O filho do diácono da minha paróquia acabou de dizer que é ateu — e, de repente, olhei para o meu filho de 12 anos e percebi uma coisa assustadora: Ele sabe as orações de cor. Mas não sabe responder a uma única pergunta de "por quê".
Eram 22h32 de uma quarta-feira quando o diácono Miguel contou isso ao nosso grupo de oração. O filho dele, Daniel, de Colégio católico a vida inteira. Coroinha por anos. Sabia o catecismo completo. Fez Primeira Comunhão, Crisma, tudo.
Agora, no segundo ano da faculdade — uma universidade católica, ainda por cima — dizendo ao próprio pai que "a fé é intelectualmente desonesta".
A voz do diácono Miguel falhou quando ele disse: "Ele falou que eu ensinei O QUE crer, mas nunca ensinei POR QUE..."
Dirigi para casa em silêncio e apertando o volante. Quando cheguei, meu filho Mateus estava na mesa da cozinha terminando a tarefa da catequese — preenchendo lacunas sobre os doze apóstolos. Sentei na frente dele.
-"Mateus, por que você acredita que Deus existe?"
Ele levantou os olhos, confuso.
-"Porque... foi assim que a gente aprendeu?"
-"Mas como você sabe que é verdade?"
Ele ficou me olhando...
-"Porque a Igreja diz!?"
Meu estômago afundou!
-"E como sabemos que o que ela ensina é verdade?"
Ele ficou vermelho.
-"Não sei, pai...É o que a gente acredita e pronto."
É o que a gente acredita e pronto?Fé por costume. A armadilha exata que destruiu a fé do Daniel no momento em que um professor o questionou. Fiquei ali olhando para o meu filho — um menino que sabe o Credo de cor — completamente incapaz de defender a própria fé por sessenta segundos.
Na manhã seguinte, tentei de novo.
-"Por que Jesus teve que morrer? Por que Deus não podia simplesmente perdoar a gente?"
Ele respondeu:
-"Porque... a gente precisava que Jesus nos salvasse!?"
"Mas POR QUÊ? O que aconteceria se Deus só dissesse: 'estão perdoados', sem a cruz?"
Silêncio...Ele não fazia ideia! Conhecia a história, mas não entendia a própria fé.
Na sexta, na reunião de pais da catequese, comentei. Outros quatro pais tinham a mesma história. Filhos que iam bem na catequese. Filhos que fizeram Primeira Comunhão. Filhos que não sabiam explicar por que acreditavam em uma só palavra daquilo tudo.
Então percebi uma coisa assustadora: Estamos criando uma geração de crianças que sabem até algumas respostas do catecismo… mas que vão desmoronar na primeira vez que alguém perguntar: "Por quê?"
Passei aquele fim de semana obcecado. 1h47 da manhã de sábado, e eu lendo artigos sobre os jovens e o abandono da fé. O padrão estava em todo lugar. Há 30 anos, 8 em cada 10 brasileiros eram católicos. Hoje, pouco mais da metade.
Jovens chegando à faculdade, encontrando professor ateu — ou o coleguinha protestante dizendo que "católico adora imagem", ou aquele(a) visinho(a) espírita dizendo que Deus cruel é esse que condena seus filhos eternamente ao inferno?...e eles sem ter nenhuma resposta convicente para si e para os outros.
Não porque fossem rebeldes, mas porque simplesmente ensinaram a eles O QUE crer… e nunca POR QUE! Posts Cristão por todo lado. Aí veio o primeiro ano da faculdade. E os posts mudaram. Citações de filosofia. Referências a Richard Dawkins. Depois… nada mais sobre fé...
Dava pra ver o momento exato em que aconteceu: na terceira semana da aula de Introdução à Filosofia. Um post que dizia:
"Descobri que não consigo responder perguntas básicas sobre o que digo acreditar. Talvez eu nunca tenha acreditado de verdade."
No domingo, na Santa Missa, não consegui me concentrar na homilia. Fiquei olhando o Mateus no banco ao lado, desenhando no folheto. Ele parecia tão confiante. Tão seguro...Mas era uma casa construída sobre areia. Basta um professor inteligente, um amigo ateu e questionador,uma pergunta difícil,e pronto,tudo desmoronaria.
Naquela tarde, fiz algo que nunca tinha feito. Pedi para o Mateus explicar a Trindade. Ele sabia que era "Pai, Filho e Espírito Santo".
Mas quando perguntei COMO entender e explicar isso?...Não soube.
Quando perguntei POR QUE importa Jesus ser Deus e não só um bom mestre? Ele chutou.
Quando perguntei "por que a hóstia consagrada é realmente Jesus e não só um símbolo? Ele disse:
-"Porque o padre fala umas palavras!?"
Meu filho de doze anos vai à Missa e à catequese há OITO anos… E não conseguia defender a fé dele nem por um minuto. E aí caiu a a minha ficha. Eu também, não conseguia ser simples e convincente. Não teria respostas e argumentos que aguentassem um professor de filosofia ou um amigo ateu.
Trinta anos sendo católico, e percebi que eu tinha a fé no coração. Eu sei que Deus é real porque caminho com Ele. Mas nunca aprendi a colocar isso em palavras.
A Bíblia diz: "estai sempre prontos a responder a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós" (1 Pedro 3,15). Eu não estava pronto.
E com certeza, não tinha preparado o Mateus. Duas semanas depois, eu estava numa livraria católica, diante de uma estante inteira de apologética comos autores: Scott Hahn, Peter Kreeft, Chesterton, Professor Felipe Aquino... Todos avançados demais para uma criança de doze anos.
Eu precisava de algo que ensinasse o Mateus a PENSAR a fé. Não só a decorar melhor.
Foi quando aconteceu algo que eu não esperava. Ouvi uma conversa atrás de mim. Um pai e o filho adolescente. Uns quatorze anos, talvez:
"Então: se alguém te disser que a Igreja inventou a Bíblia, o que você responderia?"
O menino não hesitou, e respondeu:
"Eu diria que a evidência dos manuscritos mostra que os Evangelhos vêm das testemunhas originais. E explicaria quem reuniu a Bíblia e por que dá pra confiar nesse processo. Isso a gente viu na semana 19."
Eu me virei... "Desculpa… o que vocês estão estudando?"
O pai sorriu, e me mostrou um material chamado:
"O Porquê da Nossa Fé"
-52 semanas de formação católica para crianças.
-Argumentos de verdade. Não só historinhas.
-Como sabemos que Deus existe.
-Por que a Ressurreição prova que Jesus é Deus.
-Por que a Eucaristia é realmente Jesus — e não um símbolo.
-Por que veneramos Maria… e por que isso NÃO é adorá-la.
O filho dele estudava aquilo havia sete meses.
"Mês passado, um colega da escola disse pra ele que a ciência refuta a fé, o pai me contou, rindo. E meu filho passou vinte minutos explicando por que isso é um erro de categorias. Fiquei muito orgulhoso."
O menino deu de ombros,dizendo: "É que eu gosto de saber POR QUE as coisas são assim de verdade...É tipo resolver enigmas."
Comprei o material na hora! Naquele domingo à tarde, sentei com o Mateus e abrimos a lição 1: "Como sabemos que Deus existe?"
Mas não era "porque foi assim que a gente aprendeu". Eram argumentos de verdade!
-O argumento da Primeira Causa explicado em linguagem de sexto ano.
-O argumento moral com exemplos da vida dele. Um enigma lógico em que ele precisava seguir causa e efeito para entender por que precisa existir uma Primeira Causa.
O Mateus se inclinou pra frente. "Espera… então TUDO que começa a existir precisa de uma causa? Até o universo?" Passamos uma hora inteira naquela lição. Ele fez nove perguntas. Perguntas de verdade!
-Não "qual é a resposta", mas, "como isso funciona?"
-E "e se alguém disser tal coisa? sobre isso?"
E aí algo me surpreendeu... Eu também estava aprendendo. Aos 47 anos, finalmente entendi argumentos que ninguém nunca tinha me ensinado. Coisas que teriam fortalecido a minha própria fé décadas atrás. Duas semanas depois, algo mudou.
O Mateus começou a debater comigo no jantar. Não com desrespeito,mas, teologicamente:
-"Pai, acho que não é bem assim. Porque na lição 6 explicava que se Deus existe fora do tempo, então…"
Ele estava PENSANDO de verdade!
Na semana 5, veio frustrado com o seguinte questionamento: "Pai, não consigo resolver o problema do mal. Tipo, eu entendo a resposta do livre-arbítrio, mas e os desastres naturais?"
Ele estava lutando com a pergunta. Não repetindo. Enfrentando de verdade as perguntas difíceis. E aí percebi algo importante: quanto mais o Mateus entendia POR QUE a fé dele é verdadeira… mais profunda ficava a relação dele com Deus!
Isso não estava trocando a fé do coração por conhecimento intelectual. Estava dando ao coração dele algo que a cabeça não pudesse destruir depois.
Na semana 8, estávamos num almoço de família quando meu irmão — que é agnóstico — comentou que a Bíblia foi "escrita por homens e mudada ao longo do tempo".
Antes que eu respondesse, o Mateus entrou na conversa. "Tio Roberto, você conhece a evidência dos manuscritos? A gente tem mais cópias do Novo Testamento do que de qualquer outro documento antigo. E muito mais próximas dos fatos originais. Se você não pode confiar na Bíblia, também não pode confiar em nada do que a gente sabe sobre Júlio César."
Meu irmão ficou sem palavras. Eu também. Naquele momento eu soube. Aquilo não era decoreba. Era entendimento genuíno protegendo uma fé genuína.
Três meses depois, estamos na lição 31 de 52. O Mateus explica a Trindade com os termos certos. Sabe por que Jesus precisava ser totalmente Deus e totalmente homem. Apresenta quatro razões pelas quais a Ressurreição é historicamente confiável. Sabe explicar por que a Eucaristia não é um símbolo.
Mas o mais importante… Agora a Missa é diferente pra ele. Ele não acha mais chata — entende o que está acontecendo no altar. E reza diferente.
Fala com Deus como alguém que sabe que Ele está ali de verdade. Porque agora ele sabe POR QUE Ele está ali...
por*Francisco José Barros de Araújo
Uma das maiores preocupações da Igreja em nossos dias não é simplesmente o número de jovens que deixam de frequentar a Missa, mas o fato de muitos abandonarem completamente a fé ao entrarem na universidade ou ao se depararem com os primeiros questionamentos intelectuais.
Não são poucos os pais que viveram uma situação dolorosa: filhos batizados, catequizados, crismados, que participaram da vida paroquial durante anos, mas que, diante das primeiras objeções à fé, concluem que o cristianismo seria apenas uma tradição familiar sem fundamentos racionais.
Essa realidade nos obriga a fazer um sério exame de consciência
-Será que estamos formando discípulos missionários ou apenas pessoas que decoraram fórmulas religiosas?
-Estamos transmitindo apenas conteúdos ou conduzindo nossos filhos a um verdadeiro encontro com Cristo, capaz de iluminar também a inteligência?
A Igreja sempre ensinou que a fé é um dom de Deus, mas jamais uma fé cega ou irracional. Como recorda São Pedro:
"Estai sempre prontos a dar a razão da esperança que há em vós" (1Pd 3,15).
Dar razão da esperança significa conhecer, compreender e saber explicar aquilo em que acreditamos.
1. O perigo de uma fé baseada apenas no costume
Muitos jovens sabem rezar o Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Credo.
Sabem responder às perguntas da catequese.
Conhecem episódios bíblicos.
Mas, quando alguém pergunta:
"Como você sabe que Deus existe?"
"Por que acredita na Ressurreição?"
"Por que a Igreja Católica é a verdadeira Igreja fundada por Cristo?"
"Por que venerar Maria não é idolatria?"
o silêncio aparece...Não porque lhes falte inteligência,mas porque ninguém lhes ensinou os fundamentos da fé. A fé reduzida ao costume dificilmente resiste quando encontra objeções intelectuais.
2. A catequese não pode limitar-se à preparação para os sacramentos
Infelizmente, durante muito tempo criou-se a mentalidade de que a catequese termina na Primeira Comunhão ou na Crisma.
Entretanto, o Catecismo da Igreja Católica ensina que a formação cristã é permanente.
O processo catecumenal da Igreja primitiva não consistia apenas em transmitir informações, mas em conduzir progressivamente à conversão, à compreensão da Revelação e à participação plena na vida sacramental.
O verdadeiro catequista forma discípulos, não apenas candidatos aos sacramentos.
3. Fé e razão caminham juntas
São João Paulo II ensinou que:
"A fé e a razão são como duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade."
Jamais a Igreja teve medo das perguntas, pelo contrário.Foi ela quem fundou universidades, preservou a filosofia clássica e incentivou o diálogo entre fé e razão.Grandes mestres como Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino, São Boaventura, G. K. Chesterton, C. S. Lewis (embora anglicano) e tantos apologistas contemporâneos mostram que a fé cristã possui profunda coerência racional.
Crer não significa abandonar a inteligência, significa permitir que a razão seja iluminada pela Revelação.
4. A família é a primeira escola da fé
Nenhuma catequese semanal substitui a missão dos pais.O Concílio Vaticano II recorda que a família é a "Igreja doméstica".
É dentro de casa que as crianças aprendem a rezar, a fazer perguntas, a buscar respostas e a perceber que a fé não é um conjunto de proibições, mas um relacionamento vivo com Deus.
Pais que nunca conversam sobre a fé acabam transmitindo, ainda que sem querer, a impressão de que religião é apenas um compromisso de domingo.
5. O catecumenato permanente: formar discípulos adultos
A iniciação cristã não termina na Crisma!Ela apenas começa!
Por isso, nossas paróquias precisam investir continuamente em:
-formação bíblica;
-estudo do Catecismo;
-apologética católica;
-filosofia cristã;
-história da Igreja;
-espiritualidade;
-participação consciente na liturgia.
O objetivo não é criar polemistas, mas cristãos maduros, capazes de responder com caridade, firmeza e inteligência aos desafios do mundo contemporâneo.
6. Cabeça e coração caminham juntos
Existe um erro em dois extremos:
-O primeiro é imaginar que basta emoção.
-O segundo é pensar que basta conhecimento.
A fé católica une inteligência, vontade e amor. Conhecer mais a verdade conduz a amar mais a Cristo.
-Quanto mais compreendemos a Eucaristia, mais profundamente participamos da Missa.
-Quanto mais entendemos quem é Jesus, mais intensa se torna nossa oração.
-Quanto mais conhecemos a história da Igreja, mais percebemos a ação constante do Espírito Santo ao longo dos séculos.
O conhecimento não substitui a experiência de Deus; ele a fortalece.
Conclusão
Vivemos um tempo em que nossos jovens serão inevitavelmente confrontados por perguntas difíceis na escola, na universidade, nas redes sociais e no ambiente de trabalho.A questão não é se essas perguntas aparecerão, mas se estarão preparados para respondê-las.
Uma fé baseada apenas na repetição de fórmulas corre o risco de vacilar diante da primeira objeção bem elaborada.
Já uma fé alimentada pela oração, pelos sacramentos, pela vida comunitária e por uma sólida formação doutrinal cria raízes profundas, como a casa construída sobre a rocha (Mt 7,24-27).
O caminho autenticamente católico é o do catecumenato permanente: formar discípulos que conheçam a Palavra de Deus, amem a Igreja, vivam os sacramentos e sejam capazes de dar, com mansidão e respeito, "a razão da esperança" que carregam no coração (1Pd 3,15).
Como recordava São João Paulo II, a fé e a razão jamais são inimigas. Unidas pela graça, elas conduzem o homem ao encontro da Verdade, que tem um nome: Jesus Cristo.
*Francisco José Barros de Araújo – Bacharel em
Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636 do Processo
Nº 003/17
Um
convite especial aos pais e a todos os que desejam amadurecer na fé
Foi
justamente pensando nessa necessidade que nasceu a Jornada do Conhecimento e
Maturidade da Fé (JCMF).
Convido
especialmente os pais, avós, catequistas, educadores e todos os fiéis que
desejam transmitir uma fé viva às novas gerações.
"Estai
sempre prontos a dar a razão da esperança que há em vós" (1Pd 3,15).
*“Este
apostolado não possui fins lucrativos. As contribuições são destinadas à
evangelização, produção de conteúdo e manutenção do projeto.”
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