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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Do batismo de fé da consciência adulta ao de eleição da graça com crianças na Igreja Católica





Batismo: Fé, ou eleição gratuita e imerecida da Graça?


por*Francisco José Barros de Araújo 



O Batismo constitui o fundamento de toda a vida cristã, a porta de entrada na economia sacramental e o primeiro dom da graça redentora aplicado pessoalmente à alma. Por ele, segundo a fé constante da Igreja, somos libertos do pecado original, regenerados no Espírito Santo e incorporados a Cristo como membros vivos do seu Corpo Místico


Não se trata apenas de um sinal externo de pertença religiosa, mas de uma transformação ontológica real: o homem é configurado a Cristo, recebe a vida divina e passa da ordem da natureza para a ordem da graça.  À luz dessa profundidade, compreende-se que a Igreja, desde os tempos apostólicos, nunca concebeu o Batismo como privilégio reservado apenas à maturidade racional. Ao contrário, sempre reconheceu que, se a salvação é dom gratuito de Deus, não deve ser retardada àqueles que dela mais necessitam — inclusive as crianças (conforme Romanos 3,23-24), também marcadas pelo pecado original e chamadas à filiação divina.  



A Sagrada Escritura testemunha essa consciência eclesial nascente ao relatar os chamados “batismos domésticos”, nos quais casas inteiras eram introduzidas na fé: a família de Lídia, o carcereiro de Filipos, a casa de Estéfanas. Tal prática revela que o Batismo era compreendido em chave comunitária, pactual e familiar, não meramente individualista.  


A reflexão teológica posterior, desenvolvida por Padres e Doutores da Igreja como Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, aprofundou essa compreensão ao articular a relação entre graça preveniente, fé e eleição divina. Nessa perspectiva, o Batismo de adultos manifesta a resposta consciente ao chamado de Deus, enquanto o Batismo infantil resplandece como sinal privilegiado da primazia absoluta da graça.  


Assim, longe de ser questão meramente disciplinar, a administração do Batismo a adultos e crianças toca o próprio coração da soteriologia cristã: a salvação como dom gratuito, oferecido por iniciativa divina e acolhido na fé da Igreja.




1. Fundamento bíblico do Batismo familiar


Diversas passagens do Novo Testamento revelam que o Batismo era conferido no âmbito doméstico:


-A família de Lídia (At 16,15)


-O carcereiro de Filipos “com todos os seus” (At 16,33)


-A casa de Estéfanas (1Cor 1,16)


-A promessa de Pedro: “para vós e para vossos filhos” (At 2,38-39)


Esses textos mostram que o ingresso na vida cristã se dava em chave comunitária e familiar. A lógica bíblica da “casa” (oikos) naturalmente incluía crianças, revelando que a graça não era postergada até a idade da razão.



2. Batismo de adultos: fé explícita e eleição


No Batismo de adultos, a fé professada é condição imediata para o sacramento. Contudo, mesmo aqui permanece a primazia da graça:


“Ninguém vem a mim se o Pai não o atrair.”


A fé pessoal é resposta a uma eleição prévia. Como ensina Santo Agostinho, ninguém crê sem antes ser movido pela graça preveniente. O Batismo do adulto manifesta, portanto, a cooperação entre liberdade humana e iniciativa divina.


3. Batismo infantil: sinal máximo da eleição gratuita


Se no adulto a eleição está implícita, na criança ela aparece de modo ainda mais claro:


-A criança não possui méritos próprios.


-Não formula um ato racional de fé.


-É apresentada pela fé da Igreja e dos pais.


Isso evidencia que a salvação é dom puro. Como disse Cristo:


“Não fostes vós que me escolhestes, mas fui Eu que vos escolhi” (Jo 15,16).


A Crisma confirmará posteriormente essa graça, quando a fé recebida será pessoalmente assumida.



O Céu é Graça, o Inferno é Mérito (Uma síntese católica sobre fé, graça e obras na salvação)


A salvação nasce da misericórdia soberana de Deus


Antes de qualquer resposta humana, a Escritura afirma que a salvação depende primariamente da iniciativa misericordiosa de Deus, e não do esforço natural do homem.


Romanos 9,15-16: Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece."



Perspectiva católica: presunção x desespero


Pecados contra a esperança - O Catecismo da Igreja Católica trata disso nos §§ 2091–2092.



"Pecado de Desespero" - (Achar que não há salvação para si)



CIC §2091: “Pelo desespero, o homem deixa de esperar de Deus a sua salvação pessoal, o auxílio para alcançá-la ou o perdão dos seus pecados...O desespero é contrário à bondade de Deus, à sua justiça e à sua misericórdia.”



Explicação teológica - O desespero ocorre quando a pessoa:



-Julga seus pecados imperdoáveis.


-Acha que Deus não quer ou não pode salvá-la.


-Perde a confiança na misericórdia divina.



É pecado porque:



-Nega a infinita misericórdia de Deus.


-Recusa a redenção de Cristo.


-Fecha a alma à graça do arrependimento.


-Exemplo bíblico clássico: Judas (cf. Mt 27).



"Pecado de Presunção" - (Achar que já está salvo ou que se salvará sem conversão)



CIC §2092: “Há duas espécies de presunção: ou o homem presume das suas capacidades… ou presume da onipotência ou da misericórdia divinas...Espera obter o perdão sem conversão e a glória sem mérito.”



Explicação teológica



O pecado da presunção, na teologia moral católica, manifesta-se de modo particularmente grave quando a pessoa leva deliberadamente uma vida desregrada, consciente e habitual, contrária à vontade de Deus, desprezando os mandamentos, os sacramentos e a conversão interior, e ainda assim alimenta a falsa segurança de que, ao final, alcançará a mesma recompensa eterna dos justos. 



Trata-se da ilusão espiritual de quem pretende colher a glória sem ter combatido o bom combate, receber a coroa sem ter perseverado na graça. É viver como se o juízo divino não existisse ou como se a misericórdia anulasse automaticamente a justiça. Nesse estado, o indivíduo morre sem arrependimento sincero, sem contrição, sem propósito de emenda, mas esperando o Céu como se fosse um direito adquirido, como se para Deus fosse indiferente ter vivido na santidade heroica ou na iniquidade obstinada — como se não houvesse diferença moral entre um tirano responsável por horrores históricos, como Adolf Hitler, e uma alma consumida pela caridade e pelo serviço aos mais pobres, como Madre Teresa de Calcutá. 



A presunção, portanto, é uma falsa esperança: não confia verdadeiramente na misericórdia que perdoa o pecador arrependido, mas abusa dessa misericórdia para justificar a permanência no pecado. Por isso, é pecado grave contra a virtude teologal da esperança, pois espera a salvação sem conversão, a glória sem cruz, o prêmio sem fidelidade — esquecendo que Deus é infinitamente misericordioso, mas também infinitamente justo, e que: 


“Deus retribuirá a cada um segundo as suas obras” (Rm 2,6).



A presunção aparece quando alguém:


-Acha que já está salvo automaticamente.


-Crê que a fé sem conversão basta.


-Confia que Deus perdoará mesmo sem arrependimento.


-Vive no pecado contando com perdão futuro.


Formas clássicas da Presunção


-Presunção pelagiana: Confia nas próprias forças para salvar-se.


-Presunção falsa da misericórdia: “Deus é bom, então salvará a todos, mesmo sem mudança de vida" (salvação meramente jurídica como pregava Lutero sem necessidade da busca pela santidade de vida).



A espiritualidade tradicional ensina a tensão saudável:


-Evitar o desespero: confiar na misericórdia.


-Evitar a presunção: temer a justiça divina.


Filipenses 2,12: “Trabalhai na vossa salvação com temor e tremor.”


-A eleição à graça é dom gratuito.


-O homem não “produz” a salvação por esforço próprio.


-Tudo começa na misericórdia divina.



Isso não nega a cooperação humana, mas estabelece a ordem correta:



-Primeiro Deus age pela graça.

-Depois o homem responde livremente.



A salvação é dom gratuito da graça


A doutrina católica ensina que a salvação tem sua origem exclusivamente na graça de Deus. O homem, ferido pelo pecado original, é incapaz de salvar-se sozinho.


Efésios 2,8-9: “Pela graça sois salvos, mediante a fé; e isso não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie.”



Ensinos centrais:



-A salvação é iniciativa divina.


-Não é mera recompensa  humana, mas dom.


-Nenhum mérito natural obriga Deus.


Portanto, o Céu é graça!



A fé é necessária, mas não suficiente isoladamente para a Salvação


A fé é o princípio da salvação, porém não basta quando separada da caridade e das obras.



Tiago 2,19: “Tu crês que há um só Deus? Fazes bem. Também os demônios creem — e tremem.”



Duas Lições:



-Crer intelectualmente, por si só, não salva, porque a fé cristã não se reduz a uma adesão meramente racional a verdades abstratas. A salvação não acontece pelo simples assentimento mental a proposições doutrinárias, como se bastasse reconhecer que Deus existe ou admitir que Cristo é Senhor. A própria Escritura desmonta essa redução intelectualista quando afirma que até os demônios creem — e tremem (Tg 2,19). Ou seja, possuem um conhecimento verdadeiro sobre Deus, mas sem amor, sem obediência e sem conversão. A fé que salva é mais do que saber: é confiar, aderir, submeter a vida inteira a Deus.  Por isso, a fé cristã não é gnóstica, isto é, não está reservada a uma elite de “iluminados” que alcançariam a salvação por um conhecimento secreto ou superior. Desde o início, a Igreja combateu essa mentalidade, pois o Evangelho é universal, público e acessível: destinado ao sábio e ao simples, ao doutor e ao analfabeto, ao poderoso e ao pobre. A salvação não depende de uma capacidade intelectual elevada, mas da abertura do coração à graça. Uma pessoa de pouca instrução pode ter fé viva e salvífica, enquanto um grande teólogo pode perder-se se lhe faltar caridade.  A fé autêntica, portanto, envolve três dimensões inseparáveis: crer com a inteligência, confiar com a vontade e amar com as obras. Não é mera informação sobre Deus, mas transformação em Deus. Não é privilégio de iniciados, mas dom oferecido a todos os povos. Como ensina a tradição católica, não somos salvos por saber muito sobre Cristo, mas por estar unidos a Ele pela graça — uma união que se manifesta numa fé viva, operante pela caridade e perseverante até o fim.


-Até os demônios reconhecem Deus, porém, falta-lhes amor e obediência. O “só crer” é insuficiente.



A fé Cristã autênctica precisa gerar obras: fé sem obras é morta



-Tiago 2,17: “A fé, se não tiver obras, é morta em si mesma.”


-Tiago 2,26: “Como o corpo sem alma é morto, assim também a fé sem obras é morta.”



Pontos doutrinais:


-Obras não substituem a graça, mas manifestam a graça recebida.


-São cooperação com Deus.




Mérito cristão: fruto da graça acolhida



O mérito católico não é autonomia humana, mas resposta à graça.


Filipenses 2,12-13: “Trabalhai na vossa salvação… pois é Deus quem opera em vós o querer e o agir.”


Logo:


-Deus move.


-O homem coopera.


-As obras tornam-se meritórias porque procedem da graça.



O critério do Juízo Final: as obras de caridade



Mateus 25,31-46“Tive fome e não me destes de comer… Ide para o fogo eterno  vós que praticais a iniquidade"



Lições que se pode tirar:


-O juízo considera atos concretos (não apenas boa vontade e palavras vazias).


-A caridade é critério salvífico.


-Não basta invocar Cristo verbalmente.



Nem todo carisma salva



Mateus 7,22-23 “Senhor, Senhor, não pregamos nós em vosso nome? … Nunca vos conheci.”


Lições que se pode tirar:


-Milagres não garantem salvação.


-Apostolado sem caridade é vazio.


-Deus julga a alma, não a aparência religiosa.



Síntese: O Céu é graça


-Romanos 6,23: “O dom de Deus é a vida eterna.”


-Um dom gratuito e imerecido.


-Fruto da redenção.


-Recebido na fé viva.


O Inferno é mérito no sentido teológico de consequência da recusa:



-João 3,19: “Os homens amaram mais as trevas do que a luz.”


-Rejeição da graça.


-Omissão do bem.


-Obstinação no pecado.



A ordem católica da salvação permanece:



-Deus usa de misericórdia (Rm 9,16).


-Concede a graça.


-A fé acolhe.


-As obras confirmam.


-O juízo revela a caridade vivida.



Na crítica católica tradicional à doutrina da “salvação irrevogável” — resumida na fórmula popular “uma vez salvo, salvo para sempre” — afirma-se que tal posição conduz, na prática, ao que muitos teólogos chamaram de uma perigosa “segurança carnal”, isto é, a ideia de que, após a justificação pela fé, o cristão não correria mais o risco de perder a graça, mesmo vivendo em pecado grave. 



Essa leitura é frequentemente associada à pregação de Martinho Lutero, sobretudo em interpretações posteriores de sua teologia, nas quais a justificação seria apenas imputada externamente, sem necessariamente transformar interiormente a alma de modo que suas quedas pudessem romper o estado de salvação. Daí a crítica católica resumida de forma polêmica: uma “santidade do pecado”, isto é, a pretensão de permanecer salvo mesmo vivendo desordenadamente — como se, depois da fé inicial, o comportamento moral não tivesse mais peso salvífico. A perspectiva católica, porém, apoiada na Escritura e na Tradição, ensina o contrário: a graça recebida pode ser perdida pelo pecado mortal, e a perseverança final é também dom que deve ser pedido e guardado.


A própria Bíblia contém advertências explícitas sobre a possibilidade real de queda após ter estado em graça:



Hebreus 6,4-6: “É impossível que aqueles que uma vez foram iluminados… e caíram, sejam outra vez renovados para a conversão.”



O texto fala de quem:



-Foi iluminado pelo Espírito Santo no batismo


-Provou os dons celestes.


-Participou do Espírito Santo, e mesmo assim caiu.


-Ou seja, não se trata de quem nunca foi salvo, mas de quem decaiu da graça.



2 Pedro 2,20-21: “Se, depois de terem escapado das corrupções do mundo pelo conhecimento de Cristo, deixam-se novamente enredar… tornou-se pior para eles o último estado do que o primeiro.”




Aqui vemos:



-Pessoas que realmente escaparam do pecado.


-Depois retornaram a ele.


-Sua condição final tornou-se pior.


-Isso seria impossível se a salvação não pudesse ser perdida.


Gálatas 5,4: “Vós vos separastes de Cristo… decaístes da graça.”


São Paulo fala a batizados, advertindo que é possível:


-Separar-se de Cristo.


-Cair da graça já recebida.


1 Coríntios 9,27: “Castigo o meu corpo… para não acontecer que, depois de ter pregado aos outros, eu mesmo venha a ser reprovado.”


O próprio apóstolo admite a possibilidade de reprovação pessoal caso não persevere.


Ezequiel 18,24: “Se o justo se afasta da justiça… nenhuma de suas boas obras será lembrada.”



Princípio moral permanente:



-A justiça passada não garante o fim.


-A perseverança é necessária.


Síntese doutrinal católica - Ensina que:


-A justificação é real, não apenas declarativa.


-A graça santificante transforma a alma.


-O pecado mortal destrói essa graça.


-A salvação pode ser perdida e recuperada pelo arrependimento e sacramentos.



Por isso, rejeita-se tanto:




-O desespero (achar que não pode salvar-se), quanto


-A presunção (achar que não pode perder-se).



A Escritura não sustenta a ideia de uma segurança automática e irreversível da salvação independentemente da vida moral. Pelo contrário, está repleta de exortações à vigilância, à perseverança e ao temor de Deus. O cristão é verdadeiramente salvo pela graça mediante a fé, mas deve permanecer nessa graça até o fim, cooperando com obras de caridade e evitando o pecado grave. Como adverte o próprio Cristo:



Mateus 24,13: “Aquele que perseverar até o fim será salvo.”


Assim se conclue



-O Céu é graça — dom imerecido.


-O Inferno é mérito — fruto da recusa livre da graça.



4. Testemunho da Tradição patrística



Os Padres da Igreja confirmam a antiguidade do Batismo infantil:


-Santo Irineu de Lião fala da regeneração de crianças.


-Orígenes afirma que a Igreja recebeu dos Apóstolos essa prática.


-São Cipriano de Cartago defende batizar sem demora.


-São João Crisóstomo ensina que a graça não deve ser negada aos pequenos.


-São Basílio Magno e São Gregório Nazianzeno recomendam o Batismo desde cedo.


A unanimidade moral dos primeiros séculos demonstra continuidade apostólica.



5. Desenvolvimento teológico medieval



Na escolástica, a doutrina foi sistematizada:


-São Tomás de Aquino ensina que "a fé da Igreja supre a da criança".


– O sacramento age ex opere operato, isto é, pela eficácia da graça de Cristo que nele opera, e não em razão da maturidade psicológica ou da compreensão subjetiva de quem o recebe. Por exemplo: não é a minha fé pessoal que faz com que, pelas mãos de um sacerdote legitimamente ordenado, se realize a transubstanciação eucarística; ela se dá objetivamente pela ação de Cristo na Igreja, creia eu ou não. Do mesmo modo sucede com o sacramento do Batismo: sua eficácia procede da graça divina que atua no rito, e não do grau de consciência ou adesão intelectual do batizando. Quer eu creia ou não na eficácia da graça sacramental do Batismo, de modo indelével é apagada a mancha do pecado original e se realiza a filiação divina, pela qual nos tornamos verdadeiramente filhos e filhas de Deus, incorporados a Cristo e à sua Igreja.



6. Consenso na Reforma Protestante original


Mesmo os primeiros reformadores mantiveram o Batismo infantil:


-Martinho Lutero defendia que negar o Batismo às crianças era negar-lhes a graça.


-João Calvino via nele sinal da Aliança, paralelo à circuncisão.


Assim, a rejeição do Batismo infantil surge apenas em grupos posteriores, fora do consenso histórico original da cristandade.


7. Dimensão eclesial e sacramental


A teologia contemporânea reforça essa visão:


-Karl Rahner destaca o caráter de inserção no mistério da graça.


-Joseph Ratzinger vê o Batismo como novo nascimento ontológico.


-Yves Congar sublinha a dimensão comunitária.


-Henri de Lubac relaciona o sacramento ao Corpo Místico.



Conclusão



À medida que se aprofunda a teologia do Batismo, torna-se evidente que sua administração a adultos e crianças não representa práticas concorrentes, mas dimensões complementares do mesmo mistério salvífico. No adulto, o sacramento evidencia a adesão pessoal da fé, fruto da graça que atrai e ilumina a liberdade humana. 




Na criança, manifesta de forma ainda mais límpida que a salvação não nasce do esforço, da consciência ou do mérito, mas da eleição amorosa de Deus que precede toda resposta.  Essa verdade percorre ininterruptamente a história da Igreja. Dos testemunhos patrísticos à síntese escolástica, do magistério conciliar à teologia contemporânea, permanece firme a convicção de que negar o Batismo às crianças significaria obscurecer a gratuidade da redenção e restringir indevidamente o alcance da graça. 



Não por acaso, mesmo no contexto da Reforma, figuras como Martinho Lutero e João Calvino conservaram essa prática, reconhecendo seu sólido enraizamento bíblico e tradicional.  



O Batismo infantil proclama, portanto, uma verdade central do Evangelho: Deus ama primeiro, chama primeiro e salva primeiro. A criança batizada torna-se sinal vivo de que a vida cristã começa não na decisão humana, mas no dom divino que antecede toda consciência.  Por isso, a Igreja permanece fiel ao mandato do Senhor — “Deixai vir a mim as crianças e não as impeçais” — compreendendo que abrir-lhes desde o início as fontes da graça é permitir que cresçam já inseridas na vida trinitária, destinadas à plenitude da fé que um dia professarão pessoalmente.  



Em última análise, batizar crianças não é antecipar indevidamente a fé, mas garantir que a fé possa florescer já enraizada na graça. É reconhecer que a filiação divina não é prêmio dos que compreendem, mas herança oferecida gratuitamente aos que são chamados — desde o início da vida — a participar do mistério eterno de Deus.



Amado(a) irmão(ã) em Jesus Cristo, antes de mais nada, não se sinta ofendido(a)! 



Nosso objetivo aqui não é atacar pessoas, mas esclarecer enganos e inverdades que, infelizmente, ainda circulam no meio protestante — muitas vezes repetidos sem estudo ou verificação. Somos constantemente caluniados em cultos, acusados de “adorar imagens”, “inventar doutrinas” e “seguir tradições humanas”, quando, na verdade, tudo o que ensinamos tem base bíblica, histórica e teológica sólida.  



Agora, convenhamos: querer que nós, católicos, adaptemos nossa fé bimilenar às novas doutrinas de alguns grupos recentes é o mesmo que querer atender às reinvindicações mais absurdas de certos movimentos ideológicos — como aquele grupo que, depois de conquistar o direito à união civil, agora quer abolir o Dia dos Pais e das Mães porque o simples fato de existir essas datas “os incomoda”. Ora, a verdade não muda porque alguém se sente desconfortável com ela! A fé católica não é uma loja de conveniência espiritual onde cada um escolhe o que quer crer conforme o humor do dia.  A Igreja Católica não precisa se reinventar para agradar sensibilidades modernas ou modismos teológicos — afinal, não fomos nós que nos separamos dela; foram os outros que decidiram criar suas próprias versões da verdade. A autêntica doutrina cristã não é resultado de votação nem de “releitura cultural”, mas é revelação divina transmitida fielmente desde os apóstolos.  Nosso compromisso é com a verdade que liberta, não com a opinião que agrada. 



Por isso, convidamos você a conhecer a Igreja Católica por dentro, e não pelas caricaturas que pintam dela. Leia, estude, investigue as fontes originais, veja o que os Padres da Igreja realmente ensinaram. Só assim você perceberá que nossa luta não é contra pessoas, mas contra os erros que deturpam a fé e confundem as almas.  Como ensinava Santo Cipriano de Cartago:  “Estar em comunhão com o Papa é estar em comunhão com a Igreja Católica.” (Epist. 55, n.1, Hartel, 614).  



E como sabiamente observou Dom Fulton J. Sheen:  “Há realmente poucas pessoas que odeiem a Igreja Católica, mas há milhões que odeiam o que erroneamente pensam ser a Igreja Católica.”



*Francisco José Barros de Araújo – Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica do RN, conforme diploma Nº 31.636 do Processo Nº  003/17 




Bibliografia 



-AGOSTINHO, Santo. Confissões. Petrópolis: Vozes, 2019.


-AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2005.


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-CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.


-CIPRIANO DE CARTAGO, São. Cartas. São Paulo: Paulus, 2000.


-CONGAR, Yves. A Igreja: de Santo Agostinho aos nossos dias. São Paulo: Herder, 1995.


-CRISÓSTOMO, João. Homilias sobre o Evangelho de Mateus. São Paulo: Paulus, 2004.


-DE LUBAC, Henri. Catolicismo: aspectos sociais do dogma. São Paulo: É Realizações, 2014.


-GREGÓRIO NAZIANZENO, São. Discursos Teológicos. São Paulo: Paulus, 2001.


-IRINEU DE LIÃO, Santo. Contra as Heresias. São Paulo: Paulus, 1995.


-LUTERO, Martinho. Catecismo Maior. Porto Alegre: Concórdia, 2000.


-ORÍGENES. Homilias sobre o Levítico. São Paulo: Paulus, 2006.


-RAHNER, Karl. Sacramentos da Igreja. São Paulo: Paulus, 1997.


-RATZINGER, Joseph. Introdução ao Cristianismo. São Paulo: Loyola, 2015.


-Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000.




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