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A Pobreza : Por que este paradoxo ? Amor e rejeição ?

Written By Beraká - o blog da família on sábado, 1 de outubro de 2011 | 14:19


«BEM-AVENTURADOS OS QUE AGORA SENTEM FOME,  PORQUE SERÃO SACIADOS»

No paralelo com Santo Agostinho podemos despertar para a pobreza dizendo: “ Oh pobreza tão antiga e tão nova, tarde te amei, estavas tão próxima a mim e eu tão longe de ti...”


Terceira Pregação da Quaresma à Casa Pontifícia
1.História e Espírito
A investigação sobre o Jesus histórico, hoje tão em auge -- tanto a feita por estudiosos crentes como a radical dos não-crentes -- esconde um grave perigo: o de induzir a crer que só o que, por esta nova via, se possa remontar ao Jesus terreno é «autêntico», enquanto que todo o demais seria não-histórico e, portanto, não «autêntico».
Isso significaria limitar indevidamente só à história os meios que Deus tem à disposição para revelar-se. Significaria abandonar tacitamente a verdade de fé da inspiração bíblica e, portanto, o caráter revelado das Escrituras. 

Parece que esta exigência de não limitar unicamente à história a investigação sobre o Novo Testamento começa a abrir caminho entre diversos estudos da Bíblia.

Em 2005, celebrou-se em Roma, no Instituto Bíblico, uma consulta sobre «Crítica canônica e interpretação teológica» («Canon Cristicism and Theological Interpretation»), com a participação de eminentes estudiosos do Novo Testamento. Tinha o objetivo de promover este aspecto da investigação bíblica que leva em consideração a dimensão canônica das Escrituras, integrando a investigação histórica com a dimensão teológica. 
De tudo isso deduzimos que «palavra de Deus» e, portanto, normativa para o crente, não é o hipotético «núcleo originário» diversamente reconstruído pelos historiadores, mas o que está escrito nos evangelhos. O resultado das investigações históricas deve ser levado enormemente em conta porque é o que deve orientar a compreensão também dos desenvolvimentos posteriores da tradição, mas a exclamação «Palavra da Salvação!» nós seguiremos pronunciando-a ao término da leitura do texto evangélico, não ao término da leitura do último livro sobre o Jesus histórico. 
As duas leituras, a histórica e a de fé, têm entre si um importante ponto de encontro. «Um evento é histórico -- escreveu um eminente estudioso do Novo Testamento -- quando aparecem nele dois requisitos: ‘aconteceu’ e também assumiu uma relevância significativa determinante para as pessoas que estiveram envolvidas nele e estabeleceram sua narração» [1].

Existem infinitos fatos realmente ocorridos que, no entanto, não pensamos em definir como «históricos», porque não deixaram marca alguma na história, não suscitaram nenhum interesse, nem fizeram nascer nada novo. «Histórico» não é, portanto, o descarnado fato de crônica, mas o fato mais o significado dele. 

Neste sentido, os evangelhos são «históricos» não só pelo que referem ter verdadeiramente ocorrido, mas pelo significado dos fatos que trazem à luz sob a inspiração do Espírito Santo.
Os evangelistas, e a comunidade apostólica antes deles, com seus adendos e destaques diversos, não fizeram senão evidenciar os diferentes significados ou implicações de uma determinada fala ou fato de Jesus. 
João se preocupa por fazer que se explique antecipadamente por Jesus mesmo este fato quando lhe atribui as palavras: «Muito tenho ainda por dizer-vos, mas agora não podeis com isso. Quando vier o Espírito da verdade, Ele vos guiará até a verdade completa; pois não falará por sua conta, mas falará o que ouvir e vos anunciará o que há de vir» (João 16, 12-13). 

Estas observações nos são de particular utilidade quando se trata do uso que é preciso fazer das bem-aventuranças evangélicas. É bem sabido que as bem-aventuranças nos chegaram em duas versões diferentes.

Mateus tem oito bem-aventuranças; Lucas só quatro, seguidas, no entanto, de outros tantos «ai» contrários.
Em Mateus, o discurso é indireto: «Bem-aventurados os pobres», «bem-aventurados os que têm fome»; em Lucas o discurso é direto: «bem aventurados vós, os pobres», «bem-aventurados os que tendes fome»; Lucas diz «pobres» e «famintos», Mateus pobres «de espírito» e famintos «de justiça». 
Depois de todo o trabalho crítico realizado para distinguir o que, nas bem-aventuranças, se remonta ao Jesus histórico e o que é próprio de Mateus e de Lucas, [2], a tarefa do crente de hoje não é a de escolher como autêntica uma das duas versões e deixar de lado a outra.
Trata-se mais de recolher a mensagem contida em uma e outra versão evangélica e -- segundo os casos e as necessidades de hoje -- avaliar, cada vez, uma ou outra perspectiva, como fez cada um dos dois evangelistas em seu tempo.
2. Quem são os famintos e quem são os saciados ?
Seguindo este princípio, refletimos hoje sobre a bem-aventurança dos famintos, partindo da versão de Lucas: «Bem-aventurados vós que agora sentis fome, porque sereis saciados».
Veremos, em um segundo momento, que a versão de Mateus, que fala de «fome de justiça», não se opõe à de Lucas, mas que a confirma e reforça.
Os que têm fome, na bem-aventurança de Lucas, não constituem uma categoria diferente dos pobres mencionados na primeira bem-aventurança. São os mesmos pobres considerados no aspecto mais dramático de sua condição, a falta de alimento.
Paralelamente, os «saciados» são os ricos que em sua prosperidade podem satisfazer não só a necessidade, mas também a vontade ao comer. É o próprio Jesus quem se preocupou em explicar quem são os saciados e quem são os que têm fome. E o fez com a parábola do rico e Lázaro (Lc 16, 19-31).
Também esta considera pobreza e riqueza sob a perspectiva da falta ou superabundância de alimento: o rico «celebra todos os dias esplêndidas festas»; o pobre «desejava fartar-se do que caia da mesa do rico». 
A parábola, contudo, não explica só quem são os famintos e quem são os saciados, mas também, e sobretudo, por quê os primeiros são declarados bem-aventurados e os segundos desventurados: «Um dia o pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado... no inferno entre tormentos». 
A riqueza e a saciedade tendem a encerrar o homem em um horizonte terreno porque «onde estiver teu tesouro, ali estará também teu coração» (Lc 12, 34); agravam o coração com a dissipação e a embriaguez, sufocando a semente da palavra (cf. Lc 21, 34); fazem o rico esquecer que na noite seguinte poderia pedir-lhe contas de sua vida (Lc 16, 19-31); tornam a entrada no Reino «mais difícil que para um camelo passar pelo buraco de uma agulha» (Lc 18, 25). 
O rico e os demais ricos do evangelho não são condenados pelo simples fato de serem ricos, mas pelo uso que fazem, ou não, de sua riqueza. Na parábola do rico, Jesus dá a entender que teria, para o rico, um caminho de saída, o de lembrar-se de Lázaro à sua porta e compartilhar com ele sua opulenta comida. 
O remédio, em outras palavras, é tornar-se «amigos dos pobres com as riquezas» (Lc 16, 9); o administrador infiel é elogiado por ter feito isso, ainda que em um contexto errado (Lc 16, 1-8). Mas a saciedade confunde o espírito e torna extremamente difícil ir por esta via; a história de Zaqueu mostra como é possível, mas também quão raro é. Daí o porquê do «ai» dirigido aos ricos e aos saciados; um «ai!», ao contrário, que é mais um «atenção!» que um «malditos!». 
3.Aos famintos cumulou de bens

Desde este ponto de vista, o melhor comentário à bem-aventurança dos pobres e dos que têm fome é o que diz Maria no Magnificat. 
«Ele realiza proezas com seu braço: dispersa os soberbos de coração,  derruba do trono os poderosos e eleva os humildes;  aos famintos enche de bens,  e despede os ricos de mãos vazias.» (Lc 1, 51-53). 

Com uma série de poderosos verbos, Maria descreve uma mudança radical de partes entre os homens: «Derrubou -- exaltou; saciou - despediu sem nada». Algo, portanto, já sucedido ou que sucede habitualmente na ação de Deus.
Contemplando a história, não parece que tenha havido uma revolução social pela qual os ricos, de um dia para o outro, tenham empobrecido e os famintos tenham sido saciados de alimento. Se, portanto, o que se esperava era uma mudança social e visível, houve um desmentido total por parte da história. 
A transformação aconteceu, mas na fé! O reino de Deus se manifestou e isso provocou uma silenciosa, mas radical revolução. O rico aparece como um homem que economizou uma ingente soma de dinheiro; à noite houve um golpe de estado com uma desvalorização de 100%; de manhã o rico se levanta, mas não sabe que é um pobre miserável.
Os pobres e os famintos, pelo contrário, estão em vantagem, porque estão mais dispostos a acolher a nova realidade, não temem a mudança; têm o coração preparado. 
São Tiago, dirigindo-se aos ricos, dizia: «Chorai e dai alaridos pelas desgraças que estão para cair sobre vós. Vossa riqueza está podre» (Tiago 5, 1-2).
Também aqui, nada testifica que em tempos de São Tiago os bens dos ricos apodreceram nas fazendas.

O apóstolo quer dizer que ocorreu algo que os fez perder todo valor real; revelou-se uma nova riqueza. «Deus -- escreve também São Tiago -- escolheu os pobres segundo o mundo como ricos na fé e herdeiros do Reino» (ST 2, 5). 
Mais que «um convite a derrubar as potestades de seus tronos para exaltar os humildes», como às vezes se escreveu, o Magnificat é uma saudável advertência dirigida aos ricos e aos poderosos acerca do tremendo perigo que correm, exatamente como o «ai» de Jesus e a parábola do rico. 
4.Uma parábola atual
Uma reflexão sobre a bem-aventurança dos que têm fome e dos saciados não pode contentarse com explicar seu significado exegético; deve ajudar-nos a ler com olhos evangélicos a situação em marcha a nosso redor e a atuar nela no sentido indicado pela bem-aventurança. 
A parábola do rico e do pobre Lázaro se repete hoje, entre nós, em escala mundial. Ambos personagens inclusive representam os dois hemisférios: o rico, o hemisfério norte (Europa ocidental, América, Japão); o pobre Lázaro é, com poucas exceções, o hemisfério sul. Dois personagens, dois mundos: o primeiro mundo e o «terceiro mundo».

Dois mundos de desigual tamanho: o que chamamos «terceiro mundo» representa na realidade «dois terços do mundo» (está se afirmando o uso de chamá-lo precisamente assim: não «terceiro mundo», third world, mas «dois terços do mundo», two-third world). 
Há quem comparou a terra a uma astronave em vôo pelo cosmos, na qual um dos três astronautas a bordo consome 85% dos recursos presentes e briga por ter também os 15% restantes.

O desperdício é habitual nos países ricos. Há anos, uma pesquisa realizada pelo Ministério de Agricultura americano calculou que, de 161 bilhões de quilos de produtos alimentares, 43 bilhões, isto é, cerca da quarta parte, acabam no lixo.

Deste alimento jogado fora, se poderiam recuperar facilmente, se quisessem, cerca de 2 bilhões de quilos, uma quantidade suficiente para alimentar durante um ano quatro milhões de pessoas. 
O maior pecado contra os pobres e os famintos é talvez a indiferença, fingir não ver, «dar meia volta» (cf. Lc 10, 31). Ignorar as imensas multidões de mendigos, sem teto, sem cuidados médicos e, sobretudo, sem esperança de um futuro melhor -- escrevia João Paulo II na encíclica «Sollicitudo rei socialis» -- «significaria parecer-nos ao rico que fingia não conhecer o mendigo Lázaro, prostrado à sua porta» [3]. 

Tendemos a pôr, entre nós e os pobres, um vidro duplo. O efeito do vidro duplo, hoje tão aproveitado, é que impede a passagem do frio e do barulho, dilui tudo, faz chegar tudo amortecido, atenuado.

E, de fato, vemos os pobres mover-se, agitar-se, gritar na tela da televisão, nas páginas dos jornais e das revistas missionárias, mas seu grito nos chega como de muito longe. Não chega ao coração, ou chega a ele só por um momento. 

A primeira coisa que se deve fazer com relação aos pobres é, portanto, romper o «vidro duplo», superar a indiferença, a insensibilidade, abandonar as barreiras e deixar-se invadir por uma sã inquietude por causa da espantosa miséria que há no mundo.
Estamos chamados a compartilhar o suspiro de Cristo: «Sinto compaixão por esta gente que não tem nada que comer»: mi sereor super turba (Cf. Mc 8, 2). Quando se tem ocasião de ver com os próprios olhos o que é a miséria e a fome, visitando as aldeias ou as periferias das grandes cidades em certos países africanos (aconteceu comigo há alguns meses em Ruanda), a compaixão deixa sem palavras. 
Eliminar ou reduzir o injusto e escandaloso abismo que existe entre os saciados e os famintos do mundo é a tarefa mais urgente e mais ingente que a humanidade carregou consigo sem resolver ao entrar no novo milênio. Uma tarefa na qual sobretudo as religiões deverão distinguir-se e encontrar-se unidas muito além de toda rivalidade.

Uma empresa desta envergadura não pode ser promovida por nenhum líder ou poder político, condicionado como está pelos interesses da própria nação e freqüentemente por poderes econômicos fortes. O Santo Padre Bento XVI deu exemplo disso com o forte chamado, dirigido em janeiro passado, ao corpo diplomático acreditado ante a Santa Sé, como fez também no ano passado na mesma ocasião:
«Entre as questões essenciais, como não pensar nos milhões de pessoas, especialmente mulheres e crianças, que carecem de água, comida e moradia? O escândalo da fome, que tende a agravar-se, é inaceitável em um mundo que dispõe de bens, de conhecimentos e de meios para saná-la» [4]. 

5. «Bem-aventurados os que têm fome de justiça»

Dizia a princípio que as duas versões das bem-aventuranças dos famintos, a de Lucas e a de Mateus, não se apresentam alternativamente, mas que se integram reciprocamente. Mateus não fala de fome material, mas de fome e sede de «justiça». Destas palavras se deram duas interpretações fundamentais.

Uma, em linha com a teologia luterana, interpreta a bem-aventurança de Mateus à luz do que dirá São Paulo sobre a justificação mediante a fé. Ter fome e sede de justiça significa tomar consciência da própria necessidade de justiça e da incapacidade para procurá-la apenas com as obras e, portanto, esperá-la humildemente de Deus.
A outra interpretação vê na justiça «não a que Deus mesmo põe por obra ou a que Ele concede, mas a que Ele reclama do homem» [5], em outras palavras, as obras de justiça.

À luz desta interpretação, a mais comum e exegeticamente mais fundada, a fome material de Lucas e a fome espiritual de Mateus já não carecem de relação entre si. Estar do lado dos famintos e dos pobres entra nas obras de justiça e será, mais ainda, segundo Mateus, o critério segundo o qual ocorrerá ao final a separação entre justos e injustos (Cf. Mt 25). 
Toda a justiça que Deus pede do homem se resume no duplo mandamento do amor a Deus e ao próximo (Cf. Mt 22, 40). É o amor ao próximo portanto o que deve impulsionar os que têm fome de justiça a preocupar-se dos famintos de pão. E este é o grande princípio através do qual o Evangelho atua no âmbito social. Quanto a este ponto, havia-o percebido adequadamente a teologia liberal:
«Em nenhuma parte do Evangelho – escreve um de seus mais ilustres representantes, Adolph Von Harnack – encontramos que ensine a nos mantermos indiferentes perante os irmãos. A indiferença evangélica (não se preocupar com o alimento, as vestes, o amanhã) expressa mais que tudo o que cada alma deve sentir ante o mundo, seus bens e suas lisonjas. Quando se trata, em contrapartida, do próximo, o Evangelho não quer nem ouvir falar de indiferença, mas que impõe amor e piedade. Ademais, o Evangelho considera absolutamente inseparáveis as necessidades espirituais e temporais dos irmãos» [6].

O Evangelho não incita os famintos a se fazerem sozinhos na justiça, ao se lançarem, também porque nos tempos de Jesus – diferentemente de hoje – aqueles não tinham instrumento algum, nem teórico nem prático, para fazê-lo; não lhe pede o inútil sacrifício de ir a deixar-se matar detrás de algum agitador ou qualquer Espártaco local.

Jesus atua sobre a parte forte, não sobre a parte débil; afronta, Ele, a ira e o sarcasmo dos ricos, não deixa que sejam as vítimas as que o façam.
Buscar a todo custo, no Evangelho, modelos ou convites explícitos dirigidos aos pobres e aos famintos para que se empreguem em mudar sozinhos a própria situação é vão e anacrônico, e faz perder de vista a verdadeira contribuição que ele pode dar a sua causa.


Neste caso tem razão Rudolph Bultmann quando escreve que «o cristianismo ignora qualquer programa de transformação do mundo e não tem propostas a apresentar para a reforma das condições políticas e sociais» [7], se bem que sua afirmação necessitaria de alguma distinção.
O modo das bem-aventuranças não é o único para enfrentar o problema da riqueza e pobreza, fome e saciedade; há outros, feitos possíveis pelo progresso da consciência social, aos quais justamente os cristãos dão seu apoio e a Igreja, com sua Doutrina Social, seu próprio discernimento.
Existem planos e aspectos da realidade que não se percebem à simples vista, mas apenas com a ajuda de uma luz especial, raios infravermelhos ou ultravioletas. Usa-se amplamente nas fotografias de satélite. A imagem obtida com esta luz é muito diferente e surpreendente para quem está acostumado a ver o mesmo panorama à luz natural.

As bem-aventuranças são uma espécie de raios infravermelhos: nos oferecem uma imagem diferente da realidade, a única verdadeira, porque mostra o que ao final permanecerá, quando tiver passado «o esquema deste mundo».
6. Eucaristia e partilha
Jesus nos deixou uma antítese perfeita do banquete do rico epulão, a Eucaristia. Esta é a celebração diária do grande banquete ao que o Senhor convida os «pobres, os estropiados, os cegos e os cochos» (Lc 14, 15-24), isto é, todos os pobres Lázaros que há ao redor.

Nela se realiza a perfeita «comensalidade»: a mesma comida e a mesma bebida, e na mesma quantidade, para todos, para quem preside como para o último que chegou à comunidade, para o riquíssimo como para o paupérrimo.
O vínculo entre o pão material e o pão espiritual era bem visível nos primeiros tempos da Igreja, quando a ceia do Senhor, chamada agape, tinha lugar no contexto de uma refeição fraterna, na que se partilhava tanto o pão comum como o eucarístico.
Aos coríntios que haviam errado sobre este ponto, São Paulo escreveu: «Quando, pois, vos reunis, o que fazeis não é comer a Ceia do Senhor; cada um se apressa por comer a própria ceia; e, enquanto um passa fome, o outro fica embriagado» (1 Cor 11, 20-22). Acusação gravíssima; é como dizer: a vossa já não é uma Eucaristia!
Hoje a Eucaristia já não se celebra no contexto de uma refeição comum, mas o contraste entre quem tem o supérfluo e quem não tem o necessário adquiriu dimensões planetárias. Se projetamos a situação descrita por Paulo da Igreja local de Corinto à Igreja universal, nos damos conta com pesar de que é o que – objetivamente, se bem que nem sempre com culpa – sucede também na atualidade. Entre milhões de cristãos que, nos distintos continentes, participam da Missa dominical, há alguns que, de regresso a casa, têm à disposição todo bem, e outros que não têm nada que dar de comer a seus próprios filhos. 
A recente exortação pós-sinodal sobre a Eucaristia recorda com força: «O alimento da verdade nos impulsiona a denunciar as situações indignas do homem, nas que, por causa da injustiça e da exploração, morre-se por falta de alimento, e nos dá nova força e ânimo para trabalhar sem descanso na construção da civilização do amor» [8]. 
O 0,8% [porcentagem de destinação tributária do Imposto sobre a Renda das Pessoas Físicas na Itália. Ndt.] melhor gasto é o que se destina à Igreja com este objetivo, sustentando as diversas «Caritas» nacionais e diocesanas, as mesas dos pobres, iniciativas para a alimentação nos países em vias de desenvolvimento.

Um dos sinais de vitalidade de nossas comunidades religiosas tradicionais são as mesas dos pobres que existem em quase todas as cidades, nas que se distribuem milhares de refeições ao dia em um clima de respeito e de acolhida. É uma gota em um oceano, mas também o oceano, dizia Madre Teresa de Calcutá, está cheio de pequenas gotas.
Gostaria de concluir com a oração que rezamos diariamente, antes das refeições, em minha comunidade:
«Bendizei, Senhor, este alimento que, por tua bondade vamos receber, ajudainos a prover dele também os que não o têm, e fazei de nós partícipes um dia de tua mesa celestial. Por Cristo Nosso Senhor».
REFERÊNCIAS:
------------------------------------------------- 
[1] D. H. Dodd, Storia ed Evangelo, Brescia 1976, p.23. 
[2] Cf. J. Dupont, Le beatitudini, 2 Voll. Edizioni Paoline 1992 (ed. originale Parigi 1969). 
[3] Giovanni Paolo II, Enc. "Sollicitudo rei socialis", n. 42. 
[4] Discours du pape Benoît XVI pour les vœux au corps diplomatique accrédité près le saint-
siège, Lundi 8 janvier 2007. 
[5] Cf. Dupont, II, pp. 554 ss. 
[6] A. von Harnack, Il cristianesimo e la società, Mendrisio 1911, pp. 12 ss. 
[7] R. Bultmann, Il cristianesimo primitivo, Milano 1964, p. 203 (Titolo orig. Das
Urchristentum im Rahmen der antiken Religionen). 
[8] «Sacramentum caritatis» , n.90.

Fonte: Zenit
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