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O Nacionalismo e as Grandes Guerras do Séc XIX XX que remodelaram os atuais estados nações

Written By Beraká - o blog da família on segunda-feira, 8 de agosto de 2016 | 22:53





O nacionalismo é uma tese, ideológica, surgida após a Revolução Francesa. Em sentido estrito, seria um sentimento de valorização marcado pela aproximação e identificação com uma nação. O nacionalismo é a ideologia fundamental da terceira fase da história da humanidade, a fase industrial, quando os estados nacionais se tornam a forma de organização político-cultural que substitui o império. Costuma diferenciar-se do patriotismo devido à sua definição mais estreita. O patriotismo é considerado mais uma manifestação de amor aos símbolos do Estado, como o Hino, a Bandeira, suas instituições ou representantes. Já o nacionalismo apresenta uma definição política sobretudo da preservação da nação enquanto entidade, por vezes na defesa de território delineado por fronteiras terrestres, mas, acima de tudo nos campos linguístico, cultural, etc., contra processos de destruição identitária ou transformação. O historiador Lord Acton, afirma que o patriotismo prende-se com os deveres morais que temos para com a comunidade política, enquanto que o nacionalismo está mais ligado à etnia.






(Por Felix Steiner- Clube dos Generais - 17/06/2014 )

O Clube dos Generais é uma entidade de estudos e debate sobre os acontecimentos histórico-militares da humanidade, com ênfase nas Grandes Guerras Mundiais do Século XX.Fundado em 1998 para ser um grupo de discussões sobre um jogo de computador chamado “Panzer General”, o Clube dos Generais logo se desenvolveu em um grupo onde a Segunda Guerra Mundial era seu principal assunto. Baseado em um grupo de e-mails do Yahoo Grupos e depois migrado para o Google Groups, o Clube dos Generais rapidamente tornou-se mais do que apenas um grupo de discussão, é uma irmandade onde grandes amizades foram forjadas, seja virtualmente ou presencialmente. Para deixar as discussões mais interessantes, todo membro deve assumir a identidade de um combatente das Grandes Guerras Mundiais.O principal evento do Clube dos Generais é seu Encontro Nacional, realizado uma vez por ano em local pré determinado. Nesses encontros, os generais que se conheciam apenas por e-mail confraternizam-se e criam momentos marcantes de amizade e fraternidade. 



O movimento nacionalista, irrompido no século XIX é um dos fatores mais importantes e dos que mais contribuíram para a eclosão da PGM. Para se compreender, com exatidão, até que ponto a ideia nacionalista se vincula com a PGM do século XX, precisa-se fazer remontar as próprias origens da corrente nacionalista europeia, procurando suas raízes mais profundas. 


Para esse estudo, devem ser fixados dois aspectos principais:



1)- O fator político: com a fermentação nacionalista que se iniciou depois da derrota final de Napoleão.

2)- Ordem ideológica: o movimento das nacionalidades é fruto da Revolução Romântica. Analisemos o primeiro: De fato, a derrota dos exércitos napoleônicos, por volta de 1815, traz profundas modificações na política europeia. Uma verdadeira reviravolta política se opera, parecendo mesmo existirem sérias possibilidades de um autêntico retorno ao passado, uma volta às ideias do Antigo Regime, posto a margem pela Revolução Francesa. Uma vaga reacionária se quebra, não só ameaçando apagar totalmente a lembrança revolucionária, como a permanecer como tônica dominante na política europeia.


As nações aliadas, vencedoras, sonham por um instante ser possível a volta aos dias que antecederam a sangrenta revolução. As monarquias tradicionais da Europa respiram, novamente, já mais aliviadas do furacão liberal que tanto as amedrontara. A Revolução fora responsável por agitações revoluções e mesmo por guerras, em todo mundo. Urgia, pois, na impossibilidade total de apagá-la da memória, pelo menos atenuar a sua influência. O fato é que seus princípios haviam penetrado, de modo ou de outro, até mesmo nos impérios mais conservadores e reacionários. A Revolução adquirira, com Napoleão, contornos universais. A burguesia revolucionária lograra ascender e mesmo se estabilizar no poder, em muitos países. Assim, o clima eminentemente antirrevolucionário, dominante após a derrocada francesa, vai ser substituído, lentamente, por um movimento que visa adaptar os ideais revolucionários de 1789 às novas condições vigentes. 


Desse modo, os ideais de Rousseau, Voltaire, Montesquieu, decorrido esse período agitado de reação aos postulados liberais, não serão totalmente abandonados. A igualdade, liberdade e a fraternidade, bandeiras em nome das quais o povo de Paris assaltou a Bastilha e cercou as tulheiras, somente perderão um pouco da sua agressividade, tão útil quando da luta contra a nobreza privilegiada e a monarquia divina. Os golpes que abalarão novamente as monarquias europeias, a partir de 1820, contribuem para que essas ideias percam seu sentido original subversivo. Dessa maneira, verificava-se que já não havia tanta necessidade de se sustentarem os ideais absolutos, racionais e abstratos, tão em voga no final do século, e nem era mais preciso apregoar-se que o Homem devia ser solidário ao seu semelhante - pois todos eles possuíam a mesma essência, todos organicamente se assemelhavam, além de todos ficarem nivelados pela morte fatal e implacável -, já que o inimigo estava se esfacelando, pouco a pouco. Ideias como essas, que acabaram por minar o edifício social, político e econômico em que repousava o arcabouço monárquico, levando-o à destruição na França, não mais ressoavam como às vésperas da Revolução e nem levavam mais o povo e a burguesia ao delírio.


Naquele instante, o movimento histórico era outro. A borrasca revolucionária já se atenuara. O que caracteriza a nova situação era a preocupação de se imprimir outra visão às ideias liberais. E, nessa adaptação, a burguesia, que decididamente se instalou no poder, inicia uma verdadeira absorção de costumes e expedientes políticos, os quais tanto combatera. Já não teme o fantasma da antiga e arrogante nobreza. O que preocupa a nova classe dirigente é a grande massa, sua antiga aliada contra a corja despótica. O povo, elemento primordial na Revolução, não usufruirá materialmente da vitória.


Por um passe de mágica, a massa será posta de lado, apesar dos ideais revolucionários terem sido impressos, em letras douradas, nas Constituições, nos Códigos, nas Leis em geral. A massa será por isso a maior vítima do liberalismo econômico, e uma das consequências práticas desse fato será o surgimento da questão social, em pleno século XIX. A verdade é que a burguesia, consciente ou inconsciente, cavou um poço cada vez mais profundo, distanciando-se da grande massa. Os seus ideais, que por um momento, convergiram numa fase da Revolução Francesa, vão definitivamente se afastar. Com isso, os interesses advindos das questões políticas e econômicas acabarão por lançar os países, e com eles o povo, em crises sucessivas e até mesmo, na maioria, sem proveito para ninguém. 


O segundo ponto capital para se compreender a gênese do nacionalismo é o aspecto ideológico, que serviu de embasamento ao movimento das nacionalidades, justificando-o de uma maneira mais científica.


O nacionalismo do Século XIX é uma decorrência dos postulados do Romantismo:


É inegável que o Romantismo foi uma corrente que combateu os ideais do Classicismo, corrente responsável pelos princípios que apearam a Monarquia francesa do poder, em 1789. Aos ideais abstratos, racionais e universais, contrapôs o Romantismo a liberdade de composição, deu primazia aos sentimentos e condenou a imitação greco-romana, tão ao gosto dos escritores clássicos. A sua inspiração não podia em nada se assemelhar à clássica. Tinha pois o Romantismo de, forçosamente, deixar de ser universal e cosmopolita. Na busca de uma temática inteiramente original para expressar com fidelidade os novos cânones estéticos, encontramos a origem do nacionalismo como ideologia, tendo ao fundo o contexto histórico-político acima. Assim, o caminho que os românticos encontraram, para erigir em novas bases a arte, foi a reconstrução das origens de cada país, de cada nação. 


O passado dos países vai ser pesquisado minuciosamente, e suas tradições serão a musa inspiradora dos seus escritores. Ora, a maioria dos países europeus se constituiu em plena Idade Média. Portanto, será a História Medieval um manancial inesgotável da criação romântica. Subitamente, para a Arte, ganha o passado histórico uma nova dimensão. A História será a chave mestra de que se utilizarão os artistas românticos, para penetrar no terreno que lhes fornecerá os temas para a composição de suas obras. Os costumes, as lendas, os feitos heroicos dos cavaleiros medievais, são temas frequentes nas obras literárias românticas. Nesse afã, aos poucos, desvenda-se as origens das nações, e a formação de uma história pátria pode ser delineada.As peculiaridades de cada país, a história particular de sua constituição e evolução, tornam-se mais nítidas.


Já se pode apregoar uma nova verdade científica:


Cada povo, cada país teve um tipo de formação singular, e o seu desenvolvimento através do tempo muitas vezes é totalmente diverso do país com que faz fronteira. Evidenciam-se, assim, as diferenciações históricas de cada povo. Desse modo, os acontecimentos históricos vão, no século XIX, demonstrar equívocos na constituição de muitos estados, que abrigavam em suas fronteiras geográficas diversas nações. Esse fato será, em todo o transcorrer do século, um fator de instabilidade política, pois o nacionalismo desvendou o engano em que, segundo a concepção da época, há muito laboravam. 


Sintomáticas se revelam as palavras de Joseph de Maistre, quando afirma: "Eu não sei o que é o homem; eu não conheço senão russos, ingleses, alemães e franceses." Dessa maneira, cada povo passou a conhecer melhor o seu passado nacional e, lentamente, cada habitante gravou em sua mente as peculiaridades de sua nação e as transmitiu a seus descendentes. Esse mecanismo revela claramente como se desenvolveu o "embrião" nacionalista. 


Resta somente estabelecer as ligações entre o panorama político e o movimento artístico, desenvolvido na primeira metade do século XIX - conhecido como Revolução Romântica. Essa vinculação não é difícil de ser demonstrada, se observarmos que a corrente romântica irrompeu, justamente, no período que de imediato sucedeu às Guerras Napoleônicas. O seu aparecimento é já um sintoma da nova era que se inaugurou. As suas concepções vão servir, como uma luva, às tendências burguesas de então. Sem abandonar totalmente o ideal igualitário, já consagrado nas leis, pode a burguesia triunfante sublinhar as diferenciações raciais, nacionais, provinciais e até mesmo locais existentes, respectivamente, entre os povos, regiões e localidades. 


O novo ensinamento, segundo a concepção da época, acentua que todos possuem a mesma essência, de acordo com as mais puras tradições clássicas, porém, cada um é portador de umas tantas diferenças que é preciso não subestimar, pois as leis histórico-sociológicas demonstraram que cada um sofre as influências do meio em que nasceu, e de onde provém e vive. De acordo com esta regra, torna-se então justo que cada cidadão lute para defender, engrandecer e mesmo glorificar sua terra natal. A todo custo e sem medir esforços, deve preservá-lo! Com essas características, o nacionalismo já se apresenta como uma ideologia. Segundo ela, existe uma escala de valores que se deve gerir os destinos do Homem; deve ele ser solidário com sua raça, seus costumes, sua educação e formação, devendo, pois, se agrupar em nação e pertencer a um Estado, tendo em vista esses valores. O movimento das nacionalidade logrou assim erigir novas barreiras entre os homens e, mesmo dentro dos Estados, separou nações. 


As repercussões práticas desse desse movimento, no século XIX, dentro da órbita política, propagaram-se como um rastilho. E as consequências que fizeram-se logo sentir nas relações internacionais, constituindo-se em elemento primordial para a compreensão da Grande Guerra e sua sucessora, a Segunda Grande Guerra. 


A unificação alemã, a unificação italiana, o sentimento revanchista francês, o nacionalismo eslavo, o pan-eslavismo, o movimento pela grande Sérvia, e o pangermanismo, foram os resultados imediatos da situação criada após as Guerras Napoleônicas. Esses acontecimentos, estudados em particular, são correlacionados com o nacionalismo. 


O movimento conhecido como unificação dos estados alemães em torno de um só Estado unificado, agrupando este os povos de origem germânica, é uma consequência mais ou menos direta da ideologia nacional. Contudo, a ideia unificadora, para tornar-se realidade, passou por todo um processo de maturação, até que o Reich alemão se apresentasse unificado, em 1870. Esse processo encerra uma série de fatos políticos que servem para mostrar como a ideologia nacional, na Alemanha, foi uma conquista lenta, incluindo às vezes, depois de consideráveis progressos do ideal unificador, recuos que chegaram a abater o ânimo para a luta, em muitos propagandistas nacionalistas. A situação da Alemanha antes de 1815 A evolução do poder político na Alemanha, foi bastante diversa da experimentada por outras nações europeias como a Inglaterra, França e Espanha. 


Assim, quando o poder dos reis, na Europa, logrou consolidar-se surgindo os absolutismos monárquicos do século XVI, que deram origem a estados perfeitamente unificados, a Alemanha encontrava-se ainda dividida em minúsculos territórios. No século XVI, ela chegara mesmo a conhecer um breve período de prosperidade, devido principalmente à ação de comerciantes banqueiros, em Augusburg e Nürenberg. Contudo, sentirá de perto os efeitos da Guerra dos Trinta Anos, que acabará por modificar a marcha de seu desenvolvimento econômico e paralisar uma nascente ideia unificadora. A guerra desintegrou o Império Germânico e, daí por diante, a Alemanha não passará apenas de uma ideia geográfica. Por volta de 1700, a situação se apresentava da seguinte maneira: os territórios de maior extensão eram a Saxônia, o Hanover e a Baviera; a Áustria e Hungria, cujas regiões germânicas pertenciam ao Sacro Império Romano, tinham alguma importância. Entretanto, o fato novo é o aparecimento da Prússia, em 1701, como reino.


Passa a ocupar, daí por diante, lugar de destaque entre os estados alemães principalmente depois das vitórias de Frederico, o Grande sobre austríacos, na Guerra de Sucessão da Áustria e sobre a grande coalizão austro-franco-russa, na Guerra dos Sete Anos. Ao findar-se o século XVIII, a Prússia já era considerada a menor entre as grandes potências. Com o advento da Era Napoleônica, os territórios do sul e oeste passaram a pertencer à confederação do reno (1806 - 1814), que reduziu a meia centena de pequenos estados - antes eram nada menos que 300 minúsculos estados independentes, os quais, desse modo, conheceram uma primeira unificação. Durante o período da confederação do reno, puseram-se em vigor as reformas da Revolução Francesa e do regime de Napoleão, incluindo-se a vigência do CÓDIGO NAPOLEÔNICO.


Durante o predomínio francês, aplicaram-se no campo econômico princípios liberais da livre troca comercial, notadamente nas regiões da antiga Renânia e Westfália. Com isto, de1806 a 1815, eliminaram-se os obstáculos fundamentais que impediam o desenvolvimento capitalista, na maior parte da Alemanha.


Essas as modificações que atingiram as regiões Ocidental e Sul , sob domínio napoleônico. A Leste, os estados alemães sofreram alterações, graças à legislação editada pelo Barão Heinrich Friedrich Karl von Stein (1757 - 1831) e continuada pelo Chanceler Hardenberg (Karl August, 1750-1822), que desferiu rude golpe no sistema feudal da antiga Prússia, libertando os servos agrários, estabelecendo governos autônomos nas cidades e proclamando a liberdade do comércio. 


O PERIODO 1815- 1848 


Depois de 1815, foi criado o Bund alemão, uma precária Confederação de 38 estados, qual passava a ser tutelada pela Áustria e pela Prússia. Essa organização foi fruto da ação diplomática de Viena que, com a criação da Confederação, alcançava duas vitórias: o malogro da unificação alemã e o reconhecimento do poder austríaco sobre o novo órgão, pois caiba à representação da Áustria a presidência das assembleias do Bund. A ação reacionária do ministro austríaco desencadeia, na nação alemã, uma fermentação nacionalista, que culminará com a propaganda para a unificação, dela participando os liberais, as associações estudantis (principalmente o movimento conhecido como a JOVEM ALEMANHA), escritores e intelectuais .


Surgiram sociedades secretas, que tornaram parte ativa nas agitações fomentadas pelo movimento. A campanha determinará uma grande radicalização nas diversas posições, terminando por levar um estudante liberal a assassinar o autor teatral Kotzebue ( August von, 1761 - 1819 ), conhecido reacionário, partidário da Áustria. O incidente convence Metternich de que não só a Confederação Germânica, mas toda Europa Central, estavam tendendo para uma revolução radical. Procura, então, de poderes para enfrentar a situação. Consegue da Dieta Federal a aprovação de um programa de medidas repressivas, conhecidas como os decretos de Carlsbad (1819). Estabeleciam eles que toda universidade passaria a ter inspetor oficial, os professores rebeldes seriam demitidos de seus cargos, as sociedades estudantis dissolvidas e a imprensa submetida a uma estrita censura. As perseguições políticas sucederam-se, impiedosas para com os nacionalistas, obrigando os principais líderes da Alemanha unificada as fugas precipitadas e à busca de exílio seguro.


A execução dessa rigorosa legislação repressora fez com que o movimento liberal e o nacional ficassem, na esfera política, amortecidos até 1848. Esse amortecimento das ideias liberais e nacionais, empreendido pela Áustria, em suas áreas de maior influência, em grande parte alcançou sucesso, porque a Prússia, nesse momento, era aliada incondicional da restauração empreendida pelo ministro austríaco, na órbita da política internacional. A Confederação criada pelo Congresso de Viena era composta de 38 Estados, possuindo apenas uma grande potência, a Prússia, com uma população de 10 milhões de habitantes. Além dela, havia 5 Estados de tamanho médio: a Baviera, o Würtemberg e o Baden ao sul, e no centro a Saxônia e o Hanover . Contavam -se, ainda, 25 Estados pequenos e 4 cidades livres: Frankfurt, Hamburgo, Bremen e Lubeck. A ideia de unificação teria permanecido sufocada totalmente, não fosse a formação de uma comunidade econômica, composta pela maioria dos estados alemães. É o conhecido Zollverein, que, oficialmente , passou a funcionar em 1834. Á Prússia coube papel destacada na elaboração dessas comunidades de interesses. A explicação desse fato encontra-se no desenvolvimento interno da Prússia, nesse período. De fato, a partir de 1815, no campo interno, inspirou-se o governo prussiano nas doutrinas do liberalismo econômico. Isso graças à ação do Barão Friedrich von Stein e do Chanceler Hardenberg, grandes reformadores agrários e administrativos, partidários também das ideias de Adam Smith.
Isso pode parecer paradoxal pois externamente, no campo internacional, a Prússia seguia a política reacionária de Metternich.


Contudo, em matéria de política econômica, principalmente com respeito ao comércio exterior, seus funcionários estavam imbuídos de ideias livre-cambistas. Por outro lado, as ideias de livre- troca também iam de encontro aos desejos dos agricultores da margem oriental do Elba, onde se concentrava um rico setor agrário, e que contavam vender os seus produtos (lã e grãos) . Igualmente, os produtores de linho da Silésia e Westfália alimentavam desejo similar . Estes eram os principais artigos de exportação da Prússia, neles se assentava a balança comercial do país . Um passo decisivo no processo de formação da comunidade econômica alemã foi a lei elaborada em 1815, visando, principalmente, os seguintes objetos:


1 - obter maiores rendimentos para pagamento do empréstimo conseguindo junto aos Rothschild, de Londres ;


2 - integrar economicamente as antigas e novas províncias que se estendiam da Alta Silésia até à fronteira renano - belga, no oeste;


3 - estimular o desenvolvimento industrial, num país eminentemente agrário, com carvão e outras matérias primas;


4 - desalentar o contrabando. Os resultados práticos obtidos pelas reformas prussianas vão de exemplo a outros Estados. Suscitaram essas reformas um movimento tendente à criação de zonas aduaneiras mais extensas. 


Já Friedrich List (1789-1849), economista alemão de renome internacional notava, em, 1819, que existiam tantas unidades aduaneiras quanto unidades políticas, as quais eram nessas época trinta e oito. Sobre o inconveniente que apresentava essa situação para a economia dos diversos Estados, assim se referia: 38 muralhas impedem o comércio interno e têm pouco mais ou menos o mesmo efeito, como se cada membro do corpo humano fosse atado, a fim de impedir a circulação do sangue . Para ir de Hamburgo à Áustria ou de Berlim à Suíça, tem-se que cruzar 10 Estados, conhecer 10 legislações e pagar 10 impostos aduaneiros. A ideia prosseguiu, entusiasmando homens de negócios de todas as partes.


Por volta de 1828, já se criavam 3 zonas aduaneiras mais extensivas, porém independentes entre si, seguindo mais ou menos as bases da lei de 1815:


1 - Uma união compreendendo a Prússia um grupo de 9 Estados ;

2 - outra, englobando a Saxônia, o Hanover e alguns Estados Turíngios ;

3 - finalmente, uma terceira, composta pela Baviera, Würtenberg e Banden .Desse estágio, para a união total foi um passo pequeno .


Em 1 de janeiro de 1834, o Zollverein (união econômica dos principais Estados alemãs ) começou sua histórica carreira. O Zollverein passou a abarcar 25 milhões de habitantes. A comunidade compreendia grande variedade de produtos agrícolas e industriais. Reinava elevado nível educativo, em geral, nos Estados que a ela se associaram, além de contar com uma entidade econômica criada, foi possível a execução de vantajosos tratados comerciais, para todos os membros, dentro de uma política de interesses comuns. A base da comunidade era federativa, isto é , os Estados estavam representados em uma Assembleia e um Conselho , no qual a Prússia ocupava posição de destaque e predomínio, pois possuía 1/3 dos votos da Assembleia. Os Estados Membros conservavam suas próprias administrações ; as entradas e gastos eram repartidos, em proporção; deveriam, ainda criar leis e instituições mercantis, sistemas uniformes de moedas, pesos e medidas. O resultados mostraram as excelentes possibilidades advindas para um conjunto de países, que deliberam abolir os obstáculos comerciais entre zonas mercantis pequenas e para a criação de unidades maiores, mesmo tendo soberanias políticas deferentes. 


A Europa em 1848, mais uma vez foi sacudida por movimentos revolucionários, que foram se alastrando, atingindo as principais potências. Dessa vez, as tendências das agitações eram liberais, tendo como pano de fundo a questão social, surgida, de um lado, pelo grande surto industrial, de outro, pelas crises econômicas, que alcançaram os principais países a partir de 1846-1846. A crise manifesta-se primeiramente na Inglaterra, dando origem a agitações encabeçadas pela Associação dos Trabalhadores, que divulga um documento conhecido como “Carta do Povo”, onde se exigem eleições anuais, com sufrágio universal. A ebulição política aumenta, com a realização de comícios, greves e revoltas generalizadas. A situação evolui, pedindo os chefes do movimento um levante armado. A questão social surgida nesta época, serviria de observação aos pensadores Marx e Engels que redigiram o “manifesto comunista de 1848”, onde criticam a mecânica da sociedade capitalista. Esse manifesto foi o ponto de partida para uma ampla agitação social e para a fundação dos movimentos socialistas, que se propagaram pelos séculos XIX e XX. Entretanto, a Inglaterra superou a crise por volta de 1852, realizando algumas reformas em sua estrutura econômica, mas mantendo a integridade do governo e do regime. 


Na França, os fatos se passaram de outra forma:


A inquietação provém da agitação operária e do descontentamento da pequena burguesia, que não participara dos empreendimentos lucrativos, monopólio, depois de 1830, do governo e da alta burguesia. As reformas políticas são igualmente solicitadas, sob um clima de extrema agitação. O Rei Luis Felipe, que chegou ao trono pela Revolução de 1830, descontentava grande parte da população e principalmente a pequena e média burguesia. A recusa do rei em abrandar a tensão leva os revolucionários a levantar trincheiras na capital, forçando o rei a abdicar. O parlamento proclama a república (Segunda República), e convoca eleições para se eleger o mandatário republicano. Concorrerão 4 candidatos, representando diversas tendências políticas francesas. Venceu Carlos Luis Napoleão Bonaparte (futuro Napoleão III) tido como simpático a ideia liberal. A onda revolucionária chega à Áustria, centro da reação monárquica, que continuava, ainda, sendo governada por Metternich. A 13 de março de 1848, eclodiu um levante liderado por trabalhadores e estudantes, que forçaram a renúncia do ministro totalitário. O imperador, assustado com a extensão do movimento, promete uma Constituição para a Áustria alemã, excetuando a Hungria e as possessões italianas. Exigem também os líderes do movimento que, na futura constituição, haja a responsabilidade do Ministério perante o Parlamento, a adoção de um sistema eleitoral e a abolição dos remanescentes feudais, ainda existente nos campos agrícolas. A vaga revolucionária atinge, logo após, a Hungria, sendo chefiado o levante por Loajos Kossuth. 


Entretanto, as conquistas revolucionárias não permaneceriam por muito tempo, tal e qual foram prometidas. No verão de 1949, o imperador austríaco consegue derrubar a República Húngara, e mesmo na Áustria, domina os liberais, deixando de cumprir as promessas feitas nos dias tormentosos da rebelião. Valioso apoio recebeu do imperador da Rússia que, atacando os húngaros, permite aos austríacos lançarem-se contra os italianos. A ordem é restaurada no Império Austríaco, mas não exatamente nas mesmas condições anteriores. Sente-se claramente um abrandamento na reação monárquica. Na Alemanha, ainda que as tentativas de unificação política tenham falhado, as revoltas de 1948 serão fundamentais para o desenvolvimento econômico do país. Isso porque foram definitivamente extirpadas as sobrevivências do feudalismo agrário e, por outro lado, a data marca a entrada da Alemanha, decididamente, na era capitalista, fatos estes importantes para se compreender o grande surto de progresso que experimentará depois de 1870. Em Berlim, Frederico Guilherme IV, ante a agitação crescente, convocou a Landtag e deu mostras de simpatia pelo movimento unificador alemão. 


O Acontecimento que mais ameaçou a situação vigente, nessas agitações de 1848, foi a instalação de uma Assembleia em Frankfurt, aonde acorreram os delegados de todos os estados, tendo a Assembleia a tarefa de cuidar da unificação de todos eles. Entretanto, os delegados desentenderam-se quando ao regime do novo estado a ser criado, quanto à extensão geográfica que ele deveria possuir e com relação a posição da Áustria, na nova entidade a ser estabelecida. As diversas posições, aos poucos, se radicalizaram, comprometendo a unidade e objetivos da Assembleia. Num gesto desesperado, os delegados tentam salvar o movimento, oferecendo a direção do estado unificado ao rei da Prússia, concordando assim que a unificação se desse em torno da potência mais forte dentre esses estados. Frederico Guilherme IV, no entanto, recusou o oferecimento, movido de um lado pelo receio da reação Austríaca, e de outro, ao que parece, pela repugnância de entrar em entendimento com uma assembleia de rebeldes e revolucionários, muitos deles republicanos convictos. Ante a recusa, a assembleia dissolveu-se, frustrando-se, mais uma vez, a tentativa de se atingir a unificação política de toda a Alemanha. 


A ASCENSÃO DE BISMARCK E A UNIDADE DEFINITIVA 



O movimento de unidade alemã receberia decidido apoio após a ascensão de Otto Eduard Leopold Von Bismarck, como primeiro ministro da Prússia, em 1862. A sua ação decisiva e a firme determinação com que se entregou a tarefa de unificar politicamente a integração total a Alemanha. Bismarck era originário da classe dos junkers, espécie de nobres rurais prussianos, cujos interesses agrários eram bastantes grandes e de onde eram recrutados, geralmente, os funcionários e as altas patentes do exército. Frequentou as universidades de Göttingen e de Berlim.


Em sua juventude, ao que parece, caracterizou-se por apresentar uma personalidade boêmia e irresponsável. O ideal político dos seus verdes anos inclinava-se para o liberalismo. O casamento, contudo, haveria de modificá-lo. Casou-se com filha de um aristocrata e sua personalidade, aos, poucos, se define melhor. De rebelde soturno e cínico, converteu-se num valente defensor da religião e num trovejante reacionário, em matéria de política. 


Durante a Revolução de 1848, apoiou decididamente a monarquia e fez parte do grupo de aristocratas que apelou para o rei prussiano, com o objetivo de fazê-lo recusar a coroa oferecida pela assembleia de Frankfurt. Anos mais tarde, estaria a frente da organização de um partido conservador, considerado o guardião dos interesses agrários dos junkers, da igreja oficial e do exército. A sua nomeação para presidente do conselho de ministros data de 1862, ocasião em que pode dar início a execução de um habilidoso plano de unificação. Na tarefa de concluir a unificação, revelou-se um hábil e incomparável político. Soube endurecer a posição da Prússia, quando julgou necessário, arrastando o país a duas guerras com fim de ampliar a unidade, lutas aliás bem sucedidas para seu governo. Outras vezes, revelou-se quase diabólico, principalmente quando atuava no cenário diplomático, conseguindo armar situações equívocas e nebulosas para a soberania das nações, envenenando interpretações de documentos diplomáticos, divulgando maliciosamente segredos de Estado, a fim de atingir as metas que colimava. Assim, procurou, de início, afastar definitivamente qualquer pretensão austríaca, dentro da


CONFEDERAÇÃO GERMÂNICA


Aliás, as divergências entre as duas potências acentuaram-se bastante depois de 1848, tanto no plano político, como também na concorrência comercial. De fato, o Barão Karl Ludwig Bruck (1798-1860), ministro do comércio austríaco, manifestara desejo de que seu país usufruísse das vantagens do Zollverein. A Prússia , no entanto, opôs-se a pretensão, apesar da Áustria contar com a simpatia dos Estados alemãs do sul que , por diversas vezes, solicitaram aos demais membros a aceitação do grande império. Essa disputa constituirá um ponto de constante divergência entre as duas potências. Bismarck , para alcançar a unidade, envolveu a Prússia na questão surgida com a Dinamarca, que pretendia a posse dos territórios de Schleswighostein. Esses territórios eram habitados, em sua maioria, por alemães, e desde 1815 o Holstein fora incluído na Confederação Germânica, mas devendo, por tradição, vassalagem ao rei da Dinamarca. A questão surgiu mais aguda quando o rei dinamarquês pretendeu a anexação dessas províncias . O chanceler prussiano mostrou sua habilidade em aproveitar-se de incidentes dessa ordem, conseguindo envolver outras nações e logrando tirar partido, para a Prússia, de divergências que surgiram, mesmo com antigos aliados. Desse modo, começou por incitar a Áustria contra a Dinamarca, solicitando-lhe participação na luta, para barrar as pretensões do rei dinamarquês. A Áustria acedeu. Iniciou-se, então, uma breve campanha militar, que terminou ao cabo de 7 semanas, em 1864, com a vitória dos exércitos prussianos, renunciando o rei dinamarquês a qualquer pretensão aos território que motivaram o litígio. Uma divergência após a vitória, entre as duas potências que haviam sido aliadas, será bem aproveitada pelo chanceler prussiano. A origem dela residiu na repartição dos despojos.


A situação evoluiu a tal ponto, que uma guerra entre a Áustria e a Prússia tornou-se inevitável. A essa altura Bismarck aceitar um desafio dessa ordem. A Prússia, que alcançara com a unidade econômica levada a efeito pelo Zollverein, um desenvolvimento industrial considerável em todos os setores, procurava tornar-se, pouco a pouco, invulnerável. A unidade política que buscava seria o coroamento desse processo de desenvolvimento. Para isso, cuidou de organizar eficientemente o seu poderio militar, entregando a reparação de seu material bélico ao Conde de Roon, passando pois o poderio bélico por uma verdadeira transformação. Desse modo, foram introduzidos melhoramentos, como o fuzil de infantaria Dreyse, cuja novidade consistia em ser carregado pela culatra, e o canhão de aço Krupp, igualmente carregado pela culatra, que era muito mais rápido, preciso e de maior alcance. O efetivo militar, graças ao engajamento obrigatório, elevou-se consideravelmente e número. A direção desse exército remodelado, foi entregue ao Conde de Moltke, que o tornou um corpo altamente disciplinado. Com essa retaguarda militar, pode Bismarck enfrentar o exército austríaco, cercando-se todavia de cuidadosa precaução contra o eventual apoio que a Áustria poderia ter dos estados alemães do Sul (Hannover, Saxe e Baviera). Concertou com a nascente Itália uma aliança para neutralizar essa possível ajuda. Por outro lado, essa aliança ia de encontro aos interesses da unificação italiana, que se fazia em torno da Casa de Savóia, a qual governava a Lombardia, pois o Grande Império possuía territórios na Península Itálica e era um entrave difícil para a tão almejada unidade italiana. Prometeu o chanceler, em troca do auxílio italiano, a cessão de Veneza. A luta iniciou-se, contando os prussianos com um efetivo maior que os austríacos.


Os chefes militares do Grande Império, além disso, cometeram sucessivos erros de estratégia. Acossados por duas frentes, concentraram seus melhores efetivos na frente italiana, ao invés de conter os italianos em defensiva e acumular forças contra os prussianos. Esta falha custou caro à Áustria: derrotada pelas forças de Bismarck e Moltke, teve, pela Paz de Nicolsburgo, de abandonar qualquer pretensão aos territórios de Schlesswig-Holstein, ceder Veneza à Itália e consentir na dissolução da Confederação Germânica. 








O próximo passo de Bismarck foi a formação da Confederação Germânica do Norte, formada por todos os estados alemães situados ao norte do Rio Reno. Nessa confederação, o rei da Prússia era o presidente hereditário e ainda foi criado um corpo legislativo composto por uma Câmara Alta, representativa de cada estado confederado, além de uma Câmara Baixa, eleita por sufrágio universal masculino. A última etapa da unificação foi cumprida quando da Guerra Franco-Prussiana. O Chanceler de Ferro, para isso, envolveu a Prússia em outra aventura bem sucedida, graças à eficiência e organização de seu exército. A luta com a França por suas consequências, é a página mais importante da história da unidade alemã e a que mais se correlaciona com a Guerra de 1914. Com a experiência de três campanhas, nas quais as guerras foram mais simples exercícios, o exército prussiano completou o seu aparelhamento, quer do ponto de vista humano, no referente ao soldado e ao oficial, como ainda do ponto de vista material. Bismarck, além disso, havia se conciliado com os vencidos da véspera, de modo a contrair com os alemães do sul uma aliança secreta, ofensiva e defensiva, tendo já em vista o assalto que iria desferir contra a França. Preparada a ratoeira, os franceses, dirigidos por uma plêiade homens sem capacidade, nela caíram de modo grosseiro. 


GUERRA FRANCO-PRUSSIANA 


O motivo que deu origem ao conflito foi à sucessão do trono espanhol. Isso porque Napoleão III se opôs à candidatura de Leopoldo de Hohenzollern, parente de Guilherme I, rei da Prússia, candidatura essa apresentada por Bismarck, temeroso do poderio francês e da sua influência junto aos demais estados europeus. A França, por sua vez, não poderia concordar que a Espanha fosse governada por um Hohenzollern, ficando assim comprimida entre duas potências aliadas. Em caso de conflito, teria que lutar em duas frentes, o que lhe seria altamente prejudicial.Guilherme I atendeu ao pedido da França, retirando a pretensão de Leopoldo. Contudo, a França quis definitivamente afastar tal perigo, exigindo que o rei prussiano se comprometesse a nunca mais consentir que um Hohenzollern aspirasse ao trono espanhol. O rei prussiano, no entanto, não quis assumir tal compromisso. Bismarck aproveitou-se desse pretexto. Procurou utilizar todas as armas diplomáticas para conseguir que a guerra fosse deflagrada. Ao que parece, estava convencido que a unificação do sul só se daria após uma luta armada. Para conseguir isso, serviu-se de um estratagema. Tornou pública a resposta de Guilherme I, enviada por telegrama de Sem, onde estava o rei prussiano. O telegrama tinha a seguinte redação: “O Conde Benedetti (embaixador da França) segurou-me no passeio e pediu-me insistentemente para lhe dar autorização de telegrafar imediatamente, pois eu tomaria para sempre o compromisso de não consentir na candidatura Hohenzollern, se porventura ela fosse apresentada. Naturalmente, eu lhe fiz saber não ter nenhuma notícia, e ele, estando mais rapidamente informado do que eu, pelas vias de Paris e de Madrid, deveria verificar estar meu governo alheio a tudo”. Bismarck encontrava-se em um restaurante em Berlim, em companhia de Moltke, ao receber o citado telegrama do rei. Em resposta, redigiu um telegrama, o qual deu à publicação, em termos bastante obscuros, fazendo crer que aquele texto, pertencia a Guilherme I.


Os termos do telegrama eram os seguintes: “Depois o embaixador francês ainda insistiu, em Ems, para SM o rei autorizá-lo a telegrafar a Paris, dizendo que SM o rei se comprometia, para sempre, a não dar seu consentimento caso os Hohenzollern voltassem com sua candidatura. SM à vista disso, recusou-se a receber o embaixador francês e lhe fez dizer, pelo ajudante de ordens em serviço, que SM não tinha mais nada a comunicar ao embaixador”. 


O conhecimento do teor do telegrama e a sua publicação, feita de modo totalmente inesperado, fez muitos suporem que Guilherme I, com aquele documento havia insultado o embaixador francês. Na França, a notícia sobre o incidente correu célere por todo o país. Os termos obscuros com que estava o telegrama e a falta de dados atuais, provindos da Prússia, sobre a autoria do mesmo, contribuíram para que a opinião pública, o parlamento e o imperador, fossem levados a um estado de extrema paixão. A 15 de julho de 1870, os ministros de Napoleão III solicitaram ao Parlamento a declaração de guerra. Iniciada a luta, a Prússia recebeu o apoio dos Estados meridionais que, graças a habilidade do chanceler prussiano estavam convencidos de que a Prússia fora vítima de uma agressão. Bismarck, uma vez mais não se enganara... 


Desde o início da batalha, a conjuntura militar mostrou-se favorável à Prússia. De fato, em número, a situação militar apresentava-se da seguinte forma: a França tinha um exército disponível de 230.000 homens e a Prússia, contando-se com os estados germânicos, somava 520.000. Além disso, a organização das tropas prussianas e a disciplina dos seus soldados, além da estratégia dos seus generais, constituíam fabuloso fator para a vitória. 


As operações logo revelaram a superioridade prussiana. Assim, a 4 de agosto, depois de apenas dois dias de luta, todo o exército do general francês Mac-Mahon foi vencido na batalha de Froeschviller que os alemães chamam de Woerth. No mesmo dia, o General Frossard fazia-se bater pelo 1º Exército alemão na Batalha de Forbach ou Spicheren, sem que o Marechal Bazaine, que se achava nas proximidades, interviesse contra a posição aventurada dos alemães. A seguir, Mac-Mahon, retirou-se, abandonando a Alsácia aos alemães, que cercaram Strasburgo e Belfort, enquanto Bazaine deixava-se cercar em Metz, depois de haver sido batido inexplicavelmente nas batalhas de Saint-Privat ou de Gravelotte e de Rezonville, ou de Borny. Bazaine estava paralizado em uma praça forte, com a fina flor do exército francês, 180.000 homens e 1.600 canhões. Mac-Mahon procura socorrê-lo, mas a marcha não é feita com o segredo exigido nem a rapidez necessária. Os exércitos dos príncipes reais da Prússia e da Saxônia saem-lhe ao encontro e derrotam os franceses, empurrando-os para Sedan, na fronteira belga. Apesar de seu elevado número – 90.000 homens – não conseguem a façanha de resistir. Encurralados, são obrigados a render-se, tendo à frente o próprio Napoleão III que entrega a sua espada e é enviado cativo, ao castelo de Wilhemshoehe. Estava a França praticamente sem exército com seu território invadido e o imperador prisioneiro. A notícia da capitulação de Sedan chega a Paris no dia 4 de setembro. Ao espanto, sucede a revolta. A população indignada amotina-se e proclama a República. Organiza-se um governo de defesa nacional e resolve-se continuar a guerra. 


O General Trochu assumiu o comando da praça, dirigindo uma circular que terminava com esta declaração espartana: “Nós não cederemos nenhuma polegada de nosso território, nem uma pedra de nossas fortalezas. Uma paz vergonhosa seria uma guerra de extermínio”. 


Foi então que Thiers, tido como o mais hábil político da França, tentou realizar um armistício. Teve uma entrevista com o General Ducrot, convindo que se recorde a resposta desse general, para que sirva de exemplo aos derrotistas de todos os tempos. Ao general Ducrot, que lembrava que a resistência de Parias apagava as vergonhas de Sedan e de Metz, Thiers retrucou que o general falava como um soldado e não como político. “Senhor – replicou Ducrot – eu acredito também falar como político porque uma grande nação como a nossa se levantaria sempre de suas ruínas materiais, mas ela jamais se levantaria de suas ruínas morais”. (Monsieur Thiers contre l´Empire”, Grasset). 


Resolvido que a guerra prosseguiria de qualquer maneira ainda que a França estivesse sem a espada de seus exércitos, que haviam capitulado iniciou-se o seguindo período da resistência. Esta foi épica, e Leon Gambetta tornou-se o animador extraordinário da luta que ensanguentava o solo da França imortal. O civil se transformou em soldado, levantando a França ferida de morte o seu exército. Os alemães, porém, estavam senhores da situação e venceram facilmente esse punhado de bravos. Militarmente, a França já estava vencida. Ela apenas lavou a sua honra no sangue que soube derramar no campo de luta. A 18 de janeiro de 1871, Paris capitulava, e a 28 o armistício foi assinado, tendo sido a 18, no Castelo de Versalhes, proclamado o Império Alemão, entre as nações germânicas que haviam tomado parte na guerra contra a França. O imperador aclamado era o rei da Prússia, Guilherme I, que com esse mesmo nome foi feito chefe de todos os alemães.No dia 10 de maio de 1871, era assinada a Paz de Frankfurt, pela qual a França era amputada de suas províncias da Alsácia e Lorena, devendo ainda pagar uma indenização de 5 bilhões de francos em três anos. Na Alemanha o entusiasmo patriótico, advindo das sucessivas vitórias, possibilitou a Bismarck anexar os estados meridionais à Confederação Germânica do Norte. Assim no curso da guerra, foram realizados sucessivos tratados, que terminaram por unificar toda a Alemanha em um só Império, a ser dirigido pelos Hohenzollern.


O ato formal da unificação deu-se no dia 18 de janeiro de 1871, durante a ocupação alemã em Paris, tendo o ato sido realizado no Palácio de Versalhes, recebendo, na ocasião Guilherme I da Prússia, o título de Imperador da Alemanha. Bismarck foi alçado à dignidade de príncipe, tornando-se daí para frente, chanceler do Império. Concluía-se, desse modo, o lento processo de unidade alemã. A importância desses fatos para o futuro do império para a sua expansão política e econômica foi transcendental. O desenvolvimento que tomou o império de 1871 a 1914, suscitou uma concorrência comercia e industrial, levando os países a resolver essa pendência pelas armas, eclodindo desta maneira a Primeira Guerra Mundial. 


A "REVANCHE" FRANCESA 


A fase final e definitiva da unificação alemã acabou por originar, na França, uma reação de cunho eminentemente nacionalista que, de certo modo, teve longínqua repercussão no conflito mundial de 1914. Não foi um movimento decisivo e nem podemos afirmar que tenha sido um fator primordial. Mas não há dúvida que a derrota, para a França, com a perda dos ricos territórios da Alsácia e Lorena, tomou aspecto de dura humilhação nacional: para o governo, para a burguesia e para o povo em geral. Para o governo, porque nem pelas armas, nem diplomaticamente, pode evitar a considerável perda territorial, para a burguesia industrial, porque subitamente se viu despojada das preciosas jazidas minerais, justamente quando se retomava, com certo ímpeto, o desenvolvimento industrial, sendo portanto, num momento particularmente importante, obrigada a recorrer à importação de matéria-prima, para o suprimento de seu parque industrial em expansão, para o povo, porque este participou ativamente do movimento, visando o pagamento da indenização imposta pelo insucesso da luta, tomando, a partir de então, consciência mais nítida do que representara aquele fracasso, frente as tropas prussianas. 


A reação francesa iniciou-se logo após a cessação das hostilidades. Foi principalmente liderada pela imprensa, que diariamente, através de artigos apaixonados e transbordantes de doentio nacionalismo, logrou envenenar a população, mantendo vivo o sentimento anti-alemão. Até nas escolas, os ecos dessa campanha fizeram-se ouvir. Entre intelectuais franceses, ela encontrou apoio, destacando-se a pregação de Raymond Poincaré (1860-1934), que chegou a afirmar não ver razão para que sua geração continuasse a viver, se não conseguisse reaver as províncias perdidas da Alsácia e Lorena. Também o pagamento da dívida imposta pela Alemanha, a título de indenização, erigiu-se em ponto de honra nacional: A França inteira participou do movimento, o que permitiu a ela saldar integralmente a quantia estipulada, em tempo recorde. Ao que parece, até ao Chanceler Bismarck teria causado admiração a pontualidade da França, quitando, dentro do prazo, os compromissos assumidos em virtude da guerra. O astuto chanceler teria então afirmado que, se soubesse serem os franceses capazes de tal mobilização, teria se esforçado por ter imposto um resgate, com valor duas vezes superior ao estipulado. Essa reação, bastante grande logo após o insucesso de 1870, foi no entanto se diluindo com o tempo. Por volta de 1914, existia já forte oposição a ela.


Diversas correntes combatiam-na vivamente, como muitos dos liberais e os socialistas em geral. Entretanto, o ódio cresceu em muitos espíritos. Nunca mais os interesses da França, vão coincidir com os da Alemanha. O sabor da revanche e da desforra, vai alimentar muitos indivíduos. A ruptura do equilíbrio europeu, em 1914, com a consequente derrota da Alemanha, em 1918, pode, sem dúvida, dar ensejo a uma desforra. Mas não será o Pacto de Versalhes que porá fim à hostilidade e o ódio crescerá, novamente, em muitos espíritos. 


A UNIFICACÃO ITALIANA 


Paralelamente ao movimento em prol da unificação da Alemanha, a Península Itálica, também até então uma simples ideia geográfica, lutava por sua unidade. Desse modo, pode-se avaliar como o nacionalismo foi, progressivamente, estendendo seus poderosos tentáculos por toda a Europa. Esse movimento igualmente envolveu as nações europeias, como a Áustria, França, Prússia e Rússia, que, de um modo ou de outro, numa ou noutra fase do processo unificador, intervieram na luta. Por outro lado, o movimento unificador italiano é uma peça importante, para a compreensão de todo o contexto que antecedeu à Grande Guerra de 1914-1918. 


A ITALIA ANTES DE 1815 


De há muito se haviam ofuscado as poderosas e soberbas cidades-estados italianas, como Veneza, Florença, Gênova, Pisa, que conheceram momentos de grande glória e considerável riqueza, na Idade Média, quando então dominavam o Mediterrâneo e faziam a única ligação existente entre a Europa Ocidental Cristã e o Empório comercial do Oriente. Nessas cidades já haviam desaparecido, quase que totalmente, os vestígios de suas opulências, responsáveis pela iniciativa capitalista, pelos primórdios das manufaturas têxteis e por uma incipiente atividade bancária e comercial.



A política italiana, progressivamente, levou a Península à divisão do território em uma infinidade de principados que, com sucessivas guerras, aceleraram a decadência, não passando de um agregado de Estados de pequenas superfícies, invejosos uns dos outros e esquecidos das glórias do passado.
 No século XV, as intrigas dos chefes políticos abriram as portas à dominação dos exércitos de Carlos VIII (1470-1498, rei em 1483), que reivindicou Nápoles para si, seguida das novas investidas francesas por parte de Luís XII (o Pai do Povo, 1462-1515, rei em 1498). No século XVI, foi a vez dos espanhóis, que ficaram senhores de Milão e do Reino de Nápoles. No século XVII, devemos destacar o fortalecimento que teve a Casa de Savóia, junto aos Alpes. No início, não estavam definidas totalmente as suas tendências, apresentando interesses franceses e italianos. Depois, fixou-se definitivamente na Península. Neste século, assinala-se ainda o decréscimo da influência espanhola no Sul da Itália, substituída pela dominação austríaca, já grande nas cidades setentrionais. No século XIX, a Itália sofrerá modificação vinda do domínio napoleônico. Em setembro de 1802, o Piemonte era anexado ao Império Francês. Em 1805, Napoleão transformava a República Italiana em Reino Unificado. No mesmo ano, recebia, em Milão, a coroa de ferro dos reis lombardos, e confiava o cargo de vice-rei a seu enteado Eugênio de Beauharnais. Por volta de 1809, a situação da Península se apresentava mais clara, podendo distinguir-se três divisões territoriais distintas:


1 - Os departamentos italianos integrantes do Império Francês.


2 - O Reino da Itália. 


3 - O Reino de Nápoles.
 


Só escaparam à ação da França a Sardenha, sob a chefia de Vitor Emanuel I (1759-1824 rei de 1802 a 1821, de Savóia), e a Sicília, sob a égide de Fernando I (1751-1825). Deve-se ressaltar, finalmente, o fato de haver sido Napoleão um pré-unificador da Península pois, além de criar o Reino da Itália, realizou muitas reformas, instituindo a liberdade civil, religiosa, uniformidade de legislação, fatos que acabaram por despertar a consciência nacional. 


A ITÁLIA ENTRE 1815 -1830 


Quando o Congresso de Viena iniciou sua fase de compensações territoriais, as Grandes Potências procuraram dividir os espólios da vitória sobre Napoleão, a Itália, particularmente, serviu à voracidade dos reis vencedores, e entrou ativamente na política de repartição de territórios, voltando pois a se constituir, de novo, em mera ideia geográfica. Os fatos mais importantes dessas decisões, com relação à Península, foram: 


a) a restauração da Casa de Savóia nos reinos de Piemonte e Sardenha. 

b) o retorno dos reis pertencentes à Casa dos Bourbons de Espanha, ao Reino das Duas Sicílias. 


c) a recuperação dos territórios papais. 


d) a entrega à Áustria de Veneza, do Ducado de Milão, predomínio reconhecido na Toscana, Parma, Modena, onde deveriam, a partir de então, reinar pessoas ligadas à Casa dos Habsburgos.


Isso em compensação por ter a Áustria cedido a Bélgica à Holanda, que por sua vez perdera territórios coloniais na África do Sul, na Guiana e no Ceilão, para a Inglaterra. Logo depois do Congresso, iniciou-se na Itália a luta pela unidade nacional, liderada por chefes capazes e com muita consciência dos objetivos a serem alcançados, além de contarem com o apoio decisivo da Casa de Savóia, em torno da qual se processou o movimento unificador. 


A unificação inicia-se com o movimento conhecido como "Risorgimento", ou seja, desejo de retomar ao passado glorioso da Itália, representado pelas eras de grande poderio da Península, o que se deu durante o Império Romano e na época das repúblicas comerciais da Idade Média. A maior manifestação do período foi o surgimento de um movimento, a princípio clandestino, aparecendo depois as conspirações dos carbonari, que agitaram o Piemonte, a Lombardia, e Nápoles. 


AS REVOLUCÕES DE 1830 E 1848 


Já se fez menção à revolução irrompida na França em 1830, que pôs abaixo o governo despótico de Carlos X (1757-1836, rei de 1824-1830), monarca de caráter reacionário, mostrando-se principalmente contra os ideais de 1789. A agitação culminou com a deposição do rei e a ascensão de Luís Filipe, que contava com a simpatia da alta burguesia, sendo por isso cognominado o Rei Burguês. A Revolução de 1830 teve, pois, um caráter liberal, contribuindo para abrandar, na França, a reação monárquica, e esta tinha como líder supremo na Europa o ministro austríaco Metternich. Na Itália, essa onda liberal teve repercussões, em fevereiro de 1831, iniciando-se com uma revolta em Bolonha, que contou com o apoio de revolucionários estrangeiros, inclusive do sobrinho de Napoleão, o futuro imperador de França, Napoleão lII. As agitações atingiram, igualmente, os Estados Pontifícios, chefiados na ocasião, por Gregório XVI (Mauro Capellari, n. 1765; papa de 1831 a 1846), amigo dos Habsburgos, e portanto de índole conservadora.



Em Parma e Módena, manifestaram-se descontentamentos com os chefes austríacos, originando-se agitações que foram sufocadas pelas tropas fiéis àqueles chefes, restaurando-se a ordem.
 As consequências desses movimentos, entretanto, logo se fizeram sentir.


A exacerbação nacionalista apresentou-se num crescendo, traduzindo-se em manifestação de profundo desafeto aos dominadores estrangeiros, chegando mesmo a assumir contornos de um sentimento de verdadeiro ódio aos austríacos. Depois desses sucessos, a propaganda liberal organizou-se intelectualmente. Dela participaram historiadores e escritores, como Leopardi (Giacomo, 1798-1837) e Guerrazzi (Francesco Domenico, 1804-1873), os quais, em suas obras, defenderam os ideais unificadores. 


A partir de então, surgem diversas tendências para a realização da unidade. Uns, como o abade Gioberti (Vincenzo, 1801-1852), que sugeria como solução uma federação, sob a direção do papa. Massimo d' Azeglio (Massimo Taparelli, 1798-1866) e Cesare Balbo (1789-1853) sonhavam com a unificação em torno do Piemonte, e com o recuo das fronteiras austríacas para além dos Alpes. Giuseppe Mazzini (1805-1872), grande entusiasta da unidade, fundador do movimento A Jovem Itália (1835), propugnava de um lado por uma unificação em que se estendessem os ideais de liberdade e, quanto ao regime, optava pela Federação Republicana. Mas o expoente máximo do movimento unificador, foi Camillo Benso (Conde de Cavour, 18101861), que desenvolveu, desde 1835-1848, no campo dos negócios, intensa atividade, promovendo a agricultura científica no Piemonte, introduzindo o guano do Peru em terras italianas, inaugurando a manufatura mecanizada no Norte da Itália. Dedicou-se ainda, à atividade bancária em Gênova e Turin. Dirigiu indústrias de produtos químicos, companhias de vapores, que operavam dos Lagos do Norte da Península e construiu primeira linha de estrada de ferro peninsular. A simples enumeração de suas múltiplas atividades dá ideia do dinamismo de que era dotado. Além disso, era pensador brilhante, adepto das ideias de Rousseau, Adam Smith e Jeremy Bentham (1748-1832). Fundou, em 1847, o famoso periódico "Il Risorgimento", que logo se converteu em porta-voz da opinião liberal italiana. Defendia a adoção da monarquia constitucional, com base na Sardenha, que era governada pela Casa de Savóia. Entretanto, as revoltas ocorridas em 1848 trouxeram à tona, novamente, os ideais liberais democráticos e a questão social.


Sensíveis modificações deram-se no panorama político peninsular:


Os governantes, premidos pelos levantes revolucionários, são obrigados a fazer concessões democráticas. Assim, na Sardenha, Carlos Alberto (1798-1849, rei de 1831 a 1849), proclama o Estatuto Fundamental: conjunto de leis reguladoras das liberdades civis e que previam a formação de um governo parlamentar. Para atender à pressão dos liberais, é obrigado a colocar-se à frente de suas tropas, contra os austríacos. Em Veneza, a república foi proclamada por Manin (Daniel, 1804-1857). No entanto, a situação estabilizou-se, pela apatia manifestada pelo papa em relação à causa nacional, e pelo desinteresse do rei de Nápoles. A chegada de reforços austríacos faz com que Carlos Alberto seja derrotado, em Custozza (23-25 de julho de 1848), obrigando-o a assinar o armistício. A fúria liberal prosseguiu, no entanto, com um levante na Sicília e o assassinato, em Roma, do Ministro Rossi (Pelegrino, conde, 1787-1848), ocorrido em novembro, fazendo com que o Papa Pio IX (Giovanni Maria Mastai-Ferretti, n. 1792; papa de 1846 a 1878) se refugiasse em Gaeta. 


O ano de 1849 foi marcado por novos sucessos: Carlos Alberto sofreu nova derrota em Novara, abdicando em seguida em favor de seu filho Vitor Emanuel II (1820-1878); o papa, nesse mesmo ano, voltou a Roma, e a Áustria contentou-se simplesmente a receber indenizações pelas lutas que teve de empreender. Mais uma vez, adiava-se a unificação. 


A ASCENSÃO DE CAVOUR E A UNIDADE DEFINITIVA 


Camillo Bemo, Conde de Cavour, além de suas variadas atividades em prol do desenvolvimento do Piemonte e da Sardenha, teve ainda destacado papel na conquista da unidade definitiva da Itália. Assim, em 1850, foi nomeado ministro do Comércio e Agricultura e, dois anos mais tarde, passou a ser primeiro-ministro, quando, teve oportunidade de encaminhar o problema da unificação, realizando-a sob a tutela da Casa de Savóia. Embora fosse de personalidade, temperamento e métodos diversos dos de Bismarck, revelou-se, contudo, um hábil político, tal qual foi o Chanceler do Reich. Com a mira voltada para obter o concurso da França, nos acontecimentos político-militares que deveriam preceder a unificação - pois Cavour era de opinião que jamais seu objetivo seria obtido sem a participação de uma potência estranha, como a França, que mantinha acesa uma luta contra a casa d'Austria, desde Francisco I -, fez o reino SardaPiemontês entrar na Guerra da Criméia, contra a Rússia, ao lado da França, da Inglaterra e da Turquia. Para isso, preparou um pequeno corpo expedicionário, o qual tomou parte em todos os encontros da luta que terminou em 1855. Cavour toma parte no Congresso de Paris, destinado a resolver "A Questão do Oriente". Aproveitando o ensejo, lavra ali o seu protesto contra a tirania que a Áustria exerce na Itália. As potências reunidas aplaudem suas palavras, mas se recusam a intervir na questão italiana. Os patriotas exigem o auxilio da França e procuram obtê-lo por todos os meios. Recorrem aos atentados pessoais destinados a intimidar Napoleão III (atentado de Pianori, em 1855; de Orsini, em 1858) ; fazem larga campanha jornalística, nos principais países da Europa; e conseguem, por fim, que o imperador francês se encontre com Cavour, em Plombieres (julho de 1858). Napoleão III ouve o patriota, concorda com as suas razões e promete auxiliar o rei da Sardenha, em caso de agressão da Áustria, com a condição de receber a Sabóia e Nice. Obtidos estes resultados, Cavour, que fundara em 1857 a Sociedade Nacional Italiana, destinada a unir todos os patriotas, redobra as atividades: Estreita as relações com a França, mediante o casamento da Princesa Clotilde, filha de Vitor Emanuel, com o Príncipe Jerônimo Napoleão, primo do imperador, e converte em tratado a entrevista de Plombieres. A Áustria, conhecedora destes acontecimentos, reforça o seu exército na região lombardoveneziana. 


A Sardenha declara-se ameaçada, mobiliza suas forças e aceita voluntários de toda a Itália. A Inglaterra tenta resolver a questão num congresso. No momento, porém, em que este está para ser iniciado em Viena, o Imperador Francisco José I (1830-1916; monarca em 1848) perde a paciência e envia um ultimatum a Vitor Emanuel: Exige o desarmamento no prazo de três dias e o licenciamento dos voluntários. O rei da Sardenha se recusa. A Áustria declara guerra contra o pequenino reino dos Savóia. Cumpriam-se os desejos de Cavour, que manobrara no sentido de ser a Áustria a primeira a atacar, permitindo a Napoleão III intervir. Iniciada a guerra, os austríacos passam o Ticino e apoderam-se de Novara. Napoleão IlI fiel a seu compromisso, dirige-se para a Itália com um exército de 180.000 homens, estabelecendo o seu quartel-general em Alessandria, enquanto as forças de Vitor Emanuel tomam posições para enfrentar os austríacos. Os franceses vencem a Batalha de Montebello (20 de maio de 1859) e os piemonteses a de Palestro (22 de maio). Em 4 de junho de 1859, fere-se a cruenta Batalha de Magenta, ganha por Mac-Mahon, que por esse feito recebe o título de Duque de Magenta e o bastão de marechal. Com esta vitória, o exército aliado entra em Milão. Os austríacos, vencidos, retiram-se para além do Míncio. A Batalha de Solferio (24 de junho), desastrosa para os austríacos, decide a sorte da guerra.


Napoleão III, inesperadamente, oferece a paz ao inimigo. O acordo é concluído em Villafranca (11 de julho) e estas preliminares são confirmadas pelo Tratado de Zurich (10 de novembro). A explicação que se pode encontrar para o recuo de Napoleão III parte da apreciação de dois fatos principais: primeiro, o receio de uma ampla coligação dos Estados germânicos contra a França, levando-a a uma derrota final e comprometendo assim o prestígio francês, segundo, a campanha que Cavour movia contra os Estados Pontifícios, pois o papa, em sucessivas oportunidades, mostrou-se indiferente à luta pela unificação, levando Cavour a mover acirrada oposição ao poder papal naqueles territórios.


Essa situação levou o imperador da França a temer uma incompatibilização com os patriotas católicos, os quais, poderiam então, acusá-lo de ajudar uma causa anticlerical. Entretanto, apesar desses contratempos, um balanço geral da conjuntura era francamente favorável ao incansável ministro italiano, pois conseguira anexar a Lombardia, os ducados de Toscana, Parma e Módena. Obtivera, também, a adesão da setentrional dos Estados Pontifícios, os quais, no transcorrer da luta, eram liderados pela Casa de Savóia. Dessa maneira, a Sardenha já era então considerada o mais poderoso dos Estados italianos. 


O ano de 1860 foi pródigo para a causa unificadora. A Casa de Savóia pode estender seu poderio até ao Reino das Duas Sicílias. E isso se realizou de maneira quase inesperada. O herói romântico, Garibaldi (Giuseppe 1807-1882), atacou o reino, nessa época governado por Francisco II (18361894), da Casa dos Bourbons. Com um regimento de 1.000 camisas vermelhas, libertou a Sicília e marchou triunfalmente sobre Nápoles. No decorrer do ano, todo o reino estava em mãos do extraordinário condottiere, cujo nome também se ligou à Guerra dos Farrapos, no Sul do Brasil (1835-1845). Garibaldi, de índole republicana, ao que parece, quis tornar o reino conquistado, em república independente. No entanto, recuou de seu propósito inicial, entregando-o, finalmente, ao domínio da Sardenha. As cláusulas do Tratado de Zurich não agradam aos partidários da unificação, que se insurgem contra Napoleão III, ao qual acusam de haver faltado à palavra. Realmente, Vitor Emanuel não obtivera as compensações desejadas.


Portanto, a luta prossegue, cada vez mais intensa. Aproveitando-se da retirada dos austríacos, os ducados da Itália Central sublevam-se, mesmo antes de encerrado o Congresso de Zurich. Parma, Módena, Bolonha e Florença, revoltam-se em massa. Realizados plebiscitos, favoráveis à união, colocam-se na dependência do Piemonte. A campanha continua, com um entusiasmo cada vez mais crescente. Para a unificação completa, faltam apenas o Reino das Duas Sicílias e os Estados Pontifícios. No dia 25 de maio de 1860, Garibaldi, em concordância com Vitor Emanuel, simula um ato de pirataria: Apodera-se de dois navios, no Porto de Gênova, embarca com os seus 1.000 voluntários (Garibaldi e i Mille), dirige-se sobre a Sicília (Expedição dos Mil) e desembarca em Marsala. Apodera-se da ilha, com facilidade. Em seguida, marcha rumo a Nápoles, onde quase não encontra resistência, instituindo aí um governo republicano. 


Por seu lado, Vitor Emanuel prepara um plano destinado a dar-lhe a posse dos Estados Pontifícios: Finge grande inquietação, pela desordem reinante em Nápoles. Afirma que, visando o interesse da Itália e da França, vê-se forçado a intervir. Para tanto, é obrigado a atravessar os Estados da Santa Sé. Obtém de Napoleão III a neutralidade da França e coloca suas tropas em movimento. O exército pontifício é derrotado na Batalha de Castelfidardo (18 de setembro de 1860). O monarca atravessa as Marcas e a Úmbria, que se lhe reúnem, após realizarem um plebiscito e marcha sobre Nápoles. Garibaldi retira-se para a Ilha de Caprera e renuncia a todas as honras que lhe são oferecidas. O Reino das Duas Sicílias é incorporado ao Piemonte. Em 17 de março de 1861, Vitor Emanuel II da Sardenha é proclamado Rei da Itália.



Roma, no entanto, continua na posse da Santa Sé. Em 1870, quando estava sendo vencida pela Prússia, a França teve de retirar suas tropas que protegiam o Papa Pio IX. Os italianos aproveitam-se da ocasião, para atacar as províncias que a Santa Sé ainda possui. Conquistam Roma, em 20 de setembro, tendo Garibaldi, que voltara à luta, nela penetrado pela Porta Pia. Cavour, entretanto, morreu sem ver seu ideal totalmente realizado. Mas os passos decisivos para a sua consecução, inegavelmente foram de sua inspiração. Quando da Guerra Austro-Prussiana de 1866, os austríacos foram obrigados a ceder Veneza à Itália, após a derrota, como recompensa pela participação dos italianos no conflito.


A fase final da unidade foi a conquista dos Estados Pontifício;. em mãos do papa que os administrava sediando o seu poder em Roma. Vitor Emanuel tenta resolver a situação oficial do Sumo Pontífice. Deixa-lhe o Vaticano, o palácio e basílica de Latrão, a Catedral de São Pedro e o castelo de Gandolfo, residência de verão.


A lei das garantias, votada pelo parlamento italiano, dá ao papa liberdade de ação dentro destes limites. Pio IX, mantendo a opinião de que a lei das garantias fora feita sem seu consentimento, recusa-se a aceitá-la, considerando-se como prisioneiro. Disso resulta a famosa questão romana, apenas resolvida em 1929. Em julho de 1871, Roma passou a ser a capital do Reino Unido (antes, o fora Florença). Completava-se assim, a reunião dos Estados Italianos. E, com isso, mais uma página do nacionalismo era escrita na História Europeia! Só faltavam as terras irredentas que motivaram a entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial, pois o seu objetivo, arrebatando-as da Áustria, era levar suas fronteiras até ao Tirol e até a Dalmácia. 


O NACIONALISMO NOS BALCÃS 


Dos movimentos nacionalistas, a Questão dos Bálcãs foi a que teve relações mais diretas com a Primeira Grande Guerra. De fato, a unidade alemã, observando-se mais detidamente, relaciona-se com o conflito mais pelo aspecto econômico por ela representado, pois a Alemanha unificada conquistou um desenvolvimento industrial que assombrou as demais nações, principalmente no período de 1870-1914. A revanche francesa foi, por assim dizer, uma repercussão político-econômica da unidade alemã, atuando como pano de fundo nos acontecimentos que antecederam a Guerra. A unidade italiana teve ressonância na esfera diplomática, parte essencial para se compreenderem os eventos que levaram à guerra, porém o papel por ela desempenhado, nessa revolução diplomática, foi bastante secundário, e a unificação é mais um capítulo que exprime fielmente o nacionalismo do século XIX. Entretanto, os problemas surgidos nos Bálcãs propiciaram sucessivas crises internacionais, que abalaram definitivamente o equilíbrio europeu.



Basta adiantar que a última das crises balcânicas levou as potências a um tal estado de excitação nacional, que a guerra tornou-se inevitável.  Assim, pode-se apresentar a primeira característica do nacionalismo balcânico: ele se vinculou diretamente aos incidentes que conduziram à guerra e constituiu permanente ponto de atrito entre grandes Estados, ameaçando constantemente a paz mundial.   O segundo aspecto a ser destacado, é com respeito às proporções que atingiram os acontecimentos balcânicos e às lutas que se sucederam para agrupar as nações eslavas. Os conflitos ali surgidos não lograram contar com a união global de todos os eslavos. Isso se explica pelo esfacelamento progressivo que esses povos sofreram em suas autonomias, no curso da história, pertencendo muitos deles a Estados tradicionalmente rivais, dificultando e impedindo sua união total. Esses fato levaram as lutas nacionais a serem muito mais ásperas e árduas, e acabaram trazendo maiores tropeços ao já tão frágil equilíbrio europeu. Tudo terminou na decadência do Império Otomano, o qual dia a dia ia se enfraquecendo e perdendo seu prestígio internacional. Esta desmoralização não era somente exteriorizada na sua decadência, mas também nos contínuos massacres e abominações praticados pelos turcos para dominar as nacionalidades cristãs, habitantes do Império otomano, ansiosas por sua liberdade. 


A FORMACÃO E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO OTOMANO (1299-1827) 


Data de 1299, o início da independência do pequeno Estado Otomano. O primitivo território independente foi depois acrescido, graças às lutas empreendidas por Osman I (1259-1326), contra os castelos bizantinos. Por volta de 1330, outro chefe turco, Orkhan Ghasi (1280-1360), conquistou Nicéia, a segunda cidade do Império Bizantino em importância. Com essa expansão, a Asia Bizantina ficou sensivelmente reduzida. Em 1335, os turcos tomavam Pérgamo. A partir de então, fizeram um esforço concentrado para se instalarem em território europeu. Com Murad I (1319-1389), inicia-se a tão sonhada conquista. Na Europa, a atenção dos otomanos voltou-se para os estados balcânicos.


Os sérvios, húngaros e outras nações dos Bálcãs, coligaram-se para enfrentar o perigo muçulmano. O esforço desses estados foi inútil. Em 1390, os otomanos conquistaram a Macedônia, a Bulgária e a Sérvia. Chegou-se a formar uma cruzada, a pedido de Sigismundo (1368-1437 imperador da Alemanha, em 1410-1437, rei da Hungria, em 1387-1437, e da Boêmia, em 1436-1437), rei da Hungria. Dela participaram João sem Medo (duque de Borgonha, 1371-1419) e os grão-mestres da Ordem dos Cavaleiros de Rodes e dos Cavaleiros Teutônicos. Entretanto, os exércitos cristãos foram derrotados em Nicópolis (1396).


Em decorrência desse fato, a Tessália caiu em mãos dos infiéis. Em 1453, data que os historiadores escolheram para marcar o início da Idade Moderna (1453-1789), chegou a vez de Constantinopla sucumbir e, com ela, o que restava do Império Romano do Oriente. Em 1456, os turcos apoderaram-se da Grécia, em 1464, da Bósnia e Herzegovina, de 1461 a 1475, assenhoreiam-se de todo o Mar Negro e dos territórios de Cata, Criméia e Azov.        


No século XVI, os cristãos conseguiram derrotar os otomanos em Lepanto (1575), mas em 1683, os turcos assediaram Viena, que resistiu ao seu avanço. Depois destas investidas, o ímpeto otomano diminuiu de intensidade. Inicia-se um processo de decadência, que irá terminar no início do século XX. Fatores internos, como o aparecimento dos janízaros - classe guerreira contrária a qualquer tipo de reformas, e que se converteu em verdadeira guarda pretoriana -, aliado à corrupção administrativa e, também, questões religiosas, acabaram levando o império a um desmoronamento territorial. É curioso observar que a decadência otomana gerou, na política europeia, um problema conhecido como a Questão do Oriente, levando as potências a participarem de intrigas diplomáticas, tendo como objeto o decadente Império. 


Tomou-se conhecida, igualmente, a política de defesa da integridade do território turco. Os despojos do Império eram motivo constante de desavenças nas cortes europeias. Dessa maneira, no século XVII, assistimos ao início da ruptura territorial otomana. Em 1687, a Áustria recuperou, para sempre, a Hungria. Em 1718, após sucessivas lutas, Veneza recebeu as praças da Albânia, Dalmácia, Herzegóvina, e a Áustria, Belgrado e a Valáquia. O ano de 1771 é a data da independência da Criméia. Em 1812, entregava-se aos russos a Bessarábia.


Em 1827, a França, Inglaterra e Rússia desbarataram a esquadra turca, em Navarino. Contudo, apesar destes insucessos, o Império era ainda bastante extenso, tendo os otomanos recuperado algumas de suas perdas territoriais, graças à política diplomática e aos interesses em jogo das grandes potências. Porém, os desmembramentos ocorridos depois de 1829 aguçariam os apetites europeus, gerando discórdias mais sérias. 


A AUSTRIA E A QUESTÃO BALCANICA 


Quando se iniciou o desmoronamento do grande Império Turco, a Áustria, progressivamente, procurou ampliar sua área de influência na região dos Bálcãs. Recuperou a Hungria e foi estendendo o seu domínio, em praças arrancadas aos otomanos. Entretanto, quando se consolidou o absolutismo dos Habsburgos, implantada por Maria Teresa e seguido por outros monarcas, a política austríaca foi, paulatinamente, enveredando para a proteção dos germanos, gozando esses de privilégios e posições administrativas mais importantes, em detrimento dos povos eslavos, que ajudavam a compor o Império austríaco. Impôs ainda a governo imperial o idioma alemão, coma língua oficial. Ora, o Império austríaco era de caráter bastante heterogêneo, integrado por diversas nacionalidades como alemães, checos, húngaros, eslovacos, romenos, eslavos do sul. Não apresentava, portanto., nenhuma unidade linguística ou racial. Essa situação dará origem a um crescente antagonismo dentro do Império, levando esses povos a participarem de sucessivas lutas, em todo o século. XIX, e ainda dando margem ao aparecimento de fortes preconceitos em relação aos eslavos, chegando. alguns a entender que um eslavo não é um homem. Tal conjuntura levou a uma exacerbação nacionalista sem precedentes, e tornou a Questão Balcânica explosiva, constituindo-se num verdadeiro barril de pólvora. 


A RÚSSIA E O NACIONALISMO BALCÂNICO 


O movimento nacionalista balcânico manifestou-se de forma dramática, em 1830, quando a Polônia, então sob dominação russa, tentou conquistar sua autonomia, pretendendo formar uma nova pátria. Contudo, o último e grande instrumento do absolutismo austríaco, o Ministro Metternich, colaborou para que se desse a mais terrível repressão a um movimento nacional. O pretexto para a sua intervenção veio com a agitação da Galícia. Incitou, a seguir, os camponeses contra os senhores feudais, revivendo uma verdadeira "jacquerie medieval" (movimento que se deu na Idade Média, numa época de grande escassez de víveres, e caracterizado por ser um grande levante camponês contra a nobreza, convertendo-se em verdadeiro massacre). A Rússia sufocou a revolta, mas a repressão foi inesquecível para os poloneses, que tiveram de aceitar, para sempre, a influência russa. A partir de então, muitos poloneses resignaram-se a não esperar a salvação da Polônia, senão através da salvação de todos os eslavos. A posição dos checos era bastante curiosa. Situavam-se numa verdadeira encruzilhada: afins dos poloneses, mostram-se sensíveis às aspirações dos eslavos da Áustria, daquele oceano de povos fraternos, no qual a Hungria é como que uma ilha flutuante. Aparecem, no campo intelectual, obras que demonstram a afinidade dos povos eslavos. Em 1837, surgiu Antiguidades Eslavas e, em 1842, Etnografia Eslava. Em toda parte, há uma fermentação dos ideais dos povos eslavos, escravizados e dominados por nações estrangeiras.   Calculou-se, por exemplo, que os eslavos da Europa representavam 80 milhões de almas. É um período em que escrevem-se histórias sérvias, histórias búlgaras; compõem-se gramáticas, ressuscitam-se velhas lendas e todo um turbilhão de poesia sai da multissecular alma dos povos. Os eslavos, no entanto, não se apresentaram unidos. Essas divisões e desentendimentos facilitaram, aos políticos austríacos, a perpetuação de seu domínio sobre essas populações. Os eslavos encontraram um poderoso aliado, disposto a estender sua influência sabre a Península. Procura-se mesmo convencer as nações menores da Europa Oriental, sobre a conveniência de serem amparadas por uma grande potência que, assim, liderará o movimento nacional eslavo. Esse aliado é a Rússia, que intervirá abertamente na Questão Balcânica, na segunda década do século XIX, pois até então toda a Península dos Bálcãs, banhada pelos mares Egeu, Negro e Adriático, estava sob domínio dos turcos. Assim, a Rússia começa a imiscuir-se diretamente nos Bálcãs a partir de 1828-29, quando da guerra russo-turca. Com esse conflito, o czar vibrou rude golpe no sistema de Metternich e na política de legitimidades do Congresso de Viena, sendo mais uma nação a sair da quíntupla aliança (Áustria, Rússia, Inglaterra, Prússia e França, sendo que a Inglaterra foi a primeira a discordar). Intervindo no Império Turco, a política russa possuía dois objetivos: aguardava o desmembramento do Império Otomano, para expandir sua influência nos Bálcãs; por outro lado, queria assegurar o domínio dos estreitos do Bósforo e Dardanelos, a fim de que sua esquadra não encontrasse eventuais barreiras para sair do Mar Negro. A primeira oportunidade para alcançar esses objetivos, surgiu quando os gregos desencadearam uma rebelião contra os turcos. Porém Alexandre I, um dos participantes ativos do Congresso de Viena não se animou, ao que parece, a quebrar o conceito legitimista imposto pelo ministro austríaco. Depois de sua morte (1825), seu sucessor, Nicolau I (1796-1855, czar em 1825), não manteve os mesmos escrúpulos de seu antecessor. Aproveitou-se também da simpatia, manifestada pela França e Inglaterra, em prol da causa balcânica. Dessa maneira, em 1828, declarou guerra à Turquia e, em pouco mais de um ano, os exércitos russos chegaram às portas de Istambul (antiga Constantinopla, conquistada aos cristãos em 1453). Os turcos foram forçados, então, a assinar o Tratado de Andrianopla (setembro de 1829). As cláusulas desse tratado estabeleciam: a independência da Grécia e o protetorado russo sobre a Sérvia, Moldávia e Valáquia. Depois dessa intervenção bem sucedida, a Rússia incentivará os povos eslavos, tanto sob o domínio dos turcos, como depois sob influência da Áustria, a se rebelarem, sob sua proteção, pois o czar russo era o chefe mais poderoso dos estados eslavos e deveria ser o guia e protetor das pequenas nações irmãs dos Bálcãs. Essa a política oficial do governo russo, até antes de 1914. O movimento adquiriu amplitude e foros de doutrina, sendo mais conhecido como pan-eslavismo. Pode-se compreender quão perturbador para o equilíbrio europeu, apresentava-se esse corpo de ideias. Com a adoção dessa política, a Rússia se antagonizou com a Áustria pois ambas disputavam influência na mesma área. Terá como inimigo o Império Otomano, pois cobiça os territórios pertencentes a este, dispondo-se ainda a defender as nações cristãs, dominadas pelos chefes muçulmanos. Mas o jogo de influências não cessou por aí. A Inglaterra, por exemplo, não assistiu de braços cruzados à expansão russa nos Bálcãs. Sabia quão poderosa ela se tornaria, se conseguisse estender suas fronteiras até à Península, podendo inclusive participar e imiscuir-se em problemas da Europa Ocidental. Esse era o quadro, na primeira metade do século. O clima reinante nos Bálcãs apresentava tendência a tornar-se o mais rigoroso possível. Dentro desse espírito reinante na Europa, e particularmente nos Bálcãs, o Império otomano começa a desmoronar-se. Seu esfacelamento não se dá de pronto, por que as potências, imersas em suas complexas formas de política diplomática, não o permitiram. Por esse motivo, durante todo o transcorrer do século, o Império perderá territórios, mas não sucumbirá totalmente. É bastante curiosa a conjuntura turca: o extremo estado de decomposição, em que se encontrava o Império, ajuda-lhe a sobrevivência. A sua fraqueza acaba sendo elemento de segurança e estabilidade. Todas as nações anteviam seu fim, porém o grande enfermo, como era mais conhecido, era mantido com precioso plasma, através de sucessivas transfusões que as grandes potências lhe ministravam, segundo seus interesses mais imediatos. Com uma estrutura arcaica, avessa a reformas em seu organismo interno, a diplomacia europeia mantinha a integridade do Império Turco, esperando apenas por melhor oportunidade, para cair sobre seus despojos. A partir da segunda metade do século, a situação torna-se mais crítica para o sultão. Começa a enfrentar séria oposição interna, advinda de um movimento que se destina a reformar o Império. São os Jovens Turcos, que acabarão por controlar a situação, em 1908, destruindo o absolutismo imperial. Crítica igualmente se torna a situação nos domínios balcânicos. Em 1876, eclodem revoltas na Bósnia e Herzegóvina, Sérvia, Montenegro e Bulgária. O sultão, para não perder o controle nesses domínios e para punir os revoltosos, reprime as rebeliões com pulso de ferro, tomando a repressão aspectos desumanos, e mesmo sanguinários. O relato das atrocidades feitas a cristãos ortodoxos deu pretexto, à Rússia, para reacender sua luta secular no domínio balcânico. Em 1877, começa a guerra, conseguindo as tropas do czar uma vitória esmagadora. Apressou-se o sultão em assinar um tratado que pusesse fim ao avanço russo. Em 1878, as duas potências assinaram o Tratado de Santo Estefânio, estabelecendo que deveria o sultão entregar quase todo seu território europeu. As demais potências europeias, interessadas em evitar que a Rússia se fortalecesse em demasia, principalmente a Alemanha, a Áustria e a Inglaterra, pressionaram o czar, e este teve de rever o tratado.


O documento definitivo, que satisfazia de um modo geral a todos, foi assinado no mesmo ano e é conhecido como Tratado de Berlim (1878). O novo Tratado estabelecia: 


a) a Rússia ficava com a Bessarábia; 

b) a Tessália era concedida à Grécia; 

c) a Bósnia e Herzegóvina ficavam sob controle da Áustria; 

d) a Sérvia e Romênia eram proclamadas independentes; 

e) o Montenegro recebia Antivari; 

f) restituía-se grande parte do território europeu à Turquia. 


Esse tratado teve consequências bastante grandes para o equilíbrio europeu, pois os maiores problemas e crises, que antecederam ao conflito mundial, têm o seu ponto de partida nesse documento, firmado pela Turquia e pelas potências mais diretamente interessadas. De fato, quando a Áustria resolveu anexar a Bósnia e a Herzegóvina, tornando essas províncias partes integrantes do Império Austríaco, criou-se um sério problema para a Europa, pois a Sérvia discordou desse proceder, iniciando uma política de franca agressividade contra a Áustria, o que acabará, em 1914, conduzindo ao conflito armado. Após a Guerra Russo-Turca de 1878, a influência do czar junto às nações balcânicas cresceu, levando o grande império oriental a comprometer-se, cada vez mais, com as nações eslavas. A proteção russa à Sérvia, por exemplo, é dado fundamental para se compreender o comportamento de ambas as potências, no mecanismo diplomático que funcionou até 1914. E, graças ao apoio dado pela Rússia, surgiu o chamado Movimento pela Grande Sérvia. O movimento é um desdobramento do nacionalismo balcânico. A pequena Sérvia alimentou, a partir do início do século XX, a ideia de estender sua jurisdição sobre todos os povos de sua raça e cultura, constituindo assim uma Grande Sérvia. Desse modo, essa Grande Sérvia seria constituída pelas províncias turcas da Bósnia e Herzegóvina, croatas e eslovenos das províncias meridionais da Austria-Hungria. Depois de 1908, quando a Áustria anexou as províncias eslavas, o plano da Grande Sérvia voltou-se todo contra o Império Austríaco. Inúmeras conspirações foram feitas, para perturbar a paz da dual monarquia Austro-Húngara. 



O PANGERMANISMO 



Por outro lado, surge poderoso e forte o Movimento Pangermanista. A formação do Império, enche os alemães de justo orgulho. Sentem-se superiores a todos os povos e julgam que lhes cabe a missão de condutores, não só da Europa, mas do Mundo. É esta a opinião dos pangermanistas, que defendem a ideia da criação de um grande Estado, abrangendo todos os povos germânicos. Além do Império, os limites desse Estado conteriam a Dinamarca, a Holanda, o Luxemburgo, a Suíça, a Bélgica e a Áustria, como também toda a Europa Central (Mittel Europa), estendendo-se pela Turquia, Península Balcânica, Oriente Próximo, ultrapassando os limites do Continente Europeu, através de uma extensão de 23 milhões de quilômetros quadrados, ocupados por 137 milhões de habitantes. "A quem deverá pertencer o cetro do Universo? Quem deverá impor as suas vontades às outras nações enfraquecidas ou em decadência? pergunta um pangermanista. A Alemanha, responde orgulhosamente, somente a ela, cabe a missão de assegurar a paz do Mundo, pois todos os restantes países da Europa, encontram-se arruinados e decadentes: - A Rússia, colosso imenso e em formação, mas de pés de argila, ver-se-á absorvida pelas suas dificuldades econômicas e internas. A Inglaterra, mais forte na aparência do que na realidade, há de perder as suas colônias e esgotar-se em lutas estéreis. A França, enfraquecida pelas discórdias intestinas e contendas políticas, caminhará apressadamente para a decadência definitiva. A Itália, bastam os cuidados em que se vê, para assegurar o pão a alguns de seus filhos. O futuro, conclui, não pode pois, deixar de pertencer à Alemanha, à qual virá juntar-se a Áustria, se esta quiser viver". Esta ambição de domínio é fundamentada num patriotismo de raça, que os pangermanistas exaltam em termos entusiastas. Somos os melhores guerreiros do Mundo; somos os mais competentes no domínio da ciência e das belas-artes; somos os melhores colonos, os melhores marinheiros, e mesmo os melhores comerciantes, escreve um dos teóricos do pangermanismo. Não há povo mais persistente e disciplinado do que o povo alemão, afirma outro. Ninguém possui as nossas aptidões musicais, as nossas qualidades de trabalho, o nosso método. Raça alguma é comparável à raça germânica, em superioridade moral, intelectual e física, assevera um terceiro. O movimento tinha raízes intelectuais, e entre seus defensores encontrava-se o filósofo alemão Fichte (Johann Gottlieb, 1762-1814), partidário de audaciosas teses sobre a superioridade espiritual dos germanos e atribuindo uma missão predestinada ao Estado, que idealizava para os germanos, devendo este impor a paz ao resto da Europa.



Originaram-se do mesmo modo, nesta época doutrinas tendo por princípio serem os nórdicos naturalmente superiores, e o arianismo (teoria de uma suposta raça pura, a que pertenceriam os nórdicos) começou a ganhar adeptos fervorosos. Com Heinrich von Treitschke (1834-1896), surgiram as ideias que atribuíam ao Estado uma tarefa quase divina, servindo este de instrumento ideal, para uma política de engrandecimento puramente nacional.   


CONCLUSÃO 


As ideias nacionais, no final do século, estavam assumindo caracteres deformados e servindo a fins bastante duvidosos. Estudadas as principais influências e consequências do nacionalismo na Europa, podem-se extrair algumas conclusões sobre os diversos problemas propostos. Em primeiro lugar, deve-se observar o quanto as aspirações nacionalistas constituíram-se em pontos de atrito, entre as principais potências europeias, em todo o transcorrer do século XIX. Por outro lado, pode-se verificar que as barreiras nacionais tenderam a se levantar, cada vez mais altas, e, devido a este fato, a ideologia nacional começou a ser deturpada para envenenar constantemente a opinião pública, nesta altura já habilmente manipulada pelos poderes políticos e econômicos, tudo em nome do sagrado princípio das nacionalidades. Por esse motivo, o equilíbrio europeu, a todo momento se rompe. A custo se refaz das seguidas crises. Contudo, no decorrer desses conflitos menores, começaram a se delinear, nitidamente, os principais interesses que passariam a dominar o jogo político, por parte das Grandes Potências. Elas progressivamente tenderam, de acordo com seus anseios imediatos e, a longo prazo com suas políticas externas, a aproximarem-se de outras, cujo círculo de ambições era coincidente com os seus, e, pouco a pouco, foram se afastando daquelas cujos propósitos lhes eram adversos. A corrente das fronteiras nacionais foi igualmente o elemento que impulsionou os Estados, na procura do engrandecimento econômico de suas unidades territoriais. Essa corrida em direção ao desenvolvimento econômico, correspondeu à segunda fase do nacionalismo e atuou, no cenário europeu, de 1870 a 1914, criando graves antagonismos. Finalmente, como reflexo direto dos fatores anteriores, assistiu-se a uma corrida armamentista, sem precedentes na História até aquele período, tendo como justificativa a defesa intransigente das barreiras nacionais e dos valores econômicos em jogo. O nacionalismo, assim, esteve sempre presente nos fatores que levaram à Primeira Grande Guerra e na seguinte. Em nome dele, foram sacrificadas preciosas vidas humanas.


Fonte: Clube dos Generais
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Neste Apostolado promovemos a “EVANGELIZAÇÃO ANÔNIMA", pois neste serviço somos apenas o Jumentinho que leva Jesus e sua verdade aos Povos. Portanto toda honra e Glória é para Ele.Cristo disse-nos:Eu sou o caminho, a verdade e a vida e “ NINGUEM” vem ao Pai senão por mim." ( João, 14, 6).Como Católicos,defendemos a verdade, contra os erros que, de fato, são sempre contra Deus.Cristo não tinha opiniões, tinha verdades, a qual confiou a sua Igreja, ( Coluna e sustentáculo da verdade – Conf. I Tim 3,15) que deve zelar por elas até que Cristo volte.Quem nos acusa de falta de caridade mostra sua total ignorância na Bíblia,e de Deus, pois é amor, e quem ama corrige, e a verdade é um exercício da caridade.Este Deus adocicado,meloso,ingênuo, e sentimentalóide,é invenção dos homens tementes da verdade, não é o Deus revelado por seu filho: Jesus Cristo.Por fim: “Não se opor ao erro é aprová-lo, não defender a verdade é nega-la” - ( Sto. Tomáz de Aquino)

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