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CONTRADIÇÃO BÁSICA DA RENOVAÇÃO CARISMÁTICA CATÓLICA: CONTINUIDADE OU RUPTURA?-(REVISTA CIENTÍFICA DA UFPA – EDIÇÃO Nº 01, MARÇO, 2001)

Written By Beraká - o blog da família on sábado, 3 de março de 2012 | 22:38



* Por: Marcos Eliezer da Silva Souza (Graduando do Curso de Ciências Sociais/CFCH/UFPA) - REVISTA CIENTÍFICA DA UFPA – EDIÇÃO Nº 01, MARÇO, 2001

RESUMO

O expansionismo, as divergências e perspectivas da renovação carismática dentro da Igreja Católica, suas implicações na sociedade moderna e novo rumo religioso, merece um olhar científico. Trata-se de um fenômeno religioso que vem envolvendo as diferentes camadas sociais e despertando indagações intelectuais no meio das ciências sociais.

Constitui-se numa conjunção de dogma católico e práticas pentecostais, onde seus fiéis buscam soluções para suas crises existenciais.

O culto carismático envolve terço, oração, veneração a Maria, cânticos agitados, leitura da Bíblia, sermões inflamados, curas divinas, milagres e recebimento do Espírito Santo.

A religião tornou-se cada vez mais expressiva, o número de sujeitos que buscam no sobrenatural soluções para suas crises existenciais ou materiais demonstram uma nova característica do homem moderno com o encantamento religioso.

O triunfo da modernidade envolve uma relação de sujeito, razão e sobrenatural. O homem não é apenas secularizado, mas simboliza, pensa e reflete religiosamente.


Palavras chave:
Religião,carismático,pentecostes,secularização,desencantamento, carisma.




1 O trabalho corresponde uma amostra do plano de trabalho “A Renovação Carismática: Análise do Dogma Católico com Práticas Pentecostais” inserido no projeto de pesquisa “O Pentecostes e a Virgem de Nazaré: A Renovação Carismática Católica em Belém Pará” do professor Raymundo Heraldo Maués.


Uma atividade científica desenvolvida como bolsista de iniciação científica da UFPA PIBIC/CNPq no período de Agosto de 1999 à Fevereiro de 2001. Um estudo sobre os novos rumos do homem em relação à religião no mundo pós-moderno, discorrendo sobre as implicações da renovação carismática na sociedade brasileira, sobretudo, em Belém do Pará.

A metodologia está baseada na análise comparativa da sociologia, partindo de fontes bibliográficas sobre a RCC como periódicos, livros científicos e católicos, TCC’s, dissertações e trabalhos apresentados em jornadas/seminários científicos, como também utilização de alguns vídeos e observações de campo.


Realizaram-se também algumas observações científico-metodológicas em alguns grupos de oração da renovação carismática em Belém. O grupo de oração “Água da Vida” da Igreja católica de S. João, na Cidade Velha; “Exército de Deus” da capela de São Sebastião e “Grupo Adonay” da capela da Escola Nossa Senhora de Lourdes. Estes dois últimos grupos pertencem ao distrito de Icoaraci/PA.


Participou-se ainda de alguns eventos realizados pelos membros da RCC em Belém, organizado pela Comunidade Maíra no período do carnaval (Renovai-vos 1999, 2000 e 2001).





Quando se pretende estudar sociologicamente a religião, a primeira referência que se faz ao objeto de estudo, é saber se há algum valor científico. Que relação há entre o fenômeno religioso e a ciência ou o que se pode entender como pertinente ou aproveitável à análise científica.

No Brasil, por exemplo, a pesquisa relacionada à ação religiosa foi, por muito tempo, de pouca preocupação científica; isso, por ser entendida como um fenômeno indigno de ser estudado pela comunidade científica, ficando apenas ao interesse particular de seu campo institucional, como: seminários, centros religiosos de pesquisa e entre teólogos.



Por outro lado, o vulgo prega que “religião e gosto, não se discutem”. Ora, se essas concepções, em certo sentido, parecem afirmar que, a religião não é objeto digno de investigação, como entender, por exemplo, “o devoto que, ao nascer, já encontra prontas as crenças e as práticas da vida religiosa”.
Não seria isso um fato social, portanto, coerente à análise científica?

E o que dizer da efervescência mágica e da diversidade litúrgica que os fenômenos religiosos apresentam a sociedade?


O que dizer da polêmica e da expansão de movimentos mágicos que acabam por originar mudanças sociais, culturais, políticas e econômicas?

Para Durkheim, se a ciência, em princípio, nega a religião, é um equivoco, pois a religião existe.

Constituise num sistema de fatos dados, uma realidade social passível de investigação científica.


Com o entrechoque de religiões e ideologias, o estudo da religião experimentou um impulso significativo, sobretudo nas investigações sociológicas.


Doravante, os cientistas sociais, vêem, ainda que timidamente se comparado a outros objetos de estudo, tecendo vasta rede de informações sobre o fenômeno do catolicismo brasileiro, destacando não só a sua origem, desenvolvimento e doutrina, mas especialmente suas influências e transformações na sociedade, tanto no aspecto religioso como político, social e econômico.


A intenção do tema, bem como o assunto da renovação carismática, a princípio, pode incomodar determinados leitores e, especialmente, alguns cientistas sociais, principalmente, quando se observa, em certos pontos do trabalho, referências à Bíblia. Prudência, portanto, é o que se pede aos incautos dos estudos relacionados à religião. Na verdade, não se trata de um estudo de perspectiva teológica, mas sim, um estudo no campo da sociologia da religião, cuja tentativa é entender o religioso numa perspectiva sociológica.


Quanto aos novos rumos do homem secularizado em relação à religião no mundo dito pós-moderno, a proposta é discorrer sobre algumas observações feitas sobre um novo sentimento religioso que sobressai do cristianismo, sobretudo do catolicismo e que implica novidades na tradicional Igreja Católica. Uma análise das
implicações da Renovação Carismática Católica (RCC) na sociedade brasileira,
especialmente, em Belém do Pará.


1. OS CIENTISTAS SOCIAIS E A RENOVAÇÃO CARISMÁTICA CATÓLICA


O Brasil da década de 70, trazia em seu bojo grandes mudanças sociais vividas nas décadas anteriores, bem como o surgimento e expansão de novas religiões no
cenário nacional, sobretudo o pentecostalismo brasileiro (Freston, 1994). A RCC, por sua vez, chega ao Brasil em 1972, logo após seu surgimento nos Estados Unidos, instalando-se, primeiramente, na cidade de Campinas, São Paulo, já com seu novo nome: “Renovação Carismática Católica,” através dos padres jesuítas, Harold J. Rahm e Eduardo Dougherty. O movimento espalhou-se pelos Estados brasileiros e cresceu rapidamente através dos grupos de oração nas centenas de dioceses e paróquias do catolicismo nacional.


Essa expansão, a princípio, ainda que reprimida pela clero católico, provocou
no cenário brasileiro, não só mudança religiosa, mas também social e cultural,
permitindo assim, estudos científicos com respeito a renovação carismática no
Brasil.


Quanto aos primeiros trabalhos acadêmicos sobre o movimento religioso da RCC no Brasil, são de poucas publicações e também de pouca expressividade em bibliotecas, com exceção de alguns artigos e livros. Tem-se, por exemplo, uma análise sociológica e teológica feita pelo sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira, um dos primeiros estudiosos desse tema, que obteve participação de teólogos católicos sobre os carismáticos no Brasil.


Uma solicitação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), publicado em 1978. Essa pesquisa trata da estrutura, da proposta religiosa carismática e das relações clericais do pentecostalismo católico no interior da Igreja Católica.


A renovação havia chegado aos domínios da tradicional Igreja Católica e estava expandindo-se extensivamente; então, precisava de um olhar científico afim de que pudesse responder as interrogações do bispado católico brasileiro, assim como pudesse entender as controvérsias surgidas no interior do catolicismo.


Entretanto, segundo Brenda Carranza existe uma primeira obra acadêmica datada do ano de 1976 sobre a RCC no Brasil2. Para o trabalho da autora Elena Krautstofl, da Universidad Nacional de Misiones, Argentina, observa-se algumas características da RCC nos meados do novo milênio: O movimento dos carismáticos emerge como parte de uma Igreja Católica que está em plena reestruturação de acionar e capturar as “almas perdidas” que foram abrigadas por outras religiões.


A Igreja Católica tradicional como também a ordem eclesiástica do Vaticano vê no movimento carismático uma arma eficaz para defender e reconquistar os territórios perdidos para os pentecostais, religiões afro-brasileiras e religiões orientais.



Quanto ao Concílio Vaticano II (1962-65), que produziu documentos (Lumen Gentium) reinterpretando os sacramentos, os dogmas da Igreja, a liturgia e a 2 CARRANZA, Branda. Renovação Carismática Católica: Origens, Mudanças e Tendências. In. Sob o Fogo do Espírito. São Paulo: Paulinas, 1998, p 41. A autora destaca que “(...) escassas são as pesquisas específicas sobre a RCC.


O primeiro esforço acadêmico data do ano de 1976, quando Dom Cipriano Chagas apresentou, à Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUCRJ), uma dissertação de mestrado na qual sintetizava a mensagem e contribuição pastoral da recém fundada RCC no Brasil.


A análise de Chagas resumiu-se a uma apresentação dos documentos pontifícios que aprovaram a emergência da RCC, a sua incipiente organização internacional e nacional e a uma discreta apologia do movimento, chegando a augurar-lhe um feliz desenvolvimento desde que ancorada na aprovação e apoio da hierarquia da Igreja católica no Brasil”.


A importância do papel do Espírito Santo; acabou, em certo sentido, apoiando a renovação espiritual dos católicos carismáticos. Isto é, ainda que o Concílio ocorresse muito antes da origem da RCC e sem qualquer relação quanto à origem do movimento, possibilitou uma nova adoção dos “carismas” e dos dons espirituais no que diz respeito à missão de evangelizar o mundo e de reacender a figura do Espírito Santo que os carismáticos praticam ardentemente. Ainda segundo Prandi, o movimento carismático, busca no Concílio Vaticano II a legitimidade de ser filho desta grande reforma católica do século XX. (cf. Prandi, 1996; Maués, 2000).



Para Alberto Antoniazzi, um dos autores do livro “Nem Anjos Nem Demônios” (1994), o movimento carismático católico pode ser uma expansão do diversificado pentecostalismo brasileiro, ou seja, uma reação pentecostal na tradicional Igreja Católica. É interessante também observar que, com o rápido crescimento do pentecostalismo no cenário religioso brasileiro abalando até mesmo as bases do catolicismo, houve, por parte da Igreja, na década de 80, uma preocupação com o crescimento dessa nova religiosidade, resolvendo-se então, os próprios católicos, a estudarem este fenômeno e conseqüentemente desenvolverem atitudes divididas face à conjunção do dogma católico com práticas pentecostais.


Isto é, diante do crescimento significativo da renovação carismática, o episcopado católico teve que fazer concessões ao movimento em meio ao seu envolvimento com o pentecostalismo.


Isso ocorreu devido ao catolicismo ter se tornado banalizado e burocratizado e a renovação carismática ter buscado a restauração, ou seja, o carisma perdido.

Sendo assim, decidiu-se que, o pentecostes poderia permanecer no movimento, desde que voltado para os interesses da Igreja Católica. Podendo-se dizer que, para o movimento da renovação existir, era preciso se respeitar dois dogmas católicos: primeiro, a veneração à Virgem Maria e, segundo, a obediência e submissão aos bispos e ao Papa.



Abelardo Jorge Soneira, Universidad del Salvador, Argentina, destaca em seu trabalho que a RCC, apesar de ser um movimento mundial, pela sua grande abrangência nos diversos países cristãos, não é uniforme e nem unificado. Não temum fundador particular, nem um grupo de fundadores e nem uma listra do número de membros participantes, como muitos outros movimentos religiosos. No entanto, as afirmações de Soneira, ainda que possam argumentar ser a renovação um movimento desorganizado em suas bases, os carismáticos atuam em grande êxito, tanto pela atenção que concentram como por sua capacidade de mobilização.



O professor de sociologia da USP, sociólogo Reginaldo Prandi - já citado – em sua recente obra acadêmica, analisa a renovação carismática como um movimento de leigos que ocorre no interior da religião católica, destacando-se com expressivo número de fiéis neste final de milênio.

A principio, absorveu a classe intelectualizada, obtendo crescimento considerável através das classes sociais média e altas. Com a expansão, arrebanha também outros grupos sociais, podendo ser vista em suas reuniões ampla diversidade de indivíduos e grupos tanto a nível sócio-econômico como de faixa etária.

Destaque também se faz ao trabalho do professor Emerson José Sena, que aborda outro pensar sobre a RCC, de como o movimento se enquadra ao mesmo mito de origem do pentecostalismo fazendo demarcações em relação às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e o pentecostalismo.




Um outro trabalho, do qual tomei conhecimento, é o da socióloga Maria das Dores Campos Machado. ”Carismáticos e Pentecostais: Adesão religiosa na esfera familiar”. Campinas: Autores Associados, São Paulo: ANPOCS, 1996.

A autora desenvolveu um estudo sobre o reavivamento religioso nas sociedades contemporâneas. Um estudo da renovação carismática e do pentecostalismo no Rio de Janeiro envolvendo a ética familiar, o processo de conversão e a adesão das pessoas ao movimento carismático.

A gênese da renovação carismática se deu do envolvimento do corpo docente/discente de algumas universidades norte-americanas com os carismas básicos do pentecostalismo, caracterizando a fundação do movimento sócio-religioso.

Além do que, enfatizando a festa religiosa do Pentecostes como distinta de sua identidade carismática, a RCC se caracteriza e se constitui como ser social apropriando-se do relato bíblico do pentecostes. Outro elemento está na estrutura em que cada grupo seja um pentecostes como foi o pentecostes de Atos dos Apóstolos (livro da Bíblia).



Esse é o ideal do movimento que na prática do cotidiano foi pelo tempo “(...) umaseparação cada vez maior entre o ideal e o real”.Com isso, na RCC, os grupos de oração podem ser distinguidos pela vivência do tempo primordial em sua proximidade ou distância. Quanto mais próximo desse tempo maior é a manifestação dos carismas e portanto o grupo é mais ígneo, ‘quente’. Quanto mais distante, menos é a manifestação dos carismas, mais o grupo é ‘frio’. Mesmo assim, a RCC constrói um quadro no qual o mito de origem pode ser atualizado” (cf. Sena, 1998, p. 6 - 7).

Com relação aos estudos feitos sobre a RCC, cujo campo de pesquisa é Belém, são poucas as publicações sobre esse fenômeno. Entretanto, temos alguns trabalhos não publicados do professor Raymundo Heraldo Maués, Universidade Federal do Pará (UFPA) que faz algumas abordagens sobre as atividades e atitudes do leigo católico nas reuniões da renovação carismática em Belém. O trabalho intitulado "O Leigo Católico no Movimento Carismático em Belém do Pará”, destaca, por exemplo, o leigo carismático que se identifica como o fiel carismático preocupado em ler e conhecer a palavra de Deus que está na Bíblia.
Outro trabalho do mesmo autor é o intitulado “Mudando de Vida: A Conversão ao Pentecostalismo Católico - Análise de Alguns Discursos”7, que avalia, baseado em alguns depoimentos coletados durante pesquisa de campo desenvolvida em Belém, a conversão do indivíduo de uma seita ou religião para outra. Isto é, no caso do ingresso de uma pessoa na renovação carismática, resulta de crises da vida como: desorientação psicológica, problemas conjugais, dificuldades financeiras, doenças, vícios em drogas ou álcool e conflito familiar.
Neste caso a adesão ao pentecostalismo católico pode ser pensado da mesma natureza que é visto em outras religiões pentecostais ou mediúnicas. Uma pessoa que sofre de uma enfermidade e após já haver recorrido aos médicos e não tendo encontrado saúde, geralmente, acaba tornando-se um adepto fiel de um movimento religioso, quando este lhe proporciona a cura de sua doença. No entanto, a conversão a uma denominação religiosa, carismática ou pentecostal não acontece apenas por estes motivos, ocorre também, por exemplo, no dizer dos carismáticos de o Espírito Santo tocar/convencer as pessoas a serem cristãos, assim como, por curiosidade, incentivo dos amigos ou parentes e, consideravelmente, dado à religiosidade está em alta, à adesão religiosa tem estado na moda.

Maués, ainda ressalta em outro trabalho: “Algumas técnicas corporais na Renovação Carismática Católica”, sobre a mudança de vida de algumas pessoasque passam a participar de reuniões de curas ou seminários de aprofundamentos praticando um novo sentimento religioso. Analisa as expressões corporais, a imposição de mãos, o repouso no Espírito e outros aspectos rituais do movimento carismático. Essa preocupação não é só deste autor, mas de muitos cientistas sociais que dedicam seus estudos as técnicas corporais que os carismáticos praticam. O fiel que adere ao movimento carismático, especialmente, quando recebe uma benção de Deus, acaba por mudar sua vida consideravelmente. Exercita um proselitismo novo a ponto de mudar certos aspectos culturais manifestando-se como um novo homem.

Esses e outros trabalhos não publicados como dissertações, monografias realizados em Belém do Pará, destacam a atuação da renovação carismática dentro das várias paróquias paraenses, compartilhando com a liturgia da Igreja católica tradicional, como também na maior festa religiosa da região, o Círio de Nazaré.
Podendo até dizer que não só em Belém, mas em todo o Estado do Pará, o pentecostalismo católico desenvolve-se significativamente no meio das muitas religiões que existem na região amazônica. Portanto, apesar das opiniões a favor ou contrária do episcopado católico com relação a RCC, seu desenvolvimento e permanência é significativo em todo o mundo. No Brasil, ainda sem apoio das CEBs e com pouca aceitação pelos padres da Igreja Católica, o movimento tem sua repercussão em toda sociedade brasileira.

2. DOGMA CATÓLICO E PRÁTICA PENTECOSTAL

A compreensão que se aspira ter a respeito de uma ação religiosa, bem como de sua diversidade simbólica, pode ser realizada a partir de suas proposições doutrinárias, litúrgicas ou dogmáticas. Sendo assim, antes de partir para uma visão mais direcionada e, portanto, fim objetivo deste exercício sobre o movimento carismático, se faz necessário observar algumas semelhanças ou diferenças da renovação carismática.


Quanto à questão dogma católico e prática pentecostal, antes se deve entender que essas duas nomenclaturas, não se confundem como um cisma do cristianismo como, por exemplo, o catolicismo, o protestantismo e pentecostalismo.
O que se pode entender é que se trata de elementos religiosos distintos, presentes na RCC, mas que antes já pertenciam as ramificações do cristianismo.
Por dogma católico, é pertinente destacar o culto mariano, que é justamente a grande cisão entre os cristãos e uma das liturgias do catolicismo. O que difere o fiel católico do protestante é essencialmente o carisma a Maria. Para os pentecostais ou melhor os movimentos oriundos da reforma, Maria foi uma mulher agraciada por Deus que teve um grande papel junto à humanidade quando de sua madre trouxe Jesus ao mundo e, que por isso, deve apenas ser lembrada como um exemplo de fé e serviço a Deus; qualquer manifestação de culto é entendido como idolatria, pois culto aos santos é para os protestantes abominação, uma vez que, adoração só se presta a Deus. Quanto aos católicos, Maria é a santa mãe de Jesus, mãe da Igreja e de todos os cristãos, uma bem-aventurada que precisa ser venerada pelo seu grande amor aos homens. Ela, segundo os católicos, não é adorada e sim reverenciada.

Segundo, Prandi, o culto aos santos começa aproximadamente cem anos após a morte e ressurreição de Jesus, quando se praticava timidamente veneração aos mártires do cristianismo. Maria, também, nos primeiros séculos, já começa a receber homenagens nas orações litúrgicas. Por exemplo, o título de Mãe de Deus,uma das muitas designações recebidas, foi declarado no Concílio de Éfeso, em 431 como um dogma.

Quanto a prática pentecostal, convém primeiro esclarecer os termos pentecostalismo, pentecostes e pentecostal que, vale ressaltar, não estão apenas em destaque nas chamadas Igrejas evangélicas. Segundo os teólogos evangélicos, sua origem está no começo da civilização judaica, quando os hebreus, escolhidos como o povo de Deus, foram salvos do domínio egípcio e, doravante, passaram a cultuar a Jeová através da festa chamada Pentecostes, conforme atesta o livro Sagrada.

Ainda sobre este termo, Antônio Gilberto, pastor pentecostal, diz o seguinte: “Lingüisticamente o nome pentecostes significa qüinquagésimo, em alusão ao 50º dia após a realização da festa sagrada das primícias, que precedia a Festa de Pentecostes ou das Colheitas, também chamada Festa das Semanas (Lv 23.15- 16). Eram sete as festas que Deus determinava para o seu povo observar no Antigo Testamento, sendo a das Colheitas, a quarta. Esta comemoração anual do povo israelita era o antítipo (representa um tipo do velho testamento do que seria o dia de pentecostes no novo testamento) da descida do Espírito Santo para batizar os primeiros convertidos da Igreja conforme At 2.1. O derramamento do Espírito Santo no Dia de Pentecostes, batizando os primeiros convertidos da Igreja, ocorreu num domingo, 50 dias após a ressurreição de Cristo” (At 1.3 e 2.1).
Desse modo, em termos teológicos, o pentecostalismo tem origem no pentecostes de Atos, quando o poder do Espírito desceu sobre os apóstolos reunidos no cenáculo e sendo portanto a base do êxtase religioso das Igrejas pentecostais, o envolvimento do Espírito Santo na vida dos fiéis. E é justamente desta origem que os movimentos pentecostais se germinam e se avivam, assim como o pentecostalismo católico (cf. Antoniazi, 1994; Sena, 1998).

Portanto, por prática pentecostal, entende-se como toda atividade religiosa que envolve a participação do Espírito Santo na vida de um “crente pentecostal”. O êxtase religioso através das manifestações do Espírito Santo, dons e carismas, que garantam grandes manifestações sobrenaturais e conseqüentemente capacidade de aglomera multidões. Este é o elemento que neste sentido leva as pessoas a mudar de vida e de hábitos como resultado da transformação espiritual, pois é o Espírito que guia a ação do homem. O Espírito, portanto é a presença do sobrenatural nas reuniões pentecostais através de uma pregação, um hino, de uma oração ou até de técnicas corporais como a dança e as palmas. (cf. Mafra, 1998).
Por dons e carismas, percebe-se entre os pentecostais uma manifestação de vários dons espirituais. Segundo a Bíblia Sagrada, usada diuturnamente pelo fiel como leitura individual e como a mentora de sua vida religiosa e social, registra nove dons, que resultam da manifestação do Espírito Santo. São eles: a palavra dasabedoria, a palavra do conhecimento, dom da fé, dons de curar, dons de operações de milagres, dom de profecia, discernimento de espíritos, dom de variedade de línguas e o dom de interpretar as línguas. (I Coríntios capítulo 12 e versículos 8, 9 e 10).

Quanto aos dons ressalta-se alguns muito presentes na renovação carismática. O dom de línguas, por exemplo, é uma manifestação pentecostal que se evidencia no falar, no orar e no cantar em línguas estranhas. Ocorre quando numa reunião pentecostal, no momento da oração, um fiel, possuído pelo Espírito Santo, começa a orar com suas próprias palavras, em conjunto com outras pessoas ou individualmente, mas que depois, isso se tiver o dom, ora em línguas estranhas.
Essa prática pentecostal leva o fiel a orar impulsionado pelo Espírito Santo, não sendo mais ele quem ora e sim o Espírito. Vale ressaltar, que nem sempre um fiel apresenta essas três manifestações do dom.

O dom de curar, outra manifestação do Espírito ocorre também no momento da oração. Numa reunião, as pessoas que se encontram com alguma enfermidade são levadas em frente ao púlpito, onde se encontra o pastor pentecostal e, no momento da oração, geralmente após a pregação do sermão, os doentes se ajoelham ou ficam de pé para receber a oração e o toque das mãos pelo pastor ou presbítero, que, às vezes, ungem a testa das pessoas com um óleo especial. Essa oração é feita em voz alta destacando a enfermidade dos doentes e pedindo que o Senhor cure naquele momento. Há ocasiões em que se faz orações por doentes que ficaram em casa ou nos hospitais.
Outras práticas atribuídas aos pentecostais, mas que também estão presentes em outros segmentos do cristianismo é, por exemplo, a oração, um rito oral constantemente utilizado pelos religiosos, um pedido de graça que se faz a Deus e também, uma maneira de louva-lo. Mas, vale lembrar que, para o pentecostal, sua oração só pode ser feita diretamente e somente a Deus.

A oração constitui-se num exercício diário e permanente na vida religiosa.Uma ação impulsionada pelo Espírito Santo que faz com que o fiel pratique não apenas quando está na igreja, mas em muitos momentos da sua vida pessoal, ou seja, ora antes de fazer suas refeições, antes de dormir, ao se levantar, ao realizar um projeto ou uma viagem, bem como em situações de angustia, aflição ou risco.

Nesse diversificado conjunto de identidade religiosa, observa-se a Igreja Cristã ao longo da história sofrendo ramificações que para cada fatia religiosa e doutrinária é tida por seus seguidores como o mais perfeito rumo que a Igreja tomou sem contudo perder sua origem que é Jesus Cristo. São representações religiosas que postulam para si valor incontestável, mas que na verdade se auto legitimam.
Para a interpretação sociológica o que se pode pensar, além da disputa religiosa que elas praticam entre si, é que se trata de segmentos religiosos e dogmáticas que possibilitam ao homem abraçar a religião que melhor lhe convém, trocar quando quiser, praticar a que está na moda ou não abraçar nenhuma.

Como já foi apreciado no capítulo anterior, o que se pode deduzir a respeito da identidade carismática é justamente a manifestação do culto mariano e o recebimento do Espírito numa reunião de grupo de oração ou em qualquer outro movimento da renovação. Crenças diferentes, portanto, mas praticadas pelo grupo coletivamente.
Elementos distintos e elucidativos da RCC que, ao mesmo tempo, podem direcionar outras inquietações.
Seguindo esse raciocínio, o que se pode pensar como a contradição básica da renovação carismática?

Como se concebe dois elementos mágicos de origem diversificada fazendo aproximação do homem com o sobrenatural?

A questão, vai exatamente da importância de Maria na reunião carismática e a presença do Espírito Santo, esta última, antes pertencente no sentido de prática apenas as Igrejas pentecostais.

Que movimento seria esse, que restaura os católicos desencantados e aquece os alicerces da Igreja Católica?

A RCC, a exemplo de outros movimentos católicos como apostolado da oração, teologia da libertação e CEBs, estaria promovendo uma nova organização social e religiosa ou estaria em uma ação renovadora dando um novo fôlego à tradicional Igreja Católica?
O que se pode pensar é que se trata de um movimento religioso cujos fins objetivos dos indivíduos estão em efervescência. O fiel carismático encontra-se renovado e a própria Igreja, conseqüentemente, está em movimento cuja ação depende da manifestação do Espírito. E neste sentido a ação religiosa provoca no território brasileiro mudanças sociais, culturais e religiosas, principalmente no espaço religioso católico devido às expressões  da renovação.

Apesar da discriminação e coerção sofrida no inicio do movimento, tanto pelo clero como pelos católicos tradicionais, a renovação manteve-se em crescimento e foi adquirindo apoio de muitos padres, arrebanhando milhares de adeptos num estilo proselitista através da formação de grupos de oração nas inúmeras dioceses e paróquias do Brasil. Uma alargamento religioso no interior do catolicismo ocasionando profundas transformações na liturgia do culto católico e na vida espiritual e social do fiel carismático.

Mas como entender essa efervescência católica? Que novo pensar é este queleva o homem religioso a uma nova intimidade com o Divino? Como o recebimento do Espírito Santo, sentimento concebido pelas Igrejas ditas pentecostais, pode-se imbricar nas reuniões da RCC? Que relação há com a veneração à Virgem Maria? Como entender essa conjunção de práticas religiosas para se chegar a alívios das crises do homem? Como esse desejo do sobrenatural leva o homem, sobretudo nos
países em desenvolvimento a ver no encantado ou no mágico a solução para suas angústias?

Que magia é essa que, mesmo em países desenvolvidos onde a secularização tem maior força encontra-se encantada?

O que é isso, que em meio a tantas descobertas científicas e tecnológicas dos países ricos e a tanta miséria e fome dos países pobres, estes, sobretudo América Latina e África, conseguem exportar um novo cristianismo para a Europa?


Entender esta problemática, assim como responder as inquietações, além de ser muita presunção da modesta visão científica apresentada, seria um exercício arriscado. Portanto, não é essa a intenção. Essas interrogações visam apenas mostrar olhares que o expressivo pentecostalismo católico provoca e, deste modo,pinçar algumas nuanças que o fenômeno possibilitou ler.

A partir de leituras sistemáticas e observações científicas em alguns movimentos da RCC em Belém, pôde-se analisar através do método comparativo da sociologia, que se trata de um fenômeno religioso, social e cultural que apresenta diversidades e semelhanças na nova liturgia de seus cultos. O eixo principal que é a presença da Virgem Maria, sobretudo de Nossa Senhora de Nazaré nas reuniões carismáticas em Belém, além de ser um elo de ligação do fiel com Jesus é uma exigência do clero para que o movimento não perca as características do catolicismo tradicional.


Quanto à prática religiosa das Igrejas pentecostais é muito comum, por exemplo, os eruditos cânticos sacros da tradicional Igreja católica serem substituídos por corinhos de linguagem coloquial de fácil memorização e acompanhados com instrumentos musicais como bateria, teclado e guitarra. Uma ação religiosa com muita alegria e palmas, típico das Igrejas evangélicas pentecostais.


Para a interpretação sociológica, quanto à presença do dogma católico e o recebimento do Espírito Santo numa reunião da renovação, torna-se um tanto discordante, pois, nestas reuniões a presença de Maria é venerada e postulada como o refúgio dos pecadores, como a mediadora de todas as graças, um canal que se vai até seu filho Jesus e um meio, também, de se chegar a Deus. E, ao mesmo tempo, se propõe receber o Espírito Santo, que segundo os pentecostais é o Consolador que Jesus prometeu enviar, a fim de que estivesse para sempre com os discípulos, e que por isso, o Espírito glorifica somente a Jesus, tornando então contraditório o recebimento do Espírito Santo dentro de uma reunião carismática em que se cultua também a Maria.

Quanto à manifestação do Espírito Santo na vida de uma pessoa, ocorre quando alguém entra em êxtase espiritual, recebimento ou repouso do Espírito, e, por exemplo, começa a orar em línguas estranhas. Doravante sua vida passa a ter uma nova graça, um novo sentido espiritual e conseqüentemente social também.


Outra forma de recebimento do Espírito foi quando observava um outro grupo de oração que durante o louvor no momento do êxtase as pessoas começavam a orar em línguas estranhas. Uma das coordenadoras (senhora casada que também era responsável pela pregação da palavra) começou a ser usada pelo Espírito Santo e utilizando o microfone dizia a todos os presente: Eu, o Senhor, estou no meio de vós, preparai-vos, pois logo eu virei busca-los. Noutro momento dizia: Há um jovem aqui no meio de vós que não está acreditando no que acontece no meio de vós, mas saiba que é o meu poder. Depois, perguntei a um membro do grupo do que se tratava, ele me respondeu o seguinte: Ela estava sendo usada em dom de profecia e falava em nome de Deus. Na mesma reunião, no momento da oração outro coordenador dizia ter recebido revelação de que Deus estava curando pessoas naquela ocasião, libertando vidas e resolvendo os problemas das muitas vidas ali presentes. Dizia ele: Há uma jovem em nosso meio que tem fortes dores de cólica e essas dores são muito fortes a ponto da pessoa gemer muito, mas essa dor está sendo aliviada e quando chegar o tempo de sua menstruação essa jovem não mais sentiria essas dores fortes, está curada. Noutro momento, a mesma senhora da profecia anterior, disse também ter recebido uma revelação de que um homem no meio dos fiéis estava com dores muito fortes no lado esquerdo do estômago, mas que o Senhor o iria curá-lo naquela noite. Dizia também que o Senhor a revelava que existia outra pessoa com dores fortes no rins, mas que o Senhor estava curando naquela noite. (Grupo de Oração Adonay, Icoaraci).


Essa prática antes das Igrejas pentecostais, está imbricada na liturgia dos cultos carismáticos católicos. Condição em que o Espírito se encontra como elo de ligação ao céu deixado por Jesus quando esteve aqui na terra, ladeado, portanto com o culto mariano, numa dupla aproximação do homem com Deus. Essa situação parece ambígua se pensarmos em um único elo de ligação do homem com o sobrenatural.

É preciso também entender que, segundo a teologia católica, os teólogos explicam o uso das imagens fazendo distinção entre o que se convém chamar de “Dulia” - uma forma inferior de devoção que é concedida aos santos, às imagens e às relíquias; “Hyperdulia” - mais que uma devoção e que é dada exclusiva a Maria; e “Latria” - adoração dada exclusivamente a Deus.


Porém, na verdade essa distinção teológica na prática desaparece nas adversidades da fé dos fiéis católicos.Desta forma, surge a renovação carismática como mais um movimento dentro da Igreja católica e um novo sentimento de fé e culto, caracterizando um novo carisma no meio católico pela renovação do Espírito Santo. A conjunção do culto mariano e a nova doutrina além de atribuir condições para os fiéis se sentirem católicos, propõe que a Igreja Católica vive um momento de encantamento, pois a renovação dá novas características à liturgia católica.




Não seria um fenômeno isolado ou neutro na Igreja, pois existe de uma imbricação religiosa católica com seus elementos de culto e de movimentos pentecostais através da adoção de instrumentos do rito pentecostal. Ou seja, na verdade, realiza uma diversidade religiosa de culto que envolve: terço, oração, veneração a Maria, cânticos agitados, leitura da Bíblia, sermões inflamados, curas divinas, milagres e recebimento do Espírito Santo.

Se considerarmos as características do culto carismático isoladamente, inverso ao que foi dito, além de uma incauta leitura do fenômeno, estaríamos perdendo de vista a verdadeira identidade do movimento carismático. Por exemplo, a renovação carismática quando vivencia a compaixão de arrebanhar as ovelhas desgarradas, tanto os católicos desencantados, secularizados ou oriundos de outros movimentos religiosos, devolve ao fiel a possibilidade de se ter, ao mesmo tempo, a presença de Maria, como um elemento da identidade católica e mais a manifestação do Espírito, pratica das Igrejas pentecostais.

São, de fato representações simbólicas distintas, porém de posição ímpar com o movimento carismático católico. São pentecostais, naturalmente, mas com elementos do catolicismo, com Maria portanto. É o que atesta Prandi a respeito dos carismáticos que se posicionam diferente dos pentecostais: “Na luta pela distinção e superação dos pentecostais, o apelo à devoção a Maria tem peso nos discursos dos líderes da RCC como uma grande marca de diferenciação dos dois grupos. Os carismáticos sabem reconhecer o valor que a mãe de Jesus tem para sua identidade” (Prandi, 1997, p. 156).

O grande público simpatizante das reuniões carismáticas, bem como seus adeptos são na verdade em grande maioria de dentro da própria Igreja Católica. Ou seja, eram fiéis católicos que estavam totalmente afastados dos movimentos religiosos realizados pela Igreja; outros que não mais participavam das reuniões semanais, missas de fim de semana, ou festas religiosas.

Esses católicos, quando muito, por um costume ou tradição, apenas participavam de algum tipo de religiosidade, como por exemplo, missa do sétimo dia, batismo de criança, casamento e etc, mas que agora estão renovados.

O movimento veio então reavivar os católicos que estavam ociosos religiosamente, um catolicismo à moda pentecostal mais perto do sobrenatural de que do secularismo. Um sopro do Espírito que está caracterizado pela valorização da presença do carisma, da oração, da palavra de Deus, do louvor e principalmente dos dons. Segundo Prandi, os dons carismáticos são os edificadores da Igreja e são bastante enfatizados pela renovação. São seis: o dom de profecia, o dom de cura, o dom de línguas, o dom do discernimento, da interpretação e da ciência (Higuet, 1984 apud Prandi, 1997).

Quantos a esses dons, vale destacar que a RCC difere dos pentecostais, quanto o número de dons que o fiel pode receber.
Os pentecostais afirmam estarem agraciados com nove dons – citado no capítulo “Identidade Carismática: Pentecostalismo ou Catolicismo” deste trabalho – e os carismáticos com seis apenas.

Portanto, um proselitismo novo que não está somente no despertar dos carismas entre os católicos, mas também na volta de muitos católicos que foram arrebanhados pelas igrejas protestantes, espiritismo e, principalmente, religiões afro-brasileiras. Muitos carismáticos assíduos aos grupos de oração, por exemplo, testemunham que foram pessoas oriundas do candomblé, umbanda ou espiritismo kardecista, ou que se encontravam frios e envolvidos no vício das drogas, alcoolismo e prostituição, mas que agora estão renovados (cf. Prandi, 1997).

RENOVAÇÃO CARISMÁTICA: CONTINUIDADE OU RUPTURA?

O catolicismo brasileiro apresenta-se como uma realidade institucional de enorme envergadura religiosa, social, política e ideológica; uma Igreja com poderes decisivos na formação da identidade social brasileira. Um fenômeno sócio-religioso que até a primeira metade do século XX, era deixado de lado pelos cientistas sociais e apreciado apenas pelos teólogos da Igreja. Com a expansão de outras expressões religiosas, sobretudo as religiões afro-brasileiras, as denominações evangélicas pentecostais e especialmente os movimentos católicos, houve a necessidade de se realizar pesquisa científica sobre a religião no Brasil (Alves, 1978).

Destarte, o fenômeno do catolicismo, deixou de ser apenas uma investigação particular e passou a ser objeto de estudos relativo à ciência social. A preocupação não estava mais apenas estudar sua origem, desenvolvimento ou doutrina, mas especialmente suas influências e transformações na sociedade, tanto no aspecto religioso como político, social e econômico. No entanto, é bom lembrar que nos últimos vinte anos, as pesquisas sobre o catolicismo estiveram voltados para Teologia da Libertação, Comunidade Eclesiais de Base (CEBs), com sua ligação com os movimentos sociais e políticos, bem como outras ações religiosas, como é o caso da renovação carismática católica (Carranza, 1998).


Portanto, notadamente uma preocupação teórica, que resulta de um fenômeno social presente no cenário brasileiro com efeito modificador na sociedade. Outro fenômeno evidente em nossa sociedade é o rápido crescimento do protestantismo das igrejas evangélicas, que segundo estudos é o fenômeno mais importante no campo religioso brasileiro; destacando também, a forte presença das religiões afro-brasileiras, religiões orientais e outras crenças menores.

 Entretanto, o catolicismo ainda não perdeu seu apogeu eclesiástico. Constitui-se ainda na maior comunidade cristã brasileira, possuindo em seu corpo uma grande diversidade de movimentos católicos ao longo de seu processo histórico. Quanto à RCC, é evidente o crescimento e a expansão carismática onde, a cada ano que passa, seus fiéis marcam presença no cenário nacional, assim como na organização que se instala em quase todas as dioceses do Brasil, através dos grupos de oração, que são a base da vida carismática. É bom lembrar que a RCC abrange outras importantes atividades religiosas através de reuniões públicas como cenáculos, congressos, seminários de vida e shows musicais.


Em Belém, por exemplo, ocorre todo ano no período do carnaval o Renovai-vos15, um extraordinário carnaval espiritual. Enquanto o mundo se envereda nas aventuras carnavalescas, os carismáticos escolhem um local afastado das comemorações do carnaval e realizam uma grande festa espiritual.


A RCC têm efervescência única, pois parece não frear outros movimentos católicos e nem tão pouco impedir o avanço das Igrejas pentecostais, essa não deve ser a sua intenção. Na verdade, desenvolve-se com grande encanto na tradicional Igreja católica. Entretanto, a questão é justamente saber até aonde vai esta magia. O que poderá ocorrer do ponto de vista sociológico com o movimento carismático?

Terá espaço suficiente para os anseios da diversidade sócio-cultural e religiosa dos carismáticos ou até que ponto a renovação é resposta para as angústias do homem brasileiro. E a contradição básica não daria algumas nuanças?

De uma coisa é certa, o fenômeno da RCC é crescente e arrebanha cada vez mais sujeitos para um novo sentimento religioso, um novo discurso e novas respostas à vida que, se por um lado, da organização central e da condição de fé, cresce e encanta; por outro pode estar esgotando-se em si mesma, com os dias contados. (Carranza, 1998).

O novo século será o palco em que menos de três quarto dos brasileiros ainda se dirão católicos de nascimento. Os restantes serão oriundos de outros grupos religiosos. É que nosso país, que se pensa até então como o maior país católico, poderá perder sua hegemonia para as igrejas pentecostais e demais religiões. (cf Prandi, 1996).

Seu “mito” de origem está nos Estados Unidos da América no ano de 1967, em Pittsburgh, Pensilvânia, na Universidade de Duquesne da Fundação Padres do Espírito Santo. Ou seja, dentro da academia, onde dois professores obtiveram conhecimento de literaturas que falavam do envolvimento do homem com o Espírito Santo e nessa busca receberam o batismo no Espírito. Foi então que planejaram, posteriormente, um retiro de fim-de-semana para vários estudantes, professores e amigos a fim de buscarem o derramamento do Espírito Santo, desencadeando um grande mover do Espírito entre eles. Desde então, esse movimento que antes era conhecido como “Movimento Católico Pentecostal”, até 1974, se espalhou para outras universidades e só depois se imbricou nas Igrejas católicas do mundo inteiro (cf. Pierucci, 1996; Prandi, 1997).


Sua chegada ao Brasil, se deu logo após seu aparecimento nos EUA, instalando-se, primeiramente, na cidade de Campinas-SP, já com seu novo nome, “Renovação Carismática Católica,” através de padres jesuítas, entre eles o padre Harold J. Rahm e o padre Eduardo Dougherty (ano de 1972).

Desde então, o movimento espalhou-se pelos Estados da federação brasileira e cresceu rapidamente, conforme destaca o quadro abaixo:

A RÁPIDA EXPANSÃO DA RENOVAÇÃO CARISMÁTICA CATÓLICA
(OS NÚMEROS DA RCC NO MUNDO E NO BRASIL):

Perto de 40 milhões de adeptos no mundo;
Aproximadamente 240 mil grupos de oração no mundo;
Aproximadamente 140 países;
30% na América Latina;
No Brasil 8 milhões de adeptos, 61 mil grupos de oração e está representada em 95% das 264 dioceses brasileiras;
Fonte: Carranza (1998, p. 42).


Quanto sua origem em Belém do Pará, segundo depoimentos, aponta-se a Sra. Jurema dos Santos, como a fundadora do movimento carismático quando tomou conhecimento através de uma experiência vivida em Campo Grande (MS) e o trouxe para nossa região quase no mesmo período em que surgiu em São Paulo.
É o que esclarece Maués: “Em Belém, segundo a versão mais amplamente aceita, a RCC começou em 1973, tendo sido trazido da cidade de Campo Grande (MS), para a Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré (onde se faz, anualmente, o famoso Círio dessa Santa), por uma paroquiana pertencente ao Encontro de Casais com Cristo (ECC), D. Jurema dos Santos Gaspar, a qual, auxiliada por seu marido, por outros leigos e sacerdotes, promoveu a criação do primeiro Grupo de Oração da cidade, chamado “Glória no Senhor”. (Maués, 2000).
Apesar de não ser muito aceita pelo clero brasileiro, a renovação, a princípio, desenvolveu-se aos poucos, através de leigos católicos que receberam apoio de poucos padres, tornando o movimento mais expressivo dentro da Igreja Católica.

Segundo Prandi, os dez primeiros anos da RCC “foram de crescimento e desaprovação, por ser um movimento leigo e independente em relação à estrutura da Igreja. Na própria estrutura financeira ela inovava e reafirmava a sua independência e enquanto aumentava em número de membros, não recebia o apoio de um Vaticano progressista” (cf Prandi, 1997. p. 52).

Com o crescimento e expressividade da renovação postulada com uma teologia íntima e com um estilo de vida próprio e comunitário através de uma fé individual, a RCC, ainda com certas restrições, tornou-se uma grande aliada a Igreja Católica, que cada vez mais se tornava secularizada com o envolvimento nas questões de política e justiça social e perdia espaço para o movimento do pentecostalismo que prosperava lotando estádios e igrejas como respostas ao clamor dos pobres. Se a Igreja Católica politizada não tinha um projeto para atender as angustias do homem, conseqüentemente abria espaço para as Igrejas pentecostais apresentarem uma prática religiosa à altura das necessidades populares.


Neste sentido a RCC com o seu novo fervor e devoção acabou por ser útil à crise do catolicismo. É o que atesta Prandi: “A RCC passou a ser vista como um braço muito operante, a arma procurada para defender e reconquistar os territórios perdidos para pentecostais, afro-brasileiros, religiões orientais, crenças da new age e outras ameaças menores.

Apesar das inovações, que poderiam até desfigurar o velho catolicismo, a RCC mostrou que poderia trazer de volta uma população de católicos que passeava entre as várias opções do mercado religioso.



Mostrou que poderia de novo encher as Igrejas, e encher as Igrejas com muito fervor e devoção” (Prandi, 1997. p. 53).
É preciso também entender que para a permanência do movimento carismático dentro dos muros do catolicismo, teve que passar por algumas advertências para poder se legitimar dentro da Igreja Católica. A renovação acabou por adaptar-se a algumas exigências do clero à realidade católica.

Uma dupla restrição à RCC é a que diz respeito à prática do culto à Maria, assim como a submissão e a reverência à autoridade do Papa, bispos e padres. Quanto à liturgia do culto, deveria se manter a mesma importância à vida sacramental; a reza do terço, por exemplo, constitui uma maneira de a Igreja assegurar a presença católica na vida carismática; o movimento, portanto, não poderia sofrer uma descaracterização enquanto católico. Ou seja, os carismáticos, mesmo envoltos nos dons e carismas da renovação espiritual, deveriam estar sob a direção da hierarquia católica (cf Prandi, 1997; Carranza, 1998).


A renovação, portanto, em seu processo de institucionalização, mesmo passando por certo controle do clero e da hierarquia católica, acabou por receber consideração clerical.

Muitos padres, por exemplo, que no início se opuseram aos grupos de oração, quando perceberam a atuação dos carismáticos nas comunidades, acabaram por fazer concessões ao movimento, isto é, fazendo parte de certas atividades religiosas dos carismáticos e até renovando-se também. (cf Prandi, 1997).





A RCC, então, adquire expressividade religiosa e apresenta às massas uma novidade religiosa, ou seja, uma liturgia de culto que estava esquecida na origem do cristianismo, mas que agora se renova através dos grupos de oração que se espalharam em quase todas as paróquias do Brasil. Sob a ação do Espírito, as pessoas passam a ter um novo viver, alegria, felicidade, segurança, amor ao próximo e paz interior.


“Recria-se a referência mítica e miraculosa como recurso para a solução de problemas e aflições dos fiéis. Prega-se uma nova mensagem religiosa e sugere-se conforto espiritual, para atrair fiéis”. (cf Carranza, 1998).

Um novo sentimento católico que acabou expandindo-se e adquirindo maior envergadura neste final de milênio, principalmente a partir da década de 90, sobretudo nos últimos cincos anos, quando chegou à mídia, especialmente à TV.

Consoante a sua gênesis e sua rápida envergadura, a RCC é hoje um exemplo da nova conjuntura em que vive a religião. A expressividade de fiéis que mudam seus hábitos sociais, seus relacionamentos, sua vida familiar e praticam um proselitismo novo lotando as antigas igrejas e estádios, caracteriza o reavivamento religioso da Igreja Católica.

Uma ação religiosa da interação sócio-religiosa dos católicos e mais um movimento dentro da Igreja católica que se apresenta em grande expansão tanto no campo religioso como nas diversas camadas sociais a que ela pertence. Suas manifestações religiosas, ideológicas, doutrinárias – ética e moral - e vida social, assim como, o uso da Bíblia, o louvor e a oração evidenciam uma nova organização sócio-cultural e religiosa do indivíduo carismático e uma dinâmica na tradicional Igreja Católica.

 Essas questões compreendem o grande campo religioso e social que o fenômeno abrange, um novo horizonte permeado de inquietações intelectuais no meio das ciências sociais, assim como preocupações pastorais por parte da Igreja.

O quadro abaixo, por exemplo, pode melhor elucidar as mudanças do fiel carismático:

MUDANÇAS RELIGIOSAS, SOCIAIS, POLÍTICAS E ECONÔMICAS MUDANÇA DE VIDA QUANDO DA ADESÃO AO MOVIMENTO DA RENOVAÇÃO CARISMÁTICA

Os gostos, as idéias, as atitudes, os hábitos e costumes acabam por sofrer mudanças quando do envolvimento dos indivíduos com a renovação carismática católica;
A vida em grupo, família, amigos, vizinhos, escola, trabalho, política, e sociedade acabam sofrendo alterações devido ao novo envolvimento sócio-religioso. O Espírito Santo atua, segundo os carismáticos, na vida pessoal e do grupo;
Seus valores morais, políticos, religiosos e artísticos, transformam-se pela nova iniciativa espiritual e conseqüentemente um novo gosto pessoal;
Mudanças do cotidiano com novas atitudes individuais com respeito à finalidade de vida, ação social e prática religiosa. O carismático com um novo relacionamento com a fé, pratica proselitismo e ações práticas de caráter social. A renovação, ainda que tímida, evangeliza, trabalha em hospitais e presídios;
Fontes: Ribeiro de Oliveira (1978); Machado (1994 e 1996); Prandi (1997) e observações de campo feitas em alguns grupos de oração em Belém.


Quanto ao costume, doutrina ou moral, a RCC se assemelha a algumas Igrejas pentecostais, mas difere, a exemplo, da Igreja Assembléia de Deus, que postula uma doutrina mais conservadora e rígida com seus usos e costumes, usando a Bíblia para justificar suas doutrinas.

Vale destacar que os grupos de oração da RCC praticam constantemente o uso da Bíblia, ou seja, têm por hábito ler e interpretar por eles mesmo, abandonando a tradição católica de que a Bíblia só poderia ser manuseada pelos sacerdotes.


Para exemplo, destaco o que presenciei numa reunião carismática do grupo de oração “Exército de Deus” em Icoaraci:

 “Decorrida uma hora e meia de reunião, após o terço e o momento do louvor coletivo, uma das coordenadoras pediu para que todos se sentassem calmamente e começassem espontaneamente a ler a Bíblia. No meio do auditório, qualquer pessoa abria sua Bíblia e lia, ao acaso, um ou mais versículos e após dizia “Gloria a ti Senhor”, frase que todos repetiam, dando assim oportunidade para outro que quisesse ler a Bíblia fizesse.
A coordenadora geral, uma senhora muito simpática e uma das pioneira do movimento carismático em Icoaraci, estava no meio do auditório e leu uma passagem bíblica, fazendo, em poucas palavras, alguns comentários a respeito do amor de Deus para com os presentes daquela reunião”.
Essa observação além de demonstrar a nova diversidade carismática, deixa também claro que a reunião dos grupos de oração não possui uma liturgia única para realização dos cultos, ou seja, há vezes em que a reunião pode começar com cânticos, com reza do terço ou com a meditação da palavra.

A análise sociológica, no que concerne à conversão carismática, segundo Ribeiro de Oliveira, em sua pesquisa realizada na década de 70 no Brasil, mostra que era muito forte a presença de senhoras da classe média no movimento; hoje porém, envolve outras classes sociais.

Outro fator, além do que já citei anteriormente, é que se pode perceber, na adesão carismática, a presença muito forte da camada jovem, que se converte, fundamentalmente, para se libertar das drogas, álcool ou ordem psicológica, principalmente nas classes baixas e médias.

É bom destacar também que é forte a presença de pessoas que aderiram ao movimento por sentimento religioso em busca da paz de espírito, influência de amigos ou familiares e também por ser a moda do momento.


A RCC, quanto à conversão, ainda difere, por exemplo, da Igreja tradicional católica das Igrejas pentecostais.

O catolicismo recebe fiéis por tradição de família ou por movimentos sociais e as Igrejas pentecostais por conversão mais ampla da camada social pobre, a fim de solucionar os problemas do cotidiano, dar prosperidade, segurança e paz interior.

Portanto, seu crescimento, na sociedade brasileira, além de abranger a variedade de classes sociais do país, evidencia uma mudança social. Ou seja, no início do movimento houve uma predominância de um tipo de agrupamento social, hoje, porém, se percebe novos participantes que são oriundos de outras camadas sociais, conforme destaca o quadro abaixo:

COMPARAÇÃO DOS INTEGRANTES DA RENOVAÇÃO CARISMÁTICA CATÓLICA DÉCADAS DE 60 ,70 e 90:

Predominância do gênero feminino;
Maior equilíbrio entre os gêneros masculino e feminino;
Predominância adulta, sobretudo idosos;
Participação considerável de jovens e crianças;
Predominância de nível superior;
Participação de pessoas de nível fundamental e médio;
Predominância de pessoas provenientes da classes média e alta;
Participação de pessoas de outras classes sociais. (média baixa e das camadas pobres urbanas);

Fonte: Ribeiro de Oliveira (1978); Machado (1994 e 1996); Prandi (1997) e observações de campo feitas em alguns grupos de oração em Belém.


Portanto, com o rumo que vem tomando o fenômeno religioso, a renovação carismática católica destaca-se por ser um fato sócio-cultural e religioso que envolve as diferentes camadas da sociedade. Sociologicamente, uma realidade humana que surgiu, primeiramente, nas universidades e depois se imbricou nas Igrejas católicas, percorrendo um caminho transcontinental, surgindo na América do Norte, expandindo-se pela América Latina, imbricando-se na África e invadindo a Europa.

Quanto à interpretação sociológica, que permite analisar a presença do dogma católico simultaneamente ao recebimento do Espírito Santo, numa reunião da renovação carismática, pode-se dizer que existe, do ponto de vista teológico, uma contradição básica; isto permite pensar em algumas tendências do movimento, conforme essa mesma contradição.


Com já exposto acima, o processo de institucionalização da RCC acabou por sofrer algumas mudanças, vivenciando certas contradições claras. Ou seja, seu espírito conservador acabou por se submeter a determinadas exigências da ala progressista da Igreja Católica, que se, por um lado, coibia certos êxtases da RCC, por outro acabou por fazer concessões para comportar mais um movimento dentro do gazofilácio católico.

Com esse novo carisma e essa nova força espiritual a renovação de um lado possibilitou dar resposta à crise do catolicismo quanto aos movimentos pentecostais, mas por outro é perigosa quando se envolve facilmente com movimentos e teologias exterioras à realidade da Igreja católica, o que pode ocasionar um movimento independente da Igreja.

Quanto aos dons do Espírito, eles assumem uma importância fundamental nas decisões da vida dos carismáticos, e se a cada envolvimento se perde a característica católica quanto a decisões tomadas, poderá, conseqüentemente, invalidar os princípios ou dogmas católicos.

Se na sua origem, o movimento não obteve atenção e credibilidade por parte do clero, hoje, após esse primeiro momento, acaba derramando-se por todas as alas da estrutura eclesial, uma situação em que poderá também estar convertendo padres, bispos e cardeais à renovação; seu sentido proselitista acaba por renovar a todos, inclusive a ordem sacerdotal do catolicismo.

Com o contínuo avanço evangelizador da RCC, especialmente nas camadas mais pobres da sociedade, poderá oferecer, em situações sociais, o mesmo remédio que oferecem as Igrejas pentecostais, logo, portanto, mais próximo das práticas pentecostais do que do dogma católico.

O que dizer, então?

Essas seriam algumas mudanças do cotidiano carismático? A atitude de indivíduos estaria na mudança ou a questão tem outras inquietações? E o por quê da mudança de culto, atitude religiosa e ação social?
A RCC não estaria alimentando um novo comportamento no homem? Pelo envolvimento com o sobrenatural o homem estaria adotando um novo sentimento ou crença? Que são essas crenças e o que alimentam?

É esperar para ver. São perguntas que nos levam a questionar não apenas como o Espírito sopra entre os carismáticos, mas também, como a Igreja Católica, em detrimento a sua missão evangelizadora e influenciada por uma sociedade secularizada, vivenciou um processo de desencantamento quando do envolvimento em questões sociais, mas que agora, parece estar em parte encantada.

Com o desenvolvimento e as constantes expectativas que o movimento carismático provoca, o quadro seguinte resume algumas tendências que o fenômeno sócio-cultural religioso pode manifestar.



DO DOGMA CATÓLICO COM PRÁTICAS PENTECOSTAIS ALGUMAS TENDÊNCIAS SOBRE A RENOVAÇÃO CARISMÁTICA CATÓLICA:

Do exposto acima, teoricamente a renovação carismática poderia romper com a Igreja Católica. Na prática não acontece, exceto por alguns membros da RCC que aderem a outros movimentos religiosos ou desencantam-se;
Um dos mitos de origem da RCC é o Pentecostes de Atos dos Apóstolos, que registra a descida do Espírito Santo. Como o Pentecostes se renova, a Igreja Católica estaria se renovando e vivendo um momento de transformação religiosa. A RCC então ficaria “estagnada”, como muitos outros movimentos dentro da Igreja;
A contradição básica da RCC ocasionaria um racha entre os carismáticos. De um lado os obedientes aos dogmas do catolicismo e do outro os atraídos pelo êxtase do Espírito Santo;
O movimento tenderia a independência religiosa e de culto. O homem religioso quer aproximação direta com o sobrenatural;
A Igreja católica estaria encantada, portanto não precisaria mais do movimento enquanto meio para se renovar. Ela seria a renovação em si;
Ocorreria o desencantamento religioso. O medo do inferno e das profecias infundadas de final de século que não aconteceram, o homem volta a uma nova secularização.

O esfriamento é possível quando o prometido nos discursos apocalípticos perde sentido; Apesar de todas essas tendências é preciso deixar claro que a RCC é um movimento dentro da Igreja Católica, portanto, imbricada no catolicismo, é o que demonstra Prandi: “Apesar de todas as inovações que implementou no território católico e da sua convivência com movimentos evangélicos, a RCC não abandonou a presença da reza do terço, do culto a Maria, da unção aos enfermos e da benção do Santíssimo Sacramento. A Renovação é carismática, porém católica” (Prandi,1997. p. 43).

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*Todos os Créditos e direitos reservados exclusivamente a: Marcos Eliezer da Silva Souza (Graduando do Curso de Ciências Sociais/CFCH/UFPA) - REVISTA CIENTÍFICA DA UFPA – EDIÇÃO Nº 01, MARÇO, 2001

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Neste Apostolado promovemos a “EVANGELIZAÇÃO ANÔNIMA", pois neste serviço somos apenas o Jumentinho que leva Jesus e sua verdade aos Povos. Portanto toda honra e Glória é para Ele.Cristo disse-nos:Eu sou o caminho, a verdade e a vida e “ NINGUEM” vem ao Pai senão por mim." ( João, 14, 6).Como Católicos,defendemos a verdade, contra os erros que, de fato, são sempre contra Deus.Cristo não tinha opiniões, tinha verdades, a qual confiou a sua Igreja, ( Coluna e sustentáculo da verdade – Conf. I Tim 3,15) que deve zelar por elas até que Cristo volte.Quem nos acusa de falta de caridade mostra sua total ignorância na Bíblia,e de Deus, pois é amor, e quem ama corrige, e a verdade é um exercício da caridade.Este Deus adocicado,meloso,ingênuo, e sentimentalóide,é invenção dos homens tementes da verdade, não é o Deus revelado por seu filho: Jesus Cristo.Por fim: “Não se opor ao erro é aprová-lo, não defender a verdade é nega-la” - ( Sto. Tomáz de Aquino)

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