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Há divergência ou Convergência no Querígma de Cristo e no Querígma dos Apóstolos ? - Quais eram seus Conteúdos ?

Written By Beraká - o blog da família on quinta-feira, 10 de maio de 2012 | 00:38


A prática evangelizadora e Querigmática de Jesus revelada nos Evangelhos

(O QUERÍGMA DE JESUS: O REINO DE DEUS E SEUS VALORES)



Carlos Mesters, oc, Brasil* 

       





Jesus é a fonte e o modelo da ação evangelizadora dos cristãos. Como tal ele nos é apresentado nos Evangelhos. Os Evangelhos descrevem como Jesus, após trinta anos de convivência e de trabalho em Nazaré, anunciou a Boa Nova de Deus ao povo do seu tempo.



1)-Qual foi a prática que Jesus adotou para realizar sua missão evangelizadora?
2)-Qual foi o conteúdo?
3)-Qual a finalidade?
4)-Qual a fonte da Boa Nova do Reino?

No que segue, queremos responder a estas quatro perguntas.

1)- A prática evangelizadora de Jesus:

Os estudos históricos mostram e os Evangelhos e confirmam: Jesus vivia em uma época profundamente conflitiva, num país irremediavelmente dividido. Havia fome, pobreza e muita doença; havia gente explorada por um sistema injusto (Lc 22,25), com desemprego, empobrecimento e endividamento crescentes (Mt 6,12; 18,24. 28-34; 20,3.6; Lc 16,5); havia classes altas, comprometidas com os romanos na exploração do povo (Jo 11,47-48; Lc 20,47) e poderosos ricos que não se importavam com a pobreza dos irmãos (Lc 15,16; 16,20-21); e havia grupos de oposição aos romanos que se identificavam com as aspirações do povo (At 5,36-37); havia muitos conflitos e tensões sociais (Mc 15,6; Mt 24,23-24) com repressão sangrenta que matava sem piedade (Lc 13,1); havia a religião oficial. Ambígua e opressora, organizada em torno da sinagoga e do templo (Mt 23,4.23-32; Mt 21,13); e havia a piedade confusa e resistente dos pobres com suas devoções, romarias e práticas seculares (Mt 11,25; 21,8-9; Lc 2,41; 21,2).

Numa palavra, havia conflitos nos vários níveis da vida da nação: econômico, social, político, ideológico, religioso. O povo estava sem condições de reencontrar a unidade.

Jesus não se manteve neutro. Em Nome de Deus, tomou posição. Assim. Através da sua atitude, a Boa Nova de Deus se fez presente na vida do povo. O anúncio da Boa Nova, é antes de tudo, uma nova prática, fruto da experiência que Jesus tinha do Pai e que o levava a tomar determinadas atitudes.

Seria longo demais descrever todos os aspectos da prática evangelizadora de Jesus.

Enumeramos apenas os mais importantes e os mais evidentes:


Jesus convive com os marginalizados e os acolhe

Nos três anos de sua vida itinerante, Jesus conviveu a maior parte do tempo com aqueles que não tinham um lugar dentro do sistema social e religioso da época. Ele passou a ser conhecido como “o amigo dos publicanos e dos pecadores” (Mt 11,19). Acolhia os que não eram acolhidos: os imorais (prostitutas e pecadores), os hereges (samaritanos e pagãos), os impuros (leprosos e possessos), os marginalizados (mulheres, crianças, doentes de todo tipo), os colaboradores (publicanos e soldados), os fracos (o povo da terra e os pobres sem poder). Jesus falava para todos. Não excluía ninguém. Mas falava a partir dos pobres e dos marginalizados.

O apelo que resulta desta atitude evangelizadora é muito claro: não era possível alguém ser amigo de Jesus e, ao mesmo tempo, continuar apoiando o sistema que marginalizava tanta gente em Nome de Deus. De fato, Nicodemos (Jo 7,52), José de Arimatéia (Mt 27,57-58) e Zaqueu (Lc 19,8) sentiram na carne o que quer dizer romper com o sistema em que estava, inseridos, e aderir a Jesus. O próprio Jesus, por causa dessa atitude que acolhia os marginalizados, entrou em conflito com os grupos de liderança da sociedade: os fariseus, os escribas, os saduceus, os herodianos, os romanos. Este conflito foi a cauda da sua morte (Mc 3,6).


Jesus denuncia e combate as divisões criadas pelo homem.

No meio do povo, havia muitas divisões, mantidas em nome de Deus pela própria religião oficial. Elas contradizem a vontade do Pai. Jesus criticou estas divisões e as combateu através da sua maneira de viver e de agir. Por exemplo, as divisões entre próximo e não-próximo (Lc 10,29-37), entre santo e pecador (Mc 2,15-17), entre puro e impuro (Mc 7,1-23), entre judeu e estrangeiro (Mt 15,21-28).

Condenando estas divisões, Jesus relativizava e sacudia as pilastras do sistema religioso: o templo, o sábado, as obras santas (jejum, esmola, oração), a pureza legal. Sua prática evangelizadora incomodava profundamente os homens do poder.

Por outro lado, ele convidava e provocava as pessoas a se definirem em face dos valores fundamentais da vida humana e do Projeto de Deus: justiça, fraternidade, amor, misericórdia, partilha, honestidade.

O sistema religioso da época não dava atenção a estes valores. Alguns aceitaram o convite de Jesus, outros o rejeitaram. Assim Jesus se tornou fonte de novas divisões (Mt 10,34-36) e sinal de contradição no meio do povo (Lc 2,34).


Jesus desmascara a falsidade dos grandes

Jesus não teve medo de denunciar a hipocrisia dos líderes religiosos da época: sacerdotes, escribas e fariseus (Mt 21,1-36; Lc 11,37-52; Mc 11,15-18). Condenou a pretensão dos ricos e não acreditava muita ma sua conversão (Lc 16,31; 6,24; Mt 6,24; Mc 18,24-27; 12,13-21).

Diante das ameaças dos representantes do poder político, seja dos judeus como dos romanos, Jesus não se intimidava e mantinha uma atitude de grande liberdade (Lc 13,32; 23,9; Jo 19,11; 18,23).


Jesus combate is males que estragam a vida humana

Deus criou a vida e a abençoou (Gn 1,28). Por própria culpa, a humanidade perdeu a bênção e atraiu sobre si a maldição (Gn 3,14-14). Deus interveio e chamou Abraão para ser pai de um povo com a missão de recuperar a benção perdida não só para si e sua própria família, mas também para todas as famílias da terra (Gn 12,3).

Jesus retomou a vocação inicial do povo de Abraão e tentou recuperar a bênção para a vida humana. Ele disse: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Por isso faz parte da prática evangelizadora de Jesus libertar a vida de todos os males que a oprimiam e marginalizavam. Assim ao longo dos três anos da sua vida pública, ele enfrentou e combateu a fome (Mc 6,35-44), a doença (Mc 1,29-34), a tristeza (Lc 7,13; Mt 5,5), a ignorância (Mc 1,27), o abandono (Mt 9,36), a solidão (Mc 1,40-41; 5,34), a letra que mata (Mc 3,4. Mt 5,38-42), as leis opressoras (Mc 7,8-13), a injustiça (Mt 5,20), o medo (Mc 6,50), o sofrimento (Mc 6,55-56), o pecado (Mc 2,5) a morte (Mc 5,41-42; Lc 14,1-8). Ele combateu e expulsou o demônio, o príncipe dos males. Pois “desde o começo não era assim” (Mt 19,8).


Jesus usa uma nova pedagogia que faz o povo crescer

A novidade da prática evangelizadora de Jesus transparece, sobretudo no novo jeito que ele tem de se relacionar com as pessoas e de ensinar as coisas: Sá atenção às pessoas sem fazer distinção (Mt 22,16); ensina em qualquer lugar, acolhe todos como ouvintes e permite que mulheres o sigam com discípulas (Lc 8,1-3; Mc 15,41); usa linguagem simples em forma de parábolas; reflete a partir dos fatos da vida (Lc 21,1-4; 13,1-5; Mt 6,26); confronta os discípulos com os problemas do povo (Mc 6,37); ensina com autoridade sem citar “autoridades” (Mc 1,22); apresenta crianças como professoras de adultos (Mt 18,3); sendo livre, comunica liberdade aos que o cercam (Jo 8,32-36), e estes, por sua vez, criam coragem para transgredir tradições caducas (Mt 12,1-8). Jesus vive o que ensina; passa noites em oração (Lc 5,16; 6,12; 9,18.28; 22,41) e suscita nos outros a vontade de rezar )Lc 11,1

A Boa Nova do Reino se encarna numa convivência humana

A prática de Jesus revela uma nova visão das coisas, um novo ponto de partida, uma nova ordem. Os valores básicos dessa nova ordem aparecem encarnados na pequena comunidade itinerante que se formou ao seu redor.

Eis alguns deles:

Partilha dos bens ou caixa comum (Jo 13,29); igualdade básica de todos: “Vocês todos são irmãos” (Mt 23,8-10); poder como serviço: “Quem quiser ser o primeiro seja o servidor de todos” (Mc 9,35; Mt 20,24-28); Jo 13,14; Mt 23,11); convivência amiga a ponto de não ter mais segredos (Jo 15,15); novo relacionamento homem-mulher (Mt 19,1-9).

Estes pontos nos dão uma idéia de como era a prática evangelizadora de Jesus. Nela se revela a experiência que ele mesmo tinha do Pai. Através do gesto e da atitude de Jesus, o povo se dava conta de que o Deus de Jesus era diferente do deus dos escribas. Através da prática de Jesus, Deus se tornou uma Boa Nova para o povo.



2)-Um resumo do conteúdo da Boa Nova do Reino

O Evangelho de Marcos oferece o seguinte resumo do conteúdo da Boa Nova de Jesus: “Depois que João foi preso, veio Jesus para a Galiléia proclamando o Evangelho de Deus! Esgotou-se o prazo, o Reino de Deus chegou! Mudem de vida e acreditem na Boa Nova” (Mc 1,14-15).

Vamos meditar cada um destes quatro pontos:

“Esgotou-se o prazo! O Reino de Deus chegou! Mudem de vida! Acreditem na Boa Nova!”.

“Esgotou-se o prazo”

Jesus lê os fatos com olhos novos, nascidos de Deus

Para Jesus, a prisão de João Batista fez o prazo se esgotar. Fez o kairós de Deus chegar! Isso mostra que Jesus ficava atento aos fatos e aos tempos e os analisava com olhos diferentes. Por isso conseguiu perceber neles a ação de Deus. Esta mesma atitude diante dos fatos verifica-se em várias outras ocasiões. Por exemplo, ele interpela os apóstolos: “Vocês dizem que faltam quatro dias para a colheita. Mas eu digo, levantem os olhos e vejam os campos. Eles estão brancos para a colheita!” (Jo 4,35). E aos fariseus e saduceus ele responde: “Ao pôr-do-sol vocês dizem: ‘Vai fazer bom tempo, porque o céu está vermelho’. E de manhã: ‘ hoje vai chover, porque o céu está vermelho-escuro’. Olhando o céu, vocês sabem prever o tempo, mas não são capazes de interpretar os sinais dos tempos” (Mt 16,2-3; cf Mt 24,32; Lc 12,54-56). A leitura diferente dos fatos ajudou Jesus a perceber a chegada do Reino.



Jesus ajuda o povo a ler os fatos com olhos novos


Jesus quer que todos descubram a Boa Nova do Reino. Por isso, percorre o país e convoca o povo. Ele envia doze discípulos (Mt 10,1; Lc 9,1). Mais tarde, envia outros setenta e dois (Lc 10,1). Todos devem levar o mesmo anúncio: “O Reino de Deus chegou!” (Lc 1,9; Mt 10,7). Pois a colheita é grande, os operários são poucos e o tempo urge (Mt 9,35-38).

Jesus ajuda o povo a ler os fatos com os mesmo olhos diferentes: faz refletir a partir do que acontece (Lc 13,1-5); manda estar atento, pois ninguém sabe quando chega hora (Mt 24,42); ajuda o povo para não ser enganado (Mt 24,4.11.26); critica interpretações erradas (Jo 9,2-3).


Através das parábolas procura levar o povo a ter um olhar crítico sobre a realidade do país e sobre a sua prática religiosa. Por exemplo, as parábolas do fariseu e do publicano (Lc 18,9-41), dos dois filhos (Mt 21,28-32), do bom samaritano (Lc 10,29-37). Deste modo, Jesus ajuda o povo a discernir, entro dos fatos, os sinais do reine de Deus que vem chegando.

Nem todos aceitam a interpretação que Jesus faz dos fatos. Os fariseus e os saduceus não sabem ler os sinais dos tempos e o combatem (Mt 16,1-4). Jerusalém e as cidades da Galiléia se fecham (Lc 13,34-35; 10,13-15; 19,42). Os pobres, porém, e os discípulos reconhecem e aceitam a mensagem (Mt 11,25; 13,11).

“O Reino de Deus chegou”



A novidade que causa admiração

Naquele tempo, todos esperavam a vinda do Reino de Deus, mas cada um a seu modo:

Para os fariseus, o Reino viria quando a observância da Lei de Deus fosse perfeita; para os essênios, quando o país fosse purificado.

O povo, orientado pelos escribas e pelos fariseus, esperava a vinda de um messias glorioso.

Jesus, porém, já não esperava pela vinda do Reino de Deus. Para ele, o Reino já estava chegando! Esta era a novidade!

Qual a análise que Jesus fez para chegar a esta conclusão? Onde estava o Reino de que ele falava? Pois a observância da Lei de Deus ainda não eram perfeita; o país ainda não estava purificado. E não havia nada de glorioso para se poder concluir: “Este é o Reino!”. Por isso, os fariseus o questionaram: “Queremos ver um sinal feito por ti!” (MT 12,38; Mc 8,11). Quais os sinais? (Lc 17,20).

Jesus não dá nenhum, sinal nem prova (Mt 12,39-40). Para os outros, a chegada do Reino dependia do esforço que eles mesmos teriam de fazer. Dependia da observância da Lei de Deus, da purificação da terra, ou da luta. Jesus dizia o contrário: “O Reino de Deus não vem como fruto da observância, mas ele já está no meio de vocês!” (Lc 17,20-21).

Independentemente do esforce feito. O Reino já tinha chegado! A sua chegada não dependia do esforço humano, mas era pura gratuidade. Esta era uma maneira radicalmente nova de encara a vinda do Reino.

Jesus não diz em que consiste o Reino. Diz apenas que o Reino já chegou.

Se já chegou, então o Reino devia estar presente e visível nas coisas que Jesus andava fazendo e dizendo: “Vão dizer a João o que estão vendo e ouvindo: cegos vêem, coxos andam, leprosos são limpos, surdos ouvem, mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” (Mt 11,5-6). “Se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, então o Reino de Deus já chegou até vocês!” (Lc 11,20).



Uma nova leitura da Escritura

Para ajudar o povo a perceber a presença do Reino nele mesmo e nos fatos, Jesus usava a Bíblia e a interpretava de maneira nova. A experiência que ele tinha e Deus lhe dava olhos novos pra entender melhor a ação de Deus no passado e era nele uma luz para iluminar o sentido da Escritura.

Assim, iluminada pela Bíblia, a Boa Noiva do Reino aparecia aos olhos dói povo não como bastarda e impostora, vinda de fora, mas como filha nascida em casa, como fiel à Tradição, como realização da Promessa.

Eis alguns dos momentos em que Jesus faz esta nova leitura da Escritura:

a)    Na sinagoga de Nazaré, ele usa um texto de Isaías para apresentar o seu programa (Lc 4,18-19; Is 61,1-2). E conclui: “Hoje se cumpriu nos vossos ouvidos esta passagem da Escritura” (Lc 4,21);

b)    O recado que mandou para João Batista (Mt 11,5-6) era de um outro texto de Isaías. A profecia de Isaías se realiza na ação de Jesus junto dos pobres (Is 29,18-19; 35,5-6);

c)    No sermão da montanha Jesus esclarece o objetivo que Deus tinha em mente ao dar os Dez mandamentos ao povo: “Antigamente foi dito (>>>), mas eu digo (...)” (Mt 5,21.27.31.38.43);

d)    Jesus critica o Templo de pedra, o centro do Antigo Testamento, e o declara como provisório. Pois o novo Templo será ele mesmo, o seu corpo (Jo 2,19-21), onde todos poderão adorar o Pai em espírito e verdade (Jo 4,23);

e)    Aos discípulos de Emaús ele mostra, “começando por Moisés e por todos os profetas”, o que a Escritura dizia a respeito dele. Deste modo, ele situa a cruz dentro do projeto de Deus (Lc 24,27);

f)    Quando perguntado para dar um sinal, ele fala de Jonas e de Salomão e conclui: “Aqui está algo mais do que Jonas e Salomão” (Mt 12,41-42). Ele mesmo é critério de interpretação da Escritura;

g)    Jesus diz aos discípulos que ele têm vantagem sobre os profetas. “Os profetas desejaram ver o que vocês estão vendo e não puderam” (Lc 10,23-24). Ele mesmo é o ponto de chegada da Escritura;

h)    Na discussão com os judeus sobre a legitimidade do seu ensinamento, Jesus se declara maior que Abraão: “Antes que Abraão fosse eu sou” (Jo 8,52-58);

i)     Atacado pelos escribas em nome da Escritura e da Tradição, ele se defende com argumentos tirados da própria Escritura, da vida de Davi (Mc 2,25-26);

j)     Em tudo o que fazia para cumprir sua missão como Messias, Jesus se orientava pela profecia do Servo de Javé.

Lido nesta nova perspectiva, o Antigo Testamento ajudava o povo a perceber como  o Reino de Deus estava se realizando dentro dos fatos da vida de Jesus e da Sua própria vida. Jesus realizava Promessa. Por isso, o povo se reconhecia nele e encontrava nele a Boa Nova de Deus!



Os sinais do Reino presentes na vida

O Reino que estava chegando era tudo aquilo que encontrou em movimento com a chegada e o anúncio de Jesus. Era a própria história progredindo. “O Reino está no meio de vocês!” Mas não era fácil definir claramente o que vinha a ser o Reino presente no meio do povo.

O Reino era algo que a pessoa experimentava quando estava em contato com a pessoa de Jesus e com a comunidade por ele criada. Para ajudar o povo a entender esta misteriosa presença do Reino dentro dos fatos da vida, Jesus usava as parábolas. São muitas: semente, campo, pérola, joio e trigo, grão de mostarda, rede, pesca, fermento, sal, tesouro, dracma perdida, devedor implacável, trabalhadores da vinha, casamento do filho do rei, as dez virgens, bom samaritano, juiz iníquo, filho pródigo, ovelha perdida etc. “Quem tem ouvidos para ouvir ouça!” (Mt 13,9) as parábolas provocam o povo para ir descobrindo as coisas de Deus a partir da sua própria experiência de vida.

Os pobres entendem esta linguagem (Mt 11,25), pois o Reino enunciado por Jesus é delas (Mt 5,3-10). É para eles (Lc 4,18). Os outros, porém, os de fora, eles ouvem, mas não entendem (Mc 4,11,12). Muitas vezes, nas discussões com os fariseus, Jesus tentou corrigir a visão que eles tinha,m de Deus, da lei e da história. Mas não conseguiu. Eles não se abriram e se agarravam à antiga leitura que faziam do Antigo Testamento. Não permitiam o novo entrar.

“Mudem de Vida” - A difícil exigência!!!

Jesus não pede: “Observem a Lei e a Tradição!” Ele pede metanoia,isto é, mudar o modo de pensar e de agir.

Este é o apelo de mudança que a chegada do Reino traz consigo. Sem esta mudança radical o povo não poderá entender a mensagem do Reino anunciada por Jesus. A mudança que a chegada do Reino está pedindo é uma mudança que engloba todos os aspectos da vida das pessoas, do povo e da nação.

Se não acontecer esta mudança, “se vocês não se converterem, todos vão perecer do mesmo jeito (LC 13,3.5). isto é, do jeito que galileus pereceram pela violência de Pilatos, assim todos irão perecer pela violência repressiva do Império. Não houve a mudança que ele pediu! Quarenta anos depois, no ano 70, esta profecia tornou-se triste realidade! Jerusalém foi totalmente destruída.



Mudar por quê?

Ao longo dos séculos anteriores foi acontecendo uma inversão total dos valores que se expressa na própria religião. A religião oficial já não revelava o rosto de Deus ao povo: o mandamento de Deus foi anulado pela tradição (Mc 7,8); o ser humano estava em função da lei (Mc 2,27); o templo levava vantagem sobre o amor aos pais (Mc 7,10-13); a misericórdia foi diminuída em favor da observância (Mt 9,13); a justiça praticada pelos fariseus já não revelava o Reino (Mt 5,20).

Na prática, o amor de Deus estava separado do amor ao próximo. Os escribas e os fariseus, responsáveis pela transmissão da fé, tinham esquecido as necessidades dos pobres (Lc 13,15-17), impunham pesos pesados ao povo (Mt 23,4) e, assim, bloqueavam a entrada do Reino (Mt 23-13).



Mudar o quê?

Já não bastava consertar um ou outro defeito. Era necessário fazer tudo de novo! Metanoia! Nascer de novo (Jo 3,3), reconhecer o próprio erro, aceitar a nova leitura do passado e iniciar uma prática nova no ruma que Jesus propunha: viver o amor a Deus no amor ao próximo (Mt 22,39); estender que o sábado é para o homem (Mc 2,27) e que o objetivo da lei é imitar Deus que faz chover sobre todos (Mt 5,43-48); viver a eleição divina não como um privilégio que separa dos outros povos, mas como um serviço que leva a inserir-se no meio deles (Mt 20,28; Lc 17,10).

Numa palavra, aprender que ninguém tem o direito de marginalizar como “pecador”, “impuro”, “pagão”, “maldito” ou ignorante (Jo 7,49; 9,34) aqueles q quem Deus acolhe como filhos (Mt 5,45). Realmente, fazer uma mudança assim era o mesmo que morrer e nascer de novo.

 “Quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus” (Jo 3,3). Muitos não quiseram fazer esta mudança radical, reagiram contra Jesus e decidiram eliminá-lo (Jo 12,37-41; 11,45-54; Lc 19,42).

“Acreditem nesta Boa Notícia”

 Realiza-se a esperança do povo

Toda esta novidade que começou a existir ao redor da sua pessoa, Jesus a designou com A Boa Nova do Reino. Expressão antiga, usada pela primeira vez pelo profeta Isaías para designar a Boa Nova da volta dos exilados (Is 40,9; 52,7; 61,1). Desde então, todos esperavam pela Boa Nova do Reino. Nos gestas e nas palavras de Jesus esta esperança re realiza.

O acesso a essa Boa Nova só era possível através da fé: “Acreditem na Boa Nova!”. Fé não só na mensagem, mas também na pessoa de Jesus, tal como ele era e se apresentava: jovem, operário, sem estudo, vindo da Galiléia, sem ser doutor, sem ser sacerdote, sem ser da classe dirigente, mas que tem a coragem de dizer a todos: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). “Quem vê a mim vê o Pai!” (Jo 14,9). Sem esta fé na palavra e na pessoa de Jesus não era possível entender a Boa Nova do Reino que ele anunciava!

Embora a Nova não fosse tão Boa para os doutores e escribas, ela era realmente Boa para os pobres (Lc 4,18). Pois através da prática e da palavra de Jesus, o povo pobre, que vivia marginalizado como “ignorante”, “maldito”, “impuro” e “pecador” (Jo 7,49; 9,34), tinha novamente acesso a Deus. Jesus liberou a entrada. A presença amiga de Deus tornou-se novamente, universal, aceitável para todos, livre das amarras nas quais vinha sendo aprisionada havia séculos (Mt 23,13).

Apontar a Boa Nova de Deus na vida do povo:

A Boa Nova do Reino, que é? Não é uma doutrina que se ensina, nem uma moral que se impõe. Não é um catecismo que se decora, nem uma ideologia que se transmite. A Boa Nova do Reino é um fato da vida em que Deus esta presente, atuando, libertando o seu povo com poder, realizando o seu plano se salvação, mostrando que é Rei, Senhor da história.

Mas não só! Ela é uma palavra que tira o véu este fato e revela ao povo a presença gratuita de Deus aí dentro; é uma atitude, um testemunho, uma prática, que confirmam esta presença de Deus; é todo o passado do povo que o confirma e o ratifica: “Era isto que esperávamos há muito tempo!”.

Anuncia a Boa Nova do Reino, que é?

É apontar fatos concretos pelos quais e veja onde o Reino de Deus está acontecendo e interpretá-los de tal maneira que apareça para fora esta dimensão escondida da presença vitoriosa de Deus na história do povo. Foi assim que Jesus respondeu a João Batista: “Vão dizer a João o que estão vendo e ouvindo!” (Mt 11,4-5).



3)- A finalidade da Boa Nova anunciada por Jesus:

O Evangelho de Marcos ensina como o cristão deve anunciar a Boa Nova de “Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1,1). Em primeiro lugar (Mc 1,2-5), a Boa Nova não pode cair de pára-quedas dentro da vida do poço, mas deve vir como resposta às suas esperanças (Mc 1,2-3), através de pessoas bem concretas (Mc 1,4-8). Ela terá o seu momento de inauguração (Mc 1,9-11), de provação (Mc 1,12-13) e de proclamação (Mc 1,14-15).

Em seguida (Mc 1,16-45), escolhendo bem os fatos, Marcos descreve a finalidade que a Boa Nova do Reino que alcançar na vida do povo.

Os sete pontos que seguem são os sinais do Reino. Podem servir como critério de avaliação para examinar de perto a qualidade da nossa prática evangelizadora:

1)    Criar comunidade (Mc 1,16-20)

Vocação dos primeiros discípulos.

A Boa Nova tem como primeiro objetivo congregar as pessoas em trono de Jesus e, assim, criar comunidade.

2)    Fazer nascer consciência crítica (Mc 1,21-22)

Admiração diante do ensinamento de Jesus.

A maneira como Jesus anuncia a Boa Nova faz o povo criar consciência crítica com relação aos escribas, seus líderes.

3)    Combater o poder do mal (Mc 1,23-38)

Expulsão de um demônio.

A Boa Nova combate e expulsa o poder do mal que estraga a vida humana e aliena as pessoas de si mesmas.

4)    Restaurar a vida para o serviço (Mc 1,29-34)

Cura da sogra de Pedro e de muitos outros doentes.

A sogra levantou-se e começou a servi-los. A Boa Nova cuida da vida doente e procura restaurá-la para o serviço.

5)    Permanecer unido ao Pai pela oração (Mc 1,35)

Jesus ora num lugar deserto.

Faz parte da Boa Nova permanecer unida a raiz que é o Pai, através da oração.

6)    Manter e aprofundar a consciência da missão (Mc 1,36-39)

Anúncio da Boa Nova pelas aldeias da Galiléia.

A Boa Nova exige que o missionário não se feche nos resultados já obtido, mas que mantenha sempre a consciência da missão.

7)    Reintegrar os marginalizados na convivência (Mc 1,40-45)

Um leproso é curado e enviado aos sacerdotes.

A Boa Nova acolhe os marginalizados e os reintegra na convivência humana.

Estes sete pontos marcaram o anúncio da Boa Nova realizado por Jesus e pelos primeiros cristão.

Será que marcaram os 500 anos de Evangelização da América Latina? Será que marcam a evangelização que fazemos hoje?

Onde esta Boa Nova entra hoje na vida humana, ela em dúvida alguma encontrará resistências e provocará conflitos. É o que o Evangelho de Marcos sugere, apresentando logo em seguida cinco conflitos entre Jesus e os líderes religiosos da época (cf. Mc 2,1-3,6).

Marcos informa ainda que, no momento de chamar os apóstolos, Jesus “chamou a si os que ele queria chamar, e foram até ele. E constituiu o grupo dos Doze, para que ficassem com ele e para enviá-los a pregar, com autoridade para expulsar  os demônios” (Mc 3,13-15).

No mesmo chamado Jesus coloca duas finalidades. Chama para “estar com ele” e pra “enviá-los a pregar e a expulsar os demônios”. O estar com Jesus dá o conteúdo para a pregação e a autoridade para expulsar o demônio. Ou seja, a comunidade é a plataforma de onde parte a missão e lhe dá consistência.



4)- A fonte da Boa Nova do Reino anunciada por Jesus

Jesus, igual a nós em tudo,menos no pecado:

Jesus é o Filho de Deus. Este título define seu relacionamento com o Pai e tem a ver com a constituição da sua pessoa. Esta verdade não se prova, mas se aceita na fé. Ela foi objeto de lenta e grata descoberta por parte dos cristãos. Jesus é o Messias. Este título tem a ver com seu relacionamento com os homens e com a sua missão dentro do plano de Deus. Furto da total gratuidade do Pai é o fato de Ele não ter mandado qualquer um para realizar a missão do Messias, mas sim o próprio Filho, igual a nós em tudo menos no pecado (Hb 4,15).

“Sendo de condição divina, Jesus não se apegou à sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo” (Fl 2,6-7). “Sendo rico, se fez pobre para nos enriquecer com a sua pobreza” (2Cor 8,9). Jesus não era cidadão romano e não tinha nenhum título, não fez curso com Gamaliel, não estudou em Jerusalém, não tirou diploma; não era da classe sacerdotal; não era levita nem fariseu; não era escriba nem publicano nem essênio nem saduceu. Não tinha proteção de nenhuma classe. Jesus era um leigo, operário, agricultor. Era conhecido como o carpinteiro (Mt 13,55). Nasceu fora de casa, numa estrebaria. Desde o seio materno, sofreu as conseqüências do sistema opressor dos romanos (Lc 2,1-7). Viveu trinta anos em Nazaré da Galiléia (Lc 3,23), terra “dos gentios”.

Na comunidade local não era presbítero nem coordenador. Para se saber como foi a vida de Jesus, basta descrever a vida que qualquer nazareno daquele tempo, pôr o nome de Jesus e se saberá como foi a vida do Filho de Deus durante trinta dos trinta e três anos em que viveu nesta terra no meio de nós. Realmente, sendo rico, ele se fez pobre, igual a nós em tudo!


O que para uns era condenação do destino, para Jesus se tornou a manifestação da vontade do Pai. Jesus nasceu pobre e continuou sempre do lado dos pobres. Nascer pobre era a expressão da vontade do Pai. Continuar do lado dos pobres era a decisão do Filho querendo ser obediente ao Pai. Jesus nunca buscou uma saída individual, nunca buscou privilégios para si. Continuou pobre, igual a eles em tudo, até o fim, até a morte de cruz! (Fl 2,8).



Obediente ao Pai em tudo

Aqui estamos diante do mistério da vida de Jesus. A sua união com o Pai. Jesus disse a Maira e José: “Então, vocês não sabem que devo estar na casa do meu Pai?” (Lc 2,49). Os pais não entenderam a resposta (Lc 2,5). Ele disse aos discípulos: “O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou, e terminar a obra que Ele me deu” (Jo 4,34). Os discípulos estranharam a resposta (Jo 4,33). Ele disse aos judeus: “O Filho, por si mesmo, nada pode fazer, mas só aquilo que vê o Pai fazer” (Jo 5,19). Os judeus estranharam a conversa de Jesus sobre o Pai e queriam matá-lo (Jo, 5,18). Jesus disse a Filipe: “Filipe, você ainda não me conhece? Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9). E também Filipe estranhou a conversa de Jesus sobre o Pai (Jo 14,8).

Estas e outras frases mostram qie a comunhão entre Jeus e o Pai não era automática, mas sim fruto de iuma luta que ele travava dentro de si para obedecer o Pai em tudo e viver em comunhão com Ele. Jesus nunca permitiu que alguém interferisse neste segredo mais profundo da sua vida. Não teve medo de provocar conflitos, mesmo com as pessoas mais queridas, para poder manter a comunhão com o Pai.

Os que tentaram desviá-lo receberam respostas duras ou reações inesperadas: Pedro: “Vai embora, Satanás!” (Mc 8,33). Os irmãos: “Quem é minha mãe?’ Quem são meus irmãos?” (Mc 3,33). Os apóstolos: “Vamos para outros lugares! Pois foi para isto que eu vim!” (Mc 1,38). Os parentes: “Vão vocês! A hora de vocês está sempre aí! A minha hora ainda não chegou!”(Jo 7,6.8). João Batista: “Vão dizer para João o que estão vendo e ouvindo!” (Mt 11,4).

A preocupação de estar sempre unido ao Pai pela obediência foi o eixo da vida de Jesus, a fonte da sua prática evangelizadora, o seu alimento diário (Jo 4,34). “Ao entrar no mundo ele afirmou: Eis-me aqui! Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade!” (Hb 10,5-7).


Ao deixar o mundo, fez revisão e disse: Está tudo consumado!”(Jo 19,30). Jesus sofreu e foi tentado a entrar por outros caminhos (Mt 4,1-11; Mc 8,33). Lutou para ser fiel (Hb 5,8). Teve de rezar muito para poder vencer (Hb 5,7; Lc 22,41-46). Mas venceu.

Ninguém, nada, nunca, nenhuma autoridade, em momento algum, conseguiu interferir neste segredo mais profundo de Jesus. Os que tentaram esbarraram numa muralha impenetrável, numa liberdade impressionante. Ele foi obediente até a morte, e morte de Cruz”.Por isso, Deus o exaltou!” (Fl 2,9).




Revelar o Pai pela obediência profética

Jesus procurava ser fiel à experiência que tinha do Pai. Pois a Boa Nova do Reino não é uma doutrina, ou um catecismo a ser transmitidos, nem uma moral ou uma disciplina a ser impostas, nem uma idéia nova a ser ensinada, mas é a face do Pai a ser revelada ao povo, sobretudo aos pobres! A obediência de Jesus não era disciplinar, mas sim profética.

Na obediência ao Pai estava a raiz da liberdade de Jesus. Por causa desta obediência, ele obedecia á tradição dos homens e a criticava. A obediência só tem sentido enquanto revelação do Pai! Por causa, dela a voz de Jesus era e é a voz do Pai. Pois quem obedece não fala em nome próprio, mas sim em nome daquele a quem obedece.

Em Jesus, a obediência não é uma simples virtude ao lado das outras virtudes. A obediência faz com que ele se torne totalmente transparente, pura referência. Pela sua obediência profética te a morte, Jesus esvaziou-se de si mesmo e deixou que o Pai reinasse em sua vida.


Por isso, tudo o que Jesus faz é revelação do Pai. A união que assim nasce entre ele e o Pai é tão perfeita que os dois se identificam um com o outro: “Quem me vê, vê aquele que me enviou” (Jo 12,45). É a comunidade perfeita no Espírito.

Como a vontade do Pai se manifesta em Jesus? Ele dizia: “Por mim mesmo nada posso fazer: eu julgo segundo o que ouço”(Jo 5,30). “O Filho por si mesmo nada pode fazer, mas só aquilo que vê o Pai fazer” (Jo 5,19).

Como e onde Jesus via e ouvia o que o Pai queria dele?

a)    Na Sagrada Escritura. Ela é a fonte de autoridade (Lc 4,18): orienta Jesus na realização da sua missão como Servo (Mc 1,11); oferece respostas contra as tentações (Lc 4,4.8.12).

b)    Nos fatos. João Batista confrontou Jesus com as normas da tradição (Mt 11,3). Jesus confronta João com os fatos (Mt 11,4). Iluminados pelas escrituras eles revelam a vontade de Deus.

c)    Nas pessoas e suas atitudes. Diante da resposta da Cananéia, Jesus mudou de opinião e disse: “Seja feito como quere!” (Mt 15,28). Na atitude da mulher Jesus leu o que o Pai queria dele.

d)    Nos pais. Jesus foi para Nazaré com seus pais e “era obedientes a eles” (Lc 2,51). Esta submissão, porém, não era cega. Ele teve a coragem de criticá-los (Lc 2,49).

e)    Na sua condição de pobre. Nascer pobre era para ele a expressão da vontade do Pai. Continuar do lado dos pobres era a decisão do Filho querendo ser obediente ao Pai.

f)    Na tradição e nos superiores. “Façam o que eles dizem, mas não façam o que eles fazem!” (Mt 23,3). Reconhece a autoridade, mas critica o comportamento e os desvios (Mc 7,13). Jesus nunca cita as autoridades, mas fala com autoridade (Mc 1,22)

g)    Na luta. No Horto das Oliveiras, o anjo veio e o ajudou para ir até o fim. Suou sangue, mas encontrou a paz na entrega total ao Pai. (Lc 22,43-44).

h)    Na oração. Nas noites passadas junto ao Pai, ele vive a sua experiência de Filho e descobre o que o pai pede dele (Lc 5,16; 6,12; 9,18.28-29; 11,1).

Não havia uma instância ou uma norma preestabelecida que guiasse Jesus na descoberta da vontade o Pai. Não havia uma lista de normas para ele se orientar. Havia, isto sim, aquela atenção permanente voltada para o Pai. “Faço sempre o que lhe agrada” (Jo 8.28-29).

Jesus deixou um testemunho muito bonito a este respeito quando disse: “ O mundo vai saber que amo o Pai e que faço o que o Pai me mandou. Levantem! Vamos embora daqui!” (Jo 14,31). Levantou e foi para o Horto, onde começou a Paixão.


Conclusão:

A missão de Jesus se resume em fazer brilhar o rosto de Deus na vida do povo. “Faze brilhar sobre nós a tua face e seremos salvos” (Sl 80,4). O rosto de Deus é Luz que brilha na escuridão (2Pd 1,19). É a raiz da liberdade e da ressurreição. É a eterna Boa Nova para o povo oprimido.


Sem este rosto tudo escurece. Não há disciplina nem lâmpada nem vela que possam substituí-lo. Quem não o conhece talvez não sinta a sua falta. Mas quem, como Jesus, o encontrou, já não sabe viver sem ele.

O encontro com Ele revoluciona a vida, faz descobrir o que está errado em nós e ao redor de nós, e anima para a luta, a fim de recolocar tudo no seu devido lugar, como Deus o quer.

“Como o Pai me enviou, eu envio vocês!” Dizendo isto, Jesus soprou sobre eles e lhes disse: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,21-22). Com a ajuda do Espírito, as comunidades reproduzem nas suas vidas a prática evangelizadora de Jesus e, assim, serão a revelação do Pai ao povo.

Na mesma medida em eu soubermos viver e anunciar a Boa Nova do Reino seremos a Igreja de Jesus; seremos a “carta de Cristo, reconhecida e lida por todos os homens” (2Cor 3,2.3).

* * * * * * * * * *
*Frei Carlos Mesters, carmelita, mestre em Exegese Bíblica e Doutor em Teologia Bíblica, co-fundador e assessor do CEBI – Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, e-mail: cmesters@ocarm.org


O QUERÍGMA DOS APÓSTOLOS : (Parte I):

(A Pessoa de Cristo, sua Vida, Paixão, Morte,Ressurreição e Glorificação por nós em obediência ao Pai)


É urgente a necessidade de evangelização não só de quem está fora, mas até mesmo dentro da Igreja.

(Esta matéria será baseada em alguns trechos do bom livro "Como evangelizar os batizados" (Ed.Loyola) de J.H. Prado Flores, que foi escrito justamente para ser usado nos cursos dados pela "Evangelização 2000").

A todo aquele que desejar trabalhar como evangelizador e, principalmente, como formador de evangelizadores, eu recomendo fortemente a leitura deste livro. Segue a matéria.


No princípio da vida da Igreja, batizavam-se somente os convertidos. Hoje em dia a tarefa é o inverso: Evangelizar e converter os batizados.

A Igreja precisa ser evangelizada em seu interior para que ela se converta em Boa Nova para o mundo. Por isso, hoje, evangelizar os batizados é imperativo urgente.

A evangelização se dá em dois momentos sucessivos que são complementares e interdependentes:

• O Querigma: Primeiro anúncio de Jesus
• A Catequese: Ensino progressivo da fé

São 2 passos consecutivos, onde o querigma sempre deve anteceder à catequese. Se o querigma é a forte badalada do sino, a catequese é o eco da badalada. A catequese prolonga o anúncio querigmático. Não é fria doutrina ou meros ensinamentos teóricos, mas a extensão e a plenitude da nova vida trazida por Jesus.

A vida nos é dada pela fé com que respondemos ao anúncio querigmático, mas a vida em abundância chega à sua plenitude, através da catequese vivida na fé.

O grande erro pedagógico foi sempre o de primeiro catequizar para depois "cristianizar", ou seja, insistem-se, primeiro, em catequizar os fiéis. No entanto, esqueceu-se o princípio fundamental exigido por Jesus a Nicodemos: É necessário nascer de novo.

Para que a vida de alguém cresça, é necessário ter antes nascido. Não se pode crescer na fé se, antes, não se nasceu para ela.
O querígma conduz a este fim:

Através da apresentação de Jesus, ter uma experiência de vida nova graças à fé e à conversão e experimentar Jesus vivo como Salvador pessoal, como Senhor de toda a vida e como Messias que dá o Espírito Santo, para transformar nosso mundo pelo amor.


“Entretanto, para evangelizar estamos colocando o rico alimento da doutrina e da moral cristã junto a cadáveres que não têm a vida de Jesus. Estamos alimentando os mortos.”

Quando Jesus ressuscitou a filha de Jairo, primeiro devolveu-lhe a vida, entregando-a depois a seus pais (a comunidade) para que lhes desse o alimento. Não podemos suprir com catequese aquilo que é uma experiência de vida nova. A catequese, para produzir fruto abundante que permaneça, deve estar em seu lugar: sempre depois do anúncio querigmático.

O querigma é apresentar Jesus, de modo que o indivíduo tenha uma experiência pessoal do Amor de Deus, suscitando nele uma resposta de fé e entusiasmo por Deus e sua Igreja. Somente, então, o indivíduo sentirá desejo e necessidade de se aprofundar na vida nova que experimentou.

Então, ele mesmo buscará a catequese para consolidar sua fé em Jesus e na sua Igreja. Quando se inverte esta ordem, ou seja, evangelizando-se a partir da catequese, damos alimento sólido a quem não deseja, pois ainda está cego ou espiritualmente morto. É como jogar pérolas aos porcos.

Como resultado, não se interessam pelo precioso alimento recebido, pois "morto" não se alimenta.

Por isso, antes de dar o alimento sólido da catequese, é necessário, primeiro, que o indivíduo renasça espiritualmente e o deseje com fervor, ou seja, tenha experimentado o amor de Deus e a conversão, mediante o anúncio do querigma.

Em resumo, o querigma produz o renascimento da vida espiritual, enquanto a catequese, depois, alimenta esta vida espiritual dando-lhe o crescimento.

Quadro comparativo entre Querigma e Catequese:

• No querigma o objetivo é nascer de novo, ter vida. Na catequese é crescer em Cristo, ter vida em abundância.
• No querigma o contúdo é o anúncio de Jesus, morto, Salvador, Ressuscitado, Senhor, Glorificado e Messias. Na catequese o conteúdo é a explicação da doutrina da fé, moral, dogmas, Biblia, etc.
• No querigma o método utilizado é a proclamação de Jesus como a Boa Nova e o testemunho pessoal, visando estimular a vontade do evangelizando (= aquele que está sendo evangelizado). Na catequese o método utilizado é o ensino ordenado e progressivo da Fé de toda Igreja, visando iluminar o entendimento.
• No querigma o agente é o evangelizador, que é um testemunha cheio do Espírito Santo. Na catequese, o agente é o catequista, que é um mestre cheio do Espírito Santo.
• No querigma a meta é o encontro pessoal com Jesus pela fé e conversão e a proclamação de Jesus como Senhor e Salvador. Na catequese a meta é o encontro com o Corpo de Cristo: a comunidade Igreja e, assim, desenvolver a santidade do povo de Deus.
• No querigma o evagelizando dá uma resposta pessoal: Meu Senhor e meu Salvador. Na catequese, a resposta é comunitária: Nosso Senhor, Nosso Salvador.


O Querigma dos Apóstolos (Parte II) - Os 3 Personagens da Evangelização:

Na evangelização há 3 personagens: O Evangelizador, o Evangelizando e o Espírito Santo.

Cada um com seu papel bem claro e definido, que não deve ser suplantado pelo outro.

1) O Evangelizando: Escuta e Responde a Deus

• Seu papel é escutar a Palavra anunciada pelo evangelizador
• Ele, e somente ele, dá uma resposta à Palavra proclamada, com uma atitude tanto interior, quanto exterior
• Ele se confessa pecador e pede perdão de seus pecados
• Proclama Jesus como Senhor de sua vida
• Pede a Jesus Messias o Espírito Santo e o recebe

Não lhe compete:
• Discutir com o evangelizador. Porém, é legítimo que faça perguntas e tire dúvidas
• Justificar-se: "Eu não faço nada de mal", nem condenar-se: "Eu não tenho perdão"

2) O Espírito Santo: Convence e Converte
• A proclamação e o testemunho do evangelizador são instrumentos necessários, mas apenas instrumentos, já que o agente principal da evangelização é o Espírito Santo. Ele atua tanto no evangelizador quanto no evangelizando.
Atuação do Espírito Santo no evangelizador:
• Dá-lhe zelo pelo Evangelho
• Unge-o e usa-o como canal de sua obra
• Enche-o de poder e amor

Atuação do Espírito Santo no evangelizando:

• Usando as palavras e atitudes do evangelizador como veículo de sua obra salvífica, o Espírito Santo é quem realiza com eficácia a obra da evangelização, infundindo a fé, para convencê-lo de que é pecador necessitado de salvação e, em consequencia, que proclame Jesus como Salvador e Senhor.

3) O Evangelizador: Proclama e Testemunha
• Proclama Jesus, uma Pessoa Viva e seus atos de Salvação
• Anuncia jubilosamente a Boa Nova: Já fomos salvos
• Apresenta Jesus Salvador como a única solução para cada homem, para a sociedade e para o mundo inteiro
• É testemunha e dá testemunho: Com sua própria vida e em todo tempo e lugar, é testemunha de que graças a Jesus é possível viver de uma maneira nova neste mundo, e que sua morte e ressurreição são eficazes nos dias atuais. E testifica com palavras o que Deus realizou nele.

Não lhe compete:
• Ensinar teorias ou apresentar doutrinas
• Defender Deus. O advogado é o Espírito Santo
• Tentar convencer o evangelizando com argumentos, citações bíblicas, sugestão ou qualquer tipo de manipulação dos sentimentos
• Converter e transformar as pessoas, pois quem converte e transforma é o Espírito Santo
• Chantagear ou assustar o evangelizando
• Ver o fruto terminado da obra de evangelização

Há 4 condições necessárias para se poder ser um evangelizador e, posteriormente, um formador de evangelizadores:

• Ter experiência de salvação
• Ter zelo pelo evangelho
• Análise da realidade
• Viver o Evangelho
Analisemos estas condições:

1) Ter experiência de salvação
A primeira experiência de todo evangelizador é ter tido uma experiência pessoal de salvação. Não basta saber muita doutrina, ser diplomado em teologia ou ter título ou função na Igreja. É necessário "ter nascido de novo", como exigia Jesus do sábio Nicodemos (Jo 3,3).

O evangelizador não é um mestre, mas sim uma testemunha: proclama Jesus Salvador e dá testemunho do que viu e ouviu. Não só sabe que Deus é Amor: Ele teve a experiência pessoal de ser amado incondicionalmente. Já teve seu encontro pessoal com Jesus e o proclamou seu Salvador pessoal e Senhor de toda sua vida. O Espírito Santo o marcou com um selo indelével. Se proclama que Jesus salva, é porque antes ele já viveu essa salvação na própria carne.

2) Ter zelo pelo evangelho

O zelo pelo Evangelho é um desejo intenso de que Cristo Jesus seja conhecido, amado e servido por todos os homens e, ao mesmo tempo, é um compromisso com o homem para que seja mais digno, mais livre, mais homem.

O zelo pelo Evangelho é um fogo implacável no coração, que não se deixa extinguir e que procura incendiar a todos. É uma espada afiada que não se detém diante de nenhuma dificuldade, até deixar semeada a semente da Palavra de Deus no mundo. É boca de profeta que não cala por respeitos humanos, estruturas asfixiantes ou medo disfarçado de prudência."Calçados com o zelo pelo Evangelho" (Ef 6,15), seu único acompanhante é o bastão, como o de Moisés, para mostrar que, com o poder de Deus, é possível atravessar o Mar Vermelho das dificuldades e dos problemas.
Esse zelo deve converter-se em paixão, que coloca o trabalho evangelizador acima de qualquer outra coisa na vida. E mais: É necessário a obsessão de que o que importa na vida é anunciar a pessoa, a vida e os ensinamentos de Jesus, assim como instaurar seu Reino de justiça, gozo e paz neste mundo.
Paulo estava cheio desse zelo quando exclamava: "ai de mim senão evangelizar", por isso, era capaz de superar todas as adversidades que nos conta em 2Cor 11,23-29.

3) Análise da realidade

A mensagem não é uma camisa-de-força que se impõe, e sim uma opção que propõe a homens livres, inseridos numa cultura, para que com sua vontade tomem a decisão de viver o Evangelho, implantando os valores do Reino em sua realidade histórica.


As estruturas sócio-políticas e culturais são o terreno onde se semeia a palavra. Nesse marco concreto, o Evangelho se encarna para transformar as situações de pecado.

“Aculturar o Evangelho é o grande desafio dos evangelizadores, sob pena de permanecer no superficialismo pragmático, ou no sentimentalismo.”

4) Viver o Evangelho

O estilo de vida do evangelizador determina a mensagem que transmite, seja porque adquire alta reputação, seja porque se desprestigia.
O evangelizador não é um frio transmissor de uma propaganda, mas ele encarna a mensagem, convertendo-se ele próprio, com seu estilo de vida, em parte da mensagem.

Isso exige que ele creia profundamente naquilo que prega e que viva de acordo com o que crê. O evangelizador não é um simples propagandista. Ele vive de acordo com a mensagem que transmite.

Se não existe congruência entre a vida e a mensagem, ela desvirtua-se e é mal interpretada, pois não é possível esperar que os outros creiam naquilo que o evangelizador não professa.Paulo, porque vive o que prega, atreve-se a dizer: Sejam meus imitadores como eu mesmo o sou de Cristo.

O Querigma dos Apóstolos (Parte III) - Pedagogia para fazer o Anúncio Querigmático:


1) O Querigma deve ser Atual: Hoje

Não se trata de falar de acontecimentos perdidos no passado, nem sequer há 2 mil anos atrás, mas sim de forma atual, tornando presente a eficácia da salvação. Por exemplo, mais do que falar do Deus eterno, apresentar Deus que hoje ama, que cura e liberta hoje.

Que o homem pode obter a Salvação, se hoje crê e se converte; que o dom do Espírito Santo é para os tempos atuais e que é urgente criar o Evangelho na comunidade cristã.

2) O Anúncio Querigmático deve ser direto e objetivo: “ A VOCÊ” !!!

Não se trata de falar impessoal ou teoricamente, mas sim que "Deus te ama pessoalmente". Não se trata de apresentar o tema sobre a essência do pecado, mas de interpelar o evangelizando, dizendo:

"Necessitas de salvação porque não podes salvar a ti mesmo!". Mais do que uma aula de Cristologia, deve-se oferecer um Cristo Jesus vivo, com quem é possível ter um encontro pessoal e receber o dom do Espírito Santo. Não se trata de falar em abstrato, mas sim, concretamente.

3) O Evangelizador deve concatenar os temas do anúncio querigmático

Deus te ama, mas teu pecado te impede de senti-lo. Entretanto, Ele já te perdoou e libertou pela morte e ressurreição de Cristo Jesus. A única coisa que tu deves fazer é crer e converter-te a fim de receber seu amor, que é o Espírito Santo e possas viver na família de Deus, a comunidade cristã.

Esta concatenação reflete o diálogo espontâneo, onde o evangelizador vai respondendo as perguntas que o evangelizando vai se fazendo inconscientemente. Veja:

• Evangelizador: Deus te ama hoje
• Evangelizando: Mas porque não o sinto?
• Evangelizador: Porque és pecador e necessitado de salvação.
• Evangelizando: E qual é a solução?
• Evangelizador: Jesus já te salvou!!!
• Evangelizando: Que devo fazer então?
• Evangelizador: Crê e converte-te já, proclamando Jesus como Salvador e Senhor.
• Evangelizando: Como acontece isso?
• Evangelizador: Pede e recebe o dom do Espírito Santo.
• Evangelizando: E depois? O que fazer?
• Evangelizador: Persevera com Jesus na comunidade Igreja.

4) O Evangelizador deve dar seu testemunho de vida

O testemunho pessoal é o centro de uma evangelização eficaz. É o testemunho de como Jesus transformou a vida e como já se vive a vida nova.

Portanto, é vivencial e pessoal. Não se apresentam idéias ou doutrinas, mas fatos concretos nos quais foi experimentada a salvação de Jesus.

Como pode alguém afirmar com segurança e convicção que Jesus salva, se ele mesmo não o experimentou de alguma forma? Alguém é testemunha de Cristo, quando aspectos concretos da vida de pecado já morreram na cruz de Jesus e já se participa das primícias da vida nova de Cristo ressuscitado.
Em um testemunho manifesta-se não o que nós fizemos pelo Senhor, mas sim o que Ele realizou em nossas vidas.

Um exemplo é o daquele homem a quem Jesus ensinou a dar testemunho: "Vai para a tua casa e para os teus e anuncia-lhes tudo o que fez por ti o Senhor na sua misericórdia" (Mt 5,19)

O testemunho deve ter 3 características: ABC (Alegre, Breve e Centrado em Cristo)

Alegre:
Um testemunho deve estar envolto numa atmosfera de alegria, acompanhado de um sorriso, do entusiasmo das palavras e da convicção dos olhos. A alegria é o primeiro sinal de quem encontrou o tesouro escondido. Não se trata de uma alegria porque não existem problemas, mas sim porque a alegria do Senhor é nossa fortaleza.

Breve:
Um bom testemunho deve ser centrado no fundamental da obra salvífica de Deus, sem entrar em detalhes acidentais ou complicados. Os relatos longos são cansativos porque se perde o enfoque fundamental. Não se deve exagerar as coisas, nem o nosso pecado, nem a obra salvífica de Deus.

Centrado em Cristo:
Um testemunho não está centrado em quem o dá, para que os outros o admirem, mas sim centrado em Cristo mesmo, e em sua obra salvífica.
Há quem pense que os testemunhos que mais impressionam são aqueles em que Deus realizou coisas maravilhosas e mudanças radicais, acompanhados por milagres e sinais extraordinários. Não é sempre assim.

Cada testemunho toca às pessoas que estão seguindo um caminho semelhante. Há muitas pessoas que se parecem com cada um de nós e não necessitam de grandes coisas. Nosso testemunho para eles será uma grande libertação.

O testemunho deve terminar sempre com uma explícita exortação: "Se fez em mim, pode fazer em ti. O Senhor quer fazer também em tua vida".

5) O Querigma deve ser anunciado com o poder do Espírito Santo

É o Espírito Santo quem impulsiona cada um para anunciar o Evangelho e quem faz aceitar e compreender a Palavra da Salvação.
"Não haverá nunca uma evangelização possível sem a ação do Espírito Santo. As técnicas de evangelização são boas, mas nem as mais aperfeiçoadas poderiam substituir a ação direta do Espírito" (E.N. 75).

O eloquente discurso de Paulo, no Aerópago Ateniense, demonstra que a eficácia do Evangelho não reside em palavras cheias de sabedoria e ciência, mas na ação do Espírito Santo. O poder não está necessariamente nos gritos ou nas qualidades de sugestão ou de oratória, mas na ação eficaz, às vezes discreta, outras vezes portentosa, com que o evangelizando se abre e se rende à pregação e à obra salvífica de Deus.

6) A santidade do evangelizador

O verdadeiro evangelizador é quem traz em si a imagem de Cristo Jesus. Só quem tem o estilo de vida de Jesus é capaz de ser canal de sua vida. Um evangelizador santo atua com pureza de intenção porque só tem um objetivo em sua vida e não busca nenhuma compensação humana de benefício pessoal: que Jesus Cristo seja mais conhecido, seguido e amado por todos os homens.

7) O evangelizador deve ser movido pelo amor

O Evangelizador deve ter amor ao Evangelho, a Jesus e ao evangelizando. Sem ele o ministério do evangelizador seria como bronze que ressoa. O evangelizando deve sentir, de algum modo, um lampejo do amor de Deus, através de cada gesto e atitude do evangelizador. "A obra do evangelizador supõe um amor fraternal àqueles que evangeliza" (E.N. 79)

8) Usar de exemplos e parábolas
A forma mais pedagógica de anunciar o Evangelho é através de exemplos claros que consigam explicar de uma maneira simples o que se quer transmitir. Histórias e vivências gravam muito mais na mente dos ouvintes do que qualquer tipo de instrução teórica. Para cada tema ou verdade se deve encontrar exemplos atuais e modernos que facilitem sua compreensão.

9) Usar as Escrituras
É imprescindível levar e usar um exemplar da Bíblia quando se evangeliza. É muito importante saber de cor as passagens fundamentais do anúncio querigmático, para utilizá-los com presteza e boa pronúncia. Entretanto, mais importante do que os recitar de cor, é lê-los diretamente da Bíblia e, quando possível, que o evangelizando mesmo os leia em voz alta.
Também é muito importante que cada evangelizando tenha sua Bíblia, para que ele se alimente do Pão da Palavra de Deus. No caso de não poder adquirí-la, deve-se procurar uma forma de presenteá-lo, ao menos, com um Novo Testamento.

10) O Evangelizando deve tomar uma decisão

Um erro frequente da evangelização é tratar de convencer mediante argumentos apologéticos. Dizia o Bispo Fulton Sheen: "Cada vez que ganhei uma discussão, perdi uma alma".

O ponto ao qual se deve dirigir toda a proclamação não é tanto a compreensão, pois que não se apresenta uma doutrina. Jesus quer entrar pelo coração para chegar ao cérebro. Na catequese o entendimento terá um papel tão primordial quanto a vontade no anúncio querigmático.

O bom evangelizador deve procurar desafiar o evangelizando para que tome a grande decisão de sua vida: adquirir a pérola preciosa vendendo todas as demais ou permanecer surdo a sua voz. Dizer sim ou não, mas não ficar indiferente frente ao oferecimento da salvação. Portanto, não se trata de convencer, de seduzir, menos ainda enganar ou chantagear! Simplesmente, é uma questão de que, diante da pessoa de Cristo Jesus, se diga um sim total ou um não completo.

Quando o evangelizando fica morno ou indiferente, devemos verificar se estamos apresentando a pessoa viva de Jesus ou estamos propondo teorias.

11) Acompanhar o evangelizando

O evangelizador participa da paternidade de Deus, pois gera a vida de Cristo nos outros. Mas esta paternidade deve ser responsável, zelando por aqueles que foram gerados na fé. Nosso compromisso não termina com fazer o evangelizando nascer de novo, mas em oferecer-lhe os meios de crescimento e de integração em uma comunidade de serviço dentro da Igreja. Portanto, é importante que se acompanhe o evangelizado, como fazia Paulo: "Tornemos a visitar os irmãos por todas as cidades onde temos pregado a Palavra do Senhor, para ver como estão passando." (At 15,36).

12) Integração com a Igreja

A Igreja é evangelizadora e, ao mesmo tempo, é um Evangelho, porquanto, é ela mesma uma manifestação da Nova Vida trazida por Jesus. O objetivo último da evangelização não é a transformação de indivíduos isolados sem nenhum nexo entre si, mas a integração de comunidades cristãs autênticas, onde é vivida a salvação trazida por Cristo Jesus. E mais, a vida em plenitude só se experimenta em plenitude em união efetiva com os demais irmãos na fé: a Igreja. Toda a evangelização tende à integração das comunidades cristãs, onde se manifesta de maneira clara e efetiva o amor de Deus derramado por nós, em nosso coração, pelo Espírito Santo.

A comunidade não é opcional. É absolutamente necessária para perseverar na vida nova.
Ela nos garante o crescimento e o desenvolvimento do neo-evangelizado. Sem ela, a semente da Palavra da Salvação será afogada pelas preocupações da vida e os valores anti-evangélicos que regem o mundo. À comunidade não se assiste, mas pertence-se. Faz-se parte ativa dela. Ali, dá-se e se recebe amor como o de Jesus: que nos dispõe a entregar a vida pela pessoa amada. Isto é o que essencialmente forma a comunidade: o amor cristão.

O QUERÍGMA APÓSTÓLICO HOJE  ( PARTE IV): “Deus não nos ama pelo que nós fazemos, mas pelo que Ele  “É”.

“Como um pai é compassivo com seus filhos, Javé é compassivo com aqueles que o temem“(Sl 103,13)

Deus é amor: (1 Jo 4,8)

O QUE PRECISAMOS ANUNCIAR HOJE PARA ESTE POVO DESGARRADO COMO OVELHAS SEM PASTOR ?

A - Deus ama você incondicionalmente, porque Ele é Amor
“Deus é Amor” (1 Jo 4,8) ; Is 49,15

Deus não lhe impõe nenhuma condição para amar você. Ele ama você como você é neste momento: não importa o que você tenha sido ou o que você é no presente. Não importa que você tenha pecados, vícios, defeitos. Deus ama você como você é. Deus ama você incondicionalmente. O amor de Deus para com você não muda, porque Ele é sempre fiel. Uma coisa Deus não pode fazer: é deixar amar você, mesmo que você esteja em pecado.

“Os montes podem mudar de lugar e as colinas podem abalar-se, mas meu amor não mudará” (Is 54,10).

Deus não ama você pelas suas qualidades, mas com as qualidades que você tem.

B - Deus quer o melhor para você porque você é Seu filho.

Deus ama você como você é, mas não quer deixar você assim como você está. Ele quer algo muito melhor para você. Ele quer o melhor para você. Ele tem um plano que fez para você, com toda sabedoria e amor.
Ele nos criou à sua imagem e semelhança
Ele nos criou em harmonia perfeita com Ele – uma relação pessoal e perfeita com os outros : relações de justiça e caridade com nós mesmos – segurança, paz e domínio próprio com toda criação – sendo livres e não escravos das coisas deste mundo encheu nos de felicidade com sua alegria, paz e união.

C - Deus tomou a iniciativa de amar você

Deus ama você. E a única coisa que lhe pede é que você creia no Seu amor, que creia Nele, confie no plano Dele mais que no seu.
Deus nos pede que nos deixemos amar por Ele.
Espera que você manifeste que quer experimentar o amor dele por você.
Foi Deus quem nos escolheu primeiro (Jô 15,16). Ninguém pode amá-lo sem antes experimentar o Seu amor. Não se trata de que nós intentemos chegar a Ele, mas que nos deixemos alcançar por Ele. São Paulo foi alcançado por Ele. Não resistiu: “Senhor, que queres que eu faça”?


O PECADO

Objetivo do tema: sermos convencidos (não acusados) de pecado. Nosso pecado é a causa de todos os males.

Questionamentos:

1. Se Deus nos ama, então, porque, a nível pessoal, vivemos com tantas inseguranças, temores, invejas, insatisfações, desequilíbrios emocionais, desespero, angústia, tristeza e limitações, e não experimentamos Seu amor?
2. Se Deus nos ama, então por que, a nível comunitário, as famílias se desintegram, os filhos se rebelam contra os pais, há lutas de gerações, competições e ódios de uns para com outros?
3. Se Deus nos ama, por que, a nível social, não vivemos o maravilhoso plano de amor, de justiça e paz? Por que há guerra, há fome, há pobreza, há discriminação, há injustiça, há opressão.
4. Se Deus nos ama, por que não experimentamos esse amor? Pro que nosso mundo não é um paraíso onde se viva em harmonia, justiça e paz?

A – O problema – Qual é o problema?

“Podemos restaurar as estruturas com Santidade, porém jamais podemos restaurar a ordem e Santidade somente mudando estruturas, pois muda-se apenas a coleira, mas o cachorro continua o mesmo se não experimentou Deus.”

Deus no diz, em sua palavra: “Sendo que todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus” (Rm 3,23).

O que impede que em nosso mundo se manifeste o amor de Deus e se realize o Seu plano de felicidade, paz e união chama-se pecado. O pecado é a causa de todos os males que afligem a humanidade.

Desde que no paraíso satanás enganou a nossos primeiros pais, fazendo-os crer que eles alcançariam a felicidade por suas próprias forças, começou todo o desastre em que vivemos: o homem se afastou de Deus, fonte de vida. E começaram os ódios, os rancores, os ressentimentos.

O problema é que somos pecadores, afastados do amor de Deus. O pecado não é algo que possamos impedir que entre em nós, porque sai do fundo de nosso próprio ser (Mc 1, 14-15). Nós manifestamos frutos de pecado porque nossa raiz, o coração, é pecado (Ex. do limoeiro). Nós somos pecadores, e, precisamente por isso, pecamos. Porque nossa raiz é de pecado, aparecem frutos de pecado.

Nós nos afundamos, quando queremos alcançar a felicidade e a realização pessoal com nossas próprias forças:

. Quando buscamos isso por caminhos falsos: desordem sexual, alcoolismo, drogas, ativismo, poder, fama, conforto...
. Quando confiamos em falsos redentores: materialismo, humanismo sem Deus, comunismo ou capitalismo, etc.
. Quando cremos em ídolos falsos: satanismo, bruxaria, curandeirismo, controle mental, conhecimento do futuro, etc.
. Quando dependemos de nós mesmos: cumprimento da lei, nossa própria justiça, nossas boas obras...

Nós estamos amarrados pelo laço do pecado, que não nos permite chegar à margem da salvação. Necessitamos de alguém que desamarre o laço do pecado.

Que é o pecado?

É tudo que não provém da fé em Deus (Rm 14,23). O pecado é, basicamente, não crer em Deus, não confiar nele porque confiamos mais em nós, não querer depender de sua vontade.

O pecado causa mais dano ao homem do que a Deus. Por isso Ele não quer que pequemos.

O homem tem um problema que não pode solucionar. É de natureza pecadora, por isso peca. Por suas próprias forças, não é capaz de renovar-se, de tornar-se nova criatura. Nenhum homem pode salvar-se a si mesmo. Esta é a pior notícia.

C) – Reconheça seu problema

É certo que somos pecadores, mas temos uma vantagem: sabemos que só os enfermos podem ser curados. Reconhecendo que somos pecadores, podemos ser perdoados. É necessário que você se reconheça pecador, que você não é tão bom quanto parece. O único pecado que não pode ser perdoado é o que nós não reconhecemos que pecamos. (Lc 18, 9-14).


JESUS, A SOLUÇÃO DE DEUS (A SALVAÇÃO e LIBERTAÇÃO  EM JESUS)

Objetivo do tema: apresentar Jesus morto, ressuscitado e glorificado como única solução para o mundo e cada individuo.

SÍNTESE DOS DOIS TEMAS ANTERIORES – Deus nos ama, mas o pecado nos impede de experimentar esse amor. O homem por si só não pode salvar-se.

1 – A BOA NOTÍCIA:
Se o homem não era capaz de chegar até a Deus, Deus chegou até nós. Quando não havia esperança de solução, então brilhou uma luz nas trevas: Deus cumpriu Sua promessa de salvação.
“Deus amou tanto o mundo que entregou seu Filho único... para que o mundo seja salvo por “Ele” (Jo 3,16-17)

Sim, há uma solução para o mundo e para cada homem: esta solução é Jesus, cujo nome significa: “Javé salva.” Ele é médico e remédio ao mesmo tempo.

Que fez Ele ?

A – Vence a satanás.

Quando nossos primeiros pais pecaram, Deus disse à serpente: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua linhagem e a linhagem dela. Ela (a linhagem dela, o Filho), te esmagará a cabeça...” (Gn3, 15). Jesus, descendente da mulher, esmaga a cabeça do inimigo.

B. – Salvação do pecado.
Jesus é o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo para que possamos viver em plenitude a vida em abundância. Sua missão é arrancar a raiz que origina todo o mal: o pecado.

C. – Perdoa o pecado
Nós devíamos a Deus uma conta por termos comido o fruto proibido (pecado original). Jesus pagou nossa dívida, morrendo na cruz. “Vós estáveis mortos pelas vossas faltas,... (Cl 2,13-14)
Nossos pecados foram perdoados graças ao Sangue de Cristo. “Pai perdoai-lhes...”

D. – Esquece o pecado

Quando Deus perdoa, perdoa para sempre, isto é, não se recorda mais de nossos pecados perdoados. Jesus tomou nossos pecados e jogou-os no fundo do mar.
“Novamente ele nos manifestará sua misericórdia, calcará aos pés as nossas faltas e lançará no fundo do mar todos os nossos pecados” (Jr 31,34).
Quando Deus volta a ver-nos, vê-nos cobertos com o Sangue de Seu Filho amado. (Hb10, 14)

E. – Liberta do pecado
Jesus não só tira e perdoa o pecado, mas liberta-nos do pecado, isto é capacita-nos a não pecar mais. Dá-nos condições para evitar o pecado.

2. – Comunica Vida Divina

Deus não enviou Seu Filho amado só para solucionar problemas ou romper grilhões de pecado, mas foi enviado, especialmente, para trazer vida e vida em abundância (Jo 10,10)
Jesus é a presença do amor do Pai para com os pecadores, para que se manifeste o amor misericordioso de Deus (Rm 5,20)
. a mulher adúltera (Jo 8,3-11) paz consigo mesmo
. o rico Zaqueu (Lc 19,1-10) paz com os outros (Zaqueu foi libertado da cobiça)
. o ladrão arrependido (Lc 23, 39-43 (paz com Deus)

3 – Como se realizou nossa salvação ?
Jesus realizou de uma vez por todas a salvação total do homem e de todos os homens

a) Por sua encarnação

O Filho de Deus, sendo de condição divina, assumiu uma carne pecadora e habitou entre nós, fazendo-se semelhante a nós em tudo, exceto no pecado. O amor de Deus se manifestou em Cristo Jesus (Rm 8,31-38)

b) Por sua morte
Jesus não foi assassinado. Ele se entregou voluntariamente à morte por amor a nós, pecadores, para carregar nosso pecado. Ao ser arrancada a raiz, são suprimidas as conseqüências do pecado: violência, ambição do poder, rancores, ressentimentos, etc.

c) Por sua ressurreição
Jesus ressuscitou ao terceiro dia, sepultando nosso pecado. Com sua morte, vence a pior de todas as conseqüências do pecado: a morte. Por isso, nós também ressuscitaremos. Jesus está vivo hoje e sempre. Vitorioso sobre o pecado e todo o mal. Jesus é a solução. (Ef. 2,1-7)

A FÉ E A CONVERSÃO

Se Jesus já nos salvou, por que não experimentamos os frutos da salvação, em nossa vida?
A Fé e a Conversão são os meios necessários e insubstituíveis, através dos quais a salvação e a libertação se tornem atuais em cada pessoa (São como duas pranchas da ponte que nos liga à salvação)

Os primeiros evangelizadores procuravam sempre:
. que os ouvintes acreditassem em Jesus (At 13,39)
. que se convertessem a Deus


. “Creiam em Jesus Cristo, convertam-se de seus pecados e então poderão viver a vida do Filho de Deus”.

A)- A FÉ

A fé é um dom de Deus. É a certeza de que Deus vai agir de acordo com Suas promessas.
A fé nos leva a crer que já fomos perdoados. E que podemos viver em harmonia com Deus, com o próximo, com a criação e com nós mesmos.
A fé em que Jesus já nos salvou não nos permite buscar outro meio de salvação.
A Fé tem três facetas:

1a . Crer – Não é só acreditar em Deus, mas entregar-se a Ele. É acreditar em alguém e esse Alguém é Deus. É um modo de se relacionar com Deus.
2a . Confiar – É o abandonar-se incondicionalmente nas mãos de Deus, Pai amoroso e misericordioso. A confiança não depende de nossas boas ações, mas dos méritos de Jesus Cristo na Cruz.
3a . Depender – A fé verdadeira, e que salva, é a que faz com que obedeçamos a Deus como Pai que nos ama e não por temor. Essa fé nos faz viver de acordo com aquilo que dizemos crer.

B) – A CONVERSÃO

Fé sem conversão seria como um fogo que não queima. Seria uma fé morta.
A conversão não se limita a uma mudança de moral. Conversão é mudança de vida: pela fé entregamos nossa vida de pecado a Jesus e recebemos dele a sua vida de Filho de Deus.

1o aspecto da conversão – Jesus começa a viver, amar, servir e atuar em nós e através de nós.
Conversão é uma troca de vida: trocamos nossa vida pela vida de Jesus. É entregar o coração a Deus. Não é só dar as costas ao pecado, mas voltar a face para Deus. O sol divino nos transforma.

2o aspecto da conversão – Passamos a viver como filhos de Deus. Não só afastados do pecado, mas na alegria festiva de filhos.

A conversão comporta três dimensões
a) Dimensão pessoal
“cada um se faça batizar”(At 2,38)
“cada um se arrependa de seus pecados e se dedica a aceitar Jesus como único Salvador”, enxertando-se e enraizando-se nele.
b) Dimensão comunitária
“perseveraram na comunhão”(At 2,38)
Os primeiros cristãos começaram a tomar parte ativa numa comunidade reunida em torno da Ceia do Senhor e do Ensino Apostólico. Se não conseguir a integração na comunidade, onde se vivam o amor e o perdão, e onde cada um preste serviço aos demais, pode-se dizer que está falho o processo evangelizador.
c) Dimensão social
“Todos os cristãos viviam unidos e tinham tudo em comum” (At 2,44)
O evangelizando e a comunidade presta um serviço ao mundo. Sua conversão deve promover a civilização do amor. O evangelho transforma as estruturas que estão submetidas ao poder do pecado. O Evangelho impregna a dimensão política, econômica, cultural e ecológica.

C) – MANIFESTAÇÃO EXTERNA DA FÉ E DA CONVERSÃO

São Paulo afirma que, para alcançar a salvação, necessita-se não só de crer com o coração, mas também de declarar com a boca (Rm 10,9-10).
Na evangelização querigmática deve haver um momento que o evangelizando tenha oportunidade de manifestar sua fé e conversão, confessando Jesus como único Salvador e Senhor de toda a sua vida. (Jesus é o Senhor quando Ele, efetivamente, governa e dirige a pessoa que decide de acordo com os princípios evangélicos e os valores do Reino) ( At 4,12; Rm 10,9; At 3,20)
No ministério de Jesus, encontramos diversos tipos de manifestações de fé, que desencadearam o poder salvífico:
Mc 5, 25-34; Lc 19, 8; Mt 16, 16; Mt 20, 31; Lc 7, 37-38.

O DOM DO ESPÍRITO SANTO

Objetivo do tema: Apresentar o Espírito Santo que, ao mudar nosso coração, capacita-nos para viver a Vida Nova.

A – A promessa

Antes da Sua morte Jesus disse aos seus discípulos: “No entanto, eu vos digo a verdade: é de vosso interesse que eu parta, pois, se eu não for, o Paráclito não virá a vós. Mas, se eu for, vo-lo enviarei” (Jo 16,7)
Quando ele ressuscitou, apareceu aos discípulos e disse-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas esperassem a Promessa do Pai, da qual já lhes falara: Lc 24,49; At 1,5; At 1,8.
Tratava-se de um compromisso de Deus com os homens, através de Jesus. A Vida Nova que Jesus veio trazer não poderia ser vivida sem o Espírito Santo e um Coração Novo, isto é, sem o cumprimento da promessa feita através dos profetas Ezequiel e Jeremias: Ex 11, 19-20; Jr 31,33.
O coração do homem só pode ser mudado por Deus. A renovação interior do homem é realizada pelo Espírito Santo, o Espírito de Deus. O Espírito de Jesus.
A novidade do Evangelho não é uma lei nova, mas um Espírito Novo, que Jesus glorificado envia aos seus para que possam viver a vida de filhos de Deus. (Rm 8,15; Gl 4,6)
A obra da salvação não consiste somente em sermos perdoados de nossos pecados, mas na transformação de nosso coração pecador em um coração como o de Jesus. É o próprio Espírito Santo que cumpre a lei em nós. É Ele que nos capacita para viver a vida de fé, amor e serviço, conforme a vontade de Deus. A única lei do cristão é a atividade do Espírito Santo nele. A ação do Espírito Santo no homem faz modificar todos os seus apetites, critérios e valores. Já não segue os desejos da carne. Transformado pelo Espírito, deseja, quer e faz as obras do Espírito. (Gl 5,17-18, 19-23)
O Espírito Santo, que recebemos em nosso batismo, é uma força interior no homem que o muda e o transforma radicalmente. Tão interior e radical é a ação do Espírito Santo em nós que o Espírito de Cristo vem a ser nosso espírito. (Gl 6,15 – criaturas novas)

B – O cumprimento da promessa

50 dias após sua ressurreição, Jesus, cheio do Espírito Santo, cumpriu sua promessa: enviou, do céu, a torrente do Espírito Santo sobre seus discípulos, reunidos em oração, junto com Maria. (At 2,1-4)
Pentecostes não foi outra coisa senão Cristo Glorificado, cheio do Espírito Santo, que abriu seu coração para derramar seu Espírito sobre seus discípulos e transformá-los em novas criaturas. Os apóstolos foram inundados pelo Espírito Santo, submergidos, cheios em plenitude. A efusão do Espírito Santo neles foi total.
Esta efusão mudou totalmente as coisas para eles:

a) Conheceram verdadeiramente a pessoa e a missão de Jesus
b) Transformou seu coração. At 4,32 – Os discípulos começaram a ter os mesmos sentimentos, interesses e critérios de Jesus. Cristo vivia neles a presença do Seu Espírito.
c) Jesus tornou-se o centro de suas vidas – Não buscavam ser servidos, mas servir; ser amados, mas amar; receber, mas dar. At 20,35
d) Começaram a testemunhar com palavras poderosas. – Pedro começou a falar, e se converteram 3 mil. Experimentaram força nova e começaram a curar os enfermos, e surgiram toda a classe de sinais, prodígios, milagres, que manifestavam a presença de Cristo Salvador no meio deles (At 4, 30-31)
e) O nascimento da Igreja – Fruto da efusão do Espírito Santo foi o nascimento da Igreja, da comunidade dos que creram em Jesus. Só os que têm o Espírito de Cristo podem pertencer a Ele. A Igreja de Jesus Cristo é animada por um só e único Espírito, o Espírito de Jesus, o Espírito Santo. Os cristãos tinham tudo em comum. At 2,44
f) Glorificavam a Deus – começaram a dar graças a Deus sempre e por tudo. Nas alegrias e nos sofrimentos.

A PROMESSA DO ESPIRITO SANTO É PARA VOCÊ !!!

Os habitantes de Jerusalém se admiravam da vida dos primeiros cristãos. E perguntaram: Como poderemos nós viver a vida de Jesus, refletida em vocês? Pedro responde: At 2,37. O Espírito Santo foi prometido para cada um de nós. Como sem água não há vida na terra, sem o Espírito Santo não há vida Nova. (Jo 7,37-39)
Condição para beber da Água Viva: ter sede. Quem tem sede, pede a Jesus que derrame em si o rio de água Viva que jorra de seu lado aberto – O Espírito Santo. A condição é que reconheçamos que temos necessidade do Espírito Santo. De quanto necessita você? Jesus mesmo prometeu que enviaria uma nova efusão de Seu Espírito da parte de Seu Pai Celestial. (Lc 11, 9-13; 1o Tess 5,24). O que Jesus fez no Cenáculo pode fazer aqui, agora! Quanto nos custa? – Nada. É DOM, é grátis. Jesus conquistou-o para nós.

A COMUNIDADE

Objetivo do tema: Mostrar que o plano de Deus não termina até que o Espírito Santo forme o Corpo de Cristo com a diversidade de membros e variedade de ministérios.

A – Muitos membros de um só corpo

Deus não quer só transformar corações. Deus quer formar um povo santo e uma nação consagrada. Portanto, a obra do Espírito Santo é que encontremos qual é o nosso lugar no corpo de Cristo, que é a Igreja, e que nos sintamos células vivas de um organismo.
“Com efeito, o corpo é um e, não obstante, tem muitos membros...” l Cor 12.

Se for vivida a situação de corpo, destrói-se o pecado do individualismo. Então começa-se a viver de acordo com a verdadeira personalidade o homem que foi criado à imagem e semelhança de Deus: em Comunidade.
Aquele que é criança na fé, nunca amadurece em vista de um compromisso comunitário.
O que é maduro na fé já não se apropria dos bens espirituais e materiais. Busca o bem de cada um dos membros da comunidade, o bem comum, e se esforça por compartilhar de maneira cristã, tudo o que tem e tudo o que é.
A evangelização será incompleta enquanto não se chegue a viver a realidade do Corpo de Cristo que faz com que o amor nos impulsione e nos permita comunicar todos os bens de acordo com os critérios do Evangelho.

B – Diversidade de ministérios e carismas
É na vida comunitária que o homem alcança sua autentica dimensão humana, ao colocar a serviço da comunidade os carismas que o Senhor lhe confiou para o proveito comum.
Num corpo cada membro tem uma função especial e insubstituível. (l Cor 12, 7-11)

Deus quer transformar o homem e todo o sistema ou estrutura onde ele esteja envolvido e comprometido. Enquanto esse dia não chega, não está terminada a obra de Deus.
Deus não compactua com:
. fé que não irradia no ambiente em que se vive;
. comerciantes ou empresários que buscam santidade, mas exploram;
. políticos que vão à missa, e apóiam sistema injusto;

O plano de Deus é mudar as estruturas e sistemas anti-evangélicos baseados nos valores carnais deste mundo. Deus quer estruturas novas nascidas do Espírito, Só o que nasce do Espírito é que dá vida. O plano de Deus é formar o Corpo de Seu Filho: sem divisões, sem racismo, sem divisões econômicas, religiosas ou de nenhum outro tipo. “Exorto-vos... Ef 4, 1-6

Cada um põe a serviço dos outros o dom ou carisma que Deus lhe confiou: Rm 12, 4-8.

Deus quer formar comunidades verdadeiras onde viva a fé, o amor e o serviço uns aos outros. Para isso Ele nos deu nos carismas de Seu Espírito Santo. l Cor 7,7. Cada um é responsável pelo dom que Deus lhe deu, e Ele pedirá conta do que se fez e como se administrou.

Não basta nascer. É preciso crescer na vida nova. Para isso, é necessário manter-se unido à videira (Jesus), vivendo como parte do corpo de Cristo leva necessariamente ao encontro do irmão, especialmente do mais necessitado.
Nos grupos de partilha, há entre - ajuda e isto facilita o crescimento pessoal e comunitário.

José H. Prado Flores

Livro: Como Evangelizar os Batizados (Ed. Loyola)

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Neste Apostolado promovemos a “EVANGELIZAÇÃO ANÔNIMA", pois neste serviço somos apenas o Jumentinho que leva Jesus e sua verdade aos Povos. Portanto toda honra e Glória é para Ele.Cristo disse-nos:Eu sou o caminho, a verdade e a vida e “ NINGUEM” vem ao Pai senão por mim." ( João, 14, 6).Como Católicos,defendemos a verdade, contra os erros que, de fato, são sempre contra Deus.Cristo não tinha opiniões, tinha verdades, a qual confiou a sua Igreja, ( Coluna e sustentáculo da verdade – Conf. I Tim 3,15) que deve zelar por elas até que Cristo volte.Quem nos acusa de falta de caridade mostra sua total ignorância na Bíblia,e de Deus, pois é amor, e quem ama corrige, e a verdade é um exercício da caridade.Este Deus adocicado,meloso,ingênuo, e sentimentalóide,é invenção dos homens tementes da verdade, não é o Deus revelado por seu filho: Jesus Cristo.Por fim: “Não se opor ao erro é aprová-lo, não defender a verdade é nega-la” - ( Sto. Tomáz de Aquino)

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