nosso conhecimento experimental.


A palavra Deus alude a esse Fundamento fundante, a esse Fundamento que não é a soma das distintas coisas fundadas e que, portanto, se encontra sobre elas de uma forma criadora, sem construir, porém, por cima delas, ´um todo/tudo mais alto`. Deus significa o Mistério silencioso, absoluto, incondicionado, incompreensível.


Deus evoca, em sua infinita distância, aquele horizonte para o qual se dirigem, em seu conjunto, e desde sempre, de um modo incompreensível e não manipulável, a compreensão das realidades particulares, suas relações mútuas e nosso trato ativo com elas. Este horizonte continua permanecendo calado, continua na sua mesma distância, quando termina e se acaba toda compreensão e toda atuação que estão vinculadas com ele” ( ).



Em termos de proximidade, K. Rahner fala de “aquele que decidiu encher, com a Infinitude de sua Plenitude, que é o Mistério em si, chamado Deus, a infinitude do vazio que constitui o mistério do homem” ( ).

Jogando com dois termos em alemão, diz: “És Tu que me er-griffen (prendeste bem fundo, agarraste) e não sou eu que te be-griffen (com-preendi)” ( ).


A graça de Deus não vem de cima, mas “está já inserida de modo permanente no mundo e assim aparece como realidade historicamente palpável, fundada na carne de Cristo, como um elemento do mundo, da humanidade e de sua própria história” ( ).

“Deus tem a possibilidade e assume a livre decisão de dar-se como amor, fazendo que alguns lugares deste universo venham a mostrar-se lugares onde acontece sua livre autodoação, de maneira que ele mesmo se introduz no universo, em um par de lugares aparentemente perdidos deste universo” ( ).



A categoria “existencial sobrenatural” que ele forjou para explicar a problemática da relação “natureza e graça” permite perceber a interioridade da presença de Deus no ser humano. M. de Oliveira formulou bem essa relação que nos ajuda entender a proximidade de Deus ao ser humano.

”A graça não é uma coisa, ela é um dom de Deus, mas, antes de tudo, é o próprio Deus em sua absoluta autodoação (graça não criada), em gratuidade e proximidade absoluta e radical ao ser humano, que é natureza precisamente enquanto o receptáculo desta doação totalmente indevida uma vez que não implicada na auto-efetivação do ser humano enquanto tal” ( ).


6. A proximidade do Deus da libertação junto aos pobres


A teologia da liberdade representa outra vertente da proximidade de Deus:

É a visão mais kenótica de Deus, pois ele se faz presente no pobre e no marginalizado. Essa imagem de Deus se funda na opção que Javé fez pelos pobres, simbolizados naquela época pela viúva, órfão e estrangeiro e também pelo povo escolhido que trazia o estigma da pequenez e da pobreza nômade.
Jesus reafirma, na sua pessoa, com os milagres, pela pregação e pelas parábolas, a proximidade do Reino de Deus, que não é outra coisa senão o Deus do reino.

Ele se faz pobre, convive com eles, morre como um deles no abandono, na completa nudez com morte de escravo. Freqüentou, na expressão de A. Holl, más companhias ( ). Em termos culturais da época, significavam as classes inferiores, os enfermos, os pobres e os analfabetos. E tal proximidade manifestou-se na convivialidade em refeições com pecadores. Sendo mesmo importunado por uma prostituta durante a refeição não expressou nenhuma reação de rejeição, antes de acolhida e perdão.


É a presença do andarilho que não tinha uma pedra onde repousar a cabeça, depois que deixou Nazaré, renunciando a cômoda vida de taumaturgo em sua casa. E se ira contra a imagem de Deus que os fariseus e outros religiosos da época passavam de ele estar com os poderosos. Acentua, no entanto, a intimidade de um Deus presente junto ao povo, especialmente aos mais abandonados. Ao apostar nos pobres, viu politicamente sua obra fracassar com a condenação à morte. E aí revelou a mais absoluta kénosis de Deus.


A conseqüência do anúncio do Deus dos pobres se fez sentir em duplo movimento. Os pobres se encantaram com tal imagem. As CEBs se formaram em torno da leitura bíblica em que se lia e rezava o agir de Deus na história ao lado dos pobres. Por sua vez, os poderosos dos impérios terrenos e religiosos desconfiaram de tal versão e se opuseram a ela(Apesar dos desvios internos e manipulação ideológica de lideres infiltrados nesta expressão de Igreja).


Experiência que os movimentos de pobres sofreram no correr dos séculos, sobretudo na Idade Média com os famosos movimentos ligados a eles. E hoje se repete a mesma história.



Conclusão


Pululam hoje imagens diversificadas de Deus que reproduzem em termos de modernidade e pós-modernidade experiências vividas na Antigüidade e ao longo da história. Os vazios ausentes de Deus se enchem de intermediários ou da banalização de formas religiosas. A proximidade extrema de Deus leva ao secularismo, roubando-lhe a dimensão de transcendência.


Duas teologias pretendem, porém, responder aos extremos de maneira positiva: a transcendental de K. Rahner e a teologia da libertação. Ambas retêm a proximidade de Deus existencial – K. Rahner – e junto aos pobres – teologia da libertação, sem perder a dimensão de Transcendente, como mistério absoluto e como Deus do Reino.

OS FALSOS CAMINHOS PARA DEUS



A humanidade, ao longo da história, tem buscado relacionar-se com Deus. E Deus, por sua vez, tem-se desvelado por comunicar-se conosco. As religiões são esses caminhos dos homens a Deus e de Deus aos homens. Todas elas invocam alguma revelação de Deus por meio de seus profetas, líderes e fundadores.


As religiões albergam, em seu interior, as belezas que Deus nos revelou, maravilhosas experiências religiosas profundas de seus criadores e fiéis. Se só existisse essa face positiva e nobre das religiões, o diálogo entre elas e a percepção de seu papel salvífico seriam muito mais transparentes e inequívocos.


Entretanto, muitos de seus fundadores, ministros credenciados, sacerdotes, pagés, gurus, mestres e outros funcionários pagam o tributo dos limites de suas percepções de Deus, sucumbem aos desejos e imperativos contrários à grandeza e pureza de Deus. Prescindindo de graus mais graves de degradação, em todas as religiões infiltram-se atitudes humanas menos condizentes com a sua natureza.


Uma reflexão sobre Deus carece, logo de início, purificar os caminhos que nos conduzem a ele. No decorrer da história da relação com Deus, os seres humanos foram criando uma série enorme de atitudes e práticas espirituais, umas santas e correspondentes à dignidade de Deus, outras falsas e ofensivas a Ele.


No fundo, elas revelam a compreensão que se tem de Deus. Só indo-lhe até a raiz teológica é que se consegue distinguir e separar o joio do trigo. Vejamos as posturas e práticas religiosas mais comuns na história religiosa da humanidade em dissonância com a santidade de Deus.



1. Magia


O termo associa-se ao de “mago”, palavra persa. O evangelho do nascimento alude aos magos que vieram do Oriente para adorar o Menino Jesus (Mt 2,1-12). Pessoas dotadas de qualidades, diríamos hoje parapsicológicas, paranormais, de interpretar sonhos. Os antigos magos praticavam o culto solar, a adivinhação, a astrologia, além de terem, em alguns países, assegurado o monopólio sacerdotal.


Como se vê, o termo já vem carregado de religião e de práticas as mais diversas, envoltas em mistério, na relação com o mundo divino.


No coração da magia, há uma compreensão do mundo divino e da maneira de relacionar-se com ele. Apesar de ser uma das práticas religiosas mais antigas da história das religiões, ela persiste até hoje sob formas claras ou camufladas, mesmo na religião cristã. Se não, vejamos.




No fundo, a magia funda-se na convicção de que existem forças espirituais, divinas na natureza, em determinados objetos, em certos ritos, que podem ser captadas e direcionadas para o bem (magia branca) ou para o mal (magia negra) das pessoas.


Deus, o mundo divino, os santos estão aí com suas forças disponíveis. A magia consiste em manipular essas forças, ora por astúcia, ora por habilidade em benefício ou malefício de pessoas.


Ela revela esse movimento primitivo da criatura na busca de uma vida religiosa. Percebe-se facilmente o poder que adquirem num grupo humano as pessoas que manejam essas forças espirituais. Mesmo que isso apareça de extremo primitivismo religioso e, por conseguinte, distante da consciência moderna, espanta-nos ver como personagens ilustrados recorrem ao uso de práticas mágicas em situações e decisões importantes da vida. Hegel dizia que encontramos a magia em todos os povos e em todos os tempos.


Há um comportamento mágico-religioso espontâneo. Por isso, se não se aprofundam a concepção de Deus e a nossa relação pessoal com ele, facilmente assumimos certas práticas de caráter mágico na nossa vida religiosa comum.


Corta-se a tentação da magia pela raiz por meio de uma compreensão de Deus como Pai bondoso, misericordioso que só quer nosso bem. Não existem forças espirituais, divinas, que sejam neutras e disponíveis, a serem encarreiradas na direção do bem ou do mal das pessoas. Existe um Deus que criou todo o cosmos com suas leis, que visam, em primeiro lugar, ao bem de todos, mas que podem no seu jogo de contingências provocar malefícios.


À guisa de exemplo. Os movimentos dos mares, os fenômenos atmosféricos, a lei da gravidade, etc. existem como um conjunto onde nossa vida humana se tornou possível. Sem uma inteligência e amor infinitos não entendemos como milhões e milhões de fatores interferiram para que surgisse a vida humana e se se desenvolvesse.


Não precisamos de nossa parte manipular magicamente nenhum desses elementos para nosso bem e eventualmente para o mal de algum inimigo. Pois, eles foram criados e continuam sendo sustentados por Deus para a vida.


Dessa maneira, rui o pressuposto fundamental da magia. Desconhecer um Deus Pai de bondade e imaginar que as energias espirituais e divinas são ambivalentes.


Se elas não realizam sempre nosso bem é por causa do limite intrínseco do fato de sermos criatura imperfeita e nenhuma prática mágica consegue romper tal barreira.


Mais: a magia manifesta certas tendências, desejos, sonhos pretensiosos do ser humano. O ser humano não é Deus, mas foi criado por e para Ele. Tem uma marca divina em seu ser. Em vez de reconhecê-la como fonte de sua dignidade e em espírito de gratidão, é tentado a prevalecer-se dela e fazer-se Deus. O autor sagrado via aí a tentação primordial. “Sereis como deuses”, se comerdes do fruto da “árvore do conhecimento do bem e do mal” (Gên 2, 17; 3, 2-6). Comeram. Nesse simbolismo, aparece a pretensão prometeica do ser humano de dominar o mundo divino com suas artimanhas.



O oposto à magia é a adoração, a contemplação gratuita de Deus na certeza de seu amor infinito sem precisar, de modo nenhum, atrair para nós as forças divinas, e muito menos de maneira ardilosa.



2. Astrologia


Sob uma forma mais sofisticada, a astrologia pode revelar uma mesma mentalidade mágica. Por meio dos horóscopos, ela se tornou alimento diário de milhões de nossos coetâneos. Posto esse fenômeno seja vivido numa sociedade científica secularizada e não se faça nenhuma menção direta e explícita a Deus, ele remonta à categoria do religioso. O horóscopo conjuga o céu do nascimento da pessoa e a conjuntura astral para assim conhecerem-se e determinarem-se os fatores contingentes da vida sobretudo nos campos da afetividade, saúde, dinheiro, poder, empreendimentos, etc.


Ele não participa do aspecto mágico de querer manipular as forças celestes em benefício ou malefício de alguém numa verdadeira negociação com o céu, mas pretende conhecer, levar em consideração as advertências para defender-se de um destino já traçado nos astros.


Prescindindo da natureza dos dizeres dos horóscopos, que são extremamente genéricos e fluidos, a ponto de as pessoas interpretarem como mensagens pessoais o que não passa de projeção de seus desejos, o seu manejo reflete uma atitude “religiosa” de submissão ao poder “sagrado” dos astros.



À luz da compreensão de Deus Pai, essa atitude padece de certa ambigüidade religiosa. Aceitar que os astros possam, em suas diferentes conjunturas, ter determinadas influências sobre nosso psiquismo, não é nenhum comportamento religioso. É conhecido como as fases da lua influenciam no crescimento do cabelo, no comportamento dos animais. Tal fenômeno deve ser tratado, estudado e controlado pelas ciências. Um mínimo de experimentação científica se faz necessário para sair-se do campo mágico. Pode-se ir mais além.


Há pessoas dotadas de qualidades sensitivas, intuitivas que captam, mesmo que não consigam demonstrar cientificamente, efeitos das conjunturas astrais nas pessoas. Estamos, de novo, no campo das experiências humanas psicossomáticas.


Contraria radicalmente à concepção e proceder do Deus Pai, revelado na tradição bíblica, acreditar que nosso destino humano na história, e mais grave ainda salvífico, já esteja inscrito de antemão no movimento dos astros. Pois, o cerne da revelação bíblica é o diálogo de liberdades - Deus e os seres humanos. Só nesse jogo livre cabem as realidades fundamentais de nossa existência: graça, responsabilidade ética, pecado, conversão, etc.


Talvez a maneira como o aspecto mágico se infiltre na leitura dos horóscopos seja a dependência do fiel ao poder interpretador do astrólogo. Este se comporta como um mago que conhece os segredos “sobrenaturais” dos astros e pode manejá-los inclusive para seu proveito econômico.


Não se quer dizer que não possa haver “astrólogos humanistas” que coloquem a serviço dos outros qualidades sensitivas, que possuem, de perceber a influência dos astros sobre as pessoas.


Uma reportagem dizia que um dos “TV-disque” mais freqüentado e, portanto, mais rentável para seu proprietário, se relacionava com esse mundo dos horóscopos, da adivinhação. Em momento de crise de civilização, as pessoas tornam-se mais frágeis e apelam para qualquer recurso “sobrenatural” a fim de encontrar luz e sentido para a vida.



3. Superstição


A superstição é muito popular. Responde a dimensões de nosso modo humano de viver com toda a sua ambigüidade. Com efeito, observamos os fenômenos que nos cercam com uma interrogação persistente de encontrar a conexão entre efeito e causa. Procedemos assim tanto no nível científico como rotineiro. Lá se descobriram e se estabeleceram as leis, os princípios, as teses, que subsistem até que surjam tantos contra-exemplos, contraprovas que os invalidem e então elaboram-se novos. Conhecemos desta forma os sistemas ptolomaico, newtoniano, einsteiniano e assim por diante.



Esse mesmo proceder acontece no nível comum da vida e as pessoas vão formulando suas associações, ora sem nenhum fundamento objetivo e simplesmente por casualidade, ora com alguma base objetiva, posto não científica. A superstição ancora-se em tal experiência humana.



Vejamos um exemplo. Vamos imaginar que, por pura coincidência, em várias sextas-feiras 13 aconteceram infortúnios. Cria-se então a suspeita de que esse dia é de mau agouro. E toda vez que, de fato, acontecer algo ruim nessa data, confirma-se tal suspeita. E depois prolonga-se tal constatação para o número 13.


E quando essa suspeita se alça ao nível religioso de destino, fatalidade “sobrenatural”, já entramos no campo da superstição. Logo surgirão os antídotos espirituais. E assim se forma o círculo supersticioso. 


A superstição pode então nascer de um fato em que houve na realidade um nexo objetivo. Suponhamos numa situação de guerra. O inimigo está escondido e camuflado a certa distância. Alguém acende três cigarros com um só pau de fósforo. Para isso, o mantém aceso um tempo mais prolongado, denunciando ao inimigo sua presença. E, em seguida, cai-se-lhe em cima um obus. Conclusão: acender três cigarros com um só pau de fósforo traz mau agouro. Esquece-se a experiência de origem, brota a superstição.


Numa análise à luz de Deus Pai, encontramos, de novo, com imagem deturpada da sabedoria e bondade divinas. Aproxima-se da concepção da magia de que existem forças físicas e espirituais direcionadas contra a vida humana de maneira determinista à revelia do próprio Deus e diante da qual temos que nos defender.


Por isso, temos que conhecê-las e precaver-nos delas. O melhor remédio para tal deficiência religiosa é crer no Deus criador e salvador, entregando-se a Ele como a quem quer, de fato, exclusivamente nosso bem. Mesmo nos infortúnios, sabemos que Ele está ao nosso lado. Esta é a mais confortante certeza.


4. Neopaganismo


Interessa-nos refletir sobre um fenômeno novo que se estende cada vez mais nesse fim de milênio. Não se trata aqui do sentido bíblico-cristão de pagão, a saber: todos os povos que não fazem parte da Aliança judaica (Antigo Testamento) ou que não foram alcançados pela pregação cristã (Cristianismo). Numa palavra, todos os povos que não pertencem a nenhuma das três religiões monoteístas: Cristianismo, Judaísmo e Islamismo.


Neopaganismo emerge como uma religião pós-cristã, praticada por antigos batizados no Cristianismo mas que defendem valores religiosos em contraste com a Revelação bíblica, remontando às religiões pagãs da Antigüidade ou a outras formas existentes atualmente não tocadas pelo cristianismo.


Tal surto neopagão só se entende no atual contexto por causa de suas aspirações religiosas em contraste com as opções históricas do Cristianismo. Há um cansaço com a ideologia capitalista do consumo que transformou o ser humano num ser de necessidade, cuja realização se encontra no jogo do máximo de produtividade para usufruir também grandemente dos bens materiais. Produziu-se uma degradação do desejo humano, sendo ele transformado em necessidade de possuir e aproveitar dos produtos do sistema. Nesse contexto, entende-se a vaga neopagã. Cansadas de tanto materialismo, as pessoas vão à cata de manifestações espirituais.



O neopaganismo reage negativamente à ação histórica do Cristianismo, julgando que ele destruiu as raízes mais profundas das culturas dos povos primitivos. Por causa dessa influência nefasta do Cristianismo, eles perderam sua “inocência” primeira. Mais: o Cristianismo se impôs como uma única religião, como uma moral. Pelo seu igualitarismo destruiu energias e o gosto da vida. Estabeleceu rígido corte entre Deus e o mundo, introduzindo um dualismo pernicioso.



Os neopagãos apontam, como superação do Cristianismo, o retorno às formas religiosas anteriores à presença do Cristianismo no Ocidente. Então vigoravam a tolerância religiosa, a diversidade de caminho religioso e moral, a pluralidade de deuses em enorme riqueza, respondendo à multiplicidade das aspirações sublimadas dos humanos.


Tal movimento neopagão vem ao encontro do desejo religioso presente que se exprime na busca de uma religião que seja consolo, prazer, realização de si, desenvolvimento das potencialidades humanas, especialmente pelo alargamento da consciência. O neopaganismo crê que assim se corrigem as deformações causadas pela tradição judaico-cristã.


No contexto europeu, esse movimento ressuscita formas religiosas indo-européias. Na nossa realidade latino-americana, assistimos ao aparecimento de novas expressões religiosas sincréticas que se inspiram em ritos sagrados xamânicos, indígenas, africanos. No fundo, respondem aos anseios e desejos de uma religião que seja mais sentimento, experiência, liturgia do que fé, doutrina, moral.
Mais sutil ainda é o pulular de formas neopagãs secularizadas.


O aspecto cúltico e sagrado se camufla sob as mais diversas expressões, umas moderadas, outras já exaltadas. No centro, está a aspiração fundamental à harmonia consigo, com a natureza, com os outros. Ora se desenvolve um cultivo esmerado do corpo-espírito com técnicas físicas e psico-espirituais, com hidromassagens e meditação transcendental, com exercícios de respiração e de alargamento da consciência.


Ora as pessoas se entregam a exaltações ecológicas com celebrações da natureza, vestida de qualidades divinas. Nesses casos, o Transcendente perde sua identidade própria para diluir-se no criado, sacralizando-o, seja de maneira camuflada, seja mesmo de modo ostensivo.



Talvez seja uma das correntes religiosas mais refratária e difícil de ser respondida desde o ponto de vista de Deus. Pois, ela precisamente contrapõe-se diretamente ao judaísmo-cristianismo como o malfeitor da cultura ocidental. O Deus que cria, que transcende infinitamente ao mundo, que é mistério Absoluto, está sob terrível suspeita. O neopaganismo coloca-se na margem oposta do monismo, enquanto o Deus de Israel, o Deus Pai de Jesus Cristo, o Deus da Trindade não se deixa diluir em nenhuma criatura.



No entanto, uma reflexão mais profunda, tanto da criação como do chamado de Deus Pai a todas as pessoas a uma comunhão de amor com Ele, pode oferecer uma nova compreensão da radical dualidade - Deus e criatura -, sem sucumbir ao dualismo, combatido com justeza, pelo neopaganismo.



À medida que vamos excluindo os caminhos impérvios para acercar-nos de Deus, adquirimos também uma melhor intelecção desse mistério infinito. Sempre continuará válida a afirmação de Paulo de que “no presente vemos por um espelho e obscuramente”. E só na vida eterna “veremos face a face.

No presente conheço só em parte; então conhecerei como sou conhecido” (1 Cor 13, 12). A pretensão de possuir o divino, de identificar-se com Ele na vida presente revela um desejo profundo do ser humano.


No entanto, na terra a experiência de Deus será sempre mediada por criaturas enquanto nos está reservado um Encontro definitivo com Ele na transparência da vida eterna.


Fonte: www.jblibanio.com.br/modules/smartsection/item.php?itemid=31
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Neste Apostolado promovemos a “EVANGELIZAÇÃO ANÔNIMA", pois neste serviço somos apenas o Jumentinho que leva Jesus e sua verdade aos Povos. Portanto toda honra e Glória é para Ele.Cristo disse-nos:Eu sou o caminho, a verdade e a vida e “ NINGUEM” vem ao Pai senão por mim." ( João, 14, 6).Como Católicos,defendemos a verdade, contra os erros que, de fato, são sempre contra Deus.Cristo não tinha opiniões, tinha verdades, a qual confiou a sua Igreja, ( Coluna e sustentáculo da verdade – Conf. I Tim 3,15) que deve zelar por elas até que Cristo volte.Quem nos acusa de falta de caridade mostra sua total ignorância na Bíblia,e de Deus, pois é amor, e quem ama corrige, e a verdade é um exercício da caridade.Este Deus adocicado,meloso,ingênuo, e sentimentalóide,é invenção dos homens tementes da verdade, não é o Deus revelado por seu filho: Jesus Cristo.Por fim: “Não se opor ao erro é aprová-lo, não defender a verdade é nega-la” - ( Sto. Tomáz de Aquino)

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