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Pode haver Salvação fora da fé Cristã? A doutrina da "Ignorância Invencível" e o alcance universal da Graça

Written By Beraká - o blog da família on domingo, 1 de dezembro de 2013 | 22:29




por *Francisco José Barros de Araújo 









A expressão Ignorância Invencível costuma provocar estranhamento e até reações defensivas entre muitos fiéis, sobretudo quando, de forma meramente analógica, é chamada de “oitavo sacramento”. Evidentemente, a Igreja não reconhece um oitavo sacramento, nem dilui a centralidade da fé explícita, do Batismo e da pertença visível ao Corpo de Cristo. Trata-se, antes, de uma tentativa pedagógica de exprimir uma verdade profunda da teologia da salvação: Deus não está limitado aos sacramentos, embora tenha querido ordinariamente salvar por meio deles. 




A ignorância invencível não é um “atalho espiritual”, mas uma categoria moral e teológica que protege, ao mesmo tempo, a justiça e a misericórdia divinas.  Existem na Igreja dois princípios fundamentais para a correta compreensão da ignorância invencível.  



1) O primeiro princípio é que Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (cf. 1Tm 2,4). Esse “conhecer”, no sentido bíblico e paulino, não se reduz a um dado intelectual ou informativo, mas significa aderir, acolher e conformar a própria vida ao Senhor. A salvação, portanto, não é fruto de uma prova teórica de catecismo, mas de uma resposta sincera da consciência à graça que Deus oferece a cada ser humano segundo as circunstâncias concretas de sua vida.  



2) O segundo princípio é histórico, missionário e realista: o Evangelho ainda não chegou plenamente a todos os povos, nem conquistou todos os corações. Seja porque não chegou materialmente a determinados lugares e culturas, seja porque, mesmo chegando, pode ter sido apresentado de forma distorcida, escandalosa ou inadequada, dificultando sua acolhida. Nesses casos, a recusa formal do cristianismo não implica necessariamente culpa subjetiva. 











A Igreja sempre distinguiu, com grande prudência, entre o erro objetivo e a responsabilidade pessoal diante desse erro.  Sobre esse ponto, ensina a teóloga Ilaria Morali, professora da Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e especialista no tema da graça: “A doutrina cristã da salvação é muito clara”. Deus oferece sua graça a todos, e essa graça pode agir de modos extraordinários, quando os meios ordinários não estão disponíveis por motivos que escapam à responsabilidade do sujeito. A ignorância invencível, portanto, não salva por si mesma, mas retira o obstáculo da culpa, permitindo que a graça opere segundo os desígnios de Deus.






Para explicá-la, recorreria a dois textos do Magistério:





1)-O primeiro é um discurso de Pio IX com ocasião do consistório que aconteceu em 8 de dezembro de 1854, por ocasião da solene proclamação do dogma da Imaculada Conceição. O Papa disse que: “Os que ignoram a verdadeira religião, quando sua ignorância é invencível, não são culpados deste fato ante os olhos de Deus.”












2)- Anos depois quis retomar este ensinamento declarando o sentido da ignorância invencível na carta encíclica «Quanto conficiamur moerore», de 1863.É sabido que escreveu: “Os que observam com zelo a lei natural e seus preceitos esculpidos por Deus no coração de todo homem podem alcançar a vida eterna se estão dispostos a obedecer a Deus e se conduzem numa vida reta...” (conf. Rom.2,6-15).






Pio IX voltou a propor uma convicção consolidada já há séculos na teologia cristã:






“Há homens e mulheres que, por várias razões, seja por condicionamentos culturais, seja por uma experiência, ou um contato negativo com a fé cristã, não chegam ao consentimento da fé.”















Ainda que pareça que estas pessoas rejeitem conscientemente a Cristo, não se pode emitir um juízo inquestionável sobre esta rejeição.Ignorância invencível indica precisamente uma condição de falta de conhecimento com respeito a Cristo, à Igreja, à fé, falta de conhecimento que, pelo momento, não pode ser superado com um ato de vontade.A pessoa está bloqueada, como impossibilitada para chegar ao «sim» da fé.Como experimentamos todos os dias entre nossos conhecidos, as razões pelas quais muitas pessoas dizem não a Cristo são múltiplas: Uma desilusão, uma traição, uma má catequese, um condicionamento cultural e social, etc.






Pio IX mesmo admitiu a "dificuldade de delimitar os casos de ignorância invencível", perguntando-se:





«Quem terá o poder de determinar os limites dessa ignorância segundo a índole e a variedade dos povos, das regiões, dos espíritos e de tantos outros elementos? »











Pio IX ensina-nos, pois, uma grande prudência e um grande respeito por quem não tem o dom da fé em Cristo:





1)- Não somos capazes de compreender plenamente as razões de uma rejeição da fé, nem podemos saber com certeza, quem aparentemente parece que não ter fé, na realidade, muitos tem apenas uma forma muito imperfeita de fé, que Deus pode aproveitar e leva-los a salvação.





2)- Para nós, cristãos batizados é bom recordar que nosso batismo não é uma garantia automática de salvação. Se assim fosse, o esforço por conduzir uma vida cristã seria inútil.Cada cristão deve esforçar-se por merecer esta salvação com uma vida de fidelidade a Deus, de caridade para com os irmãos, de boas obras. Contudo, ninguém pode estar seguro da própria salvação, porque só Deus tem o poder de concedê-la.”





"Fora da Igreja não há salvação" é uma afirmação ministerial da Igreja, porém "não se deve entende-la de forma absoluta, mas relativa!"













Entretanto, significaria isso que uma pessoa que não tivesse tido a possibilidade material de conhecer a existência da Igreja, por exemplo, um índio da América, antes da chegada dos europeus, não tinha possibilidade alguma de salvar-se?É claro que afirmar a impossibilidade de salvação desse índio seria atribuir a Deus uma injustiça!Esse índio, como todos os que não tivessem nenhuma possibilidade material de conhecer a Igreja, poderiam, sim, salvar-se, pois estavam em situação de ignorância invencível.






Por ignorância invencível entende-se, como se depreende desses mesmos termos:





“Uma condição em que a pessoa não tenha absolutamente nenhuma possibilidade de fazer qualquer coisa para conhecer e aderir a algo, no caso, a Cristo e a  Igreja Católica.”





Uma pessoa em situação de ignorância invencível com respeito à Igreja Católica pode salvar-se se respeitar a lei natural, que Deus inscreveu no coração de todo homem.Essa obediência à lei de Deus colocada na natureza possibilita a salvação dessa pessoa.






“Se ela não pertence ao corpo visível da Igreja, ela pertence, porém, à alma da Igreja, por um desejo, pelo menos implícito, de receber o batismo. Ela tem o chamado "Batismo de desejo".






Foi o que ensinou o Concílio de Trento:





"Depois da promulgação do Evangelho, não pode dar-se [a justificação do ímpio] sem o lavatório da regeneração [Cânon 5, sobre o Batismo] ou por seu desejo, conforme está escrito: "Se alguém não tiver renascido pela água e pelo Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus"( Jo. VIII, 5) ( Denzinger, 796).





Portanto, o Concílio de Trento ensinou infalivelmente que existe o batismo de desejo!





Esse batismo de desejo, que, como dissemos, é o de uma pessoa que pratica a lei de Deus como está inscrita na natureza, não tem necessidade de ser explícito. Aliás, não poderia ser de outro modo, naturalmente, pois a pessoa em estado de ignorância invencível não pode conhecer que existe o sacramento do Batismo.Conclui-se, pois, que uma pessoa em estado de ignorância invencível pode possuir o batismo de desejo, ainda que simplesmente implícito, e, por esse batismo de desejo, ela pertence à alma da Igreja, embora não a seu corpo visível, e pode se salvar. Deste modo, o dogma que ensina que "fora da Igreja não há salvação" continua firme e válido, pois a pessoa em ignorância invencível, e que obedece à lei natural, pertence, de fato, à alma da Igreja.






Por isso, o Papa Pio IX, depois de reafirmar o dogma de que:





"Fora da Igreja não há salvação, ressalvou na Alocução "Singulari Quadam", de 1854, que deve ser entendido que não têm salvação apenas os que estão fora da Igreja por alguma culpa própria.






Ensinou Pio IX:





"Com efeito, pela fé há de sustentar-se que fora da Igreja Apostólica Romana ninguém pode salvar-se; que esta é a única arca da salvação, que quem nela não tiver entrado, perecerá como no dilúvio. Entretanto, também, é preciso ter por certo que aqueles que sofrem de ignorância da verdadeira religião, se aquela [ignorância] é invencível, não são eles ante os olhos do Senhor réus por isso de culpa alguma. Ora pois, quem será tão arrogante que seja capaz de assinalar os limites desta ignorância, conforme a razão e a variedade de povos, regiões, caracteres e de tantas outras e tão numerosas circunstâncias?" (Pio IX, Alocução Singulari Quadam, 1854, Denzinger, 1647). 




Pio IX confirmou a mesma doutrina na Encíclica Quanto Confficiamur Moerore de 10-VIII-1863 - Condenando o liberalismo, e defendendo a tese de que há salvação fora da Igreja, em oposição ao rigorismo jansenista, que não admitia que Deus concedesse qualquer graça capaz de salvar fora da Igreja, e que recusava o batismo de desejo.





Sobre isso ensinou Pio IX novamente:





"E aqui, queridos Filhos e Veneráveis Irmãos, é preciso recordar e repreender novamente o gravíssimo erro em que se acham miseravelmente alguns católicos, ao opinar que homens que vivem no erro e alheios à verdadeira fé e à unidade da católica possam chegar à eterna salvação. O que certamente se opõe em sumo grau à doutrina católica. Coisa notória é para Nós e para Vós que aqueles que sofrem de ignorância invencível acerca de nossa santíssima religião, que cuidadosamente guardam a lei natural e seus preceitos, esculpidos por Deus nos corações de todos e que estão dispostos a obedecer a Deus e levam vida honesta e reta, podem conseguir a vida eterna, pela operação da virtude da luz divina e da graça; pois Deus, que manifestamente vê, esquadrinha e sabe a mente, ânimo, pensamentos e costumes de todos, não consente, de modo algum, conforme sua suma bondade e clemência, que ninguém seja castigado com eternos suplícios, se não é réu de culpa voluntária. Porém, bem conhecido é também o dogma católico, a saber, que ninguém pode salvar-se fora da Igreja Católica, e que os contumazes contra a autoridade e definições da mesma Igreja, e os pertinazmente divididos da unidade da mesma Igreja e do Romano Pontífice, sucessor de Pedro, 'a quem foi encomendada pelo Salvador a guarda da vinha', não podem alcançar a eterna salvação" (Pio IX,Quanto Confficiamur Moerore, Denzinger, 1677).







Ainda no século XX, durante o pontificado de Pio XII, o Santo Ofício, ao ter que condenar os erros do Padre Leonard Feeney,negador da existência do batismo de desejo, reafirmou em carta ao Arcebispo de Boston, tanto o dogma de que "fora da Igreja não há salvação", como a legitimidade do chamado "batismo de desejo".







Ensinou o Santo Ofício, em 1949, nessa carta contra o Padre Feeney:






"Entre as coisas que a Igreja sempre pregou e nunca deixa de pregar, está contida aquela sentença infalível que nos ensina que "fora da Igreja não há salvação". Este dogma, entretanto, deve ser entendido no sentido em que a própria Igreja o entende. Nosso Senhor, de fato, não confiou a explicação das coisas contidas no depósito da fé aos julgamentos privados, mas sim ao magistério eclesiástico. E em primeiro lugar, a Igreja ensina que neste caso se trata de um rigorosíssimo preceito de Jesus Cristo. De fato, Ele mesmo disse explicitamente aos seus discípulos que ensinassem todos os povos a observar o que Ele havia ordenado. (cfr. Mt XXVIII, 19-20). Entre os mandamentos de Cristo, não tem menos valor aquele que nos ordena que os incorporemos, com o batismo, ao Corpo místico de Cristo, que é a Igreja, e a aderirmos a Cristo e ao seu Vigário, por meio de quem Ele mesmo governa na terra de modo visível a Igreja. Por isso, não se salvará aquele que, sabendo que a Igreja foi divinamente instituída por Cristo, não aceitar, mesmo assim, submeter-se à Igreja, ou recusar a obediência ao Pontífice Romano, Vigário de Cristo na terra.O Salvador, então, não só predispôs em um preceito que todos os povos deveriam aderir à Igreja, como chegou a estabelecer que a Igreja era o meio de salvação sem o qual ninguém poderia entrar no Reino da glória celeste. Daqueles meios para a salvação que só por instituição divina, e não por necessidade intrínseca, estão dirigidos para o fim último, Deus, na sua infinita misericórdia, quis que, em certas circunstâncias, seus efeitos, necessários para a salvação, pudessem ser obtidos também quando estes meios sejam ativados apenas pelo anseio ou pelo desejo. Isso vemos claramente enunciado no sagrado Concílio de Trento, quer em relação ao sacramento da regeneração, quer a respeito do sacramento da penitência. Nas devidas proporções, o mesmo deve ser dito com relação à Igreja, já que esta é um meio geral de salvação. Pois, para se obter a salvação, não se exige a incorporação real (reapse), como membro, à Igreja, mas é exigido, pelo menos, a adesão a esta pelo voto e o desejo (voto et desiderio). Não é necessário que este voto seja sempre explícito, como se exige dos catecúmenos. Se o homem sofre de ignorância invencível, Deus aceita um voto implícito, assim chamado porque contido naquela boa disposição da alma com a qual o homem quer a sua vontade conforme à vontade de Deus. Estas coisas são claramente ensinadas na [encíclica de Pio XII Mystici Corporis Christi] em relação ao Corpo Místico de Jesus Cristo [...] Quase no final desta encíclica [...] convidando à unidade, com o espírito cheio de amor, aqueles que não pertencem à estrutura da Igreja Católica [o Sumo Pontífice] recorda aqueles que, por anseio ou desejo inconsciente, estão ordenados para o Corpo Místico do Redentor; não os exclui absolutamente da salvação eterna, mas, por outro lado, afirma que eles se encontram em um estado no qual nada pode assegurar-lhes a salvação [...] pois que são privados de muitos e grandes socorros e favores celestes que só podem ser desfrutados na Igreja católica. Com estas prudentes palavras, desaprova tanto aqueles que excluem da salvação eterna todos os que aderem à Igreja apenas com um voto implícito, como aqueles que defendem falsamente que os homens podem ser igualmente salvos em qualquer religião. E não se deve nem mesmo pensar que seja suficiente um desejo qualquer de aderir à Igreja para que o homem seja salvo. Exige-se, realmente, que o desejo mediante o qual alguém é ordenado à Igreja seja moldado pela perfeita caridade; e o voto implícito não poderá ter efeito se o homem não tiver a fé sobrenatural" (Carta do Santo Ofício ao Arcebispo de Boston, 1949. Denzinger, 3866 -3872).





Nesses vários documentos do Magistério Extraordinário e Ordinário da Igreja, fica patente a extrema Sabedoria infalivelmente divina com que os Papas ensinam os fiéis da Santa Igreja, evitando todos os excessos e erros, quer por laxismo liberal, quer por um rigorismo sem misericórdia, típico do jansenismo.






APROFUNDAMENTO TEOLÓGICO SOBRE As IGNORÂNCIAs:  VENCÍVEL E INVENCÍVEL






A ignorância é a falta de conhecimento devido. Como a privação ignorância é ruim para a inteligência. A ignorância pode ser vencível e invencível:






1)- Ignorância vencível: não completa e pode ficar de fora. Antes de agir deve deixar dúvidas. Se você não quer saber, não desculpa a ignorância da culpa, no entanto, pode agravar a culpa, como ignorância ou querido diretamente vagamente estragado. Embora a ignorância vencível alivia a culpa, permanece o dever de buscar a verdade, para agir conscientemente. A ignorância é superável quando você tem os meios suficientes para sair dela, quer sejam ou não obrigados a fazê-lo, já que não há obrigação de comprar o conhecimento do que é ignorado, e que o aviso de objetivamente existe. Esta ignorância é chamada crassa ou supina se não for aplicado quase todos os meios para eliminá-lo, especialmente quando se lida com pessoas cuja profissão é forçada sobre eles. É afetada, quando realizada em finalidade; quer positiva quer fomentar embolsando saber o que pedir para permanecer firme realizando algum mau propósito, que a vontade podia recusar se propor a compreensão da verdadeira condição de coisas. A ignorância é simplesmente grave, quando, sem ser grosseiro, ainda mantém grande risco conscientemente cometer desordens morais notáveis ​​por sua causa. E então, assim como o crasso e os afetados podem temer as mesmas conseqüências, é pecado grave.







2)- Ignorância invencível: é completa e, portanto, não se reconhece  ignorada e por esta razão é insuperável. Precede a ação e conhecimento suficiente para prevenir, destruir ou responsabilidade voluntária. Denomina ignorância invencível, quando não pode ser superada física ou moralmente, ou seja, incapacidade absoluta, como em crianças e os loucos, ou sobre a deficiência, e os adultos em uma dada situação não tem os meios para sai-lo. Esta ignorância vem, portanto, de uma causa involuntária, ou que não tenham vindo a perceber, sem negligência culposa, quando era hora de ser capaz de informar, em seguida, descobriu que era impossível sair deste estado. Entendemos que pode haver uma ignorância invencível sim, mas que pode ser batida na causa, quando no momento de fazer que não pode ser ultrapassado, mas pode e deve evitar que a situação antes, quando era conhecido, pelo menos, de forma desordenada, dever de fazê-lo.





Princípios morais gerais:





1)- A Ignorância priva o ato (em si mesmo ou aspecto ignorado ou despercebido do ato) têm moralidade formal por objeto ou por as mesmas circunstâncias desconhecidas em si ou em relação a este assunto, se conhecido como essas modalidades, quando o ato foi executado precisamente por causa do que a ignorância.












2)- Quando você vai executar algo por desconhecimento da história e entendimento, ou seja, não está pronto para ser executado se soubesse a verdadeira realidade, que ele faz é estritamente não-intencional. A Igreja condenou a proposição jansenista que:"mesmo se a ignorância invencível da lei natural no estado de natureza decaída do pecado não é desculpa faz formais atos pecaminosos" (Denz.Sch. 2302).






3)- Educadores tem que colocar um grande esforço para aumentar a consciência do dever de todo homem de procurar a verdade e saber a ordem certa da moral, aplicando-se diligentemente para adquirir o conhecimento necessário para o cumprimento dos deveres naturais (profissional, social, etc .), aquelas feitas pelo batismo ou casamento, e, em geral, para qualquer compromisso pessoal. 





A IGNORÂNCIA INVENCIVEL E MaGISTÉRIO DA IGRREJA PÓS VATICANO II

 

 



I   -      Ignorância afetada

 

 

 

1793. Se, pelo contrário, a ignorância é invencível, ou o juízo erróneo sem responsabilidade do sujeito moral, o mal cometido pela pessoa não pode ser-lhe imputado. Mas nem por isso deixa de ser um mal, uma privação, uma desordem. É preciso trabalhar, portanto, para corrigir dos seus erros a consciência moral.

 

 

 

1794. A consciência boa e pura é iluminada pela fé verdadeira. Porque a caridade procede, ao mesmo tempo, «dum coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera» (1 Tim 1, 5) (58).Quanto mais prevalecer a reta consciência, tanto mais as pessoas e os grupos estarão longe da arbitrariedade cega e procurarão conformar-se com as normas objetivas da moralidade”.

 

 

1733. Quanto mais o homem fizer o bem, mais livre se torna. Não há verdadeira liberdade senão no serviço do bem e da justiça. A opção pela desobediência e pelo mal é um abuso da liberdade e conduz à escravidão do pecado.

 

 

 

1734. A liberdade torna o homem responsável pelos seus atos, na medida em que são voluntários. O progresso na virtude, o conhecimento do bem e a ascese aumentam o domínio da vontade sobre os próprios atos.

 

 

1735. A imputabilidade e responsabilidade dum ato podem ser diminuídas, e até anuladas, pela ignorância, a inadvertência, a violência, o medo, os hábitos, as afeições desordenadas e outros fatores psíquicos ou sociais.

 

 

 

1736. Todo o ato diretamente querido é imputável ao seu autor. Assim, depois do pecado no paraíso, o Senhor pergunta a Adão: «Que fizeste'?» (Gn 3, 13). O mesmo faz a Caim. Assim também o profeta Natan ao rei David, após o adultério com a mulher de Urias e o assassinato deste. Uma ação pode ser indiretamente voluntária, quando resulta duma negligência relativa ao que se deveria ter conhecido ou feito, por exemplo, um acidente de trânsito, provocado por ignorância ao código rodoviário.

 

 

§1859. O pecado mortal requer pleno conhecimento e pleno consentimento. Pressupõe o conhecimento do caráter pecaminoso do ato, de sua oposição à lei de Deus. Envolve também um consentimento suficientemente deliberado para ser uma escolha pessoal. A ignorância afetada e o endurecimento do coração não diminuem, antes aumentam, o caráter voluntário do pecado.

 

 

 

II- Ignorância da consciência acostumada ao pecado

 

 

 

§1790. O juízo errôneo O ser humano deve sempre obedecer ao juízo certo de sua consciência. Se agisse deliberadamente contra este último, estaria condenando a si mesmo. Mas pode acontecer que a consciência moral esteja na ignorância e faça juízos errôneos sobre atos a praticar ou já praticados.

 

 

 

§1791 Muitas vezes esta ignorância pode ser imputada à responsabilidade pessoal. É o que acontece "quando o homem não se preocupa suficientemente com a procura da verdade e do bem, e a consciência pouco a pouco, pelo hábito do pecado, se torna quase obcecada". Neste caso, a pessoa é culpável pelo mal que comete.

 

 

 

§1793. Se - ao contrário - a ignorância for invencível ou o julgamento errôneo não for da responsabilidade do sujeito moral, o mal cometido pela pessoa não lhe poderá ser imputado. Mas nem por isso deixa de ser um mal, uma privação, uma desordem. É preciso trabalhar, pois, para corrigir a consciência moral de seus erros.

 

 

 

III- Ignorância da Sagrada Escritura

 

 

 

§133 A Igreja exorta com veemência e de modo peculiar todos os fiéis cristãos a que, pela freqüente leitura das divinas Escrituras, aprendam “a eminente ciência de Jesus Cristo” (Fl 3,8). Com efeito, ignorar as Escrituras é ignorar Cristo.

 

 



IV - Ignorância de Deus

 

 

§2087. Nossa vida moral encontra sua fonte na fé em Deus, que nos revela seu amor - S. Paulo fala da "obediência da fé" como da primeira obrigação. Ele vê no "desconhecimento de Deus" o princípio e a explicação de todos os desvios morais. Nosso dever em relação a Deus consiste em crer nele e em dar testemunho dele.

 

 

 

V - Ignorância involuntária

 

 

 

§1860 A ignorância involuntária pode diminuir ou até escusar a imputabilidade de uma falta grave, mas supõe-se que ninguém ignora os princípios da lei moral inscritos na consciência de todo ser humano. Os impulsos da sensibilidade, as paixões podem igualmente reduzir o caráter voluntário e livre da falta, como também pressões exteriores e perturbações patológicas. O pecado por malícia, por opção deliberada do mal, é o mais grave.

 

 

 

VI - Responsabilidade e ignorância

 

 

 

§1735 A imputabilidade e a responsabilidade de uma ação podem ficar diminuídas ou suprimidas pela ignorância, inadvertência, violência, medo, hábitos, afeições imoderadas e outros fatores psíquicos ou sociais.

 

 

 

1737. Um efeito pode ser tolerado, sem ter sido querido pelo agente, por exemplo, o esgotamento duma mãe à cabeceira do seu filho doente. O efeito mau não é imputável se não tiver sido querido nem como fim nem como meio do ato, como a morte sofrida quando se levava socorro a uma pessoa em perigo. Para que o efeito mau seja imputável, é necessário que seja previsível e que aquele que age tenha a possibilidade de o evitar como, por exemplo, no caso dum homicídio cometido por um condutor em estado de embriaguez.

 

 

 

1738. A liberdade exercita-se nas relações entre seres humanos. Toda a pessoa humana, criada à imagem de Deus, tem o direito natural de ser reconhecida como ser livre e responsável. Todos devem a todos este dever do respeito. O direito ao exercício da liberdade é uma exigência inseparável da dignidade da pessoa humana, nomeadamente em matéria moral e religiosa. Este direito deve ser civilmente reconhecido e protegido dentro dos limites do bem comum e da ordem pública.

 



CONCLUSÃO




A doutrina da ignorância invencível encontra em Romanos 2,12-29 um de seus fundamentos bíblicos mais sólidos e frequentemente mal compreendidos. O apóstolo Paulo estabelece ali um princípio decisivo: 


Deus julga cada homem segundo a luz que recebeu. Aqueles que pecaram “sem lei” não serão julgados como se a tivessem recebido; e aqueles que pecaram “sob a lei” serão julgados com maior rigor. O critério último não é a posse formal da lei, mas a resposta concreta da consciência à verdade conhecida. Com isso, Paulo não relativiza a Revelação, mas denuncia a ilusão religiosa que confunde privilégio espiritual com justiça diante de Deus.  Quando o apóstolo afirma que os gentios, “não tendo lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei”, ele reconhece a existência de uma lei moral inscrita no coração humano, cuja origem é divina e cuja mediação é a consciência. Essa lei interior não salva automaticamente, mas torna o homem responsável pela resposta que dá ao bem e ao mal que conhece. 



É precisamente nesse horizonte que se compreende a ignorância invencível: não como dispensa da verdade revelada, mas como ausência não culpável do conhecimento explícito dela, diante da qual Deus julga segundo a fidelidade interior à graça oferecida.  Paulo vai ainda mais longe ao advertir os que se gloriam da Lei e dos sinais exteriores da Aliança. A circuncisão, símbolo máximo da pertença ao povo eleito, perde seu valor quando dissociada da obediência concreta à vontade de Deus. “Não é judeu o que o é exteriormente”, diz o apóstolo, mas aquele que o é “no interior, com a circuncisão do coração”. Aqui se manifesta um princípio decisivo para a teologia da salvação: os sinais visíveis são dons preciosos, mas não operam magicamente; exigem correspondência interior. O privilégio sacramental, quando desacompanhado de conversão, não se transforma em garantia automática de salvação.  



À luz desse ensinamento paulino, compreende-se que a ignorância invencível não contradiz a necessidade da fé, da Igreja e dos sacramentos, mas denuncia toda forma de confiança presunçosa em pertenças exteriores desacompanhadas de vida moral coerente. Deus não absolve o erro enquanto erro, mas pode acolher o pecador que, sem culpa própria, não conheceu plenamente a verdade e, ainda assim, buscou sinceramente o bem, respondendo à graça segundo a luz que possuía. O juízo, como afirma Paulo, será feito “por Jesus Cristo”, que sonda os segredos dos corações e conhece as intenções mais profundas que escapam ao olhar humano.  



Por fim, Romanos 2 recorda à Igreja e aos fiéis uma verdade sempre atual: maior luz implica maior responsabilidade. Se os que receberam menos serão julgados com misericórdia proporcional à sua ignorância não culpável, os que receberam mais — a Revelação, os sacramentos, a instrução da fé — serão julgados com maior rigor. Assim, a doutrina da ignorância invencível, longe de ser um consolo fácil para os que estão fora, torna-se um sério exame de consciência para os que estão dentro. Ela reafirma que a salvação é dom gratuito da graça, mas também que essa graça exige verdade, conversão e coerência de vida, pois “o louvor que conta não vem dos homens, mas de Deus”. 



Ao mesmo tempo, essa doutrina em nada impede — antes, fundamenta corretamente — o anúncio missionário de Cristo a todos os povos, já que à Igreja compete anunciar fielmente o Evangelho, chamar à conversão e oferecer os meios ordinários da salvação. A conversão, porém, é sempre obra da graça divina, que age no tempo, nas disposições interiores e nos contextos concretos de cada pessoa, segundo os desígnios da Providência. 



O missionário anuncia; O Santo Espírito de Deus é quem converte. Por isso, o reconhecimento da ignorância invencível não relativiza a missão, mas purifica-a de toda pretensão de controle sobre os frutos, recordando que a eficácia salvífica pertence a Deus e não ao êxito visível da ação humana.Conclui-se, portanto, que o princípio teológico segundo o qual aqueles que não são cristãos não pertencem ao corpo visível da Igreja, mas podem, pela graça, estar ligados à sua alma — que é o Espírito Santo — não surge como inovação moderna nem como relativização da fé cristã, mas como um desenvolvimento orgânico da tradição católica. 



Suas raízes remontam a Santo Agostinho, que já distinguia entre a pertença meramente exterior e a pertença verdadeira fundada na caridade, afirmando que nem todos os que estão visivelmente na Igreja vivem de seu princípio vital, assim como alguns, fora de seus limites visíveis, podem ser interiormente animados pela graça. Essa intuição é aprofundada por São Tomás de Aquino, ao ensinar que pode haver união à Igreja “em voto”, isto é, pelo desejo implícito ou explícito de cumprir a vontade de Deus, participando da graça santificante mesmo sem a incorporação sacramental. Tal doutrina encontra sua formulação magisterial mais precisa na encíclica Mystici Corporis Christi de Pio XII, que afirma com clareza a distinção entre o corpo visível da Igreja e sua alma invisível, o Espírito Santo, reconhecendo a ação deste além das fronteiras institucionais sem jamais negar que a plena pertença exige fé, sacramentos e submissão ao legítimo governo. 



O Concílio Vaticano II, especialmente na Lumen Gentium, retoma esse ensinamento em chave pastoral, afirmando que aqueles que, sem culpa própria, ignoram o Evangelho, mas buscam sinceramente a verdade e seguem a consciência sob a moção da graça, estão ordenados ao Povo de Deus. Assim, longe de enfraquecer o mandato missionário ou a unicidade salvífica de Cristo e da Igreja, essa doutrina reforça a centralidade da graça e do Espírito Santo, afirmando que toda salvação procede de Cristo e tende, por sua própria natureza, à plena comunhão visível com a Igreja, que permanece o sacramento universal da salvação.




*Francisco José Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº  003/17 - Perfil curricular no sistema Lattes do CNPq Nº 1912382878452130.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 



-BÍBLIA SAGRADA. Tradução da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. São Paulo: Paulinas, 2002.(Referências principais: Rm 2,12-29; Jo 3,5; Mt 28,19-20; 1Tm 2,4)


-CONCÍLIO DE TRENTO. Decretos sobre a Justificação e sobre os Sacramentos. In: DENZINGER, Heinrich; HÜNERMANN, Peter. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. São Paulo: Paulinas; Loyola, 2007.


-CONCÍLIO VATICANO II. Nostra Aetate. Declaração sobre as relações da Igreja com as religiões não cristãs. São Paulo: Paulinas, 2001.


-CONCÍLIO VATICANO II. Lumen Gentium. Constituição dogmática sobre a Igreja. São Paulo: Paulinas, 2001.


-IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2000.(Especialmente §§ 133; 1733-1738; 1790-1794; 1859-1860; 2087)


-PIO IX, Papa. Singulari Quadam. Alocução ao Consistório, 9 dez. 1854. In: DENZINGER; HÜNERMANN, Compêndio dos símbolos da fé. São Paulo: Paulinas; Loyola, 2007.


-PIO IX, Papa. Quanto Conficiamur Moerore. Carta encíclica, 10 ago. 1863. In: DENZINGER; HÜNERMANN. Compêndio dos símbolos da fé. São Paulo: Paulinas; Loyola, 2007.


-PIO XII, Papa. Mystici Corporis Christi. Carta encíclica sobre o Corpo Místico de Cristo. São Paulo: Paulinas, 1957.


-SANTO OFÍCIO. Carta ao Arcebispo de Boston (Caso Leonard Feeney). 8 ago. 1949. In: DENZINGER; HÜNERMANN. Compêndio dos símbolos da fé. São Paulo: Paulinas; Loyola, 2007.


-AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Tradução brasileira. São Paulo: Loyola, 2001. (I-II, qq. 6-19; qq. 76-77 – ignorância, voluntariedade e imputabilidade moral)


-OTT, Ludwig. Manual de Teologia Dogmática. Petrópolis: Vozes, 2004. (Capítulos sobre salvação, graça e pertença à Igreja)


-GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. A Providência e a Confiança em Deus. São Paulo: Loyola, 2008. (Graça suficiente, graça eficaz e ignorância invencível)


-RATZINGER, Joseph (BENTO XVI). Introdução ao Cristianismo. São Paulo: Loyola, 2005. (Consciência, fé implícita e verdade objetiva)


-DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja de Cristo. São Paulo: Quadrante, 2007. (História doutrinal do “extra Ecclesiam nulla salus”)


-PINCKAERS, Servais. As Fontes da Moral Cristã. São Paulo: Loyola, 2003. (Lei natural, consciência e imputabilidade moral)


 

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CIDADÃO DO MUNDO, NORDESTINO COM ORGULHO, Brazil
Blog formativo e apologético inspirado em 1Pd 3,15. Aqui você não vai encontrar matérias sentimentalóides para suprir carências afetivas, mas sim formações seguras, baseadas no tripé da Igreja, que deem firmeza à sua caminhada cristã rumo à libertação integral e à sua salvação. Somos apenas o jumentinho que leva Cristo e sua verdade aos povos, proclamando que Ele é “o caminho, a verdade e a vida” (João 14,6), e que sua Igreja é a coluna e o sustentáculo da verdade (1Tm 3,15). Nossa Missão: promover a educação integral da pessoa, unindo fé, razão e cultura; fortalecer famílias e comunidades por meio da formação espiritual e intelectual; proclamar a verdade revelada por Cristo e confiada à Igreja, mostrando que fé e razão caminham juntas, em defesa da verdade contra ideologias que nos afastam de Deus. Rejeitamos um “deus” meramente sentimental e anunciamos o Deus verdadeiro revelado em Jesus Cristo: Misericordioso e Justo o qual ama o pecador, mas odeia o pecado que destrói seus filhos. Nosso lema é o do salmista: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome daí glória” (Sl 115,1).

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